Numa tentativa de segurar o avanço do preço do arroz, a Conab (Cia. Nacional de Abastecimento) vai leiloar, nesta segunda-feira (5), parte de seu estoque. Vão ao martelo 55 mil toneladas de arroz.
Paulo Morceli, gerente de alimentos básicos da Conab, crê que a providência vai conter os preços. Pendurada no organograma do ministério da Agricultura, a companhia de abastecimento tem entre suas atribuições a tarefa de regular o mercado.
“A venda dos estoques públicos vai colaborar para que o mercado atinja um preço base, bom para produtor e consumidor", diz Morceli. Em matéria de arroz, a Conab tem muita bala na agulha. Mantém em estoque 1,4 milhão de toneladas.
O lote que vai a leilão nesta segunda está armazenado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Segundo o governo, não há risco de desabastecimento. O diretor do Departamento de Comercialização e Abastecimento da Conab, José Maria dos Anjos, diz que, "até fevereiro de 2009, final do ciclo da cultura, o mercado interno contará com 13,8 milhões de toneladas de arroz."
A movimentação da Conab ocorre num instante em que o mundo se debruça sobre uma crise planetária de alimentos. Neste sábado (3), o relator da ONU para temas relacionados ao direito à alimentação, Olivier de Schutter, voltou a içar ao primeiro plano da crise a polêmica em torno dos biocombustíveis.
Schutter defendeu a suspensão de novos investimentos na produção de biocombustíveis. A interrupção dos aportes financeiros duraria até a conclusão de negociações mundial sobre o prejuízo que a produção dos combustíveis alternativos impõe ao plantio de alimentos.
A capital do Piauí será, nesta segunda-feira (5), palco de uma cerimônia inusitada. Depois de quase duas décadas de espera, a população de Teresina vai ganhar um hospital para atendimentos emergenciais. Além de Lula, vão à inauguração a petista Dilma Rousseff –projeto de presidenciável do Planalto— e o tucano José Serra, candidato mais bem-posto da oposição à sucessão de 2010.
Os convites a Lula e Dilma foram feitos pelo governador do Piauí, Wellington Dias, que é do PT. Serra foi “convocado” pelo prefeito de Teresina, Sílvio Mendes, filiado ao PSDB. O petismo local torceu o nariz. Mas o hospital é municipal. E o prefeito Mendes valeu-se de um subterfúgio monetário para justificar a presença de Serra.
Alegou que, no período em que foi ministro da Saúde de FHC (1998 a 2002), Serra mandou dinheiro para a continuidade das obras do HUT (Hospital de Urgências de Teresina). O Pronto Socorro, como o povo local prefere chamar o hospital, começou a ser construído há 18 anos, quando o inquilino do Palácio do Planalto era José Sarney.
Ao longo de todos esses anos, a obra recebeu verbas da União, do Estado e do município. Custou quase R$ 30 milhões. E o prefeito tucano argumentou que é justo, muito justo, justíssimo que Serra participe dos festejos da inauguração.
Para não parecer partidário, o tucano Sílvio Mendes convidou outros ex-ministros da Saúde que, de algum modo, contribuíram para que a obra chegasse ao final. O petista Humberto Costa e o cardiologista Adib Jatene informaram que não poderão dar as caras.
Lero vai, lero vem, travou-se durante a semana uma segunda polêmica: Serra poderia discursar? O prefeito tucano disse que sim, claro que poderia. Na dúvida, a equipe do governador petista decidiu consultar o Planalto. A palavra final foi dada por Lula. Dono de temperamento acomodatício, o presidente mandou dizer quem nem se importava com a presença de Serra nem se opunha a que o governador de São Paulo discursasse. Assim, se quiser, Serra vai falar.
A inauguração do hospital está marcada para as 10h. Lula e sua comitiva desembarcam em Teresina na própria segunda. Serra é aguardado para a noite deste domingo (4).
O governador paulista será recepcionado, entre outros, pelo senador Heráclito Fortes (DEM-PI), adversário de Lula e arqui-inimigo do PT do Piauí. Heráclito, a propósito, também deve comparecer à solenidade hospitalar –a convite do prefeito Silvio Mendes.
A presença de Serra encaixa-se na estratégia traçada pelo governador para atenuar uma das fragilidades de seu projeto presidencial: a baixa taxa de conhecimento que amarga nos Estados do Nordeste. Nos últimos meses, Serra abriu frinchas em sua agenda para visitar o Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Sua equipe já organiza nova viagem a Pernambuco.
O PSDB costuma dizer que, ao levar Dilma a tiracolo em suas viagens, Lula como que antecipou em dois anos e meio a disputa presidencial. O petismo lê a conjuntura de outra maneira: “O Serra é governador de São Paulo. Por que ninguém questiona essas viagens dele ao Nordeste?”, pergunta, por exemplo, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Como se vê, a campanha de 2010, de fato, já começou.
Aos pouquinhos, Lula prova que ridículo não existe
Animação de Ueslei Marcelino sobre fotos de Lula Marques
Neste domingo (4), a Stock Car realiza uma de suas provas no autódromo de Brasília. Vão à pista 34 pilotos. Envergam as corres de 17 equipes.
