Josias de Souza - Nos bastidores do poder
Josias de Souza - Nos bastidores do poder
 

Colunas

Está preocupado com a inflação? Não? Pois deveria!

Está preocupado com a inflação? Não? Pois deveria!

Imagens Banco do Brasil
Medida pelo IPCA, índice do IBGE, que o governo adota como oficial, a inflação dos últimos 12 meses (até maio) bateu em 5,58%.

 

Parece pouco quando comparado aos 31,79% registrados em agosto de 1993. Mês em que FHC, ministro da Fazenda de Itamar, dava formato final ao Plano Real.

 

É quase nada quando confrontado com os 84% de dezembro de 1990. Mês em que Maílson da Nóbrega se descabelava no ministério da Fazenda de Sarney.

 

Descabelava-se a ponto de sugerir ao chefe, em reunião ministerial tensa, que antecipasse a posse do sucessor Fernando Collor.

 

Os brasileiros mais jovens, na casa dos 20 anos, têm dificuldade para entender por que os 5,58% de Lula foram pendurados nas manchetes como um sinal vermelho.

 

Só quem viveu sob o país da superinflação alcança os riscos escondidos atrás da carestia que voltou a tonificar os índices que medem a inflação.

 

Houve um tempo em que o Brasil era um país monotemático. O desafio econômico sufocava os demais. As demandas sociais vinham no fim da fila de prioridades.

 

Sob Sarney, os preços eram remarcados nas gôndolas à velocidade de três vezes ao dia. O sujeito recebia o salário e corria ao supermercado.

 

Era o tempo dos pacotes econômicos. Dormia-se com uma moeda e acordava-se com outra. Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, novamente Cruzeiro, Real...

 

A certa altura, chegou-se a tamanho grau de degenerescência monetária, que o governo foi compelido a trocar o visual das cédulas.

 

Impunha-se a brasileiros ilustres um massacre metafórico. A pretexto de venerar-lhes a memória, o Banco Central estampava no dinheiro efígies de filhos ilustres da pátria.

 

Arrancado do túmulo, o homenageado era lançado no mercado com um determinado valor e, no minuto seguinte, enredava-se numa ciranda que o consumia até a morte.

 

Depois de humilhado, o homenageado era substituído por uma cara nova. A última vítima foi o educador Anísio Teixeira. Ilustrou a nota de mil na fase em que o dinheiro chamava-se Cruzeiro Real.

 

Mercê dos constrangimentos, optou-se por interromper os ''assassinatos em série.'' Passou-se a imprimir notas ilustradas com o índio, o beija-flor, a garça, a arara, a onça...

 

O Real interrompeu a fase de desmoralização. Um feito obtido sob Itamar, ameaçado pela aventura cambial de FHC e devolvido aos trilhos na gestão de um Lula que teve a sabedoria de mandar ao lixo a cartilha econômica do ex-PT.

 

O Brasil passou a cuidar de seus outros flagelos. Não faria sentido retroceder agora. Daí o alarido dos 5,58%. O índice é tímido. E convém zelar para que continue assim.

 

Dá-se de barato no governo que, até dezembro, a inflação deve ultrapassar a marca dos 6%, distanciando-se da meta de 4,5%.

 

Providências adotadas agora demoram a surtir efeito. Há, de resto, a preocupação com a dosagem no manuseio do freio da locomotiva.

 

Sabe-se que a elevação dos juros não é –ou não deveria ser—o único remédio. Há mais a fazer. Muito mais.

 

O ministro Guido Mantega (Fazenda) deveria adotar como única ferramenta de trabalho uma tesoura. Ele sabe disso. Diz que os gastos públicos estão sendo contidos.

 

Porém, a julgar pelos indicadores do IBGE, o ministro leva no bolso, se muito, um canivete. A novíssima geração não merece. Os brasileiros mais antigos muito menos.

Escrito por Josias de Souza às 20h20

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Obama aproxima-se da Casa Branca vendendo sonho

Obama aproxima-se da Casa Branca vendendo sonho

  Chris Carlson/AP
Ainda que não seja eleito sucessor de George Bush, Barack Hussein Obama já escreveu uma bela página na história política dos EUA.

É um erro medir o tamanho do feito que o candidato empurrou para dentro de sua biografia apenas pela cor de sua pele.

 

Relembre-se, por oportuno, uma passagem que, contada lá fora, foi reproduzida aqui pelo sempre atento repórter Elio Gaspari. Deu-se em 2004.

 

Bush recebia na Casa Branca um grupo de parlamentares. Na despedida, grudou os olhos num broche que a deputada Jan Schakowsky trazia na lapela do tailler.

 

O adorno continha um nome. Começava com “O”. Terminava com “ama”. Bush levou os dois pés atrás.

 

“É Obama, com B”, a deputada apressou-se em explicar. E Bush, com a alma serenada: “Bem, eu não o conheço.” “Vai conhecê-lo”, vaticinou a visitante.

 

Bem, Bush agora já sabe quem é Obama. Começaria a conhecê-lo naquele mesmo 2004, quando o político que confundira com o terrorista elegeu-se senador por Illinois.

 

Era, de fato, o início de uma escalada bombástica. Que explodiu como a mais vistosa novidade produzida pela política norte-americana nos últimos tempos. Há aqui um perfil do fenômeno.

 

Some-se, agora sim, a ascensão instantânea à cor da cútis de Obama. Tem-se, então, a exata dimensão do novo.

