Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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“Estamos todos em estado de graça”

“Estamos todos em estado de graça”

No Planalto

No ano da graça de 2005, os bancos brasileiros festejaram a maior taxa de crescimento da última década. As 24 casas bancárias que já divulgaram os seus resultados acumularam no ano passado um lucro líquido de formidáveis R$ 19,975 bilhões. Equivale a 43,8% a mais do que os R$ 13,893 bilhões que o mesmo grupo amealhara em 2004. Os cálculos são da consultoria Austin Ratings.

Num cenário assim, nada mais natural que o presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, abrisse a entrevista que concedeu aos jornalistas na última quarta-feira com o comentário reproduzido acima. Impossível evitar o “estado de graça”. Sobretudo considerando-se que, no caso da casa bancária dirigida por Cypriano, o lucro obtido em 2005 foi o maior de toda a sua história de 62 anos: R$ 5,514 bilhões.

Cevada pelos juros lunares praticados durante os oito anos de PSDB (Partido de Salvação dos Bancos), as empresas financeiras vêem-se agora ainda mais aquinhoada sob o PT (Partido das Taxas). Sob Lula, que prometera mudanças, as taxas de juros mantiveram-se na estratosfera. Lá se vão dez anos de estagnação econômica. Em 2005, informa o IBGE, o PIB esteve ao rés do chão -cresceu pífios 2,3%. Não fosse pelo Haiti, estaríamos na lanterninha da América Latina.

  

O governo não se dá por achado. Argumenta que os juros estão caindo. O problema é que se você, caro leitor, está endividado, isso importa muito pouco. Levantamento feito pelo próprio Banco Central demonstra que a redução não resulta em benefício para a clientela dos bancos. As instituições de crédito não reduziram os juros cobrados em seus guichês. Pior: aumentaram.

 

O comércio de dinheiro tornou-se um dos negócios mais rentáveis do país. Se você tem dinheiro para aplicar, a banca lhe paga remuneração de 16,5% ao ano. Se, ao contrário, precisa de um empréstimo, ela lhe cobra 46,1%. Quem entra no cheque especial paga taxas de mais de 140%. Um acinte.

 

A Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) alega que os juros são altos porque a inadimplência é grande. Beleza. Para proteger-se do calote, o banqueiro prefere avançar no bolso de quem paga em dia a aprimorar os seus controles. O argumento, de resto, é falacioso. A inadimplência, informa o BC, afeta irrisórios 4,4% da carteira de empréstimos dos bancos. Um percentual que não justifica a abissal diferença entre a remuneração do dinheiro captado e o juro da grana emprestada.

 

Como se fosse pouco, o ministro Nelson Jobim, em voto proferido no STF na última quarta-feira, concluiu que serviços financeiros -empréstimos bancários, por exemplo- não estão sujeitos às regras fixadas no Código de Defesa do Consumidor. A decisão do Supremo só foi adiada porque um colega de Jobim, Eros Grau, pediu tempo para analisar melhor o processo.

 

Como se vê, só há um modo de arrefecer o secular problema da exclusão social no Brasil. Os excluídos devem declarar-se extintos como pessoas físicas e se reorganizar como bancos. É o único modo de atingir o “estado de graça” nesta terra de palmeiras, sabiás e juros altos. De resto, sempre que se falar doravante em assalto a bancos, convém adicionar uma pergunta: de fora para dentro ou de dentro para fora?

Escrito por Josias de Souza às 23h35

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A culpa não é de Brasília

A culpa não é de Brasília

No Planalto

   Oscar Niemeyer
Responda rápido: você já tem candidato a deputado federal? Já sabe em quem vai votar para senador? Se você disse sim, saiba que muitos desconfiarão da sinceridade da resposta. A maioria dos eleitores não tem candidato. Pior: não sabe quem são os candidatos. Muito pior: não se lembra nem mesmo em quem votou nas últimas eleições. Muitíssimo pior: não está se importando com nada disso. 

O eleitor brasileiro tem hediondo desinteresse pelas eleições para o Senado, Câmara e Assembléias Legislativas. O fenômeno, já confirmado por várias pesquisas de opinião, tem influência direta na qualidade dos legislativos federal e dos Estados. Uma coisa não vai mudar sem que a outra também se altere.

 

O eleitor tende a concentrar as suas atenções na eleição para presidente. Agora mesmo, a julgar pelo resultado das pesquisas, produz-se uma polarização antecipada entre PT e PSDB. É mais fácil acompanhar esse Fla-Flu do que pescar naquele mar de caras que daqui a pouco vai inundar a tela da televisão um semblante confiável para enviar à Câmara ou ao Senado.

 

Algo precisa mudar na percepção do eleitorado em 2006. As pessoas imaginam que a escolha do chefe do Executivo é mais importante do que a seleção do time de congressistas. É um erro. Note-se que, na disputa pelo Planalto, PT e PSDB travam um campeonato em que um partido tenta impingir ao outro o troféu de maior ladrão da história republicana. Perceba-se também que, na raiz de todos os escândalos está o sistema de escambo que permeia as relações do Executivo com o Legislativo.

