Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

A crise é você!

A crise é você!

Chegou a sua hora. Não tem mais Lula, Alckmin, Heloisa ou Cristovam. Não tem mais deputado fulano nem senador sicrano. Não tem mais partido “A” nem legenda “B”. Quem comanda o espetáculo agora é você. O eleitor brasileiro tem a péssima mania de olhar com distanciamento típico dos "scholars" o quadro político nacional. Age como se nada fosse com ele. Cômodo. Muito cômodo. Mas desonesto.

Você deveria desperdiçar um naco deste domingo eleitoral para fazer uma introspecção. Pode ser após o despertar, barriga colada à pia do banheiro, enquanto espalha o dentifrício pelas cerdas da escova. Levando a experiência a sério, depois de bochechar e lavar o rosto, no instante em que você erguer os olhos para pentear os cabelos, verá no espelho o reflexo de um culpado.

 

Indo mais fundo no processo de auto-exame, você verá materializar-se diante de seus olhos o óbvio: deputados, senadores, governadores e presidentes da República não surgem por geração espontânea. Eles nascem do voto.

 

E você talvez levante da mesa do café da manhã convencido de que a secessão de crises políticas exige dele uma atitude. Um gesto individual e consciente. A encrenca não admite mais que você se mantenha exilado no conforto de sua omissão política. A crise o intima a retornar à história do seu país, moralizando-a.

 

Você está diante de um desses momentos mágicos. Circunstância única, em que o poder está nas suas mãos. A magia desse instante está na possibilidade de começar tudo de novo, do zero. Não é todo dia que se tem uma nova chance. Lembre-se: para o eleito inconsciente, o eleitor impaciente é um santo remédio.

 

Assim, ao abrir o guarda-roupa, escolha um traje especial, à altura da ocasião. Leve a mão ao fundo do armário. Desencave aquela roupa empoeirada, esquecida no canto. Vista-se de cidadão.

 

Ao ganhar o meio-fio, abra o seu espírito para os fatos que o sitiam: as renúncias de parlamentares, o resultado das CPIs, as absolvições patrocinadas pelo plenário da Câmara, as ações do Ministério Público... Não deixe de rememorar também o passado de políticos e partidos que hoje posam de acusadores.

 

Entrando na cabine eleitoral, trate de pôr um ar solene na face. Não tenha pressa. Você é o dono desse momento. Aproveite-o. Deguste-o. Você tem o poder. Você é o protagonista do espetáculo.

 

Faça uma visita ao seu interior. Encontre-se consigo mesmo. Certifique-se de que não esqueceu a consciência em casa. Converse com ela. Questione-a. Depois, estique o dedo e vote com a alma.

 

Há sempre a alternativa de lavar as mãos e continuar entregando o caso à divina providência. Se preferir esse caminho, tudo bem. Mas não reclame amanhã, quando descobrir que Deus está morto. Sua omissão o matou. Sente-se e reze. Peça perdão. Expie os seus pecados. A crise é você.

*Adaptação de texto do repórter, veiculado em 1 de outubro de 2000.

Escrito por Josias de Souza às 18h22

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As últimas do PT

As últimas do PT

Nada pode ser mais triste para uma pessoa ou organização do que virar tema de anedota. O birô de “inteligência” do comitê reeleitoral de Lula guindou o petismo a essa condição. Vai abaixo um kit chiste. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

 

1. Em Brasília, após um incêndio no comitê de campanha do PT, os bombeiros, verificando os destroços, encontraram um morto: Joaquim Berzoini. Estava na sala da equipe de arapongagem da campanha. Carbonizado, de cabeça para baixo, trazia o dedo indicador apontando para um dos cantos do ambiente. Do seu lado, um extintor de incêndio com a seguinte instrução: “Em caso de fogo, vire para baixo e aponte para a chama”.

 

2. Sabe quantos petistas são necessários para comprar um dossiê? Sete. Por que tantos? Cinco para montar a operação. E dois para guardar o dinheiro num quarto de hotel até a chegada da polícia.

 

3. O companheiro Manuel Gedimar matava o tempo debruçado na janela do quarto. “Companheiro Joaquim Valdebran! Estou a avistaire uma turma com colete da Polícia Federal que se encaminha diretamente para o nosso hotel!” “Não me diga, companheiro Manuel Gedimar! São amigos ou inimigos?” “Olha, companheiro Joaquim Valdebran, acho que são amigos. Vêm todos juntos...”

