Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Fisiologia e Shakespeare

Fisiologia e Shakespeare

No Planalto

 

  Othello e Desdêmona/T. Chassériau
Comece-se pedindo de desculpas. Vai-se misturar o profano – a fisiologia — ao sublime — a literatura do bardo. Deslizou-se para essa tentação por conta de um descuido (ou licenciosidade poética) de Shakespeare. Deu-se na famosa última frase de Desdêmona.

 

Algumas linhas depois de ter sido sufocada por Othello, Desdêmona ganha sobrevida. É como se o autor desejasse dar-lhe uma última fala digna antes de arrancá-la de de cena. Ela protesta contra a própria morte, se despede e, só então, morre definitivamente.

 

Algo parecido se dá com a fisiologia. Todo novo Othello que assume o poder apressa-se em anunciar o seu sufocamento. Porém, alguns capítulos depois do início do governo – qualquer governo — ela revive.

 

A comparação, evidentemente, só vale até certo ponto. Diferentemente da Desdêmona original, a fisiologia não morre. Ela estrebucha, também protesta contra a própria morte, mas, em seguida, pede novos cargos e ganha sobrevida eterna.

 

Em 1996, em visita ao Nordeste, Fernando Henrique Cardoso anunciou a morte da fisiologia. A platéia ficou em dúvida: o presidente saíra da realidade ou desviara-se para o cinismo? A tragédia implícita na primeira opção fez com que a maioria ficasse com a segunda.

 

Agora, na bica de obter um segundo mandato, Lula ensaia o mesmo discurso. Depois de conviver durante três anos e meio com um consórcio parlamentar remunerado à base de cargos e oportunidade$, proclama um segundo ciclo diferente.

 

Informa-se que, em 2007, a maioria congressual será obtida por meio de um “governo de coalizão”. O naco governista do PMDB testa, desde já, os limites do “novo” modelo. Encaminhou a Lula uma petição de cargos –do ministro da Saúde, à direção dos Correios e de Furnas, além de um incômodo etc.

 

Recorra-se a outro personagem de Shakespeare, o rei Ricardo III. Preparava-se para a batalha de sua vida. O exército de Henrique, o conde de Richmond, marchava contra suas tropas. O embate determinaria o novo monarca da Inglaterra.

 

O rei requisitou a preparação de seu cavalo preferido. Envolto num esforço para ferrar os cavalos da tropa real, o ferreiro alegou que precisaria de tempo para providenciar novas ferraduras. Impaciente com o avanço do inimigo, o cavalariço de Ricardo pediu pressa. E deu-se o desastre.

 

Ajustadas as três primeiras ferraduras, verificou-se que faltavam dois pregos para a fixação da quarta. Na correria, a peça foi ajustada na galega. E, no fervor da batalha, desprendeu-se. O animal caiu. O rei foi ao chão. “Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!”, bradou Ricardo III. Por conta de um par de pregos, perdeu-se um trono.

 

No embate entre os governos e o Legislativo, a encrenca começou com Sarney. Sentido o chão fugir-lhe dos pés, o presidente gritou: “Meu reino! Meu reino! Uma base de sustentação pelo meu reino!” E nasceu o PFL. E o PMDB. E PTB, o PP, o PL... Desde então, o país vai galopando em trote de cavalo manco. Perde uma batalha atrás da outra.

Escrito por Josias de Souza às 18h12

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Gol de mão

Gol de mão

No Planalto

 

Cartões/Quadro de Jô Soares

 

Ronaldinho Gaúcho faz fila. Dribla o primeiro, entorta o segundo, dá uma caneta no terceiro... De repente, na entrada da grande área, o craque pega a bola com as mãos. Arremessa-a para Kaká que, também com as mãos, acerta o ângulo da meta adversária. O locutor grita: Gooooool! Os jogadores põem-se a festejar, uns pulando sobre os outros.

 

O juiz, entre irritado e estupefato, mostra o cartão vermelho a Ronaldinho e Kaká. Embora expulsos, os dois permanecem em campo. Deslizam sobre a grama como se nada tivesse acontecido. O árbitro os persegue, apitando incessantemente. E nada. O jogo segue o seu curso.

