Obama fala de pontes para platéia que almeja muros
Rainer Jenses/EFE
Favorito na corrida à Casa Branca, Barack Obama produziu, na última quinta-feira, uma bela página da oratória política.
Falou em Berlim, para uma platéia notável –100 mil pessoas, informaram algumas publicações; 200 mil, noticiaram outras.
A certa altura, pôs-se a construir analogias em torno dos escombros do Muro de Berlim. Mencionou o fantasma dos muros da pós-modernidade.
Muros "entre raças e tribos, nativos e imigrantes, cristãos e muçulmanos e judeus." São paredes que "não podem continuar de pé."
A hora, disse Obama, é de "construir pontes” ao redor do planeta. Nada mais sensato. Nada mais improvável, contudo.
Alvo das finas palavras de Obama, a Europa traz nas mãos a colher de pedreiro. Mas não a utiliza nas pontes. Constrói novos muros.
Só mudou a matéria-prima. Antes, a argamassa era ideológica. Agora, a mistura junta exclusão com burocracia.
O muro de Berlim e as barreiras ideológicas do passado destinavam-se a impedir que os reféns do comunismo fugissem para o Ocidente.
Os novos muros visam conter não a saída, mas a entrada. Uma “invasão” de refugiados do subdesenvolvimento.
Nisso, a Europa iguala-se aos EUA de Obama, às voltas com o muro da fronteira com o México.
Os novos muros negam ao trabalho mal remunerado o mesmo direito universal de ir e vir concedido ao capital global.
Apresenta-se como vantagem da era contemporânea a liberdade do dinheiro de passear pelo mundo. A pecúnia não tem pátria. Vai para onde ganha mais.
Aos pobres sonega-se a ousadia da desenvoltura. Quem ousa pular os novos muros é tratado com prisão, humilhação e deportação.
Obama falou para uma Europa que, um mês antes, aprovara, no Parlamento Europeu, uma lei que endurecera o tratamento a imigrantes nos 27 países do velho continente.
No dia seguinte à fala do candidato, a Itália declarou estado de emergência em "todo o território nacional.” Por que?
“Devido ao persistente e excepcional afluxo de cidadãos estrangeiros", vindos de países que não desfrutam do privilégio de pertencer à União Européia.
"Eu sei que não pareço com os americanos que já falaram aqui”, disse Obama aos berlinenses. “A história que me trouxe aqui é improvável."
De fato, o candidato é dono de biografia rara. Conta a história de alguém que prevaleceu sobre as próprias circunstâncias.
Filho de pai queniano com mãe branca americana, traz na pela as cores da África. A avó paterna acompanha o seu êxito desde uma choupana paupérrima do Quênia.
Abandonado pelo pai, conviveu com um padrasto oriental. Que o arrastou, aos seis anos, para a Indonésia. Aos 10, retornou para o Havaí.
Negro, descendente de muçulmanos, Obama transformou em conto de fadas um enredo que bem poderia tê-lo conduzido ao consumo de crack e às ruas.
Dono de dois canudos luminosos –da Universidade de Columbia e de Harvard—, ele chega às portas da Casa Branca graças à generosidade da sociedade americana.
Generosidade de uma fase em que os EUA construíam pontes com o mundo. Coisa do passado.
Hoje, a despeito dos belos discursos, a prioridade do pedaço rico do mundo é o muro.
Nos dias que correm, o pai queniano de Obama talvez não conseguisse pular o muro.
Fábio Pozzebom/ABr Se lhe fosse dado observar o vaivém da governadora do Rio Grande do Sul, Carlos Drummond de Andrade decerto definiria o novo drama de Yeda Crusius assim:
No meio do caminho de Yeda tem uma casa
Tem uma casa no meio do caminho de Yeda
Casa vistosa. Grande. Elegante. Confortável.
Comprada por Yeda depois de seu triunfo nas urnas, no final de 2006, e antes de sua posse, no alvorecer de 2007.
O valor declarado da operação é R$ 750 mil. É nesse ponto que a casa ganha a forma de uma pedra no caminho de Yeda.
Juntando tudo o que a governadora informara à Justiça Eleitoral que possuía antes da eleição, chega-se a um patrimônio inferior ao valor da casa.