 

4. Manuel Lorenzetti e Joaquim Bargas estacionam o carro na garagem de um hotel paulista. Em missão sigilosa, tentariam empurrar um dossiê eleitoral para o repórter de uma revista. Ao travar a porta do veículo, Manuel Lorenzetti se deu conta de que esquecera de tirar a chave da ignição. Com um pedaço de arame, através do vão de uma das janelas, e com o auxílio de Joaquim Bargas, inicia a delicada operação. Joaquim Bargas esmera-se nas orientações: “Mais à direita, companheiro... Agora, um pouquinho mais para a frente... Falta pouco... Isso!” Manuel Loenzetti consegue, finalmente, abrir o carro. Joaquim Bargas exulta: “Ainda bem, eu já não agüentava mais de caloire aqui dentro!”

 

5. Depois de encontrar-se com um repórter de outra revista, Hamilton Joaquim Lacerda dirigia-se ao comitê de campanha do PT de São Paulo. O pneu do carro furou na frente de um hospício. Ele desceu e tirou as porcas da roda. Mas elas escorregaram para dentro de um bueiro. Hamilton Joaquim desesperou-se. Tinha reunião marcada com o candidato de seu partido. Um dos internos, que assistia à cena do lado de dentro das grades do manicômio, resolve aconselhar Hamilton Joaquim: “Tire uma porca de cada uma das outras três rodas para segurar a que ficou solta, até chegar a um posto”. Hamilton Joaquim espantou-se: “Fenomenal! Muito boa idéia. Obrigado. Olhe, eu nem sei por que tu estas aí dentro”. E o interno: “Eu estou aqui porque sou doido, não porque sou burro!”

 

6. Expedito Joaquim Veloso chega em casa, num final de tarde, e dá de cara com um mico em seu jardim. Ele fica todo atrapalhado, sem saber o que fazer com o bicho. Pede ajuda a um vizinho, que aconselha: “Olha, Expedito Joaquim, o melhor que você tem a fazer é levá-lo ao Jardim Zoológico. No dia seguinte, o vizinho encontra Expedito Joaquim passeando com o mico. Conduzia-o rua abaixo por uma cordinha amarrada ao pescoço. Surpreende-se: “Ô, Expedito Joaquim, aonde você vai com o bicho? Você não o levou ao Jardim Zoológico ontem?” “Levei, sim. E ele adorou. Hoje já viajei com ele até Cuiabá e agora estou a levá-lo ao Playcenter e, depois, à sede do meu partido”.

 

7. Manuel Lula da Silva preparava-se para saltar de pára-quedas. Recebe instruções: “Estamos a uma boa altitude. Seu equipamento foi todo checado. O sr. saltará por aquela porta. Ao puxar a primeira cordinha, no primeiro turno da descida, o pára-quedas se abrirá. Se isso não acontecer, o que é pouco provável, puxe a segunda cordinha, no segundo turno da queda. Lá embaixo haverá um jipe à sua espera, para levá-lo de volta ao Planalto”. Confiante, Manuel Lula salta. Puxa a primeira cordinha. E nada. Puxa a segunda. Nada. Ele começa a ficar preocupado: “Ai, Jesus! Agora só falta o jipe não estaire lá embaixo!”

Escrito por Josias de Souza às 18h47

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Os zumbis da República

Os zumbis da República

O grande livro ensina, em Eclesiastes (3,1-3), que “tudo tem o seu tempo determinado” debaixo do Sol. “Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar...”. Na vida pública, há pessoas que perdem a noção do seu próprio tempo. É o caso dos ex-presidente da República.

Em qualquer lugar sério do mundo, aos ex-presidentes é reservado, depois do exercício do mandato, uma posição de respeitoso recolhimento. Protegidos por vantagens do Estado –salário, transporte e carregadores de mala—, funcionam como os velhos pajés indígenas. Tornam-se os sábios da tribo. Pessoas às quais, de raro em raro, pode-se recorrer em busca de um ou outro conselho.

