Folha O Ministério Público Federal pediu à Justiça que imponha ao governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), o pagamento de uma multa de R$ 250 mil.
Na petição, a Procuradoria alega que a sanção se justifica em razão de declarações feitas por Requião em programa da TV Educativa paranaense.
São duas as declarações que motivaram o pedido do Ministério Público, ambas levadas ao ar num programa chamado “Governo Escola”.
Numa delas, o governador associou a incidência de câncer de mama em homens às passeatas gays.
Noutra, ofendeu o pesquisador Mauro Akio, do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná). Chamou-o, em timbre pejorativo, de “gafanhoto” e “kung-fu”.
Não é a primeira vez que declarações de Requião resultam em ações pecuniárias.
A Justiça Federal proibira o governador de utilizar a rádio e a TV educativa do Paraná de maneira imprópria. Do contrário, seria condenado ao pagamento de multas.
Requião deu de ombros. E loquacidade excessiva já lhe rendeu a aplicação de quatro multas. Todas por descumprimento da ordem judicial.
Juntas, as sanções somam R$ 850 mil. A última, de agosto, foi motivada por ataques de Requião ao prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB). Coisa de R$ 200 mil.
Os lábios de Requião, como se vê, tornaram-se ferrenhos adversários do bolso de Requião.
O presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, recebeu na semana passada uma delegação de deputados brasileiros.
Durante a conversa, Uribe revelou-se preocupado com os rumos de um encontro que acontecerá nesta quinta (25), em Manaus.
Deve-se a iniciativa da reunião a Lula e ao presidente francês, Nicolas Sarkozi. Convidaram-se todos os presidentes de países da região amazônica.
O objetivo é costurar uma proposta conjunta a ser levada à cúpula global sobre mudanças climáticas de Copenhague, no mês que vem.
A presença de Sarkozi é justificada pelo fato de a França manter na região um naco de terra que é extensão de seu território, a Guiana Francesa.
Em litígio com o Hugo Chávez, Uribe disse aos deputados brasileiros que receia ouvir provocações do colega venezuelano.
Em recente pronunciamento de TV, Chávez convocou os venezuelanos à prontidão. Disse que, se necessário, a Venezuela iria à guerra contra a Colômbia.
O pano de fundo da querela é a aversão de Chávez a um acordo firmado por Uribe. Entrega aos EUA a gestão de bases militares colombianas.
Uribe disse à delegação deputados que, se provocado por Chávez, não levará desaforo para casa. Pretende reagir à altura.
Nos subterrâneos, Lula tentou aproveitar a reunião de Manaus para promover uma negociação paralela para pacificar Uribe e Chávez.
A chancelaria colombiana refugou a oferta. Uribe não deseja reunir-se com Chávez. E espera que seu rival circunscreva suas intervenções à pauta climática.
Nessa matéria, o que se pretende é formular uma proposta que exija dos países ricos compensações financeiras em troca da redução do desmatamento da Amazônia.
Afora Lula, Uribe e Chávez nenhum outro presidente confirmara a presença na reunião de Manaus até a noite desta terça (24).
Peru, Equador e Bolívia devem se fazer representar por ministros ou vice-presidentes. Sarkozi deve enviar um represente da Guiana.
O grupo que negocia a aliança PMDB-PT em torno de Dilma Rousseff volta a se reunir nesta quarta-feira (25).
Tenta-se desatar os nós que amarram a reprodução do acordo nacional em alguns Estados. Entre eles Minas, Rio e Mato Grosso do Sul.
De novo, apenas a presença de José Eduardo Dutra, cuja eleição para a presidência do PT será formalmente anunciada nesta tarde.
Dutra só assume a cadeira de Ricardo Berzoini em fevereiro. Mas decidiu-se que será integrado, desde logo, ao comitê negociador.
No mais, a reunião deve reproduzir os impasses que imobilizaram o encontro anterior, realizado há coisa de duas semanas.
Na conversa com os operadores do PMDB, o petismo tentará empurrar para o início do ano que vem a resolução dos principais impasses.
Alega-se que, em algumas praças importantes, a eleição dos novos dirigentes estaduais do PT escorregou para o segundo turno, previsto para dezembro.
Vai-se argumentar que, antes de finalizar os acertos, o PT precisa saber que vai prevalecer nos Estados.
Em Minas, disputam o controle do diretório petista os grupos do ex-prefeito Fernando Pimentel e de Patrus Ananias, o ministro do Bolsa Família.
Ambos ambicionam o governo de Minas, contra a vontade do PMDB, que cobra solidariedade à candidatura do ministro Hélio Costa.
No Rio, medem forças o grupo que advoga o apoio ao projeto reeleitoral de Sérgio Cabral (PMDB) e a ala que defende a candidatura petista de Lindberg Farias.
A depender do PT, a negociação com o PMDB vai queimar em fogo brando até fevereiro de 2010, mês em que a legenda fará um Congresso.
Reza o estatuto do PT que a vontade do Congresso prevalece sobre decisões dos diretórios nacional e estaduais.
Resta saber como vai reagir o PMDB ao ritmo de banho-maria. O partido esperava contar com a solidariedade regional do parceiro.
Ao cozinhar o PMDB pró-Dilma, o PT flerta com o perigo.
Abre espaço para a evolução de outros dois tipos de pemedebês: os que integram a ala pró-Serra e os que se enrolam na bandeira da candidatura própria.
À espera de Serra, a oposição mastiga suas apreensões num almoço, em Brasília
Decidida a abreviar o processo de escolha de seu candidato à sucessão de 2010, a oposição fará, antes do Natal, um encontro de governadores.
Mero pretexto para levar à roda os presidenciáveis tucanos –os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG).
Tenta-se empurrar a dupla para uma composição. Um acerto que leve à vitrine, em janeiro de 2010, o nome do rival da candidata oficial Dilma Rousseff.
A decisão de atrair os governadores para uma reunião com a cúpula oposicionista foi amarrada num almoço realizado nesta terça (24).
Deu-se num dos mais badalados restaurantes de Brasília, o Piantella. À mesa, os presidentes do PSDB e do DEM –Sérgio Guerra e Rodrigo Maia.
Junto com eles, lideranças da oposição na Câmara e no Senado. O repasto fora agendado para passar à platéia a idéia de união.
Tenta-se vender a tese de que, a despeito da indefinição quanto ao candidato, a oposição deflagrou a campanha. Lorota.
Disseminou-se nas legendas a inquietação com o calendário de José Serra, que tenta postergar a definição para o final de março.
São seis os governadores oposicionistas. Cinco tucanos e um ‘demo’. Afora Serra e Aécio, os outros apitam pouco ou nada na cena nacional.
Pelo lado dos tucanos, a lista de governadores é completada por Yeda Crusius (RS), Teotônio Vilela Filho (AL) e José de Anchieta Jr. (RR).
Pelo DEM, só José Roberto Arruda (DF). A inexpressividade dos nomes denuncia a natureza do encontro: deseja-se apenas trazer Serra e Aécio à ribalta.
Na parte da conversa à qual os repórteres não tiveram acesso, Sérgio Guerra, Rodrigo Maia e os líderes que os rodeavam falaram sobre a renitência de Serra.
Um dos presentes informou aos demais que nem os mais próximos auxiliares de Serra endossam a tática de tartaruga do governador paulista.
Gente como Alberto Goldman, vice-governador, e Aloísio Nunes Ferreira, secretário da Casa Civil de Serra, compartilhariam da pressa dos demais.
Nesse cenário, a reunião de governadores é parte do processo de escolha entre Serra e Aécio. Um processo que a direção do PSDB encaminha para o afunilamento.
B.Mathur/Reuters No instante em que vai às telas ‘Lula, o Filho do Brasil’, chega às páginas um enredo enviesado. Filmado, poderia chamar-se ‘Lulinha, o filho do filho do Brasil’.
No longa-metragem oficial, mostra-se a saga do menino que saltou da miséria nordestina para o triunfo brasileiro.
No curta-metragem não rodado, uma passagem da rotina do menino que emergiu do parentesco ilustre para a fortuna pessoal.
Deve-se à repórter Kátia Brasil a iluminação do enredo paralelo. Ela conta algo que se passou em 9 de outubro.
Envolve o itinerário de um jato da FAB, um Boeing 737. A aeronave estava a dez minutos de aterissar em Brasília.
Trazia militares a serviço da Aeronáutica. Vinham da cidade paulista de Gavião Peixoto. Súbito, o comandante recebeu uma ordem.
Deveria retornar a São Paulo. Recolheria, a pedido da Presidência da República, um lote de passageiros. Entre eles o presidente do BC, Henrique Meirelles.
O Boeing deu meia-volta. Desceu no aeroporto de Guarulhos às 19h. Foi reabastecido. De repente, nova ordem.
Os novos passageiros embarcariam em Congonhas, não em Guarulhos. Às 20h30, outra decolagem.
O pouso em Congonhas teve de ser retardado. De tanques cheios, o comandante não poderia pousar em Congonhas.
Viu-se compelido a voar a esmo por uma hora. Desperdiçado o combustível, enquadrou-se nas exigências de Congonhas. Às 21h30, desceu.
Os passageiros fardados foram ao fundo da aeronave. As poltronas da frente foram liberadas para os novos passageiros.
Embarcaram, além de Henrique Meirelles, outras 16 pessoas –Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e 15 acompanhantes dele.
Procurado, Henrique Meirelles mandou dizer, por meio da assessoria: de fato, requisitara o avião.
Mas só na hora do embarque soube que, "por solicitação da Presidência", Lulinha e mais 15 "aproveitariam o vôo da aeronave colocada à disposição do BC".
Ouvido, o Planalto informou: Lulinha e seus acompanhantes eram convidados de Lula.
"É normal o presidente da República convidar pessoas para se encontrar com ele em Brasília e oferecer transporte pelas aeronaves que servem à Presidência".
Lula tem algo como uma centena de parentes. No geral, os Silva permaneceram longe do Estado. Mantiveram o padrão de vida modesto.
Nesse grupo, Lulinha é exceção. O primeiro-filho é sócio da Gamecorp, uma empresa de vídeo brindada com um aporte milionário da Telemar, em 2005.
A operadora de telefonia (45% do capital pertencente ao BNDES e a fundos de pensão de estatais) borrifou R$ 5 milhões na caixa registradora da firma de Lulinha.
Empresário próspero, Lulinha, o filho do filho do Brasil, não precisaria bulir nas arcas da Viúva para voar de São Paulo para Brasília.
Ao embarcar no Boeing da veneranda e desprotegida senhora, naquela fatídica noite de 9 de outubro, o primeiro-filho prestou um serviço ao pai.
Lulinha mostrou ao Lulão os riscos da presidência imperial. O que diria Lula FHC mandasse asas oficiais buscarem um filho em São Paulo nas mesmas condições?
Talvez dissesse algo assim: "Num país em que brasileiros morrem na maca por falta de atendimento nos hospitais públicos...”
“...É inaceitável que o filho do príncipe e seus acompanhantes mobilizem um Boeing custeado com verbas dos patrícios em dia com os seus impostos”.
O que diabos foi fazer Lulinha em Brasília? A assessoria de Lulão diz que não fornece informações sobre familiares do filho do Brasil.
E quanto aos nomes dos acompanhantes? O Planalto e o BC não forneceram a lista. A FAB informou que não dispõe dos nomes.
De um presidente espera-se que dê exemplos de boa conduta aos súditos que lhegarantem os proventos, a geladeira cheia, o carro na garagem e o avião no hangar.
Nunca antes na história desse país um mandatário demonstrara tanto descaso com as vulgaridades que grassam ao seu redor. Pena.
Um devorador de estatísticas do PSDB se debruçou sobre o relatório da última pesquisa Sensus, divulgada nesta segunda (23).
Identificou no documento uma “onda de otimismo” a embalar o brasileiro. Atribui ao fenômeno a principal causa do crescimento de Dilma Rousseff.
Considera-o mais preocupante para a oposição do que o fato de José Serra ter perdido 14,7 pontos percentuais no intervalo de um ano.
Os números que chamaram a atenção do especialista tucano constam da página número 5 do relatório do instituto Sensus.
Estão assentados num quadro que revela a expectativa do eleitor em relação a temas diretamente relacionados ao seu cotidiano.
O noticiário deu atenção zero a esse pedaço da pesquisa. Um erro, na opinião do analista do PSDB.
Os pesquisadores do Sensus perguntaram ao eleitor, por exemplo, o que ele acha que vai acontecer com o emprego.
Em setembro, 59,6% dos pesquisados diziam que a situação iria melhorar nos próximos seis meses. Agora, esse índice foi a 62%.
Questionados sobre a “renda mensal”, 61,6% dos pesquisados disseram que a coisa vai melhorar. Em setembro, o índice era menor: 56,6%.
Sobre educação: 62,5% dos eleitores declararam que a situação do setor vai melhorar nos próximos seis meses. Em setembro, 57,9% davam a mesma resposta.
Mesmo nas áreas de saúde e segurança pública, que costumam inspirar mais críticas do que elogios, houve oscilação para o alto.
Em setembro, 53,8% dos eleitores achavam que haveria melhorias na saúde. Agora, o índice dos otimistas oscilou para 55,3%.
Em relação à segurança, 48,2% diziam em setembro que o quadro experimentaria melhora nos seis meses seguintes. Na nova pesquisa, o índice subiu para 52,2%.
Eis a conclusão do mastigador de pesquisas tucano: tomados em conjunto, esses dados tendem a favorecer a candidata de Lula.
Acha que o otimismo do brasileiro, por latente, joga água no moinho da continuidade, mola propulsora do projeto Dilma-2010.
O analista, que falou ao blog sob a condição do anonimato, atribuiu pouca importância aos índices dos candidatos.
Afirma que, a um ano da eleição, o retrato do que vai na alma do eleitor é mais relevante do que o percentual de intenção de votos.
De resto, avalia que a perspectiva de retomada do crescimento da economia vitaminará ainda mais a atmosfera benfazeja que rodeia Dilma.
O que a oposição deveria fazer? Segundo o tucano afeiçoado a estatísticas, não há senão a alternativa de fixar contrapontos a Dilma.
Algo que depende da definição da peleja interna travada entre Serra e Aécio Neves e da formulação de um programa alternativo ao de Lula.
Propostas sólidas, não intenções genéricas. Considera essencial que a oposição diga o que vai manter e o que vai modificar caso retorne ao Planalto.
De resto, acha que é vital desarmar a armadilha plebiscitária que Lula acomodou no caminho da oposição.
Como fazer? Repisando à exaustão a tecla de que a disputa de 2010 não será um duelo entre Lula e FHC.
Por quê? Além considerar a era Lula melhor do que o ciclo FHC (76%), o eleitor mantém nas alturas a aprovação do presidente (78,9%) e do governo dele (70%).
Pior: 49,3% declaram que não votariam num presidenciável apoiado por FHC. De novo, o PSDB teria de levar rapidamente um candidato à vitrine.
Para o analista tucano, a demora facilita a vida de Lula. Não havendo um candidato oficial da oposição, o presidente pode continuar centrando fogo em FHC, arrastando-o para o ringue.
Será instalado nesta terça-feira (24), em Brasília, o PBMC (Painel Brasileiro de Mudança Climática).
Foi criado por meio de uma portaria (356/2009) conjunta de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente.
Segue o mesmo modelo do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima da ONU –IPCC, na sigla em inglês.
A função do novo organismo será a de municiar o governo de informações científicas sobre os riscos das alterações do clima no país.
A exemplo do IPCC da ONU, o PMBC brasileiro terá um conselho diretor e um comitê científico.
Presidirá o conselho Carlos Afonso Nobre, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Pela presidência do comitê científico responderá Suzana Kahn Ribeiro, secretária de Mudanças Climáticas da pasta do Meio Ambiente.
Sob a dupla, funcionarão quatro grupos de trabalho. Juntos, reunirão algo como 100 pesquisadores e cientistas.
Todos especializados em clima e vinculados a instituições de pesquisa nacionais. Produzirão relatórios periódicos.
O que se deseja não é produzir pesquisas em Brasília, mas organizar a produção científica brasileira sobre clima, para guiar a ação do governo.
A instalação do novo órgão será anunciada no Ministério do Meio Ambiente, às 11h. Durante a solenidade, virá à luz um estudo que acaba de sair dos fornos do Inpe.
Chama-se “Estimativa das Emissões de CO2 por Desmatamento na Amazônia Brasileira".
Informa que a derrubada da mata amazônica contribuiu de forma expressiva para o aumento das emissões globais de CO2.
O CO2, como se sabe, é um dos gases-estufa. Sua emissão contribui para o chamado aquecimento global.
O governo se auto-impôs a meta de reduzir o desmatamento no país em 80% até 2020. É uma das cifras que o Brasil levará à cúpula do clima de Copenhague.
O estudo do Inpe esmiuça os dados escondidos por trás da meta. Dimensiona os efeitos do desmatamento sobre a emissão de CO2 até 2008.
E faz projeções até 2020. Num dos cenários, o estudo estima o que vai acontecer caso o governo cumpra a meta de reduzir a poda de árvores em 80%.
Lula e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, encontraram-se em Brasília.
Firmaram acordos de cooperação em cinco áreas: energia; indústria e comércio; ciência e tecnologia; segurança alimentar e monetária.
Celebraram também um acordo de isenção de vistos para passaportes diplomáticos. Vale para o período de 2009 a 2012.
Lula e Ahmadinejad discursaram. O presidente brasileiro teve a sabedoria de mencionar temas caros ao Brasil, frequentemente negligenciados no Irã.
Por exemplo: Lula defendeu a paz no Oriente Médio e o respeito aos direitos humanos e à diversidade. Condenou o terrorismo.
Depois, a dupla deu rápida entrevista. No miolo das manifestações, a política nuclear do Irã.
Lula defendeu o direito do Irã de enriquecer urânio para fins pacíficos, do mesmo modo que faz o Brasil.
Ahmadinejad retribuiu apoiando o acesso do Brasil a uma cadeira de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.
De resto, o presidente iraniano disse apoiar a participação do Brasil como mediador dos conflitos no Oriente Médio.
O problema é que, do ponto de vista diplomático, a simpatia de Ahmadinejad por Lula e pelo Brasil parece atrapalhar mais do que ajudar.
Ahmadinejad é conhecido pela perseguição a homossexuais e a opositores. Nega o holocausto e desconsidera o Estado de Israel.
Houve manifestações em Brasília. No meio-fio (contra e a favor) e no Congresso (só contra). Por sorte, a visita foi rápida.
O visitante incômodo desembarcou em Brasília na manhã desta segunda (23) e dá no pé na noite desta mesma segunda.
Segue para dois destinos onde será bem mais festejado: a Bolívia de Evo Morales e a Venezuela de Hugo Chávez, parceiro preferencial do Irã na América Latina.
Tomado pela importância econômica, o Irã é um parceiro irrisório do Brasil. As transações entre os dois países somam menos de US$ 2 bilhões anuais. Uma cifra que se pretende elevar.
A candidatura presidencial do tucano José Serra passa por um processo de lipoaspiração.
Em movimento inverso, o projeto Dilma Rousseff-2010 vem ganhando massa muscular.
Em dezembro de 2008, o instituto Sensus atribuía a Serra 46,5% das intenções de voto.
Dilma era, nessa época, uma candidata raquítica. Amealhava irrisórios 10,5% da preferência dos eleitores.
Pois bem. Os pesquisadores do Sensus voltaram ao meio-fio entre os dias 16 e 20 de novembro.
Constatou-se o seguinte: Serra dispõe agora de 31,8%. Dilma arrasta a preferência de 21,7% dos eleitores.
Na ponta do lápis: Serra perdeu 14,7 pontos percentuais de gordura. Dilma adensou em 11,2 pontos a sua musculatura.
Dito de outro modo: a diferença que separa Dilma de Serra era, há um ano, de 36 pontos percentuais. Agora, é de 10,1 pontos.
Nessa última rodada do Sensus, Ciro Gomes aparece atrás de Dilma, com 17,5%. Marina Silva belisca 5,9%.
Por que Serra definha? Pode-se intuir que a resistência do tucano em retirar a candidatura do armário tenha alguma influência.
De resto, a pesquisa confirma, em números, algo de que já se suspeitava: FHC tira votos dos candidatos em que toca.
Nada menos que 49,3% dos eleitores informam que não votariam num presidenciável apoiado por FHC.
Por que Dilma se tonifica? Levada à vitrine com antecedência inaudita, a ministra passeia a candidatura pelo país.
Afora a superexposição, Dilma é carregada por um cabo eleitoral poderoso. O potencial de transferência de votos de Lula é estimado em 51,7%. O de FHC, em 17,2%.
O índice dos que declaram que jamais votariam num candidato de Lula caiu de 20,2% para 16%.
Por que Lula é um eleitor mais vigoroso do que FHC? A resposta está na comparação entre os governos dos dois.
Entre os entrevistados, 76% consideram que a gestão de Lula é melhor do que a administração FHC.
Se o PSDB optar por Aécio Neves em vez de Serra, Dilma assume a liderança da pesquisa. Ela com 27,9%. Ele com 20,7%. Marina Silva fica com 10,4%. Nesse cenário, o nome de Ciro foi excluído.
O Sensus também mediu o potencial dos candidatos em hipotéticos cenários de segundo turno.
Hoje, Serra prevaleceria em todos os cenários. Venceria Dilma com 46,8% dos votos contra 28,2% da rival. Em setembro, o placar era de 49,9% a 25%.
Numa queda-de-braço com Aécio, Dilma venceria o segundo turno –36,6% contra 27,9%. Em setembro, dava 35,8% contra 26%.
Sob a luz fria dos números, a estratégia adotada por Lula revela-se precisa. Esforça-se para associar a candidata a si mesmo e ao seu governo.
E tenta estabelecer uma disputa de projetos. De um lado, a era Lula. Do outro, o ciclo FHC. Presente X Passado. No popular: “Nós contra eles”.
Para complicar a vida do tucanato, o Sensus informa que melhorou a avaliação do governo Lula.
Em setembro, a gestão de Lula era aprovada por 65,4% dos eleitores. Hoje, 70% avaliam o governo como ótimo ou bom.
Subiu também a avaliação pessoal de Lula. Foi de 76,8% para 78,9%. Não retornou aos 80% do início do ano. Mas continua nas nuvens.
Parece óbvio que, se quiser conservar a aura de favorito, Serra terá de promover uma reviravolta em sua estratégia.
Fala que só vai assumir a candidatura em março de 2010. Parece discurso de quem prepara a rota de fuga.
- Serviço: Pressionando aqui, você chega ao relatório da pesquisa, feita por encomenda da Confederação Nacional dos Transportes.
Divulgação Chama-se João Vaccari Neto o novo Delúbio Soares do PT. Será empossada, em fevereiro, na função de tesoureiro do partido.
Vaccari vai comandar as arcas petistas nas eleições de 2010. A repórter Ana Flor levou às páginas da Folha uma notícia, digamos, inquietante.
Ela conta que o novo senhor das finanças do PT preside, desde 2004, uma entidade chamada Bancoop.
Trata-se de uma cooperativa habitacional dos bancários de São Paulo. Encontra-se sob investigação do Ministério Público estadual.
A Bancoop convive com um rombo estimado em R$ 100 milhões. Tenta buscar no bolso dos associados dinheiro para saldar o débito.
Como se formou o buraco? O promotor José Carlos Blat, que conduz a investigação, diz que de que a Bancoop desviou recursos.
Para onde? Para empresas ligadas a alguns de seus dirigentes, que repassaram as verbas para campanhas do PT. O tema tem frequentado o noticiário.
O inquérito do Ministério Público foi aberto em 2007. O promotor Blat chega mesmo a dizer que a Bancoop é "uma organização criminosa" com objetivos "político-partidários".
Desde o mensalão, um escândalo de 2005, a tesouraria do PT é vista –ou deveria ser— como uma zona de alta sensibilidade.
Delúbio Soares foi o único petista expurgado da legenda por conta da parceria valeriana que injetara nos cofres do PT verbas de má origem.
Sucessor de Delúbio, o petista Paulo Ferreira gerenciou a caixa registradora do partido sem deixar máculas.
O problema é que o estatuto do PT veda a recondução de Paulo Ferreira à tesouraria. Daí a troca de comando.
Vaccari desfruta da confiança do atual presidente do PT, Ricardo Berzoini, também ele um fundador e ex-presidente da Bancoop.
Ex-secretário-geral da CUT e ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Vaccari é, hoje, segundo suplente do senador Aloizio Mercadante.
No alvorecer do governo Lula, de cuja amizade tem o privilégio de desfrutar, Vaccari chegou a ser cogitado para a presidência da Caixa Econômica Federal.
Lula preferiu acomodá-lo em posição de menor realce, o Conselho de Administração de Itaipu. Procurado pela reportagem, Vaccari não telefonou de volta.
Mas, noutras oportunidades, ele sempre negou que a Bancoop esconda malfeitos em suas escriturações. O amigo Berzoini acusa o Ministério Público de promover uma investigação política.
Como o inquérito da Bancoop é coisa ainda inconclusa, sempre se poderá argumentar que Vaccari e a entidade que preside têm a seu favor o benefício da dúvida.
Mas, ao acomodar a interrogação numa tesouraria de triste memória, o PT revela-se uma legenda irremediavelmente afeiçoada ao risco.
Ao comparecer às urnas do PT, neste domingo (22), Dilma Rousseff enfrentou um cerco de repórteres.
Concedeu uma dessas entrevistas que, por improvisadas, são chamadas em Brasília de “quebra-queixo”.
A presidenciável de Lula soou em timbre surpreendentemente ameno. Bem diferente daquela Dilma pós-apagão, que interpelara uma repórter com um ríspido “minha filha!”.
A nova Dilma fala sobre todos os temas sem franzir a testa, com uma calma de dar sono. A TV-PT levou a entrevista à web. Assista lá no alto.
Presidente disse não ter ‘ilusão’ sobre os acertos estaduais
Declarou ser ‘difícil’ fazer comício em palanques diferentes
Cúpula pemedebê recebeu os comentários com o ‘pé atrás’
Em reunião com PT, aliado cobrará‘solidariedade regional’
Jochen Luebke/Efe
As cúpulas do PT e do PMDB se reúnem nesta quarta (25), em Brasília. Vão à mesa as pendências que condicionam o fechamento da aliança para 2010.
São querelas regionais, que dificultam a reprodução nos Estados da parceria nacional em torno da presidenciável oficial Dilma Rousseff.
Será o segundo encontro do gênero. No primeiro, realizado há duas semanas, os desacertos foram tratados a golpes de barriga.
Os negociadores do PT alegaram que era preciso aguardar o resultado da eleição interna que renovaria as direções do partido –a nacional e as estaduais.
A eleição petista ocorreu neste domingo (22). Espera-se que os resultados, ainda não proclamados, venham à luz antes da reunião de quarta.
No plano nacional, a virtual eleição de José Eduardo Dutra para a presidência do PT serve aos planos de Dilma. Dutra defende a aliança com o PMDB.
É nos Estados que se concentram os problemas. A depender do pronunciamento das urnas petistas, a composição com o PMDB pode evoluir para a encrenca.
Ao votar, Lula fez declarações que impregnaram de desânimo o naco do PMDB que negocia o apoio a Dilma.
O blog conversou com três grão-pemedebês com assento no comitê negociador. Queixaram-se do comportamento do presidente. O que disse Lula? Em essência, duas coisas:
1. "Eu não tenho mais ilusão quando se trata de disputas locais. Por mais que a gente oriente as pessoas de que o que deve prevalecer é o projeto nacional, normalmente o que tem acontecido é que cada um olha para o seu umbigo e prevalecem as questões dos Estados".
2. “É sempre difícil quando uma candidata à Presidência ou um candidato vai num Estado fazer comício em dois palanques diferentes. É sempre muito complicado, parece fácil colocar no papel, muito simples teorizar, mas, na prática, você não tem como fazer dois discursos pedindo votos para dois candidatos diferentes”.
Ouça-se um dos pemedebês que conversaram com o repórter: “O presidente falou como se lavasse as mãos numa hora em que deveria arregaçar as mangas”.
Lembrou de uma reunião ocorrida no escritório da Presidência da República, em São Paulo, há coisa de quatro meses.
Nesse encontro, Lula dissera a líderes do PMDB e do PT que cuidaria pessoalmente de aparar as quinas que se insinuam em alguns Estados.
Mencionara o Rio. Ali, empurraria o PT para dentro da coligação reeleitoral de Sérgio Cabral (PMDB). Conteria os arroubos do petista Lindberg Farias, fazendo-o desistir da candidatura ao governo e acomodando-o na disputa para o Senado.