 

A cena descrita jamais acontecerá. No futebol, há regras. E elas são respeitadas. Aqui e ali, um ou outro jogador tenta enganar o juiz. Alguns até conseguem. Maradona, por exemplo, fez o seu gol de mão. “Foi a mão de Deus”, diria depois. Mas, quando pilhados em falta, jogadores costumam aceitar, ainda que contrafeitos, a punição.

 

Na política, dá-se o oposto. Jogadores faltosos continuam jogando. Mesmo quando flagrados. Há regras e juízes também na política. Mas elas, as regras, são ignoradas. E eles, os juízes, mostram-se impotentes para restabelecer a ordem em campo. Os jogadores fazem as suas próprias regras.   

 

Agora mesmo, a Receita Federal realiza uma auditoria fiscal em nove partidos políticos. Constam da lista PSDB, PFL, PMDB, PT, PTB, PP e PL. Em princípio, seriam investigadas apenas as legendas envolvidas no escândalo do mensalão. Mas, iniciado o trabalho, os auditores do fisco se deram conta de que há indícios de irregularidades nas contas de praticamente todas as legendas.

 

Santo Agostinho ensinou que os criminosos, quando tomados isoladamente, não representam um risco à sociedade. O crime é algo intrínseco à alma humana. Mas quando o número de infratores, por exagerado, foge ao controle do Estado, estabelece-se um poder paralelo, com leis próprias, que conduzem à impunidade.

 

Não há, por ora, indicações de que a recente superexposição de malfeitorias tenha servido para estabelecer uma rotina civilizada nas campanhas eleitorais e no relacionamento entre partidos e governos. O país não se havia refeito da descoberta dos “recursos não contabilizados” de Delúbio Soares quando veio à luz a notícia das verbas de má origem da frustrada pré-campanha presidencial de Anthony Garotinho. A poeira levantada pelas CPIs resultantes do mensalão ainda não assentou e o Congresso já ensaia a instalação da comissão das sanguessugas.

 

O STF manuseia a denúncia do Ministério Público contra a “quadrilha” dos 40 do mensalão. A Receita diz que, concluída a sua auditoria, enviará ao TSE os nomes dos partidos que praticaram delitos fiscais. São duas oportunidades para que os juízes esbocem uma tentativa de impor algum tipo de autoridade no jogo político. Cartão amarelo já não resolve. Só o vermelho. A alternativa é a sociedade continuar perdendo de goleada. Uma goleada de gols de mão.

Escrito por Josias de Souza às 20h54

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O Maligno domina a política

O Maligno domina a política

No Planalto

 

Na última terça-feira o Maligno freqüentou o calendário. A data –6/6/06—formou o número da Besta do Apocalipse: 666. É uma boa oportunidade para analisar o papel do Demo no cotidiano político.

 

São múltiplas as feições do Tinhoso. Uma de suas faces mais espetaculares foi descrita por Dante. Na Divina Comédia, o Satanás é esboçado com três caras e seis asas. Asas em constante agitação, dotadas de olhos, que tudo vêem.

 

No Brasil, sempre novidadeiro, o Diabo ganhou cara nova e peculiar –um feitio partidário. Reza a boa técnica do marketing que tudo pode ser vendido desde que personalizado. É preciso dar um rosto ao produto. No mercado político, a regra foi levada às últimas conseqüências. Os candidatos se vendem como a encarnação do Bem e satanizam os adversários. O Demônio do PT é o PSDB. E o Satã do PSDB é o PT. 

 

Curiosamente, não há no Brasil duas legendas mais próximas uma da outra do que PT e PSDB. A semelhança foi tonificada com a experiência de governo de Lula, cuja ação suavizou o discurso socialista do PT, aproximando-o da social-democracia à brasileira. Ao qualificarem-se mutuamente como a própria personificação do Mal, PT e PSDB vêem-se compelidos a buscar, quando eleitos, o suporte de outras legendas diabólicas. São PPs, PLs, PTBs e assemelhados. Nutrem-se dos negócios e das oportunidades proporcionados pelo exercício do poder. Foi assim sob FHC. Deu-se o mesmo sob Lula.

