Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Lula compara reeleição a uma aprovação escolar

Lula compara reeleição a uma aprovação escolar

Lula fez aniversário de 61 anos na última sexta-feira. Ao cumprimentá-lo, um de seus ministros perguntou qual o presente que o chefe gostaria de ganhar. E o presidente: “Quero um caderno novo”.

O ministro se desconsertou: “Como?” Com um sorriso nos lábios, Lula insinuou que encara o novo mandato como um reinício de ano letivo. Por isso pediu o “caderno novo”. Ele brincou: “Fui aprovado com louvor. Passei de ano. Preciso me esmerar.”

 

É curioso que um presidente que freqüentou os bancos escolares só até a quarta série do primário tenha recorrido a uma metáfora estudantil para qualificar o seu segundo ciclo na carteira de presidente da República. Curioso e alvissareiro.

 

Lula costuma vangloriar-se da própria falta de escolaridade. A pretexto de realçar a origem humilde, já cometeu batatadas –“minha mãe nasceu analfabeta”—que desmerecem a sua inteligência invulgar. Assim, é auspicioso que tenha recorrido à analogia do “caderno novo”.

 

Só quem já foi ou é estudante sabe quão prazeroso é o contato com o primeiro caderno. Cheiro de coisa nova. Primeiro dia aula. Reinício. Levanta-se a capa. Avista-se a primeira página. Vazia, limpa, intocada. A primeira linha aguardando, ansiosa, pela primeira frase.

 

O aluno conversa com os botões do seu uniforme: “Passei de ano. Preciso me esmerar.” A promessa é especialmente relevante para um “aprendiz” como Lula. Seu boletim ainda não foi expedido. Mas a confiar nos resultados de onze em cada dez pesquisas de opinião ele será mesmo aprovado com folgas neste domingo.

 

Porém, se resolver folhear as páginas do caderno velho, Lula talvez conclua que a impressionante montanha de votos que está na bica de receber neste domingo representa um julgamento condescendente. O professor, digo, o eleitor passou batido por algumas páginas sombrias.

 

São folhas que, se pudesse retroceder no tempo, o próprio Lula gostaria de arrancar. Contêm uma caligrafia desordenada, borrões constrangedores. Há inúmeros desenhos rabiscados fora da margem. São retratos calados de amigos indignos... Definitivamente, são páginas incompatíveis com o histórico exemplar de que Lula se julga portador.

 

O presidente pretende inaugurar o caderno novo antes mesmo do reinício do ano letivo. Anuncia a intenção de se debruçar sobre a primeira página já nos dias seguintes à eleição. O juramento solene de esmero será, então, submetido ao teste da primeira linha. 

 

Nela serão esboçados os contornos do governo de “coalizão” que Lula almeja constituir. O presidente deitará sobre a página inaugural a sopa de letras das legendas que irão ao ministério. Reservará, segundo diz, um lugar de destaque para o PMDB. Decerto anotará os nomes dos interlocutores aos quais terá de recorrer para se entender com o partido.

 

Lula vai escrever: José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho... Antes de chegar à segunda página, o presidente já terá percebido que o sonho do caderno impecável não é coisa fácil de realizar. Torça-se para que, ao final do segundo mandato, haja pelo menos um número menor de páginas a esconder.  

Escrito por Josias de Souza às 20h41

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Veneno pós-eleitoral

Veneno pós-eleitoral

É natural que candidatos e partidos em campanha tentem pintar os adversários com as piores cores. É normal também que se empenhem em embaraçar os movimentos do inimigo. Porém, há na atual cruzada eleitoral algo que foge aos padrões. Arma-se um clima de fim do mundo para depois da disputa presidencial.

Envenenou-se demais a atmosfera. Um lado, o de Alckmin, afirma que um novo governo petista acabaria antes mesmo de começar. O outro lado, o de Lula, confunde o noticiário legítimo sobre corrupção e perversões com uma aliança imaginária da mídia com setores da “direita”, para prejudicar o “pai dos pobres”.

PT e PSDB, as duas legendas que enxergam no horizonte a perspectiva de poder, precisam levar a mão à consciência. O discurso aguerrido, próprio de toda campanha, está a um passo de ultrapassar a fronteira que leva à retórica insana. O país não merece que os dois frutos mais viçosos que sua democracia foi capaz de cultivar entreguem-se agora a um flerte irresponsável com a ruptura institucional.