Como se fosse pouco, o repórter Diego Escosteguy trouxe à luz uma novidade que acomoda ao redor da casa de Yeda, já envolta numa bruma de assombro, uma dose extra de mistério.
A novidade foi às páginas da última Veja (assinantes). Está expressa num documento.
“Instrumento particular de promessa de compra e venda de imóvel”, anota o cabeçalho (veja cópia abaixo).
Refere-se ao mesmo imóvel adquirido por Yeda. Revela algo que se passara quatro meses antes do fechamento da transação.
O proprietário do casarão, Eduardo Laranja (que nome!), negociava a casa por R$ 1 milhão. Nada demais, não fosse por um detalhe:
Laranja (!?!?!) encontrara um comprador. Chama-se José Luís Borsatto. Daí o compromisso de “compra e venda”.
Ouvido, José Luís, o ex-futuro comprador, disse:
"Quando consegui todo o dinheiro, o corretor me disse que tinha vendido o imóvel à governadora." Por quanto? "Foi R$ 1 milhão.”
Com o novo documento em mãos, o advogado do PSOL, Pedro Ruas, planeja entregá-lo ao Ministério Público. Que já investiga a encrenca.
Por que caiu tanto o valor do imóvel no instante em que a governadora resolveu adquiri-lo?
Há muitas explicações possíveis: da lavratura de uma escritura ilegal à generosidade do vendedor.
Antes de responder à nova pergunta, Yeda ainda precisa dar conta da questão original:
De onde veio o dinheiro que bancou a compra de sua casa?
A governadora saiu-se, até aqui, com duas tentativas de explicação:
1. Dissera, lá atrás, que arrumara dinheiro vendendo um carro e dois apartamentos.
Verificou-se que um dos imóveis jamais saíra do nome da governadora. Nem podia. Está retido por um bloqueio judicial.
2. Dias atrás, Yeda encaminhou ao Ministério Público dados mais pormenorizados.
Diz-se, porém, que, na ponta do lápis, há ainda um buraco de cerca de R$ 200 mil nas contas.
Não resta senão voltar a Drummond:
Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma casa tinha uma casa no meio do caminho no meio do caminho tinha uma casa.
Reforço dado à Operação Satiagraha é exceção, não regra
Maioria dos casos, depois do ‘show’, vira um ‘banho-maria’
Denúncia de falsa filantropia é adiada há mais de 4 meses
No PA, Computadores retidos aguardam perícia há 2 anos
Críticas à PF crescem entre procuradores e até delegados
Ordem Serrada/Chico Quintas Jr.
As desavenças do delegado Protógenes Queiroz com a cúpula da Polícia Federal deram visibilidade a um problema que se tornou corriqueiro: a falta de estrutura do braço policial do Estado.
Protógenes queixa-se de não ter tido apoio na fase final da Operação Satiagraha. Pedira 50 policiais. Seriam usados na análise de material recolhido em 56 batidas de busca e apreensão. E nada.
Só depois do afastamento de Protógenes do caso que envolve Daniel Dantas, espécie de suspeito-mor da República, o governo viu-se compelido a deslocar os 50 agentes que sonegara.
Decisão calculada. Tomada sob holofotes. Para esvaziar a alegação de “obstrução”. Mas que está longe de se constituir numa regra.
Nos últimos oito dias, o blog conversou com três procuradores da República e dois delegados da PF. Informaram o seguinte:
Passada a fase do espetáculo, a maioria das operações da Polícia Federal perde-se nos desvãos da desestrutura. A escassez de gente e de suporte técnico tornou-se uma regra.
Tome-se o exemplo da Operação Fariseu. Desencadeada em 13 de abril, desbaratou uma quadrilha que vinha propiciando isenção tributária a cerca de 60 falsas entidades filantrópicas.
Na fase do show, a PF mobilizou 200 policiais -seis prisões, 27 endereços vasculhados. Já lá se vão quatro meses e 13 dias. E nada da análise do material apreendido.
Apenas dois delegados foram mobilizados para a tarefa. O Ministério Público deslocou um auditor fiscal que lhe prestava serviços. Requisitou-se o socorro da Receita Federal, que ainda nao veio.