Citara o caso de Minas Gerais. Acenara com o prestígio ao ministro Hélio Costa, candidato do PMDB à sucessão de Aécio Neves. Pedira paciência.
Alegara que era preciso aguardar novembro, para saber quem prevaleceria no diretório do PT mineiro –se o grupo de Fernando Pimentel ou o de Patrus Ananias, ambos candidatos ao governo estadual.
Lula falara, de resto, da encrenca de Mato Grosso do Sul. Assegurara que Zeca do PT não seria pedra no sapato de André Puccinelli, candidato do PMDB à reeleição.
“O tempo passou e o presidente não interveio em nenhuma das disputas”, queixou-se o segundo pemedebê ouvido pelo repórter. “O Lindberg continua candidato, o Fernando Pimentel desconhece o Hélio Costa e o Zeca do PT empurra o Puccinelli para o palanque do Zé Serra...”
“...E, numa hora dessas, o presidente Lula vem dizer que ‘não tem mais ilusão’! Ora, não se trata de ter ou não ter ilusão. Trata-se de fazer política. Não se pode perder de vista que o nosso pré-acordo depende de aprovação numa convenção composta por delegados que vem dos Estados”.
Hoje, o PMDB pró-Dilma julga ter maioria na convenção, que ocorrerá em junho. Mas receia que, perdendo dois Estados –MS e MG, por exemplo—a maioria pode ir para as cucuias.
Para complicar, representantes de 15 diretórios do PMDB firmaram, no sábado (21), uma moção em defesa da candidatura própria. Mais: o governador Roberto Requião foi lançado como candidato do PMDB à Presidência.
O terceiro grão-pemedebê que falou ao repórter disse que, entretido com o jogo Flamengo X Goiás, ainda não havia lido as declarações de Lula. Estranhou o relato do repórter acerca da menção aos dois palanques.
Lembrou que o PMDB comparecerá às urnas da Bahia com a candidatura do ministro Geddel Vieira Lima, contra o projeto reeleitoral do petista Jaques Wagner. No caso baiano, o PMDB exige a efetivação da política do palanque duplo. Algo “muito complicado”, no dizer de Lula.
O tucano José Serra não está alheio à encrenca. Na semana passada, Geddel foi a São Paulo, para um seminário da área da defesa civil. Serra comprometera-se a dar as caras. Mas não foi.
Depois, a pretexto de explicar-se sobre a ausência, o presidenciável tucano chamou Geddel para uma conversa privada. Lero vai, lero vem, falaram sobre 2010. Geddel não deu esperanças a Serra. Ao contrário. Foi taxativo quanto aos compromissos que o ligam a Dilma. Depois, relatou o encontro a Lula.
O diabo é que a fidelidade de Geddel ao pré-acerto com o PT está condicionada à efetivação do duplo palanque na Bahia, lembrou o pemedebê ao repórter. São essas as encrencas que vão à mesa na reunião de quarta. O PMDB cobrará do PT um pingo de "solidariedade regional".
Paulino Menezes/Divulgação O PT foi às urnas neste domingo. Escolhe, em eleição direta, novos dirigentes nacionais, estaduais e municipais.
O resultado só deve sair nesta segunda (23). Para presidente nacional, o favorito é José Eduardo Dutra, candidato de Lula.
Apresentado como dirigente da nova geração, Dutra traz o velho enganchado à sua chapa, apinhada de réus do mensalão.
Pessoas processadas no STF por crimes como corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha.
Entre elas José Dirceu, tachado pelo Ministério Público de chefe da “quadrilha”. Além dele, o deputado João Paulo Cunha.
Vem a ser aquele ex-presidente da Câmara que mandou a mulher buscar valerianas numa agência bancária e disse que ela fora pagar a conta da TV por assinatura.
Ouvida a respeito, a presidenciável petista Dilma Rousseff disse que a volta dos que não foram é parte do processo democrático. Coisa “natural”.
"Ninguém pode se cassado a priori”, disse ela. O Brasil, Dilma recordou, é uma democracia. “Uma das maiores democracias do mundo".
Lula, que acompanhava Dilma, realçou o fato de o PT ser, hoje, mais maduro. Acha que o partido é "muito mais senhor da situação".
Curiosa, muito curiosa, curiosíssima a flexibilização semântica do petismo. Impunidade virou sinônimo de democracia e amadurecimento político.
Há uma semana, Lula classificara o mensalão, maior escândalo de sua gestão, como “armação”.
Não uma armação qualquer, mas “a maior armação já feita contra o governo”. Neste domingo, admitiu que o PT pode ter errado. Nada demais, contudo.
"Não existe na história da humanidade, na história política do mundo, um partido que, estando no poder, não tenha cometido erros...”
“...Isso aconteceu no mundo inteiro e aconteceu no PT. [...] Os erros cometidos devem servir de ensinamentos para que a gente não erre outra vez".
O petismo não parece ter aprendido coisa nenhuma. Jogou Delúbio Soares ao mar e manteve na embarcação todo o resto da carga apodrecida.
Animado, José Dirceu já empresta sua experiência à campanha de Dilma. “É um desafio fazer uma campanha sem Lula”, diz ele.
Fora da cédula, Lula é o grande personagem da campanha. Dedica-se a apaziguar as desavenças estaduais do PT com seus aliados, sobretudo o PMDB.
Nascido há três décadas como borboleta da política brasileira, o PT protagoniza uma inusitada volta ao casulo, túmulo da lagarta.
O partido já acomodou na enciclopédia um verbete indigno de sua história. Desceu aos livros como larva. Vai à posteridade com um rastro pegajoso de perversões.
O PT e Lula protagonizaram o caso mais dramático de flexibilização das fronteiras ideológicas.
No governo, Lula se deu conta de que quem ele era antes de tomar posse, em 2003, não estava preparado para o sucesso.
Não tendo escrito nada, esqueceu do que falara. Mimetizando FHC, adotou a edulcorada retórica do arranjo, do possível.
Abandonou as convicções que lhe emprestavam aquele ar de sapo-cururu. O ex-PT integra-se à baixeza comum a todos os partidos.
Peleja para provar-se capaz de ceder a todas as abjeções políticas, inclusive a das alianças esdrúxulas.
Ao dar à capitulação o nome de amadurecimento ou de democracia, Lula e Dilma afrontam o léxico.
Coisa própria do cinismo que caracteriza o universo político brasileiro, onde qualquer coisa pode significar qualquer coisa.
O novo Lula e o ex-PT provam que, com o passar do tempo, qualquer um pode atingir a perfeição da impudência.
Sede fictícia de empresa que recebeu R$ 115 mil da Câmara
Mantidos pela Câmara longe dos holofotes, os arquivos que guardam os comprovantes de despesas dos deputados escondem um escândalo.
A Folha obteve no STF liminar que ordenou à direção da Câmara a abertura das gavetas referentes aos quatro últimos meses de 2008.
A contragosto, a Câmara viu-se compelida a abrir quatro gavetas de seu vasto arquivo secreto. Referem-se aos últimos meses de 2008.
No total, são cerca de 70 mil documentos. Nas últimas duas semanas, os repórteres Alan Gripp e Ranier Bragon varejaram 2 mil folhas.
Foi o suficiente para descobrir que o uso da chamada verba indenizatória (R$ 15 mil mensais por deputado) não resiste a uma inspeção ligeira.
Para justificar o dinheiro subtraído das arcas da Viúva, foram levadas à caixa preta da Câmara notas de empresas de fancaria. Aos exemplos:
1. Chama-se SC Comunicações e Eventos a empresa que mais recebeu verbas relativas a serviços de consultoria.
Para “atender” a dez deputados e ex-deputados, a SC beliscou R$ 115 mil. A reportagem foi ao endereço que consta da nota.
Encontrou uma casa humilde, na cidade goiana de Luziânia (foto lá no alto). Dono do imóvel, o caminhoneiro Giovani Braz de Queiroz disse:
"Nunca funcionou nenhuma empresa ali, isso eu posso garantir". O proprietário da SC é o jornalista Umberto de Campos Goularte.
Vem a ser assessor do senador João Durval (PDT-BA). Atribui o “erro” de endereço ao contador. Alega ter prestado serviços de assessoria de imprensa.
O diabo é que, para essa atividade, os deputados já dispõem de verbas específicas –R$ 60 mil ao mês.
2. Um par de deputados baianos –Severiano Alves (PMDB) e Uldurico Pinto (PHS)—levaram aos arquivos um lote de notas da Valente & Bueno Assessoria Empresarial.
Nos quatro meses submetidos a exame, migraram da Câmara para a caixa registradora da empresa R$ 56 mil.
As notas informam que a firma funciona num endereço da Asa Sul de Brasília. Um apartamento. O dono jamais ouvira falar da Valente & Bueno.
No último mês de abril, data em que a Câmara passou a veicular na web dados numéricos e nomes de empresas, a Valente sumiu dos registros.
3. O deputado Zezéu Ribeiro (PT-BA) pendurou nos arquivos três notas emitidas pela Seven Promoções.
A numeração –1, 2 e 3— sugere que a empresa tinha no deputado o seu único cliente. Aberta em 1999, só buliu no talonário em 2008.
No endereço anotado nos documentos fiscais funciona uma corretora de seguros, não a firma de “promoções”.
4. Parte da verba indenizatória é usada pelos deputados para custear o aluguel de carros. A reportagem verificou a situação de duas “locadoras”.
Uma, a Meridiano Locação de Equipamentos, diz operar num endereço em que não há senão uma firma de saneamento de outro nome.
Outra, a Information Systems Tecnologia, diz operar num imóvel que traz na fachada a logomarca de um comércio de comércio de cartões telefônicos.
Sem se identificar, os repórteres tentaram alugar automóveis nas duas firmas. Foram informados de que não havia em ambas essa modalidade de serviço à disposição.
Ouvidos os deputados, as empresas deram meia-volta. Alegaram que alugam, sim, automóveis. Os funcionários haviam se “equivocado”.
5. A perversão alcança também o transporte aéreo. A empresa Global Express Serviços de Aviação recebeu da Câmara R$ 96,2 mil.
Fica em Rio Acima, uma cidade mineira que não dispõe de aeroporto. No endereço, há uma casa que serve de teto para o metalúrgico aposentado João Bosco das Neves, a mulher dele e um cachorro barulhento.
A Global Express não dispõe de autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar no ramo de transporte aéreo de passageiros.
O dono da empresa, Leonardo de Vasconcelos Vieira, diz que ela existe. Não funciona em Rio Acima, mas em Belo Horizonte. Não dispõe de aviões.
"Nós fazemos subfrete, é como um mercado paralelo, para fugir de custos mais altos", justifica-se Leonardo.
As verbas indenizatórias dos deputados foram inventadas em 2001, sob a presidência de Aécio Neves, hoje candidato do PSDB ao Planalto.
A julgar pelo resultado dessa rápida análise, pode-se intuir que a perversão vem desde a criação da encrenca.
Está-se diante de um caso de polícia que espera há nove anos por alguém que se disponha a investigá-lo. Quem se habilita? O TCU? O Ministério Público?
Fábio Pozzebom/ABr Lula promete vetar qualquer projeto do pacote companheiro de Paulo Paim que o Congresso se aventure a aprovar.
Numa das notas da coluna que leva às páginas deste domingo (22), encontrável na Folha, o repórter Elio Gaspari ilumina a incoerência presidencial. Leia:
- “Bolsa ditadura: Nosso Guia pode ter os melhores argumentos para vetar mudanças nas contas da Previdência, mas ficaria numa posição mais respeitável se ao mesmo tempo abrisse mão de sua Bolsa Ditadura.
Por conta de 31 dias de cadeia (com direito a cenas sombrias no filme "Lula, Filho do Brasil") Nosso Guia recebe perto de R$ 5.000 mensais.
Se tivesse deixado na poupança todos os mimos que recebe desde 1996, teria mais de R$ 1 milhão”.
Sem alarde, a direção do PSDB fará nas próximas semanas um lote de consultas a lideranças de partidos que gravitam em torno de Lula.
Deseja-se verificar se há entre os sócios do consórcio governista quem cogite a sério a hipótese de se compor com a oposição em 2010.
Por ora, são dois os parceiros eleitorais do PSDB: DEM e PPS. Vai-se verificar se há alguma chance de enganchar outras legendas à coligação.
Serão procurados políticos de pelo menos quatro agremiações: PDT, PR, PP, PTB e a ala dos descontentes do PMDB. Deseja-se saber:
1. Se os partidos que gravitam em torno de Lula já assumiram compromissos irreversíveis com a candidatura oficial de Dilma Rousseff.
2. Se há entre as legendas governistas alguma que se disponha a trocar de canoa.
3. Se a opção por Aécio Neves, em detrimento de José Serra, ampliaria as chances de atrair novas adesões à caravana da oposição.
O ciclo de consultas é parte do processo que levará o tucanato a optar, até janeiro de 2010, por Serra ou por Aécio.
Deve-se a decisão de ouvir os supostos aliados do inimigo à estratégia desenvolvida pelo governador tucano de Minas Gerais.
Aécio coleciona nas pesquisas de opinião menos da metade das intenções de votos atribuídas ao governador de São Paulo, líder das sondagens.
A despeito disso, Aécio estica a corda. Reitera internamente uma tese que esgrime sob holofotes há meses:
A decisão do partido, diz Aécio, não pode levar em conta apenas as pesquisas. Alega que é mais “agregador” do que Serra.
Afirma que, escolhendo-o, o PSDB desarruma o palanque que Lula, impondo dificuldades à trajetória de Dilma.
O alto comando do tucanato não ignora que o nome de Aécio, de fato, transita no universo governista com mais fluidez que o de Serra.
Jeitoso, Aécio tem diálogo fácil com o ministro Carlos Lupi (Trabalho), mandachuva do PDT. O PP é presidido por Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo Neves, o avô de Aécio.
Ex-presidente da Câmara, o governador mineiro colecionou simpatias suprapartidárias. Transita com facilidade entre as bancadas, inclusive as mensaleiras, como a do PR.
Antes de trocar o Planalto pelo TCU, o ministro José Múcio (PTB), ex-coordenador político de Lula, conversava amiúde com Aécio.
Ao abrir o ciclo de consultas, a direção do PSDB deseja tirar a prova dos nove. Quer saber até onde vai o poder de sedução de Aécio.
Noutras palavras: deseja-se verificar se o charme do rival de Serra pode mesmo resultar em acordos formais.
A intenção não é a de confrontar Aécio. Ao contrário. A intenção do grão-tucanato é a de demonstrar ao rival de Serra que o partido leva em conta os seus argumentos.
O grosso do PSDB pende para Serra. Mas sabe que, sem o eleitorado de Minas, um candidato de São Paulo entra na briga com cara de perdedor.
Daí a decisão de realizar, por meio de consultas às legendas governistas, uma aferição prática da capacidade agregadora que Aécio se auto-atribui.
Na semana passada, como que desejoso de realçar que traz na cintura mais roldanas do que Serra, Aécio reuniu-se com Ciro Gomes, o pseudopresidenciável do PSB.
Inimigo figadal de Serra, a quem chama de “o coiso”, Ciro disse aos microfones que, prevalecendo Aécio, sua candidatura torna-se dispensável.
Nos subterrâneos, a turma de Serra chiou a mais não poder. Mas, na direção do partido, o movimento de Aécio foi visto com compreensão inaudita.
A cúpula do tucanato intui que Ciro faz o jogo dele, não o de Aécio. Ouça-se o que disse ao repórter um dirigente do PSDN:
“Seguramente, o Ciro não tem a intenção de trazer o PSB para nos apoiar. Ao criar problemas para o Serra, ele se credencia junto ao Lula, que o escanteou...”
“...Mas o Aécio cumpre o papel dele. Ele tem de manter a candidatura presidencial até o limite máximo...”
“...Se prevalecer, ótimo. Se der o Serra, como tudo leva a crer, ele terá demonstrado ao eleitorado de Minas que lutou até o limite de suas forças...”
“...O nosso papel é construir um processo de decisão que não deixe mal o Aécio, que leve em conta os argumentos dele”.
O esforço do PSDB para evitar que Aécio saia com a cara de derrotado da disputa que trava com Serra inclui a preocupação com o calendário.
A direção do partido não cogita adiar a escolha do candidato para além do mês de janeiro de 2010.
Em parte porque Aécio quer assim. Mas também porque é minoritário o grupo que se dispõe a esperar até março, como quer Serra.
Ouça-se, de novo, o dirigente do PSDB: “Nosso pessoal já está inquieto. As pessoas vêem a candidata do governo fazendo campanha à luz do dia...”
“...Do nosso lado, enxerga-se a confusão entre Serra e Aécio. Todo mundo quer uma definição. Agimos para que tudo termine bem. E rápido”.
Esse negócio de palavras terminadas com a desinência ‘ão’ é coisa exclusiva do português. É por isso que os estrangeiros derrapam ao dar de cara com o ‘ão’.
Tisnada pelo inusitado desde o tempo da colonização, a vida pública brasileira está, de novo, rendida à lógica do ‘ão’.
Nunca antes na história da nação uma sucessão fora deflagrada com tanta antecipação.
Proibido pela Constituição de buscar a re-reeleição, Lula viu-se compelido a fabricar uma opção. Recorreu a Dilma, uma novata em eleição.
De saída, o petismo flertou com a divisão. Mas, deserto de lideranças, rendeu-se à vontade do eterno patrão.
Bafejado por uma popularidade que não encontra termo de comparação, Lula levou sua candidata à vitrine com antecedência de mais de um ano da eleição.
Deixou aturdida a oposição. PSDB e DEM foram ao TSE, para pedir punição. Mas a Justiça hesita em impor os rigores da legislação.
De mais a mais, os acusadores recorrem à mesma perversão. Serra celebra país afora convênios pseudo-administrativos, acordos de ocasião.
Vende-os como meras iniciativas de cooperação. Lorota, embromação. Há um quê de 2010 em toda a movimentação.
Quanto a Lula, conduz Dilma pela mão. Para disfarçar a campanha, recorre ao vocábulo da negação.
Comício? Não, não e não. Mãe de todas as obras, Dilma tem o direito de fazer inspeção. Não pode se furtar à inauguração.
A caravana ao São Francisco? Um esforço pela transposição. E a presença de Ciro? Ora, ele foi ministro da Integração.
A candidata só desaparece na hora do apagão. Aí, surpresa (!), assombro (!!), estupefação (!!!), a explicação é delegada ao Lobão.
Incomodados com o vaivém, os jornais destilam indignação. Letras vazias. Servem, quando muito, para aumentar a exposição. Mas não levam à punição.
De resto, instados a assumir as próprias candidaturas, os candidatos dizem que ainda não são. Lançam mão de sofismas, de muita tergiversação.
Sob a camada de desconversa, é intensa a articulação. Os não-candidatos dizem coisas definitivas sem definir o que farão.
Dilma almeja reeditar a coalizão. Serra serve-se de Quércia para enfiar uma cunha no centrão. Nada de idéias, de planos. Ao eleitor, só a desatenção.
Depois de firmar um acordo pré-nupcial, PT e PMDB criaram uma comissão. Tentam eliminar, nos Estados, a divisão. O diabo é que ninguém abre mão do seu quinhão.
Governistas e oposicionistas fazem reunião atrás de reunião. O vazio almoça com o oco, que articula com o ermo, que janta com a indecisão. Um mar de empulhação.
O que se tem? Por ora, apenas uma disputa da promessa de continuação contra a volta a um passado que se apresenta como atualizada reedição.
Um lero-lero sem qualificação, em palco apinhado de prontuários que, sem voz de prisão, asseguram continuidade à corrupção.
Privado do essencial –plano e definição— o eleitor fica com a incômoda impressão de que não elegerá um novo presidente, mas a melhor encenação.
Como se fosse pouco, há na praça uma nova opção. O ‘PMDBdoB’ lançou candidato próprio à sucessão. Histrião por histrião, por que não o Requião?
Folha Reunidos em Curitiba, representantes de 14 diretórios estaduais do PMDB aprovaram uma moção de apoio à candidatura presidencial de Roberto Requião.
Em discurso, o governador do Paraná declarou-se “pré-candidato” ao Planalto. E anunciou que vai abrir um ciclo de viagens pelo país:
“Mandem um aviso aos nossos dirigentes nacionais d PMDB: aqui se consolidou uma pré-candidatura...”
“...Essa pré-candidatura se inicia numa viagem ao Piaui. O segundo Estado a ser visitado será o de Sergipe, onde meus pais deitam as suas raízes ancestrais”.
O nome de Requião surge como suposta alternativa partidária ao acordo pré-nupcial que uniu o PMDB nacional à candidatura de Dilma Rousseff, do PT.
O encontro de Curitiba reuniu três tipos de pemedebês:
1. O pedaço do partido que deseja mesmo ter uma alternativa presidencial própria.
2. O naco da legenda que, simpática a Dilma, está insatisfeita com a falta de generosidade do PT nos arranjos estaduais.
3. A fatia da agremiação que, fechada com o tucano José Serra, tenta impedir que o PMDB entregue a Dilma o seu tempo de propaganda televisiva.
Requião entra em cena como catalisador de todas as insatisfações. Ouça-se mais um pouco do novo “presidenciável” da praça:
“Sou amigo do Lula, sou amigo pessoal da Dilma, sou companheiro do Serra desde a época dos bancos universitários...”
“...Mas sou, antes de tudo, pemedebista e brasileiro. Se nos é dada a oportunidade de participar dessa discussão nacional, não podemos deixar de fazê-lo”.
Requião foi o último a discursar no encontro de Curitiba, encerrado às 14h deste sábado (21). Pouco antes, falara o senador Pedro Simon, presidente do PMDB-RS.
Simon lamentara que o PMDB esteja dividido entre Dilma e Serra, dois presidenciáveis de legendas alheias.
“Quem vai ganhar? O Serra? A Dilma? Ninguém sabe. Mas o que todo mundo sabe é que o PMDB vai estar no governo, seja quem for o vencedor. Isso tem que acabar”.
Simon acrescentou: “Temos que ter um nome. E esse nome é o Requião”. Minutos depois, já circulava a moção com o nome do governador do Paraná. O jogo estava jogado de véspera.
Para ficar de pé, a candidatura própria do PMDB, assim como o apoio a Dilma, precisa ser aprovada pela maioria da convenção do partido, em junho de 2010.
Antes disso, o "PMDBdoB", que Requião prefere chamar de "velho MDB de guerra", terá de provar que o novo presidenciável é coisa a ser tomada a sério.
A última tentativa de candidatura própria do PMDB resultara numa humorística greve de fome de Anthony Garotinho.
Hoje, Garotinho é um feliz filiado do PR. Candiato ao governo do Rio, ele é Dilma desde menininho.
Marcello Casal/ABr Defensor da permanência no ex-guerrilheiro Cesare Battisti no Brasil, o ministro Tarso Genro (Justiça), muniu-se de lenha.
Na última quinta (19), nas pegadas da decisão do STF que deu a Lula a última palavra sobre a extradição, Tarso levou novos gravetos à fogueira.
Disse que setores da sociedade e do governo da Itália reclamam o retorno de Battisti porque sofrem “influências fascistas”.
O ministro italiano da Defesa, Ignazio La Russa, que noutras oportunidades dirigira críticas acerbas a Tarso, dessa vez borrifou água nas labaredas:
“Ele é livre para expressar sua opinião, como nós fazemos aqui na Itália”.
Deu-se coisa diversa com o presidente do Senado italiano, Maurizio Gasparri. O senador açulou o fogo:
“A amizade entre a Itália e o Brasil é tal, que podemos ignorar, mais uma vez, a patetice dita pelo senhor Genro”.
Os comentários do ministro da Justiça ecoaram também no Senado brasileiro. Líder do DEM, José Agripino (RN), disse:
“O governo italiano vai entender essa declaração como um insulto a sua realidade. O fascismo foi varrido da Itália há muito tempo...”
“...O ministro não deveria ter insultado a Itália com esta pejorativa declaração”.
Adversário de Tarso na política gaúcha, Pedro Simon, do PMDB, foi, por assim dizer, menos lhano que Agripino:
“O ministro perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. Ele pode achar que Battisti deve ficar no Brasil, mas...”
Mas ...”o presidente tem que tomar a atitude correta e extraditá-lo, como determinou o STF”.
O diabo é que, diferentemente do que afirma Simon, o STF (Supremo Tergiversador Federal) decidiu não decidir.
Depois de referendar a extradição, transferiu a Lula a atribuição de devolver ou não Battisti à Itália, onde arrosta uma condenação por quatro homicídios.
Carlos Ayres Britto, que, depois de votar pela extradição, abraçou a tese de que cabe a Lula decidir, esforça-se agora para justificar a aparente dubiedade:
“Cada coisa em seu lugar. O Supremo decide sobre a extraditabilidade, a parte jurídica, encerra aí...”
“...Em sequência, vem a parte política, que é de responsabilidade do presidente da República”.
Lula já decidiu. Mas faz mistério. Para usar o linguajar de Ayres Britto, suponha-se que o presidente decida pela inextraditabilidade de Battisti.
A fogueira inaugurada por Tarso Genro parecerá brincadeira de criança perto do fogaréu diplomático que está por vir.
Michel Temer disse ao blog que recebe com “naturalidade” a abertura do debate sobre a hipótese de o PMDB lançar um presidenciável próprio.
Presidente da Câmara e fiador do acordo pré-nupcial que aproximou o PMDB do altar de Dilma Rousseff, a candidata do PT, Temer afirma:
“O pré-compromisso [de apoio a Dilma] está firmado muita solidamente. Não há nenhum titubeio. Pelo que observamos, não sofre riscos”.
A despeito do timbre peremptório utilizado por Temer, um pedaço do PMDB decidiu reunir-se sob o pretexto de buscar uma alternativa a Dilma. Deve-se a iniciativa ao governador do Paraná, Roberto Requião. Ele inaugurou um movimento que tem o propósito declarado de empinar uma candidatura do PMDB.
Iniciado nos subterrâneos, o debate ganhará publicidade neste sábado (21), num encontro em Curitiba. Prometeram acorrer à capital paranaense os dirigentes de pelo menos dez dos 27 diretórios Estaduais do partido: SP, MG, RJ, RS, PR, SC, MS, ES, SE e PI.
Os organizadores estimam que o número pode crescer para 15. Espera-se que compareçam também três dos oito governadores do PMDB. Além de Requião, que faz as vezes de anfitrião, devem participar Luiz Henrique, de Santa Catarina; e André Puccinelli, do Mato Grosso do Sul. A coisa será transmitida ao vivo, na web.
Convidado, Temer disse que não prestigiará o encontro. “Não vou poder comparecer. Mas não há nisso nenhuma objeção à reunião”, disse o deputado. “Vejo com naturalidade e acho até úteis essas reuniões do PMDB. Ajudam a mobilizar o partido para a eleição do ano que vem...”
“...Como as coisas acabam se definindo apenas na convenção nacional, marcada para junho de 2010, é claro que nós temos muito tempo pela frente”. No dizer de Temer, ocorre em Curitiba “apenas mais uma reunião”. Lembrou que o grupo comprometido com Dilma também realiza os seus encontros:
“Designei oito pessoas PMDB. Tem outras sete do PT. Já se encontraram uma vez e voltam a se encontrar no dia 25, para ir ajustando a situação nos Estados”. Curiosamente, a lista de diretórios cujos presidentes aceitaram tomar parte da reunião curitibana inclui Estados nos quais o PMDB parece pender para Dilma.
Entre eles Minas e Rio. No primeiro, o PMDB concorrerá ao governo com o ministro Hélio Costa (Comunicações). No outro, tentará reeleger Sérgio Cabral. Em ambos o PT ainda não executou o movimento exigido pelo PMDB: a retirada das candidaturas de Fernando Pimentel, em Minas, e de Lindberg Farias, no Rio.
O repórter perguntou a Temer: a presença desses diretórios num encontro que tem a candidatura própria como pano de fundo pode significar uma reação ao PT? E ele: “É até natural que aconteça isso que você está dizendo. Enquanto não há a solução definitiva dos Estados, é claro que cada um vai tomando suas posições”.
O presidente da Câmara parece confiar, porém, na parceria com o PT. “No Rio, há uma solução quase sacramentada. O Cabral é muito ligado ao Lula. Quanto a Minas, deve-se lembrar que o Hélio Costa é ministro do Lula. Lá também está havendo um esforço para fazer o acordo com o PT”.
Temer repetiu: “Enquanto isso não acontecer, é natural que haja mobilização de alguns setores. Eu vejo isso com muita tranqüilidade”. Mencionou também o caso do Mato Grosso do Sul. Ali, o governador Puccinelli tentará reeleger-se.
