Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Uma disputa entre o mesmo e o de sempre

Uma disputa entre o mesmo e o de sempre

No Planalto

PT ou PSDB? Eis a pergunta que se insinua como inevitável nas pesquisas de opinião. Até num exame vestibular o sujeito pode optar por uma entre quatro alternativas. Na eleição presidencial de 2006, porém, deseja-se impor ao eleitor a armadilha da pergunta única.

Numa disputa presidencial, como se sabe, elege-se quase sempre a melhor encenação, não o melhor candidato. Estão aí os exemplos mais recentes. FHC foi alçado à presidência sob o manto da social-democracia. Patrocinou o descaso social. Reeleito em meio ao sonho do dólar a R$ 1,20, produziu o pesadelo da estagnação econômica.

Lula venceu em 2002 graças à ânsia de mudança. Pesquisas da época indicavam: 80% dos brasileiros queriam mudar. No essencial, que é a economia, o petismo entregou-se ao continuísmo. Manteve e aprofundou a ortodoxia paralisante do tucanato.

Agora, deseja-se convencer o eleitorado de que ele deve se dar por satisfeito com a ausência de alternativas. Ou vamos de Lula X Serra ou de Lula X Alckmin. E ponto final. É como se o país estivesse condenado a uma espécie de quarto mandato à FHC.

Sonega-se ao eleitor até mesmo o teatro de praxe. PT e PSDB vão à prateleira como compoteiras vazias. Falta-lhes o caldo que dá gosto a qualquer pleito. O caldo doce da novidade. Até o discurso dos dois partidos insinua-se como semelhante. Afora a lama que um jogará sobre o outro, ambos prometerão o crescimento econômico que, no exercício do poder, não foram capazes de prover.

Priva-se o país da utopia do novo. Em 2002, Lula, encarnava uma opção que, de tão novidadeira, teve de escorar-se num conjunto de “nãos”: não implantaremos o socialismo, não romperemos com o FMI, não decretaremos a moratória, não desrespeitaremos contratos, não jantaremos criancinhas, não isso, não aquilo...

Em 2006, a pregação de campanha talvez possa ser resumida num único não: não voltaremos a fazer as coisas que fizemos. A plataforma serve tanto para PT quanto para PSDB. E quem quiser que acredite. Ou procure uma alternativa. Se conseguir encontrar.

Antigamente a coisa era fácil. Os generais escolhiam entre eles quem seria o próximo presidente, e a arrogância do regime nos absolvia de nossas culpas. Democracia dá mais trabalho. A nossa está chegando à fase adulta. Talvez o eleitor já tenha aprendido que a decisão está nas suas mãos.   

Enquanto Lula decide entre o ser e o não ser e o PSDB opta entre o chuchu e o pepino, você, caro leitor, pode refletir sobre a armadilha que estão lhe aprontando. Caia no Fla-Flu das pesquisas, se quiser. Ou cobre um pouco mais de consistência no debate eleitoral.

Escrito por Josias de Souza às 09h40

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O ziguezague de Lula

O ziguezague de Lula

No Planalto

 

Que presidentes da República conspiram contra CPIs urdidas para investigar-lhe as entranhas é algo de que ninguém mais duvida. Lula, porém, decidiu inovar. Deflagrou articulação para sufocar uma CPI concebida para varejar atos praticados pelo seu principal inimigo político. Eis aí algo que a crônica política jamais havia registrado.

 

Num gesto inusitado, Aldo Rebelo (PC do B-SP) assinou o ato de constituição da CPI das Privatizações. A militância petista soltou fogos. A página do PT na internet noticiou a boa nova. Súbito, o ministro Jaques Wagner (Coordenação Política) disse que o governo não tem interesse no funcionamento da CPI. O líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP) pôs-se a ponderar sobre a inconveniência do novo foco investigativo.

 

Ou seja, o mesmo PT que, junto com a CUT, organizou barricadas na porta da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro para chutar o traseiro dos plutocratas, recusa, pela segunda vez, a oportunidade de arrancar o véu diáfano que recobre as leviandades cometidas antes e depois dos leilões de privatização.

 

A primeira oportunidade fora desperdiçada logo depois da posse de Lula. Vivia-se a fase do êxtase da transição civilizada. FHC estendera um tapete vermelho para o sucessor. E Lula achou que não era hora de brigar. Arrependeu-se depois. Mas era tarde. A escavação das mazelas do tucanato soaria como manobra para encobrir as próprias faltas.

 

E por que Lula recusa-se a aproveitar a nova oportunidade? Simples. A CPI das Privatizações passou a ser mais útil como instrumento de campanha do que como ferramenta investigatória. Convém ao petismo que ela fique flutuando sobre a cabeça do PSDB. Sempre que o tucanato espargir lama no horário eleitoral gratuito, o PT fará soar a ameaça da nova CPI.

 

Como trunfo eleitoral, a esperteza revela-se inócua. O lodaçal pré e pós-delubiano será remexido de um jeito ou de outro. Como política de governo, a astúcia é uma ofensa à sociedade. Ora, se sempre disse que há o que investigar –e há-, não resta a Lula, eleito sob a falsa suposição de que moralizaria os negócios públicos, senão destravar a apuração.

Escrito por Josias de Souza às 12h08

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Os perigos do caixa dois

Os perigos do caixa dois

No Planalto

 

Os candidatos às eleições de 2006 deveriam fazer um favor a si mesmos: lacrar o caixa dois. Há duas razões para dizer “não” à verba clandestina. A primeira responde ao pragmatismo. A segunda, ao interesse eleitoral.

