Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Entregando os pontos

Entregando os pontos

No Planalto

 

  O Grito/Edvard Munch
Ser brasileiro é eleger um Fernando Henrique e ser governado por outro, é comprar um Lula e entalar com 40 sapos, é festejar a chegada da esquerda à sala de estar e lamentar que ela a tenha transformado em depósito de dejetos, é dormir com o Zé Dirceu e acordar com o Bob Jefferson, é ouvir o “não vi nada” e concluir que amarraram o dono à vontade do burro, é observar a pose de Júlio César e descrer que ele possa ter ignorado uma legião de Brutus, é cogitar o impeachment do impensável e lembrar que o vice é o imponderável, é recordar a velha freirinha oposicionista e lastimar que ela tenha caído na vida, é confiar a salvação ao Congresso e descobrir que os deputados salvaram primeiro a conta bancária, é sintonizar na TV Câmara para ver a guilhotina e dar de cara com a impunidade, é ligar a TV de novo e testemunhar a desfaçatez, é ligar a TV uma terceira vez e assistir à dança do escárnio, é pretender a ética e obter a falta de estética, é descobrir que estão querendo te fazer de idiota e se dar conta de que encontraram farto material, é verificar que a democracia está com a cabeça a prêmio e desistir de ligar a TV, é ouvir o ruído dos ovos quebrando e deplorar que só 40 tenham provado do omelete, é procurar um herói e observar que ninguém fugiu a tempo, é buscar um limite e encontrar o exagero, é reclamar competência e ver que todos fazem o pior o melhor que podem, é fitar o ministro e descobri-lo criminoso, é buscar proteção no Estado e obter violação, é observar a estatura do homem público e agachar-se à procura de alguma altivez, é analisar o novo ministério e perceber que só mudaram os cúmplices, é perscrutar o passado e enxergar o Serjão, é olhar novamente para trás e ver o Ricardo Sérgio, é recuar mais ainda no tempo e praguejar o Cabral, é apelar para as profundezas da memória e ter saudades daquela fase casta e imaculada de Sodoma e Gomorra, é ouvir o discurso emplumado da “lavagem ética” e descobrir na seqüência que a promessa tem conta na Nossa Caixa e veste prêt-à-porter, é mirar o futuro e antever a disputa do seis contra o meia dúzia, é divisar o futuro de novo e descobrir-se condenado à esperança, é especular sobre uma terceira via e cair no cruzamento que leva ao topete mineiro ou ao safadinho carioca, é procurar a luz no fim e constatar que roubaram o túnel, é dar meia-volta e flagrar-se no centro do insolúvel, é reler os dez mandamentos e concluir que resultaram em fabulosas idéias, é rezar e descobrir que Deus não merece existir, é apelar para a paciência e verificar que ela está furiosa, é buscar as próprias culpas e só enxergar o inferno nos outros, é sentar à mesa e notar que o diabo não amassou pão suficiente, é juntar os carnês e concluir que a vida está acima das suas possibilidades, é desfilar de carro e sentir vergonha do privilégio, é ver a pobreza no semáforo e subir o vidro, é fitar o menino miserável e não saber se ele é o seu problema ou se você é o problema dele, é ser assaltado e ficar em dúvida se foi a vítima ou o culpado, é chamar a polícia e verificar que ela é o ladrão, é gritar pela Justiça e se dar conta de que ela mora longe demais, é procurar um coelho no mato e descobrir que dali só sai raposa, é sonhar com um musical e acordar numa comédia de costumes, é despertar sobressaltado e ter saudades do pesadelo, é esperar por dias ruins e topar com dias piores, é procurar forças para reagir e entregar, finalmente, os pontos.

Escrito por Josias de Souza às 19h00

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O Petróleo é nosso. E do Irã também

O Petróleo é nosso. E do Irã também

No Planalto

 

O Brasil está em festa. A máquina marqueteira do governo foi acionada para faturar eleitoralmente a obtenção da auto-suficiência na produção de petróleo. Significa dizer que a Petrobras vai produzir em 2006 uma média diária de barris de óleo (1,9 milhão) superior à média de consumo nacional (1,8 milhão de barris por dia).   

