Josias de Souza - Nos bastidores do poder
Josias de Souza - Nos bastidores do poder
 

Colunas

Só um presidente genuíno do PMDB salvaria o Brasil

Alan E. Cober

 

Se a sucessão presidencial de 2010 fosse convertida num campeonato de improbabilidades, o eleitor teria diante de si uma barbada.

 

Entre os eventos mais cotados para não acontecer, uma aposta segura seria a de que o PMDB não vai lançar um presidenciável próprio. Uma pena.

 

Abra-se um parêntese, para informar que surgiu na cena política brasileira um novo herói: Roberto Mangabeira Unger. O repórter decidiu cultuá-lo.

 

Muitos devem estar se perguntando: Quem diabos é Mangabeira? Era ministro de Lula até ontem, mas poucos notaram.

 

Trata-se daquele senhor que fala um português com sotaque americanizado. A mãe é brasileira. O pai, americano. Viveu a maior parte do tempo nos EUA.

 

Como intelectual, é um portento. Aos 22 anos, fez-se professor de Harvard. Ainda hoje é mestre da prestigiosa usina americana de canudos.

 

Fora da academia, Mangabeira frequenta a política brasileira como franco atirador. Dispara a esmo. Jamais acertou o alvo.

 

Foi guru de Leonel Brizola. Enxergava nele o presidente ideal. Deu em fiasco. Tentou uma parceria com Ciro Gomes. E nada.

 

No primeiro reinado de Lula, tornou-se um crítico acerbo. Pespegou no ex-operário a pecha de presidente mais corrupto da história republicana.

 

No segundo reinado, virou ministro do “corrupto”. Deixou pronto um plano de reestruturação das Forças Armadas. E voltou para o refúgio de Harvard.

 

Há coisa de um mês e meio, Mangabeira embrenhou-se numa nova empreitada política. Filiou-se ao PMDB. E corre o país defendendo a candidatura própria.

 

Às turras com o petismo, o governador pemedebê do Paraná, Roberto Requião, comprou a idéia. Convoca o “velho MDB” para a guerra. Fecha parênteses.

 

Retorne-se ao início do texto: o repórter decidiu cultuar Mangabeira Unger. Por quê? Concluiu que só um presidente do PMDB arrumaria a casa.

 

Calma. Antes de apanhar as pedras, reflita sobre o plano de Mangabeira. Não é uma idéia oportunista. Ao contrário. Tem lógica.

 

De um presidente do PMDB jamais se dirá que fez qualquer tipo de acordo com o PMDB. O apoio que o PMDB der a um soberano do PMDB será compreensível.

 

O PMDB é o único partido brasileiro que não pode ser acusado de manter relações suspeitas com José Sarney e Renan Calheiros. Suas ligações já são notórias.

 

O brasileiro não precisará mais pressionar o PMDB com receio de que o partido o decepcione. Já está decepcionado.

 

Há mais e melhor. Como já domina todas as coligações de que participa, o PMDB poderia impor os seus projetos sem precisar terceirizar a presidência.

 

O PT, como se sabe, chegou ao Planalto e está cumprindo fielmente a agenda do PMDB. Encantado com Lula, o PMDB talvez decidisse inovar.

 

A julgar pela ilógica que domina a política brasileira, não seria de espantar que, sob um presidente pemedebê, o governo executasse o programa do PT.

 

Assim, por um governo socialista, pelo fim do coronelismo e do fisiologismo na política, viva Roberto Mangabeira Unger!

 

Nem Serra nem Dilma. Só um presidente do PMDB poderia salvar o Brasil do PMDB. Ele não virá. É uma pena.

Escrito por Josias de Souza às 19h34

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O troca-troca no boteco observado desde o balcão

O botequim vai mudar de dono. O negócio será fechado em outubro de 2010. A nova administração assume em janeiro de 2011.

 

O velho proprietário prefere passar o ponto para sua chefe de cozinha. Negociou com ela a manutenção da estrela na fachada.

 

Como gosta da cozinheira, o dono do boteco tenta familiarizá-la com a clientela. Transferiu-a do fogão para o balcão. Deu-lhe carta branca.

 

Ela mandou pendurar um aviso na parede: “Não fazemos barganha”. Levou um sorriso à antiga carranca. Agora, é sociável a mais não poder.

 

Espero que você continue prestigiando o estabelecimento depois que eu assumir.

 

Depende. Vai oferecer o quê?

 

Vamos manter o cardápio.

 

O cardápio não é ruim, mas pode melhorar.

 

Aceitamos sugestões.

 

Eu frequento essas mesas desde o tempo em que um tucano piscava no letreiro.

 

Bem sei. Mas você há de concordar comigo: depois da estrela, a coisa melhorou.

 

Ruim não está, mas sempre pode ficar melhor.

 

Pois me diga: o que podemos fazer para continuar agradando à clientela?

 

Ouço reclamações nas mesas.

 

Mas, mas...

 

Você não é a única pretendente ao negócio.

 

Como assim?

 

Você sabe, a turma do tempo do tucano quer voltar. Eles estão no pé da gente.

 

Sim, sim, tô sabendo. Mas vocês não estão satisfeitos?

 

Insatisfeita a clientela não está. Mas pode melhorar.

 

Desembucha homem, diga logo. O que pode ficar melhor?

 

Veja bem, o cardápio, de fato, tem de tudo.

 

Pois então...

 

Mas o pessoal já não se contenta com tudo. Quer mais um pouco.