“O acordo depende apenas de conversas com o Zeca do PT”, disse Temer. “Soube que o Puccinelli talvez não vá a Curitiba. Não sei vai nem o presidente do diretório”. A julgar pelo teor de um texto levado ao portal do PMDB-MS, a dupla irá:
“Mato Grosso do Sul tem posição firmada por candidatura própria. Estará representado na reunião pelo governador André Puccinelli e pelo presidente do diretório estadual, Esacheu Nascimento”.
Vão a Curitiba também grão-pemedebês que estão fechados com a candidatura presidencial de José Serra (PSDB). São dois os serristas mais notórios: Orestes Quércia, presidente do PMDB-SP, e Luiz Henrique, o governador catarinense.
O PMDB-SC, a propósito, também levou à web um texto: “O objetivo do encontro é formular propostas ao programa do PMDB para as eleições presidenciais de 2010. A discussão da candidatura própria do partido é o principal assunto da reunião”.
Mas o que fazem os defensores de Serra num debate sobre “candidatura própria”. Simples: tentam embaralhar o pré-acordo que dá a Dilma o tempo de TV do PMDB. Ouça-se, de novo, Temer: “Não creio que o nosso encaminhamento sofra riscos. O pré-compromisso caminha a passos largos para ser um compromisso definitivo...”
“...Não gostaria de quantificar [o grupo pró-Dilma], mas posso afirmar que a maioria na convenção a favor da aliança com o PT é ampla. Se resolvermos as pendências de Minas e Mato Grosso do Sul, se aproximará da totalidade”.
O senador Pedro Simon, presidente do PMDB-RS, vai a Curitiba com o ânimo de lançar Requião como presidenciável do partido. Temer disse ter conversado, dias atrás, com o próprio Requião.
“Ele me disse: ‘precisamos ter um programa para apresentar. Eu perguntei: Acha que deve ter candidatura própria, você é candidato? E ele: Não, eu vou com a Dilma”.
O diabo é que, nos pronunciamentos feitos no diretório paranaense do partido, ouve-se um outro Requião: “Eu não quero estabelecer uma polêmica com o diretório nacional do PMDB...”
“...Mas a nossa intenção, junto com outras seções do PMDB do Brasil inteiro, é começarmos a montar um programa de governo. Aí sim nós vamos para a convenção. E quando eles disserem coligação ou não coligação, nós vamos dizer:...
“...Em primeiro lugar, para quê? e para quem? Depois que nós estabelecermos um programa de governo, nós vamos discutir se temos um candidato ou se para a execução desse programa de governo, nós podemos ter uma coligação”.
Como se vê, o acerto com Dilma percorrerá um terreno acidentado até ser consolidado na convenção de junho de 2010 pela maioria "ampla" anteista por Temer.
De passagem por Salvador, Lula trocou um dedo de prosa com os repórteres sobre o caso do ex-guerrilheiro Cesare Battisti.
Tropeçou no tema durante entrevista coletiva que concedeu junto com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.
Já que o STF (Supremo Tergiversante Federal) transferiu a última palavra para ele, Lula permitiu-se posar de juiz: “O presidente só fala nos autos”.
Cultivou o mistério: "Primeiro, eu tenho que receber a comunicação da Suprema Corte brasileira, que ainda está sendo redigida”.
Manuseou o trombone recebido do STF sem a preocupação de antecipar o sopro:
"Esse não é um assunto que eu possa ficar insinuando o que eu vou fazer. Eu tenho que fazer. Vou fazer. E quando eu fizer toda a imprensa brasileira vai saber".
Instou Cesare Battisti, em greve de fome há oito dias, a forrar o estômago:
“Já fiz greve de fome. É um ato de desespero ou de ignorância. Eu jamais faria outra vez...”
“...Isso não ajuda a ele, nós não estamos mais no momento de ficar recebendo esse tipo de pressão".
O conselho não poderia ser mais adequado. O STF deve demorar para deitar sobre o papel a decisão que tomou.
Por quê? Favorável à extradição de Battisti e adepto da tese de a palavra final era do STF, o ministro-relator, Cezar Peluso, embatucou-se.
Ele diz não ter "condições" de redigir o pedaço do acórdão que transfere a Lula a decisão de entregar ou não Battisti à Itália.
Anunciou a intenção de pedir socorro à colega Carmén Lucia, uma das vozes do Supremo que jogaram a batata quente no colo de Lula.
Matuta daqui, reflete dali, a coisa periga sair só em 2010. Preso em Brasília, ou Battisti come ou se arrisca a fenecer antes de ganhar o meio-fio.
Diz-se nos arredores de Lula que o presidente pende para uma decisão contrária aos interesses da Itália. Estaria na bica de converter Battisti em “coisa nossa”.
O governador tucano de São Paulo, José Serra, levou sua candidatura presidencial para passear em Curitiba.
Foi à capital paranaense escorado num pretexto administrativo: a assinatura de um termo de cooperação técnica com o prefeito Beto Richa, também tucano.
Um acordo que prevê a colaboração de São Paulo num projeto de erradicação de favelas curitibanas.
Cuidou-se para que Serra participasse também do lançamento de um programa social-eleitoral de Richa: “Mulher Curitibana”.
Ajeitou-se também para que a cerimônia fosse prestigiada por um político ligado ao governador paranaense Roberto Requião (PMDB).
Chama-se Luiz Cláudio Romanelli. É deputado estadual. Não é um deputado qualquer. Lidera a bancada de Requião na Assembléia Legislativa.
Romanelli foi ao encontro de Serra já no aeroporto. Acompanhou-o, no mesmo carro, até o campus universitário onde se realizou a pajelança tucana.
Falaram sobre o quê? O líder de Requião esquivou-se de informar. Limitou-se a dizer que a conversa “foi muito agradável”.
De resto, Romanelli disse que Serra e Requião devem se encontrar nos próximos dias. A orelha de Dilma Rousseff há de ter ficado quente.
É curiosa a movimentação de Requião. Lulista de mostruário, o governador torce o nariz para o pré-acordo que acomodou o PMDB no colo de Dilma.
Neste sábado (21), Requião será o anfitrião de um encontro de presidentes estaduais do PMDB. Vão a Curitiba para debater a candidatura própria do partido.
Algo que serve aos interesses de Serra, a essa altura mais empenhado em evitar que o PMDB ceda o seu tempo de TV a Dilma do que em obter o apoio do partido.
O prefeito Beto Richa vai às urnas de 2010 como candidato do PSDB ao governo do Paraná. Cederá o seu palanque ao presidenciável que o tucanato escolher.
Embora não se bique com Requião, Beto tenta atrair o PMDB paranaense para a sua coligação. Vale a pena ouvir o prefeito:
“Acredito que a gente pode construir um grande leque de alianças, que pode fortalecer ainda mais um bom projeto a ser apresentado pelo PSDB no ano que vem...”
“...E, nesse projeto, se inclui o PDT do senador Osmar [Dias], o PMDB... O único partido com quem o PSDB não estabeleceu diálogo foi com o PT”.
Curiosa a declaração. Osmar Dias se diz candidato ao governo. Em Brasília, acena com o apoio a Dilma Rousseff.
Requião se diz interessado em empinar uma candidatura presidencial genuinamente pemedebê. O colega Pedro Simon apressou-se em lançar o nome dele.
Ou Beto Richa vende mercadoria que não está na prateleira ou Osmar Dias e Roberto Requião não devem ser tomados a sério.
De resto, é digno de nota o comportamento de Serra. Declara que ainda não é candidato. Afirma que só vai decidir em março de 2010.
Mas, a pretexto de celebrar convênios com prefeitos e governadores, corre o país. Faz campanha nas asas do erário paulista.
José Cruz/ABr Será escolhido no domingo (22), em eleição direta, o novo presidente do PT.
Há seis candidatos no páreo. Deve prevalecer José Eduardo Dutra, 52 anos.
Dutra é um petista de trajetória opaca. Deve-se a Lula sua entrada na disputa.
O presidente deseja ver Dutra no comando do PT por duas razões:
1. Ligado a Dilma Rousseff, não causará problemas à candidata oficial, em 2010.
2. Fabricado no Planalto, mantém no PT da era pós-Lula, em 2011, a cara de Lula.
Dutra pertence ao velho Campo Majoritário, grupo do presidente da República.
Depois do mensalão, passou a chamar-se Construindo um Novo Brasil.
Trocou de nome, não de métodos. Manteve a hegemônica e o pragmatismo.
Garantiu a eleição de Lula ao trocar a retórica socialista pelo realismo político.
Para viabilizar Dilma conserva a aliança pluripartidária que tem o PMDB como pilar.
Numa palavra, José Eduardo Dutra é a mão de Lula nas rédeas do PT.
Nascido em Minas, Dutra fez-se geólogo Rio e virou político em Sergipe.
Na década de 90, presidiu o Sindicato dos Mineiros de Sergipe e integrou a direção nacional da CUT.
Em 1990, disputou o governo do Estado. Perdeu. Quatro anos depois, arrancou das urnas sergipanas uma cadeira no Senado.
Em 2002, no ocaso de seu mandato de oito anos, tornou a aventurar-se na disputa pelo governo de Sergipe. Perdeu de novo.
Ganhou de Lula, em 2003, um fabuloso prêmio de consolação: a presidência da Petrobras.
Em 2007, primeiro ano do segundo mandato, Lula rebaixou-o a presidente da BR Distribuidora, o braço da Petrobras que vende gasolina no varejo.
Manteve-se na BR até agosto passado. Deixou o posto para embrenhar-se na disputa pela presidência do PT.
Em sua fase petroleira, Dutra manteve com Lula e também com Dilma uma relação de submissão administrativa.
Na direção do PT, vai manter o partido subordinado aos interesses de Lula.
São interesses óbvios: eleger Dilma e prover sustentação congressual para uma gestão que a própria candidata vende como o “terceiro mandato de Lula.
Além de Dutra, os filiados do PT –1,35 milhão, pela conta oficial— terão à disposição outros cinco candidatos.
O mais vistoso é o deputado José Eduardo Cardozo (SP). Corre na raia da Mensagem ao Partido.
Vem a ser uma dissidência do ex-Campo Majoritário. Tem como ideólogo o ministro Tarso Genro (Justiça).
O grupo nasceu nas pegadas do mensalão. Enrolado na bandeira da ética, aglutinou algo como 15% do partido.
Na origem, o grupo tinha dois objetivos: arrancar Ricardo Berzoini da presidência do PT e minar a liderança exercida pelo ex-ministro José Dirceu.
Não conseguiu nem uma coisa nem outra. Teve de contentar-se em acomodar Cardozo na secretaria-geral do partido.
Os outros candidatos são os deputados Geraldo Magela (DF), do Movimento PT; e Iriny Lopes (ES), da Articulação de Esquerda e da Militância Socialista.
Na rabeira da disputa estão Serge Goulart, da Esquerda Marxista; e Markus Sokol, da corrente O Trabalho.
O que dá a Dutra o semblante de favorito é a aliança que celebrou com outros dois grupos da engrenagem petista.
Ambos são ligados à ex-ministra Marta Suplicy: Novos Rumos e PT de Lutas e de Massas.
Estima-se que a aliança do ex-Campo Majoritário com os grupos que seguem a liderança de Marta acomodará no cesto de Dutra algo como 60% dos votos.
É o suficiente para que o candidato de Lula triunfe já no primeiro turno.
Não há no partido quem considere a sério a hipótese de a disputa escorregar para um segundo round, em dezembro.
Prevalecendo a matemática de Lula, Dutra tomará posse em fevereiro de 2011.
Um pedaço do partido advoga a tese de que o mandato de Ricardo Berzoini, o presidente atual, deveria ser encurtado.
O mais provável, porém, é que Dutra passe a dividir com Berzoini as negociações para a composição da mega-aliança que se pretende formar em torno de Dilma.
Assim, tudo leva a crer que, passada a primeira eleição presidencial que não terá o seu nome na cédula, Lula continuará ditando os rumos do PT.
De passagem pelo Rio Grande do Norte, Lula falou à repórter Priscila Scalabrin, da Rádio Clube FM.
Soou como um personagem em transição. No passado, só enxergava o futuro. No presente, prepara-se para o dia em que só verá o pretérito passando.
Falou sobre o dia em que a presidência será apenas um verbete na enciclopédia: "Tenho preocupação com a primeira semana...”
“...Como um artista famoso que, do dia para a noite, sai na rua e ninguém pede autógrafo...”
“...Fico pensando como será minha vida no dia 2 [de janeiro de 2011] de manhã. Quando levantar e não tiver um assessor pra brigar, ninguém pra xingar...”
“...E dona Marisa mandando eu sair da sala porque ela quer limpar. Tenho preocupação. Quero me preparar”.
Deseja ser, por assim dizer, o avesso de FHC. Nada de dar pitaco em administração alheia:
“Tenho na consciência que um ex-presidente da República não pode dar palpite sobre quem está governando”.
A coisa será mais fácil se conseguir emplacar Dilma Rousseff: “Se eu eleger quem eu penso, quero que ela crie sua cara, seu modelo de governo".
Vai se aposentar? "Não existe a possibilidade de um homem se aposentar em política. O ser humano começa a fazer política quando nasce, no primeiro choro”.
Pretende voltar? “Ser candidato é outra história. Depois de oito anos na presidência do Brasil, temos que ter consciência de que outras pessoas têm direito. Acho que já cumpri minha missão".
Antes de virar imagem de retrovisor, Lula tenta ajeitar o presente. Criticou quem o critica por correr o Brasil com Dilma do lado:
"Se eu carregasse um candidato da oposição seria estranho. Mas carregar minha ministra, coordenadora do PAC, que trabalha das 8h à meia-noite, para inaugurar as obras comigo não é errado...”
“...A partir do momento em que ela se lançar candidata, ela não vai poder. A oposição devia se preocupar com os governadores que estão viajando o país e visitando outros estados. Eles têm menos direito de viajar que a ministra".
Ainda não viu Lula, o Filho do Brasil. "Não quis assistir porque tenho compromisso de assistir a esse filme no dia 28, em São Bernardo dos Campo, com os metalúrgicos”.
Enxerga a fita não como sua biografia cinematográfica. Diz que a protagonista é dona Lindu:
“Não é um filme do Lula, é sobre minha mãe. Eu apareço porque sou filho dela e presidente da República. Mas a personagem principal é minha mãe. Ela é a "bambambã do filme".
Lula foi ao Rio Grande do Norte, com Dilma, para visitar uma obra da Petrobras, a Refinaria Potiguar Clara Camarão. Lá no alto você assiste a um pedaço do discurso.
Marcello Casal/ABr Adepto da tese de que o PMDB deveria comparecer a 2010 com um candidato próprio, o senador Pedro Simon deu um passo adiante.
Defende que o partido vá à sucessão de Lula com o governador do Paraná, Roberto Requião, na cabeça da chapa.
Presidente do PMDB-RS, Simon representará o diretório gaúcho no encontro deste sábado (21), em Curitiba.
Um encontro que tem Requião como anfitrião e a candidatura própria como pano de fundo.
Por ora, confirmaram presença os presidentes de diretórios de 10 dos 27 Estados. Simon acha que podem comparecer 15.
“Se no sábado sair uma reunião em que os participantes digam que o PMDB tem que ter candidato próprio...”
“...E uma outra moção dizendo que o Requião é o nosso nome, a candidatura dele está de pé. Não tem como reverter”.
E quanto ao pré-acordo celebrado pela direção nacional do PMDB de apoio à candidatura de Dilma Rousseff? Simon dá de ombros:
“Não houve decisão nenhuma aqui em Brasília. O comando partidário anunciou que conversou com o PT sobre a ideia de se chegar a um entendimento...”
“...Não houve reunião nem da Executiva do partido para tratar do assunto. Eles apenas fizeram uma janta e disseram que tentariam fazer um entendimento”.
Simon lembra o óbvio: a decisão final sairá da convenção do PMDB, a ser realizada em junho de 2010. E volta a mencionar Requião:
“Eu, por exemplo, já abro meu voto. Na convenção do ano que vem, voto no Requião. Aí a convenção será uma grande convenção...”
“...O Requião não é uma candidatura anti-Lula, é uma candidatura do PMDB”.
Resta saber se Requião, hoje candidato ao Senado, vai encontrar apoios mais sólidos do que o de Simon, uma voz mais ouvida fora do que dentro do PMDB.
A fidelidade do PMDB à candidatura presidencial de Dilma Rousseff (PT), será submetida a teste neste final de semana.
À margem da direção nacional do partido, acontece no sábado (21), em Curitiba, um “Encontro Nacional de Lideranças do PMDB”.
Entre 10h e 13h30, dirigentes estaduais do partido vão debater dois assuntos: candidatura própria a 2010 e programa de governo.
Dos 27 presidentes de diretórios estaduais, dez já confirmaram presença. Entre eles os de São Paulo, Minas e Rio, os três maiores colégios eleitorais do país.
De resto, estarão representadas em Curitiba as seccionais do PMDB dos seguintes Estados:
Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Sergipe e Piaui.
O diretório de Pernambuco, que segue a liderança do senador Jarbas Vasconcelos, decidiu não dar as caras. Mas apóia a iniciativa.
Jarbas considera a reunião “válida e legítima”. É a prova, segundo ele, de que parte do PMDB discorda do pré-acordo firmado com a petista Dilma.
“Está evidente que a cúpula do partido subestimou a história, a tradição e a forma de funcionar do PMDB”, diz Jarbas.
“Mesmo admitindo que a maioria do partido hoje funciona como satélite do PT e do lulismo, a imposição de cima para baixo tem tudo para fracassar no PMDB”.
Por que Pernambuco não vai a Curitiba? Jarbas, que realiza viagem oficial aos EUA, explicou assim a decisão:
“Nossa posição é por uma aliança com o PSDB. E não faz sentido estar num encontro que vai defender a candidatura própria. A postulação legítima, mas não é a nossa”.
Presidente do PMDB-SP, Orestes Quércia, que também está fechado com o PSDB de José Serra, vai a Curitiba.
Deve-se a iniciativa do encontro deste sábado ao governador pemedebê do Paraná, Roberto Requião.
Lulista de mostruário, ele pôs-se a insinuar discordância em relação ao pré-acordo que acomodou o PMDB no colo de Dilma.
Desde o mês passado, Requião frequenta a cena política enrolado na bandeira da candidatura própria do PMDB.
Por trás de Requião está o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger. Filiou-se ao PMDB em setembro.
Corre o país como defensor de uma terceira via do PMDB. De passagem pelo Paraná, em outubro, Mangabeira encantou Requião, às turras com o petismo local.
Além dos presidentes de diretórios, foram convidados para o encontro os dirigentes nacionais e os governadores do partido.
Presidente da Câmara e presidente licenciado do PMDB, Michel Temer (SP), não irá. A presidente interina da legenda, Iris Machado (GO), enviará um representante.
A ministra Dilma Rousseff realiza nesta quinta (19) sua primeira viagem pós-apagão.
Retirada momentaneamente da tomada, a chefe da Casa Civil e a candidatura dela vão passear no Rio Grande do Norte.
Conduzidas pelas mãos de Lula, Dilma e as pretensões presidenciais dela serão reenergizadas numa vistoria às obras de uma planta da Petrobras.
Chama-se Refinaria Potiguar Clara Camarão. Está assentada no município de Guamaré. É vendida como uma instalação apta a processar o petróleo do pré-sal.
Ficará pronta no segundo semestre de 2010. Começará a produzir gasolina só em dezembro do ano que vem.
Bem antes disso, no comecinho de abril, Dilma trocará o governo pelo palanque. Por isso, aproveitou-se uma providência comezinha para justificar a visita.
Durante a inspeção da comitiva presidencial, a governadora Wilma de Faria (PSB) assinará um convênio com a Petrobras.
Prevê a injeção de verbas do Estado em obras que vão dotar os arredores da refinaria da infraestrutura necessária ao escoamento da futura produção.
Além de Dilma, Wilma e políticos do consórcio governista, vai à refinaria o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli.
Integram a comitiva presidencial, de resto, outros dois ministros: Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) e Edison Lobão (Minas e Energia).
Para desassossego do governo, a aparição dupla de Dilma e Lobão é prato cheio para os repórteres.
Mais uma oportunidade para questionar sobre o triplo desligamento das linhas de transmissão de energia elétrica que levaram o breu a 18 Estados na semana passada.
Divulgação Nome mais forte do PSDB na sucessão presidencial, José Serra programou para março de 2010 o anúncio de sua candidatura.
A depender da cúpula do tucanato, Serra terá de rever a data. A direção do PSDB trabalha com outro calendário.
Decidiu levar o nome de seu candidato à vitrine em janeiro. Antes, até o final de dezembro, pretende-se promover a conciliação entre Serra e Aécio Neves.
A agenda do tucanato aproxima-se da vontade de Aécio, que cobra uma definição até o final do ano.
A intenção de pisar no acelerador foi repassada a Serra pela vice-presidente nacional do PSDB, senadora Marisa Serrano (MS).
Compartilham da pressa o presidente executivo e o presidente de honra da legenda –Sérgio Guerra e Fernando Henrique Cardoso, respectivamente.
Para desassossego de Serra, descobriu-se nesta quarta (18) que o corre-corre espraiou-se pelos diretórios estaduais do PSDB.
Chamados a Brasília, os dirigentes do partido nos Estados mostraram-se inquietos com a demora.
Dos 27 diretórios, só dois –São Paulo e Bahia—concordaram com o calendário elástico de Serra. Todos os demais querem apertar o passo.
Na prática, disseminou-se no PSDB o mesmo sentimento que toma conta do aliado DEM, também irritado com a desconversa de Serra.
A diferença é que a irritação dos ‘demos’ já havia ganhado os jornais. Vocalizaram-na o presidente do partido, Rodrigo Maia (RJ), e o pai dele, o ex-prefeito Cesar Maia.
No PSDB, a divergência vinha sendo ruminada em segredo. O silêncio começou a ser quebrado, porém, pelos tucanos que dirigem a legenda nos Estados.
Se mal administrado, o barulho tende a converter-se em algaravia, já que Sérgio Guerra decidiu repetir o encontro com os presidentes dos diretórios uma vez por mês.
Curiosamente, agora é o DEM que leva a mão aos panos quentes. A nata da tribo reuniu-se em Brasília, também nesta quarta (18).
Deu-se na residência oficial do governador ‘demo’ do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Na reunião, privilegiou-se o consenso em detrimento do dissenso.
Qual é o consenso? O DEM vai coligar-se com o PSDB, seja qual for a decisão do tucanato quanto ao nome do candidato.
E quanto ao dissenso? Antes, os ‘demos’ tratavam a disputa entre Serra e Aécio como assunto da economia doméstica do PSDB.
A preferência por Serra era nítida, cristalina. Consequência natural da parceria que levou, em 2008, à reeleição de Gilberto Kassab (DEM), em São Paulo.
Hoje, um pedaço da legenda -Rodrigo e Cesar Maia à frente- já não esconde a predileção por Aécio.
Para não jogar gasolina na fogueira, Cesar Maia, que há dois dias pespegou em Serra o adjetivo de “caudilho”, não deu as caras na reunião promovida por Arruda.
Rodrigo Maia compareceu. Mas manteve a boca a uma distância regulamentar do trombone. Em privado, diz que já falou o bastante.
José Serra desembarcou em Brasília na madrugada desta quinta (19). Vai encontrar na cidade uma atmosfera política adversa.
A maioria do PSDB avalia que Serra, mais bem-posto nas pesquisas, deve ser o escolhido. Mas são poucas, pouquíssimas as vozes que admitem esperar até março.
São duas as razões principais. A primeira é a desenvoltura da candidata rival, Dilma Rousseff, do PT, na passarela desde o ano passado.
A segunda é a compreensão de que Serra não pode prevalecer sobre Aécio passando a impressão de que o derrotou.
Formou-se um sólido consenso no PSDB: sem Minas, São Paulo não chega a Brasília. E vice-versa. Daí, também, a conclusão de que convém prestigiar o calendário de Aécio.
A Câmara aprovou na noite passada o primeiro dos quatro projetos que compõem o embrulho do pré-sal. Cria a Petro-sal. A proposta seguiu para o Senado.
Votaram a favor da criação da nova estatal 250 deputados. A turma do contra somou 67 votos (vieram do DEM, do PSDB e do PSOL.
Empresa Brasileira de Administração de Petróleo e Gás Natural S.A., eis o nome e o sobrenome da nova janela aberta no Estado brasileiro.
Será pendurada no organograma do Ministério de Minas e Energia. Vai gerir todos os contratos de exploração de óleo e gás nas jazidas do pré-sal.
Cuidará também da comercialização do petróleo em nome do governo. Houve intenso e acalorado debate em plenário.
Exceto pelo PPS, as outras legendas de oposição votaram contra. Alegaram que a nova empresa é desnecessária.
"Ela é de uma irrelevância total”, disse o líder do PSDB, José Aníbal (SP). “Será só um cabide de empregos".
Para Aníbal, a ANP (Agência Nacional do Petróleo) executaria, sem problemas, as atividades atribuídas à nova empresa.
Ronaldo Caiado (GO), líder do DEM, ecoou Aníbal: "Bastaria criar uma diretoria na ANP". Acha que serão contratadas "pessoas sem preparo nem competência".
Disse que a nova empresa vai se converter em instrumento de "partidarização do Estado", a serviço da presidenciável de Lula, Dilma Rousseff.
Líder de Lula na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS) tachou de “pequeno” o debate sobre cargos. “Quiseram desfigurar o projeto”, disse.
Segundo Fontana, a Petro-sal terá uma estrutura “enxuta”. Falou em 200 funcionários. Antes, o governo estimava a contratação de, no máximo, cem servidores.
A despeito da chiadeira da oposição, prevaleceu a maioria governista, que, na Câmara, é acachapante.
De resto, o consórcio partidário que dá suporte congressual a Lula confiara o projeto a um relator governista: Luiz Fernando Faria (PP-MG).
Manteve intocada a espinha dorsal do projeto enviado pelo Planalto. As emendas que sugeriu ou acatou mexem em pontos periféricos.
Uma delas impõe aos futuros diretores da Petro-sal uma “quarentena”. Deixando a empresa, só poderão trabalhar em firmas privadas do setor petrolífero quatro meses depois.
Outra emenda fixou os mandatos dos conselheiros da nova estatal em quatro anos, renováveis por mais quatro.
Uma terceira emenda injetou no projeto a obrigatoriedade de autoria externa nas contas da Petro-sal.
Uma quarta obrigou a nova empresa a exibir suas demonstrações financeiras na web. E ficou nisso.
Vai a voto agora o segundo projeto do pacote do pré-sal. É o mais polêmico. Institui o modelo de partilha na exploração do óleo encontrado em águas profundíssimas.
Tornou-se ainda mais polêmico porque o relator, Henrique Eduardo Alves (RN), líder do PMDB, resolveu mexer na distribuição dos royalties.
Reduziu o percentual destinado aos Estados produtores de petróleo –São Paulo, Rio e Espírito Santo. E elevou o pedaço destinado Estados e municípios não produtores.
Embora beneficiados, os não produtores querem mais. Em maioria –23 unidades da federação contra quatro—desejam prevalecer no voto.
Nesta quinta (19), Lula voa para o Rio Grande do Norte, Estado do relator Henrique Alves.
Convidado a viajar no avião do presidente, o deputado espera trocar com ele um dedo de prosa sobre a encrenca que se avizinha.
O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), agendou para a próxima semana a votação do projeto da partilha.
Por maioria de votos –5 a 4—, o STF deferiu o pedido de extradição do ex-guerrilheiro Cesare Battisti, formulado pelo governo da Itália.
O julgamento foi retomado, na sessão desta quarta (18). Plcar estava empatado. Quatro votos pela extradição, quatro contra.
Autor do voto de desempate, o presidente do STF, Gilmar Mendes, votou a favor da devolução de Battisti ao governo italiano.
"Encaminho meu voto pela extradição", disse ele. "Não se pode atribuir aos crimes de sangue cometidos de forma premeditada o mesmo caráter de crime político".
Os ministros discutem agora se Lula está ou não obrigado a cumprir a decisão do tribunal. Por que a dúvida?
Uma parte dos ministros entende que a Constituição atribui ao presidente a palavra final em matéria de extradição.
Segundo essa corrente, caberia ao STF apenas autorizar a extradição. Ao presidente competiria decidir se entrega ou não o extraditado ao país que o exige.
Folha O governo mineiro de Aécio Neves (PSDB) anunciou a liberação de R$ 8,5 milhões. Dinheiro para “investimentos sociais”.