 

Sem querer estragar os festejos, vai aqui um aviso aos navegantes: não há razão para tanto regozijo. Antes de soltar fogos, convém prestar atenção na encrenca que está sendo armada no mercado petrolífero mundial. Vale a pena, de resto, notar que o êxito brasileiro foi construído sobre os pilares do crescimento econômico medíocre.

Na mesma sexta-feira em que Lula, imitando o gesto de Getúlio Vargas, molhou as mãos de óleo na bacia de Campos (RJ), o perigo se insinuava nas cotações do mercado internacional. O petróleo negociado em Nova York fechou acima de US$ 75 o barril.

No mercado de Londres, referência na Europa, a cotação do barril bateu em US$ 73,18, um pequeno recuo em relação ao preço da véspera (US$ 74), o nono recorde consecutivo. A alta mundial do petróleo tem nome. Chama-se Mahmud Ahmadineyad.

Mercê de suas aspirações nucleares, o presidente do Irã, segundo maior produtor da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e quarto maior produtor do mundo, injeta nervosismo na cena internacional. A perspectiva de que a ONU imponha sanções ao Irã ou de que Washington resolva jogar bombas sobre a cabeça de Ahmadineyad, impregnam o futuro da economia global de dúvidas.

Admita-se que os novos patamares de produção da Petrobras acomodam o Brasil em posição de menor vulnerabilidade do que a que se encontrava na crise petrolífera dos anos 70. Mas só o desvirtuamento próprio de ambientes pré-eleitorais pode levar à desconsideração da evidência de que não estamos alheios ao risco.

Não é preciso ser economista para intuir que, caso os preços do petróleo atinjam patamares que prejudiquem os EUA, o crescimento do PIB global será posto em risco. Com impactos nefastos em países emergentes como o Brasil.

Entra-se, então, no segundo ponto ofuscado pelas comemorações. Graças aos méritos da Petrobras, a auto-suficiência viria cedo ou tarde. Veio mais cedo porque o crescimento econômico (média anual de 2,32% sob FHC e de 2,54% sob Lula) vem sendo ridículo. Uma evolução mais vigorosa do PIB resultaria em aumento do consumo de petróleo e a aclamada auto-suficiência cairia por terra em pouco tempo.

Ou seja, estamos estourando champanhe pela nossa desgraça. Celebramos os efeitos –a auto-suficiência—, sem reparar na causa –o desempenho medíocre da economia. De quebra, fechamos os olhos para o desastre que se arma lá fora. Um desatino que pode resultar em PIBs ainda mais constrangedores. Não há de ser nada. Crescendo menos, logo estaremos erguendo novos brindes pelo desempenho ainda mais vigoroso da Petrobras. O petróleo, afinal, é nosso.

Escrito por Josias de Souza às 18h06

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Bem e mal

Bem e mal

No Planalto

 

Todo santo traz o tinhoso enterrado dentro de si. O poeta gaúcho Mario Quintana, que se autodefinia como ''herege de todas as religiões'', lançou no ar, ou melhor, no papel, uma pergunta instigante: ''Mas quem sabe se o diabo não será o mister Hyde de Deus?''

Há na Bíblia uma passagem que reforça as suspeitas de Quintana: o episódio da expulsão dos vendilhões do templo. A pretexto de defender a casa de Deus, Jesus pôs para correr os que dela se serviam como praça de comércio. Chicote em punho, o Cristo estava como que tomado por um espírito maligno.

 

Mas por que diabos se está a invocar o lado Hyde de Deus numa semana dedicada à consagração de seu filho? Não há aqui o sentido da ofensa aos que têm fé. Está-se apenas tentando demonstrar quão difícil é separar o bem do mal. Se nem Deus nem o seu filho estão à salvo da desconfiança, quem estará?

 

Na seara política, a dificuldade de distinguir o médico do monstro é ainda maior. O PT, por exemplo, se esforça para demonstrar que não há bem-aventurança além das fronteiras do seu governo. Lula comporta-se como um deus, portador da verdade suprema, único capaz de conduzir a nação à excelsa glória. “Ninguém nunca fez tanto por esse país nos últimos 500 anos”.