 

Você poderia ser mais específico?

 

Para começar, ajudaria muito se você mandasse arrancar da parede aquele aviso.

 

O velho dono do negócio, que fiscaliza os diálogos à curta distância, puxou um garçom pelo braço. Cochichou-lhe algo.

 

Pouco depois, achegando-se ao cartaz na parede –“Não fazemos barganhas”— o garçom colou uma propaganda de pinga em cima da palavra “não”.

 

A cozinheira fez que não viu. Aprendeu sua primeira lição. O sucesso do negócio não depende da qualidade do cardápio, mas do tamanho do balcão.

Escrito por Josias de Souza às 03h57

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TSE pode quebrar sigilo de doador eleitoral em 2010

Guto Cassiano

 

Desenrola-se no TSE um julgamento cujo acompanhamento vale o sacrifício de um pedaço de tempo. Envolve uma empresa desconhecida de Goiás. Dependendo do veredicto, pode afetar todos os doadores de campanhas eleitorais no país.

 

Resume-se numa interrogação o miolo do processo: empresas que doam dinheiro para campanhas políticas estão obrigadas a informar o seu faturamento?

 

O Ministério Público acha que sim. As empresas dizem que não. Alegam que o faturamento é coisa protegida pelo escudo do sigilo fiscal. O plenário do TSE (sete ministros) dirá quem tem razão. A decisão do tribunal vai definir a forma e o tamanho das arcas eleitorais de 2010.

 

Grandes doadores gostam da sombra. Se forem obrigados a levar o faturamento aos holofotes, tendem a fechar as caixas registradoras e/ou flertar com o caixa 2. Daí a importância do caso submetido ao crivo do TSE. Para facilitar o entendimento, vai abaixo um resumo da encrenca:

 

1. Nas eleições de 2006, a empresa goiana Hidrobombas Comércio e Representação Ltda. pingou R$ 478,5 mil nas campanhas de três políticos do PP-GO: Alcides Rodrigues (governador), Carlos Antônio Silva (deputado estadual) e Ernesto Guimarães Roller (suplente de deputado estadual).

 

2. O Ministério Público Eleitoral de Goiás decidiu esquadrinhar a doação. Requisitou à Receita Federal informações sobre o faturamento da Hidrobombas. Deparou-se com uma ilegalidade.

 

3Reza a lei eleitoral que as doações feitas por empresas não podem exceder a 2% do faturamento bruto no ano anterior ao da eleição.

 

4. Os R$ 478,5 mil doados pela Hidrobombas à trinca de grão-pepês furaram o teto de 2%, convertendo-se em ilegalidade.

 

5. O Ministério Público levou o caso à Justiça Eleitoral. E a empresa foi condenada a pagar multa de R$ 283,8 mil. Mais: foi proibida de transacionar com o Estado brasileiro por um período de cinco anos.

 

6. A empresa recorreu. Não contesta o conteúdo da ação, mas a forma. Alega que o seu faturamento, por sigiloso, foi obtido de forma ilegal pelo Ministério Público.

 

7. O recurso aportou no protocolo do TSE em novembro de 2007. Por sorteio, desceu à mesa do ministro Marcelo Ribeiro, a quem coube relatá-lo.

 

8. O voto de Ribeiro já foi lido em plenário. Rende homenagens ao interesse público. Para o relator, o faturamento de doadores não pode ser sigiloso. “Implicitamente, há o dever de quem doa mostrar a legalidade da doação”, escreveu Ribeiro no voto.

 

O ministro pergunta: “Qual seria o sentido do limite imposto [pela lei] se não for possível a verificação dos dados fiscais daquele que faz a doação?”

 

9. Antes que o texto de Ribeiro fosse levado a voto, o ministro Ricardo Lewandowski pediu vista do processo, adiando o julgamento.

 

10. Na noite da última terça-feira (20), Lewandowski expôs aos colegas a sua posição. Rendeu-se à tese do sigilo. Deu de ombros para a lógica.

 

Anotou: “O fato de os processos de registro de candidatura e de prestação de contas serem públicos não torna igualmente públicos os dados fiscais dos doadores [...]”.

 

Para Lewandowski, o único dado público é “o valor nominal” das doações. O faturamento da empresa só pode ser alcançado mediante autorização judicial.

 

11. Um segundo pedido de vista provocou novo adiamento. Formulou-o o presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto.

 

12. Não há prazo para a devolução do processo à mesa de deliberações. Mas Ayres Britto não pretende empurrar o caso com a barriga.

 

13. De antemão, o presidente do TSE informa que tende a acompanhar a posição de Ribeiro, não a de Lewandowski.

 

14. A menos que a análise do processo o convença do contrário, Ayres Britto acha o seguinte: o bônus de doar impõe à empresa o ônus de revelar o seu faturamento.

 

15. Confirmando-se a primeira impressão de Britto, o placar parcial do TSE será de dois a um a favor da publicidade. Com mais dois votos, estaria formada a maioria.

 

16 O debate do TSE chega no momento em que começam os jantares em que os comitês de 2010 passam o pires das caixinhas.

 

17. Como se sabe, há nas eleições dois tipos de dinheiro. O oficial e o que os candidatos tomam dos empresários por baixo da mesa.

 

18. O debate do TSE trata apenas do pedaço oficial das arcas. Que tende a minguar se o tribunal optar pela luminosidade da quebra do sigilo.

 

19. Na outra ponta, os comensais dos jantares recém-inaugurados se sentirão tentados a comer com a mão e a esconder dólares na cueca.

