Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Emergência Eleitoral

Emergência Eleitoral

No Planalto

 

Tasso: Porta dianteira fechada.

FHC: Ok. Confere.

Tasso: Porta traseira...

FHC: Porta traseira fechada.

Tasso: Pressurização acionada.

FHC: Ok.

Tasso: Temperatura interna 22 graus.

FHC: 22 graus. Confere.

Tasso: Flaps da direita em ‘on’.

FHC: Confere.

Tasso: Flaps da esquerda...

FHC: Acionados.

Tasso: Então vamos levantar vôo.

FHC: As turbinas não respondem!

Tasso: Como?

FHC: Minha nossa! Como fomos embarcar nessa!

Tasso: O que houve?

FHC: Sabia que estava faltando algo.

Torre: Alô, tucano, câmbio.

Tasso: Tucano na escuta, câmbio.

Torre: Por que diabos o Alckmin não se move?

Tasso: Tivemos um imprevisto, câmbio.

Torre: Vocês precisam desocupar a pista, câmbio.

Tasso: Atenção, comissário!

Aécio: Na escuta, comandante.

Tasso: Peça uma gentileza ao PFL.

Aécio: Gentileza?

Tasso: Sim, preciso que desçam para empurrar.

Aécio: Mas, comandante...

Tasso: Não discuta, manda empurrar.

Pausa...

Aécio: Comandante, o PFL sugere a troca de aeronave.

Tasso: Agora? Não dá mais tempo.

FHC: Permita-me lembrar que temos o Serra no hangar.

Tasso: Serra? Não, não. Melhor empurrar.  

Aécio: O César Maia ameaça desembarcar.

Tasso: Diga a ele que agora é tarde. Melhor empurrar.

Escrito por Josias de Souza às 18h09

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Terra em transe 2

Terra em transe 2

No Planalto

 

Imagem aérea da Avenida Paulista. Deserto. Corta para a entrada do Shopping Iguatemi. Ermo. Fecha no pórtico do restaurante Fasano. Cerrado. Um cachorro vira-latas esparge urina na calçada defronte.

 

Voz do capo Marcola, em off, com o som nasal de celular: “Só a violência salva o Brasil. O crime não é o problema. É a solução. O PCC é o caos, matéria-prima para o recomeço. A delinqüência é o início da solução, a verdadeira renascença”.

 

O roteiro do longa-metragem sem título –‘São Paulo em Transe’?—escorre ininterrupto dos lábios de Marcola. As palavras saem-lhe em catadupas. Entregue ao isolamento da solitária de segurança máxima, o Glauber Rocha do mal dita os movimentos ao seu exército de atores invisíveis.

 

Câmera fechada no torso de um PM. Tiro no peito. A lente vai abrindo lentamente. Rosto. Outro tiro. Na testa. Corpo recostado no banco de uma viatura velha. Sangue espirrado. Nos vidros. No forro do teto.

 

A câmera continua abrindo. Plano geral. Ônibus em chamas ao fundo. Três bandidos gargalham. Pistolas de uso exclusivo do Exército. Cheiro de inépcia. Para a polícia, armas velhas e salário baixo. Para o tráfico, fronteiras abertas e dinheiro graúdo.

 

Close-up num nariz. Branco. Enorme. Bem-nascido. Câmera gira pelo ambiente. Sala decorada com esmero. Três carreiras de cocaína no centro de uma a bandeja. Fecha numa TV. Sintonizada no Jornal Nacional. Willian Bonner, de São Paulo, ao vivo: “A cidade vive dia de pânico”. O nariz gigante, bordas avermelhadas, balbucia: “Que horror!”

 

Corta para os lábios de Marcola, no celular. Voz pausada. Mas firme. “Não há existência fora da mídia. A sociedade nos vê agora. Cansamos do departamento de figurantes do mal. Somos protagonistas.”

 

Plano aéreo sobre o Palácio dos Bandeirantes. Corta para o gabinete de Cláudio Lembo. Olhos grudados no telefone. Alckmin não liga. Serra não liga. FHC não liga. A política só é solidária na divisão verbas e cargos.    

 

Plenário do Senado. Bocas de senadores rindo. Barrigas imensas. Discursos histriônicos. “A culpa é do PSDB, que governa São Paulo há 12 anos”, diz um. “Não, não. A culpa é do PT, que segurou as verbas”, contradiz outro.

 

Locução de Marcola, em off, sobre imagens de ambulâncias superfaturadas, deputados contando dinheiro. “A Casa Grande não aprende”, diz o cineasta do mal. Ele dita as últimas ordens ao celular: “Matem, queimem, barbarizem”. Exércitos de negros e cafuzos marcham sob o sereno de São Paulo. A cidade converte-se no insolúvel levado às últimas conseqüências.

Escrito por Josias de Souza às 19h28

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O silêncio dos inocentes

O silêncio dos inocentes

No Planalto

 

Decorrido mais de um ano do escândalo do mensalão, Delúbio Soares mantém-se em obsequioso silêncio. Trancado em seus rancores, carrega sozinho todas as culpas –as particulares e as alheias.

É eloqüente a mudez de Delúbio. Convém dar ouvidos ao seu silêncio. Apurando-se os tímpanos, pode-se escutar a denúncia embutida na ausência de manifestação do ex-gerente de arcas.