O anúncio da novidade coube ao vice-governador Antonio Anastasia. É uma espécie de Dilma de Aécio, um gerente.
Como a chefe da Casa Civil, o vice de Minas jamais disputou eleições. E, a exemplo do que faz Lula com Dilma, Aécio tenta carregá-lo nos ombros.
O governador joga o seu prestígio numa candidatura do vice à sucessão mineira. É nesse contexto que as arcas foram abertas.
Os R$ 8,5 milhões vão às mãos de 115 prefeitos. Destinam-se a financiar a instalação e a reforma de centros de atendimento a crianças e adolescentes.
Em solenidade com os prefeitos, Anastasia discursou: “A orientação do governador Aécio Neves é termos os centros em todos os municípios mineiros...”
“...O que ocorrerá até o final de 2010. Minas Gerais tem se tornado um Estado 100% asfalto, telefonia, máquinas, habitação...”
“...E estamos conseguindo, portanto, que essa infraestrutura social, econômica e física seja colocada à disposição da nossa sociedade”.
Nos últimos meses, sempre que Lula e Dilma levam à vitrine ações administrativas do governo federal, o tucanato do Congresso se apressa em gritar: “É eleitoreiro”.
Partindo de Aécio, em Minas, -ou de José Serra, em São Paulo-, a coisa é vista pelo grão-tucanato como mera prestação de contas de governadores ciosos de suas obrigações com a clientela.
Há uma semana, os ministros Edison Lobão e Dilma Rousseff disseram que o apagão era “caso encerrado”.
Em relatório preliminar sobre as causas do blecaute, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) “reabriu” o caso. O texto menciona duas hipóteses.
Uma delas é velha: raios teriam despencado quase que simultaneamente sobre três linhas de transmissão, provocando desligamento quase simultâneo.
Outra é nova: O excesso de água das chuvas teria comprometido o funcionamento dos “isoladores” do sistema elétrico, levando ao desligamento das linhas.
O teor do relatório foi destrinchado em entrevista concedida na noite passada por Hermes Chipp, diretor-geral do ONS.
Ele esclareceu que o relatório, por preliminar, será sucedido por um texto definitivo. Fica pronto até a próxima segunda (23).
Esclareceu que coisa parecida –desligamento triplo das linhas de transmissão— sucedera em nove outras noves oportunidades, entre 2000 a 2009.
Nenhuma delas resultou em apagão, contudo. Por quê? Os intervalos entre um desligamento e outro foram maiores –entre três e cinco segundos.
Na semana passada, 18 Estados foram desligados da tomada porque a pane tripla se deu quase que simultaneamente, em intervalos de milésimos de segundo.
Apenas 13,5 milésimos de segundo teriam separado o primeiro curto-circuito do segundo. O terceiro curto teria chegado 3,2 milésimos de segundo depois.
Lero vai, lero vem, remanesceu a dúvida: o que provocou os três curtos? Raios? Excesso de água? Aguarde-se pelo próximo capítulo.
No Senado, a oposição aproveitou-se de um curto-circuito do consórcio governista e aprovou requerimento que eletrificou a encrenca.
Tenta-se acomodar Dilma Rousseff no centro da encrenca, chamando-a a explicar-se, junto com o colega Edison Lobão, ministro de Minas e Energia.
Deve-se o novo requerimento ao senador tucano Flexa Ribeiro (PA). Foi aprovado num foro alheio à temática energética: a comissão de Relações Exteriores.
É presidida por outro tucano, o senador Eduardo Azeredo (MG). Com essa manobra, o PSDB tenta anular os efeitos de uma armadilha da véspera.
Por sugestão do governista Fernando Collor, aprovara-se a ida de Dilma e Lobão à Comissão de Infraestrutura.
O problema é que, junto com o par de ministros, foram incluídas no rol de expositores outras 18 pessoas. Autoridades do governo e professores universitários.
Decidiu-se depois, que a sessão da Infraestrutura aberta aos membros de outro comissão, a de Assuntos Econômicos.
A junção foi feita graças a requerimento de uma dupla de senadores petistas: Delcídio Amaral (MS) e Eduardo Suplicy (MS).
O diabo é que, sob protestos da oposição, decidiu-se que as explicações seriam divididas em duas sessões.
Primeiro, os senadores ouviriam as 18 autoridades e especialistas do setor elétrico listadas por Collor. Só depois, noutra data, Dilma e Lobão dariam as caras no Senado.
Daí a reação do tucanato. No requerimento da comissão de Relações Exteriores tratou-se de lipoaspirar a lista de expositores. Reservou-se o palco apenas para Dilma e Lobão.
Os ministros não são obrigados a comparecer. Ambos os requerimentos tem o peso de meros convites. Assim, Dilma pode atender a um e ignorar o outro.
Se lhe der na telha, poderia dar uma banana para os dois. Não deve fazê-lo, contudo. O governo concluiu que o esconde-esconde da ministra, se excessivo, arranha a imagem da candidata.
Alan Marques/Folha Foi à tela na noite passada, em sua primeira exibição pública, o filme “Lula, o Filho do Brasil”.
Deu-se na abertura do 42º Festival de Cinema de Brasília, no Teatro Nacional. Dos 1.320 lugares disponíveis, o Planalto reservou 740.
Para desassossego dos produtores, Lula não deu as caras. Representou-o a mulher, Marisa. A primeira-dama evitou os repórteres.
Preferiu conversar com as atrizes Juliana Baroni, que faz Marisa no filme, e Gloria Pires, que interpreta dona Lindu, a mãe de Lula.
O presidente decidiu esquivar-se também da segunda exibição do filme. Será no Recife, nesta quinta (19).
Lula preferiu organizar uma sessão privada, no Alvorada. Quer evitar a crítica de que usaria o filme para tonificar a candidatura presidencial de Dilma Rousseff.
Em Brasília, livrou-se de boa. A estréia foi tisnada pela desorganização. Houve superlotação. À falta de poltronas, parte da platéia acomodou-se no chão.
Na ausência de Lula, os repórteres instaram o presidente do PT, Ricardo Berzoini, a comentar os efeitos eleitorais do filme.
O deputado deu de ombros: "O presidente Lula não é candidato a nada no ano que vem, apesar de ser um cabo eleitoral muito importante”.
E ironizou os críticos: “Sugiro à oposição que tentem fazer um filme sobre a vida de Fernando Henrique. Certamente vai ser bastante interessante".
Com dois presidenciáveis para propagandear, o PSDB preferiu guindar a rival Dilma Rousseff como protagonista de sua propaganda de rádio e TV.
Na noite desta terça (17), foram ao ar as primeiras inserções da publicidade partidária tucana. Dez inserções de 30 segundos.
No total, cinco minutos de exploração política do apagão. Tudo isso entre 19h30 e 22 horas. Horário nobre, de maior audiência.
Reprisou-se uma única peça. Abre com a imagem de uma TV ligada. Súbito, a imagem apaga. Seguem-se a exibição de notícias sobre apagão.
Em meio a manchetes de jornal e cenas de TV, o locutor carrega nas tintas. Afirma que o apagão afetou 19 Estados [em verdade, foram 18].
Fala de caos ao trânsito e adiamentos de cirurgia. Realça que milhões de brasileiros ficaram no escuro e sem água.
Lembra que trabalhadores foram privados de transporte público. Diz que a segurança ficou comprometida em “milhares de cidades”.
Perto do final da propaganda, irrompe no vídeo uma foto de Dilma Rousseff, a presidenciável de Lula. Cenho crispado, mão no queixo.
E o locutor: “Até agora ninguém sabe o que aconteceu. A ministra Dilma se escondeu...”
“...O governo simplesmente quer encerrar o assunto. E você, até quando vai ficar no escuro?”
Até a semana passada, a intenção do tucanato era a de dedicar a propaganda partidária a José Serra e Aécio Neves, seus dois presidenciáveis.
Os vídeos já estavam prontos. Depois do apagão, produziu-se, a toque de caixa, a peça que terminou indo ao ar.
Reza a legislação eleitoral que cada partido dispõe de uma hora por ano para difundir o seu ideário e expor suas realizações e projetos.
Na fase atual, portanto, o tucanato ainda dispõe de 30 minutos –20 minutos picados em “janelas” 30 segundos e dez minutos de exibição contínua.
As inserções menores, inauguradas pelo PSDB nesta, vão se repetir em outros três dias –nesta quinta (19) e na terça (24) e quinta (26) da semana que vem.
O programa maior, de dez minutos, vai ao ar em 3 de dezembro. O PT promete dar o troco. Discute a forma.
Se quiser, poderá servir-se também da ferramenta eletrônica. Também terá as suas inserções de 30 segundos. E o programa maior, a ser exibido em 13 de dezembro.
A matéria prima é farta: sob FHC, o país arrostou dois apagões –o de 1999 e o de 2001, seguido de um racionamento energético de oito meses.
Em ofício endereçado à Dersa, o Ministério Público Federal requisitou “explicações” sobre o acidente no viaduto do Rodoanel.
A Dersa é a estatal paulista que gerencia as obras do Rodoanel. Terá dez dias para prover as explicações.
O ofício é assinado pelo procurador da República, José Roberto Pimenta Oliveira. É datado de segunda (16). Mas só foi divulgado nesta terça (17).
O procurador José Roberto conduz o inquérito civil público número 04/2001.
Foi aberto para apurar suspeitas de irregularidades na aplicação de verbas federias na obra do Rodoanel.
A resposta da Dersa será incorporada a essa ação. E pode ensejar a adoção de providências adicionais.
Na véspera, também o Ministério Público de São Paulo abrira inquérito para apurar as causas do acidente.
Ainda assim, o procurador federal achou conveniente agir. O procurador José Roberto explica:
"O MPF exige esclarecimentos sobre as causas do acidente e a apuração das responsabilidades pela ocorrência, uma vez que há verbas federais na obra".
Há dois meses, escorado em informações que recebera do TCU, o Ministério Público Federal firmara com a Dersa um TAC.
TAC é a sigla de Termo de Compromisso de Ajuste de Conduta. No caso do Rodoanel, o ajuste envolveu aditivos contratuais.
Sob José Serra (PSDB), o governo de São Paulo pagaria às empreiteiras responsáveis pelas obras do Rodoanel adicionais de cerca de R$ 500 milhões.
Depois da intervenção da Procuradoria, os pagamentos extras foram reduzidos a R$ 264 milhões.
O Ministério Público pôs-se em movimento depois de receber um relatório do TCU. No texto, o tribunal apontou indícios de irregularidades na obra.
Por exemplo: adiantamento de pagamento por serviços não realizados e “inúmeras alterações significativas do projeto, sem prévia formalização de termo aditivo”.
Ex-deputado tucano, o presidente do BC, Henrique Meirelles ensaiou um retorno à política ao filiar-se, em setembro, ao PMDB.
Sempre sonhou com a cadeira de Lula. Realista, viu que não era para o seu bico. Moveu-se em direção à vice de Dilma.
O PMDB entendeu que Meirelles, por recém-embarcado, não tem direito à janelinha do ônibus. O posto de vice é do Temer.
Ensaiara concorrer ao governo de Goiás. Desistiu. Insinuara que poderia disputar o Senado. Pode desistir de novo.
Nesta terça (17), Meirelles insinuou que não está descartada a hipótese de se manter na presidência do BC até o final do governo Lula.
Mago na economia, Meirelles é aprendiz de feiticeiro na política. Com o tempo, há de constatar que, no lufalufa partidário, quem se mexe muito acaba não saindo na foto.
Ricardo Stuckert/PR De passagem por Roma, Lula avistou-se com o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.
Falaram sobre o pedido de extradição do ex-guerrilheiro Cesare Battisti, condenado a prisão perpétua na Itália.
À saída do encontro, Lula comentou a decisão que o STF está prestes a tomar:
“Não existe a possibilidade de seguir ou ser contra. Se a decisão for determinativa, não se discute: cumpre-se”.
O julgamento do processo deve ser concluído nesta quarta (18). O placar parcial registra um empate.
Quatro ministros votaram pela extradição de Battisti. Outros quatro votaram pela permanência dele no Brasil.
Falta colher o voto do presidente do STF, Gilmar Mendes. A julgar por tudo o que já disse, espera-se que desempate a favor da extradição.
Conhecido o veredicto, o caso vai à mesa de Lula. Nos últimos dias, noticiou-se que o presidente poderia optar por não devolver Battisti à Itália.
O ministro Tarso Genro (Justiça) dissera que a palavra final seria de Lula, não do tribunal. Por quê?
Reza a Constituição que cabe ao presidente da República deliberar sobre temas que envolvem as relações do Brasil com outros países.
A polêmica foi insinuada no próprio plenário do STF. Relator do processo e favorável à extradição, Cezar Peluso dissera que não caberia a Lula senão cumprir a decisão.
Ao se manifestar sobre o tema, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, dissera que Lula teria, sim, a prerrogativa de deliberar de modo diverso.
É possível que, confirmando-se o veredicto a favor do pedido da Itália, os ministros tenham de deliberar também sobre os limites da ação de Lula.
O governo deu meia-volta e decidiu permitir que Dilma Rousseff compareça ao Congresso para falar sobre o apagão.
Encontrou-se, porém, uma maneira de impedir que a oposição jogue todos os holofotes sobre a ministra-candidata.
Além de Dilma vão à comissão de Infraestrutura do Senado, em data por definir, o colega Edison Lobão (Minas e Energia) e outras 18 pessoas.
Gente do governo e da academia (veja a lista lá no rodapé). Numa audiência assim, tão apinhada, Dilma falará pouco.
Na hipótese de as exposições ocorrerem em dias diferentes, Dilma vai ao final da fila. Falaria depois que o assunto estivesse mastigado à saciedade.
Coube ao presidente da comissão, Fernando Collor (PTB-AL), apresentar o requerimento, aprovado nesta segunda (16).
Foi às calendas um outro requerimento, de autoria do líder tucano Arthur Virgílio (PSDB-AM). Previa a audição apenas de Dilma e Lobão.
Liberados pelo Planalto, os senadores do consórcio governista endossaram o texto de Collor, que passou em votação simbólica.
Concluiu-se que o esconde-esconde de Dilma estimula uma imagem de fragilidade que prejudica a candidatura presidencial da ministra.
Também nesta segunda, Lobão mandou pendurar no portal da pasta de Minas e Energia uma nota. Reitera a versão dos raios. E injeta “curtos-circuitos” no enredo.
O texto informa: “Curtos-circuitos próximos à subestação de Itaberá (SP), provocaram o desligamento de três linhas de alta tensão...”
Linhas “...que transportavam energia da usina de Itaipu e do sistema Sul...”
“...No momento da interrupção, a região enfrentava descargas atmosféricas, ventos e chuvas intensas”.
Aguarda-se para esta terça (17) a divulgação de um laudo do ONS (Operador Nacional do Sistema). Deve reiterar a versão oficial.
Na semana passada, como se recorda, o Inpe, órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, fulminara a tese dos raios.
O instituto dissera em nota que, além de fracos, os raios caíram longe das linhas de transmissão de Itaberá.
Também nesta segunda, o Ministério Público Federal começou a receber documentos que requisitara na semana passada.
Um deles, enviado pela usina de Itaipu, adiciona mistério na crônica do apagão que desligou da tomada, por cerca de quatro horas, 18 Estados.
Diz o texto da hidrelétrica que, na tarde do dia do apagão, houve paralisação de 25 minutos no fornecimento de energia.
Deu-se "às 13h31” da terça-feira da semana passada. “Houve o desligamento automático da linha de 76,5 kV Itaberá-Tijuco Preto 2”.
Por quê? O desligamento foi “supostamente causado por descarga atmosférica”. A linha teria sido religada “às 13h56, após análise das proteções atuadas".
Na noite do mesmo dia, além dessa linha, iriam à breca outras duas, dando-se o apagão. Autor dos ofícios que requisitaram informações ao governo, o procurador Marcelo Ribeiro comentou:
"Em 72 horas já mudaram as versões. Antes era só um problema climático, agora é um problema climático associado a um curto...”
“...Eu preciso saber em que natureza foi esse curto, o que gerou esse curto". Os consumidores de energia também querem saber.
- PS.: Além de Dilma e Lobão, vão à comissão do Senado: Maurício Pereira Zimmermann, secretário-executivo do Ministério das Minas e Energia; Ubiratan Aguiar, presidente do TCU; José Antônio Muniz Lopes, presidente da Eletrobrás; Jorge Miguel Samek, diretor-geral de Itaipu; Carlos Nadalutti Filho, diretor-presidente de Furnas; César Ribeiro Zavi, diretor de Operação de Furnas; Hildo Sauer, professor da USP; Mário Veiga, presidente da PRS Planejamento e Consultoria; Djalma Falcão, Adriano Pires e Luiz Pinguelli Rosa, professores da UFRJ; Nelson Hubner, diretor-presidente da Aneel; Hermes Chipp, diretor geral do ONS; Gilberto Câmara, diretor do Inpe; Maurício Tiomno Tolmasquim, presidente da Empresa de Planejamento em Energia; José Goldemberg, ex-ministro da Educação; Evandro Emílio Souza Lima, professor da UnB; e Cyro Vicente Boccuzzi, diretor da Consultoria Andrade & Canellas.
Ricardo Nogueira/Folha A economia brasileira já está crescendo “a um ritmo chinês”. Quem informa é Lula.
Segundo ele, o PIB do terceiro trimestre de 2009 deve crescer cerca de 9%.
A cifra foi mencionada na coluna “O Presidente Responde”.
É veiculada às terças-feiras. Lula responde a três perguntas de leitores.
Na coluna desta terça (17), a primeira questão coube ao economista Michel de Lima, de Valinhos (SP).
Ele pergunta por que as reservas internacionais não são destinadas a investimentos.
Na resposta, Lula anota que as reservas (US$ 233 bilhões) “foram fundamentais para a resistência à crise financeira”.
Alfineta FHC: “No governo passado, o Brasil era um país devedor. Quando ocorria uma crise, quebrava e tinha que apelar ao FMI [...]”.
Atribui às reservas a “estabilidade econômica” que garante “recursos para amplos investimentos”.
Entre eles os “programas sociais, como o Bolsa Família” e as “milhares de obras de infraestrutura do PAC”.
Na parte final da resposta, Lula escreve que “vários indicadores” demonstram o “clima altamente favorável” que se observa no Brasil.
“Cito o saldo positivo, em pleno ano da crise, de 1 milhão de empregos com carteira assinada”.
Serviu-se de um dado divulgado nesta segunda (16) pelo ministro Carlos Lupi (Trabalho).
Lupi informou que foram criados em outubro 230.956 vagas com carteira assinada.
São números do Caged, o cadastro que coleciona informações sobre a evolução do emprego.
O saldo dos primeiros dez meses de 2009 foi a 1,163 milhão de empregos, contra 2,147 milhões no mesmo período do ano passado. A crise engoliu 984 mil vagas.
Na última frase de sua resposta, Lula injeta a analogia chinesa: “O PIB do terceiro trimestre, deve registrar crescimento a um ritmo chinês, de cerca de 9%”.
Anualizando-se o dado, conclui-se que o crescimento da economia brasileira já roça os 5%.
Nesta segunda, a propósito, o Banco Central divulgou o resultado da pesquisa que realiza semanalmente entre os operadores do mercado.
Os economistas ouvidos revisaram para o alto a previsão do PIB de 2010. Há uma semana previa-se alta de 4,83%. Agora, estima-se 5%.
A prevalecer essa previsão, o governo chega à eleição de outubro de 2010 com um cenário de sonho.
A candidatura oficial de Dilma Rousseff surfará em nda benfazeja. Ouça-se, por oportuno, o ministro Lupi:
“Para 2010, teremos o melhor ano do governo Lula na geração de empregos. Serão criados 2 milhões de novos postos de trabalho no Brasil".
Vaccarezza descrê da versão de que raios causaram apagão
Antônio Cruz/ABr Até a próxima quarta-feira (18), o deputado Candido Vaccarezza (PT-SP) vai protocolar na Câmara um requerimento de teor inusitado.
Líder do PT, Vaccarezza quer levar ao plenário da Câmara Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil e presidenciável do partido dele.
Por quê? “Quero que a ministra Dilma fale sobre a evolução do sistema elétrico brasileiro no período de 1999 a 2009”, explicou Vaccarezza.
Com sua iniciativa, o líder petista encampa uma demanda que, até aqui, só constava da pauta das legendas de oposição.
Desde a semana passada, PSDB e DEM articulam a convocação de Dilma. Enxergam na inquirição da ministra a possibilidade de fragilizar-lhe a candidatura.
O governo recorrera ao esconde-esconde. Admitira que o ministro Edison Lobão (Minas e Energia) fosse ao Legislativo, Dilma não.
O requerimento de Vaccarezza pedirá o comparecimento dos dois, Dilma e Lobão. Na contramaré da tática oficial, o líder do PT acha que o governo só tem a ganhar.
“O sistema elétrico brasileiro é robusto”, disse ele ao repórter. “Produz energia em quantidade maior do que a necessidade...”
“...Houve investimentos maciços no setor. Ainda que o país cresça a taxas relevantes, em torno de 5%, não há risco de falta de energia...”
“...O fenômeno da semana passada, que levou à interrupção do fornecimento, está por ser explicado...”
“...Não vejo razões para a ministra Dilma deixar de comparecer à Câmara. Com as explicações dela, ganha o governo e o país”.
Vaccarezza informou ao Planalto acerca de seus movimentos. Em viagem ao exterior, Lula e Dilma ainda não se manifestaram sobre a iniciativa.
O deputado descrê da versão oficial que atribui a tempestades, ventos fortes e raios o blecaute que afetou 18 Estados na semana passada.
“Esse negócio de fenômenos climáticos não me parece razoável. Houve interrupção de três linhas de transmissão...”
“...Estamos em novembro. Não entramos ainda nos meses de chuvas fortes. É improvável que três raios tenham caído simultaneamente sobre essas linhas”.
A apostar numa hipótese, Vaccarezza prefere a tese de que pode ter havido “sabotagem”.
Ele esmiúça o raciocínio: “Não creio em sabotagem política. Mas não descarto que um funcionário descontente possa ter provocado tudo isso”. Levanta, de resto, outra hipótese: "A ação de hackers".
Vaccarezza diz que protocolará o requerimento ainda que Dilma discorde dele. No texto, pedirá que a ministra e Lobão sejam ouvidos numa “comissão geral”.
É como são chamadas as audiências realizadas no plenário, abertas a todos os parlamentares. Vaccarezza vai procurar Aloizio Mercadante, líder do PT no Senado.
Sugerirá que, em vez de ser ouvida apenas pelos deputados, Dilma fale numa sessão conjunta do Congresso, que incluiria os senadores.
Vaccarezza pretende atrair para o seu requerimento lideranças de todos os partidos, inclusive os de oposição.
Nesta segunda (16), vai conversar com o líder do PSDB, deputado José Aníbal (SP).
“Meu requerimento será formalizado como iniciativa da liderança do PT. Quem poderia ficar contra? Quem vai dizer que não quer ouvir a ministra?”
O documento de Vaccarezza chega num instante em que o tucanato analisa a hipótese de levar o apagão e os ataques a Dilma à sua propaganda televisiva.
O líder petista dá de ombros: “Não sei qual será a reação do PT. Eu, pessoalmente, acho um erro politizar esse tipo de assunto...”
“...Vieram me perguntar o que achei da queda de três vigas na obra do viaduto do Rodoanel de São Paulo. Eu disse o seguinte:...”
“...Não vou adotar um comportamento de ave de rapina. Não acho que o José Serra é responsável pelo acidente. É preciso apurar o que aconteceu...”
“...Do mesmo modo com a interrupção do fornecimento de energia. Tem que apurar. Ainda que demora uns três meses. A causa climática não me convence”.
Sobre a eventual exploração eletrônica do apagão, Vaccarezza diz: “A oposição está sem rumo...”
“...Há seis meses, levaram ao ar um programa que não mostrava nem o José Serra nem o Aécio Neves...”
“...Bateram no Lula porque ele tinha declarado que a crise econômica internacional chegara ao Brasil como uma marolinha...”
“...Disseram que o país ia parar, que o mundo ia acabar. Um partido do porte do PSDB não pode fazer um jogo desses. É coisa de quem não tem rumo”.
Joel Silva/Folha Na partilha do horário eleitoral de 2010, o PP é dono de cerca de dois minutos. O tempo é cobiçado pelo petismo e também pelo tucanato.
A depender da vontade do deputado Paulo Maluf, presidente do diretório do PP em São Paulo, o partido fecha com José Serra, não com Dilma Rousseff.
Em privado, Maluf diz: “Não tenho nenhum problema com o Serra. Se houver um acordo político que abra espaços para o PP, podemos negociar tranquilamente”.
Nesses diálogos reservados, Maluf realça os laços que o unem também ao DEM, parceiro de Serra na política de São Paulo.
Considera-se um impulsionador das carreiras políticas de Gilberto Kassab, prefeito da capital, e de Guilherme Afif, secretário de Emprego da gestão Serra.
“Não digo que os dois são minhas crias porque eles já atingiram a maioridade. Mas eles começaram na política comigo”.
Maluf dá de barato que o candidato do PSDB será Serra, não Aécio Neves. Acha que a sucessão de Lula será decidida no maior colégio eleitoral do país.
“São Paulo tem 22,5% dos eleitores do país. São 30 milhões de eleitores. Se o Serra levar 20 milhões de voto, sobram 10 milhões para a Dilma...”
“...Sinceramente, será muito difícil tirar essa diferença”. Lembra que, “em 89, o Lula perdeu a eleição para o Fernando Collor graças a São Paulo”.
“O Lula ganhou no Rio. Mas perdeu em São Paulo. A diferença foi de 4 milhões de votos. Na soma nacional, Lula perdeu por 1 milhão de votos”.
Recorda, de resto, que Lula foi batido em São Paulo nas duas eleições em que FHC prevaleceu sobre ele, em 1994 e 1998.
Afirma que, mesmo nas duas eleições em que triunfou, Lula perdeu em São Paulo –em 2002, para Serra; em 2006, para Geraldo Alckmin.
“O PT, com Lula, perdeu em São Paulo até para o Alckmin. É humilhante, mas é verdade”, diz Maluf. Acha que Dilma terá maiores dificuldades que o chefe.
Assediado pelos dois lados, o PP administra o seu patrimônio eletrônico com a barriga. Empurra a decisão para meados de 2010.
Há 20 dias, a bancada de congressistas da legenda jantou com Dilma, em Brasília. O repasto não resultou em apoio à presidenciável oficial.
Uma semana depois, o senador Francisco Dornelles (RJ), presidente do PP, almoçou, em São Paulo, com os grão-tucanos FHC e Sérgio Guerra. E nada.
Sócio minoritário do consórcio governista, o PP dá suporte congressual a Lula. Mantém na Esplanada um ministro: Márcio Fortes (Cidades).
A despeito disso, frequenta a ante-sala de 2010 dividido em três partes. Um pedaço da legenda quer a aliança com Dilma. Outra parte prefere Serra.
Um terceiro grupo advoga a tese de que o partido não deve fechar com nenhum dos dois, privilegiando as alianças estaduais.
No caso de São Paulo, a dúvida é: o apoio explícito de Maluf ajuda ou atrapalha?
O repórter Elio Gaspari leva às páginas um artigo sobre o épico cinematográfico que narra a vida de Lula.
O texto, recoberto com o brilho habitual, pode ser encontrado nas páginas do Globo e da Folha. Para facilitar a vida dos interessados, vai reproduzido abaixo:
“O filme ‘Lula, o filho do Brasil’ estreará em 500 cinemas no dia 1º de janeiro. As platéias chorarão de emoção e a oposição, de raiva.
São 128 minutos de viagem pela história de um garoto que sai do sertão pernambucano, come o pão que o Diabo amassou, e chega à presidência da República.
É possível que algumas pessoas comecem a chorar já na fila para a compra de ingressos. Deliberadamente épico, o filme arranca até a última lágrima da platéia.
A epopéia foi lustrada pelos roteiristas e pelo diretor Fábio Barreto, mas não foi invenção deles. Ela está na essencia da história do filho de Dona Lindu.
‘O Filho do Brasil’ baseia-se no livro do mesmo título, de Denise Paraná, lançado em 2002. Ele reúne uma longo depoimento de Lula à autora, mais entrevistas com seus três irmãos, três irmãs e a mulher, Marisa.
Quem o leu viu uma parte da alma de Nosso Guia, acompanhou as vicissitudes de sua família e admirou a altivez das irmãs Marinete, Maria e Tiana, duas empregadas domésticas e uma operária.
