Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Uma entrevista inédita com Deus

Uma entrevista inédita com Deus

No Planalto

 

Deus falou ao repórter com exclusividade. Eis a entrevista:

 

- Que análise o Senhor faz da Sua obra?

Deus Nosso Senhor: Cá de cima, todos os dias contemplo a minha obra. E me pergunto: por que fui tão irresponsável? Por que sete dias se tinha a eternidade?

- Por que teve tanta pressa?

Nosso Senhor: Acho que foi excesso de confiança. Já naquela época me chamavam de Todo-Poderoso.

- Quem lê a Bíblia não fica com a impressão de que houve toda essa dificuldade.

Nosso Senhor: No começo, quando fiz o céu e as águas, de fato achei mesmo tudo muito fácil. Tirei de letra também os peixes, as árvores, os animais... A coisa começou a desandar no homem. Ao ver aquilo, disse a Mim mesmo: isso não vai acabar bem.

- Pensou em desistir?

Nosso Senhor: Quase desisti. Mas já tinha ido longe demais. E entregar tudo para Deus equivaleria, no meu caso, a jogar o abacaxi no meu próprio colo. Tive que improvisar.

- Como assim?

Nosso Senhor: Arranquei a costela daquele ser imperfeito e... bem, você conhece essa história. Dessa vez cuidei de cada detalhe: cabelo, nariz, boca, curvas, seios... Caprichei tanto que terminei piorando as coisas.

- O Senhor acha que foi aí que a coisa desandou?

Nosso Senhor: Exatamente. Ainda tentei contemporizar, cobrindo-lhes as partes com folhas de figueira. Prometi-lhes o paraíso eterno. Mas optaram pela maçã, com tudo o que vinha embutido na polpa da fruta: do sexo às outras perversões.

- O senhor, com tanto poder, não poderia ter contornado a crise?

Nosso Senhor: Na última hora, tentei uma cartada final. Criei uma versão melhorada do homem. Chamei-o de petista.

- O que tornava o petista especial?

Nosso Senhor: Eu acalentava o desejo de que o petista, ao defrontar-se com os defeitos do mundo, pudesse me ajudar a remendá-los. Reconheço que talvez buscasse um milagre. Mas, se eu não tivesse fé em mim mesmo, quem mais teria?

- O petista não deu certo?

Nosso Senhor: Hoje, digo que me arrependo de tê-lo criado. Muitos petistas me renegam. Outros pensam que são Deus. O Lula parece mais apegado a mim. Creio que ele já aceita Deus, digo já me aceita. Aceita também o PTB, o PL e o PP. Cedo ou tarde, ele acaba aceitando a realidade.

Escrito por Josias de Souza às 12h45

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Atenção, estão desviando o seu dinheiro

Atenção, estão desviando o seu dinheiro

No Planalto

 

Você talvez ainda não saiba. Mas toda vez que pára o carro ao lado de uma bomba de gasolina ou de álcool para encher o tanque o governo te dá uma tungada. Sim, ele enfia a mão no seu bolso para arrancar uma “contribuição”.

 

Escrevo “contribuição”, assim, entre aspas, porque na verdade a cobrança é compulsória. Foi criada em 2002. Tem um apelido pouco desconhecido: Cide. O nome completo é ainda mais ignorado: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico.

 

A encrenca veio ao mundo sob o pretexto de que o dinheiro arrecadado serviria a nobres propósitos. Seria empregado em investimentos de infra-estrutura –recuperação de estradas, por exemplo- e programas de recuperação do meio-ambiente, envenenado pelo uso de petróleo, álcool e gás.

 

Não é, porém, o que está acontecendo. Você está sendo enganado, caro “contribuinte” –aspas de novo. O dinheiro que lhe tomam vem tendo serventia variada. Entre 2002 e 2004, nada menos que R$ 22 bilhões (41% de tudo o que foi arrecadado com a Cide) serviram apenas para engordar os cofres do Tesouro Nacional.