Ao lado de sua mulher, Marisa, Lula recebeu os automobilistas em palácio. Envergava um paletó adornado com bordado indígena -presente do companheiro Evo Morales. Instado um dos visitantes, levou à cabeça o boné de uma equipe.
Como que enciumado, um outro piloto reivindicou o mesmo privilégio. Depois dele, outro... E mais outro... E outro mais... Súbito, o presidente da República pôs-se a experimentar, um após o outro, os bonés de todas as 17 equipes.
Entre risos, Lula recordou a polêmica que ateará nos meios políticos ao deixar-se fotografar, no primeiro reinado, com um boné do sempre controverso MST. "Será que agora [os jornalistas] vão ter argumento para me criticar?"
Ainda outro dia, o presidente brincava com uma bola de basquete ao lado do cestinha Oscar Schmidt, no Itamaraty. Agora, mais essa. Pendurado em índices lunares de popularidade, Lula vai demonstrando ao país, aos pouquinhos, que o ridículo não passa de ficção. Quem ousa desafiá-lo conquista a glória.
Em diálogo com governador filiado a uma das legendas que lhe devotam fidelidade, Lula revelou que deve apoiar mais de um candidato nas eleições presidenciais de 2010. Tende a adotar o que chamou de “Fórmula Pernambuco.”
Referia-se à forma como lidou com um dilema das eleições de 2006. Naquele ano, dois ex-ministros mediram forças pelo governo de Pernambuco: Humberto Costa (Saúde), do PT, e Eduardo Campos (Ciência e Tecnologia), do PSB.
No primeiro turno, Lula prestigiou a ambos. Deu um jeito de abrigá-los em seu palanque presidencial. O candidato petista ficou pelo caminho. Abalroado pelo escândalo dos Vampiros, Humberto Costa foi de favorito a terceiro colocado.
No segundo turno, Lula despejou todo o seu prestígio na campanha do aliado Eduardo Campos. Ajudou-o a prevalecer sobre o adversário Mendonça Filho, do então PFL. Prevê a adoção de comportamento semelhante para a sucessão presidencial.
Na conversa com o governador, Lula lamentou que os partidos que lhe dão suporte legislativo não estejam conseguindo se entender nas eleições municipais de 2008. Lastimou, sobretudo, os desencontros entre PT e PMDB.
Citou especificamente o caso da cidade de São Paulo. Mencionou dois fatos: o apoio do PMDB de Orestes Quércia ao prefeito Gilberto Kassab (DEM), que disputa a reeleição, escorado no apoio do governador tucano José Serra; e a resistência do chamado bloquinho (PSB, PCdoB e PDT) em apoiar a candidatura petista de Marta Suplicy.
São prenúncios, na opinião de Lula, de que dificilmente os seus principais aliados chegarão a 2010 unidos. Cada um acalenta seu projeto presidencial próprio. Deixou antever que não abrirá mão de ter o seu candidato. Mas também disse que não o anima a idéia de bater de frente com os competidores nascidos de legendas “da base”, como se refere ao consórcio partidário que se formou em torno de seu governo.
Citou o exemplo de Ciro Gomes, o presidenciável do PSB. “Se o Ciro for candidato, como posso me opor a ele?” Daí os pendores que nutre pela ressurreição da “Fórmula Pernambuco.” O essencial, segundo diz, é evitar que o Planalto caia em mãos inamistosas –como as do tucano José Serra, por exemplo.
Os comentários feitos por Lula entre quatro paredes contrastam com as afirmações que fez em público. No domingo passado, jornais dos Diários Associados veicularam entrevista com o presidente. A certa altura, Lula falou sobre a hipótese de ter de lidar com mais de uma candidatura governista. Disse o seguinte:
“O PSB, por exemplo, é um aliado histórico e tem candidato à Presidência, o deputado Ciro Gomes, um candidato forte porque já foi candidato duas vezes [...]. É bem possível que outros partidos queiram lançar candidato. E vocês jamais me verão reclamar de um partido querer lançar candidato [...]. Obviamente, se não for possível construir uma candidatura única da base, pode ficar certo de que o governo terá candidato.”
A menção à “Fórmula Pernambuco” indica que Lula terá candidato, mas não deixará de prestigiar outros que pertençam a legendas que, hoje, gravitam à sua volta. Num eventual segundo turno contra o PSDB, que se afigura como hipótese muito provável, quebrará lanças pelo governista mais votado, seja ele quem for. Elegendo-o, evitará descer à crônica das eleições com a cara de derrotado. De resto, acomodará em sua cadeira um personagem que não ousará, ao menos em tese, lhe criar problemas.
BBC Em meio a uma crise que rói a autoridade do presidente boliviano Evo Morales, a população de Santa Cruz vai às urnas neste domingo (4). Decidirá, em referendo, se o Departamento –como os bolivianos chamam os seus Estados— deve ou não se declarar “autônomo” em relação ao governo central de La Paz.
Santa Cruz é o pedaço mais próspero do mapa boliviano. Fica na região Leste do país. Faz fronteira com o Brasil. Abriga 25% da população da Bolívia. É rico em soja, petróleo e gás. Responde por cerca de 40% de toda a arrecadação tributária que nutre as arcas da administração Evo Morales.