 

Como se sabe, a grana passada por baixo da mesa durante as campanhas está na origem da corrupção que rói o erário e o ânimo do eleitor. A decomposição moral do PT introduziu em cena uma novidade: o fim da hipocrisia.

 

Pilhado conduzindo dinheiro espúrio em malas e até na cueca, o PT igualou-se no crime, acrescentando-lhe os contornos mensaleiros. Para usar as palavras de Lula, “o PT fez, do ponto de vista eleitoral, o que é feito no Brasil sistematicamente”.

 

A crise teve o mérito de escancarar uma tradição. O petismo misturou-se a Jeffersons, Janenes, Valdemares e outros azares. O PFL participou da catarse com uma de suas estrelas, o deputado Roberto Brant (MG). E o PSDB foi arrastado para a encrenca na pessoa do grão-tucano Eduardo Azeredo.

 

A confirmação do óbvio produziu uma lição: alguém precisa fazer algo para impedir que todos continuem fazendo o que todos sempre fizeram. Súbito, a desfaçatez produziu uma novidade. Chama-se Receita Federal.

 

Acionado pelo TSE, o fisco não parece disposto a participar de nenhuma pantomima. Estrutura-se para aporrinhar as tesourarias partidárias em 2006. Será um trabalho seletivo, feito por amostragem. Seguirá a tática do susto. Alguém servirá de exemplo.

 

Acostumada à vigilância de faz de conta imposta pelo TSE, a plutocracia que abastece o “por fora” entra na campanha com um pé atrás. Observa com lupa o empenho com que auditores da Receita estão varejando a escrituração bichada do PT. Não há muita gente disposta a correr o duplo risco da execração pública e do enquadramento em delito fiscal.

 

Vai minguar o caixa dois, eis a impressão que se dissemina entre os partidos. Se o convívio com as arcas magras é inevitável, por que não tirar proveito eleitoral? Imagine-se os efeitos que exercerá sobre o eleitorado o discurso de um candidato que anuncie a disposição de concorrer a uma cadeira de governador ou de presidente da República sem permitir que a marca do cifrão lhe grave a testa.

 

Não se deve imaginar que a campanha de 2006 estará livre da praga do caixa dois. Mas pode-se apostar que a prática nunca sujeitou os seus adeptos a tantos riscos como agora. Lula, tudo indica, conseguirá concluir o mandato. Mas o próximo presidente da República dificilmente escapará de um outro escândalo que reúna um comando tresloucado, um tesoureiro amador e um operador desastrado.

 

Por muito menos o sucessor de Lula será impedido. A paciência com “o que é feito no Brasil sistematicamente” é hoje bem menor do que já foi ontem.

Escrito por Josias de Souza às 12h15

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Sobre férias e farsas

Sobre férias e farsas

No Planalto

A sociedade brasileira foi submetida nos últimos dias a duas farsas. A primeira foi proporcionada pelo Congresso. Autoconvocou-se para trabalhar e saiu em férias. A segunda foi protagonizada por Lula. Autoconcedeu-se uma folga de quatro dias e sua assessoria apressou-se em informar que o vice José Alencar não assumiria. Lula permaneceria no país. E, em caso de emergência, estaria ao alcance do telefone.

 

É chegado o momento de discutir mais seriamente essa questão do descanso de Suas Excelências. O direito à hora da parada é sagrado. Está sacramentado na Constituição. E é bom que seja assim. Ao lado da remuneração, a expectativa da folga anual é o que tonifica o ânimo do trabalhador para o labor cotidiano.

 

O problema é que os congressistas têm férias demais. E o presidente, de menos. O repouso dos parlamentares é de três meses por ano. Um acinte. O do inquilino do Planalto não existe formalmente. Depende da vontade de cada um. Outro acinte.

 

Há no Congresso projetos propondo o fim das convocações extraordinárias remuneradas e a redução das férias. Premido pela má repercussão de um Congresso ermo, Aldo Rebelo (PC do B-SP) promete levar o assunto a voto. Parece improvável, porém, que seus pares se animem podar as próprias regalias.

 

No caso do presidente, deve-se aprovar uma lei em sentido contrário, concedendo-lhe oficialmente férias regulares. Nos EUA, país de cujo arcabouço legal o legislador brasileiro tanto copia, o descanso dos presidentes é visto com naturalidade. O mesmo deveria ocorrer aqui. Se todo mundo tira férias, por que não estender o direito também ao presidente?

 

Em sua fatídica passagem pelo governo, ao lado de outras conhecidas façanhas, Collor desmoralizou o direito do presidente ao repouso. Quem não se recorda do espalhafatoso réveillon de Collor em Angra dos Reis, a bordo do iate de Alcides Diniz, o “Cidão”? Mas que o país não se perca pela exceção. Sob Collor, o normal era a anormalidade.

 

Na média, tanto os antecessores de Collor quanto os seus sucessores, mantiveram o recato. Conspurcaram-se a moral e a ética, mas não macularam a “liturgia do cargo” nas fugidas para descansar. A julgar pela decisão de refugiar-se numa base da Marinha, Lula parece seguir, também nesse quesito, o padrão fixado por FHC.

 

Seja onde for, nas bases militares, cercados de muros e sentinelas, ou em lugares aprazíveis do país, presidentes devem tirar férias oficiais. Fará bem a eles e ao país que se distanciem por 30 dias do cenário envenenado de Brasília.

 

Quanto aos parlamentares, que aproveitem o ócio remunerado para refletir. Talvez se dêem conta da desmoralização que os cerca. Enquanto tiram férias, as despesas a que dão causa continuam ativas, muito ativas, ativíssimas. Só a atual convocação extraordinária está custando ao país algo como R$ 100 milhões. E para quê? 

Escrito por Josias de Souza às 09h52

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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