 

Para os padrões brasileiros, o candidato democrata é um mulato –filho de um negro queniano com uma branca norte-americana.

 

Aos olhos do mundo, porém, trata-se do negro que mais perto chegou da cadeira de mandachuva do Império. Já não é pouca coisa.

 

Mas, a julgar pelas pesquisas, a aventura de 2004 pode ir mais longe. Obama vai às urnas na condição de favorito a tornar-se o primeiro presidente negro dos EUA.

 

Prevalecendo o impensável, será no mínimo divertido observar as mãos brancas que se julgam superiores tendo que apertar, ao redor do mundo, a mão retinta de Obama.

 

Há um quê de poesia na trajetória do candidato. Obama cavalga a impopularidade de Bush vendendo sonhos. Entre eles o da união dos americanos de todas as raças e credos.

 

Orador fino, educado em duas das mais famosas fábricas de canudos dos EUA –Columbia e Harvard— Obama fala ao público no melhor estilo dos pastores evangélicos.

 

Ao discursar, dirige-se, primeiro, ao coração de suas platéias. Só depois tenta capturar-lhes as mentes. Diz-se, com certa razão, que sua fala carece de densidade.

 

Numa fase em que Hillary ainda alimentava a expectativa de prevalecer sobre Obama, Bill Clinton alfinetou o rival de sua mulher: “Você pode fazer campanha em poesia, mas governa em prosa.”

 

Pode ser. Mas é preciso reconhecer que falta à política, nos EUA e alhures, justamente uma dose daquele tipo de inspiração que conduz ao verso.

 

Assim, se o novato Obama conseguir furar o próximo obstáculo –a pedreira republicana chamada John McCain—, deve-se torcer para que ele produza uma administração iluminada.

 

Por duas razões: 1) fará bem não só aos EUA, mas ao mundo; 2) não se deve perder de vista que os famosos botões nucleares estarão a centímetros da mão escura de Obama.

Escrito por Josias de Souza às 19h17

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Cadeias brasileiras reclamam prisioneiros 'chiques'

Cadeias brasileiras reclamam prisioneiros 'chiques'

Obtida sob FHC, a estabilidade da moeda se impôs a Lula. Do mesmo modo, os avanços sociais de Lula vão ao colo do sucessor como algo que veio para ficar.

 

Nos últimos anos, pelo menos 20 milhões de brasileiros pobres subiram o elevador. Migraram das classes “D” e “E” para o andar “C” da pirâmide social.

 

Captado pelo confiável Datafolha, o movimento converteu-se em algo que os cientistas sociais costumam apelidar de “dado da realidade”.

 

Arrisca-se a perder votos o candidato que for à campanha presidencial de 2010 esgrimindo ataques a iniciativas como Bolsa Família.

 

Um oposicionista que queira prevalecer sobre o candidato oficial terá de levar ao palanque agenda com a cara daquilo que o tucano Aécio Neves chama de “pós-Lula”.

 

O balaio do pós-Lula pode incluir temas variados. Por exemplo: saídas para a encrenca do SUS ou a resolução do teorema que condena o aluno da escola público a uma educação medíocre.

 

De permeio, insinua-se, assanhado, o flagelo da segurança pública. E, no miolo dele, o problema do descalabro dos presídios.

 

No Brasil, não há lista de temas que interessam à população que não inclua a criminalidade. É questão obrigatória.

 

Em matéria de insegurança, exausto de tanto debate, o brasileiro imagina-se diante de dilema sem solução. Engano. Na verdade, o país ainda nem enxergou o problema.

 

Pior: talvez não queira enxergar. Cabe aos candidatos iluminar a questão. Pede-se mais polícia e mais presídios. Como se a cadeia fosse o fim do problema. Bobagem.

 

É no cárcere que o problema começa. Desnecessário qualificar as cadeias brasileiras. Qualquer zoológico oferece estadia mais decente.

 

Tratado assim, como sub-bicho, o preso vira fera. E, como não há no país nem pena de morte nem prisão perpétua, o animal bravio está condenado a ganhar as ruas.

Documento elaborado pelo TCU e repassado às principais autoridades da República em janeiro de 2003 informa: 70% dos 295 mil presos brasileiros são reincidentes.

 

Os auditores do tribunal desceram aos cárceres. Analisaram dados disponíveis até 2002. Hoje, a população carcerária passa de 420 mil detentos. E a realidade não se alterou. Ao contrário. Agravou-se.

 

A violência no Brasil não é fruto de improviso. Bem ao contrário. Nossas cadeias são deliberadamente estruturadas como escolas do crime.

 

Na semana passada, o “Jornal da Globo” levou ao ar reportagens que atestam o aprofundamento do abismo carcerário.

 

Reiteram-se fenômenos que o brasileiro conhece à saciedade: celas superlotadas, agentes penitenciários corruptos e o drama dos filhos da delinqüência hospedados em cárceres femininos, junto com as mães.

 

Uma vez mais, restou demonstrado que a clientela dos três “Ps” –pretos, pobres e putas—é tratada como sub-raça, sobra do mercado.

 

O país ainda os vê como seres que não são, entes que já eram, espermatozóides que, por inviáveis, não merecem a chance de dar certo.

 

Os detentos são a prova documental da existência de algo que não existe. Números sem cara. O ócio à revelia. A queda sem fim. O caos levado às últimas conseqüências.

 

A fase do pós-Lula parece exigir a aparição de um bom lote de presidiários chiques. Corruptos e corruptores de alto calibre.