 

20. Resta saber se o Ministério Público e a Justiça Eleitoral terão disposição para frear o caixa dois. Algo que, na definição do Lula de 2005, ano do mensalão, "é feito no Brasil sistematicamente".

 

- Em tempo: Ilustração via blog do Guto Cassiano.

Escrito por Josias de Souza às 18h38

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Sucessão de 2010 atravessa a etapa da ‘prostituição’

Angeli

 

A política, como se sabe, é a segunda profissão mais antiga do mundo. Mas há certos momentos em que ela se assemelha muito à primeira.

 

Recorde-se, por oportuno, Péricles. Desceu ao verbete da enciclopédia como líder do melhor período de Atenas (443 a.C. a 429 a.C.).

 

Ao ordenar o cerco à ilha de Samos, permitiu que as prostitutas de Atenas seguissem junto com as tropas. Uma forma de aliviar as pulsões da soldadesca.

 

O sítio foi longo. E os negócios das mulheres de Atenas resultaram prósperos. Tão vistosos que, na volta, entregaram a Péricles uma parte dos lucros.

 

Corta para o Brasil de 2009. Mandatário de uma fase “nunca antes vista na história desse país”, Lula também ordenou um cerco.

 

Mantém sob sítio os partidos que vivem de vender apoio aos mandachuvas de plantão. São, por assim dizer, as meretrizes da política.

 

Lula tenta conter essas legendas nos limites da cidadela governista. Guarnece pessoalmente o PMDB. Mandou Dilma cuidar de PPs, PRs, PDTs e adjacências.

 

Vem daí que pemedebês, pepês, pêérres, pedetês e o inefável etcétera aproveitam a sua hora. Penduram-se nas manchetes, expondo as partes.

 

Uma parte ameaça romper com a candidatura oficial de Dilma, aderindo a Serra. Outra parte flerta com Ciro, o Plano B do governismo.

 

A unir todas as partes há o desejo atávico pelo poder. Um apetite irrefreável pela fruição dos negócios. Uma atração incontida pelo tilintar de verbas e cargos.

 

No baixo mercado político, sucedem-se as reuniões e os jantares. Nesse universo, as armas são os ministérios, as estatais, as autarquias. As arcas, enfim.

 

Vão às mesas pessoas de reputação duvidosa –Jáderes, Valdemares e outros azares. Garotinhos manuseiam os talheres com apetite de gente grande.

 

Eles reocupam o noticiário. Transitam livremente pelas páginas -pedindo, pleiteando, ameaçando, querendo, exigindo...

 

Vive-se aquela fase em que a sucessão mergulha numa zona de gandaia. Ou Lula dá o que lhe pedem ou arrisca-se a engordar as fileiras inimigas.

 

No front adversário, acomodam-se outras partes e até inteiros. A tribo demo unificou-se ao redor de Serra. O pedaço do pemedebê representado por Quércia também.

 

O petebê de Jefferson ainda busca a melhor posição. Daí a sofreguidão com que Lula busca as relações plurais sem se preocupar com a (má) fama dos parceiros.

 

No afã de converter Dilma em candidata de porteira fechada, o presidente entrega-se às velhas poses. Cede gostosamente ao assédio dos interesses mais contraditórios.

 

A pretexto de se contrapor ao tucanato, Lula dá azo à perversão. Súbito, inverte-se a lógica da investida.

 

De sitiadas, as legendas mais assanhadas passam a comandar o cerco. A exemplo de Péricles, Lula faz vistas grossas para o lucro dos partidos-meretrizes.

 

De olho na sucessão plebiscitária, Lula como que mimetiza FHC. Assim como o antecessor, sabe que a prostituição nasceu antes do Estado.

 

Em vez de combatê-la, Lula aceita a idéia de que ela sempre vai existir. Conforma-se com o fato de que os partidos jamais deixarão de se aproveitar das circunstâncias.

 

Rende-se à (i)lógica sob o argumento de que aos governates não cabe senão fazer o que precisa ser feito.

 

A Péricles as prostitutas entregaram um naco dos lucros. Ao sucessor(a) de Lula pagarão, na melhor hipótese, com a velha moeda de sempre: “governabilidade”.

 

Atônito, o país espia os primeiros movimentos da orgia através do telhado de vidro dos partidos. Expõem, sem restrições, o strip-tease da pseudovirtude.

 

A nação imperfeita assiste impassível à evolução da impudência levada às raias da perfeição.

 

A essa altura, o eleitor se prepara para as urnas de 2010 sem saber quem será o eleito. Porém...

 

Porém, sabe que, seja quem for o escolhido(a), vai acordar do sonho da presidência nova na cama dos velhos inimigos de sempre.

Escrito por Josias de Souza às 18h38

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BC diz a Lula que o PIB terá ritmo pré-crise em 2010

Miran

Foi à mesa de Lula uma previsão econômica com gosto de pudim. O dado foi provido pelo Banco Central.

 

Indica que, ao término do teceiro trimestre de 2010, ali pelo mês de setembro, a economia brasileira exibirá taxa de crescimento ao redor de 7%.

 

Significa dizer que, na ante-sala do primeiro turno da eleição presidencial, o PIB terá recuperado o vigor que exibia em 2008, antes de ser roído pela crise.

 

Bom para a candidata oficial Dilma Rousseff. Ruim para o provável candidato da oposição, José Serra.

