Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Nada a ver

Nada a ver

No Planalto

 

 

O governo não tem nada a ver com a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Os extratos saíram dos computadores da Caixa Econômica Federal, banco subordinado a Antonio Palocci e dirigido pelo petista Jorge Mattoso. O principal suspeito de ter vazado o papelório para a imprensa é um assessor direto de Palocci. Mas o governo não tem nada a ver com isso.

 

Os integrantes da “República de Ribeirão Preto” alugaram uma mansão no Lago Sul de Brasília, para promover negócio$ e festas. O caseiro Francenildo viu Antonio Palocci entrar na casa. O motorista Francisco das Chagas também viu. O ministro, antes enfático nos desmentidos, agora se esquiva de assuntos “baixos”. Natural. Ele não tem nada a ver com essa turma que o assessorou ao tempo em que era prefeito.

 

O caseiro migrou da condição de testemunha para a posição de investigado. O Coaf, órgão submetido ao comando de Palocci, suspeita que os R$ 25 mil em depósitos supostamente recebidos de um “pai não-contabilizado” configuram indício de “lavagem dinheiro”. A Polícia Federal quebrou os sigilos bancário, fiscal e telefônico do pobre. Justo, muito justo, justíssimo. Quem mandou um “simples caseiro” sair do anonimato para denunciar fatos com os quais nem Palocci nem o governo têm nada a ver?

 

Jorge Mattoso causou revolta ao pedir 15 dias para esclarecer, em rigorosa sindicância, a violação da conta do caseiro. Os modernos recursos da informática permitiriam que a coisa fosse desvendada em poucos minutos. A própria Caixa reconhece já ter identificado os dois operadores da máquina sob suspeição. A cautela quinzenal é, porém, mais do que justificável. Como nem Palocci nem Mattoso nem o governo têm nada a ver com a tentativa de desmoralizar o caseiro-algoz, é preciso considerar a hipótese de que os tais extratos tenham saltado dos computadores da Caixa por vontade própria. Só para complicar gente que não tem nada a ver com o peixe.

 

Aproveitando-se da crise que o governo fabricou, a oposição maledicente volta a cobrar a abertura das contas bancárias de Paulo Okamotto, o amigão que liquidou a dívida de R$ 30 mil que Lula tinha com o PT. Jogo de cena eleitoral. Todos sabem que Lula não tem nada a ver com essa dívida. Aliás, o Planalto já disse que o débito jamais existiu. Lula não tem culpa se Okamotto, generoso como ele só, resolveu sacar dinheiro vivo de suas próprias contas para liquidar uma dívida inexistente.

 

As almas puras e os espíritos desarmados têm a obrigação de acreditar que o governo, o presidente, o ministro, a assessoria do ministro e o presidente da Caixa Econômica não têm nada a ver com a confusão que sacode Brasília. Deve-se dar crédito à tese porque ela é coerente. Ora, se o governo não teve nada a ver com nada durante mais de três anos, por que teria justamente agora? 

 

Para poupar a voz das autoridades que falam em nome do petismo, Lula deveria mandar instalar uma placa na frente dos prédios públicos, a começar do Planalto. Diria o seguinte: “O governo não tem nada a ver com nada disso.”

Escrito por Josias de Souza às 22h31

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O risco Palocci

O risco Palocci

No Planalto

 

Para azar de Antonio Palocci, máquina do tempo é coisa que só existe na ficção científica. Não há como modificar os tempos idos. No passado, Palocci via o futuro. No presente, ele só vê o passado passando. Ilhado na sua Tróia fazendária, o ministro recebe visitas freqüentes de cavalos gregos enviados de sua Ribeirão Preto pretérita.

 

A julgar pelo que dizem a polícia e o Ministério Público de São Paulo, Palocci promoveu em Ribeirão uma $anta ceia. Agora, Rogério Buratti, o Judas particular do ministro, cobra-lhe a conta em separado. Não há trinta dinheiros que contenham a língua do ex-assessor no interior da boca. Movem-lhe razões sentimentais.

 

Curiosamente, o menor problema do ministro da Fazenda passou a ser a dívida pública de R$ 1.000.000.000.000,00. O trilhão cevado a juros é um desastre que o número dois da República petista pode dividir com Pedro Malan, o segundo homem da era tucana.

 

O que tonifica o risco Palocci são as acusações que o transformam de gato em onça pintada. Malfeitorias municipais, vôos em jatinhos de empresários-companheiros e visitas a uma mansão onde negócios e pernas se entrelaçavam são confusões que Palocci não tem com quem repartir. Malan não administrou Ribeirão, não tem um amigo chamado Roberto Colnaghi e prefere a leitura às festas.

 

A crise de confiança que desvaloriza Palocci decolou no instante em que se descobriu que, já ministro, Sua Excelência voou em jatinho privado. Levava a tiracolo José Genoino, ainda presidente do PT.

 

Pilhado, Palocci saiu-se com três patranhas. Primeiro, negou que estivesse a bordo. Desarmado, sustentou que viajara como carona de Genoino. O PT alugara o avião. Desmentido pelo dono da aeronave, apresentou-se como vítima de um equívoco lingüístico: "Recorri inadvertidamente à expressão alugou, sem me apegar à acepção estrita do termo".