 

Porém, diferentemente do Deus autêntico, o Todo-Poderoso do petismo não é dotado do dom da onipresença. A julgar pelo que diz, Lula “Não Sabia de Nadinha” da Silva não viu os malfeitos que seus discípulos praticaram à sua volta.

 

Pouco magnânimo, o Senhor do PT tenta acomodar toda a vilania nos ombros do Congresso, como se o Executivo estivesse limpo. Esquece-se de que foram os seus 40 apóstolos que alimentaram a sem-vergonhice e a fisiologia, remunerando-as regiamente.

 

Bem verdade que o hábito da cenoura não foi introduzido na cena nacional por Lula. Quando ele chegou ao olimpo, os coelhos do Congresso já estavam habituados à ração farta. O PSDB de Geraldo Alckmin, que agora se apresenta como candidato à restauração moral, foi, sob FHC, um propulsor da imoralidade.

 

O tucanato já teve a sua oportunidade de inaugurar o moderno. Preferiu, porém, chafurdar no arcaico. Pseudo-salvador, FHC desfilou pelo reino de mãos dadas com o atraso. Como Lula, avaliou que nada o atingiria. A ousadia custou ao PSDB um preço que agora é imposto também ao PT: a perda do apuro, da elegância. Ontem como hoje, os soberanos vêm sendo submetidos a formidáveis déficits estéticos.

 

Há tempos que a rotina brasiliense concentra-se no escândalo. O tilintar de verbas e cargos já não consegue deter a corrosão. Logo o eleitorado há de perceber que o diabo não está mais nem à esquerda nem à direita. Ele está no meio de nós, em toda parte. Num cenário que já não pode ser esquematicamente dividido segundo os critérios do dogmatismo ideológico, mister Hyde apossou-se em definitivo da alma de mister Jekyll.

Escrito por Josias de Souza às 19h22

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Idéias e fatos

Idéias e fatos

No Planalto

 

Em metáfora célebre, Hegel anotou que a "Coruja de Minerva só voa quando o crepúsculo chega". Quis dizer que só se pode compreender o tempo presente depois que ele já tiver se esgotado. Em outras palavras, só entenderemos por que caímos no buraco quando já estivermos bem lá no fundo.

 

Agora mesmo, num instante em que o Brasil se prepara para ir às urnas, muitos têm dificuldade de enxergar o sentido da democracia. Perguntam-se, entre estupefatos e angustiados: qual é a sua lógica? Que benefícios ela nos trouxe? Em quê ela melhorou a vida dos brasileiros?

 

Vive-se uma fase de estreitamento de ideologias e conceitos. Já não estão em jogo as diferenças programáticas. No topo das preferências eleitorais, PT e PSDB, igualados na sujeira, buscam a distinção numa gincana de lama. Leva o troféu o partido que conseguir provar que o outro está mais atolado no lodo.

 

Intelectuais e formadores de opinião, pseudofaróis da humanidade, encontram-se imersos num mar de angústias reflexivas. Já não conseguem disfarçar a ausência de entendimento acerca do que se passa com o país. Foram condenados ao limbo da dúvida por uma democracia que roda a esmo, como parafuso de rosca espanada.

 

O eleitor vai à cabine com a impressão de que vai trocar de conto-do-vigário. Sai de um logro para cair em outro. Os ditos valores democráticos perdem-se em meio à “realpolitik” que conduz o salvador de plantão às inexoráveis alianças com o atraso. Alianças que perpetuam o ciclo de corrupção.

 

O país vive num escuro eterno. Roubaram-lhe até o túnel. De modo que é impossível enxergar luz no fim da linha. O eleitor convive com a incômoda sensação de que está mais próximo da Idade Média do que da Renascença. Na era da informação instantânea, vê-se às voltas com a barbárie de fatos inexplicáveis. 

 

Situados no baixo-ventre da nacionalidade, os desgraçados da sorte oscilam entre a morte e a deglutição dos excrementos que o modelo econômico permite que lhe caiam sobre a mesa. Como em toda eleição, a miséria será novamente guindada à condição de prioridade retórica. A exploração do desespero dá voto. Não demora e estarão prometendo a criação do Programa Bolsa Paraíso, para assegurar uma vaga no céu a todo desgraçado que não tem onde cair morto em sua inexistência terrena.