 

No final de 2008, assediado pelo desastre vindo do estrangeiro, Lula passara a exibir um comportamento em público e outro em privado.

 

Sob holofotes, o presidente encarnava um papel que o aproximava de um animador de auditório. Empurrava a platéia para o consumo.

 

Entre quatro paredes, ruminava o receio de que a crise, àquela altura com aparência de fenônome longevo, se imiscuiria em 2010, azedando a sucessão.

 

Lula adotara a linha do vai ou racha. Decidira que iria de qualquer jeito, mesmo que rachado.

 

Onde Lula enxergara riscos, o tucanato vira oportunidades. Imaginara-se que a crise tonificaria Serra, visto como candidato versado nas artes da economia.

 

No momento, Lula cuida de administrar as dores do crescimento que se avizinha. Tenta fazer as vezes de algodão entre dois cristais.

 

BC e Fazenda travam nos subterrâneos uma refrega. No miolo da discórdia está, de novo, a taxa Selic.

 

Tomado pela previsão do BC, o crescimento de 2010 fará a demanda crescer a níveis perigosos.

 

A procura por produtos será maior do que a capacidade da indústria de atendê-la. Uma combinação que costuma funcionar como tônico inflacionário.

 

Para evitar que a inflação fuja ao controle, o BC prevê que terá de puxar o freio de mão, elevando a taxa de juros no próximo ano.

 

Trabalha-se com a idéia de fechar 2010 com um PIB de 5%. Abaixo, portanto, dos 7% estimados para o terceiro trimestre do ano eleitoral.

 

A Fazenda discorda. Avalia que os juros, hoje fixados em 8,75%, podem ser mantidos nesse patamar pelo menos até o final de 2010.

 

O time de Mantega alega que a retomada do crescimento é paulatina. O que dá tempo à indústria para se preparar, suprindo a demanda.

 

Argumenta-se, de resto, que as importações, em alta, jogam água no chope da carestia. Não haveria espaço para o vôo da inflação.

 

Em meio ao lufa-lufa, o BC de Meirelles retoma a acusação de que a Fazenda conduz uma política de gastos frouxa. Algo que tira Mantega do sério.

 

Lula programa para os próximos dias uma conversa com Henrique Meirelles e Guido Mantega. Pedirá a ambos que baixem a bola.

 

Para o presidente, o essencial –o Pibão projetado para 2010— já está no embornal. O resto é detalhe. Coisa para ser administrada no dia a dia. Sem sobressaltos.

 

A oposição presumira que o Lula-2010 teria as feições do FHC-2002. Confirmando-se a projeção do BC, essa conjectura, hoje já combalida, vai virar quimera.

 

No final de seus dois mandatos, cercado de ruína, FHC achara que poderia vender Serra aos eleitores. Deu na eleição de Lula.

 

Ao final de um par de gestões, Lula impõe Dilma contra Serra. Livre da praga de neo-FHC vai à eleição com cara própria.

 

Se prevalecer, Dilma deverá a eleição ao chefe. Se naufragar, Lula sempre poderá atribuir o infortúnio às deficiências da candidata.

 

- Em tempo: Ilustração via log Miran Cartum.

Escrito por Josias de Souza às 17h40

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A oposição exagera no chá de sumiço e fica bêbada

Os conservadores brasileiros, como se sabe, depuseram as lanças. Tanto que, para 2010, já foi baixado um decreto: não haverá “trogloditas de direita” na cédula.

 

Na esfera empresarial, sucumbiu o Paulo Skaf. Porta-estandarte do bloco anti-CPMF, último herói da resistência, o ex-capitalista é agora um neosocialista.

 

Na arena política, o PSDB revela-se capaz de tudo. Menos de se contrapor à gestão Lula. Dedica-se a outras prioridades.

 

Cuida dos cotovelos ralados de FHC. Zela para que Serra e Aécio, em meio ao lufa-lufa interno, não se biquem além do necessário.

 

De resto, o tucanato mata o tempo apartando brigas de vizinhos no interior e promovendo seminários temáticos nas capitais.

 

São encontros de grande utilidade. Já resultaram, por exemplo, na confecção de uma cartilha sobre o Bolsa Família. Anota: “É coisa nossa!”

 

Como política e vazio são irreconciliáveis, o papel de oposição mudou de mãos. No Brasil dos dias que correm, é exercido por dois personagens inusitados.

 

Um deles é o TCU. O outro, o presidente golpista de Honduras, Roberto Micheletti. A propósito, dissemina-se pelos subterrâneos do Planalto uma teoria conspiratória.

 

O TCU e o Micheletti teriam firmado um pacto. Um, agindo desde o exterior, tenta provar que quem manda no Brasil é o Hugo Chávez, não Lula.

 

Outro trama aqui dentro. Varre a cozinha da administração pública à procura de encrenca. Joga luz sobre os malfeitos das obras. Já mira o Rio-2016.

 

Auxiliares de Lula receberam uma informação bombástica: a parceria entre TCU e Micheletti teria sido firmada num encontro secreto realizado em Tegucigalpa.

 

A reunião teria sido registrada em vídeo. Num trecho, Micheletti exibe ao TCU uma fita em que Hugo Chavez declara que sua candidata é a Dilma.

 

Noutro pedaço, o vídeo mostra o instante em que o TCU entrega a Micheletti cópia de seu último relatório sobre as irregularidades do PAC.

 

A Abin foi acionada para tentar obter uma cópia da peça. De resto, os espiões do governo perscrutam o passado de Micheletti.