 

No Brasil não é assim. Há hoje no país quatro ex-presidentes vivos: José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Os dois primeiros estão metidos na refrega eleitoral. O terceiro só não vai às urnas porque foi preterido pelo próprio partido. E o quarto deu para verter a própria amargura sobre manifestos extemporâneos.

 

Excetuando-se Collor, cujo passado não recomenda como conselheiro, os demais teriam credenciais, mais ou menos viçosas, não importa, para vestir o manto de pajé. Recusam-se, porém, ao recolhimento. Metem-se no jogo raso da política com o vigor de jovens iniciantes. Comprometem as próprias credenciais na mesquinharia das disputas cotidianas.

 

Num país em que a política se confunde com a safadeza, parece despropositado tratar-se de uma questão como o retiro de ex-presidentes. Mas, numa época em que germinam as bases de uma reforma política, talvez seja o caso de arrumar um lugar no ordenamento jurídico para acomodar esses personagens.

 

Tome-se o exemplo dos EUA. Os presidentes que deixam o cargo voltam-se para fundações batizadas com os seus nomes. São erigidas em seus Estados de origem e guardam toda a documentação referente aos respectivos ciclos no poder. Não se imagina, por absurdo, que possam rebaixar-se em disputas para governos locais ou para o Congresso.

 

Há também o exemplo da Itália. Ali, os ex-presidentes ganham, ao deixar o cargo, cadeiras honoríficas no Senado. Têm direito a voto. E, do alto da tribuna, distribuem conselhos à tribo.

 

Entre nós, até ex-presidentes escorraçados vão às urnas com enorme sem-cerimônia, como faz Collor. Outros sujeitam-se a virar subordinados de seus sucessores, ocupando embaixadas no exterior, como fez Itamar Franco. Há ainda quem busque refúgio em Estados remotos, com receio de não ser eleito em seu próprio torrão, como fez e faz Sarney. Há também quem constranja a própria biografia passando o chapéu entre o empresariado para custear uma fundação com o seu nome, caso de FHC.

 

Algo precisa ser feito com os nossos ex-presidentes. É constrangedor, para o país e para os próprios, vê-los pedindo votos, padecendo derrotas temporãs, pendurando apaniguados na engrenagem estatal ou simplesmente perdidos em algum lugar situado entre a fronteira da amargura e do ciúme.

Escrito por Josias de Souza às 18h48

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Sobre FHC, ACM e o tempo

Sobre FHC, ACM e o tempo

 

Fernando Henrique Cardoso, personagem já entrado em anos, sabe que não tem muito futuro na política. Mete-se na refrega eleitoral porque imagina que os mais moços, por inexperientes, acreditem que ele também não tem passado. Mas o passado nunca passa. Está aí, sempre presente, imiscuindo-se no presente. Leia-se, a propósito, o teor de uma nota da coluna de Mônica Bergamo (assinantes da Folha):

 

Paz e Guerra - Dias antes de lançar sua polêmica "carta aberta" ao PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conversou longamente com o senador baiano Antônio Carlos Magalhães, do PFL -há tempos os dois fizeram as pazes e hoje se dão "muito bem", diz ACM. "Eu disse a ele que a campanha deveria ser mais agressiva, que precisávamos fazer alguma coisa. Ele me disse que estava mesmo com vontade. Foi um desabafo."

 

Abra-se aqui um parêntese. Só para lembrar que ACM, em passado recentíssimo, notabilizou-se pela crítica contumaz que fazia ao estilo acomodatício de FHC. Peitou a autoridade presidencial a mais não poder. Até debaixo do teto do Palácio da Alvorada. Como em maio de 1999, num encontro testemunhado por Pimenta da Veiga, Jorge Bornhausen e Marco Maciel.

 

FHC cobrava coesão de seus aliados no Congresso. "Tudo bem, mas você precisa se ajudar", alfinetou ACM. FHC embatucou-se: "Como assim?". E ACM: "O seu estilo está superado. É preciso mais ação". FHC eriçou-se: "Com esse meu estilo ganhei duas eleições".


ACM não se deu por achado: "O Getúlio ganhou três e terminou dando um tiro no peito". E FHC: "Eu não tenho o seu jeito. Não sou brigão. Nem por isso fujo da responsabilidade. Combati a Oban em São Paulo. Fui encapuzado, interrogado".