A crítica a ‘Lula, Filho do Brasil’ correrá em duas pistas. Uma, estética, discutirá o filme. Outra, política, cuidará da narrativa e seus efeitos num ano de eleição presidencial.
Só Deus sabe o tamanho do benefício que o sucesso do filme levará aos companheiros. Olhado sob esse prisma, é um exemplar de realismo petista.
Retrata com fidelidade quase todos os fatos que conta, mas constrói um herói implausível, sem defeito nem deslize.
Pena, porque aos 29 anos, Lula abandonou uma companheira grávida de seis meses com quem planejava viver.
Foi o caso de Miriam Cordeiro, mãe de Lurian. (Essa história está bem contada, por ele, no depoimento que deu ao projeto ‘ABC de Luta’: ‘Eu até compreendo o ódio que [ela] tem de mim’).
Situações desse tipo refletem a complexidade, as tensões e os sofrimentos da vida dos mortais. Tirá-las da narrativa, como fizeram, empobrece o personagem e ilude a platéia.
É comum ver adversários de Lula torcendo o nariz sempre que ele relembra as dificuldades por que sua família passou. As desgraças mostradas no filme são uma pequena e contida amostra do que eles penaram.
Fábio Barreto não filmou a cena em que o menino Lula pede um chiclete mastigado a um amigo. Ficou de fora também a morte, sem qualquer assistência médica, de um casal de gemeos de Dona Lindu, recem-nascidos em São Paulo.
A doença e morte de Lurdes, primeira mulher de Lula, grávida de oito meses, vai mostrada em cenas breves, quase secas.
A tragédia que se vê na tela choca e emociona, mas não exagera. Aquilo foi o que aconteceu no Hospital Modelo em 1971.
Um episódio pouco conhecido da vida de Lula foi sovieticamente alterado pela arquitetura da construção do herói implausível.
No filme um operário é assassinado durante uma greve e seus colegas atiram o empresário (ou gerente) do alto de um passadiço da fábrica. Lula assistiu a cena de longe e, indignado, reclamou com seu irmão. Falso.
Nosso Guia contou o caso a Denise Paraná e ele está na página 80 de seu livro. (Paraná é co-roteirista do filme.) O episódio ocorreu em 1962, o dono de uma pequena confecção baleou um grevista e seus colegas atiraram-no do alto de um sobrado e lincharam-no.
É Lula quem narra: ‘O pessoal chutou ele. Acho que ele morreu. Eu achava que o pessoal estava fazendo justiça’.
‘Lula, o filho do Brasil’ ajudará, e muito, as campanhas de Dilma Rousseff e do PT. Se Luís Inácio da Silva visse esse filme em 1968, quando era um peão que só pensava em futebol, votaria no PT, em Dilma e nos candidatos indicados por aquele filho porreta de Dona Lindu.
Nenhum dos ingredientes que o levariam a tomar essa decisão seria inteiramente falso. Noves fora a trapaça do linchamento e alguns retoques, o que aparece na tela aconteceu na vida real.
Como Tarzan, Rocky Balboa ou até mesmo o esplendido Napoleão de Abel Gance, o herói implausível de "Lula, o filho do Brasil", encanta, comove, e só. Torce-se por ele, mais nada. Saudades de Erin Brokovich (Julia Roberts) e de George Patton (George C. Scott), filmes que enriquecem quem os vê".
Folha Fernando Henrique Cardoso decidiu reconhecer formalmente o filho que teve com a jornalista Mirian Dutra, da TV Globo.
Deve-se a informação à repórter Mônica Bergamo. A notícia encontra-se nas páginas da Folha, edição deste domingo (15).
Tomas Dutra Schmidt tem, hoje, 18 anos. Depois de consultar advogados, FHC voou, na semana passada, para Madri.
É na capital espanhola que reside Miriam Dutra. Ouvido, FHC negou que tenha viajado para cuidar do papelório do filho.
Apresentou como motivo da viagem uma reunião do Clube de Madri. Procurada, Miriam resguardou-se:
"Quem deve falar sobre este assunto é ele e a família dele. Não sou uma pessoa pública".
A repórter e o ex-presidente tiveram um caso amoroso na década de 90. Ele era senador. Ela trabalhava na sucursal brasiliense da TV Globo.
Do relacionamento resultou um filho. Nasceu em 1991. FHC e Mirian acordaram guardar segredo do episódio, mantendo-o na seara privada.
FHC era casado com Ruth Cardoso, com quem tivera outros três filhos: Luciana, Paulo Henrique e Beatriz.
Em 1992, Miriam deixou o Brasil. Virou “correspondente” da Globo em Lisboa. Antes de assentar-se em Madri, passara por Barcelona e Londres.
Em 1993, convertido em ministro da Fazenda de Itamar Franco, FHC viu o sigilo sobre o filho extraconjugal converter-se num segredo de polichinelo.
O nome de Thomas já corria de boca em boca nos subterrâneos da política. A despeito disso, Miriam sempre guardou zeloso silêncio.
FHC não se furtou a contribuir financeiramente para o sustento de Tomas. No curso dos dois mandatos como presidente, encontrou Tomás uma vez por ano.
Fora do Planalto, FHC passou a encontrar-se com o filho mais amiúde. No ano passado, participou da formatura de Tomas no Imperial College, em Londres.
Hoje, Tomas mora nos EUA. Estuda Relações Internacionais na George Washington University.
Informações de alcova sempre se imiscuíram no cotidiano da política.
Nos EUA, Clinton viu-se imerso numa crise nascida de um caso com uma ex-estagiária da Casa Branca.
Antes, houve Kennedy, que se dividira entre Jacqueline e Marilyn. Houve também Roosevelt, que oscilara entre Eleanor e uma secretária.
Na França, só à beira da morte Mitterrand trouxera à luz a amante Anne Pingeot, reconhecendo-lhe a filha.
Entre nós, histórias de lençol são injetadas na biografia de homens públicos desde o Império.
Dom Pedro 1º impôs à imperatriz Leopoldina a marquesa de Santos, sua amante.
Livro de João Pinheiro Neto menciona o amor secreto de Juscelino por Maria Lúcia Pedroso.
Os diários de Getúlio Vargas falam de uma "bem-amada." Em 89, Collor trouxe para o centro da arena eleitoral Lurian, filha de uma aventura de Lula.
Os petistas reclamaram da "baixaria". E logo se descobriria que Collor recusava-se, ele próprio, a emprestar o nome a um filho gerado fora do casamento.
No início de agosto de 1998, o PDT, então incorporado à coligação que dava suporte à candidatura presidencial de Lula recorrera ao mesmo expediente sujo.
O partido de Brizola, vice na chapa do PT, lançara em sua página na internet artigo sobre o filho de FHC com a jornalista.
Diferentemente do que ocorre nos EUA, no Brasil a conduta sexual não costuma ser levada em conta na hora da escolha de um presidente.
Melhor assim, diga-se. O político, como o advogado, o jornalista, o operário ou qualquer outro, não está livre de seus impulsos biológicos.
É tolice associar a pulsão sexual ao desempenho funcional. Busca-se um presidente, não um santo.
Apesar disso, os políticos brasileiros sempre hesitam em reconhecer a paternidade de filhos gerados fora do casamento.
No caso de FHC, a hesitação durou quase duas décadas.
PT cogita revidar com Rodoanel e racionamento de FHC
Miran
Nesta segunda (16), o PSDB vai tomar uma decisão que pode desencadear uma guerra televisiva com o PT.
O tucanato cogita levar o apagão à sua propaganda partidária. O petismo esboça, nos subterrâneos, o revide.
Em dezembro, as duas legendas terão dez minutos cada uma no horário nobre da televisão. Sem contar um lote de inserções de 30 segundos.
Inicialmente, os tucanos haviam planejado usar a maior parte do tempo que lhe cabe para propagandear seus dois presidenciáveis: José Serra e Aécio Neves.
Porém, o apagão da última terça (10), que espalhou o breu por 18 Estados, provocou um rebuliço na legenda.
O senador Sérgio Guerra (PE), presidente do PSDB, passou a administrar uma pressão para que o apagão vire tema da publicidade partidária.
O PSDB dividiu-se em dois. Os dois grupos concordam com a tese de que é preciso energizar a propaganda. Porém...
Porém, um pedaço do partido cobra exploração agressiva. E outro naco da legenda advoga a tese de que o tema deve ser abordado com comedimento.
Em telefonemas trocados desde sexta-feira (13), integrantes da cúpula do partido buscavam o meio termo entre as duas posições.
Pretende-se bater o martelo nesta segunda (16). Prevalecendo a maioria, o tucanato terá de refazer algumas peças que já haviam sido filmadas antes do apagão.
Quanto ao PT, havia a decisão de converter a presidenciável Dilma Rousseff em estrela da propaganda partidária.
O presidente do partido, Ricardo Berzoini (SP), hesitara. Receava que a superexposição de Dilma pudesse resultar em punição da Justiça Eleitoral.
Pela lei, a janela eletrônica de dezembro destina-se à publicidade institucional do partido, não à propaganda eleitoral.
A movimentação do PSDB acendeu no PT um debate, por ora incipiente, sobre a conveniência de retemperar o programa.
Para se contrapor aos ataques tucanos, o petismo pode realçar em suas peças os infortúnios elétricos da era FHC, tisnada por dois apagões, em 1999 e 2001.
Um deles, o de 2001, impôs aos consumidores um racionamento de cerca de oito meses. O PT cuidaria de realçar as diferenças.
O apagão de Lula seria vendido como acidente de percurso. Os de FHC seriam caracterizados como “barbeiragem”, falta de planejamento, incúria gerencial.
De resto, o petismo ameaça fazer um carnaval com a queda de três vigas num viaduto do Rodoanel, obra prioritária da gestão de José Serra.
Para o PT, se insistir na declaração de guerra, o PSDB tem mais a perder. O tucanato parece discordar. Avalia que ninguém perde mais do que Dilma Rousseff.
Os tucanos escoram-se no fato de que, antes de virar chefe da Casa Civil, Dilma comandou a pasta de Minas e Energia.
Foi sob Dilma que o sistema de geração e distribuição de energia fora reordenado.
No dizer de um grão-tucano, “o apagão caiu como um raio sobre a fama de boa gerente de que desfrutava Dilma”.
Dentro do próprio governo, avalia-se que foi um erro a tentativa de distanciar do apagão. Num primeiro momento, a ministra sumiu do mapa.
Quase 48 horas depois, deu uma entrevista que foi considerada desastrosa. Fustigada pelos repórteres, soou destemperada.
Endossou a tese de que chuvas, ventos e raios produziram o blecaute. Deu o caso por “encerrado”.
Menos de 24 horas depois, Lula diria que era preciso aguardar pelo término das apurações. Sob pena de incorrer em “achismo”.
São esses desencontros que o PSDB deseja realçar. Dependendo do tom, a coisa será recebida pelo PT como uma declaração de guerra.
A queda de três vigas de um viaduto do Rodoanel paulista fez reluzir um relatório produzido pelo TCU no ano passado.
Depois de esquadrinhar as obras do Rodoanel, o Tribunal de Contas da União concluiu que o projeto original fora alterado.
Baratearam-se os custos das empreiteiras que tocam as obras –entre elas a OAS e a Mendes Júnior. Mantiveram-se os valores cobrados do Estado.
Entre as mudanças operadas, uma remete diretamente ao acidente desta sexta (13). As empreiteiras optaram por usar vigas pré-moldadas, mais baratas.
Cada viga pesa algo como 85 toneladas, distribuídas em 40 metros de comprimento. As três que ruíram na sexta atingiram dois automóveis de passeio e um caminhão.
Produziram-se três feridos. Por sorte, ninguém morreu. A Dersa, estatal paulista que gere a obra, apressa-se em negar que tenha havido falha de projeto.
Paulo Vieira de Souza, diretor de Engenharia da Dersa, mimetiza Lula ao condenar os juízos precipitados. Só trocou o adjetivo.
Na sua última manifestação sobre o apagão que desligou da tomada 18 Estados brasileiros, Lula chamara de “achistas” os "especialistas" que condenam o governo.
Disse que é preciso aguardar o término das investigações. Ao discorrer sobre o despencar das vigas, o diretor da Dersa foi na mesma linha:
Declarou que “são levianas” as afirmações sobre as causas do acidente no Rodoanel. Pregou a necessidade de aguardar a conclusão da investigação.
O diabo é que, antes mesmo da emissão de qualquer laudo técnico, Paulo Vieira exclui do rol de causas eventuais a alteração de projeto detectada pelo TCU.
E especula sobre as causas: "Possivelmente houve problema na execução, no tombamento ou no transporte [das vigas]".
O secretário de Transportes da gestão tucana de José Serra, Mauro Arce, também soou à Lula:
"Tudo o que a gente falar agora é prematuro, antes que a gente tenha uma noção mais exata do que realmente aconteceu e onde está a falha".
Incumbiu-se o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) da apuração do ocorrido. Estima-se que o resultado da análise sairá em um mês.
Elza Fiúza/ABr Nas pegadas do apagão, Lula foi à “Cidade Luz”. Em Paris, reuniu-se com o presidente francês Nocolas Sarkozy.
Conversaram sobre a cúpula planetária sobre mudanças climáticas, marcada para dezembro, em Copenhague.
Firmaram uma aliança franco-brasileira. Cobram ousadia dos EUA e da China, campeão e vice-campeão no ‘campeonato’ mundial de poluidores.
"É preciso que os Estados Unidos, como maior economia do mundo, sejam os mais ousados”, disse Lula, em entrevista. Referiu-se também à China:
“Não tem a mesma responsabilidade dos países desenvolvidos, mas cresce de forma extraordinária e tem que ter um pouco mais ousadia em suas propostas".
Sarkozy ecoou Lula: "Não aceitaremos um acordo em que outros países dirão que isso [a fixação de uma meta para redução da emissão de CO2] ficará para depois...”
“...É uma responsabilidade coletiva. A primeira economia do mundo [EUA] deve estar à altura de suas responsabilidades".
Lula levou consigo a presidenciável oficial, Dilma Rousseff. Pintada de verde, ela explicou aos repórteres franceses decisões que o Brasil tomara na véspera.
Contou que o país fixara uma meta “voluntária” de redução da emissão de gases-estufa: entre 36,1% e 38.9% até 2020.
O Sarkozy da entrevista era feito 100% de elogios: "O Brasil é o primeiro país emergente que assume compromissos dessa natureza".
Os dois presidentes divulgaram uma carta-compromisso. Três folhas. No texto, informam que "estão engajados a trabalhar juntos antes da Conferência do Clima".
Defendem a "necessidade de adoção de metas, por parte dos países desenvolvidos, de redução das emissões [de gases estufa] no médio prazo”.
Lula referiu-se ao documento com uma ponta de exagero: “É uma bíblia climática”. Sarkozy anunciou a intenção de correr o mundo defendendo o catecismo.
Por que voltam as baterias contra EUA e China? "No fundo, estamos percebendo a tentativa de criação de um G2”, Lula explicou.
Um grupo “com interesses específicos, para resolver os problemas políticos e climáticos dos dois países...”
“...Sem se importar com a responsabilidade que temos de ter com o conjunto da humanidade".
O “cara” afirmou que vai tocar o telefone para Barack Obama nesta segunda-feira (16). Fará ao presidente dos EUA um convite à ousadia climática.
Desde o ano passado, Lula despacha numa dependência do Banco do Brasil. Deixou o Planalto sob a alegação de que o prédio precisava de reformas.
A notícia não saiu na imprensa, mas a verdadeira causa da mudança é outra. Lula abandonou o prédio de Niemeyer para desviar a atenção.
Atrás dos tapumes da sede da Presidência desenvolve-se um projeto ultra-secreto. No antigo gabinete de Lula, improvisou-se um laboratório.
A coisa começara a ser arquitetada em janeiro de 2007. Ainda se ouviam ao fundo os estampidos dos fogos da reeleição de Lula.
O presidente mal triunfara nas urnas e já transbordava inquietação. Dali a quatro anos, seria forçado a voltar para São Bernardo.
O que fazer para assegurar a continuidade de sua gestão depois de 2010? Em segredo, Lula convocou a Brasília um grupo de químicos renomados.
Reuniu-se com eles de madrugada, no Alvorada. Intimou-os a criar um sucessor. Nas suas ruminações, Lula lembrava-se de Duda Mendonça.
Vinha-lhe à mente a essência da fórmula de seu criador. Obrigara-o a adoçar o discurso, renegar o passado, aparar a barba e vestir-se com apuro.
Lula disse aos químicos: “O nosso presidenciável, para ser ideal, precisa ser doce como o Aécio. Mas não tão melífluo”.
“É recomendável que tenha uma pitada do tecnicismo do Serra. Mas sem aquele ar de arrogância”.
Depois de alguma hesitação, os químicos aceitaram a encomenda de Lula. Foram à prancheta. Depois, requisitaram um laboratório.
Daí a necessidade de esvaziar o Planalto. Para não chamar a atenção, deu-se ao plano secreto do sucessor perfeito uma sigla manjada: PAC.
Significa “Projeto-Água-de-Colônia”. Uma alusão à loção pós-barba que os químicos utilizaram como primeiro reagente, na fase inicial das pesquisas.
Despejaram a loção num pote mal lavado de doce. Dissolveram na mistura uma poção de estatísticas e uma foto de jornal em que Aécio e Serra apareciam juntos.
Nos primeiros testes de laboratório, o sucessor ideal soou estranho. A voz era de mulher. Efeito dos restos de doce no pote.
Mas o discurso era duro, áspero, autoritário, masculino demais. A dose de água-de-colônia revelara-se excessiva. De resto, recitava números em profusão.
Os químicos haviam previsto o fim das pesquisas para meados de 2010. Mas Lula pediu pressa. Queria testar o protótipo em condições normais de uso.
A mistura foi refeita. Os mesmos ingredientes. Porém, em dosagens recalibradas. Com o experimento pelo meio, Lula decidiu exibir a sucessora ideal em público.
Sim, a essa altura já se havia concluído que o candidato ideal era uma mulher: Dilma Rousseff. Para efeitos eleitorais, apenas Dilma.
No geral, a sucessora ideal revelou-se adequada. A rispidez inicial foi sendo gradativamente suavizada.
Aos poucos, a sucessora ideal foi substituindo Lula nas reuniões com os partidos. Já conseguia conversar com o PMDB sem fechar as narinas.
Em público, parecia dotada de dinamismo. Discorria sobre tudo. Trazia na ponta da língua soluções para qualquer tipo de problema.
Havia, porém, um último problema a resolver. Em eleições simuladas, chamadas de pesquisas de opinião, a sucessora ideal ainda perdia para Serra.
Na última terça-feira, os químicos foram a Lula. Pediram que lhes cedesse três fios de barba. Para quê?, o presidente quis saber.
Falta um quê de Lula na mistura, eles responderam. O presidente aquiesceu. E os químicos foram, à noite, para o laboratório secreto do Planalto.
No instante em que dissolviam os fios de barba, faltou energia elétrica. Em meio ao breu, um dos químicos esbarrou no pote de doce, que foi ao chão.
Os geradores do Planalto foram acionados. Os químicos recolheram a mistura com uma colherinha de café.
Na quarta-feira, por precaução, a sucessora ideal foi mantida longe dos holofotes. Os repórteres estranharam o sumiço.
Na quinta, a sucessora ideal reapareceu. Instada a comentar o apagão, disse coisas desconexas. O discurso, antes impecável, confundiu-se com o do Edison Lobão.
Súbito, a sucessora ideal pôs-se a repetir: Tempestade, ventos, raios. Caso encerrado. Racionamento é barbeiragem. Mas os blecautes podem se repetir.
Os químicos receiam que a mistura pode ter desandado. Por ora, não se sabe se a sucessora ideal foi mesmo obtida ou se tudo não passou uma ilusão genética.
Divulgação Chama-se Dilma Pena a secretária de Saneamento e Energia do governo de São Paulo (foto). Tornou-se uma crítica feroz do governo federal.
Em matéria de geração e produção de energia, a Dilma de Serra tem opiniões diversas das expostas pela Dilma de Lula.
Para a chefe da Casa Civil, presidenciável do PT, o colapso energético que retirou da tomada 18 Estados brasileiros é um “caso encerrado”.
Para a secretária de Serra, o presidenciável do PSDB, não é bem assim. Ela endereçou a Brasília ofício cobrando 14 investimentos “emergenciais”.
Coisa destinada a atenuar o risco de São Paulo voltar a ficar às escuras. A lista da secretária inclui a aquisição de um transformador...
...A construção de um banco de reatores e 12 obras projetadas para expandir a rede de transmissão de energia que corta São Paulo.
Para a Dilma de Lula, o sistema elétrico brasileiro é “robusto”. Para a Dilma de Serra, nem tanto:
“A operação e a manutenção desse sistema precisam de mais eficiência, de modo a trazer mais confiabilidade...”
“O resultado da gestão desse sistema está aí [no apagão da noite de terça-feira]. O sistema elétrico precisa de um planejamento, uma previsibilidade”.
As deficiências gerenciais se manifestam, segundo a secretária do governo paulista, em todo o sistema: na geração, na distribuição e na transmissão de energia.
Na opinião da Dilma de Brasília, o Brasil dispõe, hoje, do “melhor sistema [elétrico] dos últimos tempos”.
E a Dilma de São Paulo: “Do ponto de vista da geração, a qualidade da energia é inferior, embora a quantidade tenha aumentado...”
“...Ingressaram no sistema brasileiro 10 mil megawatts de energia térmica poluente [...]”.
De resto, Dilma Pena descrê da versão segundo a qual raios causaram o apagão de terça. Uma explicação que Dilma Rousseff encampou.
As opiniões das duas Dilmas só coincidem num ponto: ambas acreditam que o país não está livre de ficar novamente no breu.
Blecautes, disse Dilma Rousseff na quinta-feira, “ninguém pode prometer que não vai ocorrer”. Dilma Pena concorda: “O sistema mostrou uma grande vulnerabilidade”.
- Em tempo: As opiniões de Dilma Pena foram expostas em texto levado à web na página da Secretaria de Saneamento e Energia de SP.
Folha O Ministério do Trabalho não se entende com os seus trabalhadores. Neste sábado, completa dez dias a greve dos servidores administrativos da pasta.
A paralisação, que começara tímida, espraia-se pelo país. O sindicato da categoria estima que, nos próximos dias, servidores de 22 Estados terão cruzado os braços.
A greve já começa a afetar dois “balcões” essenciais ao trabalhador. Num deles, emite-se a carteira de trabalho. Noutro, pede-se o seguro desemprego.
Na última quarta (11), o ministro Carlos Lupi (Trabalho) recebeu representantes das principais sindicais do país. As entidades promoviam uma marcha, em Brasília.
Ao final da reunião, Lupi reiterou o apoio a uma das principais reivindicações das centrais:
"Sou favorável à redução da jornada. Todos os países evoluídos do mundo já praticam isso...”
“...É bom inclusive para o empresário, porque o trabalhador produz melhor, fica um pouco mais de tempo com sua família”.
Pois bem. Uma das exigências dos grevistas da pasta de Lupi é justamente a redução da jornada semanal para 30 horas. Sem poda de salários.
Pedem também um plano de carreira exclusivo para o ministério, melhoria nas condições de trabalho e reforço de pessoal.
Pródigo na defesa dos direitos dos trabalhadores dos outros, Lupi ainda não abriu canal de negociação com os servidores sob sua direção.
Em alguns Estados, o ministério começa a impor aos grevistas os rigores da lei. Foi o que se deu, por exemplo, em Alagoas.
A superintendência alagoana do Ministério do Trabalho foi ao Judiciário. Obteve uma liminar.
Obriga os grevistas a liberar o acesso à superintendência e a manter em atividade 30% dos servidores lotados nos setores de atendimento ao público.
Na petição, preparada pela Advocacia Geral da União, o ministério requer autorização para convocar a PM local. Cuidaria da proteção do prédio da superintendência.
Para daqui, reprime dali, a pasta gerida por Lupi converte-se numa espécie de casa de ferreiro com espetos de pau.
O espetado, obviamente, é o trabalhador brasileiro que tem a desventura de precisar dos serviços do Ministério do Trabalho.
Três vigas de concreto despencaram de um viaduto em construção, no Rodoanel Mario Covas, em São Paulo.
Caíram sobre três veículos, dois de passeio e uma carreta. O acidente resultou em três feridos, já hospitalizados. Um deles em estado grave. Quem viu ficou chocado.
Deu-se na noite desta sexta (13), pouco depois das 21h. O governador tucano José Serra chegou ao local, de helicóptero, por volta de meia-noite.
Disse que, diante do ocorrido, "a boa notícia” é que não houve “vítimas fatais”. Assista abaixo.
Chama-se Dersa (Desenvolvimento Rodoviário) a empresa que gere a obra. Segundo informa, integram o consórcio responsável pelo canteiro a OAS e a Mendes Júnior.
O acidente ocorreu num viaduto que está sendo erigido sobre a Rodovia Régis Bittencourt. Pronto, ligará os trechos oeste e sul do Rodoanel.
Entre maio e julho do ano passado, auditores do TCU varejaram o empreendimento. Detectaram modificações inquietantes no projeto básico da obra.
Coisas assim: redução do número de vigas em pontes, troca de estacas metálicas por pré-moldadas e substituição de areia por brita nos muros de contenção.
O relatório do tribunal anotou: "Assim, usaram menos material de construção, mas receberam o mesmo dinheiro".
Suspeita-se que o acidente desta sexta tenha ocorrido porque uma das vigas rachou.
Ouça-se o diretor de engenharia da Dersa, Paulo Vieira de Souza:
"Já lançamos mais de 300 vigas como essas até agora. Houve uma ruptura e, com isso [as vigas], caíram do apoio".
Serra disse o óbvio: “Houve falhas”. E prometeu investigar. Cuidarão da apuração o DER e o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).
Nas últimas 48 horas, Serra frequentara a boca do palco cobrando explicações do governo Lula sobre o apagão de terça-feira (9).
Agora, é Serra quem terá de prover meia dúzia de esclarecimentos à bugrada. Por que caiu? De quem é a responsabilidade? Qual será a punição?
Fernando Bizerra/Efe Como previsto, o governo anunciou nesta sexta (13) a meta de redução na emissão de gases-estufa.
O corte vai variar no intervalo compreendido entre 36,1% e 38,9%. Coisa a ser cumprida voluntariamente, até o ano de 2020.
Definidas em reunião com Lula, em São Paulo, as cifras foram anunciadas pelos ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Carlos Minc (Meio Ambiente).
Serão levadas à cúpula mundial sobre mudanças climáticas, em dezembro, como números oficiais adotados pelo Brasil.
Trata-se de notável avanço em relação ao que fora esboçado numa reunião realizada na semana passada.
Naquele encontro, Minc advogara a meta de redução de CO2 de 40% até 2020. Dilma soara contra.
Logo mais, Lula e Dilma embarcam para Paris. Neste sábado (14), reúnem-se com o presidente francês Nicolas Sarkozy.
Tentarão costurar uma pauta comum a ser levada pelos dois países a Copenhague.
Diferentemente do Brasil, de quem só se exigem compromissos voluntários, a França, por desenvolvida, terá de levar à cúpula climática uma meta obrigatória.
- Em tempo: É no mínimo curioso que o governo tenha utilizado optado por uma meta expressa em percentuais quebrados.
É de perguntar: por que não 36% em vez de 36,1%? Por que não 39% em vez de 38.9%?
Lula abriu nesta sexta-feira 13 um congresso de iniciação científica, em São Paulo. No discurso, falou sobre crescimento econômico. A alturas tantas, disse:
"A educação é condição sine qua non para o crescimento. Eu digo sine qua non porque, se o Caetano Veloso fala sine qua non, o Lula também pode falar".
Trata-se de expressão latina utilizada à larga. Significa “sem o qual não pode ser”. O plural é sine quibus non.
Lula também citou Obama, personagem evocado por Caetano para compará-lo a Marina Silva. Caetano dissera: “Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo...”
“...Ela é meio preta, é cabocla. É inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem”.
E Lula: "Os EUA acham que são o País das oportunidades. Somos mais que eles...”
“...Agora eles têm um presidente negro, mas nunca um torneiro mecânico chegou à Presidência lá".
Aproveitou para tirar uma casquinha de FHC, que o acusara de patrocinar o “autoritarismo popular” e tachara o lulismo pós-Lula de” subperonismo”.
Disse que, ao deixar o Planalto, vai torcer pelo êxito do sucessor. Inverteu o próprio bordão:
“Pela primeira vez na história desse país, um [ex] presidente da República vai torcer para o outro dar certo..."
“...Lamentavelmente, a prática histórica desse País é quem perde torcer para outro cair em desgraça..."