 

O TCU é velho conhecido. Mas sabe-se pouco, quase nada, da vida pregressa do gopista hondurenho. Diz-se que é filho de uma cruza de italiano com índia.

 

Na juventude, a Abin já está levantando, Micheletti teria militado num grupo de skinheads. Consta que foi visto tirando meleca do nariz num restaurante.

 

Mais e pior: manteria no quintal de casa um viveiro de tucanos. Diz-se que teriam sido contrabandeados da Amazônia. Para a Abin, foram capturados em Brasília.

 

No curso da operação montada para desnudar a conexão TCU-Micheletti, a Abin esbarrou num terceiro personagem: Ciro Gomes.

 

Um agente secreto flagrou-o numa encruzilhada, realizando um ritual de quimbanda. Acomodava uma galinha preta e um charuto ao lado de uma foto.

 

A fotografia estava apinhada de lideranças da tribo dos petês e da etnia dos pemedebês. Ciro girava ao redor do despacho.

 

Trazia o cenho crispado. Pingavam-lhe dos lábios duas expressões intercaladas: 1) “Aliança espúria”; 2) “Frouxidão moral”.

 

O espião só se acalmou no instante em que Ciro retirou do bolso da túnica que lhe recobria os ombros um boneco de pano com a cara do Serra.

 

Ele espetava agulhas no fantoche. E gritava: “É feio pra caramba. Mais na alma do que na cara!” A Abin decidiu excluir Ciro do rol de suspeitos.

 

A Agência verificaria o acerto da providência ao constatar, dias depois, que Ciro é, em verdade, um candidato multiuso a serviço de Lula.

 

Pode virar, a qualquer momento, um agente de Brasília infiltrado na São Paulo de Serra, o feio. Os espiões passaram a se referir a Ciro com carinho: “É gente nossa”.

 

A Agência Brasileira de Inteligência já produziu um primeiro esboço de seu relatório. O texto não deixa margem à dúvida.

 

Eis a conclusão: exceto pelo TCU e por Micheletti, a oposição brasileira sumiu. Há os ‘demos’ e a turma do Roberto Freire, o texto ressalva. Mas ninguém lhes dá ouvidos.

Escrito por Josias de Souza às 16h47

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Resumo da semana em que Chávez fez Lula de bobo

Lula Marques/Folha

 

Até bem pouco, sabia-se que Lula dispunha de dois chanceleres. Havia o oficial, Celso Amorim. E o paralelo, Marco Aurélio Garcia.

 

Ganhou um terceiro: o plenipotenciário Hugo Chávez. Empurrou a diplomacia brasileira para o epicentro da crise institucional de Honduras.

 

Apeado do poder e expulso de seu país em junho, Manuel Zelaya retornou a Tegucigalpa graças a uma operação secreta financiada por Chávez.

 

Buscou refúgio na embaixada do Brasil, não na da Venezuela. Por quê? Esperteza do neochanceler Chávez.

 

Num primeiro momento, o governo brasileiro fez o que lhe cabia. Abriu as portas da embaixada para Zelaya. Depois, sobreveio a lambança. Caberia ao Brasil:

 

1. Conceder a Zelaya, um presidente eleito e golpeado, o status de asilado político.

 

2. Requerer um salvo-conduto para que Zelaya pudesse viajar sem sofrer constrangimentos.

 

3. Recepcionar Zelaya no Brasil, com deferência, fidalguia e honrarias.

 

Deu-se, porém, coisa diversa. A diplomacia brasileira rendeu-se à trama urdida pelo pseudochanceler Chávez.

 

Em vez de asilado, Zelaya ganhou o inusitado status de albergado numa embaixada sem embaixador.

 

Além da mulher, Xiomara Castro e filhos, arrastou para dentro da representação diplomática brasileira mais de 300 sequazes (!!!). Alguns deles armados. Hoje, há 70 (!!).

 

Fez do prédio um palanque. Discursou para simpatizantes, deu uma entrevista atrás da outra. Numa palavra: açulou os ânimos.

 

Ou, por outra, converteu a embaixada do Brasil num misto de hospedaria e comitê político. À luz do direito internacional, uma flagrante ilegalidade.

 

O governo golpista de Roberto Micheletti respondeu com o inaceitável aos absurdos de Zelaya, consentidos pelo Brasil.

 

Submeteu a embaixada, um pedaço do território brasileiro em Honduras, a um cerco militar. Mandou cortar a água, a luz e o telefone. Rasgou a convenção de Viena.

 

Não restou a Lula e a Amorim senão subir o tom. Súbito, como idealizara Chávez, o Brasil estava metido no miolo de um insondável que já produziu dois cadáveres.

 

A julgar pelo que disseram Lula, o chanceler oficial Amorim e o paralelo Marco Aurélio Garcia o envolvimento brasileiro foi involutário.

 

O governo recorreu, em uníssono, ao velho bordão do “eu não sabia”. Por essa versão, Zelaya materializara-se na embaixada sem aviso prévio.

 

Em nota, o golpista Micheletti refutou. Citando entrevista em que Zelaya dissera ter consultado Lula e Amorim, acusou o Brasil de “intromissão” indevida.

 

E Lula, em timbre peremptório: "Vocês vão ter que acreditar num golpista ou em mim”.

 

Zelaya estivera em Brasília no dia 12 de agosto. Voara em asas providas por Chávez. Estivera no Senado. Discursara em plenário, sob densa e irrestrita solidariedade.