 

Sim, isso mesmo. O dinheiro nem sequer foi gasto. O que deveria ter financiado obras de infra-estrutura e melhoria do ministro Antonio Palocci (Fazenda). O pior é que a economia nem era necessária. As meta de superávit fixada pelo governo é de 4,25% do PIB. E a economia que vem sendo obtida ultrapassa, com folgas, o percentual de 5% do PIB.

 

A anomalia foi detectada por uma auditoria feita pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Os resultados foram aprovados pelo tribunal na última quarta-feira. O acórdão anota que a Cide está sendo desvirtuada pelo mesmo tipo de perversão que desfigurou a CPMF.

 

Criado para adensar os investimentos do Ministério da Saúde, o imposto do cheque, que era provisório e virou definitivo, também vem sendo sistematicamente desviado. Em vez de aumentar, o naco de verbas destinadas à saúde diminuiu.

 

“Em 1996, quando a CPMF ainda não havia sido instituída, a execução orçamentária do Ministério da Saúde atingira R$ 14,3 bilhões”, anota o relatório do TCU. “No exercício seguinte, a execução em fontes diversas da CPMF foi reduzida para R$ 13,3 bilhões, em valores nominais.”

 

No caso da Cide, o TCU informa: “Em 2001, quando ainda não existia, foram alocados no Ministério dos Transportes R$ 8 bilhões. Em 2002, os recursos diversos da Cide representaram R$ 5,1 bilhões. Em 2003, R$ 3,8 bilhões. E em 2004, R$ 4,7 bilhões.” De resto, a parte da Cide que não engorda o caixa de Palocci paga coisas que nada têm a ver com a finalidade da "contribuição" - de vale-transporte a auxílio-alimentação de servidores. Um acinte.

Escrito por Josias de Souza às 11h48

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um Jesus ilegal nos cadastros do Bolsa Família

Um Jesus ilegal nos cadastros do Bolsa Família

No Planalto

 

“Quem dá aos pobres”, dizia Vitor Hugo, “empresta a Deus”. Mas há quem prefira emprestar a si mesmo. É o caso de um vereador que carrega um nome de família sugestivo: Jesus.

 

Embora tenha declarado à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 302 mil, o vereador Jesus figurava nos cadastros do governo até maio passado como feliz beneficiário do Bolsa Família, programa voltado para o socorro de cristãos condenados a viver abaixo da linha da pobreza.

 

Pedro Carmo de Jesus (PFL-SE), eis o nome completo de nosso personagem. Exerce o seu mandato eletivo na paupérrima Ribeirópolis (SE). Antes de tornar-se vereador, era funcionário da prefeitura local.

 

Cadastrado como pobre, recebeu por cinco meses o vale gás (R$ 15). Em seguida, passou a amealhar mensalmente R$ 45. Beliscou o Bolsa Família por mais de um ano. Até que...

 

Até que o promotor de Justiça Deijaniro Jonas Filho enxergou escândalo na pobreza de Jesus. Reportou o fato ao Ministério do Desenvolvimento Social. E o caso foi bater no TCU.

 

O tribunal enviou uma equipe a Ribeirópolis. Os auditores viram Jesus de perto. Imaginavam-no um pecador. Era, na verdade, o beneficiário de um milagre.

 

Jesus contou que o governo o incluiu no cadastro do Bolsa Família sem que ele houvesse solicitado a graça. O vereador faz voto espontâneo de pobreza. Disse aos auditores que é, sim, pobre. Daí não ter passado por sua cabeça a idéia de pedir a exclusão de seu nome do programa.

 

Jesus acha que a mixaria do Bolsa Família é um “direito” seu. Decerto sabe o que diz. Cabe às câmaras de vereadores auxiliar o governo na tarefa de fiscalizar a boa aplicação das verbas do programa.

 

Como que incorporando o espírito de Pilatos, o TCU crucificou Jesus em sessão realizada na última quarta-feira. Crucificou também o Ministério do Desenvolvimento Social, incapaz de desempenhar a fiscalização do programa, uma imposição legal.

 

O benefício de Jesus foi suspenso em outubro de 2004. Mas só em maio de 2005, o nome do vereador foi excluído dos cadastros oficiais. Nesse período uma família verdadeiramente pobre foi privada da ajuda oficial.