 

Misturando-se ao atraso, o Bem presumido, seja petista ou tucano, converte-se em Mal absoluto. Satã passa a reger, soberano, o espetáculo. Ora assume a cara da fisiologia ora se imiscui na execução orçamentária, desvirtuando-a. Tenta-se justificar a aliança com o Lúcifer multifacetado como único meio de atingir a governabilidade, num modelo que evoca o pacto celebrado por Fausto, o famoso personagem da literatura.

 

Ao acertar-se com o Demo, Fausto foi brindado com dons variados: da ubiqüidade à faculdade de falar línguas estrangeiras. Viu-se às voltas com um cotidiano de maravilhas, permeado de iguarias e boas roupas. Até que, vencido o prazo do pacto –24 anos—o Beiçudo veio cobrar a conta. Matou Fausto e levou-o consigo. O pacto de Fausto que embala a política brasileira cobra o seu preço em bases diárias, nas dobras de uma seqüência interminável de escândalos. A tática de escolher um Demônio de ocasião para o qual transferir as próprias culpas pode aliviar a consciência. Ajuda também a desconversar. Mas é só.

 

Entregando-se ao atraso, PSDB e PT imaginam possuir o Demônio. Mas, em verdade, são possuídos por Ele. É hora do grande exorcismo. Passada a eleição, seja quem for o vitorioso, a política deveria considerar a hipótese de firmar um pacto com a decência.

Escrito por Josias de Souza às 17h23

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Deixem o futebol fora disso

Deixem o futebol fora disso

No Planalto

 

Os brasileiros estão condenados, desde 1994, a uma nefasta simultaneidade. O calendário político se entrecruzou com a folhinha futebolística. As eleições presidenciais passaram a ocorrer no mesmo ano da Copa do Mundo. E o país viu-se compelido a conviver com a indesejável mistura da bola com campanhas políticas.

 

Na manhã da última quinta-feira, ao ser informado de que o IBGE anunciaria um dado favorável ao seu governo –o crescimento de 1,4% do PIB no primeiro trimestre de 2006—, Lula disse ao portador da novidade: “Agora só falta a gente ganhar a Copa”.

 

A observação está eivada de segundas intenções. Dela se depreende que o candidato Lula não hesitará em aproveitar-se do eventual triunfo do escrete. Não titubeará em enrolar-se à bandeira nacional, para tentar associar o êxito nos gramados ao desempenho de um governo que ele julga bem-sucedido.

 

Em São Paulo, distribuíram-se tabelas dos jogos e a inscrição "Copa 2006 - Lula é show de bola". O ainda: "E o Brasil não pode andar pra trás. O povo sabe: Lula de novo é continuar construindo o futuro".

O expediente não chega a ser original. Em 1994, foi ensaiado contra Lula. Formuladores do Plano Real, principal cabo eleitoral de FHC, também vislumbraram nos movimentos da bola uma oportunidade para enganchar o patriotismo da torcida aos destinos da nova moeda, lançada no mês da Copa.  

 

Parece improvável que os gols de Romário e de Bebeto tenham influído no triunfo do real e da candidatura de FHC. Se a seleção houvesse perdido aquela Copa, o plano econômico teria sucumbido? A resposta óbvia é “não”. Difícil aceitar a tese de que Roberto Baggio tenha mandado pelos ares o pênalti que deu o tetra-campeonato ao Brasil movido por um desconhecido sentimento tucano.

 

O absurdo não impede, porém, que, a cada quatro anos, surjam políticos interessados em vestir-se de verde e amarelo. A tática evoca um dos piores momentos da ditadura. Em 1970, ano em que a arte do time de Pelé contrastava com a rudeza do governo de Médici, muitos brasileiros viram-se tentados a torcer contra a seleção. Só para azedar os ímpetos patrióticos do general.

 

Não havia eleições naquela época. Estava em jogo algo bem pior: a perpetuação de um regime iníquo. Nestes tempos de normalidade democrática, o melhor que os candidatos têm a fazer é deixar o torcedor em paz. Lula manifestou o desejo de voar para a Alemanha caso a seleção chegue às finais. Foi desaconselhado por Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Que Sua Excelência aceite o conselho. O futebol é coisa séria demais para ser misturada à encrenca eleitoral.

Escrito por Josias de Souza às 19h39

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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