 

Gente que, recolhida ao calabouço, tenha voz para exigir o aprimoramento das instalações e dos serviços da hotelaria carcerária.

 

Imagine-se, por exemplo, os efeitos benignos que resultariam da eventual deportação do sem-banco Salvatore Cacciola, hoje recolhido a uma cadeia de Mônaco, com vista pro mar.

 

Submetido às condições inóspitas de uma carceragem do Rio, Cacciola decerto organizaria um motim de refeitório. Exigiria, além de uma quentinha decente, um cardápio que incluísse vinho de boa cepa.

 

“Um Borgonha, um Bordô!”, gritaria o ex-dono do Marka. Pode-se prever que, se não vier um habeas corpus relâmpago, as cadeiras brasileiras não tardarão a experimentar um súbito e sensível aprimoramento de gestão.

Escrito por Josias de Souza às 21h13

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No Senado, honestidade vale mais morta do que viva

No Senado, honestidade vale mais morta do que viva

No ano da graça de 2001, a presidência do Senado foi disputada à maneira dos caiapós de Altamira: na base do facão.

 

Disputaram a cadeira o baiano Antonio Carlos Magalhães (PFL, à época) e o paraense Jader Barbalho (PMDB).

 

Prevaleceu, como se sabe, Jader. Depois, descobriram-se “barbalhidades” que assentaram na história do Senado uma de suas páginas mais funestas.

 

Poderia ter sido diferente. Sob o ruído rascante dos facões, o senador José Jefferson Carpinteiro Péres (PDT) constituía uma alternativa mansa.

 

Ofereceu aos colegas o bom nome e a biografia impoluta como opções ao escárnio. Jefferson Péres era chamado, então, de “terceira via”.

 

O Senado preferiu a via de sempre, a tradicional, a “barbalha”. E arrastou para dentro do plenário as malfeitorias que levariam o Congresso à crise e Jader à renúncia.

 

Mais tarde, Jefferson Péres viu formar-se à sua frente uma barricada. Ergueu-a o ex-senador Ney Suassuna (PB), na ocasião líder do sempre majoritário PMDB de Jader.

 

Negaram à correção uma cadeira no Conselho de Ética do Senado. O vetado, em entrevista ao repórter Carlos Marchi, reagiu com o humor que lhe era próprio, corrosivo:

 

"Eu aceitei com humildade, porque o Suassuna, com seu espírito de modernidade, achou que estou superado, com meus 75 anos. Eu defendo umas teses que não são muito atuais – ética, moral, essas coisas. Para o Suassuna, isso é coisa superada."

 

Enrolado no escândalo das sanguessugas, Suassuna sucumbiu ao entrincheiramento do eleitor paraibano. Jader foi devolvido ao Congresso pelas urnas do Pará. Voltou rebaixado a deputado. Mas voltou.

 

Na manhã da última sexta-feira, um infarto apontou para Jefferson Péres (PDT-AM) a última, a inevitável, a inelutável via. O senador foi ao esquife com 76 anos. E converteu-se, aos olhos dos colegas, num santo instantâneo.

 

Seguiram-se à morte lamentações unânimes. “O Senado perde a sua referência moral”, lamuriaram muitos. “É uma perda irreparável”, choramingaram outros tantos.

 

No Brasil é assim. O cidadão nasce, cresce e vive sob a pele de homem. Mas fenece como santo. Entre nós, a morte é de uma eficácia promocional hedionda.

 

Os cemitérios brasileiros são hortas de virtudes. O morto com defeitos é uma utopia. A morte canoniza até os piores canalhas.

 

No caso de Jefferson Péres, todas as loas são justificáveis. Não era santo. Mas levou para a cova a ventura de ter cruzado o pântano da política incólume.

 

Em meio à impudência, escreveu uma biografia de decência. Compensava a miudeza do físico com o comportamento graúdo. 

 

Esquivava-se das nomeações políticas. Mantinha a mulher no gabinete, negando a ela o acesso ao salário da Viúva. Não punha a mão em verba de representação. Devolvia os presentes que aportavam sobre sua mesa.

 

Nas muitas crises do Legislativo –à de Jader sobreveio a de Renan Calheiros— Jefferson Péres nunca foi pilhado em gestos ou intenções suspeitas. Confrontado com tentativas de acobertamento, postava-se do lado dos que queriam arrancar a coberta.

 

Andava desiludido o senador. Falava em abandonar a vida pública. Havia uma dose de cálculo na fuga anunciada das urnas de 2010. Sabia que não eram negligenciáveis as chances de ser barrado pelo voto.

A morte, em sua nefasta sabedoria, poupou o eleitor amazonense de um desatino. E forçou os colegas do senador a pronunciarem um lote de hosanas que soam como expiação tardia de um pecado imperdoável.

 

Os senadores enxergam no cadáver de Jefferson Péres virtudes que não foram capazes de valorizar enquanto o virtuoso ainda equilibra-se dentro dos sapatos. 

 

No Senado, a honestidade vale mais morta do que viva, eis a revelação que José Jefferson, carpinteiro de um Péres raro, deixa como legado.

Escrito por Josias de Souza às 00h44

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Boa notícia: brasileiro já reconhece que é neguinho

Boa notícia: brasileiro já reconhece que é neguinho

Se você costuma freqüentar restaurantes chiques de grandes cidades brasileiras, já deve ter notado: não há sobre as toalhas das mesas cotovelos negros. A clientela negra é escassa, muito escassa, quase inexistente.  

