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O governo, os cartões e o 'bom ladrão' de Vieira

Deu-se há 11 dias. O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) concedia uma entrevista coletiva. A alturas tantas, lhe perguntaram o que achava da idéia de instalar uma CPI no Congresso para investigar os cartões do governo. "Com toda a sinceridade, acho que não é o caso. Vai fazer o quê? Convocar um ministro de Estado para explicar o gasto de R$ 8,30 com uma tapioca? Vai virar a CPI da Tapioca?" Em tempos de Carnaval, poder-se-ia levar o comentário do ministro na base da galhofa. Mas não seria educado fazê-lo. Não em respeito a Paulo Bernardo, mas em consideração ao contribuinte, o financiador da tapioca. Assim, pode-se deduzir que o ministro deve ter desejado dizer algo assim: ainda que seja verdadeira, a acusação é uma honra para o governo do companheiro Lula, que, ao praticar desvios, é comedido. Ou, por outra: Sob Lula, se há roubo, rouba-se pouco. A pilhéria de Paulo Bernardo ganha ossatura antropológica quando vista sob a ótica de um clássico: o "Sermão do Bom Ladrão", do padre Antônio Vieira. Deus pôs Adão no paraíso, anotou Vieira, com poder sobre todos os viventes, como senhor absoluto de todas as coisas criadas. Exceção feita a uma árvore. Eis que, com a cumplicidade da mulher, Adão provou do único fruto que não lhe pertencia. "E quem foi que pagou o furto?", pergunta Vieira. Ninguém menos que Deus, materializado na pele de Jesus. Condenado à cruz, pregado entre ladrões, ofereceu um exemplo aos príncipes. Um sinal de que são, também eles, responsáveis pelo roubo praticado por seus seguidores.
Ao sobrepor a imagem da "tapioca" de um reles ministro à farra global dos cartões, Paulo Bernardo como que contrapôs a periférica pasta dos Esportes ao poderoso Palácio do Planalto, onde os gastos, além de mais portentosos, são secretos. Sem querer, o titular do Planejamento evocou outro trecho do "Sermão do Bom Ladrão".
Conta o padre Antônio Vieira que, navegando em poderosa armada, estava Alexandre Magno a conquistar a Índia quando trouxeram à sua presença um pirata dado a roubar os pescadores. Alexandre repreendeu-o. Atrevido, o pirata replicou: "Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?".
Citando Lucius Annaeus Seneca, um austero filósofo e dramaturgo de origem espanhola, Vieira lapidou o seu raciocínio: se o rei da Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, todos -rei, ladrão e pirata- merecem o mesmo nome.
Assim, a malversação de uma “tapioca” ou o desvio de grandes somas são irrupções de um mesmo fenômeno. O tamanho do desvio importa pouco. De troco em troco também se chega ao milhão. E quem se lambuza na tapioca mais facilmente o fará no grande pote de mel em que se transformaram os cartões corporativos, tão úteis e indispensáveis quanto perigosos. Curiosamente, nas pegadas da entrevista de Paulo Bernardo, o ministro Orlando Silva (Esportes) restituiu à bolsa da viúva R$ 30.870,38. Referem-se à tapioca e a otras cositas más. A ministra Matilde “R$ 171 mil” Ribeiro (Integração Racial) foi levada pelo governo ao microondas. E, não resistindo ao calor, pediu para sair. E o caso dos cartões continua pendurado nas manchetes. A “tapioca” revelou-se mais indigesta do que Paulo Bernardo poderia supor. Tornou-se símbolo de um Éden conspurcado. Em meio ao paraíso dos cartões, os agentes do governo deixam-se seduzir, com inaudita facilidade, pelo fruto proibido. Ou pela "tapioca" alheia.
Escrito por Josias de Souza às 19h45
Deve-se a Lauro Jardim (só para assinantes de Veja) a descoberta da última do Lula. Escreveu o repórter:
“Sem alarde, o governo está trabalhando numa idéia que nasceu destinada a fazer barulho: trocar todas (repita-se: todas) as geladeiras das famílias pobres do país por geladeiras novas. Há duas semanas, Lula encomendou ao ministro Edison Lobão um estudo sobre como isso poderia ser feito. O que se pretende é dar financiamento de pai para filho nos bancos federais aos pobres. Ao comprarem a geladeira nova, aqueles que entrarem no programa terão de deixar a geladeira velha nas lojas. O destino delas já estaria traçado: seriam compradas pelas siderúrgicas do país. Jorge Gerdau, em conversa com Lula, deu o o.k. Além de movimentar o comércio e a indústria, um dos motes do projeto será a economia de energia que a troca de geladeiras proporcionaria.”