"...Eu, quando deixar a Presidência, vou ser o primeiro presidente a torcer e rezar todo santo dia para quem me suceder fazer muito mais coisas do que eu”.
Alan Marques/Folha O governo é muito desacreditado no governo, eis a verdade. O governo dispensa adversários. Complica-se sozinho.
Ao oferecer esclarecimentos ao país sobre o apagão, o ministro Lobão soara categórico. Três causas: ventos, chuvas e, sobretudo, raios.
A turma do Inpe o desdisse. Tempestade até que houve. Mas os raios foram fracos e caíram longe das linhas de transmissão.
Lobão não se deu por achado. Culpa do clima. E não se fala mais nisso. Dilma ecoou o colega: “O caso está encerrado”.
No vácuo de Dilma, Paulo Bernardo, o petista do Planejamento, disse coisa diversa: o governo ainda deve uma explicação “cabal”.
Nesta sexta-feira 13, Lula veio aos holofotes para reabrir o “caso” que, na véspera, fora “encerrado” por Lobão e Dilma.
Súbito, o país descobre que o governo conduz uma investigação sobre o caso. Lula disse que aguarda a conclusão do trabalho para opinar.
Excetuando-se a hipótese de sabotagem, na qual não acredita, o presidente abre o leque de possibilidades:
"Se foi sobrecarga de energia vinda de Itaipu, nós vamos ver. Se foi uma falha humana, nós vamos ver. Se foi um raio, nós vamos ver".
Lula queixa-se dos especialistas que pululam no noticiário do apagão. Chama-os de “achistas”. O diabo é que o “achismo” foi inaugurado pelos ministros dele.
"O que eu quero”, disse Lula, “é um resultado final, depois de uma apuração correta, para que a opinião pública brasileira fique sabendo o que aconteceu".
Boas falas. Convém apressar o passo. Uma verdade perde todo o encanto quando é descoberta por outra pessoa.
O governo precisa providenciar rapidamente uma verdade na qual o governo acredite.
Alan Marques/Folha Uma semana depois de ter informado que não levaria a Copenhague uma meta de redução de gases-estufa, o governo decidiu dar meia-volta.
Nesta sexta (13), será anunciada a meta a ser levada pelo Brasil à cúpula mundial sobre o clima, em dezembro. Coisa a ser cumprida até 2020.
A cifra será revelada pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), depois de uma reunião no escritório da Presidência da República, em São Paulo.
Num encontro presidido por Lula na semana passada, em Brasília, Dilma e o colega Celso Amorim (Itamaraty) haviam se posicionado contra a fixação da meta.
A dupla isolara o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), que defendera um objetivo ambicioso: 40% de redução de CO2 até 2020.
Metade viria da redução em 80% do desmatamento na Amazônia. A outra parte viria de providências adicionais.
Por exemplo: adoção de fontes alternativas de energia e aperfeiçoamento dos métodos de exploração agrícola.
Dilma e Amorim fecharam com a redução do desmatamento. Mas torceram o nariz para os 40% de Minc.
Nesta quinta (12), o governo informou que o desmatamento amazônico caiu 45% entre 2008 e 2009. A área desmatada é a menor em 21 anos.
Depois da cerimônia, Dilma já soava noutro tom. Recusou-se a revelar a meta de Copenhague. Mas disse que o dado vai surpreender.
Será um compromisso voluntário. Classificado como país “em desenvolvimento”, o Brasil não está obrigado a assumir uma meta peremptória.
Impõe-se a obrigatoriedade apenas às nações ricas. A despeito disso, o governo brasileiro diz que sua meta será mensurável.
Inicialmente, o governo agendara para este sábado (14) a reunião na qual seria batido o martelo sobre Copenhague.
O encontro foi antecipado em um dia porque, no final de semana, Lula vai a Paris. Terá uma conversa com o presidente francês Nicolas Sarcozy.
Para quê? Brasil e França tentarão amarrar uma posição comum para a cúpula climática de dezembro. Dilma viajará junto com Lula.
A ministra foi escolhida pelo presidente para chefiar a missão brasileira em Copenhague.
Presidenciável, ela tenta atenuar a imagem de “desenvolvimentista” alheia à temática ambiental. Quer se pintar de verde.
Em 2009, o governo destinou ao Grupo Eletrobras, R$ 7,243 bilhões para cobrir investimentos no sistema de geração e transmissão de energia elétrica.
Entre janeiro e agosto, apenas R$ 2,73 bilhões –38% do total— foram efetivamente investidos.
Os dados são oficiais. Armazena-os um órgão público chamado DEST (Departamento de Coordenação das Empresas Estatais).
As informações foram trazidas à luz, nas pegadas do apagão da noite de terça-feira (9), pelo sítio Contas Abertas, que se dedica a acompanhar os gastos públicos.
Não há dados disponíveis sobre a execução dos investimentos em energia depois do mês de agosto. Porém...
Porém, mantido o ritmo observado nos primeiros oito meses de 2009, a Eletrobras deve investir até o final do ano R$ 4,2 bilhões.
A cifra corresponde a pouco mais da metade –57% — de toda a verba que o governo reservara para os investimentos do ano.
Em valores absolutos, será o maior montante investido pela Eletrobras desde 2002. No último ano da gestão FHC, os investimentos somaram R$ 5,8 bilhões.
Mas, tomado como uma fatia do PIB, os R$ 4,2 bilhões de 2009 corresponderão a menos de 0,5% de todas as riquezas produzidas no Brasil.
Aliás, em proporção ao PIB, o grupo estatal que gere o setor energético investiu sob Lula, até o ano passado, menos do que fora investido no ocaso da era FHC.
Em 2000, um ano antes do apagão tucano, que resultaria em racionamento de energia, a Eletrobas investira R$ 2,1 bilhões (0,18% do PIB).
Em 2001, ano do apagão, os investimentos somaram R$ 2,5 bilhões (0,20% do PIB). Em 2002, R$ 3,3 bilhões (0,23% do PIB).
Desde a posse de Lula, em 2003, os investimentos da Eletrobras mantiveram-se em patamares inferiores, perdendo peso no cotejo com o PIB.
Em 2003, os investimentos da estatal alçaram a casa dos R$ 2,8 bilhões (0,27% do PIB). No ano passado, R$ 3,7 bilhões (0,13% do PIB). Aperte aqui e veja a tabela.
Pela versão oficial, o apagão de terça foi ocasionado por chuvas, ventos e raios que caíram sobre as linhas de transmissão da subestação de Itaberá (SP).
Um trololó que, por ora, não soou convincente nem mesmo para o Inpe, o instituto de pesquisas espaciais vinculado à pasta da Ciência e Tecnologia.
Em nota, o Inpe informou que, na hora do apagão, os raios de Itaberá tinham "baixo potencial" e caíram longe das linhas de transmissão.
O texto do instituto é taxativo: “A baixa intensidade da descarga registrada (menor que 20 kA) não seria capaz de produzir um desligamento da linha, mesmo que incidisse diretamente sobre ela [...]..."
"...Em geral, apenas descargas com intensidade superiores a 100 kA, atingindo diretamente uma linha, poderiam causar um desligamento de linhas de transmissão operando com tensões tão elevadas como as de Itaipu (duas de 600 kV e duas de 750 kV)”.
O desencontro de versões tonifica a suspeita de que pode ter havido falha humana ou defeito operacional no sistema. Algo que o Ministério Público já investiga.
De resto, o apagão reacendeu o debate sobre um antigo flagelo do setor elétrico. Nesse setor, o político prevalece sobre o técnico na escolha dos gestores.
Sob FHC, esse nicho do aparato estatal era dominado pelo PFL, hoje rebatizado de DEM.
O ministro de Minas e Energia do apagão de 2001 era José Jorge, um ex-senador ‘demo’, hoje acomodado numa cadeira do TCU.
Sob Lula, o setor é rateado entre PT e PMDB. O ministro é o senador licenciado Edison Lobão (PMDB-MA), homem de José Sarney.
O presidente da Eletrobras, José Antonio Muniz Lopes, foi alçado ao posto com o aval de Sarney e do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA).
Responde pela diretoria financeira da estatal Astrogildo Quental, outro apadrinhado de Sarney.
Chama-se Flávio Decat de Moura o diretor de Distribuição. Apadrinhou-o o senador Renan Calheiros (PMDB-AL).
O diretor de Engenharia é Valter Luiz Cardeal de Souza. Um velho conhecido da ministra petê Dilma Rousseff, a quem deve a nomeação.
Até Orestes Quércia, presidente do PMDB-SP, beliscou uma naco do organograma da Eletrobras. Acomodou Miguel Colassuono na diretoria de Administração.
A política se espraia também pelas subsidiárias da Eletrobras. Preside a Eletronorte Jorge Nassar Palmeira, indicação de Jader.
Na Eletrosul, Eurides Mescolotto, ex-marido da senadora petê Ideli Salvati (SC), líder do governo no Congresso.
No comando de Furnas, Carlos Nadalutti Filho. Foi à cadeira com o endosso das bancadas de deputados federais do PMDB de Minas e do Rio.
Na presidência de Itaipu Binacional, a empresa que eletrifica as linhas de transmissão de Furnas, um ex-deputado: Jorge Samek, amigo de Lula.
Diferentemente dos raios de Itaberá, ainda pendentes de confirmação, as intempéries políticas que infelicitam o setor elétrico brasileiro dispensam, por notórias, maiores verificações.
Fábio Pozzebom/ABr Pela segunda vez, o Supremo adiou o veredicto sobre o pedido de extradição do ex-guerrilheiro Cesare Battisti.
Na sessão desta quinta (12), votou o ministro Marco Aurélio Mello. Posicionou-se contra a extradição. Quatro a quatro.
Em setembro, quando o processo começara a ser julgado, sete ministros já haviam votado.
Quatro deferiram o pedido de extradição formulado pelo governo da Itália: Cezar Peluso, Ricardo Lewandowski, Carlos Ayres Britto e Ellen Gracie.
Outros três ministros haviam indeferido o pedido: Cármen Lúcia, Eros Grau e Joaquim Barbosa.
Falta colher o voto do presidente do Supremo, Gilmar Mendes. A julgar pelo que já declarou, Gilmar pende para a extradição.
O advogado de Battisti chegou a formular um pedido para que Gilmar se abstivesse de votar. Não colou.
O ministro não proferiu o seu voto porque o quórum do tribunal estava baixo. Havia apenas cinco ministros em plenário.
Remarcou-se a conclusão do julgamento para a próxima quarta (18). Battisti está a um passo da extradição.
A última esperança do ex-guerrilheiro era o ministro José Antonio Dias Toffoli. Pendia pelo indeferimento, o que levaria a um empate que favoreceria Battisti.
Porém, Toffoli decidiu não participar do julgamento. Não estava impedido de fazê-lo. Como advogado-geral da União, não aturara no caso.
Ainda assim, como que decidido a esquivar-se de qualquer diz-que-diz, Toffoli preferiu não votar.
Passado o efeito do chá de sumiço que tomara na véspera, Dilma Rousseff voltou à vitrine nesta quinta (12).
Deu-se numa solenidade em que o governo festejou a redução dos índices de desmatamento na Amazônia.
Ao ressurgir, a chefe da Casa Civil viu-se compelida a encarar os repórteres. Foi inquirida sobre um tema incontornável: o apagão.
Classificou o blecaute que infelicitou 18 Estados e o Distrito Federal na noite de segunda (9) como um “caso encerrado”.
Dilma ecoou o colega Edison Lobão (Minas e Energia) que, mais cedo, também se referira ao episódio como coisa superada.
A ministra repisou as explicações oficiais da véspera. Afirmou que o breu teve motivações climáticas:
"O que aconteceu é que o sistema foi submetido a uma situação muito grave de ventos, raios e chuvas...”
“...E, com isso, terminou tendo sido desligado. O sistema se protegeu, ele se desligou".
Fustigada pela oposição, a presidenciável de Lula deu de ombros: “Eu não vou entrar nesse tipo de polêmica, não me interessa, não é por aí...”
“...Não se pode politizar uma coisa tão séria para o país, não se faz isso, não é republicano. Não vou comentar, vou responder tecnicamente".
Reiterou o que Lula dissera na véspera: a escuridão de segunda não é comparável ao apagão da era FHC:
"É absolutamente inequívoco que o Brasil de hoje é completamente diferente do Brasil que sofreu oito meses de racionamento...”
“...Primeiro, nós temos energia sobrando. Depois, nós temos um sistema de transmissão robusto..."
"Consideramos que, hoje, estamos em uma situação milhares de vezes melhor do que alguma vez tivemos. É o melhor sistema dos últimos tempos."
Brincando com as palavras, tentou explicar entrevista de duas semanas atrás, na qual dissera ter "certeza" de que não haveria apagão no Brasil.
"Uma coisa é blecaute, que ninguém pode prometer que não vai ocorrer. O que eu prometi é que não haverá racionamento. Racionamento é barbeiragem". Vai abaixo um pedaço da entrevista:
Tomado pela versão oficial, agora reiterada por Dilma, o apagão foi provocado por raios que caíram sobre uma estação de energia assentada em Itaberá (SP).
Em nota, o Inpe, órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, traz à luz um esclarecimento inquietante:
“[...] Embora houvesse uma tempestade na região próxima a Itaberá, com atividade de raios no horário do apagão...”
“...As descargas mais próximas do sistema elétrico estavam a aproximadamente 30 km da subestação...”
“...E cerca de 10 km distantes de uma das quatros linhas de Furnas, de 750 kV, e a 2 km de uma das outras linhas, de 600 kV, que saem de Itaipu em direção a SP”.
Para entender melhor o que se passou, assista ao vídeo lá do alto. Há pior: nos próximos meses, o país arrostará tempestades mais acerbas.
Ou seja, se o sistema de transmissão –“robusto”, no dizer de Dilma— foi à breca com os raiozinhos de segunda, o risco será maior doravante. Caso encerrado? Talvez não.
Folha Reunida nesta quinta (12), a Executiva do PSOL criou uma comissão eleitoral. Vai abrir negociações formais com Marina Silva, a presidenciável do PV.
Deve-se a decisão à insistência de Heloisa Helena, presidente nacional do PSOL. Ela defendia, há meses, o início das negociações com Marina. Porém...
Porém, a maioria da Executiva do PSOL torcia o nariz para a ideia. Preferia comparecer às urnas de 2010 com um nome próprio.
No mês passado, HH deixara claro à Executiva: vai disputar uma cadeira de senadora por Alagoas, não o Planalto.
Rendido às evidências, o PSOL decidiu, meio a contragosto, criar a tal comissão negociadora.
Na prática, HH já dialogava com Marina, com quem mantém relação de funda intimidade. Mas agora as tratativas ganham caráter oficial.
Vai resultar em aliança? Difícil, muito difícil dizer. Um pedaço do PSOL ainda rumina a hipótese de lançar uma candidatura presidencial própria.
São grandes as reservas quanto à aproximação com o PV. Menos por Marina e mais pela legenda à qual se filiou.
Nos Estados e municípios, o PV mantém, hoje, alianças que, aos olhos do PSOL, são inaceitáveis.
Em São Paulo, por exemplo, está integrado à administração do prefeito Gilberto Kassab (DEM).
Um pedaço do PSOL receia que, fechando com Marina na esfera federal, a aliança não poderá ser reproduzida nos Estados.
Algo que enfraqueceria a posição dos candidatos do partido à Câmara e ao Senado. Para complicar, o PV não cogita entregar a vice de Marina ao PSOL.
Ou seja, a legenda cederia o seu tempo de TV (algo como dois minutos diárias), sem figurar na chapa da candidata.
Daí o flerte com o presidenciável próprio. Há dois nomes: os ex-deputados Plínio de Arruda Sampaio (SP) e Milton Temer (RJ).
Inviabilizado o acerto com Marina, HH prefere Temer. Rema na contramaré da maioria, que parece preferir Plínio.
A despeito de ter topado negociar com o PV e com Marina, o PSOL não planeja tomar uma decisão antes de março de 2010.
Lula mobilizou os operadores políticos do governo numa operação destinada a proteger a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Tenta-se evitar que o apagão contagie a candidatura presidencial de Dilma.
Acionados pelo Planalto, os líderes do governo se mobilizam no Congresso para evitar a convocação de Dilma. PSDB e DEM tentarão aprovar na Comissão de Infraestrutura do Senado requerimento do líder tucano Arthur Virgílio (AM).
Pede a presença de dois ministros: Dilma e Edison Lobão (Minas e Energia). A depender de Lula, só será admitida a presença de Lobão.
Dilma tomou chá de sumiço nesta quarta (11), dia em que o governo buscava explicações para o breu. Uma precaução adotada para evitar que a voz da ministra soasse em público antes que o governo dispusesse de explicações palusíveis.
Lula abespinhou-se com o excesso de entrevistas e a escassez de dados objetivos. No início da tarde, ordenou que só Lobão falasse pelo governo.
Para revestir a decisão de lógica, argumentou-se que energia é assunto da pasta de Lobão. Trata-se de entendimento novo.
Apadrinhado de José Sarney (PMDB-AP), Lobão foi à Esplanada como um neófito energético. Dilma sempre mandou e desmandou no setor.
A cadeira de Lobão foi ocupada por Dilma entre 2003 a 2005. Nesse período, a ministra reordenou o sistema elétrico do país.
Há duas semanas, em 29 de outubro, Dilma concedera uma entrevista ao programa “Bom Dia, ministro”, da Radiobras.
Não só discorreu sobre energia como foi categórica: “Nós também temos uma outra certeza, que não vai ter apagão”.
Por quê? Segundo Dilma, diferentemente do que ocorrera sob FHC, o governo voltara a “fazer planejamento”. Realizara os investimentos necessários.
Em relatório aprovado há pouco mais de três meses, em 22 de julho de 2009, o TCU anotara coisa diversa.
O autor do texto é o ministro Walton Alencar Rodrigues. Ele relatou uma auditoria feita no Ministério de Minas e Energia entre 26 de maio e 4 de julho de 2003.
Nesse período, Dilma ainda respondia pela pasta. O TCU moveu-se com dois objetivos.
O primeiro foi o levantamento dos custos do apagão da era FHC. Coisa de R$ 32,2 bilhões, segundo as contas do TCU.
Embora tivesse como motivação o blecaute tucano de 2001, a auditoria mirou um segundo objetivo.
Analisaram-se as providências que, sob Dilma, a pasta de Minas e Energia adotara para evitar novos apagões.
O tribunal não encontrou irregularidades passíveis de punição. Porém, anotou no acórdão recomendações que conduziam a uma conclusão:
O Brasil não estava livre do risco de se confrontar novamente com o breu. Em julho passado, depois de aprovado em plenário, o texto foi enviado à Casa Civil de Dilma.
Na peça, o TCU pôs em dúvida a capacidade do governo de evitar novos apagões. Apontou falhas de gestão no setor elétrico.
Instou a Casa Civil a verificar “a adequabilidade da estrutura organizacional, física e de pessoal do Ministério de Minas e Energia...”
“...da Empresa de Pesquisa Energética e da Agência Nacional de Energia Elétrica”. Para quê?
A fim de rever “o planejamento, expansão, regulação e desenvolvimento do setor elétrico nacional”.
Aconselhou-se a realização de “melhoramentos” capazes de “mitigar os riscos futuros de uma crise energética”.
É esse tipo de "interferência" que o governo deseja evitar que o TCU continue produzindo. Por isso discute um projeto que limita as atribuições do tribunal.
Ironicamente, Lula recebeu nesta quarta (11) o presidente do TCU, Ubiratan Aguiar. Agendada na semana passada, a audiência caiu no dia pós-apagão.
Fumou-se um momentâneo cachimbo da paz. Lula prometeu ao interlocutor que não adotará nenhuma medida anti-TCU antes de ouvi-lo.
Em movimento previsível, a oposição serve-se do novo para desmerecer a fama de gestora competente que é associada a Dilma.
Afora o requerimento de convocação da ministra, tucanos e ‘demos’ revezaram-se na tribuna. Líder do DEM, Agripino Maia deu o tom: “Dilma é responsável pelo apagão”.
O silêncio da ministra contrastou, de resto, com a súbita loquacidade do tucano José Serra, seu virtual adversário na sucessão presidencial.
Serra tachou o apagão de evento “perturbador”. Criticou o desencontro de versões quanto às causas.
Mimetizando Lula, disse que nunca na história do país Itaipu experimentara uma interrupção simultânea de todas as suas turbinas (assista abaixo).
Nesta quinta (12), Dilma deve levar o rosto de volta à vitrine. Sua agenda prevê a participação numa solenidade em que o governo anunciará a queda no desmatamento da Amazônia. O meio ambiente é a nova obsessão da ministra. O titular da área é Carlos Minc.
Mas, como que decidido a pintar sua candidata de verde, Lula indicou Dilma para representar o Brasil no encontro climático de Copenhaque, no mês que vem.
Lobão e assessores explicam o apagão; Ministério Público requisita mais luzes
O MPF (Ministério Público Federal) decidiu apurar as “causas” e os “responsáveis” pelo apagão da noite da última terça-feira (10).
Deve-se a iniciativa ao Grupo de Trabalho Energia e Combustíveis, da 3ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF.
O órgão é coordenado pelo procurador da República Marcelo Ribeiro de Oliveira. Nesta quarta (11), ele requisitou informações a quatro órgãos.
São eles: Ministério de Minas e Energia, Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), ONS (Operador Nacional do Sistema) e a Usina de Itaipu.
O prazo para a resposta ao ofício do procurador é de 72 horas. No texto, Marcelo Ribeiro requisita “todos os documentos" produzidos sobre o apagão.
Entre eles:
1. Toda a documentação produzida e recebida pelos órgãos desde a noite de terça.
2. As comunicações trocadas entre distribuidores, transmissores e geradores de energia.
3. Os laudos técnicos elaborados sobre o apagão.
De resto, o procurador deu ao governo um prazo de 15 dias para encaminhar ao Ministério Público uma “manifestação analítica” sobre a encrenca.
Especificou os dados que devem constar do documento. Por exemplo: os nomes dos responsáveis pela estação onde ocorreu a falha que desencadeou o apagão.
Mais: o procurador quer saber se o governo dispunha de um plano de contingência, com “medidas prudenciais" destinadas a evitar a interrupção no fornecimento de energia.
Não é só: requereu esclarecimentos sobre as providências que o governo pretende adotar, para evitar a repetição do “colapso”.
Por ora, abriu-se um “procedimento administrativo”. Depois de recebidas, as informações serão enviadas aos procuradores da República nos Estados.
Servirão para subsidiar a abertura de eventuais ações civis públicas. O apagão afetou o fornecimento de luz em cidades de 18 Estados, mais o Distrito Federal.
A julgar pelo teor do ofício do procurador Marcelo Ribeiro, o Ministério Público não se deu por satisfeito com as explicações oficiais.
Falando em nome do governo, o ministro Edison Lobão (Minas e Energia) atribuiu o apagão a intempéries climáticas: raios, chuvas e ventos.
Lobão deu ares de fatalidade ao blecaute que deixou às escuras algo como 40% do país por um tempo médio de 4 horas.
Chamou a encrenca de “acidente”. Comparou-a à queda de um avião. Tomado pela versão oficial, o apagão foi causado por uma confluência de descargas atmosféricas.
Os raios teriam descido nos arredores de uma subestação assentada na cidade de Itaberá, em São Paulo. As descargas elétricas teriam ocasionado o desligamento de três linhas de transmissão geridas por Furnas.
São linhas que levam a energia da hidrelétrica de Itaipu à região Sudeste. A queda simultânea da trinca de linhas teria ocorrido às 22h14 de terça.
Em sua entrevista, Lobão informou que o governo dispõe de um plano de defesa do sistema elétrica. Coisa atualizada anualmente.
Não funcionou, contudo. O ministro acenou com a hipótese de revisar o plano. Pode haver novo apagão? “Deus queira, não acontecerá novamente”, disse Lobão.
O Ministério Público deseja, com sua investigação, retirar o sistema elétrico brasileiro das mãos de Deus. Quer iluminar o episódio, para detectar as falhas humanas que se escondem sob o breu.
Todas as pessoas pecam, menos as autoridades públicas. No governo –qualquer governo—, não há culpados. Só inocentes. Ou cúmplices.
Pois bem. O ministro Tarso Genro (Justiça) veio aos holofotes para dizer meia dúzia de palavras sobre a falta de luz da noite passada.
Disse que o apagão da era FHC foi “uma catástrofe”. E chamou o novo blecaute de “tropeço”.
O que houve agora, disse o ministro, foi um "microincidente dentro de conquistas extraordinárias que o Brasil teve durante sete anos na produção de energia".
O governo de ontem, culpara São Pedro pela catástrofe. O santo sonegara chuvas. Os reservatórios minguaram. E sobreveio o breu. Depois, o racionamento.
O governo de hoje se volta, de novo, para os céus. As águas agora são abundantes. Mas, junto com as chuvas, vieram os raios. Daí a volta do breu.
Ontem, negligenciava-se o debate sobre a incúria que levou à falta de planejamento e à escassez de investimentos.
Hoje, alega-se que tudo foi planejado. Investimentos? Foram feitos como nunca antes na história desse país.
Mais fácil atribuir todas as culpas às intempéries climáticas do que encarar as vulnerabilidades do sistema de fornecimento de energia.
Admitindo-se a tese do raio, fica a pergunta: por que diabos um problema localizado espalha escuridão por cidades de 18 Estados?
Simples: o sistema, por precário, não dispõe de mecanismo de segurança capaz de circunscrever as interferências indesejáveis nas linhas de transmissão de energia.
Decerto faltou planejamento. Aparentemente, novos investimentos terão de ser feitos. Porém...
Porém, todas as dificuldades, por maiores que sejam, parecem pequenas diante do problema maior: o apagão mental.
Os brasileiros que foram assaltados na noite passada, os patrícios que ficaram presos em trens e elevadores...
...Os doentes que tiveram seus aparelhos desligados nas camas dos hospitais, toda essa gente decerto ouvirá o “micro-acidente” de Tarso Genro com cara de estupefação.
O governo ainda não trouxe à luz informações precisas sobre as causas do apagão da noite passada.
Porém, em entrevista, Lula apressou-se em diferenciar o seu apagão do blecaute de FHC. Em 2001, explicou, “a gente não produzia energia suficiente”.
Hoje, “duas coisas estão certas: não faltou geração de energia e o problema não foi de falta de linha [de transmissão], porque elas estão interligadas”.
Beleza. Mas o signatário do blog, um analfabeto energético, suspeita que, aos olhos do consumidor, os apagões de Lula e FHC estão unidos pelo efeito.
Região da Avenida Paulista, no coração São Paulo, foi recoberta pelo breu
Lula foi dormir às escuras na noite passada. Dispunha de luz elétrica. Mas faltavam-lhe informações sobre as causas do apagão.
Programou para esta quarta (11) uma reunião emergencial. Quer explicações minuciosas sobre as causas do blecaute que afetou cidades de 15 Estados e num pedaço do Distrito Federal.
O presidente foi ao travesseiro munido das mesmas informações esparsas que o ministro Edson Lobão (Minas e Energia) repassara aos repórteres.
Não havia senão a suspeita de que o apagão poderia ter sido provocado por uma tempestade que caíra sobre as linhas de transmissão da usina de Itaipu.
Lula endossou a decisão de priorizar o restabelecimento do fornecimento de energia. Mas cobrou dados conclusivos sobre as causas.
Deseja que os esclarecimentos sejam repassados ao público o quanto antes. Incumbiu Lobão de dar uma entrevista coletiva.
A falta de luz fez acender no governo a imagem de um velho fantasma: o apagão ocorrido em 2001, sob Fernando Henrique Cardoso.
A preocupação de Lula é estabelecer imediatamente uma distinção entre os dois eventos.
Quer deixar claro que, diferentemente do que ocorrera na gestão tucana, o novo apagão não decorre de falhas gerenciais ou de planejamento.
Por trás da pressa esconde-se uma preocupação política. Deseja-se evitar prejuízos à imagem da presidenciável Dilma Rousseff.
Ex-titular da pasta das Minas e Energia, Dilma é responsável pela montagem do esquema de segurança do sistema elétrico brasileiro.
Um sistema que, por interligado, disporia de mecanismos para evitar que problemas localizados se espraiassem por toda as linhas de trasmissão.
Tomado pelas contas do governo, o apagão afetou cerca de 800 cidades de dez Estados: SP, RJ, MG, ES, GO, PE, PR, MT, MS e parte do DF.
Durante a madrugada, porém, verificou-se que pelo menos outros seis Estados foram infelicitados: SC, RS, BA, RO, AL e AC.