 

Lula recebera-o em audiência. Dera-lhe respaldo moral. Estabelecera com ele um vínculo pessoal.

 

Àquela altura, Zelaya já cultivava a idéia de retornar a Honduras. Já havia empreendera duas tentativas, sem sucesso.

 

Admita-se, porque é de justiça, que Zelaya não tenha dito nada a Lula sobre o plano secreto que o devolveria a Honduras 40 dias depois.

 

Aceite-se como razoável a tese de que tampouco Chávez, mentor e provedor de Zelaya, tenha feito qualquer tipo de aviso ao companheiro Lula.

 

Nesse caso, ao dizer que “não sabia”, além de pronunciar uma verdade, Lula reivindica para si o papel de bobo.

 

Um bobo involuntário que, submetido à astúcia companheira de Chávez, permitiu que o Brasil migrasse da condição de nação solidária à de personagem da crise.

 

Meteu-se numa encrenca complexa, que cabe aos hondurenhos resolver. Ardem no caldeirão da crise um par de certezas.

 

Eleito, Zelaya foi deposto. Sem votos, Micheletti usurpou-lhe o cargo. Por qualquer ângulo que se olhe, é indubitável que houve em Honduras um golpe. Ponto.

 

Os adversários de Zelaya alegam que deram um contragolpe. Inspirado em Chávez, o presidente urdira um plebiscito para se perpetuar no poder.

 

Reeleição de presidente é coisa que a constituição de Honduras veda numa cláusula pétrea, imutável. O plebiscito fora proibido pela Justiça. Zelaya dera de ombros.

 

Diante de um enredo assim, tão desprovido de mocinhos, o ideal seria a celebração de um acordo.

 

No papel de mediador, o premio Nobel Oscar Arias esboçou uma proposta. Zelaya retornaria ao cargo. E o plebiscito iria ao arquivo.

 

Honduras escolheria seu novo presidente na eleição prevista para novembro. O Brasil ficaria mais bem posto na foto se houvesse mantido o distanciamento regulametar.

 

Mas Lula preferiu o papel de bobo. Até aqui, a lambança diplomática produziu duas vítimas vítimas fatais e um punhado de feridos. Torça-se para que não vire tragédia.

Escrito por Josias de Souza às 17h56

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Lula tem prestígio e estratégia; falta-lhe o candidato

Angeli

 

No ano passado, quando a ruína dos EUA contagiou o mundo e hipnotizou as manchetes, o Brasil era perseguido por dois tipos de previsão.

 

Numa, o país seria sugado pelo furacão. Noutra, seria salvo pela solidez de sua economia. O IBGE informa que prevaleceu a segunda hipótese.

 

A crise fez estrago de boa monta. Mas o PIB brasileiro voltou à trajetória de alta já no segundo trimestre deste 2009: 1,9%.

 

Foi à breca a única estratégia visível da oposição. A crise levara o PSDB a idealizar para Lula um futuro de FHC. Calma, já explico.

 

Quando FHC fizera o Plano Real, ainda sob Itamar Franco, o Brasil dispunha de muitos problemas, inflação alta e algum patrimônio público.

 

Ao cabo de oito anos de tucanato, o Brasil debelara a inflação, torrara o patrimônio e continuava submetido a muitos problemas.

 

A despeito do mau humor do eleitor de 2002, FHC achou que poderia impor José Serra como sucessor. Deu na eleição de Lula.

 

Pois bem, o tucanato imaginara que, sob crise longeva, os humores do eleitor de 2011 voltariam a azedar, dessa vez contra Lula.

 

No idílio tucano, a popularidade de Lula despencaria. Ele iria à sucessão como um FHC reencarnado. Tentaria impor Dilma Rousseff. E elegeria José Serra.

 

Desfeita a macumba da crise, a oposição volta ao estágio anterior. Sobram-lhe candidatos –além de Serra, dispõe de Aécio Neves. Faltam-lhe mensagem e método.

 

O tucanato sabe que não vai se fazer na próxima eleição apenas destilando veneno. Terá de vender um sonho novo. Qual? Ainda não sabe.

 

Quanto a Lula, experimenta um drama inverso. Já dispõe do método e da mensagem. Falta-lhe o bom candidato.

 

Num instante em que a oposição imaginava que poderia congelar a sucessão, Lula inovou. Levou Dilma Rousseff à pista com dois anos de antecedência.

 

Lula como que convidou os adversários para a contradança. Funcionou. Mas só até certo ponto. O ponto de interrogação.

 

Arrastado para o centro da gafieira sucessória, o tucanato levou Noel à vitrola: “Mas com que roupa?” Até aí, ótimo para Lula.

 

Porém, a audácia do presidente pode ter convertido uma boa ministra numa péssima candidata. Lula fez de Dilma um alvo instantâneo e permanente.

 

A chefona da Casa Civil arde numa fogueira atrás da outra. O caso do dossiê anti-FHC, a adesão ao “Fica Sarney”, o diz-que-diz de Lina Vieira...

 

...O currículo anabolizado e, para complicar, o imprevisto do câncer. Dilma diz ter derrotado o linfoma. Não há quem torça pelo contrário. Porém...

 

Porém, o eleitor minimamente informado sabe que a eventual eleição da ministra vai impor ao país uma presidente sujeita a recidivas.

 

Quem já deu de cara com um câncer sabe que a doença, mesmo depois de dominada, impõe ao paciente os exames periódicos.