Se a idéia for materializada na cozinha dos brasileiros pobres, o poder de Lula nas eleições de 2010 pode ser maior do que supõem até os seus adversários. De um lado, o excesso de bondade tonificaria a imagem de supereleitor atribuída ao presidente. De outro, os candidatos que se animassem a subir no palanque para dirigir-lhe impropérios, se arriscariam a levar um gelo do eleitor.
Escrito por Josias de Souza às 18h33
Cartão de crédito virou um tema obrigatório de reunião
Folha
Um partido chamado “dos Trabalhadores” enfrenta os mesmos problemas de uma mulher chamada “Cândida”. Seu comportamento pode desmentir o nome a qualquer momento.
Ninguém em sã consciência espera que uma Cândida seja sempre pura. Do mesmo modo, a legenda de Trabalhadores vive sob a constante ameaça de virar notícia engraçada –como essa dos ministros que se esbaldaram no cartão de crédito. Nada mais distanciado da pregação proletária do que o dinheiro de plástico, ícone do capitalismo e do consumismo burguês.
Neste sábado, o PT reuniu o seu diretório, em Brasília, para recompor sua Executiva Nacional. E a crise dos cartões estava lá, boiando na atmosfera, como que a intimar os presentes a dizer meia dúzia palavras.
A composição da Executiva fomentou o dissenso. O principal cargo em disputa era o de secretário-geral da legenda, segundo posto depois da presidência. Ganhou o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), do grupo do ministro Tarso Genro (Justiça). Perdeu Jilmar Tatto, unha e carne com a ministra Marta Suplicy (Turismo), próximo de Arlindo Chinaglia (PT-SP).
Genro festejou a cunha que seu grupo logrou enfiar no coração do grupo majoritário, de Ricardo Berzoini e da tropa do mensalão. “O partido está totalmente desbloqueado e a vida democrática está retomada", disse o ministro. O preterido Tatto acha coisa diferente: "Remontaram o campo majoritário. É uma afronta. A segunda força [o grupo de Marta] não se fez representada”, vociferou.
O debate sobre os cartões produziu um denso consenso. A crise é “artificial”, opinou Tarso Genro. Acha que o governo não deve ser criticado, mas "elogiado" pela transparência. Esquece-se de que os gastos secretos seguem rumo à lua. E quanto a Matilde “R$ 175 mil” Ribeiro? Para o ministro da Justiça, a ex-colega não cometeu “abusos” ao manusear o cartão. Incorreu em “erros”.
Mas e os R$ 421,16 deixados num free shop? “A compra pessoal foi um engano”, ecoou Ricardo Berzoini (PT-SP). “A ministra Matilde assumiu sua responsabilidade administrativa e teve uma atitude digna ao colocar seu cargo à disposição. Ela assumiu sua responsabilidade e não teve má fé".
Berzoini animou-se até a elogiar a gestão de Matilde, desconhecida do brasileiro antes de ser pendurada nas manchetes associada ao cartão de crédito. “O PT entende que a companheira teve uma gestão brilhante".
O sucessor de Matilde, levada ao microondas na semana passada, será um petista, apressou-se em informar o presidente do partido. Para sorte do contribuinte, será um petista sem cartão. O Planalto, como se sabe, decidiu que, doravante, ministros não levarão mais a tentação dentro do bolso (ou da bolsa).
PS.: Ao final da reunião do diretório, o PT aprovou, por unanimidade, uma nota de apoio à ex-ministra Matilde Ribeiro. No texto, tardio, o petismo insinua que a dona dos mais vistosos extratos de cartão da Esplanada foi vítima de "preconceito".
Escrito por Josias de Souza às 18h09
Abin renova biblioteca e gasta R$ 50 mil em livros
Lista de compras do órgão de espionagem traz 550 títulos
Tratam de China, Cuba, terrorismo, jornalismo, ditadura...