 

A solução da miséria morreu junto com os socialistas. Encontra-se soterrada sob os escombros conceituais do velho muro-de-arrimo de Berlim. A Rússia leva o primeiro brasileiro ao espaço. Mas não serve mais como fonte de utopias redentoras.

 

Caímos na armadilha do ufanismo galáctico antes de resolver o flagelo do inferno terreno. Para arranhar os céus, gastamos um dinheiro que nos falta para enterrar na terra baldia as manilhas do saneamento básico. Não há de ser nada. Vem aí o horário eleitoral “gratuito”. Sugere-se ao eleitor abaixar o som do rádio e da TV e colocar Cazuza no toca-disco: “O tempo não pára... E as idéias não correspondem aos fatos”. Não vai resolver o problema. Mas, a essa altura, o rock é um lenitivo mais eficaz do que patacoada da política.

Escrito por Josias de Souza às 19h39

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Opinião Pública

Opinião Pública

No Planalto

 

Sempre que Brasília ganha uma aparência de caverna de Ali-Babá, seus atores costumam trazer à cena um personagem contraditório. Todos o conhecem. E, no entanto, ele não tem cara. Ele está em toda parte. Porém, ninguém o vê. Seu nome? Opinião Pública.

 

“Deus do céu, o que dirá de nós a Opinião Pública?”, pergunta um. “A Opinião Pública está irritadíssima”, constata outro. “Não podemos dar as costas à Opinião Pública”, ensina outro mais. “A resposta da Opinião Pública será implacável”, receiam alguns.

 

Nunca houve tanta preocupação com a Opinião Pública. Jamais o nome da Opinião Pública foi tão invocado. A tal ponto que, se não fosse invisível, se tivesse voz própria, a Opinião Pública decerto já teria reagido ao novo status que lhe atribuem:

 

“Ora, senhores, por favor, me digam: que conluios, que manobras, que mentiras, que patranhas foram canceladas em respeito a mim? De onde vem esse meu pseudoprestígio? Desde quando ‘euzinha’ tenho toda essa importância? Ora, francamente, me deixem em paz!”

 

De fato, as únicas opiniões que o Brasil de Brasília costuma levar em conta são as do travesseiro e a do espelho. E, como se sabe, travesseiros e espelhos têm uma enorme vocação para a indulgência. Relevam tudo, mesmo os pecados mais hediondos.

 

Em conseqüência, a Opinião Pública continua assistindo ao espetáculo em que sordidez vira galardão. Antes, a desonestidade escondia-se pelos cantos. Agora, exibe-se de peito aberto. Chega mesmo a ensaiar passos de dança no plenário da Câmara. O segredo deixou de ser a alma do negócio.

 

“Vossa Excelência sacou dinheiro do valerioduto?”  “Saquei, sim, e daí?”. “Mas Vossa Excelência não pertence ao partido da ética?” “O caro colega não pode falar em ética. Valério é invenção do vosso partido. Não criamos o roubo, apenas demos continuidade à obra do grupo de Vossa Excelência.”

 

O país atravessa uma quadra de cinismo inaudito. Ministros bonzinhos ejaculam mentiras. O candidato cego só vê o que lhe convém. O candidato do “banho de ética” não lava o próprio quintal. Busca-se a igualdade na perversão, a semelhança na culpa.

 

A Opinião Pública está prestes a encontrar-se com o seu meio de expressão: a urna. É o seu maior alto-falante. Talvez o único. É por meio das urnas que ela, a Opinião Pública, indica aqueles que estarão autorizados a falar em seu nome.

 

A Opinião Pública não tem se expressado convenientemente nos últimos tempos. Devolve à vida personagens que pareciam mortos. Gente como Jader “Sudam” Barbalho, Severino “Mensallinho” Cavalcanti e um interminável etc. Vem daí todo o problema. Como pode ser respeitado alguém que não se dá ao respeito?

Escrito por Josias de Souza às 18h27

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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