Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Imunidade para falar ‘merda’

Imunidade para falar ‘merda’

A obra de grandes artistas e intelectuais costuma redimi-los de seus pecados. O “reacionarismo” de Nelson Rodrigues, por exemplo, foi soterrado pelo brilhantismo de sua produção jornalístico-literária. A alegada simpatia de Martin Heidegger pelo nazismo perdeu-se nos desvãos de sua eloqüente contribuição ao pensamento filosófico do Século 20. Basta um quadro de Pablo Picasso para apagar o mau-caratismo que permeia a sua biografia.

 

Escudados nessa, digamos, imunidade intelectual e artística, representantes da cultura brasileira aventuram-se a promover uma releitura dos conceitos tradicionais da ética. Deu-se na noite da última segunda-feira (19-08), depois de um encontro de Lula com cerca de 80 artistas, na casa do ministro Gilberto Gil (Cultura), no Rio.

 

Deve-se ao repórter Marcelo Carnaval a inauguração de uma polêmica ilustrativa. Instados a se manifestar sobre as perversões do petismo, à saída do encontro com o presidente, o compositor Wagner Tiso e os atores Paulo Betti e José de Abreu falaram com desassombrado pragmatismo.

 

“Ninguém nunca falou do caixa dois da reeleição do Fernando Henrique”, disse Wagner Tiso. Confrontado com o argumento de que pregação ética do ex-PT reclamava um comportamento diferente, Tiso exaltou-se: “Eu não estou preocupado com isso. Estou preocupado com o jogo do poder”.

 

O maestro esmiuçou o seu raciocínio: “Não estou preocupado com a ética do PT ou com qualquer tipo de ética. Para mim, isso não interessa. Eu acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país, entendeu?” Caprichando no jogo metafórico da imundície, Paulo Betti envolveu a teoria de Tiso em uma camada de matéria fecal: “Política não existe sem mãos sujas. Não dá para fazer sem botar a mão na merda”.

 

O ator José de Abreu, que, no encontro com Lula, pedira uma homenagem a José Dirceu, José Mentor e José Genoino, teorizou sobre a ideologia do excremento: “Eu acho difícil fazer política sem colocar a mão na merda, mas acho que tem que tentar ter mãos beatas", disse. Mas “como é que você vai conversar com alguns deputados que só pensam em dinheiro? Aí você vai ter que colocar a mão na merda."

 

No limite, os raciocínios tísicos de Tiso, a frase bestial de Betti e o complemento desabrido de Abreu tentam validar a tese, sempre em voga na política nacional, de que os políticos que roubam mas fazem também têm o direito de ser recobertos pelo manto diáfano da imunidade artística. “O povo está feliz”, chegou a dizer Tiso, como a justificar a cultura da substituição da ética pelo proveito eventual da perversão.

 

Recomenda-se aos porta-vozes do neo-amoralismo uma dose de cautela. O tempo, sempre tão generoso, talvez não apague gestos como de Wagner Tiso, dos três o mais talentoso. Arrisca-se demais o maestro ao ceder a sua obra como trilha sonora de uma era que começou com a coletoria clandestina de Delúbio Soares e terminou na denúncia da “quadrilha” dos 40, patrocinada pelo Ministério Público. É “merda” que, por volumosa e malcheirosa, a tímida produção artística ou intelectual de seus defensores não consegue redimir.

Escrito por Josias de Souza às 19h38

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A irrelevância da mídia

A irrelevância da mídia

No Planalto

 

A indústria da informação, sobretudo a impressa, está numa encruzilhada. Com a circulação estagnada, os jornais lutam para seduzir novos leitores. O público, porém, emite sinais de que considera o conteúdo dos jornais cada vez mais irrelevante.

 

Na época em que o país estava submetido a três poderes efetivos –Exército, Marinha e Aeronáutica— costumava-se atribuir à imprensa importância capital na cruzada da resistência. Ao ecoar as ruas na campanha das Diretas-já, os jornais ajudaram a empurrar a farda de volta para os quartéis.