 

Desde então, Palocci, Lula e todo o governo vêm enganando a si mesmos com a lorota de que as denúncias que se acercam do Ministério da Fazenda não passam de antecipação da campanha eleitoral. Bobagem. São ecos de um passado incestuoso. Pode-se acusar a oposição de amplificar a encrenca, mas não de tê-la criado.

 

As indiscrições de Buratti, agora ecoadas por caseiros e motoristas, apenas reforçam a impressão de que na Ribeirão Preto de Palocci operou-se um esquema que, comum a outras administrações municipais petistas, foi precursor das arcas delubianas.

 

Vem daí que a ampulheta do ministro, em vez de areia, derrama-lhe sobre a cabeça as espadas de um tempo que, embora decorrido, insiste em não passar. 

Escrito por Josias de Souza às 03h11

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Elegia dos 'novos' tempos

Elegia dos 'novos' tempos

  Banana/Antônio Henrique Amaral
Foram-se as ilusões

os sonhos e os ideais

vieram os mensalões

o alpiste e os pardais

 

Nada era o que parecia

nem puros nem vestais

o bicho-papão era a tia

de todos os carnavais

 

Jeffersons e Valdemares

Sarneys e Renans

Azares e Calabares

sapos e rãs

 

A esquerda falida

o socialismo pelo cano

a mudança esquecida

o Palocci é tucano

 

Delúbios e Dirceus

Silvinhos e Genuínos

Valérios e os seus

cobras e suínos

 

Ah, quanta cumplicidade!

Eu enfurno e tu (en)furnas

é dura a realidade!

O cifrão manda nas urnas

 

Agora vêm as sentenças

livram-se Brants e Luizinhos

é o fim das últimas crenças

já não há mais mocinhos

 

Eleitores sós e esquecidos

ninguém cassa ninguém

ética é coisa de tempos idos

o voto não vale um vintém
 
PS.: O quadro que ilustra a coluna pertence ao Museu Faap. Clicando sobre a imagem, você pode visitar todo o acervo. Vale o desperdício de um naco do seu tempo.

Escrito por Josias de Souza às 17h57

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Arma-se o caixa dois de 2006

Arma-se o caixa dois de 2006

No Planalto

Enquanto o PSDB se esmera na encenação do seu melhor papel -o de equilibrista em cima do muro-, nas coxias, à meia-luz, os partidos manuseiam os primeiros orçamentos de campanha. Estima-se que, em 2002, entre verbas oficiais e clandestinas, a plutocracia despejou nas arcas dos dois candidatos que foram ao segundo turno (José Serra e Lula), cerca de R$ 450 milhões. Para 2006, espera-se um rateio mais magro: algo entre R$ 250 e R$ 350 milhões.

No PT, os primeiros contato$ com o mundo do capital devem ser feitos pelo ministro Antonio Palocci (Fazenda). Não será o tesoureiro oficial. Mas vai manusear o arado antes da semeadura. No PSDB, ainda não há clareza quanto ao nome do responsável pela preparação do terreno.

Os primeiros sinais emitidos pelos donos do cofre indicam que os nomes mais sedutores aos olhos do empresariado são os de Lula e Geraldo Alckmin. Curiosamente, José Serra é visto neste universo como um personagem “menos previsível”. E, portanto, “menos confiável”.

No Brasil, como se sabe, campanhas eleitorais movimentam dois tipos de dinheiro: o oficial e o paralelo. Diplomático, o dinheiro oficial costuma adular todos os candidatos. Pragmática, a grana paralela é seletiva. Acerca-se mais de uns do que de outros. Em 2006, não será diferente.

A despeito dos escândalos, o grosso do numerário tende a escorregar para as escriturações clandestinas. Com uma diferença. A descoberta de que Lula não come criancinhas eliminou da cena de 2006 a “lulofobia” que envenenou a coleta de 2002. O PT não precisará recorrer neste ano a amadores como Marcos Valério.

A chamada iniciativa privada flutua sobre os comitês de campanha como nuvens. Conforme o seu interesse, pode chover sobre a cabeça de um candidato ou deixá-lo na inclemência. Os senhore$ do tempo informam que não se deve esperar por nenhum temporal em 2006. As chuvas serão esparsas. Mas a água que cair sobre o comitê do PSDB, tende a pingar também no quintal do PT.

 

Preocupados com a possibilidade de envolvimento da Receita Federal na fiscalização do dinheiro de campanha, os doadores exigem “profissionalismo” das tesourarias partidárias. Grandes doadores não estão dispostos a amargar o vexame da exposição pública.

 

Nas empresas de porte, entre elas bancos e indústrias, os arranjos contábeis sofisticaram-se nos últimos anos. Distanciaram-se daqueles contratos de assessoria firmados com a EPC, a empresa de PC Farias que fez com que gente graúda tivesse de dar explicações à polícia no rastro do Collorgate.

 

De concreto, tem-se o seguinte: 1) os escândalos da temporada petista reduzirão o tamanho do caixa dois, mas não extinguirão a prática. 2) como sempre, o próximo presidente da República, seja ele quem for, chegará ao Palácio do Planalto embalado pelo pior tipo de ilusão. A ilusão de que governa, a despeito da marca do Zorro que traz na testa.

Escrito por Josias de Souza às 23h45

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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