Estão aptas a votar 930 mil pessoas. O voto não é, porém, obrigatório. Se a maioria dos eleitores disser “sim” à autonomia, estará autorizando o governo de Santa Cruz, chefiado pelo oposicionista Ruben Costas, a pôr em prática um estatuto de 168 artigos, distribuídos em 56 páginas.
Trata-se, na prática, de um tratado de independência administrativa e financeira. Autoriza a administração de Santa Cruz a reter a coleta de tributos, hoje gerida por La Paz. Submete a controle local a exploração dos recursos naturais e a definição das leis sobre a propriedade de terras, ameaçadas pelo plano de reforma agrária do governo.
Diferentemente do Brasil, um país federativo, a Bolívia é uma nação unitária. Os Departamentos estão integralmente submetidos às regras ditadas desde La Paz. Na prática, o estatuto que vai a voto em Santa Cruz tem os efeitos de uma constituição estadual.
O presidente Evo Morales trata o referendo deste domingo como um movimento “separatista.” Tacha-o de “racista”, contrário aos interesses da maioria da população, os 60% que, como ele, têm origem indígena. Diz que a votação é "ilegal". Não será, portanto, reconhecida, qualquer que seja o resultado. Seus auxiliares conclamam a população a boicotar as urnas.
A encrenca está apenas no começo. Nas pegadas de Santa Cruz, outros três Departamentos farão referendos para decidir sobre a autonomia: Beni e Pando, em 1º de junho; Tarija, em 22 de junho.
Juntos, esses quatro Departamentos compõe a chamada região Oriental, a mais rica da Bolívia. Que se contrapõe à região Ocidental, a mais pobre, onde vivem, em cinco Departamentos -La Paz, Oruro, Potosi, Chuquisaca e Cochabamba- os povos indígenas.
Supondo-se que o “sim” à autonomia prevaleça nos quatro Departamentos abastados, Evo Morales estará diante do mais retumbante desafio à sua autoridade de presidente. Ainda que não reconheça a legalidade das votações, estará diante de um fato político.
Na melhor hipótese, vai à mesa de negociações, com a disposição de ceder nacos de poder às administrações locais. No pior cenário, enfrenta o desafio à bala, com o risco de mergulhar a Bolívia num conflito civil de proporções imprevisíveis. Uma semana atrás, em discurso aos militares bolivianos, Evo Morales conclamou-os a defender a "unidade" do país.
Lula Marques/Folha Hugo Chávez, presidente da Venezuela, baixou decreto nacionalizando a Sidor (Siderúrgica do Orinoco). Vem a ser a maior produtora de aço da comunidade andina de nações.
A empresa havia sido privatizada há dez anos. Volta agora ao controle do Estado. Por que? Segundo Chávez, para que a empresa se coloque à frente da construção do socialismo e impulsione a “revolução bolivariana.”
A fundamentação, como se vê, é tão distanciada dos fundamentos econômicos quanto distante está o socialismo à Chávez da lógica que rege a modernidade política. Na véspera, o companheiro-índio Evo Morales, empurrara para dentro do Estado boliviano três petrolíferas e uma telefônica multinacionais.
Bom para Lula. O presidente brasileiro vai fincando raízes na América Latina como um ex-esquerdista que, rendido à lógica do mercado, recusa-se a rasgar dinheiro. Que venham os investidores!
Começaram a vigorar nesta sexta (2) os novos preços da gasolina e do diesel. Como má notícia não costuma andar desacompanhada, vai aqui uma outra: o reajuste do óleo vai encarecer o transporte de cargas em algo como 3% a 4%. Significa dizer que, a despeito das negativas oficiais, logo, logo você sentir os reflexos da encrenca nas gôndolas dos supermercados.
A estimativa de aumento do frete vem da CNT (Confederação Nacional dos Transportes). O vice-presidente da entidade, Nilton Gibson, estima que o reajuste do frete chegará primeiro ao transporte de grãos. E, num segundo momento, a todo o resto da safra.
Levando-se em conta que trator e ônibus urbano também são movidos a diesel, não é preciso ser um gênio da matemática para intuir que a mordida no bolso do consumidor, sobretudo o mais pobre, será doída. De resto, é preciso aferir o impacto da encrenca na curva da inflação.
Gilberto Marques/Divulgação A coisa foi anunciada há três dias, numa feira de agricultura, em Ribeirão Preto. Mas quase não foi notada. José Serra criou um programa destinado a tonificar a colheita da safra 2008-2009. Inclui uma espécie de “Bolsa Trator”.
A Nossa Caixa, casa bancária do Estado, oferece financiamentos para a aquisição de 6.000 tratores. Até aí, nada demais. A novidade é que os empréstimos terão taxa de juro zero.
Abriram-se também outros dois tipos de linha de crédito: 1) empréstimos de até R$ 3 mil, para que os agricultores comprem laptops e equipamentos de informática. Juros camaradas: 3% ao ano; 2) financiamentos de até R$ 100 mil, para obras de infra-estrutura nas fazendas, também a juros anuais de 3%.