 

Quando for de novo a uma casa de repasto elegante, experimente fixar os olhos no plantel de garçons. Ganha uma refeição grátis quem conseguir divisar um empregado de cútis escura. Não há.

 

Estendendo-se a pesquisa visual às batidas policiais, a coisa muda de figura. Nesse tipo de diligência, aí sim, os negros são encontradiços.

 

Na hora de exigir a exibição de documentos, os policiais, mesmo os de cor achocolatada, costumam dar preferência aos patrícios de tez escura. Por vezes, humilham-nos.

 

Não é à toa que vigora no Brasil, país da mestiçagem, uma certa bagunça étnica. Há pretos que se consideram mulatos. Há mulatos que se proclamam brancos. E há brancos que juram não carregar nas veias nenhuma gota de sangue africano.

 

Pois bem. A situação parece estar mudando. Quem informa é o Ipea. O instituto de pesquisa que pende do organograma da presidência da República divulgou, na semana passada, um estudo alvissareiro.

 

Revela o seguinte: ainda em 2008, a quantidade de brasileiros negros vai superar a de patrícios brancos. Mais: até o ano da graça de 2010, os negros serão maioria absoluta no Brasil.

 

O estudo do Ipea escora-se em dados extraídos da Pnad, a pesquisa nacional de domicílios. É feita pelo IBGE. O instituto subdivide os brasileiros em cinco matizes: “pretos”, “pardos”, “brancos”, “amarelos” e “indígenas”.

 

Eis a grande notícia: cresce o número de entrevistados do IBGE que enxergam o “preto” e o “pardo” ao olhar no espelho. "As pessoas, hoje, estão se reconhecendo mais como negros", festeja Mário Theodoro, diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Ipea.

 

Em 1976, a Pnad contabilizara o pedaço retinto da sociedade brasileira em 40,1%. Os cidadãos que se declaravam brancos representavam, então, 57,2%. Decorridas três décadas, os negros (pretos + pardos) são 49,5%. Os brancos, 49,7%.

 

A ultrapassagem, calcula o Ipea, virá até o final do ano. A supremacia negra chega em dois anos e meio: "Se as tendências de fecundidade continuarem como nos últimos anos, a partir de 2010 o Brasil será um país de maioria absoluta de negros”, diz Mário Theodoro.

 

Chega-se, então, à má notícia embutida no trabalho do Ipea: a média salarial dos negros brasileiros representa 53% dos vencimentos dos brancos. Neste caso, não há ultrapassagem no horizonte.

 

Mantido o ritmo atual, o Ipea estima que a equiparação da renda de negros e brancos não chegará tão cedo. É coisa para 2040. Repetindo: os negros só terão contracheques equiparáveis aos dos brancos daqui a 32 anos.

 

Diz-se que, no Brasil, vigora a “democracia racial”. Bobagem. As estatísticas provam o contrário. A brancura que viceja nos restaurantes chiques e o negrume das batidas policiais também demonstram o inverso.

 

O racismo brasileiro, por cordial, é uma fratura que, embora exposta, as pessoas se negam a enxergar. Nega-se o que é inegável. Ao começar a se reconhecer como negra, a sociedade dá um primeiro passo para mudar a posição do quadro.

 

Difícil adotar políticas públicas de promoção dos negros sem saber quem é negro. Corre-se, porém, o risco de enveredar por trilhas simplificadoras.

 

Por exemplo: os líderes partidários decidiram levar a voto, nos próximos dias, projetos que criam cotas para negros e índios nas universidades federais. Erro.

 

É certo que o filho da família abastada, está a um passo do banco universitário. É certo também que, no Brasil, há mais brancos bem-nascidos do que negros.

 

Mas a idéia de colorir a política de cotas, além de desmerecer o mérito do estudante, impõe uma espécie de racismo às avessas. Parece mais razoável combater o privilégio no acesso às universidades fixando cotas por renda.

 

Ou, melhor ainda, o ideal é fixar cotas para estudantes provenientes de escolas públicas –sejam eles pretos, pardos, brancos, amarelos, vermelhos, azuis...

Escrito por Josias de Souza às 00h27

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Que mãe manda na Casa Civil, a Dilma ou a Joana?

Que mãe manda na Casa Civil, a Dilma ou a Joana?

  Orlandeli
Lula vende a chefe de sua Casa Civil como quinta-essência da correção, supra-sumo da competência administrativa. Os últimos fatos dão ao presidente uma aparência de hóspede do mundo de Alice. Os acontecimentos como que desmentem a personagem que ele tenta criar.

 

O episódio do dossiê FHC demonstra que, se há no Brasil uma casa-da-mãe-joana, ela fica no ministério supostamente gerido por mãe Dilma. Senão vejamos:

 

1. Descobriu-se que a tropa da Casa Civil organizara um dossiê. Empilharam-se, em 27 planilhas eletrônicas, despesas sigilosas e exóticas. Gastos atribuídos ao casal FHC-Ruth e a ex-ministros tucanos;

 

2. Mãe Dilma saiu-se com um sem número de versões. Desmentidos que, por inconvincentes, não lograram estancar a gosma que escorria pelas páginas de jornais e revistas;

 

3. Em 4 de abril, a Folha revelou que as planilhas haviam saltado dos computadores do terceiro andar do Planalto. Dera-se em 11 de fevereiro. Sob holofotes, Dilma recorreu a duas armas traiçoeiras: a negaça e a ironia. Insinuou que o próprio jornal montara as planilhas. E trouxe à baila a figura do “espião com crachá”;