 

Restabelecida a democracia, o Collorgate tonificou a musculatura dos meios de comunicação. Teve-se a impressão de que a imprensa exercia, de fato, o quarto poder.

 

Sob FHC, a imprensa tardou a acordar. Só depois de uma fase de namoro se deu conta de que estava diante de um presidente afeito à maleabilidade ética.

 

A caída em si não foi generalizada. Alcançou apenas parte da mídia. Ainda assim, sobrevieram os escândalo da compra de votos da reeleição, as privatizações trançadas “no limite da irresponsabilidade”, as malversações da Sudam e outras cositas.

 

Graças à exposição negativa, FHC é hoje um dos ex-presidentes mais impopulares. Tão impopular que o PSDB cuida de escondê-lo na campanha. Escalando essa aversão, Lula chegou à presidência em 2002. E com ele veio a má notícia para a imprensa: o brasileiro deu as costas para o noticiário, eis a novidade.

 

Poucos governos mereceram da mídia exposição tão negativa quanto a administração petista. As perversões atribuídas ao PT e a Lula foram alardeadas à saciedade. A despeito disso, o eleitorado atribui ao presidente um volume de intenções de voto que, por ora, humilha os concorrentes. Humilha também a mídia.

 

Poder-se-ia argumentar que o eleitor pobre de Lula não lê jornal. Bobagem. A crise ética ganhou também nos meios de comunicação eletrônicos. E não há casebre brasileiro que não disponha de um aparelho de rádio ou de televisão.

No segundo semestre de 2005, os analistas políticos tiraram do noticiário que produziram as suas próprias confusões. Onze em cada dez comentaristas difundiu a idéia de que a reeleição de Lula estava ameaçada.   

Vítima de si mesma, a mídia está na bica de virar, ela própria, notícia. Sua “desimportância” reclama estudos e análises aprofundadas. Seu propalado poder de influência, seu festejado papel de formador de opinião está em xeque.

Como que exausto da reiteração dos escândalos, o (e)leitor emite sinais de que já não vê diferença entre os políticos. Considera-os, indistintamente, corruptos. Priorizam os seus interesses pessoais em detrimento de valores coletivos como a ética.

Se os meios de comunicação fossem levados a sério, Lula deveria estar debatendo agora com os tribunais, não com os eleitores. Acomodados num dos pratos da balança, em contraposição aos escândalos, os feitos de seu governo até poderiam conferir-lhe certa competitividade eleitoral. Mas o favoritismo que ostenta, por ora acachapante, é o sinal mais eloqüente de que os meios de comunicação tornaram-se irrelevantes aos olhos da maioria da sociedade.

Escrito por Josias de Souza às 20h31

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A crise semântica e o PCC

A crise semântica e o PCC

  Rogério Cassimiro/Folha Imagem
A julgar pelo tom da campanha eleitoral, o único problema real do Brasil é uma crise de semântica. Lula diz que, antes dele, nunca ninguém governara o país com tanta competência nos últimos 500 anos. O eleitorado, a julgar pelas pesquisas, concorda.

 

Alckmin sustenta que, mercê do "choque de gestão" que teria dado na administração paulista, São Paulo tem resultados sólidos a exibir. Parte dos eleitores, de novo, parece dar-lhe razão. Por ora, Alckmin lidera as pesquisas no seu Estado.

 

Ou seja, o Brasil e a São Paulo dos discursos eleitorais deram "certo". Resta agora definir o que é exatamente “dar certo”. Mencione-se, por oportuno, só um quesito: segurança pública. A pujança do PCC é bom sinal (sem dinheiro em circulação o crime não teria se organizado) ou mau sinal (o Estado perdeu o controle sobre as cadeias).

 

A proliferação de condomínios de luxo, gradeados e protegidos por seguranças armados, provam o acerto ou são meros refúgios de privilegiados num país cada vez mais injusto e, portanto, inviável.

 

O primeiro passo para chegar às respostas é começar a falar a mesma língua. Coisa que os governos paulista e federal não vêm conseguindo fazer. O desencontro mais recente opôs o secretário de Segurança Saulo de Castro, pupilo de Alckmin, e o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, lugar-tenente de Lula.

