Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

O Brasil ama o caos

O Brasil ama o caos

No Planalto

 

 

Em respeito aos cadáveres produzidos pela onda de violência que engolfa o cotidiano de São Paulo a nação deveria responder algumas perguntas cruciais: quando começa o caos? Será que já começou? Teria o país realizado o desejo que persegue desde 1500?

 

Foge-se das respostas por medo de que elas conduzam à grande revelação. Que levem à verdade irrefutável. Que guiem à percepção de que o Brasil encontrou-se, finalmente, com o insondável. É uma pena. Corre-se o risco de deixar escapar a última chance para recomeçar do zero. Da capo, como dizem os músicos.

 

Se era de caos que o país precisava para construir um recomeço, haveria matéria-prima de sobra. A lógica deveria dar a luz a um entendimento. Mas a política, parafuso espanado que rodopia a esmo, não segue a lógica.

 

A lógica pede um compartilhamento de culpas. E, como sabem todos, ninguém é culpado pelo caos. Ou, por outra, todos são culpados, menos o último entrevistado. O caos é sempre culpa do outro. Não há quem se disponha a partilhar o caos.

 

De resto, um eventual entendimento deixaria os gestores do caos sem ter o que debater. Se o caos fosse eliminado eles seriam forçados a se dedicar a tarefas menores. Trabalhar, por exemplo. A resolução do caos transformaria o Brasil num tedioso inferno de problemas resolvidos.

 

O fim do caos também não faria bem à religião. Edir Macedo não teria mais demônios a exorcizar. E a manutenção da mansão de Miami ficaria comprometida. O extermínio do caos não dá lucro. Que seria da indústria de grades, de porteiros eletrônicos e de alarmes sem o caos? A que reengenharias teriam de se submeter as firmas de segurança privada, muitas delas comandadas por ex-comandantes da polícia?

 

A eliminação do caos também não interessa à academia. O caos é a musa dos intelectuais. Proporciona-lhes uma reconfortante sensação de utilidade. Dá-lhes boa consciência. Sem o caos, faltaria inspiração para as grandes teses. Haveria uma legião de doutorados no inócuo.

 

A imprensa tampouco se interessa pelo fim do caos. Sem a ameaça à ordem social, os Jornais não teriam o que pendurar nas manchetes. O caos dá às primeiras páginas a estética da urgência que seduz os leitores. Artigos como esse que você está lendo perderiam o sentido.

 

Como a ninguém interessa acabar com o caos, resta ao Brasil cumprir o seu destino de nação inviável. O caos eterno é a prova de que países também podem ficar de miolo mole, sair do sério e cometer suicídio. O Brasil é a inviabilidade "full time". Por sorte, o país é feito à base de caos. Se fosse feito de lógica, faltaria material.

Escrito por Josias de Souza às 23h02

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São Paulo rima com calamidade

São Paulo rima com calamidade

 

Logo que os ataques do PCC começaram, em 12 de maio, São Paulo não se deu conta do tamanho da encrenca. Viu chuvisco onde havia tempestade.

 

Cláudio Lembo brindou o Estado com palavras tranqüilizadoras: Está tudo “sob controle”. Enxergou como momentâneo algo que duraria uma eternidade.

 

Ao se dar conta de quem realmente estava no “controle”, o “poder”  público abriu um  diálogo com a bandidagem. Tratou criminoso com cordialidade.

 

Às voltas com o monturo de corpos de dezenas de colegas, policiais passaram a puxar o gatilho a  esmo. Igualaram-se ao inimigo em atrocidade.

 

Para livrar a própria cara, Lula pôs à disposição de São Paulo o Exército e a Guarda Nacional. Não resolve. Mas dá discurso. Tratou o adversário com “lealdade”.

 

Lembo recusou a generosidade. Alegou que a polícia de São Paulo é numerosa e bem preparada. Vê nos acenos de Brasília astúcia sem densidade.

 

Geraldo Alckmin finge-se de morto. Joga a encrenca para o plano federal. Diz que Lula reteve verbas da segurança. Falta-lhe meio quilo de hombridade.

 

O Congresso simulou consternação. Prometeu votar a toque de caixa um pacote de segurança. Era conversa mole. Onde só há inércia não pode haver agilidade.

 

Em meio ao festival de fatuidade, fatigado da viscosidade, espantado com a boçalidade, farto da licenciosidade, cansado da generalidade, exausto da imoralidade, estarrecido com a mortandade, ferido em sua integridade, ameaçado em sua propriedade e pressentindo a orfandade, o cidadão paulista é compelido a constatar, com uma ponta de incredulidade, a dura realidade: São Paulo rima com calamidade.

Escrito por Josias de Souza às 17h21

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O ex-guerrilheiro virou lobista

O ex-guerrilheiro virou lobista

No Planalto

 

Deve-se ao repórter Fabiano Maisonnave a descoberta da última peripécia de José Dirceu. O ex-chefão da Casa Civil esteve na Bolívia nos dias 23 e 24 de abril. Uma semana depois, o companheiro Evo Morales decretou a nacionalização das reservas de gás e de petróleo, impondo a refinarias da Petrobras uma incômoda ocupação militar.

 

Descobriu-se que Dirceu teve reuniões com o presidente boliviano e com políticos de oposição. Embora afastado do governo há um ano, apresentou-se como emissário de Lula. O Planalto negou ter dado procuração a Dirceu.