Meirelles articula candidatura ao governo de Goiás
Presidente do BC informou a Lula sobre seus planos
Ouviu palavras de estímulo e pedido: ‘Seja discreto’
Em segredo, discute estratégia com líderes goianos
Se tudo der certo, entrega o cargo no final de 2009
Elza Fiúza/ABr
Henrique Meirelles costuma comparar o seu papel no governo ao de um goleiro no time de futebol. Gaba-se de ter conseguido defender o país dos riscos que rondam a grande área da economia. Há três meses, o guardião das balizas inflacionárias decidiu ir ao ataque.
Centro-avante de si mesmo, Meirelles aventura-se num campo em que o rigor matemático conta pouco. Enveredou pelos sinuosos caminhos da política. O presidente do Banco Central informou a Lula que deseja disputar o governo de Goiás, seu Estado natal, nas eleições de 2010.
Recolheu do chefe palavras de estímulo. Que interpretou como uma perspectiva de apoio. Ouviu também um pedido para que fosse discreto em suas articulações. Ambição política é coisa que, em tese, não condiz com a frieza que se exige de um comandante do Banco Central.
Munido do beneplácito do presidente da República, Meirelles foi aos subterrâneos. Ali, vem se encontrando secretamente com as principais lideranças políticas de Goiás. Move-se com desenvoltura suprapartidária.
A julgar pelo que diz nesses encontros, Lula lhe teria feito uma confidência: no baralho da sucessão presidencial, Meirelles seria uma espécie de curinga. Uma carta que o presidente poderia levar ao pano verde como elemento surpresa.
Meirelles tomou nota. Mas não parece ter levado a sério. Arma seu próprio jogo. Já na fase de montagem da estratégia, identificou dois adversários de peso: o senador Marconi Perillo (PSDB-GO) e o ex-senador Íris Rezende (PMDB-GO).
São dois ex-governadores do Estado. Têm a pretensão de disputar a sucessão estadual em 2010. Numa tentativa de driblar a dupla, Meirelles esboça uma aliança com o atual governador de Goiás, Alcides Rodrigues (PP), com quem conversa amiúde.
Alcides foi eleito em aliança com o tucano Perillo, a quem sucedeu. Hoje, porém, vive às turras com o mentor. Aproximou-se de Lula, que vem brindando sua administração com generosos repasses de verbas federais.
Meirelles cogita filiar-se ao PP, a legenda do governador. Concorreria ao Executivo estadual em coligação com o PMDB local. Alcides Rodrigues e Íris Rezende comporiam a chapa como candidatos ao Senado. Se os planos vingarem, o presidente do BC terá de sentar praça no PP até outubro de 2009, um ano antes da eleição. Pela lei, será obrigado a deixar o BC.
Embora pouco afeito às tramas da política, Meirelles não é neófito na matéria. Em 2002, foi às urnas como candidato do PSDB à Câmara. Estima-se que tenha feito a campanha mais cara de Goiás. Elegeu-se com a maior votação do Estado: 183 mil votos.
Antes que pudesse assumir a cadeira de deputado, foi convidado por Lula para dirigir o BC. Renunciou ao mandato, desfiliou-se do PSDB e tornou-se o principal fiador da estabilidade econômica.
Em 2006, na virada do primeiro para o segundo reinado de Lula, Meirelles esboçara a intenção de deixar o governo para disputar a sucessão goiana. Dissuadido pelo presidente, permaneceu em Brasília. E foi à caderneta de Lula na condição de credor.
Em todas as suas conversas, Meirelles menciona uma preocupação que soa obsessiva: não vai permitir que sua atuação como centro-avante do próprio projeto político conspurque a missão que se auto-impôs como goleiro da economia.
No último dia 16, Meirelles demonstrou que fala sério: patrocinou a elevação da taxa de juros de 11,25% para 11,75%. As críticas ainda soavam quando, na última quarta-feira (30), o presidente do BC converteu-se numa espécie de Rogério Ceni da economia.
O gol do goleiro veio na forma de um título inédito: a concessão ao Brasil, pela agência de risco Standard & Poor's, do grau de investimento. O desafio de Meirelles é, agora, converter heterodoxia econômica em capital político.
Reuters Os EUA, como se sabe, freqüentam a crise de alimentos que sacode o planeta no papel de vilão. Diferentemente do Brasil, que extrai biocombustível da cana, os americanos extraem álcool do milho. Enche o tanque dos carros e esvazia o cocho dos bichos e a mesa das gentes.
Numa tentativa de se reposicionar em cena, George Bush encaminhou ao Congresso, nesta quinta-feira (1), pedido de autorização para gastar US$ 770 milhões no combate à crise da comida. É pouco. Mas deve ser adicionada a verbas já autorizadas anteriormente.
Só no ano passado, a Casa Branca gastou US$ 2,1 bilhões no auxílio alimentar a 78 países. Nessa matéria, não há nação que gaste mais. E não parece plausível que, em 2009, sob crise, gaste-se menos.