Relação de autores vai de Noam Chomsky até Paulo Freire
A modernização da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) chegou à biblioteca. A agência de espionagem do governo federal, sucessora do truculento SNI, fará no próximo dia 18 de fevereiro uma inusitada licitação. Vai comprar livros. Forrará as estantes com 550 novos títulos.
A licitação seguirá a sistemática do pregão eletrônico. O edital anota o valor máximo que a agência se dispõe a pagar: R$ 49.997,84. Ganha a empresa que oferecer o menor preço. Um passeio pela lista de livros, também incluída no edital, demonstra como, sob a direção do delegado Paulo Lacerda, a Abin deseja “fazer a cabeça” de seus agentes.
Há na relação, por exemplo, obras que contêm visões honestas e desapaixonadas acerca do regime militar no Brasil. Duas delas foram escritas, em parceria, por Maria Celina Soares D’Araújo, pesquisadora da FGV, e Gláucio Ary Dillon Soares, professor aposentado da Universidade da Flórida. A primeira chama-se “Os Anos de Chumbo - A memória militar sobre a repressão”. A outra, “A Volta aos Quartéis – A memória militar sobre a abertura.”
Entre os cerca de 30 livros já escritos por Noam Chomsky, a Abin decidiu levar à estante três: “Contendo a Democracia”; “A Minoria Próspera e a Multidão Inquieta”; “Para Entender o Poder”, esse último uma coletânea de ensaios organizada por John Schoeffel.
Chomsky é celebrado como um dos mais importantes intelectuais contemporâneos. Ultrapassou as fronteiras do seu país, os EUA, praguejando contra a política externa “intervencionista” de Washington e associando-se a temas que vão do respeito aos diretos humanos a ataques aos “vícios” da mídia. Sua leitura não admite meio-termo. Inspira paixões e ódios. A chamada “esquerda” do PT, por exemplo, o ama.
Outra evidência de que a lista de compras da Abin não passou por filtros ideológicos está na inclusão de “A Pedagogia do Oprimido”, do educador Paulo Freire. Um livro em que a realidade brasileira é como que reduzida a um confronto entre “opressores” e “oprimidos”. O texto ensina que a ascensão dos segundos depende de um “parto” que os livre da condição “servil” que lhes é imposta pelos primeiros.
A esquerda brasileira –ou o que restou dela— endeusa Paulo Freire. A chamada direita torce o nariz para ele, embora caibam nos dedos de uma mão os que se animem a desancá-lo em público. Entre as referências que Freire empilha no livro selecionado pela Abin estão, por exemplo, Mao Tsé-tung e Lênin.
Há um pouco de tudo na lista formulada pela Abin. Do romance “O Afegão”, de Frederick Forsyth, ao livro técnico de medicina “Anatomia Humana”, de Kent M. Van Der Graaff. Há inúmeras obras sobre o terrorismo. Há livros sobre o mundo árabe...
Há volumes com diferentes enfoques sobre a Amazônia (da devastação à biopirataria). Há compêndios de direito. Há uma obra sobre nanotecnologia. Há ensaios sobre pedagogia e psicologia. Há textos que ensinam técnicas de entrevistas jornalísticas. Há os manuais de redação de três dos principais jornais brasileiros: Folha, Estadão e Globo. Ah, sim, a lista também inclui obras sobre espionagem.
Em relação a Cuba, a Abin parece mais interessada no cenário que se arma para depois da morte do ditador Fidel Castro do que no passado revolucionário da ilha. Vai comprar dois livros sobre o tema, ambos escritos em língua inglesa: “After Fidel” (Depois de Fidel)”, de Brian Latell; e “Cuba After Castro” (Cuba depois de Castro), de Edward Gonzalez.
Os espiões da agência terão à disposição também um lote de livros sobre a Índia, a China e a Rússia, países que dividem com o Brasil a sigla BRIC, menção obrigatória nos círculos de debate sobre nações emergentes. A Abin pautou-se pelo realismo. “A China Sacode o Mundo”, de James Kynge, eis um dos títulos inseridos no edital de licitação. “Porque o Brasil não é um país de Alto Crescimento”, de João Paulo dos Reis Veloso, eis outro.