 

4. Na semana passada, Dilma foi espremida na comissão de Infra-Estrutura do Senado. Lero vai, lero vem disse que, havendo dossiê, ela seria a “grande vítima”. Eventuais vazamentos não visariam senão prejudicá-la. Curiosamente, afirmou que os dados relativos à gestão FHC não eram sigilosos. A ministra já sabia, àquela altura, o nome do “espião com crachá”. Sonegou-o, porém, aos inquiridores. Lula se disse “orgulhoso” do baile que a auxiliar dera nos senadores;

 

5. Menos de 24 horas depois da contradança, a ministra foi chamada, de novo, à pista. O “espião” foi pendurado nas manchetes: José Aparecido Nunes Pires. Não é um qualquer. Traz na biografia o carimbo de petista. Carrega no peito um “crachá” vistoso: secretário de Controle Interno da Casa Civil;

 

6. Funcionário de carreira do TCU, alçado à presidência por requisição de José Dirceu e mantido sob Dilma, Zé Aparecido tornou-se protagonista do inimaginável: remetera o dossiê ao amigo André Eduardo da Silva Fernandes, um assessor do gabinete do senador tucano Álvaro Dias (PSDB-PR). O quindim eletrônico foi à caverna da oposição por e-mail, em 20 de fevereiro;

 

7. Súbito, confirmou-se que o dossiê que a ministra dizia inexistir existia de fato. Em entrevista, Zé Aparecido negou a mensagem. Mas reconheceu que a Casa Civil colecionara dados. Apontou para o alto. Disse que, em 11 de fevereiro, o secretário de Administração da Casa Civil, Norberto Temóteo Queiroz, encomendara-lhe a cessão de dois funcionários. Para quê? Era preciso levantar as despesas de suprimentos de fundos de 98 pra frente. Em privado, disse que a ordem viera de cima: Erenice Guerra, a segunda da pasta de Dilma;

 

8. Em 20 de fevereiro, nove dias depois de Timóteo, por ordem de Erenice, ter encomendado mão-de-obra especializada a Zé Aparecido, Dilma participaria de um jantar com três dezenas de barões da indústria paulista. Deve-se ao repórter Elio Gaspari a recuperação dos ruídos do repasto: “Quem ouviu a ministra [...] não teve a menor dúvida –ela informou que o governo estava coletando dados para incriminar o governo de FFHH na farra dos cartões corporativos”;

 

9. Sabe-se, por ora: a) o levantamento de informações foi supervisionado por Erenice Guerra; b) em jantar com a nata do PIB, Dilma disse quais eram os objetivos do Planalto; c) Antes que a revista Veja informasse sobre a existência do dossiê, os jornais já salpicavam notinhas sobre despesas exóticas da era FHC;

 

10. Há ainda uma penca de mistérios a elucidar. Trabalho para a Polícia Federal. Mas há também uma constatação que dispensa investigações: quem comanda a Casa Civil não é mãe Dilma. Deve-se aos caprichos de mãe Joana a atmosfera de desordem que se instalou no terceiro andar do prédio da presidência. Um ambiente em que os métodos heterodoxos se misturam ao descontrole. Um desgoverno que, por acentuado, permitiu que o filé bem passado de um Planalto petista fosse à boca de um senador tucano;

 

11. Salve a incompetência de mãe Dilma. Viva as artimanhas de mãe Joana. Graças a uma e a outra, a platéia pode exigir agora a elucidação integral do episódio. Que se expliquem todos –do assessor palaciano ao auxiliar do Senado, do senador tucano à ministra petista... Todos!

 

PS.: Ilustração via sítio do Orlandeli.

Escrito por Josias de Souza às 20h59

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Para PSDB, presidenciável de Lula vai ao 2º turno

Para PSDB, presidenciável de Lula vai ao 2º turno

  Escada em Branco/Edu Enfeldt
Lula ainda não indicou o seu candidato à sucessão de 2010. Planeja fazê-lo só depois das eleições municipais de 2008. Mas a cúpula do PSDB passou a tratar como um dado da realidade algo que, até bem pouco, via como mera variável eleitoral: acha que o preferido de Lula estará no segundo turno da disputa presidencial.

 

A percepção do tucanato está escorada em números. Pesquisas feitas sob encomenda da maior legenda da oposição atestam uma súbita ascensão do prestígio da ministra Dilma Rousseff. O índice de intenção de votos da chefe da Casa Civil, que oscilava entre 2% e 3%, já roça a casa dos 10%.

 

Dilma escalou os dois dígitos mesmo depois de ter sido pendurada nas manchetes dos jornais em notícias que a associam à confecção do dossiê anti-FHC. Subiu mesmo sem ter sido formalmente apontada como candidata oficial.

 

Atribui-se a escalada à superexposição da ministra. Que foi tonificada pelo fato de Lula tê-la levado à vitrine do PAC. Exibiu-a em oito pa©mícios. Num deles, montado em Belo horizonte, a própria ministra, ao discursar, chamou pelo verdadeiro nome –“comício”— o ato que se pretendia administrativo.

 

Feita a constatação, alguns dos grão-duques que compõem a cúpula do PSDB passaram ruminar duas preocupações: a falta de unidade interna do partido e a ausência de um discurso sólido para se contrapor, até 2010, à mensagem oficial.