Há dois meses, a AGU (Advocacia Geral da União) informou à Procuradoria da República que acionaria na Justiça os agentes públicos envolvidos nos malfeitos da Operação Fariseu.
Foi aconselhada pelo próprio Ministério Público a pisar no freio. Faltam ao caso provas que tonifiquem os indícios registrados num sem-número de escutas telefônicas (conteúdo já veiculado aqui).
Há no Pará um outro caso revelador da falta de estrutura que rói os inquéritos da PF. Refere-se a uma operação batizada de Galiléia. Foi pendurada nas manchetes em 25 de abril de 2006.
Envolve uma quadrilha acusada de fraudar licitações na Companhia Docas do Pará. Prejuízo ao erário estimado em R$ 7 milhões. Dezessete presos; 53 batidas de busca e apreensão.
Mercê da letargia da PF, só em 26 de abril de 2007, exatamente um ano depois do show, o Ministério Público pôde formular uma denúncia.
Foram às barras dos tribunais 19 pessoas e nove empresas. Mas até hoje, mais de dois anos depois da deflagração da operação policial, há computadores apreendidos que não foram submetidos a perícia.
A essa altura, o processo corre no TRF (Tribunal Regional Federal de Brasília). E ainda não se sabe se os computadores intocados contêm ou não provas relevantes para o caso.
Um dos procuradores ouvidos pelo repórter disse que desenvolveu um método peculiar para tentar contornar as deficiências da PF.
Quando submetido à demora na análise de material apreendido nas operações, o procurador formula a sua denúncia com as evidências disponíveis.
Mas inclui na peça pedidos para que o juiz determine a realização das perícias pendentes. Quando éagraciado com o surgimento de novas provas, o procurador providencia um aditamento da denúncia.
A esperteza produz um vaivém processual que retarda o julgamento dos casos. O aditamento faculta aos advogados dos acusados o direito à dilação dos prazos de defesa.
Os dois delegados da PF ouvidos pelo blog ecoaram as críticas de Protógenes Queiroz. Disseram que, sob Paulo Lacerda, hoje na direção da Abin, a PF experimentou um processo de modernização.
Intensificaram-se as operações. Aperfeiçoaram-se os métodos de investigação. Mas a produção de provas continua esbarrando na falta de estrutura, sobretudo a escassez de recursos humanos.
Ao término do mandato de FHC, a PF dispunha de um quadro funcional de 9.289 pessoas. Sob Lula, o número cresceu: 11.749 em 2005; 15.000 em 2007. Mas as queixas remanescem.
Cresceu o número de funcionários. Mas também cresceram as demandas da polícia. Aos velhos crimes –corrupção, tráfico de drogas e contrabando de armas—adicionaram-se novos delitos.
Entre eles os crimes ambientais, delitos praticados na internet, lavagem de dinheiro e malfeitos financeiros como os que se encontram sob apuração no caso que envolve Daniel Dantas.
Avolumam-se as ações de nomes exóticos –Sanguessuga, Vampiro, Hidra, Anaconda, Furacão, Têmis, Navalha, Sucuri, Matusalém, Zaqueu, Pandora, Isaías, Matusalém e um interminável etc.
Porém, sob a poeira do espalhafato, há poucas, pouquíssimas, quase nenhuma condenação. O atual diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa costuma invocar uma escassa exceção.
Luiz Fernando participou diretamente da prisão do sem-banco Salvatore Cacciolla, um réu da era FHC. Beneficiado por um habeas corpus do STF, Cacciola refugiara-se na Itália.
No ano passado, depois da prisão de Cacciolla, em Mônaco, antes da extradição, Luiz Fernando passou a realçar o fato de que, a despeito da fuga, o ex-dono do banco Marka fora condenado a 13 anos de cana.
“Não houve impunidade”, dizia o mandachuva da PF. “Ele está preso em razão das provas produzidas por nós.” Um dos procuradores que se ocuparam do caso diz coisa diversa.
Afirma que, não fosse pelo Ministério Público, Cacciola não estaria encrencado. A mobilização da PF, segundo ele, foi obtida a fórceps, sob intensa pressão dos procuradores.
A falta de estrutura conduz a um nefasto jogo de empurra. A PF alega que, mal ou bem, faz o seu trabalho. E atribui à ineficácia de procuradores e à benevolência do Judiciário a ausência de punições.