Em meio à escuridão, o presidente da Itaipu, Jorge Samek, trouxe à luz um dado que dá idéia da dimensão do problema.
Pela primeira vez em sua história, disse ele, todas as 20 máquinas da hidroelétrica de Itaipu foram desligadas.
Samek disse que o problema não foi de geração. Daí a suspeita de que um temporal tenha avariado linhas de transmissão da energia que sai de Itaipu.
A suspeita foi reforçada por um detalhe. No Paraguai, que também se serve da energia de Itaipu, o restabelecimento da energia ocorreu rapidamente.
Por quê? Não havia problemas nas linhas de transmissão que abastecem o país vizinho.
Os técnicos do governo queimaram pestanas durante toda a madrugada. Espera-se que Edson Lobão já disponha de informações precisas na manhã desta quarta.
Lúcio Távora/Folha Sob a presidência de Ricardo Berzoini, o PT realiza em Brasília uma reunião para tentar descascar os abacaxis que assediam o partido nos Estados.
Tenta-se atenuar as desavenças que envenenam a formação dos palanques regionais da presidenciável Dilma Rousseff.
No miolo da encrenca estão as pendências do PT com o PMDB. De resto, há o impasse de São Paulo.
Quanto ao PMDB, afora os casos perdidos (São Paulo e Santa Catarina, já fechados com José Serra), aliança é problemática em pelo menos cinco Estados.
São eles: Rio Grande do Sul, Pará, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Lugares em que PMDB e PT têm candidatos e interesses eleitorais diversos.
O PMDB exige que o PT abra mão de suas candidaturas, para apoiá-lo na briga pelos governos locais. Na maior parte dos casos, o petismo se recusa a ceder.
O encontro conduzido por Berzoini começou nesta terça (10). Mas é nesta quarta (11) que vão à mesa os abacaxis.
Além das pendências com o PMDB, há o problema de São Paulo. Ali, debate-se a hipótese de o PT abrir caminho para a hipotética candidatura de Ciro Gomes (PSB).
É hipotética porque, por ora, frequenta apenas os sonhos de Lula. Aferrado à idéia da sucessão plebiscitária, quer empurrar Ciro Gomes para a refrega paulista.
O deputado do PSB, contudo, diz e repete que será candidato à presidência. E empurra a palavra final para março.
Na prática, a reunião do PT é mais um desses encontros de passatempo. Não se prevê nada de muito conclusivo antes do início de 2010.
Lula recebe presidente do tribunal de contas nesta quarta
Sérgio Lima/Folha Além de criar um conselho de notáveis acima do TCU, o governo deseja impor uma limitação adicional ao Tribunal de Contas da União.
Projeto de lei elaborado a pedido do ministro Paulo Bernardo (Planejamento) cria o conceito do “controle a posteriori”.
A fiscalização “prévia” ou “concomitante” à realização de obras públicas passariam a ser “exceções” à regra.
Se a novidade já estivesse em vigor, o TCU estaria impedido de tomar a decisão que o converteu em alvo de Lula.
Em relatório enviado ao Congresso no mês passado, o tribunal recomendara a paralisação de 41 obras sob suspeição, 13 delas incluídas no PAC.
O projeto que prevê a fiscalização de obras prontas ficou pronto há três meses. Mas só há dois dias o governo tornou-o público. Pode ser lido aqui.
A peça foi elaborada por uma comissão de “juristas”. Propõe “uma nova estrutura orgânica para o funcionamento da Administração Pública Federal”.
O pedaço do anteprojeto de lei que trata do “controle” dos gastos públicos consta da seção 3 (página 32 do documento).
Fixa sete preceitos fundamentais. Todos destinados a flexibilizar os rigores dos órgãos de fiscalização.
As “regras gerais” constam do artigo de número 50. São as seguintes:
1. Supressão de controles meramente formais ou cujo custo seja evidentemente superior ao risco;
2. Controle a posteriori, constituindo exceção o controle prévio ou concomitante;
3. Predomínio da verificação de resultados;
4. Simplificação dos procedimentos;
5. Eliminação de sobreposição de competências e de instrumentos de controle;
6. Dever, para os órgãos ou entes de controle, de verificação da existência de alternativas compatíveis com as finalidades de interesse público dos atos ou procedimentos que sejam por eles impugnados;
7. Responsabilização pessoal do agente que atuar com incúria, negligência ou improbidade.
Na seguência, um “parágrafo único” de texto capcioso: “Os órgãos e entes de controle não podem substituir‐se aos agentes, órgãos ou entes controlados, no exercício de suas competências, inclusive quanto à definição de políticas públicas”.
Significa dizer que as “recomendações” que o TCU costuma endereçar ao Executivo em seus acórdãos passaram a ser vistas como interferência ilegal.
No artigo 62, o anteprojeto sai do geral para o particular. Nesse artigo, há menção textual ao TCU, órgão auxiliar do Poder Legislativo.
Nesse trecho, o projeto reforça: o controle do TCU “não pode implicar interferência na gestão dos órgãos ou entidades a ele submetidos, nem ingerência no exercício de suas competências ou na definição de políticas públicas”.
No artigo seguinte, número 63, nova limitação: “O controle externo não implica a exigência ou o processamento de exames prévios, como condição de validade ou eficácia de atos da administração”.
Em português claro: além de fiscalizar obras prontas, o TCU estaria impedido de mandar suspender licitações e bloquear pagamentos de projetos sob suspeição.
Além do “controle externo” atribuído ao TCU, o projeto menciona outras duas instâncias de fiscalização: O "autocontrole", a ser exercido pelos próprios órgãos públicos e estatais, e o “controle social”, atribuído à sociedade civil.
O artigo 67 cuida de esmiuçar os “meios de controle social”. O pulo do gato está no item 5: “Participação em órgãos colegiados, na forma da lei”. É a janela para a criação do conselho de notáveis de que falou Lula. Um órgão composto por gente “tecnicamente inatacável".
A oposição promete erguer barricadas no Congresso para tentar evitar a aprovação do projeto. Em meio à atmosfera envenenada, Lula recebe nesta quarta (11) o presidente do TCU, ministro Ubiratan Aguiar.
Deve-se o encontro a uma intermediação feita pelo presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que também deve participar da reunião.
De resto, reúne-se nesta quinta (12) o grupo de trabalho constituído por Lula para destrinchar as regras anti-TCU. Funciona no âmbito do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico Social), um apêndice do Planalto.
Responde pela coordenação do grupo o presidente da Abdib (Associação Brasileira das Indústrias de Base), Paulo Godoy. Vem a ser um ácido crítico das ações do TCU.
Collor dispensou aparelho de tradução ao ouvir Peres, que discursou em hebráico
Doze dias antes de recepcionar o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, Lula recebe, nesta quarta (11), o presidente de Israel, Shimon Peres.
Na véspera da audiência com Lula, em visita ao Congresso, Peres realçou o que pensa do próximo interlocutor do presidente brasileiro.
"Não quero discutir em território brasileiro com o presidente do Irã. Mas achamos que sua política é um perigo mundial.”
Tentou circunscrever sua avaliação “só ao aspecto que toca a Israel”. Afirmou: “Historicamente, o povo iraniano não é nosso inimigo...”
“...A religião islâmica não é nossa inimiga, houve época em que já fomos amigos. Mas não posso ignorar que o Irã faz arma nuclear...”
“...E, ao mesmo tempo, manda destruir Israel, e isso é contra o tratado da ONU, o direito de viver".
No mais, Shimon Peres dedicou palavras de louvação ao Brasil e a Lula. Disse que veio ao Brasil “para aprender”.
Citou Jorge Amado. Recitou Saraminda, romance de José Sarney. Falou de samba, bossa nova, carnaval e futebol.
Uma peculiaridade deu à sessão solene do Congresso um ar de mistério. Shimon Peres discursou em hebraico, a língua oficial de Israel.
Exceto por Fernando Collor (PTB-AL), todos os deputados e senadores presentes serviram-se de um equipamento de tradução simultânea.
As lentes do repórter Lula Marques registraram a cena, exposta lá no alto. Uma assessora ofereceu a Collor a maquininha tradutora.
O senador recusou. Chegou mesmo a esboçar um sorriso. Acomodado ao lado do convidado, fez cara de entendido.
Os colegas espantaram-se com a proficiência linquística de Collor. Sabia-se que fala inglês, aperfeiçoado no autoexílio de Miami. Mas o domínio do hebraico era habilidade insuspeitada.
Um colega de Collor divertiu-se com a cena: “Ou ele andou tomando aulas ou é um gênio ou, a pretexto de mostrar-se superior, fez papel de bobo”.
Da tribuna, ACM Jr. queixou-se do 'trator' governista na CPI; discursou para o vazio
Os congressistas amam a hipocrisia como uma forma de virtude. Agem como se considerassem a moral de mentirinha melhor do que moral nenhuma.
O apreço à simulação voltou a se manifestar na CPI da Petrobras. Decorridos quatro meses de sua instalação, vai fechar as portas.
Autora do requerimento de investigação, a oposição retirou-se da comissão. Alega que o governo a tratorou.
Anuncia o encaminhamento ao Ministério Público de um lote de 18 representações contra a Petrobras.
Alheio à gritaria, o consórcio governista decidiu dar por encerrada a “investigação”. O relator Romero Jucá (PMDB-RR) apresenta seu texto em dez dias.
O senador ACM Jr. (DEM-BA), um dos oposicionistas que bateram em retirada da CPI, foi queixar-se do governo da tribuna.
Discursou para cadeiras vazias (veja foto lá no alto). Simultaneamente, a CPI ouvia o seu último depoente, o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli.
Gabrielli elogiou o trabalho da comissão. Disse que a “investigação” mostrou que não há malfeitos na estatal.
Provocação? Não, não. Absolutamente. No fundo, os atores sabem que, mesmo provocada, a platéia não esboça reação.
Para que a hipocrisia do Congresso funcione, é preciso que o eleitor brasileiro colabore, aceitando gostosamente o papel de imbecil.
Folha A pretexto de fustigar o presidenciável tucano Aécio Neves, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, acusara-o de “controlar” a mídia de Minas.
“Controle total”, no dizer de Berzoini, exercido à base de distribuição de verbas publicitárias.
Berzoini acrescentara: “No governo Lula, é o contrário. As verbas de publicidade para os meios de comunicação tem critérios técnicos”.
Líder do PSDB na Câmara, o deputado José Aníbal (SP), considerou “curioso o excessivo interesse” que Berzoini demonstra por Aécio.
Acha que o presidente do PT “não perdoa o governador Aécio pelo resultado das eleições na capital mineira”.
Refere-se à aliança que Aécio firmara, nas eleições municipais do ano passado, com o então prefeito de Belo Horizonte, o grão-petê Fernando Pimentel.
Sobre verbas publicitárias, Aníbal ironizou: “Quanto aos critérios técnicos que orientariam os investimentos em publicidade do governo federal, só mesmo rindo...”
“...Afinal, qual é o critério técnico que orienta o governo a anunciar no jornal da CUT e ter gasto, apenas em 2008, a estratosférica quantia de R$ 30 milhões somente na internet e R$ 55 milhões em meios não especificados?"
Um mau olhado parece seguir os calcanhares de Caetano Veloso. Caiu no palco pela segunda vez.
Antes, num show que fizera em Brasília. Agora, numa apresentação em São Paulo (assista no vídeo acima).
Desequilibrou-se num instante em que arde nas páginas o rififi verbal que o opõe Caetano ao lulo-petismo.
Pespegara no presidente uma trinca de adjetivos acerbos: “Analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”. Tudo misturado numa declaração de apoio à opção verde Marina Silva:
"Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo...”
“...Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem".
Nesta terça (10), em carta ao Estadão, jornal que veiculara a entrevista, Caetano tentou clarerar as declarações que fizera à repórter Sonia Racy.
Explicou que apenas bulira com o “óbvio” –“a fala pouco instruída e frequentemente grosseira e cafona de Lula”—sem intensões ofensivas, mas descritivas.
“Todos sabem disso”, Caetano escreveu. “Ele próprio se vangloria. Os linguistas o aplaudem. E todos tem razão: ele é forte inclusive por isso”.
Valendo-se de aspas, Caetano anotou que Lula “Fala ‘bem’”. Ele “atinge a maioria dos ouvintes. Sua fala tem competência”.
Lembrou que. Na mesma entrevista, dissera que Lula “é um governante importante. Mundialmente está reconhecido como alguém que chegou lá e foi além do esperado”.
Comparou: “Quisera Obama estar na mesma situação”. Noutra comparação, mirou a política doméstica:
“Querer dizer que FH era mau governante e Lula é bom é maluquice. Ambos foram conquistas brasileiras importantes”.
E repisou a sua preferência: “Marina seria um passo à frente. Simbolicamente ao menos”.
Mais adiante, Caetano acrescentou: “Marina chegar a ser candidata é notícia grande. Não posso fingir que não é...”
“...E detesto essa mania de que nada se pode dizer que não seja adulação a Lula...”
“...Não estamos na União Soviética. Eu não disse nenhuma novidade. Nem considero ofensivo. É descritivo”.
Em suma: Caetano diz que, de fato, disse o que disseram que ele havia declarado. Porém, entende que o que dissera não corresponde ao que fora entendido. É isso. Ou não.
À luz de tão límpidos esclarecimentos, o aparato “petêviético” talvez se anime a lançar sobre Caetano olhares de bom agouro.
Sérgio Lima/Folha O STF dará, nesta quinta (12), o veredicto no processo de extradição do ex-guerrilheiro Cesare Battisti, protocoloado pelo governo da Itália.
Iniciado em setembro, o julgamento foi adiado a pedido do ministro Marco Aurélio Mello, que desejava estudar mais detidamente o caso.
No instante em que Marco Aurélio pediu vista dos autos, o placar registrava placar favorável à extradição: quatro a três.
São onze os ministros com assento no Supremo. Falta saber a opinião de quatro. Celso de Mello não vota. Declarou-se impedido. Restam três.
Marco Aurélio emitiu sinais de que votará a favor de Battisti. O que levará a um empate. Quatro a quatro.
O presidente do Supremo, Gilmar Mendes, deu toda a pinta de que engrossará o bloco de ministros pró-extradição. Cinco a quatro.
Vai às mãos do recém-chegado José Antonio Dias Toffoli o destino de Cesare Battisti.
Ex-chefe da Advocacia-Geral da União, Toffoli está impedido de julgar processos nos quais atuou no Supremo como defensor das posições do governo.
No caso que envolve Battisti, não há vestígio de manifestação de Toffoli como advogado da União. Pode, portanto, participar do julgamento.
Os colegas intuem que Toffoli votará contra a extradição. Cinco a cinco. Reza o bom direito que o empate beneficia o réu.
Neste caso, para desassossego do governo italiano, Battisti permaneceria no Brasil. Iria às calendas a perspectiva de punição pelos quatro crimes que lhe renderam a sentença de prisão perpétua na Itália.
Coisas da década de 70. Época em que Battisti manuseava armas e militava num grupo de nome sugestivo: PAC (Proletários Armados pelo Comunismo).
Battisti aguarda o julgamento hospedado no presídio da Papuda, em Brasília. Se o STF lhe sorrir, pode ganhar o meio-fio no final de semana.
Lula Marques/Folha O deputado Ricardo Berzoini, presidente do PT, pendurou no twitter cinco micronotas dedicadas ao governador tucano de Minas.
Anotou que, sob Aécio Neves, a liberdade da imprensa mineira vincula-se ao fluxo das “verbas de publicidade do governo”.
Segundo Berzoini, os jornais que se aventuram a veicular críticas a Aécio perdem o acesso às arcas.
“A primeira-irmã corta a verba de publicidade”, escreveu o grão-petê. “É controle total”.
Chama-se Andréa Neves da Cunha a “primeira-irmã” a que Berzoini fez referência sem a delicadeza de declinar o nome.
É diplomada em jornalismo. Entre outras atividades, Coordena o Grupo Técnico de Comunicação Social do governo mineiro.
Berzoini foi à canela de Aécio depois de tomar conhecimento de um comentário que atribui ao governador.
De passagem por São Paulo, Aécio insinuara que, para fazer o sucessor, Lula serve-se da máquina estatal. Berzoini reproduziu a frase que o abespinhou:
"A oposição sabe que não vai enfrentar um partido nem um candidato, mas, sim, um partido que se acha dono do Estado".
Depois de acusar Aécio de usar a bolsa da Viúva estadual para comprar a simpatia da mídia, Berzoini disse que, em Brasília, dá-se o oposto:
“No governo Lula, é o contrário. As verbas de publicidade para os meios de comunicação tem critérios técnicos, não importa o que publiquem”.
Até a noite passada, Aécio não havia revidado a canelada. O chute lhe chega numa hora em que o PT aposta que o rival de Dilma Rousseff será José Serra.
Moacyr Lopes Jr./Folha Dilma Rousseff e José Serra enfretam dificuldades para montar palanques em dois dos maiores colégios eleitorais do país. Ela, em São Paulo. Ele, no Rio.
Nesta segunda (9), nove sócios do consórcio partidário que gravita em torno de Lula reuniram-se em São Paulo.
Decidiram diagnosticar os problemas do Estado e elaborar um programa de governo. Organizarão seminários. Farão mais três ou quatro reuniões.
E quanto ao candidato? "Essa é uma reunião desprovida de nomes”, disse o presidente do PT, Ricardo Berzoini.
Numa visão pessimista, falta-lhes um nome para disputar o governo paulista. De um ângulo otimista, os nomes abundam.
Só no PT há seis –entre eles Antonio '5%' Palocci. Nessa matéria, como se sabe, quem tem muitos não dispõe de nenhum.
As reuniões de passatempo devem perdurar até março de 2010, mês em que Ciro Gomes, o candidato multiuso do PSB, dirá o que pretende fazer da vida.
Mantendo-se no ringue presidencial, Ciro complica a vida de Dilma. Metendo-se na refrega paulista, abre um palanque para a ministra.
Para desassossego de Berzoini, o presidente do PSB-SP, deputado Márcio França, disse que, por ora, Ciro é candidato à presidência.
Mal comparando, a oposição arrosta dificuldades análogas no Rio, a Waterloo de Serra.
Ali, PSDB, DEM e PPS pretendiam comparecer a 2010 com um candidato ao governo terceirizado: Fernando Gabeira (PV).
Gabeira afeiçoara-se à idéia. Mas sobreveio a candidatura presidencial verde de Marina Silva. E o deputado deu meia-volta.
Na semana passada, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, esteve no Rio. Reuniu-se com o tucanato local. Decidiu-se:
1. Fazer um apelo a Gabeira para que concorra ao governo, não ao Senado.
2. Se Gabeira bater o pé, o PSDB tentará convencer o DEM a lançar o ex-prefeito Cesar Maia, hoje candidato ao Senado.
3. Se Cesar Maia der pra trás, vai-se tentar encontrar um nome dentro do PSDB. Qual? Não se sabe.
A exemplo dos sem-palanque de São Paulo, a oposição ainda fará muitas reuniões passatempo antes de chegar a uma deliberação razoável no Rio.
Rubens Cavallari/Folha Durou 48 horas a expulsão de Geuisy Arruda, a aluna da Uniban que fora hostilizada por talibans estudantis por comparecer à aula de microvestido.
Decidido no último sábado (7) e formalizado em anúncio de jornal veiculado no domingo (9), o banimento da aluna foi revisto nesta segunda (9).
Deu-se por meio de uma nota. Lacônico, o texto não explica as razões da meia-volta. Limita-se a informar o seguinte:
"O reitor da Uniban Brasil, de acordo com o artigo 17, inciso IX e XI, de seu regimento interno...”
“...Revoga a decisão do Conselho Universitário, proferida no último dia 6, sobre o episódio do dia 22 de outubro, em seu campus em São Bernardo do Campo...”
“...Com isso, o reitor dará melhor encaminhamento à decisão". Que encaminhamento? A nota não diz.
Nem precisava dizer. O recuo tem razões que dispensam explicações. A expulsão tivera repercussão instantânea e absurdamente negativa.
Ficara no ar a incômoda sensação de que a usina de diplomas convertera vítima em ré. Pior: livrara a cara de seus agressores.
Nesta segunda (9), antes do anúncio da “desespulsão”, Geisy reunira-se com seus advogados (foto). Trajava calça comprida e uma comportada blusa.
Disse que, graças à superexposição do caso, arrostou hostilidades nas ruas. Sobre a universidade, afirmou:
“Eu não quero afrontar ninguém, não quero causar constrangimento, se for necessário eu nem desço no intervalo, eu só quero estudar".
Preocupada com a segurança, manifestou a intenção de "escolher outra faculdade” para concluir o curso de Turismo. “Por medo", ela disse.
Combinou com os advogados, porém, o ajuizamento de uma ação na Justiça para fechar na Uniban ao menos o primeiro semestre do curso.
A delegacia de Defesa da Mulher de São Bernardo do Campo, cidade onde está assentado o campus-caverna, abrira inquérito para investigar o caso.
Daí para um processo em que Geisy reivindicasse uma reparação por danos morais seria um pulinho. O processo, aliás, não está descartado.
Resta saber o que fará a Uniban com os agressores da moça. No portal que mantém na web, a escola define o que entende ser a sua “missão”:
“Promover a formação integral do indivíduo, por meio da capacitação profissional, da produção e aplicação do conhecimento, da promoção da cultura...”
“...Do respeito aos valores éticos-morais, através de um processo educativo contínuo de qualidade, voltado para o desenvolvimento da sociedade”.
Se tivesse relido o que escreveu, a Uniban não teria expulsado a aluna agredida. Melhor: teria tomado providências contra os agressores.
Rodrigo Paiva/Folha Nas pegadas do “analfabeto” de Caetano Veloso e do “subperonismo” de FHC, Aloizio Mercadante saiu em defesa de Lula no twitter.
Escreveu: “Por falta de argumentos, a oposição volta a requentar a tese de que Lula não tem preparo para governar”.
“A melhor resposta”, anotou o grão-petê, “foi o prêmio de estadista do ano”, recebido por Lula em Londres, semana passada.
Mercadante trouxe à luz uma novidade: Lula dispõe de convites de “44 universidades no mundo para receber o título de doutor honoris causa”.
Segundo o senador, Lula só receberá as honrarias depois que deixar o Planalto, em janeiro de 2011.
Por quê? Ele “faz questão de terminar o governo como começou: torneiro mecânico”, Mercadante acrescentou.
Honoris causa é uma expressão latina. Em português, significa causa nobre. Trata-se de um título honorífico.
As casas de diplomas concedem o concedem a pessoas que se destacaram no exercício de determinada função ou na defesa de causas específicas.
Mercadante não forneceu os nomes das instituições que endereçaram convites a Lula. Mas aproveitou para fustigar FHC:
Disse que, “sete anos depois”, o governo Lula “é melhor” do que o anterior “em praticamente todas as áreas”.
Na véspera, otimista, o líder petê anotara no twitter: “A despedida do Lula, com 80% de popularidade, vai comover o povo brasileiro. O terceiro mandato de Lula é Dilma”.
Marcello Casal/ABr O falatório de Lula contra o TCU e outros órgãos que compõem o aparato fiscalizatório do Estado converteu-se numa providência prática.
O presidente delegou ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) a tarefa sugerir alterações legais.
Deseja-se atenuar o poder de fogo dos fiscais, acomodando em primeiro plano a celeridade das obras.
O conselhão, como ficou conhecido o CDES, é um apêndice do Planalto. Abriga ministros, empresários, trabalhadores e gente do movimento social.
Criou-se dentro de um “grupo de trabalho” já existente –“Agenda da Infraestrutura para o Desenvolvimento— um subgrupo –“Investimentos e Desenvolvimento”.
É esse subgrupo que vai desfiar o novelo da fiscalização. Escolheu-se para presidi-lo um personagem que, como Lula, é crítico da ação do TCU.
Chama-se Paulo Godoy. Empresário, ele representa no conselhão a entidade que preside: Abdib (Associação Brasileira das Indústrias de Base).
O sítio eletrônico do conselhão informa que a primeira reunião do tal subgrupo vai ocorrer já nesta quinta-feira (12).
No texto, a guerra contra o TCU e adjacências é vendida em linguagem edulcorada. Anotou-se que o “objetivo” do novo grupo de trabalho é o seguinte:
“Contribuir diálogo entre gestores e fiscalizadores de investimentos públicos em infraestrutura econômica e social, visando buscar soluções negociadas...”
Soluções “...para acelerar a execução de obras, respeitando-se os princípios da legalidade, transparência, eficiência, economicidade, eficácia e efetividade na administração pública”.
Sob o timbre adocicado, esconde-se a pretensão de abrir na legislação atalhos que livrem os executores de obras públicas dos rigores dos fiscais do Estado, que Lula acha "excessivos".
Além do TCU, de onde emanam as ordens de paralisação de canteiros sob suspeita, há outro alvo: o Ibama, repartição que dá –ou não— licença ambiental às obras.
Vão à mesa desde a idéia de constituir um conselho de notáveis acima do TCU até a proposta de alterar a lei de licitações (número 8666), abrandando-a.
Tudo isso num instante em que Lula se esforça para imprimir ritmo eleitoral às obras de programas coordenados por Dilma Rousseff: PAC e Minha Casa, Minha Vida.
De resto, o governo leva o pé ao acelerador de um par de eventos obreiros: a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016.
O governador de São Paulo, José Serra assina nesta segunda (9) a lei que institui a Política Estadual de Mudanças Climáticas.
O texto fixa meta de 20% de redução na emissão de gases de efeito estufa no Estado mais poluidor do país. Vale para todos os setores econômicos.
O prazo final para o cumprimento da meta é 2020 –tomou-se como referência o volume de emissões do ano de 2005.
Não há, por ora, um cálculo preciso do volume de gases emitidos em 2005. Estima-se que foram à atmosfera algo como 100 milhões de toneladas de CO².
Reza a lei que a Cetesb (Cia. de Tecnologia de Saneamento Ambiental) terá de fazer, até dezembro de 2010, um inventário preciso das emissões.
A notícia sobre a sanção da lei foi antecipada por Serra, na noite passada, num par de notas penduradas pelo governador na sua página no twitter (aqui e aqui).
Proposta pelo executivo estadual, a política de mudanças climáticas foi aprovada no mês passado pela Assembléia Legislativa de São Paulo.
Há um quê de cálculo político na iniciativa. Candidato à presidência, Serra antecipa-se a Lula, que se esforça para empinar a candidatura oficial de Dilma Rousseff.
A sanção de Serra chega num instante em que o governo hesita em estabelecer uma meta nacional de redução de emissão de gases-estufa.
A menos de um mês da reunião sobre mudanças climáticas, em Copenhague, o governo brasileiro ainda não decidiu se levará à reunião uma meta fechada.
Na semana passada, Lula reuniu os ministros que tratam da matéria. No encontro, materializou-se o dissenso.
De um lado, o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente). Do outro, os ministros Celso Amorim (Itamaraty) e Dilma (Casa Civil).
Mais ousado, Minc defende que o Brasil leve a Copenhaque o compromisso de reduzir a emissão de gases-estufa em 40% até 2020.
Metade da cifra seria garantida pela contenção de 80% do desmatamento da selva amazônica. O resto dependeria da adoção de um leque de providências.
Por exemplo: substituição de fontes de energia e aperfeiçoamento das técnicas de exploração agrícola.
Amorim e Dilma acham que o Brasil deve se comprometer apenas com a parte que prevê a redução do desmatamento da Amazônia.
Em reunião marcada para o próximo sábado (14), Lula dará a palavra final. O presidente pende para a posição da dupla Amorim-Dilma.
Prevalecendo essa tendência –80% de queda no desmatamento da Amazônia— o país limitará em 20% o seu compromisso global com a redução da emissão de CO².
É a mesma meta prevista na lei que Serra assina nesta segunda, guindando São Paulo à condição de único Estado do país a assumir esse tipo de compromisso.
A entrada em cena da presidenciável Marina Silva, agora enrolada na bandeira do Partido Verde, provocou uma espécie de corrida ambiental entre os candidatos.
Serra e Dilma tentam como que se pintar de verde. Soprepondo-se sobre Minc, a ministra foi escolhida por Lula para representar o Brasil em Copenhaque.
Em entrevista ao repórter Sérgio D’Ávila, no final do mês passado, Marina tomou o partido de Minc, contra a posição de Dilma.
"Não podemos nos limitar à redução das emissões apenas pela redução do desmatamento..."
“...Deve-se ter uma meta global, que seja para o desmatamento, para energia e para agricultura, para todos os setores".