Aliados no combate à ditadura, petistas e tucanos não têm –ou não deveriam ter— o perfil de uma gente que o marechal Castello Branco, há mais de 40 anos, chamava de "vivandeiras alvoroçadas”. Gente que ia "aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar".

Mas as últimas semanas demonstram que o Brasil, embora já não tenha mais militares dispostos a extravagâncias, ainda não se livrou dos acessos de histeria política. Foram-se as aventuras fardadas, mas remanesce a idéia de “derrubar”, de “inviabilizar” governos legitimamente eleitos.

Considere-se, por mais provável, a hipótese de vitória de Lula. Foi escolhido em 2002 por 52 milhões de brasileiros. Prometera uma prosperidade de 10 milhões de empregos e uma moralidade de mosteiro. Noves fora os êxitos de uma administração por avaliar, entregou a estagnação do PIB e a corrupção.

A despeito disso, um número ainda maior de eleitores parece disposto a confiar-lhe um novo mandato. O que fazer? Respeitar a vontade popular. Permitir que Lula governe. Exatamente como aconteceu em 98, quando FHC foi reeleito. O “príncipe” conduzira um governo que também não foi nem imaculado nem próspero. Lula cansou de avisar que o dólar a R$ 1,20 era piada, que resultaria em recessão e desemprego. O eleitor não lhe deu ouvidos.

Agora, Alckmin e seus aliados estão roucos de avisar: a perversão que assola o governo e o PT não é culpa nem de José Dirceu nem de Delúbio Soares nem de Ricardo Berzoini. O culpado é Lula. Tendo se acercado da turma dos 40 e da súcia de aloprados, o presidente não teve pulso para limpar a área no primeiro desastre. Confraternizou com malfeitores, estimulando a reiteração dos malfeitos.

O eleitor está na bica de engolir a tese do “não sabia”. Paciência. É do jogo. O PSDB tem em seus quadros dois dos mais vistosos presidenciáveis de 2010: Serra e Aécio. Se insistir em jogar lenha na fogueira da histeria pós-eleitoral, o tucanato compromete o próprio futuro. Aviva um fogo que amanhã pode queimar os seus. Há denúncias apresentadas e investigações em curso. O STF e o TSE acompanham tudo. Para encrencas assim, não há melhor remédio do que o bom funcionamento das instituições. Deixe-se que as leis funcionem. 

Escrito por Josias de Souza às 19h29

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Dicionário de campanha

Dicionário de campanha

Dicionários são as masmorras das palavras. Mas a língua é solta e a segurança é frágil. As prisioneiras por vezes escapam do cárcere. Uma vez em liberdade, buscam o disfarce de novos significados. De tempos em tempos, são recapturadas. E voltam ao calabouço de cara renovada. Vários nomes, vocábulos e siglas vagueiam pela cena eleitoral de 2006 à procura da máscara mais conveniente. Enquanto as algemas do dicionário não os alcançam, vai abaixo uma tentativa de desmascará-los:

 

- Alckmin: uma calva à procura de idéias;

- Aloprado: indivíduo que busca no birô de ‘inteligência’ de campanha um álibi para a falta de miolos; pilhado em flagrante, atinge a perfeição, tornando-se perfeito idiota;

- Brasil: o insolúvel levado longe demais;

- Corrupção: com um r providencialmente dobrado e um p que, embora mudo, não consegue ocultar o rabo do ç, sempre à mostra, é uma palavra cuja terminação, ão, denuncia o desejo de expansão;

- Cristovam: uma idéia à procura de votos;   

- Democracia: regime tão maravilhosamente perfeito quanto qualquer outra mentira; sistema político cuja mobilidade permite a um operário atingir o auge da desfaçatez burguesa;

- Excluído: fatalidade embutida no modelo; revolta que trocou o inconformismo pelo cartão do Bolsa Família;

- Heloisa: camiseta branca, sem slogam; pessoa capaz de falat dez vezes antes de pensar;

- Lula: Molusco cefalópode, dibranquiado, decápode, loliginídeo, de coloração avermelhada, podendo mudar de cor segundo a conveniência; em situações de perigo, perde o olfato e a visão;

- Povo: fera de muitas cabeças que, quando bem adulada, lambe e balança o rabo; multidão obsoleta que, desavisada de sua própria inutilidade, continua se reproduzindo desordenadamente;

- PMDB: organização partidária com fins lucrativos;