O Ministério Público queixa-se da inanição das provas que recebe da polícia. Fenômeno que oferece ao Judiciário álibi para absolver e munição para alvejar a “espetacularização” da PF.
O ministro Cezar Peluso, do STF, autorizou o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT) a consultar o processo da Operação Satiagraha.
A decisão foi tomada menos de 24 horas depois de Greenhalgh ter requerido ao Supremo que estendesse a ele o que já concedera a Heráclito Fortes (DEM).
Na petição que protocolara no tribunal, Greenhalgh desdenhara do segredo judicial que recobre o processo:
“Embora se diga serem sigilosos, a imprensa continua diuturnamente divulgando trechos de suas peças...”
Trechos “...com referências ao nome do peticionário [Greenhalgh], sem que a este seja dado conhecer o inteiro teor de tudo quanto exista registrado a seu respeito”.
O pedido formulado antes pelo senador Heráclito Fortes fora deferido pelo presidente do STF, Gilmar Mendes, que saiu em férias.
Coube então Cezar Peluso, agora responsável pelo plantão do Supremo, estender a decisão do colega a Greenhalgh.
No despacho, Peluso autorizou Greenhalgh e seus advogados a “tomar apontamentos e extrair cópias dos elementos de seu interesse” no processo.
Candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM) figura como co-réu em processo que corre no Tribunal de Justiça de São Paulo.
A despeito disso, foi excluído da “lista suja”, que a Associação dos Magistrados do Brasil divulgou na última terça (22).
Falou-se, aqui e ali, do processo que pendia sobre a cabeça de Kassab. Dizia-se que havia sido extinto.
A repórter Rosanne D'Agostino, do UOL (assinantes), decidiu escarafunchar o assunto. Descobriu que o caso continua pendente de julgamento.
A coisa começou em 1997. Kassab era secretário de Planejamento do prefeito de então, Celso Pitta, preso e solto na Operação Satiagraha.
A reputação de Pitta era roída à época por uma CPI que apurava malfeitorias na negociação de títulos públicos.
A pretexto de defender a administração municipal, o prefeito mandou publicar nos grandes jornais uma peça publicitária.
O Ministério Público acusou-o de fazer promoção pessoal com verba pública. Abriu contra ele uma ação civil pública.
O promotor de Justiça Sérgio Turra Sobrane enxergou nos anúncios um atentado contra os princípios da administração pública, previstos na Lei de Improbidade.
Kassab foi ao banco de réus, na condição de co-responsável, por ter concordado com a liberação do dinheiro.
Condenados na primeira e na segunda instância do Judiciário, os réus amealharam vitórias no STJ.
Depois, obtiveram no Tribunal de Justiça, em 7 de maio de 2008, a anulação das condenações.
Entendeu-se que a publicidade de Pitta era informativa, não promocional. Há, porém, um recurso ainda à espera de julgamento.
Por isso, o processo continua vivo. Sobreveio, então, a pergunta inevitável:
Por que diabos a AMB excluiu Kassab de uma “lista suja” que traz os nomes de Marta Suplicy e Paulo Maluf?
A associação de magistrados argumenta que só foram empurrados para dentro da lista os candidatos que respondem a processos listados nos tribunais como ações de "improbidade administrativa".
O caso de Kassab, diz a entidade, é uma "ação civil pública." Bobagem, responde Sérgio Turra, o promotor que levou o candidato ‘demo’ às barras dos tribunais.
"A ação de improbidade é uma espécie de ação civil pública e esta ação [contra Kassab] deve, sim, ser incluída na lista."
Nas pegadas da divulgação da lista da AMB, a turma de Kassab apressou-se em extrair dela o máximo proveito eleitoral.
No sítio que mantém na internet, a campanha do prefeito defendeu a divulgação da lista. E reproduziu notícias sobre o caso. O TRE mandou que a coisa fosse tirada do ar.
A equipe do candidato distribuiu, de resto, panfletos com os seguintes dizeres: "Sujou! Associação de juízes inclui marta, Maluf e mais 13 em lista suja” (veja imagem lá no alto).