 

Há virtude no silêncio de Delúbio. As palavras que ele não diz gritam que o país foi governado sem método. Alardeiam o uso de meios que não justificam os fins. Bradam o emprego de táticas vis.

Silvinho Pereira, um sub-Delúbio, ousou triscar os lábios no trombone. Um emissário do politburo chamou-o à razão. E ele se fez de doido. Melhor assim. Os 53 milhões de eleitores vitoriosos em 2002 não suportariam a condição de cúmplices involuntários.

 

Há utilidade no silêncio de Delúbio. Sua quietude ajuda a amplificar pequenos rumores. Ruídos como o que foi produzido no último encontro nacional do PT. De tudo o que já foi dito acerca das perversões do petismo, nada soou mais desconcertante do que a decisão de adiar sine die o julgamento dos que conspurcaram a legenda.

 

O desaparecimento da voz de Delúbio pôde berrar ainda mais alto. Proclama que a história não-contabilizada do PT conduz o governo petista da prometida Canaã ética para algum obscuro inferno de depravações.

 

Há compaixão no silêncio de Delúbio. É graças a ele que o país pode conviver com a figura inacreditável do presidente cego. Mais do que nunca, entende-se a profunda grandeza das respostas que Delúbio vem calando há mais de 12 meses.

 

A mensagem invisível de Delúbio, expressada no silêncio de dezenas de entrevistas negadas, é cristalina. Informa que remoer o escândalo significaria trazer à tona um Luiz Inácio indigno do velho e bom Lula da Silva.

Há sabedoria no silêncio de Delúbio. Sem ele, a nação teria de conviver com a imoralidade do presidente conivente. Teria de enfrentar o escárnio do governo inaceitável. Teria de encarar a vergonha do Estado ocupado por saqueadores.

Há higiene no silêncio de Delúbio. Com sua mania deletéria de espiar pelas frestas de fatos idos, jornalistas, procuradores e outros desocupados apenas tentam remoer lixo. Não há do outro lado senão cenas de uma película sem mocinhos. Um filme cuja reprise inspiraria ânsia de vômito.

Um brinde, portanto, à insanidade de Silvinho! Uma salva de palmas às meias-verdades de Marcos Valério! Loas ao silêncio de Delúbio, a cada dia mais ensurdecedor!

Escrito por Josias de Souza às 21h46

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O nojo como instrumento de reação

O nojo como instrumento de reação

No Planalto

 

Candidato ao Planalto pelo PMDB, Ulysses Guimarães acabara de tropeçar nas urnas de 1989. Sob os efeitos do tombo, mandou um recado a Lula: bastaria um telefonema para que subisse no palanque do PT.


Lula passara raspando para o segundo turno. Batera Brizola por um triz. Contra Collor, precisaria de todos os aliados que fosse capaz de reunir. A estampa moderada de Ulysses suavizaria a pecha de radical que Lula trazia, então, grudada na testa.


Mas Ulysses afundou no mar gelado da baía de Angra com a mágoa do desprezo a roer-lhe a alma. Lula não telefonou. Alegou que a imagem do velho cardeal peemedebista estava associada à Nova República de José Sarney. E o PT tinha uma reputação a zelar.


Decorridos 17 anos, Lula, agora no Planalto, celebra o apoio daquele Sarney que, nos palanques de 89, chamava de “ladrão”. E busca desesperadamente o apoio de um PMDB que, sem Ulysses, convive com o ridículo de um Marotinho.

 

Sob a gestão do mesmo Sarney, o PMDB amargou em São Paulo uma dissidência que sangrou os seus quadros. Alegando que não podiam mais conviver com a fisiologia à Sarney e com a biografia turva de Orestes Quércia, à época governador paulista, luminares do peemedebismo decidiram fundar uma nova legenda.

 

Surgiu o PSDB de Franco Montoro, Mario Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Tachavam Quércia de “corrupto”. Dissentiam do “atraso” representado por Sarney. Guindado à presidência nas eleições de 1994, a moderna pseudo-social-democracia privilegiaria nos oito anos de FHC a mesma aliança com o arcaico. E, hoje, o PSDB disputa com o PT o apoio do mesmo Quércia que inspirou a inauguração do “novo”.

 

Quem é inimigo de quem na política?, eis a pergunta que atordoa o eleitor de 2006. Todos são inimigos de todos, eis a resposta. Mas, em política, inimizades não devem ser levadas a sério. Não resta ao observador senão extrair uma lição dessa seqüência de brigas e reconciliações desconcertantes: a política é a seara da farsa.  

 

Se é assim, se sempre foi assim, como decidir em quem votar? O repórter poderia “ensinar” que a construção da democracia supõe a capacidade do eleitor de distinguir diferenças. Mas se os dois partidos que as pesquisas apontam como favoritos trocam de máscara ao sabor das conveniências, se fazem questão de demonstrar que se irmanaram na perversão, o “ensinamento” soaria tolo, vão. Melhor não condenar aqueles que optarem por rasgar o título de eleitor. O nojo embutido no gesto não deixa de ser uma reação. Mais louvável do que a acomodação, diga-se.

Escrito por Josias de Souza às 22h09

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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