É nesse contexto, em que os gases-estufa são aquecidos pelas pré-emissões de 2010, que Serra tenta consolidar-se como um gestor tomado de súbitas preocupações ambientais.
- Atualização feita às 18h06 desta segunda (9): Como previsto, Serra sancionou a lei ambiental de São Paulo. Ao falar de Copenhaque, posou de bom moço:
"Não vou torcer para o governo federal fixar uma meta pouco ambiciosa para depois criticar. Vou torcer para fixar meta ambiciosa porque é bom para o Brasil".
Fábio Braga/Folha Formalizada em anúncio veiculado neste domingo (8), a expulsão da estudante Geisy Arruda dos quadros da Uniban inaugurou uma época despida.
Ao punir a estudante do minivestido e livrar a cara dos "talibãs" que a agrediram, a Unibam expôs uma nudez que ninguém queria ver: o nu acadêmico.
Vão abaixo alguns ecos que entrecortaram a pasmaceira de um domingo modorrento:
- Esclarecimentos: Insatisfeito com as explicações providas pela Uniban, o MEC vai oficiar a escola. Quer saber, tintim por tintim, o que motivou a expulsão.
Ouça-se a secretária de Ensino Superior do ministério, Maria Paula Dallari: "Vamos analisar o que ocorreu...”
“...Em vista dos esclarecimentos, o MEC pode recomendar que a universidade se comporte como uma instituição de educação".
- De vítima a ré: A ministra Nilcéa Freire (Políticas para as Mulheres) veio aos holofotes para realçar o “absurdo” que a transparência do episódio deixou à mostra:
“A estudante passou de vítima a ré. Se a universidade acha que deve estabelecer padrões de vestimenta adequados, deve avisar a seus alunos claramente”.
Nilcéa cogita acionar, além do MEC, o Ministério Público. Falou num seminário do qual participava também a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que a endossou:
"Mesmo que ela fosse uma prostituta, qual seria o problema da roupa? Temos que ter tolerância com a decisão e postura de cada um", disse Erundina.
- Repercussão: Na era do cristal líquido, a exposição das entranhas ganhou as versões on-line de veículos de comunicação do estrangeiro.
O caso foi penduradado nos sítios de agências internacionais –Associeted Press e Efe—; de jornais –NY Times, Guardian e Daily Telegraph—; e de TV –CBS.
- Solidariedade: A UNE levou ao seu portal uma nota. Termina assim: “Exigimos que a matrícula da estudante seja mantida...”
“...Que a Universidade se retrate publicamente e que todos os agressores sejam julgados e condenados não somente pela Uniban, mas também pela Justiça”.
Presidente da UNE, Augusto Chagas comparou: "É como nos casos em que se responsabiliza a vítima de um assalto por estar segurando a carteira...”
Ou quando “...se diz que uma mulher é culpada quando sofre um assédio ou abuso por causa da sua roupa. Isso nos parece lamentável".
- Perplexidade: Nehemias Melo, advogado de Geisy, declarou-se “perplexo” e “atordoado” com a expulsão de sua cliente.
O advogado reúne-se com a estudante nesta segunda (9). Nesse encontro, vai definir as providências a adotar.
Como se vê, ao lidar com o episódio de modo enviesado, a Uniban colhe o pior tipo de exposição.
Descobriu-se que, sob o manto diáfano que recobre as entranhas da universidade, esconde-se um moralismo fora de época.
O tucanato já esboça a estratégia de sua campanha para a sucessão presidencial. Vai na contramão do que planejou Lula.
Em vez da “armadilha” plebiscitária idealizada pelo presidente –a era FHC X a era Lula ou o “Nós contra eles”—, o PSDB arquiteta outro tipo de comparação.
No comando da caravana da oposição, o partido deseja estabelecer um confronto de biografias: a de José Serra contra a de Dilma Rousseff.
Na visão do grão-tucanato, a tese do plebiscito não é senão uma tentativa de Lula de acomodar entre ele e Dilma um duto de transferência de prestígio.
Para se contrapor à tática do governo, o PSDB vai espremer a tecla de que Dilma no poder siginificaria mais quatro anos de PT. Só que sem Lula.
Pretende-se enfatizar que, entre os nomes que irão à cédula, não estarão nem o de Lula nem o de FHC.
No cotejo das biografias que interessam, imagina-se contrapor a imagem de um Serra experiente à de uma Dilma novata.
De um lado, um ex-deputado constituinte, ex-senador, ex-ministro, ex-prefeito e atual governador do maior Estado do país. Do outro, uma “novata” em eleições.
O plano marqueteiro do PSDB, passa longe dos murros em ponta de faca. Nada de renegar programas da gestão Lula que recebem estrepitosa aprovação popular.
Bolsa família? O tucanato dirá que começou sob FHC, reconhecerá que Lula ampliou e jurará que Serra vai aperfeiçoar.
Vai-se dizer que Serra, por experiente, é mais talhado do que Dilma para preservar o que há de bom e ajeitar o que não funciona.
Contra a imagem de boa gestora que Lula tenta pespegar em Dilma, pretende-se apregoar que não é bem assim.
O PSDB dirá que tudo o que está sob a responsabilidade direta da chefe da Casa Civil não caminha bem.
O PAC? O tucanato coleciona dados. Imagina que vai conseguir demonstrar que há na praça mais propaganda do que obras de infra-estrutura.
O Minha Casa, Minha Vida? Para o PSDB, há mais gogó do que chaves nas mãos daqueles que precisam de teto. É assim agora. E não vai mudar até 2010.
O tucanato descrê das chances presidenciais de Ciro Gomes. Acha que, isolado por Lula dentro do seu próprio partido, o PSB, Ciro não decola.
Trabalha-se com a idéia de que Dilma, hoje com 15% nas pesquisas, vai subir. Beneficiada pela superexposição, tende a firmar-se como alternativa oficial.
Porém, munido de suas próprias pesquisas, o tucanato imagina que o crescimento de Dilma não representará ameaça à lidernaça de Serra.
O governador paulista é, por ora, o nome mais bem-posto nas sondagens eleitorais. Ele as frequenta em patamares nunca inferiores a 40%.
Para o PSDB, é limitada a capacidade de Lula de trasnferir votos para Dilma. É maior no Nordeste.
É menor, contudo, no Sul e no Sudeste, regiões em que Serra imagina que prevalecerá, compensando eventuais dissabores de urnas nordestinas.
Para corroborar a tese, os tucanos recorrem a dois exemplos. Recordam que, em 2008, Marta Suplicy foi batida em São Paulo a despeito do apoio de Lula.
Lembram que, em Natal, sob oposição cerrada de Lula, triunfou nas urnas Micarla de Souza (PV), candidata apoiada pelo senador ‘demo’ José Agripino.
Mal comparando, o tucanato vai usar, em 2010, um lema análogo ao utilizado pelo Lula-2006.
Contra Alckmin, a musiquinha do programa eleitoral de Lula cantava: “Não troque o certo pelo duvidoso”.
Nas dobras da estratégia que se encontra sobre as pranchetas do tucanato, a dúvida de 2010 é Dilma. Serra seria o certo, já testado.
O plano esbarra em dois óbices: primeiro, diria Garrincha, falta combinar com os russos. Segundo, é preciso convencer Serra de que a campanha já começou.
Não há na cúpula do PSDB um único político disposto a aceitar o calendário de Serra. O governador paulista tenta empurrar a entrada no ringue para março de 2010.
A direção tucana trabalha com outro prazo limite: janeiro de 2010. Serra ainda não se deu por achado.
Nas últimas 48 horas, em discursos pronunciados na São Paulo de Serra, Lula e Dilma desancaram o tucanato.
Em viagem a Istambul, na Turquia, o governador tucano fez que não ouviu.
Na tarde de sexta (6), dia em os rivais deitavam falação anti-tucana numa convenção do PCdoB, Serra brindava seus seguidores no twitter com um vídeo sugestivo.
Escreveu: “Aos que ficam me mandando dormir: vejam o que recebi! Famoso comercial de 1961. Quem conhecia?”
Recomendou um link que conduz a um comercial dos cobertores Parahyba (assista no rodapé). O jingle começa assim: “Tá na hora de dormir...”
Para o grosso do PSDB e também para o parceiro DEM, tá na hora de Serra acordar.
Se a sucessão presidencial de 2010 fosse convertida num campeonato de improbabilidades, o eleitor teria diante de si uma barbada.
Entre os eventos mais cotados para não acontecer, uma aposta segura seria a de que o PMDB não vai lançar um presidenciável próprio. Uma pena.
Abra-se um parêntese, para informar que surgiu na cena política brasileira um novo herói: Roberto Mangabeira Unger. O repórter decidiu cultuá-lo.
Muitos devem estar se perguntando: Quem diabos é Mangabeira? Era ministro de Lula até ontem, mas poucos notaram.
Trata-se daquele senhor que fala um português com sotaque americanizado. A mãe é brasileira. O pai, americano. Viveu a maior parte do tempo nos EUA.
Como intelectual, é um portento. Aos 22 anos, fez-se professor de Harvard. Ainda hoje é mestre da prestigiosa usina americana de canudos.
Fora da academia, Mangabeira frequenta a política brasileira como franco atirador. Dispara a esmo. Jamais acertou o alvo.
Foi guru de Leonel Brizola. Enxergava nele o presidente ideal. Deu em fiasco. Tentou uma parceria com Ciro Gomes. E nada.
No primeiro reinado de Lula, tornou-se um crítico acerbo. Pespegou no ex-operário a pecha de presidente mais corrupto da história republicana.
No segundo reinado, virou ministro do “corrupto”. Deixou pronto um plano de reestruturação das Forças Armadas. E voltou para o refúgio de Harvard.
Há coisa de um mês e meio, Mangabeira embrenhou-se numa nova empreitada política. Filiou-se ao PMDB. E corre o país defendendo a candidatura própria.
Às turras com o petismo, o governador pemedebê do Paraná, Roberto Requião, comprou a idéia. Convoca o “velho MDB” para a guerra. Fecha parênteses.
Retorne-se ao início do texto: o repórter decidiu cultuar Mangabeira Unger. Por quê? Concluiu que só um presidente do PMDB arrumaria a casa.
Calma. Antes de apanhar as pedras, reflita sobre o plano de Mangabeira. Não é uma idéia oportunista. Ao contrário. Tem lógica.
De um presidente do PMDB jamais se dirá que fez qualquer tipo de acordo com o PMDB. O apoio que o PMDB der a um soberano do PMDB será compreensível.
O PMDB é o único partido brasileiro que não pode ser acusado de manter relações suspeitas com José Sarney e Renan Calheiros. Suas ligações já são notórias.
O brasileiro não precisará mais pressionar o PMDB com receio de que o partido o decepcione. Já está decepcionado.
Há mais e melhor. Como já domina todas as coligações de que participa, o PMDB poderia impor os seus projetos sem precisar terceirizar a presidência.
O PT, como se sabe, chegou ao Planalto e está cumprindo fielmente a agenda do PMDB. Encantado com Lula, o PMDB talvez decidisse inovar.
A julgar pela ilógica que domina a política brasileira, não seria de espantar que, sob um presidente pemedebê, o governo executasse o programa do PT.
Assim, por um governo socialista, pelo fim do coronelismo e do fisiologismo na política, viva Roberto Mangabeira Unger!
Nem Serra nem Dilma. Só um presidente do PMDB poderia salvar o Brasil do PMDB. Ele não virá. É uma pena.
Geyse Arruda, 20, foi excluída do quadro de alunos da Uniban, universidade privada de São Bernardo do Campo (SP).
Sindicância da instituição responsabilizou a aluna pelo tumulto ocorrido no campus, na noite de 22 de outubro.
Geyse ganhara fama nacional graças ao registro da confusão em vídeo. Pendurada na web, a peça tornara-se um hit.
Corpo recoberto por um minivestido vermelho, pernas à mostra, a aluna tivera de deixar a universidade, sob xingamentos, escoltada por policiais.
A expulsão foi decidida em reunião realizada na madrugada deste sábado (7) e publicada em anúncio veiculado pela universidade nas edições dominicais de em jornais de São Paulo. Concluiu-se que Geyse “procovou” os colegas.
Alegou-se que era usual que ela comparecesse às aulas com roupas curtas e decotes generosos.
Ouça-se o assistente jurídico da Uniban, Décio Leonci Machado: A aluna “sempre gostou de provocar os meninos”.
Como assim? “O problema não era a roupa, mas a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar”.
No dia da algaravia, disse o advogado da universidade, Geyse teria subido deliberadamente seu microvestido com as mãos.
Segundo o assessor jurídico, o gesto possibilitou “a quem vinha atrás” enxergar as “partes íntimas” da moça.
De resto, disse Décio Machado, Geyse teria entrado numa sala que não era a dela, interrompendo a aula pelo meio. Tudo porque um rapaz desejava conhecê-la.
Ao tomar conhecimento da decisão, Geyse reagiu com espanto:
“Como me expulsaram? Que absurdo! Eu fui a vítima, quase fui estuprada, como puderam fazer isso?” Ela rebateu as acusações:
“Eu estava segurando uma bolsa enorme na mão e um fichário na outra, como conseguiria levantar o vestido? Entrei na outra sala porque fui chamada”.
Afora a expulsão de Geyse, nenhuma outra providência foi adotada. Os colegas que a hostilizaram saíram incólumes da sindicância.
A universidade só teve olhos para o par de pernas. No mais, fez ouvidos moucos para os uivos e impropérios da legião de bocas desabridas.
Aluna com vestido curto não pode. Estudantes com comportamento de talibãs são admitidos. A decisão ainda vai dar muito pano para a barra.
Folha Pode ficar para o ano eleitoral de 2010 o julgamento, no STF, da denúncia do tucanoduto.
Processo em que o grão-tucano Eduardo Azeredo (PSDB-MG) é acusado de protagonizar, em 1998, esquema análogo ao mensalão petista, de 2005.
Relator do caso, o ministro Joaquim Barbosa votou, nesta semana, pelo recebimento da denúncia.
Significa dizer que, na visão de Joaquim, Azeredo deve virar réu numa ação penal em que será julgado por peculato e lavagem de dinheiro.
O problema é que, recém-chegado ao Supremo, o ministro José Antonio Dias Toffoli pediu vista do processo, sobrestando o julgamento.
Toffoli prometeu devolver os autos ao plenário no final de novembro. Ainda que cumpra o prometido, o tribunal se verá diante de um dilema.
Restarão escassas seis sessões até o início do recesso de final de ano do Judiciário, em 19 de dezembro.
Há na fila de julgamentos do Supremo nada menos que 583 ações. Daí o risco de o caso do tucanoduto acabar escorregando para o calendário de 2010.
Na sessão em que concluiu a leitura de seu voto, Joaquim disse que o caso, por antigo, flertaria com a prescrição.
Marco Aurélio Mello contraditou o colega. Afirmou que a contagem do prazo que levaria à prescrição foi suspensa em 2007, quando foi ajuizada a denúncia.
A prevalecer o entendimento de Marco Aurélio, o eventual adiamento imporia ao STF apenas o dissabor de julgar o caso em meio ao calor da campanha eleitoral.
Uma campanha em que o PSDB de Azeredo vai figurar como protagonista, ao lado do PT. Ossos do ofício. Juiz deve ter os olhos voltados para as leis, não para as urnas.
Alan Marques/Folha Pelo telefone, o delegado Protógenes Queiroz recebeu a informação de que a sua Polícia Federal lhe impusera uma nova punição.
O telefonema lhe chegou no instante em que participava do 12º Congresso do PCdoB.
O mesmo evento em que, mais tarde, Lula e Dilma Rousseff discursariam sob efusivos aplausos.
Ao divulgar a notícia, Protógenes disse que fora “demitido”. Lorota, esclareceria o Ministério da Justiça.
Em verdade, o delegado foi suspenso por 60 dias. Mera renovação de punição já lhe fora imposta anteriormente.
"Vou recorrer à Justiça do meu país”, reagiu Protógenes. “Ainda acredito na Justiça do Brasil. Ainda existem juízes dignos e honestos neste país”.
O ex-mandachuva da Satiagraha disse que a punição decorre da acusação de ter participado de um comício, em Poços de Caldas (MG).
Nova imprecisão. Na realidade, Protógenes é acusado de ter gravado uma mensagem de apoio a um candidato à prefeitura local.
Chama-se Paulo Tadeu Silva D'Arcádia. É petista. A despeito do apoio do delegado famoso, foi derrotado.
Para usar uma linguagem ao gosto de Protógenes, a “prova-mãe” do processo administrativo é um vídeo.
Foi ao ar em 2008, na propaganda televisiva do candidato. Na peça, Protógenes refere-se à promessa do candidato de abrir na cidade uma delegacia da PF.
Para seus superiores, Protógenes falou em nome da instituição. Algo que não poderia ter feito.
Em sua defesa, o delegado alegara que se limitara a mencionar, em caráter pessoal, a promessa do petista Paulo Tadeu. A peça vai abaixo.
Protógenes é agora um neocomunista. Filiou-se ao PCdoB. E vai às urnas de 2010 como candidato a uma cadeira no Congresso.
A eventual imunidade parlamentar talvez lhe seja útil. A suspensão é ante-sala da demissão. O processo, por ora administrativo, deve converter-se em judicial.
Não é a única encrenca que espreita Protógenes. Há outros procedimentos abertos contra ele na PF.
Num deles, o delegado é acusado de protagonizar desvios de conduta na condução da Operação Satiagraha.
Apura-se, entre outras coisas o uso indevido de agentes da Abin e a espionagem ilegal de autoridades alheias à investigação.
Alvo da Satiagraha, o investigado-geral da República Daniel Dantas –livre, leve e solto— serve-se das acusações para desqualificar o processo de que é alvo.
Para desassossego de Dantas, já condenado em primeira instância por tentativa de subornar um delegado, a peça que sustenta as acusações não é de Protógenes.
É da lavra do delegado Ricardo Saadi, que, ao conduziu a segunda fase da Satiagraha, livrou o inquérito dos alegados vícios protogênicos.
Dilma: tucanos são forças do passado, patéticas e desconexas
PCdoB/Divulação
De volta ao Brasil, Lula retomou o seu projeto político prioritário: a antecipação do calendário eleitoral de 2010.
Acompanhado de Dilma Rousseff, sua candidata, o presidente compareceu, na noite passada, ao 12º Congresso do PCdoB. Ambos discursaram.
Um dos participantes do congresso enviou ao blog, por e-mail, o áudio do par de discursos. Em texto levado ao seu portal, O PCdoB concentrou-se em Lula.
Presidente e candidata alvejaram o tucanato. Ele respondeu a críticas que recebera na semana que estivera ausente, em Londres. Ela soou como candidata. A certa altura, Lula acusou o PSDB de utilizar tática nazista. Disse ter manuseado duas manchetes de jornal.
Mencionou o título de uma delas: “Contra Lula, PSDB treina cabos eleitorais no Nordeste”. Não citou o nome do jornal. Mas referia-se a uma notícia veiculada pela Folha na edição desta sexta (6).
Comentou: “É um pouco o que o Hitler dizia, para os alemães pegarem os judeus. Ou seja, vamos treinar gente para não permitir que eles sobrevivam”. Respondeu a um artigo de Fernando Henrique Cardoso, publicado em vários jornais no último domingo.
No texto, FHC comparara Lula aos militares. Anotara que instalara-se no Brasil um “autoritarismo popular”. Tachara o “lulismo” de “subperonismo”. Evocando o prêmio que acabara de receber em Londres –“Estadista do Ano”, concedido pela Chatham House-, Lula afirmou:
“Compreendo o ódio. Um intelectual ficar assistindo um operário, que só tem o quarto ano primário, ganhar tudo o que ele queria ter ganhado e não ganhou por incompetência é difícil”.
Ouviram-se palmas, que evoluíram para a ovação. E Lula: “Tem presidente que foi estudar dois, três anos lá fora. Eu não”. Mais adiante, citou o nome de seu detrator: “O Fernando Henrique Cardoso, eu tenho a convicção absoluta, que ele tinha certeza que nós seríamos um fracasso...”
Tinha certeza de “que ele poderia voltar por conta do meu fracasso. É isso que magoa. Então, eu lamento, porque o mundo não deveria ser assim. A gente, quando perde uma coisa, a gente tem que torcer para o outro fazer".
Noutro trecho, Lula soou como se respondesse a Caetano Veloso. O compositor o chamara de “analfabeto”. Dissera que “não sabe falar, é cafona falando, grosseiro”.
“[...] Essa semana eu fui chamado de analfabeto. E nessa mesma semana eu ganhei o título de estadista do ano. Tem muita gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos no colégio. Não tem nada mais burro que isso...”
“...Universidade dá conhecimento. Inteligência é outra coisa. E a política é uma das ciências que exigem mais inteligência do que conhecimento. Inteligência para saber montar equipe, tomar decisões, não está nos livros, mas no caráter e na sensibilidade...”
“...Mas não importa. As pessoas falam o que querem e ouvem o que não querem. A vida é dura”. Noutra frase, Lula misturou Caetano e FHC: “Um país governado por um analfabeto vai terminar realizando um governo que mais investiu em educação...”
“...Vamos terminar nosso governo com 14 novas universidades federais. Estamos fazendo uma vez e meia o que eles não fizeram em um século”. Antes, Lula pedira “atenção” da platéia: “[...] Um estranho no ninho pode desmontar tudo que foi feito em apenas dois anos”.
Pregou a “continuidade” como algo “extremamente importante”. Lamentou a ausência de seu nome na cédula. “Vai ter um vazio na minha cabeça”. E citou Dilma como a pessoa talhada para zelar pela “continuidade”.
A candidata despejou sobre o microfone adjetivos fortes para referir-se aos rivais tucanos. Reforçou a estratégia plebiscitária --“Nós contra eles”—, idealizada por Lula.
Disse que “forças do passado, patéticas e desconexas, usam esmurradas táticas para confundir as pessoas”. Afirmou que o tucanato tenta passar a idéia de que os oito anos de FHC são “semelhantes” aos dois mandatos de Lula.
Arredondou o raciocínio: “Eles morrem de medo de comparar nossos [dois] governos com os deles e os nossos projetos com os deles”.
Declarou que o Brasil de FHC e o de Lula “são países completamente diferentes”. Acha que “o povo brasileiro vai saber julgar no ano que vem”.
Esmiuçou as diferenças segundo a sua ótica: “Vamos mostrar que eles dilapidaram o patrimônio nacional e privatizaram as empresas nacionais”.
Disse que a oposição “não tem moral para falar do nosso governo”. Referiu-se às críticas como “queixumes, resmungos e murmúrios”.
Anteviu um processo eleitoral “duro”. E fez um chamamento à unidade do consórcio partidário que se aninha sob a presidência de Lula:
“As forças progressistas precisam manter a unidade. Não podemos deixar que essa oportunidade de união escape de nossas mãos e das mãos do povo brasileiro”.
Incluiu no pacote da unidade até o PSB de Ciro Gomes: “O Brasil nunca esteve tão bem, mas esse será o maior desafio das forças progressistas...”
“...Nós [do PT], como o PMDB, o PCdoB, o PSB, o PDT, entre outros, teremos que enfrentar esse desafio”.
De resto, Dilma desdenhou da tese oposicionista segundo a qual Lula lidou com a crise a golpes de “sorte”.
“A grande crise que sacudiu o mundo colocou por terra esse argumento de que houve sorte”. A crise foi domada, segundo ela, pela “eficiência do governo”.
Como se vê, a banda da sucessão passa zunindo sob a janela de 2009. Não é como a banda da música. Não canta coisas de amor. Só o PSDB, ainda à toa na vida, não vê.
Edgard Garrido/Reuters Uma semana depois de ter sido firmado, virou pó o acordo que devolveria Honduras à normalidade institucional.
Intermediado por negociadores dos EUA e da OEA, o acerto tropeçou já no primeiro passo.
Previra-se a formação de um gabinete de conciliação até esta quinta (5). Teria representantes dos dois lados.
Um pedaço da equipe seria indicado pelo presidente golpista Roberto Micheletti. Outro, pelo deposto Manuel Zelaya.
Para abrir caminho à pacificação, o gabinete golpista renunciou na noite passada. Mas Zelaya negou-se a indicar os seus prepostos.
Micheletti deu de ombros. E compôs a nova equipe mesmo sem os nomes do desafeto.
Zelaya declarou que o acordo está morto. Mandou dizer que o responsável pelo fracasso é Micheletti, que culpou Zelaya.
No miolo da fogueira, arde uma pergunta: quem vai chefiar o gabinete da conciliação?
Pelo acordo, caberia ao Congresso hondurenho decidir se Zelaya será ou não restituído à presidência.
O diabo é que não foi marcada uma data para a deliberação. E, ao cabo de uma semana, o Congresso não moveu uma palha.
Daí a recusa de Zelaya em levar nomes à mesa. De quebra, voltou a vociferar contra as eleições presidenciais marcadas para o final de novembro.
Afirma que, realizado sob Micheletti, o pleito será ilegítimo. Ou seja, voltou-se à estaca zero.
Patrona do acordo que fixou coisas definitivas sem definir as coisas, a OEA cobra o cumprimento do que foi celebrado.
Restabelecido o impasse, Zelaya continua desfrutando das instalações da embaixada do Brasil, convertida em hospedaria terceirizada do companheiro Hugo Chávez.
Num instante em que a oposição exercita suas hesitações, o PT prepara sua superestrutura municipal para o embate de 2010.
O partido de Lula realiza na cidade de Guarulhos (SP) um mega-encontro de seus gestores municipais. Coisa de dois dias.
Começa nesta sexta (6) e se estende pelo sábado (7). Foram convidados os 560 prefeitos e os 423 vice-prefeitos do PT. Gente de todo país.
A estrela do encontro é Dilma Rousseff. A ministra-candidata, que chega nesta sexta de Londres, reservou o sábado para o encontro de Guarulhos.
Além da candidata e dos gestores municipais, vão ao encontro ministros e congressistas do PT. Debaterão três temas:
1. A conjuntura política
2. Os “avanços” do governo Lula
3. A estratégia do PT para a sucessão de 2010
Organizador da pajelança, o secretário de Assuntos Institucionais do PT, Romênio Pereira, afirma:
“Este encontro será a grande atividade política do partido neste final de ano”.
A frase faz sentido. Novata em eleições, Dilma acomoda o seu futuro eleitoral sobre duas escoras: o prestígio de Lula e a máquina do PT.
Daí a preocupação em exibir a candidata à engrenagem municipal. Uma forma de aquecer, nos fundões do país, as fornalhas que vão mover as urnas.
Dilma aproveitará a presença em São Paulo para dar as caras no 12º Congresso do PCdoB, que foi aberto nesta quinta (5) e vai até o final de semana.
Velho parceiro de Lula, o PCdoB rebarba o assédio de Ciro Gomes (PSB) e integra-se, aos poucos, à caravana de Dilma.
Ao discursar na abertura do congresso, Renato Rabelo, presidente do PCdoB, ecoou Lula.
Disse que, para deter a volta da “direita” –leia-se PSDB—, a aliança PT-PMDB é uma “exigência política”.
Num prenúncio de que o PCdoB vai aderir à coligação, Rabelo arrematou:
“Quanto mais a eleição presidencial de 2010 se concentrar na forma de plebiscito, de polarização a favor ou contra o ideário e as realizações de Lula...”
“...Maiores são as chances de vitória da candidatura sustentada pelo presidente”.
Por ironia, a movimentação de Dilma ocorre no Estado governado pelo presidenciável tucano José Serra.
Um rival que, escondido atrás do favoritismo que lhe atribuem as pesquisas, esquiva-se de entrar no ringue. Serra diz que só vestirá as luvas em março.
Arrisca-se a encontrar sobre o tablado uma Dilma que, vitaminada pela superexposição, talvez já tenha o semblante do segundo turno.
Caetano Veloso e Lula têm algo em comum. Ambos são compositores.
Como artista, Caetano compõe músicas. Como político, Lula compõe com todo mundo.
De resto, a dupla se iguala no hábito de falar além do necessário.
Pois bem. Dando azo às afinidades, Caetano resolveu desancar Lula.
Em meio a uma declaração de apoio a Marina Silva, chamou-o de analfabeto:
"Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla...”
“...É inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem".
Abespinhado, o grão-petê Ricardo Berzoini disse que Caetano tem “grande desprezo pela democracia”.
E concedeu títulos extracurriculares a Lula: "Quem conhece a trajetória de Lula e vê a liderança internacional que ele tem hoje sabe que ele é pós-graduado...”
Pós-graduado “em política, administração e relações internacionais".
Ninguém exige de Lula que seja um Caetano. Mas passou-se a exigir de Caetano que reaja politicamente.