 

Sob os efeitos do escândalo do mensalão, o regime da “propinocracia” obteve uma visibilidade jamais vista. Aquilo que se insinuara no caso da compra de votos para a reeleição de FHC, em que foram pilhados cinco parlamentares do Acre, agora chegou a um paroxismo vulcânico. Ou seja, convém ao eleitor escolher –ou tentar escolher- candidatos que lhe pareçam honestos. Algo que não combina com o descuido.

 

Não é fácil. Mas o descuido torna a coisa ainda mais difícil. Se o eleitor dispensar à eleição para o Congresso metade da atenção que dispensará à Copa do Mundo, o país já estará diante de um belo começo.

 

O eleitor não é, diga-se, o único culpado. No esforço para avaliar os candidatos, ele não conta com nenhuma ajuda dos meios de comunicação. A mídia se exime da tarefa de auxiliar os consumidores de notícia a selecionar, entre as tantas vozes que se lançam ao pleito legislativo, aquelas que soam mais confiáveis. O resultado é que, em meio à algaravia da eleição, termina-se não ouvindo ninguém.

 

Ou todos se unem para corrigir essa encrenca, ou logo estaremos rendidos ao mais comum dos hábitos nacionais: a lamentação depois do fato. Não demora e o país estará pondo a culpa, de novo, em Brasília. Como se o regime do "separa aí os meus 15%" tivesse começado com a chegada das máquinas das grandes empreiteiras ao cerrado.

 

Não, a culpa não é de Brasília. Puxe pela memória. Tente se lembrar do nome do deputado e do senador a quem você deu o seu voto. Você talvez se descubra um cúmplice. Expie as suas culpas e abra o olho.

Escrito por Josias de Souza às 02h59

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Indignação seletiva

Indignação seletiva

No Planalto

Stephen Dedalus, do Joyce, disse: "A História é um pesadelo do qual eu estou tentando acordar." O brasileiro poderia dizer algo semelhante. O Brasil, não é de hoje,  tornou-se um pesadelo perene, do qual vem sendo impossível despertar.

O sono anda tão conturbado que se passou a adotar o princípio da indignação seletiva. Em meio a tantos escândalos, uns se sucedendo aos outros, o país relega a um plano secundário as perversões supostamente “menores”.

Foi o que aconteceu na semana passada com um episódio envolvendo o deputado Inocêncio Oliveira (PMDB-PE). Em julgamento realizado na última terça-feira, o TRT do Maranhão condenou-o a indenizar 53 trabalhadores mantidos numa fazenda de sua propriedade em condições análogas à de escravos.

Embora bombástico, o episódio teve repercussão de traque. A imprensa o noticiou burocraticamente. E foi cuidar de outros escárnios. Inocêncio continuou deslizando os sapatos pelos corredores da Câmara como se nada tivesse acontecido.   

O episódio demonstra os perigos a que está sujeita uma sociedade imersa em pesadelo eterno. Súbito, o país se descobre em estágio de abulia profunda. O anormal vai ganhando ares de hedionda normalidade.

Inocêncio não é um qualquer. Tem assento na mesa diretora da Câmara, Casa que já presidiu. Sob FHC, chegou mesmo a responder interinamente pela presidência da República, na qualidade de substituto constitucional, por nove vezes entre 93 e 94.

A senzala de Inocêncio foi estourada em 2002, numa visita de fiscais do Trabalho à fazenda Caraíbas, que o deputado mantinha nos fundões do Maranhão. Francisco Dornelles (PFL-RJ), ministro do Trabalho de então, apressou-se em esclarecer que não havia “elementos que caracterizassem a existência de trabalho escravo” na Caraíbas.

Inocêncio disse à época que, "como em toda fazenda da região e do Brasil", os serviços temporários são gerenciados por um "gato", que contrata mão de obra avulsa. "Não tenho relação com esse processo", disse. Ou seja, o deputado estava para a senzala de sua fazenda assim como Lula está para o descalabro do mensalão.

Inocêncio desfez-se da propriedade. E o Brasil foi descascar outros escândalos. Num país em que dois empregados de uma fazenda de FHC só tiveram a carteira assinada no dia seguinte ao lançamento de sua candidatura à Presidência, em 1994, aquele era um deslize menor.

O diabo é que a Justiça continuou debruçada sobre a encrenca. Inocêncio foi condenado em primeira e segunda instância. Não contasse agora com o benefício da indignação seletiva, o deputado estaria padecendo o seu pelourinho particular.

Fica-se a imaginar o que seria do Brasil se o brasileiro tivesse voz, se pudesse protestar contra o que lhe fazem, se tivesse acesso à tribuna da Câmara para pronunciar discursos indignados acerca das mentiras que lhe dizem, se dispusesse de canais para reclamar tudo que lhe vem sendo negado. Se o brasileiro não estivesse condenado ao silêncio, esse país decerto seria bem menos “Inocêncio”.

Escrito por Josias de Souza às 02h13

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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