 

Avalia-se que a disputa entre os presidenciáveis tucanos José Serra e Aécio Neves, se mal administrada, pode custar caro à legenda. O PSDB for às urnas de 2002 e 2006 trincado. Nas duas ocasiões, foi surrado por Lula. Imagina-se que, reincidindo no erro, o partido flertará, de novo, com o insucesso.

 

As pesquisas feitas por encomenda do tucanato indicam que Serra mantém a condição de favorito. Coleciona índices superiores a 35%. Aécio tampouco caiu. Permanece ao redor dos 15%. O problema do PSDB é encontrar um discurso que lhe permita converter intenções de voto em votos.

 

Para usar expressão cunhada por Aécio, falta ao tucanato uma novidade que possa ser vendida ao eleitor na fase “pós-Lula.” Estima-se que a disputa de 2010 será marcada pelo signo da continuidade. O que dá ao candidato de Lula uma vantagem que não pode ser negligenciada.

 

Parte dos operadores tucanos já se deu conta de que xingar programas sociais como o Bolsa Família não dá votos. Ao contrário. Tira. De resto, a venda da estabilidade da moeda como um feito da era FHC já não surte efeitos eleitorais.

 

Combinada a um ambiente externo benfazejo, a estabilidade transformou-se, sob Lula, em transferência de renda. A classe “C” engordou. Escorada num mercado interno emergente, a economia cresce a despeito da crise que rói a economia dos EUA. O aumento do consumo das famílias (13,4%) levou mais comida à geladeira.

 

Numa atmosfera assim, tão favorável, o eleitor já não quer saber se o Plano Real foi concebido por um grupo de economistas escalados por FHC. A prosperidade como que empurrou a estabilidade para dentro da biografia de Lula.

 

Na próxima campanha, pode-se continuar martelando os defeitos da gestão Lula: o descontrole nos gastos públicos, a falta de reformas estruturais, a carência de investimentos em infra-estrutura...

 

Mas o velho e bom “choque de gestão” não é algo que os milhões de brasileiros que creditam a Lula o fato de terem saído da miséria decodifiquem com naturalidade. Para seduzir esse eleitor, que mantém a popularidade do presidente nas alturas, o PSDB terá de levar ao palanque de 2010 um sonho novo.

Escrito por Josias de Souza às 01h45

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O ‘desarmador de adversários’ e o ‘ladrão de pipoca’

O ‘desarmador de adversários’ e o ‘ladrão de pipoca’

Deve-se a José Serra a melhor, a mais precisa definição de José Serra. Ao discorrer, em 2002, sobre sua infância, vivida no bairro paulistano da Mooca, Serra disse que era “bonzinho em casa, briguento na rua e barulhento na escola”. No futebol, “não era bom para driblar, mas para desarmar”.

 

O auto-retrato está assentado nas páginas de "O Sonhador que Faz." Trata-se de uma espécie de biografia consentida. Escreveu-a o repórter Teodomiro Braga. Serviu-se de sessões de entrevistas com o biografado.

 

Deve-se a Lula a melhor, a mais límpida qualificação de Orestes Quércia –o filho de uma lavradora com um balconista de mercearia, que fez da política trampolim para erigir um império.

 

Num debate televisivo ocorrido nas eleições de 1994, Quércia fustigou o rival petista: “O Lula nunca dirigiu nem um carrinho de pipoca.” Ouviu uma resposta que, ainda hoje, ecoa: “É verdade que eu nunca dirigi um carrinho de pipoca, mas também nunca roubei a pipoca.”

 

Pois bem. O “ladrão de pipoca” é, hoje, uma nódoa de prontuário lavado. Depois de cortejado pelo próprio Lula, que o recebera em palácio, Quércia converteu-se, nas eleições municipais de 2008, em objeto de desejo dos principais candidatos à prefeitura de São Paulo.

 

Pelo apoio de Quércia, ajoelharam no milho os favoritos Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Também o governador tucano José Serra adotou a posição genuflexa. Com uma diferença: foi ao solo com meniscos alheios. Mandou aos grãos os joelhos do apadrinhado Gilberto Kassab (DEM).

 

Depois de saborear o assédio múltiplo, Quércia deu-se ao luxo de escolher a parceria que lhe pareceu mais conveniente, aquela que lhe dará a mais confortável candidatura ao Senado em 2010. Há coisa de dez dias, informara à direção do PMDB: “Vou fechar com a Marta.” Produziu-se, porém, uma reviravolta.

 

Entrou em cena o menino da Mooca, hoje um político “bonzinho” em público, “briguento” com os subordinados e “barulhento” nos subterrâneos de seu próprio partido. Na articulação política, como nas peladas de menino, Serra não é “bom para driblar”. Seu negócio continua sendo o “desarme.”

 

Serra opera com a sutileza de zagueiro de várzea. Prefere mandar os adversários à maca a receber bolas pelas costas. Foi driblado por Alckmin, que ousou se contrapor a Kassab. Foi fintado também por Aécio Neves, que se atrevera a meter o bedelho na seara paulistana. Súbito, tomado de impaciência inaudita, Serra foi às canelas.

 

Com as digitais de Kassab, o governador acertou-se com Quércia. De um só golpe, roubou o oxigênio de Alckmin e acercou-se de um pedaço do PMDB, partido que parecia flertar por inteiro com o projeto Aécio-2010.