Antes que Bornhausen e Maciel providenciassem panos quentes, ACM ainda disse: "Isso não me impressiona, presidente. Nessa época eu dava tapa em general". Referia-se a entrevero que teve, em 1965, com o general João Costa.

ACM era, então, deputado federal pela Arena. O general, que comandava a 6ª Região Militar, em Salvador, acusou-o de espalhar boatos sobre um caso extraconjugal que jurava inverídico. Encontraram-se na sede do governo baiano.

 

Deu-se num pequeno elevador o ápice do sururu. Sob os olhos esbugalhados de Lomanto Júnior, então governador da Bahia. Enfezado, o general dirigiu-se a ACM com o dedo em riste e a voz no teto. ACM golpeou-lhe o quepe, lançando-o ao chão.

 

Minutos depois, isolados numa sala do Palácio da Aclamação, ACM contou ao desafeto que ouvira sobre sua suposta amante dos lábios de outro general: Ernesto Geisel, então chefe do Gabinete Militar de Castelo Branco. Fecha parêntese.

 

Entre o FHC agressivo do manifesto e o presidente que dizia a ACM que não tinha “o seu jeito” há um novo personagem. É um FHC que, cioso da própria obra, não se conforma com a vergonha que seu partido tem de defender o seu governo. Sabe que o tempo é implacável. Seu relógio não tem mais ponteiros. Tem duas espadas. E não quer fazer feio no verbete da enciclopédia.

Escrito por Josias de Souza às 13h07

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Normalidade anormal

Normalidade anormal

  El Roto/El Pais
É insuportável a normalidade que permeia a atual campanha eleitoral. Algo de muito anormal precisa suceder. Sob pena de o eleitor tomar por natural o que é absurdo. Quem não quiser perder a compreensão do que está acontecendo deve levar em conta o seguinte: PT e PSDB são prisioneiros de um mesmo paradoxo. Prometem a modernidade de braços dados com o arcaísmo.

Adversário do tucano José Serra na disputa pelo governo de São Paulo, o petista Aloizio Mercadante costuma dizer que, se prevalecesse a lógica, PT e PSDB deveriam ser aliados, um dando suporte ao outro no Congresso. O raciocínio parte do pressuposto de que as duas legendas constituem o que de melhor a política brasileira foi capaz de produzir.

De fato, olhando ao redor não se encontra no quadro partidário nada menos ruim do que PT e PSDB. Porém, o ideal político dos dois partidos passou a ser a destruição mútua. Travam uma gincana de imoralidades. Um tenta impor ao outro o troféu de campeão das transgressões éticas. Poderia ter sido diferente.

Em depoimento a Denise Paraná, levado à página 114 do livro “Lula, o Filho do Brasil”, o atual presidente relembrou: “1978 foi o ano em que eu, pela primeira vez, assumi uma posição política pública. Foi o ano em que nós montamos um grupo de sindicalistas e fomos procurar o Fernando Henrique Cardoso, dizendo que nós queríamos apoiá-lo para senador. E fomos para as portas de fábrica defender o nome dele (...). Trabalhamos que nem uns condenados.”

Decorridos 28 anos, Lula e Fernando Henrique freqüentam o noticiário como inimigos irreconciliáveis. “Não sou igual a ele, não sou igual a ele, não sou igual a ele”, disse, redisse e tornou a dizer FHC. Nesta semana, o ex-presidente divulgou uma carta aberta em que acusa o sucessor da prática de crime de responsabilidade.

Por mais que se esforcem, FHC e Lula, PSDB e PT, não conseguirão demonstrar que são diferentes entre si. Aproxima-os o gosto pelas alianças esdrúxulas. FHC, a seu tempo, e Lula, agora, deram as mãos à fisiologia, consagrando um sistema iniciado com Tancredo Neves. Sistema que gira em torno de privilégios, negócios, verbas e empregos.

Tancredo teve a ventura de morrer antes de pôr em prática a armadilha que engendrou. Herdeiro dos acordos, Sarney honrou-os. Collor renovou-os. Itamar preservou-os. FHC vestiu-os com traje intelectual, situando-os em algum lugar entre as duas éticas de Max Weber, a da convicção e a da responsabilidade. Lula levou a anomalia longe demais.