Serão adquiridas ainda obras sobre todos os tipos de delitos: da lavagem de dinheiro ao crime organizado, incluindo a cooptação de crianças pelo tráfico. Em meio a uma dúzia de livros sobre corrupção, a Abin selecionou preocupou-se em munir-se de relatos sobre todas as esferas de poder. Do federal –“Corrupção no Poder Público – Peculato, concussão, corrupção passiva e prevaricação”, de Waldo Fazzio Jr.— ao municipal –“Crimes Contra as Finanças Públicas e Crimes de Responsabilidade de Prefeitos”, de Cezar Bitencourt.
Incluíram-se na relação livros que parecem voltados a lapidar as habilidades dos funcionários públicos que se dedicam à bisbilhotagem e aos interrogatórios. Por exemplo: “Como Identificar a Mentira – Sinais não-verbais de dissimulação”, obra de psicologia escrita por Mônica Portella.
Adorna a relação da Abin, de resto, uma biografia de personagem obrigatória do universo da espionagem: “Mata Hari – A Amante Fatal”, de Julie Wheelwright. Como se sabe, Mata Hari, cujo nome verdadeiro era Margaretha Geertruida Zelle, é aquela célebre dançarina que, durante a Primeira Guerra Mundial, fez da alcova ninho de intrigas. Numa Paris conflagrada, trançava pernas ora com oficiais franceses ora com militares alemães.
Embora suas atividades como agente dupla sejam até hoje motivos de controvérsia, a cortesã foi acusada, julgada, condenada e executada pela prática do crime de espionagem.
Escrito por Josias de Souza às 06h02

- JB: CPI dos Cartões é inevitável
- Folha: PT e PSDB abrem disputa em torno de CPI dos cartões
- Estadão: Conta de gastos secretos do governo dobra em 4 anos
- Globo: Cartão corporativo: regras confusas facilitam abusos
- Gazeta Mercantil: Cesp faz Serra e Aécio entrarem em choque
- Correio: Libertada após 14 dias em cadeia masculina
- Valor: BNDES exigirá garantia inédita no crédito à Oi
- Jornal do Commercio: Comércio do Agreste afunda com lei seca
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Escrito por Josias de Souza às 03h44
Pelicano
PS.: Via sítio Movimento das Artes.
Escrito por Josias de Souza às 03h39
A Presidência da República enviou ao blog, nesta sexta-feira (8), uma carta com esclarecimentos sobre notícia veiculada aqui há dois dias. Tratava de inquérito civil aberto há duas semanas pelo Ministério Público do Distrito Federal.
Há no processo auditorias feitas pelo TCU nos cartões de crédito do Planalto. Num dos relatórios, obtido pelo repórter, levantam-se suspeitas quanto à hospedagem da comitiva de viagem do presidente da República.
Em sua carta, a presidência diz que as dúvidas apontadas pelos auditores já foram devidamente sanadas. Somavam R$ 18.127 as despesas que o tribunal tachara de irregulares. Desse total, anota a correspondência do Planalto, só R$ 1.250,00 resultaram, de fato, de um “pagamento indevido”. O dinheiro, diz o texto, “foi ressarcido ao Tesouro Nacional.”
A auditoria do TCU, informa o Planalto, já foi concluída. Resultou em acórdão aprovado pelo tribunal em 28 de março de 2007. É verdade. Porém, os papéis colecionados pelos auditores –nesta e em outras duas auditorias—foram anexados ao inquérito da procuradoria da República. Um inquérito que não terminou. Ao contrário, acaba de começar. Foi aberto em 23 de janeiro de 2008.
Em relação à viagem de Lula, o TCU levantara três suspeitas:
1) Pagamento de 22 diárias de pessoas estranhas à comitiva oficial (R$ 3.030). O Planalto esclareceu ao tribunal que os supostos “não-integrantes” da comitiva “faziam parte da coordenação de segurança [...] ou eram membros da tripulação.”
2) Sobrepreço no valor de diárias (R$ 13.622). De acordo com a explicação da presidência, o hotel cobrara valores mais altos porque, no período da viagem presidencial, ocorria na cidade “uma das maiores feiras do agronegócio no país.”
3) Pagamento de diárias de membros da comitiva em período superior àquele em que estiveram hospedados no hotel (R$ 1.250). Nesse ponto, a presidência reconhece que o gasto foi “indevido”. Alega que se tratou de um “erro.” E diz que o dinheiro foi devolvido.