 

É certo que Serra deu bom dia à incoerência. Mas zagueiro que é zagueiro importa-se com o resultado, não com o método. Em 1988, supostamente incomodados com a má fama do “ladrão de pipoca”, alguns ilustres dissidentes do PMDB –à frente FHC, Mário Covas, Franco Montoro e José Serra—enrolaram-se na bandeira da ética.

 

Fundaram o PSDB, uma legenda que se pretendia imaculada. Ontem, quando inquirido sobre a má fama que serviu de pretexto para que os tucanos criassem asas, Quércia exaltava-se. Num programa Roda Viva, quase saiu no braço com um jornalista que o inquiriu sobre o patrimônio (assista no vídeo lá do alto).

 

Hoje, munido do novo prontuário que lhe deram os acusadores do passado, Quércia já nem precisa se exaltar. Certa vez, referiu-se à revoada do tucanato histórico assim: "Eles não me atacavam por corrupção, mas porque eu dominava a política de São Paulo e não dava espaço pra eles.”

 

Noves fora os movimentos incongruentes, os últimos lances da partida de São Paulo deixaram no ar a sensação de que o PSDB, ao mesmo tempo em que se recompõe com o velho inimigo, volta a exercitar o seu esporte predileto: briga consigo mesmo, cobre a si próprio de pancadas.

 

Diz o senso comum que “errando é que se aprende”. O tucanato adaptou o brocardo: “Errando é que se aprende... A errar.” O PSDB carrega sobre os ombros dois fracassos presidenciais: 2002, com Serra, e 2006, com Alckmin. Desponta no gramado de 2010, de novo, dividido.

 

Vai à peleja como candidato favorito a ser derrotado pelo adversário. Algo que, dessa vez, imporá vexame maior. Com Lula fora do jogo, os pássaros arriscam-se a tomar uma goleada de um “poste.”

Escrito por Josias de Souza às 20h14

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Reforma agrária virou o desnecessário irreversível

Reforma agrária virou o desnecessário irreversível

 

O vocábulo "revolução", como se sabe, tornou-se obsoleto. No passado, já saía dos lábios atirando. Era ouvir "revolução" e agachar, para escapar das balas. Com o ocaso da esquerda, depôs as armas. Hoje, inofensiva, a palavra pula amarelinha, de mãos dadas com a “ideologia”, uma companheira de arcaísmo.

 

Na nova era, marcada pelo sumiço da linha demarcatória que separava a esquerda da direita, Lula acordou no Planalto do lado de Sarney, Palocci incorporou Malan, Dirceu tricotou com Valdemares e outros azares.


Só numa repartição pública o passado não passou. No alvorecer de 2003, quando o primeiro reinado de Lula dava os primeiros passos, o Incra produziu um documento emblemático. No texto, "revolução" e "ideologia" compartilhavam a ilusão de que ainda conservavam o vigor dos velhos tempos.

O documento versava sobre a “reestruturação” da autarquia incumbida de gerir a reforma agrária. Tinha 31 páginas. Um latifúndio lingüístico. Improdutivo, dedicava-se à monocultura de abobrinhas. Pregava a necessidade de submeter a repartição a um novo "padrão político-ideológico".

Dizia coisas assim: "É imprescindível uma revolução organizativa. A grande maioria de nossas instituições públicas tem estado estagnada, sem mudanças significativas durante os últimos 50 anos [...] Requer-se [...] nada menos que uma revolução." Pregava uma burocracia em "convulsão intermitente".

Era o prenúncio de que a coisa desandaria. Aparelhara-se o Incra, segundo confissão expressa no documento, com pessoas selecionadas em processo que privilegiou "a militância política, sem avaliação quanto à experiência em gestão".

 

O avanço da reforma, anotava o texto de 2003, dependia da temperatura do caldeirão social. Quanto mais quente, melhor. "As manifestações de massa, de forma organizada, são o vetor central com vistas a atingir os objetivos."


Como se fosse pouco, o latinório “esquerdopata” do Incra de Lula investia contra o agronegócio. Afirmava que, mantida a tendência de "ampliação maciça de grandes propriedades rurais, com alto grau de mecanização", o êxodo para as cidades seria tonificado, gerando mais desemprego e concentração de renda.

 

Para o Incra, o próprio sistema político estava sob risco. O sufoco econômico poderia corroer "a arrecadação necessária à implementação dos programas sociais indispensáveis à manutenção do regime".

 

A solução, apregoava o texto, passaria pelo fortalecimento da pequena propriedade rural e pela mobilização da "sociedade civil" por "serviços básicos". Fortalecidos, os ruralistas miúdos produziriam alimentos para o consumo interno. Reunidos em cooperativas, exportariam a produção excedente.

 

Decorridos cinco anos e quatro meses, o que se vê? O agronegócio viceja. É a mola propulsora do crescimento do PIB. A arrecadação do fisco bate recordes sucessivos, mesmo depois do enterro da CPMF.

 

Os programas sociais foram à vitrine como grande diferencial da era Lula. Nacos das classes “D” e “E” ascenderam à letra “C”. O êxodo, segundo o IBGE, inverte-se gradativamente. O brasileiro vai agora da metrópole para o interior. O regime, noves fora o lero-lero do terceiro mandato, esbanja solidez.

 

Só o Incra não mudou. O mesmo esquerdismo "démodé". A mesma ineficiência. O caldeirão continua fervendo, em novo abril “vermelho”.

 

O MST, no passado, se distinguia por ter dado voz aos miseráveis dos fundões do Brasil, exibindo-os nas ruas das grandes cidades, em marchas épicas. Hoje, o movimento não passa de cáften daqueles que ajudara a içar do limbo social.