 

Nesta quarta-feira, em entrevista à Rádio Capital, Lula também cutucou Saulo de Castro. "Acho que o secretário devia ser mais sensato na hora de abrir a boca (...) e tentar evitar essas coisas que estão acontecendo em São Paulo. Essas pessoas estão cuidando da segurança de São Paulo há muitos anos. Ele deveria, de forma mais humilde, perceber que houve uma falha. Ele poderia tirar o telefone celular dos presos." O presidente disse que não levará desaforo para casa.

 

Logo virá uma resposta. Ou do secretário ou de seu antigo chefe Alckmin ou de seu chefe atual, Cláudio Lembo. Enquanto evolui o tiroteio retórico, a sociedade de São Paulo vai sendo submetida ao poder de fogo do PCC, por ora o único beneficiário visível de um país e de um Estado que “deram certo”. O número de alvos dos criminosos neste terceiro ciclo de ataques já passa de 150.

Escrito por Josias de Souza às 15h05

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Cuidado, instalaram uma sonda na sua cabeça

Cuidado, instalaram uma sonda na sua cabeça

No Planalto

 

Começa daqui a dez dias a campanha eletrônica. Candidatos vão ao rádio e á TV para seduzir você. Será o teatro de praxe. Redobre a atenção. A experiência demonstra que, numa disputa presidencial, por vezes, elege-se a melhor encenação, não o melhor presidente.

Os candidatos vão desfiar diante dos microfones e das câmeras os programas de governo. Programas são mais efeitos especiais do que substância. O Brasil radicalmente outro que esse tipo de peça costuma prometer é mera intenção que os fatos costumam conspurcar.

Ao votar em Collor, o eleitor imaginou ter escolhido um salvador da pátria. Descobriu depois que escolhera o absurdo levado longe demais. Ao optar por FHC, pensou ter votado na tese. Elegera, na verdade, a antítese. Ao escolher Lula, presumiu ter restaurado os bons costumes. Viu-se diante de um bordel partidário.

 

É provável que você se identifique com várias propostas dos candidatos. Desgraçadamente, isso não quer dizer nada. As modernas técnicas do marketing político põem ao alcance dos comitês de campanha ferramentas sofisticadas. Uma delas, chamada no jargão publicitário de “pesquisa qualitativa”, permite aos candidatos instalar uma sonda na cabeça do eleitor.

 

As campanhas, antes intuitivas, evoluíram para um esquema baseado em estatísticas. Encontrou-se uma forma de captar as vontades e as angústias da sociedade. Dá-se o seguinte: atraídos por salgadinhos, refrigerantes e brindes, grupos de eleitores são reunidos em salas fechadas. Ali, avaliam vídeos de campanha, discutem propostas de governo, condenam e aprovam candidatos.

 

Há nessas salas um vidro semelhante àquele que a polícia instala em cabines dedicadas à identificação de criminosos. A vítima vê o bandido, mas não pode ser enxergada por ele.

 

Nos ambientes preparados para a realização de pesquisas qualitativas, o eleitor é observado, do outro lado do vidro, por magos da publicidade eleitoral. Eles passam horas ouvindo e anotando as discussões travadas nos grupos.

 

O método permite aos candidatos afinar suas campanhas com a vontade do eleitorado. Na prática, as opiniões do eleitor são recolhidas, embrulhadas para presente e, depois, devolvidas ao dono na forma de comerciais de rádio e de TV.

 

A mesma tática é utilizada por grandes empresas. Antes de jogar um produto novo no mercado, elas testam o gosto do consumidor por meio dessas pesquisas qualitativas. A diferença é que, adquirindo um sabonete de má qualidade, você sempre poderá substituir por outro sabonete produzido pelo concorrente. Se escolher um presidente defeituoso, terá de consumi-lo por quatro anos. Portanto, atenção. Muita atenção.

Escrito por Josias de Souza às 18h40

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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