“Estamos trabalhando para garantir que os cidadãos mais pobres recebam a comida de que necessitam”, disse Bush, ao anunciar o envio do pedido ao Congresso. “Em alguns dos países mais pobres do mundo, a alta dos preços pode significar a diferença entre comer no dia-a-dia ou ir para a cama com o estômago vazio”.
O Congresso deve assentir. Quem aprova o orçamento que prove a máquina de guerra norte-americana, não há de negar comida ao mundo. Se não o fizer por solidariedade genuína, há de fazê-lo por conveniência de marketing.
Folha de Boa Vista O processo contra a demarcação das reserva indígena Raposa Serra do Sol, que corre no STF, ganhará novas páginas na próxima quarta-feira (7). O governador de Roraima, Anchieta Júnior (PSDB), vai protocolar no tribunal uma ação civil contra o decreto do governo que delimitou as terras dos índios.
A nova ação será assinada pelo procurador-geral do governo de Roraima, Luciano Queiroz (na foto). O Supremo concedera prazo até 9 de maio para que o Estado representasse contra a reserva. A ação chegará ao tribunal dois dias antes.
Segundo o procurador-geral Queiroz, o texto conterá “provas” capazes de demonstrar que a demarcação, do modo como foi feita, é passível de anulação. Diz que o processo contém “nulidades várias”. Entre elas o laudo antropológico produzido pela Funai para justificar a entrega das terras aos índios. Uma peça “imprestável”, nas palavras de Queiroz.
A Raposa Serra do Sol foi demarcada sob Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Mas o processo só foi definitivamente homologado sob Lula, em 2005. Curiosamente, a guerra judicial contra o ato foi aberta por ação judicial movida, em 2005, por um petista, o senador Augusto Botelho (PT-RR). Que agora será adensada por nova ação de um tucano, o governador Anchieta Júnior.
Relator da ação patrocinada por Augusto Botelho, o ministro Carlos Ayres Britto determinou, por meio de liminar, a suspensão da operação que a Polícia Federal organizara para retirar produtores de arroz que resistem em deixar área indígena. O processo ainda depende, porém, de um julgamento do mérito.
Um dos pontos centrais da ação que será ajuizada pelo governo de Roraima é a alegação de cerceamento de defesa. Na época da demarcação, ainda no governo FHC, o Estado encaminhara à União uma série de recursos administrativos. Que, segundo o procurador Anchieta Júnior, não foram analisados.
A Funai estava ao ministro da Justiça da época, Nelson Jobim, hoje ministro da Defesa de Lula. Jobim excluíra da área de reserva as fazendas com titulação comprovada, as vilas e as sedes de municípios.
O Estado, porém, não se dera por satisfeito. Alegara que era preciso considerar também as terras não tituladas. Algo que continua sendo objeto de reivindicação. Segundo Luciano Queiroz, o que se discute não é a propriedade, mas o direito à posse das terras.
Na última segunda-feira (28), a Procuradoria da República enviou ao STF o seu parecer sobre a demarcação da reserva. O documento foi anexado ao processo movido pelo senador Augusto Botelho. Assina-o o vice-procurador Roberto Gurgel, sob endosso do procurador-geral Antonio Fernando de Souza.
No texto, o Ministério Público considera que a demarcação foi “plenamente regular”. Anota que a Constituição assegura aos índios o usufruto das terras por eles tradicionalmente ocupadas. Trata-se, na opinião do procurador-geral de Roraima, de mera “tese jurídica.”
Eis o que diz Luciano Queiroz: “A Procuradoria-Geral da República defende as comunidades indígenas. O Estado de Roraima também as defende e se orgulha de ter em seu território essa pluralidade de etnias e comunidades. Entretanto, não pode concordar com a forma como essas demarcações vêm ocorrendo, com a interferência de Organizações Não-Governamentais. O Brasil é maior do que as ONGs e do que os interesses internacionais. A soberania nacional e a integridade do território brasileiro devem ser respeitadas como manda a Constituição da República Federativa do Brasil.”
Há no STF uma tendência a descaracterizar o caráter “contínuo” da demarcação da reserva Raposa Serra do Sol. Confirmando-se essa linha de ação, seriam preservados os nacos de terras ocupados por famílias não-indígenas. Entre elas os arrozeiros que a PF planeja desalojar. Seja qual for a decisão, haverá barulho em Roraima.
Fernando Donasci/Folha Em ritmo de campanha, a ministra petista Marta Suplicy (Turismo) foi à festa organizada pela Força Sindical, para festejar o 1º de Maio. Ao discursar, a pré-candidata do PT à prefeitura paulistana foi brindada com uma sonora vaia (vídeo disponível aqui).
O deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da central sindical, interveio. Pediu à platéia, estimada em 1 milhão de pessoas, que ouvisse a ministra. “Ela é nossa convidada. Não sobe no palco quem é contra trabalhador”, disse.
Nada feito. Marta retomou o microfone. E as vaias recomeçaram. A ministra não terminou o discurso. "Não [fiquei constrangida]. Um pequeno grupo vaiou. Muita gente aplaudiu. Não dá para ir a uma reunião desse porte e não ter algumas pessoas que vaiam. Isso você tem de saber antes de vir. É normal, é natural", resignou-se.
O prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à releição com o apoio do governador tucano José Serra, não deu as caras. Segundo Paulinho, ele não foi convidado. Deve estar gradecendo o "desconvite". Geraldo Alckmin, cuja candidatura deve ser oficializada pelo PSDB na segunda-feira (5), foi a outro evento, na Praça Ermelino Matarazzo. Em entrevista negou atritos com Kassab.
"Eleição não é guerra. Eleição é um ato de amor às pessoas e à cidade. Não haverá nenhum problema, nenhum atrito", disse Alckmin. Então, tá! Kassab, a propósito, continua propugnando pela manutenção da aliança tucano-democrata em São Paulo. Aliança que desaguaria, obviamente, na candidatura dele. Um sonho que, a escassos quatro dias da oficialização da candidatura Alckmin, ainda contagia um pedaço do PSDB.
PS.: Depois de passar pelo ato organizado pela Força Sindical, Marta foi a um outro, promovido pela CUT. Ali, em meio a uma platéia mais afinada com o seu PT, os ouvidos da ministra foram massageados por relaxantes e prazerosos aplausos.
O presidente Evo Morales, da Bolívia, decidiu festejar o 1º de Maio bem ao seu modo: nacionalizou, por decreto, três multinacionais do ramo petrolífero e uma operadora telefônica. As canetadas foram dadas à luz do Sol, numa praça pública de La Paz.
O governo boliviano passou a deter o controle acionário –50% das ações mais uma—da Chaco (antes controlada pela British Petroleum), da Transredes (que pertencia à britânica Ashmore e à anglo-holandesa Shell).
A Companhia Logística de Hidrocarbonetos, até ontem controlada por investidores peruanos e alemães, passou a ser 100% da Bolívia. O mesmo ocorreu com a telefônica Entel, uma filial boliviana da italiana Telecom.
Na Venezuela, Hugo Chávez celebrou a data decretando um aumento de 30% do salário mínimo. Passou a valer o equivalente a US$ 372. Uma cifra incompatível com as chamas inflacionárias que roem a economia do país. Em Cuba, os trabalhadores foram brindados com a ausência de Fidel Castro. Mais: Raul Castro esquivou-se de discursar.
Depois do PMDB, Marta deve perder o PR para Kassab
O PTB, outro ‘aliado’ de Brasília, negocia com Alckmin
PSB e PDT também resistem à idéia de compor com PT
Presidente não parece propenso a atender aos apelos
Alan Marques/Folha A direção do PT pediu socorro a Lula. O partido deseja que o presidente entre no jogo eleitoral paulistano. Quer que ele ajude a convencer os “aliados” de Brasília a integrar a coligação de Marta Suplicy em São Paulo.
O petismo levou ao Planalto um apelo de contornos dramáticos. Argumentou que a entrada em cena do presidente é o único modo de o PT se contrapor à movimentação do governador tucano José Serra, empenhado em reeleger o prefeito Gilberto Kassab (DEM).
Depois de perder o PMDB, o PT vê fugir-lhe também a perspectiva de uma composição com o PR. Embora gravite em torno do governo Lula, o PR pende para um acerto com a dupla Serra-Kassab. Exatamente como fez Orestes Quércia.
Em diálogo direto com Lula e em reuniões com ministros palacianos, os operadores do PT esgrimiram a seguinte tese: Serra tornou-se um fator de desequilíbrio em São Paulo. Cavalga duas máquinas poderosas: a estadual e a municipal. O que lhe confere um poder de sedução que o PT paulista não tem.
O negociador do PR é o ex-deputado mensaleiro Valdemar da Costa Neto. Um personagem que não sabe o que é ideologia. Guia-se por vantagens. Já informou ao PT que se inclina na direção do Palácio dos Bandeirantes.
A aflição do PT aumenta à medida que se aproxima do final a fase de fechamento das coligações. O PR era, depois de Quércia, a aposta que o partido de Lula considerava mais segura. Todos os outros “aliados” do plano federal torcem o nariz para Marta.
O PTB do ministro José Múcio (Coordenador Político de Lula) está, em São Paulo, sob o jugo de um deputado estadual que tem horror ao PT. Chama-se Campos Machado. É unha e cutícula com o tucano Geraldo Alckmin, cuja candidatura será oficializada na próxima segunda-feira (5).
O chamado bloquinho (PSB, PCdoB e PDT) trabalha com duas opções. Nenhuma delas se chama Marta Suplicy. Ou lança uma candidatura própria –hoje a hipótese mais provável— ou se acerta com Alckmin. Em São Paulo, a prioridade desse grupo, sob influência da candidatura presidencial de Ciro Gomes (PSB), é prejudicar Serra.
No esforço para convencer Lula a descer à planície da disputa municipal, o PT argumenta que a ação de Serra desvirtua o sentido da coalizão partidária que se formou em Brasília.
O PT alega que o presidente teria de lembrar às legendas que o apóiam que a coalizão tem, no longo prazo, um objetivo que transcende ao mero provimento de suporte congressual ao governo federal. Que seria o de se acertar em torno de uma candidatura à sucessão presidencial.