 

O segundo reinado se encaminha para o terço final. Ainda é tempo, porém, de pôr ordem na desordem. A reforma agrária reclama um processo de despolitização. Pede um tratamento técnico. Suplica pela interrupção da política de distribuição de terras. Roga pelo socorro aos brasileiros já assentados.

 

Ajuda sincera, capaz de transformar os reféns do MST em produtores de verdade. Gente equipada para disputar fatias de um mercado interno em crescimento.

 

O atual modelo de reforma agrária faliu. Mais que isso: apodreceu. Não é de hoje, aliás. Com sua estratégia descolada da realidade, o Incra converteu o interminável processo de distribuição de terras numa espécie de desnecessário irreversível.

Escrito por Josias de Souza às 19h41

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Proposta do Senado para os suplentes é meia-sola

Proposta do Senado para os suplentes é meia-sola

Lula Marques/Folha
 

 

Tudo na vida é uma questão de hábito. O cidadão pode afeiçoar-se até ao inaceitável. Mais que isso: o inadmissível, quando aceito, passa a ser cultivado como um vício incontornável. Tome-se o exemplo do Senado. Mergulhado num mar de perversões, afeiçoou-se até ao cheiro de peixe podre.

 

Há, hoje, no baixio da Câmara Alta, 16 senadores sem voto. Fantasmas, por assim dizer. Suplentes, se quisermos homenagear o jargão oficial. Preenchem 20% dos 81 assentos do Senado. Repetindo: 20% dos senadores não dispõem de um mísero voto.

 

Na semana passada, a Comissão de Justiça do Senado debruçou-se sobre o flagelo.  Produziu uma proposta que cultiva, com zelo inaudito, o defeito. Chegou-se a uma meia-sola que forra os passos do vício.

 

Eis o que prevê a emenda: 1) em vez de dois, haveria apenas um suplente por senador; 2) não poderiam ser indicados para a suplência parentes até o segundo grau; 3) em caso de impedimento definitivo –por morte, cassação, renúncia ou eleição para outro cargo— o suplente assumiria um mandato tampão. Na eleição subseqüente, o povo escolheria um substituto.

 

Parece uma grande mudança. Mas não é. Oferece menos do que o Pacote de Abril. Baixado sob Geisel, em tempos de ditadura, o famigerado decreto militar previa que, no impedimento do titular, assumia a vaga de senador o segundo mais votado da legenda. E ponto.

 

Para virar lei, a emenda constitucional costurada na comissão de Justiça –foro, a propósito, apinhado de suplentes— ainda precisa ser aprovada pelos plenários do Senado e da Câmara. E o que é ruim pode ficar pior.

 

Arma-se uma resistência à idéia de preencher pelo voto as cadeiras de senadores eleitos para outros cargos executivos –prefeito, governador ou vice-governador, por exemplo. Nesta hipótese, só se recorreria ao voto nos casos de morte ou de renúncia por motivos não-eleitorais.

 

A comissão de Justiça do Senado deu de ombros para a ousadia. Mandou ao lixo proposta de Demóstenes Torres (DEM-GO) que proibia senadores de trocar o Legislativo pela Esplanada dos Ministérios. Arquivou outra idéia de Demóstenes: a ressurreição da regra que previa a posse do segundo mais votado.  Sepultou, de resto, proposta de Tasso Jereissati (PSDB-CE), que propôs a substituição do senador pelo deputado federal mais votado no Estado.

 

Restou demonstrado o seguinte: decorridos 23 anos do início da redemocratização, a maioria do Senado fará o que estiver ao seu alcance para preservar os seus senadores biônicos. Chamam-se, agora, suplentes. Mas conservam a mesma natureza antidemocrática. É gente sem voto.

 

Já ouviu falar em Carlos Dunga (PTB-PB)? Conhece Gilberto Goellner (DEM-MT)? Sabe quem é Virginio de Carvalho (PSC-SE)? Pois é. Suplentes! Decerto já notou a presença de Wellington Salgado (PMDB-MG). Há de tê-lo visto na milícia de Renan Calheiros. Há de tê-lo ouvido pedindo um “chinelinho novo” a Lula. Pois é. Suplente!

 

Você deve ter reparado também a chegada de Edison Lobão Filho (MA), o Lobinho. Já sentou na cadeira do pai sob ordens do DEM: “Pede pra sair.” Saiu. Mas só da legenda. Sem partido, sumiu em meio ao mar de suplentes que inunda o Senado. Só tem visibilidade na folha de salários. Pois é. Mais um suplente!

 

Tampouco Gim Argello (PTB-DF) deve ter escapado à sua percepção. Foi à vaga de Joaquim Roriz, que renunciara para livrar-se da cassação, carregando, ele próprio, um pegajoso rastro de suspeições atrás de si. Pois é. Outro suplente!

 

Nessa matéria, não há partido imune. Há os suplentes parentes. Há os suplentes financiadores de campanha. Há os suplentes amigos. Só não há suplentes com voto. A perversão dos suplentes, por interminável, não cabe num artigo. Exige espaços generosos, que só o Senado, ermo de bom senso, pode prover.

 

PS.: A Transparência Brasil levou à rede um estudo sobre a encrenca dos suplentes. Vale a leitura.

Escrito por Josias de Souza às 19h17

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Josias de Souza Josias de Souza, 45, é colunista da Folha de S.Paulo.

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