Afora as dúvidas relacionadas à viagem de Lula, a auditoria do TCU apontou outras impropriedades. Referem-se a faturas do período de setembro de 2002 a julho de 2005. Verificou-se que foram levadas às prestações de contas arquivadas no Planalto notas fiscais fraudadas –“calçadas”—. Muitas foram emitidas por empresas em situação irregular com os fiscos locais. Outras vieram de firmas cujo endereço foi dado por “inexistente”.
Na carta que enviou ao repórter, o Planalto sustenta que os problemas não dizem respeito ao comprador, mas aos vendedores. Anota que o próprio TCU entendeu que, “por se tratar de irregularidades situadas na esfera de competência de órgãos de fiscalização tributária, as informações da auditoria deveriam ser encaminhadas aos órgãos de controle fiscal das esferas federal, estadual e municipal.”
De fato, o TCU enviou o papelório aos fiscos das três esferas da federação. Remeteu-o também para o Ministério Público. Daí a abertura do inquérito. Nesta sexta-feira, conforme já noticiado, descobriu-se que uma das notas fiscais emitidas por uma empresa que os auditores do tribunal não conseguiram localizar refere-se ao aluguel de dois automóveis blindados. Foram utilizados pelo ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), em 2004.
No corpo do relatório que expôs o resultado da apuração do TCU, os auditores anotaram que o tribunal tem poderes limitados. Não pode, por exemplo, determinar a quebra de sigilos fiscal e bancário. Algo que, munido de autorização judicial, o Ministério Público terá condições de fazer.
Escrito por Josias de Souza às 00h42
Às vezes, para começar uma briga, basta uma palavra. Ou meia dúzia de cartões de crédito. Espremido pelo PSDB em Brasília, o PT decidiu partir para o revide em São Paulo. Simão Pedro, o líder petista na Assembléia Legislativa, que na véspera não enxergara razões para uma CPI dos cartões paulistas, deu meia-volta. Anunciou que o petismo vai coletar assinaturas para a abertura da comissão estadual.
Seria uma briga sem sentido se só um dos lados não tivesse razão. Mas, neste caso, falta razão às duas partes. Sob Lula torraram-se R$ 75,6 milhões com cartões de crédito em 2007. Sob Serra, os cartões sorveram das arcas estaduais R$ 108.384.268,26.
O tucanato alega que São Paulo não é Brasília. Diz que seus cartões não são de crédito, mas de débito. Afirma que os gastos não são pessoais e mantiveram-se nos limites estreitos do que determina a lei. Há, porém, um incômodo detalhe. As alegações do governo paulista carecem de um confronto com a transparência.
Na esfera federal, a maioria das despesas feitas com dinheiro de plástico foram levadas a um portal mantido ao alcance de qualquer contribuinte com acesso a computadores. Ali, foram recolhidos os dados que derrubaram uma ministra, forçaram um ministro a devolver mais de R$ 30 mil à bolsa da Viúva e emparedaram o presidente e seus familiares.
Antes, Lula e sua turma também diziam que seus gastos eram limpos e legais. Agora, sob o pretexto fajuto de preservação da segurança nacional, o Planalto começa a arrancar da internet as informações que conduzem à despensa do Palácio da Alvorada e à vizinhança de Lurian, a filha do presidente.
Na seara estadual, os gastos só estão disponíveis nos computadores da Assembléia Legislativa. Para chegar a números frios, desacompanhados do devido detalhamento, exige-se uma senha que só os deputados possuem. Ou seja, no caso dos cartões paulistas, a alegada regularidade reclama um banho de luz.
Na política, uma guerra travada em campo aberto costuma resultar na paz costurada nos subterrâneos. No caso específico, não é despropositado supor que sujos e mal lavados busquem uma composição longe dos olhos da platéia. Todo cidadão de bem deve conspirar contra esse conluio. Que briguem! Que se esmurrem! Que venham os pratos limpos!