 

Não há, nessa matéria, diagnósticos peremptórios antes de um prazo regulamentar. Coisa de cinco anos. Ninguém comenta. Mas o câncer compõe o pano de fundo.

 

Num país que teve de engolir José Sarney depois de ter festejado Tancredo Neves, doença grave não é algo que passe sem reflexão.

 

De resto, o drama do vice-presidente José Alencar aguça o inconsciente coletivo. O eleitor é convidado a lembrar que o vice de Dilma será um pemedebê.

 

Cavalgando a popularidade do chefe, essa Dilma superexposta escalou rapidamente os dois dígitos nas pesquisas. Mas não subiu aos níveis idealizados por Lula.

 

Em privado, o presidente dissera que sua predileta ganharia a cara de favorita se chegasse ao final do ano com 30%.

 

A pouco mais de três meses da virada da folhinha, Dilma patina abaixo dos 20%, nas cercanias dos 15%. Lula mantém a colombina na pista. E aumenta o som da música.

 

Enquanto o PSDB se esfalfa para responder à pergunta de Noel, Lula vai de Zé Kéti. Cantarola que os próximos anos não serão iguais àqueles que passaram.

 

Gaba-se de ter resolvido os velhos problemas. Dividiu a renda, pagou a dívida externa, acumulou reservas, domou a crise, isso e aquilo.

 

O que vai ao palanque de 2010, diz o presidente, é “o debate sobre o futuro”. Impõe aos adversários uma agenda e uma eleição marcada pelo signo da continuidade.

 

A oposição esperneia. Sustenta: o que há de novo sob Lula não é bom. E o que há de bom não é novo. Mas não consegue dizer o que fará de novo e de bom.

 

Lula faz o que lhe cabe. Carrega na estratégia. Posa agora de neo-Getúlio. Depois do pré-sal é nosso, acena com a CLS (Consolidação das Leis Sociais).

 

Toca o baile, rezando para que Dilma se revele a bailarina exímia que ele idealizara e que a multidão hesita em enxergar.

Escrito por Josias de Souza às 19h31

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Congresso fraco, Executivo forte e as consequências

  Bartolomeo Passerotti
Na última quarta-feira, ocorreram em Brasília três fatos que, analisados em conjunto, dão uma idéia do estágio pouco civilizado a que chegou a democracia brasileira.

 

Fato 1: Depois de se entender com os líderes partidários, Michel Temer foi a Lula. Pediu-lhe que retirasse do pacote do pré-sal o selo da urgência.

 

Em vez da tramitação de 45 dias, Temer pediu prazo de 60 dias. O mínimo para que os deputados pudessem destrinchar quatro projetos de interesse estratégico.

 

Em troca do fim da urgência, o presidente da Câmara empenhou sua palavra: a coisa iria a voto, impreterivelmente, a partir do dia 10 de novembro. Lula assentiu.

 

Fato 2: Conduzidos pelo ministro Alfredo Nascimento (Transportes), executivos de dez das maiores empreiteiras do país foram ao gabinete de Lula.

 

Ecoando o próprio Lula, queixaram-se dos rigores da malha fiscalizatória do Estado. Disseram que, mantidas as regras, as obras públicas estão fadadas ao atraso.

 

Lero vai, lero vem, acertou-se que os empreiteiros deitarão sobre o papel um lote de sugestões. Coisa rápida, para “os próximos dias”.

 

Buscam-se formas de atenuar os poderes de órgãos como TCU, Ministério Público e Ibama. Em outras palavras: um refresco à transgressão.

 

Fato 3: Relator do processo do mensalão, o ministro Joaquim Barbosa, do STF, endereçou a Lula um ofício.

 

No texto, o ministro informou ao presidente que ele fora arrolado como testemunha por uma trinca de réus da “quadrilha” (definição do procurador-geral da República).

 

Lula terá de passar pelo constrangimento de depor. Poderá fazê-lo pessoalmente –em dia, hora e local de sua preferência— ou por escrito.

 

Na cena de número um, o que se viu foi o presidente de uma das Casas do Legislativo, mãos postas, rogando ao chefe do Executivo que lhe desse tempo.

 

Prazo para analisar projetos relacionados à exploração de jazidas que, pelas previsões mais otimistas, só vão virar petróleo comercial depois de 2015.

 

Na cena de número dois, aparece o poder paralegislativo. Ou, por outra, uma espécie de neolegislativo, momentaneamente representado pelos empreiteiros.

 

É gente que vai a Lula para acertar os detalhes de assuntos que, em condições normais, deveriam passar primeiro pelo Congresso.

 

A anormalidade do Legisaltivo paralelo tornou-se rotina. Deseja-se alterar os encargos trabalhistas? Lula chama as centrais sindicais.

 

É preciso encontrar uma saída para os reajustes “impagáveis” que o Senado injetou nas aposentadorias? Convocam-se as entidades que representam a classe.

 

Nesse jogo, deputados e senadores, subitamente convertidos em pseudolegisladores, chegam na bola sempre com um lance de atraso.

 

Quando caem em si, já estão às voltas com uma nova medida provisória. Ou com projetos editados sob o signo da urgência.

 

A cena de número três completa o quadro, emoldurando-o. Mostra um Lula que, embevecido pela popularidade lunar, esquiva-se de aprender com o passado.

 

Um passado tão recente quanto nefasto. Ao responder à inquirição do Supremo, o presidente decerto repisará a velha tecla: “Eu não sabia”.

 

No futuro, confirmando-se o afrouxamento da fiscalização tramado pela grande empreita, Lula não terá como invocar a cequeira como tese de defesa.