O diabo é que, em outras praças, o PT faz o oposto do que cobra dos “aliados” em São Paulo. Nega apoio ao PMDB em Salvador e em Campo Grande. Investe contra a viabilidade da candidatura do PSB em Belo Horizonte. O próprio Lula desaprova o comportamento do PT.
Quando confrontado com o drama do PT paulistano, Lula demonstrou disposição de conversar. Não moveu, porém, um dedo. A última abordagem direta ao presidente ocorreu há cinco dias. Na última segunda-feira, o apelo foi renovado, dessa vez a ministros do PT. Até agora, nada.
Horas depois do anúncio de que o Brasil obtivera o título de “grau de investimento”, Lula aproveitou a primeira aparição pública prevista na agenda para soltar fogos. Deu-se em Maceió, na reunião do conselho deliberativo da Sudene. "É uma conquista do povo brasileiro, que esperou por isso durante tantos e tantos anos", disse o presidente. "É o aval de que passamos a ser donos do nosso nariz e podemos determinar a política que acharmos convenientes para o Brasil." A julgar pelo que diz a economista que coordenou a análise da Standard & Poor’s, a agência de risco que promoveu o Brasil, Lula deveria ter dividido os louros com FHC -confira abaixo.
Wilson Dias/ABr A Presidência da República oferece àquele que a ocupa uma tribuna de alta ressonância. Algo que Theodore Roosevelt chamou de "bully pulpit" (púlpito formidável). Amplificado pelo eco que produz na TV, no rádio e nos jornais o verbo presidencial costuma alçar às alturas.
Nesta quarta-feira, Lula armou seu púlpito em Maceió. Discursou na reunião do conselho deliberativo da Sudene. O auditório estava pleno de convidados. A platéia incluía quatro ministros e onze governadores de Estado.
Em meio ao anúncio de créditos para o Nordeste, o presidente, como que movido pela aura de santidade que lhe conferem as pesquisas, sentiu-se à vontade para distribuir uma indulgência. São Lula remiu os pecados de Cid Gomes (PSB), o governador do Ceará.
Para Sua Santidade o presidente, a imprensa peca ao explorar a caravana aérea patrocinada por El Cid. "Certamente, se ao invés da sua sogra você tivesse levado um empresário no avião, não teria tido problemas", disse Lula, sob aplausos. "Não estou dizendo que é certo levar sogra ou não. O que estou dizendo é que as pessoas [os jornalistas] precisam dar a informação e deixar o povo julgar."
São Lula desperdiçou boa parte de sua fala para esmiuçar o caso da sogra. Disse coisas assim:
"Tem coisa muito mais importante –não que a sogra não seja importante— que você [Cid Gomes] faz e que nunca apareceu nacionalmente";
"Nós precisamos, de vez em quando, ter coragem de dizer algumas coisas que precisam ser ditas, porque senão a pessoa humilde não sabe que um avião alugado não é alugado por pessoa. Um avião é alugado por quilometragem, ele pode ter um passageiro ou pode ter dez, o preço é o mesmo”;
"Quem já alugou avião aqui sabe disso. Você poderia ter levado a sua sogra como poderia ter me levado. O que eu acho estranho é que poder-se-ia ter dado a notícia: a sogra do governador viajou com ele. Não. Fazem disso uma tese";
"Eu acho que isso não contribui com a política, porque na hora que as pessoas começam a denegrir a imagem do político, o que vem depois é pior do que o político. O que vem depois não é mais sadio";
"Nós não podemos permitir que um companheiro da qualidade do Cid seja mostrado a nível nacional apenas porque atendeu a um pedido da mulher para levar a mãe da mulher. Portanto, a minha solidariedade companheiro. Eu sei o que é isso e você tem a minha solidariedade."
Quando cunhou a expressão "bully pulpit", Theodore Roosevelt quis dizer que o presidente da República deve vigiar o que diz. Suas palavras precisam irradiar a luz do bom exemplo. Não é a primeira vez que Lula passa a mão na cabeça de políticos e gestores públicos pilhados em práticas ruinosas.
Nada parece abalar, porém, a popularidade de São Lula. A devoção é mesmo algo sublime. Não há sentimento mais belo. Quando dedicada a um santo fictício, aí mesmo é que ela se torna comovente. Reverenciemos, pois, os que, mãos postas, cultuam incondicionalmente o presidente.
Por ordem de Lula, reuniram-se nesta quarta-feira (30), em Brasília, os ministros Guido Mantega (Fazenda), Reinhold Stephanes (Agricultura) e Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário). Discutiram a crise de alimentos que se espraia pelo mundo. Acertou-se que, nas próximas semanas, o governo anunciará um pacote de providências para aumentar a produção brasileira.
Entre as providências em cogitação estão: 1) Aumento do crédito; 2) Aperfeiçoamento do sistema de garantia de preços à produção agrícola; 3) Ampliação dos seguros concedidos aos agricultores; e 4) Medidas de estímulo à modernização das lavouras.
A discussão ocorre no instante em que as pastas da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário definem os seus respectivos planos de safra. No pacote que começa a ser esboçado, o governo planeja dar atenção especial a oito tipos de produtos: arroz, feijão, milho, mandioca, trigo, leite e carne (bovina e de aves).