 

Em nota, o ex-ministro reconheceu que esteve na Bolívia. Negou o encontro com Morales. Disse ter desempenhado “atividades profissionais”. E informou que fez outras viagens, sempre “de caráter profissional”, aos EUA e ao México.

 

Por delicadeza, ninguém disse ainda o óbvio: de político, de coordenador eleitoral e de funcionário público, Dirceu converteu-se em lobista. Repetindo: o ex-guerrilheiro é hoje um dos mais ativos lobistas em atividade no país. Vale-se de sua experiência governamental e da proximidade com o petismo para fazer negócios.

 

Dirceu voou para La Paz a bordo de um jatinho da MMX, empresa de Eike Batista. O mesmo que foi impedido pelo governo Morales de instalar uma siderúrgica na Bolívia. Em 25 de abril, Eike anunciou que desistira do projeto. Um indicativo de que as investidas de Dirceu foram malsucedidas.

 

Também em abril, Dirceu voara em jato particular para Belo Horizonte. No caminho, desceu em Juiz de Fora para tricotar com Itamar Franco. De novo, falou em nome de Lula. Depois, irritou-se com quem se atreveu a perguntar quem custeara a viagem.

 

Alegou que a aeronave pertencia a um empresário que o havia contratado para fazer uma “consultoria”. E subiu no caixote: “Estou indignado com essa invasão de minha privacidade. Não sou ministro e nem deputado. Não devo explicações de minha vida privada. Sou advogado, consultor de empresas (...). Querem que eu pare de fazer política? Como paguei o avião é um problema meu. Faço minhas declarações de renda todo ano e não vou explicar como viajo, como freqüento restaurantes.”

 

Ninguém pode negar a Dirceu o direito encher a geladeira como bem entender. Mas o desejo de continuar fazendo política e a mania de apresentar-se como enviado de Lula tornam o ex-ministro uma figura pública. É pena que os negócios do “advogado” e “consultor” não possam ser expostos à luz do sol.

 

Vale lembrar que foi justamente a ausência de “explicações” plausíveis que acomodou Dirceu na constrangedora posição de “chefe de quadrilha” numa denúncia que o Ministério Público levou ao STF. Talvez convenha a Dirceu dedicar-se exclusivamente à sua nova carreira. E não terá mais de dar explicações a ninguém. Só ao fisco, naturalmente.

Escrito por Josias de Souza às 20h05

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Sobre Lulas, FHCs, Itamares e outros azares

Sobre Lulas, FHCs, Itamares e outros azares

No Planalto

 

Na política, o melhor amigo do homem é a conveniência. Por isso é que inimizades profundas entre políticos evoluem para amizades jucundas. Os exemplos são incontáveis. Em sua fase de barbudo radical, Lula referia-se a Sarney, então presidente da República , como “ladrão”. Hoje, chama-o de “fiel aliado”.

Fernando Henrique Cardoso construiu sua biografia política do lado oposto ao de Paulo Maluf. Um dirigiu ao outro os piores desaforos. Mas FHC, na presidência, não teve pejo de receber Maluf para trocar verbas por votos apoio no Congresso. Nem se constrangeu de posar ao lado do desafeto numa foto que Maluf, candidato ao governo de São Paulo, exibiu em outdoors como um troféu visual, para desespero do tucanato.

 

Em sua primeira campanha para o Senado, FHC teve em Lula um cabo eleitoral entusiasmado. O então sindicalista chegou mesmo a distribuir panfletos e pedir votos para FHC nas portas das fábricas de São Bernardo. Hoje, Lula faz da comparação dos seus 42 meses de gestão com os oito anos do antecessor o seu principal mote de campanha. E FHC reconhece que o rival o superou, sim, mas só “em corrupção”.

 

Fez-se toda essa introdução para chegar a um personagem que costuma vender a coerência pessoal como um fator de diferenciação sobre os colegas de ofício. Chama-se Itamar Franco. O ex-presidente levou, na última quinta-feira, uma coça de Newton Cardoso. Os dois disputaram a vaga de candidato ao Senado pelo PMDB de Minas Gerais. E Newtão, como é conhecido o ex-governador mineiro, prevaleceu sobre o ex-presidente Itamar com 390 votos contra 141.

 

Newtão e Itamar protagonizaram um desses casos de inimizades que se estreitam graças à conveniência política. Na campanha para o governo de Minas, em 1986, o tratamento mais delicado que Newton mereceu de Itamar foi o de "corrupto". Na propaganda televisiva, a equipe de marketing de Itamar chamou o adversário de "estelionatário" e "estuprador". Newton respondeu no mesmo tom. Duas eleições depois, Itamar e Newton dividiam a mesma chapa. Elegeram-se, respectivamente, governador e vice-governador de Minas.

 

Constrangido pela derrota desta quinta-feira, Itamar está de novo pintado para a guerra. Voltou a falar horrores de Newton Cardoso. O grupo político do ex-presidente ameaça ora abrir uma dissidência no PMDB mineiro ora deixar o partido. Mas o eleitor não deve espantar-se se, amanhã, Itamar surgir de mãos dadas com Newton. A política brasileira transformou-se numa roleta em que todos os resultados conduzem à incoerência.

Escrito por Josias de Souza às 19h51

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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