 

Nesse caso, os escândalos que aguardam na fila para acontecer terão como gênese o encontro sinistro da banda suspeita com o presidente.

 

Um presidente que, tendo a obrigação de proteger as arcas da Viúva, prefere vestir a camisa do time violador.

 

Entre as empreiteiras que cruzaram o portal do gabinete de Lula estava, por exemplo, a Camargo Corrêa, estrela da Operação Castelo de Arera.

 

Em relatório enviado ao Ministério Público, a Polícia Federal de Lula sustenta, entre outras coisas, que a empreiteira superfaturou uma obra da festejada Petrobras.

 

Uma refinaria chamada Abreu e Lima, assentada em Pernambuco. Por uma dessas ironias do destino, quem detectou o sobrepreço foi o TCU.

 

O mesmo TCU que Lula e o ministro Nascimento, em inusitado conluio com os fiscalizados, deseja manietar.

 

Neste sábado (12), três dias depois da inusitada conversa, descobre-se que parte dos interlocutores de Lula está na bica de receber a visita de agentes da PF.

 

Dona Lindu há de ter repassado ao filho os ensinamentos básicos de toda mãe prestimosa.

 

É pena que ela não esteja viva para relembrar a Lula o grande, o essencial, o primeiro de todos os conselhos: “Meu filho, cuidado com as más companhias”.

 

- PS.: Ilustração extraída do livro “História da Feiúra”, organização de Umberto Eco.

Escrito por Josias de Souza às 21h37

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O Congresso transformou-se num ‘Poder’ irrelevante

Angeli

José Sarney tem uma opinião pouco lisonjeira sobre o Congresso, uma Casa que dirige pela terceira vez.

 

“Confesso que sinto que estamos diminuindo muito de qualidade”, disse o morubuxaba do PMDB, numa entrevista à TV Brasil.

 

Para Sarney, a coisa só não desanda de vez graças a Lula. Atribui ao atual inquilino do Planalto a coesão, a harmonia que mantém as instituições funcionando.

 

"No dia em que nós tivermos um presidente que for tantã, aí isso aqui vira uma bagunça que não tem tamanho".

 

As palavras de Sarney soram como reconhecimento de uma realidade incontornável: o Congresso tornou-se um “Poder” irrelevante.

 

No passado, quando queria humilhar o Parlamento, o Executivo fechava-o. Nas últimas duas décadas, passou a comprá-lo.

 

Sob Lula, a perversão é escorada num vocábulo pomposo: governabilidade. Mero eufemismo, usado para ocultar uma palavra reles: fisiologismo.

 

Nos últimos dias, a oposição e até um pedaço do consórcio governista subiram no caixote. Gritam contra a urgência imposta por Lula ao pacote do pré-sal.

 

Ronaldo Caiado (GO), líder do DEM, resumiu numa palavra o papel atribuído ao Legislativo: “Cartório”. Limita-se a carimbar a vontade do Executivo.

 

Tudo dentro da lei, contudo. No caso do pré-sal, além da Constituição, a lei das leis, a urgência está escorada na lei do mais forte e na lei da selva.

 

O ambiente de vale-tudo foi inaugrado, ironia suprema, sob a presidênca de Sarney, herdeiro dos acordos que Tancredo, já com a barriga no balcão, celebrara.

 

Desde então, a pretexto de compor maiorias, os presidentes chafurdam no mercado persa em que se converteu o Congresso.

 

A gritaria da oposição de hoje está impregnada, por assim dizer, de oportunismo. PSDB e PFL, agora sobre o caixote, eram governo até ontem.

 

Deram suporte a FHC, que justificava as concessões ao rebotalho congressual invocando a "ética da responsabilidade" de Weber.

 

Sem a mesma erudição, Lula exime-se de teorizar sobre a devassidão. Limita-se a levá-la a um paroxismo escarnecedor.

 

O primeiro Legislativo brasileiro, a Assembléia Constituinte convocada por dom Pedro 1º nas pegadas da Independência, durou escassos seis meses.

 

O imperador fechou-o em novembro de 1823. Alegou que os parlamentares desonraram o juramento solene de "salvar o Brasil".

O Congresso seria fechado outras seis vezes: em novembro de 1891, sob Deodoro; em novembro de 1930, sob Getúlio...

 

...Em novembro de 1937, de novo sob Getúlio; em outubro de 1966, sob Castelo; em dezembro de 1968, sob Costa e Silva; e em abril de 1977, sob Geisel.

 

Inaugurada em 1985, a redemocratização injetara na cena política brasileira uma falsa suposição.

 

A suposição de que o Congresso emergiria do jejum imposto pela ditadura para um inaudito banquete de poderes. Deu chabu.

 

Esparramada na vastidão de seus 185 mil metros quadrados, a cidade escondida no interior do prédio de Niemeyer –com orçamento próprio, polícia particular, agências bancárias e restaurantes- reduziu-se a uma espécie de Chicago.

 

Uma Chicago entregue aos caprichos do Al Capone de plantão. Agora sob os aplausos de um Sarney que, tendo frequentado os dois lados do balcão, perdeu a noção do seu papel.

 

Natural. Sarney acaba de ser arrancado da grelha de um conselho sem ética graças à perversão que o leva a sentenciar, em timbre meio tantã: “Estamos diminuindo muito de qualidade”.

Escrito por Josias de Souza às 16h47

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha de S.Paulo.

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