Escrito por Josias de Souza às 19h40
EUA agora 'bisbilhotam' até laptops de viajantes

A paranóia que o “efeito Bin Laden” inoculou no sistema de segurança dos EUA parece não ter fim. Os agentes norte-americanos que trabalham nas alfândegas agora inspecionam até equipamentos eletrônicos dos viajantes. A coisa descambou para a intrusão. Chega-se mesmo a exigir dos passageiros que abram os seus laptops e forneçam as respectivas senhas, para que os agentes perscrutem os dados arquivados na máquina. A inspeção alcança também câmeras fotográficas e celulares. Os mais azarados têm os equipamentos apreendidos. Acossada por protestos, o serviço alfandegário dos EUA alega que revista eletrônica não tem caráter racial. Os equipamentos são virados do avesso para que se verifique se guardam dados ligados ao terrorismo, ao narcotráfico, à pornografia infantil e outros crimes. Embora cada vez menos potente, os EUA continuam sendo uma potência. Uma potência que gosta de recorrer à guerra para exibir o seu poder. Dos onze últimos presidentes norte-americanos, excetuando-se Jimmy Carter, todos espetaram a guerra na biografia. Algumas justificáveis e até festejadas. Outras nem tanto. A Franklin Roosevelt e Harry Truman coube a Segunda Guerra Mundial. Truman ainda legou a guerra da Coréia ao sucessor Dwight Eisenhower. John Kennedy malogrou no malsucedido desembarque na Baía dos Porcos, em Cuba. Lyndon Johnson e Richard Nixon engancharam-se no vexame do Vietnã. Gerald Ford amargou o Vietnã no seu ocaso. Fechado o parêntese da exceção Jimmy Carter, sobreveio Ronald Reagan. Prevaleceu contra numa luta desigual contra um adversário fraco: a ilhota caribenha de Granada. , George Bush, o pai, depois de apear Noriega do poder no Panamá, foi à guerra no Golfo, para forçar o Iraque a retirar-se do Kuwait. Sob Bill Clinton, a máquina de guerra dos EUA compôs as tropas internacionais que guerrearam no Kosovo. George Bush, o filho, foi apresentado ao outro lado da guerra. O 11 de Setembro manchou de sangue o quintal dos EUA. Bush foi às armas no Afeganistão. Mas o escalpo de Bin Laden continua firme sobre o pescoço. Para não perder viagem, Júnior foi ao Iraque para completar um serviço que o pai deixara pela metade. Mandou Saddam Hussein à cova. E acomodou no próprio colo um Iraque caro e insolúvel. O império já teve inimigos respeitáveis. O nazismo e Hitler. A Guerra Fria, Stálin e Kruschev. Os bravos vitcongs e Ho Chi Minh. Desde Reagan, os adversários de verdade vêm escasseando. A intervenção no Iraque teve de escorar-se em inexistentes estoques de armas químicas. No acaso da gestão Bush, sobraram as ameaças reais –a ruína econômica e a recessão, a invasão dos produtos chineses... –e um par de rivais fanfarrões –Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad. De resto, ao esticar as fronteiras de seus interesses estratégicos para localidades tão distantes quanto o Oriente Médio, os EUA colecionaram inimigos anônimos. O mais nefasto deles é o terror. Trava-se agora uma guerra do MacWorld contra o Jirad. O neo-inimigo dos EUA, invisível e matreiro, refugia-se nos esconderijos mais improváveis. O império caça-o nas cavesnar do Afeganistão e, veja você, até nas estranhas do laptop de um viajante inocente dos aeroportos de Nova York e Miami. A que ponto chegou o império!
Escrito por Josias de Souza às 18h40
Raimundo Paco
Aos pouquinhos, a farra dos cartões governamentais vai se transformando numa encrenca suprapartidária. Iluminando-se os subterrâneos financeiros da gestão de José Serra no governo de São Paulo, descobre-se que o tucanato comparece à encrenca dos cartões em posição nada confortável.
Notícia veiculada pela Folha nesta sexta-feira (8) informa que, em 2007, o governo paulista torrou notáveis R$ 108.384.269,26 em dinheiro de plástico, chamado em São Paulo de "cartão de débito". É uma quantia bem mais vistosa do que os R$ 78 milhões que os cartões corporativos federais despejaram no mercado durante o ano passado.
Há em São Paulo 42.315 cartões. De novo, muito mais do que o congênere federal: oficialmente, a CGU (Controladoria-Geral da República) diz que somam 7.145 os funcionários autorizados a portar os cartões federais. Extra-oficialmente, estima-se que o número de cartões passa de 11 mil.