O calor de urnas recém-abertas costuma conferir ao eleito uma aparência de super-homem. Porém, ao descer das nuvens da consagração para o chão escorregadio do dia-a-dia administrativo, o novo presidente descobre que seu poder se dissipa nos desvãos da máquina estatal. Em poucos meses, ele se vê como que governado pelas circunstâncias.

Mansamente, a fisiologia vai deixando de ser percebida como parte do sistema. Torna-se o próprio sistema. Passado o ritual da eleição, o novo gerente do velho condomínio de interesses, seja Lula ou Alckmin, cairá no colo do mesmo centrão partidário amorfo, isotrópico e inefável. O país logo estará mergulhado em sua insuportável normalidade. Ministérios partilhados, cargos distribuídos, negócios programados, orçamento fatiado. Algo de muito anormal precisa acontecer nesse país.

Escrito por Josias de Souza às 19h22

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A eleição do sono

A eleição do sono

Não há cartazes nos postes, viadutos, estações ferroviárias e pontos de ônibus. Baniram-se da cena urbana os outdoors com a cara dos candidatos. Não há distribuição de brindes e camisetas. Não há artistas nos comícios. Nem comícios há mais. Ou, por outra, há poucos, pouquíssimos. E pouca gente presta atenção.

A política tornou-se soporífera. Vive-se em 2006 a eleição do sono. É como se o eleitor estivesse sob o efeito de uma dose cavalar de tranqüilizantes. Restou aos candidatos o palanque eletrônico. Mas o telespectador, decididamente, não parece interessado no blábláblá. Ainda que o palanfrório lhe chegue na comodidade da poltrona da sala de estar.

 

Pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira informa que 55% do eleitorado não assiste à propaganda eleitoral. Aqueles que se dispõem a ligar a TV para ver a publicidade dos candidatos não conseguem mais desligar. Dormem antes. Só 6% disseram ter mudado sua opção de voto graças ao que viram na telinha.

 

O desinteresse pela campanha tem o seu lado negativo. Pelas frinchas da urna desatenta podem passar mensaleiros e sanguessugas. O próprio favoritismo acachapante de Lula mostra um certo desleixo do eleitor com as perversões que permearam a administração petista.

 

Mas o fenômeno tem também o seu lado positivo. As proibições impostas pela mini-reforma eleitoral, que o Congresso aprovou nas pegadas do mensalão, explicam apenas parcialmente o torpor do eleitorado. Há algo mais por trás da anestesia geral. Há um quê de normalidade democrática na reação do distinto público. Que o diga Fernando Henrique Cardoso.

 

Em manifestação que chegou com atraso de mais de um ano, o ex-presidente andou falando em impeachment. As ruas reagiram com um silêncio ensurdecedor. Depois, em discurso inflamado, bradou que era preciso atear “fogo no palheiro”. Não colou. O eleitor não parece interessado em discursos de timbre lacerdista.

 

“O senhor Juscelino Kubitschek não será eleito presidente. Se for, não tomará posse. Se tomar posse, não governará”, dizia Lacerda na campanha de 1955, aquela em que Juscelino tornou-se presidente. Não há mais espaço para a política da exaltação, eis o recado que o eleitor parece enviar à oposição.

 

Já há quatro eleições PT e PSDB disputam a presidência. O PT sempre com Lula. O PSDB duas vezes com FHC, uma vez com José Serra e agora com Geraldo Alckmin. Tudo indica que o jogo, que estava dois a um para o tucanato, será empatado em 2006. Vitorioso contra Serra, Lula está na bica de triunfar de novo.

 

Alckmin não jogou a toalha. Sobe o tom da crítica a Lula e ao governo. Por ora, manteve-se nos limites do embate político-administrativo. É do jogo. E é bom que seja assim. A despeito do desinteresse geral, ajuda a distinguir diferenças.

 

As urnas darão o seu veredicto em outubro. E a vida seguirá o seu curso. Para o bem ou para o mal, a palavra definitiva vai ser dada pelo eleitor. Haverá quem se queixe. Mas é preciso lembrar que a coisa era bem pior nos tempos dos comunicados militares e das intervenções de lideranças civis desvairadas.

Escrito por Josias de Souza às 19h13

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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