Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Sobre eleitores, formigas e Carnaval

Sobre eleitores, formigas e Carnaval

No Planalto

 

As eleições têm produzido sucessivas deformações. O eleitor votou em FHC imaginando que elegeria um intelectual de esquerda. E a sociologia da USP uniu-se ao cangaço parlamentar. Votou em Lula esperando mudança e moralidade. A transformação associou-se à acomodação. E a ética deu as mãos à perversão.

 

Agora, as pesquisas de opinião indicam que José Serra bateria Lula. Animado, o prefeito de São Paulo prepara o desembarque de uma administração municipal que prometera gerir até o último dia.

 

Serra empenhou a palavra por escrito. Em setembro de 2004, ele assinou o seguinte compromisso: “Eu, José Serra, comprometo-me a, se eleito prefeito do município de São Paulo no pleito de 4 de outubro de 2004, a cumprir os quatro anos de mandato na íntegra, sem renunciar à prefeitura para me candidatar a nenhum cargo eletivo.”

 

Ou seja: o eleitor mostra-se disposto a votar num político que não honra a própria palavra. Ainda não inventaram um método mais adequado de escolha de dirigentes políticos do que as eleições. Assim, é preciso aceitar uma evidência desoladora: a democracia convive necessariamente com o ridículo.

 

Por meio das pesquisas, o eleitor está estimulando Serra a descumprir a própria palavra. Simultaneamente, ao informar que se dispõe a elegê-lo, sinaliza a intenção de acreditar em todas as promessas que ele fará na campanha de 2006. É ou não é ridículo?

 

O eleitor adota comportamento típico das formigas. Nos formigueiros como na sociedade há a elite que domina e as almas operárias. E na sociedade como nos formigueiros não há notícia de batalhão operário que tenha se insurgido contra métodos injustos de trabalho ou contra a lógica perversa do poder.

 

O eleitor-formiga é um altruísta. Comporta-se como se a acomodação e o sacrifício fossem duas imposições da natureza. Algo que só um milagre cívico poderia subverter.

 

Por sorte, a chegada do Natal prenuncia o Carnaval, fase em que macacão e o relógio de ponto são trocados pela roupa de fidalgo e pelo expediente frouxo da avenida. Bem verdade que, mesmo nos dias de folia, correm-se alguns riscos.

 

Nesses tempos modernos, não se deve excluir a hipótese de que a colombina, depois de dispensar o arlequim e o pierrô, acabe fugindo com outra colombina. Ou o risco de descobrir, depois de quatro dias de agitação, que a Colombina na verdade se chama Luizão.

 

De resto, convém não perder de vista o fato de que mesmo o Carnaval impõe uma lógica que reclama certa dose de abnegação. Enquanto a minoria aproveita os prazeres de uma terça-feira eternamente gorda, a maioria tem de se contentar com as cinzas de uma quarta-feira sem fim. Haja altruísmo.

Escrito por Josias de Souza às 15h08

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ante-sala de 2006

Ante-sala de 2006

No Planalto

 

O PT “precisa aprender a apanhar”, disse Lula na quarta-feira, em entrevista a emissoras de rádio. “Bateu muito. Agora, não tem do que reclamar.” Deu a entender que a oposição cumpre o papel dela.

 

Na mesma quarta-feira, outro Lula soou no Planalto. Dessa vez, em entrevista à Carta Capital. Comparou a oposição brasileira à da Venezuela. Ambas estariam agindo “sem respeitar o jogo da democracia”.

 

Dali a 48 horas, esse segundo Lula encontrou-se com Hugo Chávez em pessoa, em Montevidéu. Os jornalistas perguntaram-lhe sobre a declaração que dera à revista. E Lula repetiu o raciocínio.

 

Fez pior: pespegou na oposição brasileira a pecha de golpista. Os “adversários”, disse, “tentando fazer golpismo.” Com três palavras, empurrou a oposição na vala do golpe. Perdeu uma grande oportunidade de perder uma oportunidade.

 

PSDB e PFL têm sido duros com Lula. Por vezes até oportunistas. Criticam perversões nas quais são doutores. Mas daí até a merecerem o epíteto de golpistas, vai uma distância.

 

Se houve trama, foi para segurar Lula no Planalto. Na verdade, quem o golpeia é o petismo. Assim como não vem sendo agradável assistir ao strip-tease moral do PT, também não é agradável perceber que o presidente não consegue atravessar um par de semanas sem dizer algo que soe tolo.

 

A coisa tende a piorar. Devagarinho, a campanha de 2006 vai sendo arrastada para a folhinha de 2005. PT e PSDB estocam sujeira para jogar um no outro. O eleitor merecia um debate mais altivo.

Escrito por Josias de Souza às 20h17

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

As culpas de José Dirceu

As culpas de José Dirceu

No Planalto

Depois de cassado, José Dirceu continua sustentando que é inocente. “Não vou assumir culpas que não são minhas”, diz ele. Para que a defesa soasse crível, seria necessário aceitar a tese de que a lógica perdeu o sentido.

No tempo em que o PT se esforçava para fazer sentido, as coisas eram mais nítidas. Lula era o presidente, Dirceu era o primeiro-ministro e Delúbio era o pau-mandado. Hoje, Lula é cego e Dirceu é o antilíder. Quem dá as cartas é Delúbio.

O cenário esboçado nas palavras do ex-chefão da Casa Civil não tem nexo. Dirceu sempre se vendeu como protagonista nato. O papel de pobre-diabo não condiz com a sua biografia.

Dirceu estava para Lula assim como Armand-Jean du Plessis, o duque de Richelieu (1585-1642), esteve para o rei de França. Era o o conselheiro número um. Mandava e desmandava.

O diabo é que Dirceu encarnou o papel de Richelieu sem atentar para os ensinamentos que o cardeal deixou assentados no seu “Testamento Político”. Menciona, por exemplo, as inevitáveis "conspirações" a que está sujeito o ministro predileto.

"Imita-se nisto a pedra jogada do alto de uma montanha”, diz o texto. “Seu primeiro movimento é lento, e quanto mais ela desce, mais peso toma, redobrando a velocidade da queda [...]. É muito difícil parar uma conspiração que, não tendo sido contida no nascedouro, já esteja muito crescida."

O nascedouro da encrenca que ceifou o mandato de Dirceu atende pelo nome de Waldomiro Diniz. Era pedra pequena. Começou a descer a montanha devagarinho. Mas não foi contida a tempo. E transformou-se numa conspiração de velocidade redobrada, que incorporou pedregulhos maiores –Valério, Delúbio, Jefferson...

Quando Dirceu se deu conta da avalanche, já estava, ele próprio, rolando montanha abaixo. Rolou sozinho por conveniência. O Congresso e a plutocracia entenderam que o preço do deslizamento de Lula seria alto demais.

O escalpo de Dirceu foi à bandeja para que a cabeça de Lula pudesse continuar se equilibrando sobre o pescoço. Poupá-lo seria o mesmo que admitir o inadmissível: que a corrupção que se infiltrou pelas repartições da República e desaguou nas arcas petistas é acéfala. Estaríamos diante de uma espécie de máfia sem capo. Uma organização sem chefes.

Escrito por Josias de Souza às 11h14

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

BUSCA NO BLOG


Twitter RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.