Há mais: sob Serra, também se utiliza o cartão financiado com verba pública para efetuar saques na boca de caixas eletrônicos. Procedimento vivamente desaconselhado pelo TCU. Do total gasto em São Paulo no ano de 2007, 44,58% deixou o erário na forma de saques. Coisa de R$ 48,3 milhões. Na esfera federal, os saques somaram 75,26% do total.
Há pior: na administração tucana, a transparência é menor, muito menor, diminuta. As despesas com cartões só estão disponíveis no sistema informatizado que serve aos deputados na Assembléia Legislativa de São Paulo. Em Brasília, a maior parte dos dados encontra-se ao alcance de qualquer brasileiro no chamado Portal da Transparência.
O governo de São Paulo tampouco está imune aos gastos de aparência exótica. Por exemplo:
Em 28 de julho de 2007, um dos cartões da administração paulista deixou R$ 597 na Spicy, uma conhecida loja de acessórios chiques para cozinha. O que foi comprado? Os computadores da Assembléia não trazem a informação. Limita-se a anotar a saída do numerário, num item batizado de "despesas miúdas e de pronto pagamento".
Em 4 de abril do ano passado, pagou-se com um cartão do governo de São Paulo R$ 977 na loja de presentes Mickey. De novo, "despesas miúdas e de pronto pagamento".
Em 11 de maio de 2007, foram à caixa registradora de uma churrascaria paulistana R$ 6.500. Despesa realizada com um cartão da Secretaria de Segurança.
Em nota oficial, a assessoria de Serra se manifestou assim: "Não existe cartão corporativo no governo do Estado de São Paulo. Nenhum secretário, secretário-adjunto ou qualquer autoridade estadual possui cartões do governo para qualquer tipo de gasto. Nenhum servidor possui cartões para pagamento de despesas pessoais.”
“O que existe”, prossegue a nota “é um sistema eletrônico para a realização de despesas do dia-a-dia, como compra de combustíveis, peças para automóveis e suprimentos de informática [...]. As secretarias com maior gasto (Saúde, Educação e Segurança Pública) são justamente as que se destacam na prestação de serviços diretos ao cidadão, e precisam manter as maiores estruturas de pessoal, viaturas e unidades.”
O deputado estadual Simão Pedro, líder do PT na Assembléia Legislativa, diz que, por ora, "não há indícios para um pedido de CPI". Informa, porém, que vai realizar uma apuração pessoal dos gastos do Estado.
Escrito por Josias de Souza às 04h58

- JB: Menos mortes, mais acidentes
- Folha: SP gasta R$ 108 milhões com cartões
- Estadão: Governo quer volta de diárias para ministros
- Globo: Cartão corporativo paga de camelô a Copacabana Palace
- Gazeta Mercantil: Cesp faz Serra e Aécio entrarem em choque
- Correio: Festival de saques na Abin, HUB e Funai
- Valor: BNDES exigirá garantia inédita no crédito à Oi
- Estado de Minas: Lei seca com mais rigor
- Jornal do Commercio: Material escolar em falta nas livrarias
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Escrito por Josias de Souza às 04h49
Guto Cassiano
PS.: Via blog do Guto Cassiano.
Escrito por Josias de Souza às 04h47
Folha
Conforme revelado aqui no blog na noite passada, inquérito aberto pelo Ministério Público há duas semanas apura suspeita de irregularidades no uso de cartões de crédito da presidência da República. Baseia-se em auditoria feita pelo TCU. Auditores do tribunal levantaram irregularidades que vão do pagamento de diárias indevidas em hotéis que hospedaram membros da comitiva de uma viagem de Lula ao aluguel de automóveis em empresas encalacradas com o fisco.
Os repórteres David Friedlander e Rodrigo Rangel adicionaram um tijolo na parede de suspeições que se ergue defronte do Planalto. Não se trata de um tijolo qualquer. Chama-se José Dirceu. Sim, ele mesmo, o ex-todo-poderoso chefe da Casa Civil de Lula. Em edição antecipada, a revista Época informa, nesta sexta-feira (8), que numa das operações em que o TCU farejou irregularidades, alugaram-se dois carros para transportar Dirceu. Deu-se antes que o mensalão o apeasse do governo, em 2005.
Os automóveis, blindados, foram postos à disposição de Dirceu durante três dias, incluindo sábado e domingo, em abril de 2004, no município paulista de São Caetano do Sul. Foram alugados, ao preço de R$ 4.362,21, numa firma de logotipo desconhecido: Renaro Locação de Veículos. Desconhecido inclusive do fisco local, segundo descobriram os auditores do tribunal de contas.