Fica-se agora com a impressão de que a lista da AMB, do modo como foi feita, dá margem a que sujos se insurjam contra mal lavados. Muda apenas a quantidade de sujeira.
Revela que a petista Marta Suplicy e o tucano Geraldo Alckmin continuam na liderança da disputa paulistana.
Ela, com 36%, ligeiramente à frente dele, com 32%.
Como a margem de erro da sondagem é de três pontos –para mais ou para menos—configura-se um quadro de empate técnico.
Eis os números do Datafolha:
1. Marta Suplicy (PT): 36%
2. Geraldo Alckmin (PSDB): 32%
3. Gilberto Kassab (DEM): 11%
4. Paulo Maluf (PP): 8%
5. Soninha Francine (PPS): 2%
6. Ciro Moura (PTC): 1%
7. Ivan Valente (PSOL): 1%
Houve pequenas oscilações em relação à pesquisa anterior.
Por exemplo: caiu de sete para três pontos a vantagem de Marta (antes com 38%) sobre Alckmin (31%).
Kassab, o terceiro colocado, oscilou para baixo. Tinha 13%. Agora tem 11%.
O índice de Soninha variou para cima: de 1% para 2%.
A despeito do discreto vaivém, os números do Datafolha revelam um cenário estático.
Não resta senão aguardar pela propaganda televisiva. É a principal ferramenta de que dispõem os candidatos para tentar mover os miolos do eleitor.
Manteve-se também o cenário do segundo turno.
Numa eventual disputa entre PT e PSDB, hoje a mais provável, Alckmin continua prevalecendo sobre Marta: 51% contra 43%.
Na pesquisa anterior, os percentuais eram, respectivamente, 50% e 45%. Ampliou-se de cinco para sete pontos a vantagem de Alckmin. Dentro da margem de erro.
Contra Kassab, a sorte de Marta viraria. Num embate direto contra o candidato ‘demo’, a petista venceria a eleição. Teria 52% dos votos, contra 37% atribuídos ao rival.
Veja abaixo os dados levantados pelo Datafolha em outras quatro capitais:
A Polícia do Rio realizou nesta quinta (24) uma incursão na favela da Rocinha. Buscava bandidos, drogas, armas, motos e carros roubados.
Súbito, os policiais deram de cara com um documento que feriu a rotina. Um texto preparado pelo chefão do tráfico local, Antônio Francisco Lopes, o Nem.
O texto tem nove itens. Num deles, o traficante ordena a líderes comunitários que se eximam de agendar visitas à favela de políticos que não disponham do apoio da bandidagem.
Segundo a polícia, chama-se Luiz Cláudio de Oliveira um dos candidatos que desfrutam do apoio do tráfico. Concorre à câmara de vereadores. É filiado ao PSDC.
Apreendido na casa da namorada de Nem, o documento torna explícito um fenômeno já fartamente identificado: o torniquete a que estão submetidos os eleitores pobres dos morros cariocas.
De um lado, são espremidos pelos traficantes. De outro, são pressionados pelas milícias comandadas por policiais que flertam com a delinqüência.
Nesta quinta (24), presidente da Comissão de Defesa da Câmara, Raul Jungmann (PPS-PE), discutiu a encrenca numa reunião com o diretor interino da PF, Romero Menezes.
O nome do traficante Nem foi à mesa. Ao discorrer sobre o flagelo da coação aos eleitores, Jungmann deu nome a certos bois já bem conhecidos do carioca.
"No caso da Rocinha, o traficante Nem, e no caso do Complexo do Alemão, o Jorginho, líder comunitário que tem ligações com o tráfico...”
Eles “estariam fechando essas comunidades, essas favelas, impondo-se como candidatos...”
“...E, como tal, passariam a ter um poder derivado do controle das obras do PAC nas duas localidades, o que é da maior gravidade."
O delegado Romero comprometeu-se a repassar os dados ao setor de inteligência da Polícia Federal. Providência desnecessária.
A superintendência da PF no Rio dispõem de um sem-número de denúncias sobre a ação eleitoral dos criminosos. Há dois dias, soube que foi aberta uma investigação.
Resta agora saber se o Estado conseguirá prevalecer nas áreas em que, graças à ausência do chamado Poder Público, o crime acha-se no direito de dar as cartas.