Na avaliação do governo, expressa em declarações de Guilherme Cassel, a crise, além de séria, tem tudo para ser longeva. Coisa para cinco a dez anos. Diz o ministro do Desenvolvimento Agrário:
“Uma análise geral aponta que esta crise é real e tem muitas razões, entre elas o fator especulativo, questões climáticas no mundo e o aumento da demanda dos países em desenvolvimento. Esses fatores jogam os preços para cima. Por isto, sabemos que esta crise pode ser de longa duração. Os fundos de ações, especialmente depois da crise norte-americana, migraram para as commodities, comprando até três safras antecipadas. Isto nos aponta que a crise pode ser de cinco a 10 anos”.
Embora menos sujeito aos efeitos da crise, o Brasil não está imune a ela. Longe disso. Citando dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), Cassel diz que, nos últimos 36 meses, o preço dos alimentos subiu, no mundo, uma média de 83%. No Brasil, a alta foi de 25%. Há impacto direto no comportamento da inflação, que aponta para cima. Daí a decisão do governo de agir.
Como previsto, os preços dos principais derivados do petróleo subiram. A partir desta sexta-feira (2), a gasolina sobe 10%; o diesel, 15%. Simultaneamente, o ministro Guido Mantega (Fazenda) anunciou uma providência que visa impedir que os reajustes tonifiquem os índices de inflação.
Segundo Mantega, o governo vai reduzir o valor da Cide (Contribuição de Intervenção de Domínio Econômico), que incide sobre os preços dos combustíveis. No caso da gasolina, o valor da Cide cairá de R$ 0,28 para R$ 0,18 por litro. Com isso, diz o ministro, o impacto do aumento da gasolina no bolso do consumidor será “zero”.
E quanto ao diesel? Bem, neste caso, a redução da Cide será menor –cai de R$ 0,07 para R$ 0,03 por litro. O que fará com que o peso do reajuste de 15% decretado pela Petrobras seja reduzido, no bico da bomba, para 8,8%. Cabe recordar que caminhão é movido a diesel. Portanto, não foi eliminado por completo o risco de repasse do reajuste para os preços dos produtos que cortam o país nas carrocerias.
A poda na Cide privará o Tesouro de uma arrecadação estimada entre R$ 2,5 bilhões a R$ 3 bilhões. Nesse momento, porém, a prioridade do governo é manter sob controle os indicadores inflacionários.
A economia brasileira obteve, nesta quarta-feira (30), um título que acomoda o Brasil no seleto grupo dos países que oferecem segurança a investidores estrangeiros. A Standard & Poor’s, uma das principais agências de avaliação de risco do planeta, concedeu ao Brasil o título de “investment grade” (grau de investimento).
Trata-se de um feito notável. Que se torna ainda mais vistoso por ter chegado num instante em que o mundo ainda digere os efeitos da crise financeira que rói a economia dos EUA. Significa dizer que, aos olhos da Standard & Poor’s, o Brasil tornou-se um bom pagador. Chega com atraso. Mas chega.
Em conseqüência, o país passa a ser visto como porto seguro, muito seguro, seguríssimo para a realização de investimentos externos. O que deve fazer com que sejam despejados no mercado nacional recursos provenientes de grandes fundos internacionais que só investem o dinheiro de sua clientela em praças estáveis. A notícia teve repercussão instantânea na bolsa.
No comunicado que emitiu para informar a novidade ao mercado, a agência norte-americana de risco diz que a elevação do grau do Brasil decorre da "maturidade das instituições do Brasil e da política monetária", além da "melhoria das tendências de crescimento" econômico do país.
Contribuiu para a elevação da nota do Brasil o fato de o país ter equacionado o problema da dívida externa. Uma dívida que, nas palavras da agência de risco, “caiu dramaticamente”. Em fevereiro, o Banco Central anunciara que o Brasil tornara-se credor externo líquido. Ou seja, acumulara reservas internacionais em cifras que superam o valor da dívida.
O texto da Standard & Poor’s faz ressalvas. Anota, por exemplo, que a dívida pública brasileira "permanece mais alta do que os outros com outros países BBB". A despeito disso, a agência acomodou a classificação de risco do Brasil na categoria “estável”. Algo que, considerando-se a metodologia da agência, sinaliza a perspectiva de que a nova classificação atribuída à economia brasileira não será alterada nos próximos dois anos.
Os economistas de dentro e de fora do governo já esperavam que o Brasil atingisse o grau de investimento. Havia dúvidas, porém, acerca da data em que isso ocorreria. A maioria esperava que a nova classificação só viesse em 2009, depois de digerida completamente a crise dos EUA. Assim, a decisão da Standard & Poor’s pegou o mercado de surpresa.
Em termos políticos, a novidade empurra para dentro da biografia de Lula um êxito com potencial para preservar o prestígio do presidente nas alturas. Pode-se argumentar que Itamar Franco e FHC, responsáveis pelo Plano Real, gênese da virada econômica brasileira, são donos de um pedaço dessa vitória.