 

Não há, por ora, notícia de nenhuma ação proposta para reaver a grana que Jesus embolsou indevidamente. O TCU fará nos próximos meses uma nova inspeção no cadastro do Bolsa Família. Sabe-se que serve de abrigo para muitos outros pobres como o vereador Jesus. Pobres de espírito.

Escrito por Josias de Souza às 02h13

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um ministério sem rosto

Um ministério sem rosto

No Planalto

 

O livro se chama “De Notícias e não-Notícias faz-se a Crônica”. Foi escrito há 18 anos por Drummond. Traz na página 69 o conto “Serás Ministro”. Começa com um diálogo:

 

-- Esse vai ser ministro, disse o pai, logo que o garoto nasceu.

-- E você, com esse ordenado mixo de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho ministro?, duvidou a mãe.
-- Então, só porque meu ordenado é mixo ele não pode ser ministro?”


No batizado, o pai, orgulhoso, proclamou o nome do garoto: "Ministro". E o padre: "Como?". Repetiu: "Ministro, sim senhor". A mulher tentou intervir: "Tonzinho, não foi Antônio de Fátima que a gente combinou?" Era tarde. O menino tornara-se “Ministro”.

 

Agora responda rápido: Como se chama o ministro da Saúde de Lula? Qual é o nome do ministro da Educação? Quem ocupa a pasta da Ciência e Tecnologia? Não sabe? Acalme-se. Pouca gente sabe.

 

Lula prometera compor um “ministério de notáveis.” Comanda uma Esplanada de anônimos. Seus ministros personificam o nada. Inútil tentar enxergá-los. O olhar vai bater no couro do espaldar da poltrona.

 

O primeiro escalão de Lula tinha dois rostos: Palocci (Fazenda) e Dirceu (Casa Civil). O mundo de Dirceu caiu. Restou Palocci. Os demais, com raríssimas exceções, são gestores do efêmero.

 

A política de cintos apertados de Palocci impõe à Esplanada um modelo de gestão peculiar: o método da barriga. Funciona assim: faltou dinheiro para aumentar o salário de professores em greve? Empurre-se o problema com a barriga; Não há verbas para reajustar a tabela do SUS? Barriga. Estradas esburacadas? Barriga.

 

Graças à gestão abdominal dos problemas, o governo gastou, até o último dia 15 de outubro, só 51,62% do orçamento de R$ 1,61 trilhões previsto para 2005. É o que informa o Inesc, ONG voltada ao acompanhamento de políticas públicas.

 

Resta ao governo o papel de protagonista de escândalos. Já não há pais como o da crônica de Drummond. Quem seria louco de desejar para o filho uma sorte de ministro?

Escrito por Josias de Souza às 02h52

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

As diferenças que igualam PT e PSDB

As diferenças que igualam PT e PSDB

Eram vistas como as freirinhas da política. Seres puros, adoráveis, invejáveis, únicos. Até que, num belo dia do ano da graça de 2003, decidiram desvestir os hábitos do passado.

 

Deram folga aos anjos da guarda. E acorreram ao bordel. Queriam provar das delícias da fisiologia. Dedicaram-se com afinco ao novo mister.

 

Entregaram-se com volúpia a todas as perversões que antes denunciavam. Súbito, tornaram-se personagens dos crimes alheios.

 

Os velhos pecadores adoraram a cena. Finalmente puderam achincalhar quem antes os escarnecia. Expostas à execração, as freirinhas tentaram retornar ao convento.

 

O diabo é que já haviam esquecido o caminho de volta. Privadas das diferenças que as distinguiam, tentam agora provar que a ferrugem que lhe brotou na cara é comum a todos os rostos.

 

Lançados à vala comum da amoralidade, freirinhas e pecadores apontam-se uns aos outros. Decretou-se o fim da feiúra. O festival de sardas igualou as diferenças. São todos freqüentadores dos mesmos subterrâneos impuros da política nacional.

Escrito por Josias de Souza às 00h26

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

BUSCA NO BLOG


Twitter RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.