- PFL: legenda que busca um casamento, em regime de comunhão de males, com qualquer outra que reúna condições de chegar ao poder;
- PSDB: um tipo de social-democrata que ambiciona voltar ao poder para complementar a execução do programa do PFL;

- PSOL: espécie de galinha que promete pôr o Sol; esquerda que, não tendo ainda vencido na vida, não pôde virar direita;

- PT: partido que abandonou a ideologia para cair na vida;

- Programa: peça de campanha que anota coisas definitivas sem definir as coisas; 

- Reeleição: estatuto que faculta a um jóquei cego o direito de continuar cavalgando, por mais quatro anos, uma mula sem-cabeça;

- Tucano: ave piciforme, ranfastídea, da qual há quatro espécies brasileiras reunidas no gênero Ramphastos e uma espécie que, organizada sob o gênero político, confere às demais uma péssima reputação.

Escrito por Josias de Souza às 21h58

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Semelhanças que unem PT e PSDB

Semelhanças que unem PT e PSDB

Angeli
 

 

Lula e Alckmin terão neste domingo o primeiro tête-à-tête da eleição presidencial. Tentarão, obviamente, demarcar diferenças. E elas de fato existem. Porém, se o eleitor espremer os olhos, se observar os arredores das duas campanhas, perceberá que o que mais chama a atenção não é a dessemelhança entre os projetos de poder do petismo e do tucanato. O que salta aos olhos são as semelhanças.

 

Em passado recente, o eleitor tinha de fazer meia dúzia de raciocínios transcendentes para entender o universo da política. Tinha de decidir se o pragmatismo do PSDB era melhor do que o puritanismo do PT, se a social-democracia responderia às dúvidas que o socialismo foi incapaz de responder, se a ética da responsabilidade prevaleceria sobre a ética da convicção, se isso, se aquilo...


Hoje, a coisa é bem mais simples. Figuras como Karl Marx e Max Weber tornaram-se descartáveis. Falidas as ideologias, o templo da política consolidou-se como uma congregação de homens de bens. Vigora nas relações entre Executivo e Legislativo a lógica do negócio. Tudo está subordinado a ela, inclusive os escrúpulos.


Desgraçadamente, é no terreno da ética que PT e PSDB mais se aproximam. Para defender-se das perversões que infelicitam a sua gestão, Lula passou a semana colecionando depravações que turvaram a era FHC—da compra de votos da reeleição à entrada em cena Vampiros e Sanguessugas, ainda em 2001. Se for espicaçado no debate deste domingo, o presidente irá esgrimir o argumento de que a corrupção que grassa à sua volta é uma herança do tucanato.

 

A tática de Lula permite a qualquer criança, mesmo as que fedem a cueiro, entender o que outrora parecia obscuro no processo político: PT e PSDB, que representam a fina flor da política nacional, irmanaram-se na abjeção. O ex-PT já não pode sustentar a farsa de que está imune às tentações alheias.

 

Desgraçadamente, o desenrolar da campanha informa ao eleitor que não há no horizonte nenhuma evidência disponível de que as urnas produzirão um surto de probidade. O presidente eleito, seja ele quem for, estará submetido ao mesmo ambiente que propiciou a anarquização da política brasileira.

Num cenário conspurcado pela corrupção, o que se espera de um líder é que fixe padrões morais para os seus liderados. Diante das extravagantes alianças que começam a se formar ao redor de Lula e Alckmin, fica difícil enxergar em ambos capacidade para se firmar como lideranças éticas. A despeito das qualidades e da honestidade de cada um.

A atual campanha deveria representar, antes de tudo, um marco estético. Não é, porém, o que se verifica. Sob o pretexto de que a um candidato não é dado rejeitar apoios, Lula e Alckmin vão se acercando do que há de mais fisiológico e perverso no quadro partidário. Recompõe-se em torno dos dois o velho centrão de sempre. Amorfo, isotrópico, inefável.

Impossível antecipar a essa altura o nome do próximo presidente. Algo, porém, pode ser previsto com segurança: seja quem for, tão logo passe a euforia da vitória, o eleito estará enredado pela fisiologia de sempre. A mesma fisiologia que produziu mensalões, sanguessugas, vampiros, Sudans, Sudenes... Diz-se que não há outro modo de governar senão reunindo essa tropa, remunerada à base de privilégios, verbas e cargos. Até quando?

Escrito por Josias de Souza às 19h16

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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