A Renaro não funciona no endereço que consta da nota fiscal. Os repórteres descobriam que, hoje, a empresas tem entre seus sócios uma pessoa jurídica de nome sugestivo: o bar Morada do Chopp. Além da nota referente aos carros de Dirceu, os arquivos do Planalto guardam outros cinco documentos fiscais emitidos pela locadora que o TCU não conseguiu encontrar.
Procurado, Dirceu emitiu uma nota em que lava as mãos: "Nada tenho a ver com isso. Nunca tive conhecimento do fato, até porque a Secretaria de Administração da Presidência da República é que faz todos - repito, todos - estes procedimentos administrativos. Informo, ainda, que como ministro-chefe da Casa Civil nunca utilizei cartão corporativo.”
Pago com cartão de crédito corporativo, o aluguel dos carros que serviram a José Dirceu é classificado pelo Planalto como gasto “sigiloso”. Varejando a prestação de contas levada aos arquivos do Planalto, os auditores verificaram que, a partir da análise formal do papelório, não se pode dizer que o serviço não tenha sido prestado.
Porém, o texto da auditoria do TCU lembra tribunal dispõe de poderes limitados de investigação. Não pode, por exemplo, quebrar sigilos bancários e fiscais. Por isso o relatório foi encaminhado ao Ministério Público. Ali, mediante autorização judicial, pode-se chegar aos dados de quem manuseou o cartão da presidência e às informações de quem recebeu o dinheiro.
Como se vê, a CPI dos cartões, apelidada pelo ministro Paulo Bernardo (Planejamento) de “CPI da Tapioca”, traz uma quantidade de farinha de mandioca que, bem misturada, pode alimentar uma saborosa investigação.
Escrito por Josias de Souza às 03h45
Encerrada a refrega da CPMF, ficara combinado o seguinte: no Senado, oposição e governo perseguiriam a concórdia. Entrariam 2008 sentados à volta de uma mesa, discutindo os termos de uma reforma tributária. Deu tudo errado. O ano começa sob o signo da discórdia. Fala-se de nova CPI, não de alterações tributárias. Até os cortes no Orçamento foram ao segundo plano.
Nas últimas 48 horas, aproveitando-se da ausência dos principais contendores, Romero Jucá (PMDB-RR) saiu-se com uma manobra que tonteou o adversário. Nesta sexta-feira (8), de volta de um passeio em Buenos Aires, o líder do DEM, José Agripino Maia (RN), vai à tribuna para iniciar um movimento das cordas para o centro do ringue.
Antecipando-se aos rivais, o líder de Lula tricotara com os ministros José Múcio (Coordenação Política) e Dilma Rousseff (Casa Civil) e enrolara-se na bandeira da apuração do escárnio dos cartões. No texto de seu pedido de CPI, Jucá teve o cuidado de chamar para a briga FHC, um presidente a quem também servira como líder.
Agripino desfere os seus primeiros jabs: “O governo foi acusado. Em reconhecimento de culpa, demitiu uma ministra. Com isso, achava que mataria o assunto. A imprensa noticiou o segundo fato, o terceiro, o quarto e não pára mais. Agora, manda que se abra uma CPI para investigar não a gestão Lula, mas o passado. Negativo. Esse tipo de manobra não cola.”
Ao propor que a apuração retroaja a 1998, Jucá mira o septo nasal do tucanato. Trama-se jogar sobre o ringue uma encrenca chamada “Conta B”. Trata-se de uma rubrica que prevê o suprimento de fundos aos órgãos públicos, para que realizem despesas miúdas. A “Conta B” é, por assim dizer, a avó do cartão corporativo.
O ministro Jorge Hage (Controladoria-Geral da União) repassou ao Planalto dados que demonstram o seguinte: sob FHC, escoou muito mais dinheiro pelo duto “B” do que na gestão Lula. “Querem investigar o passado? Nada a obstar. Mas será uma ação subsidiária. Não vão fazer da Conta B a ação principal”, jabeia Agripino.
“O PSDB não compactuará com nenhuma farsa, com nenhuma tentativa de setores governistas de, pretensamente antecipando-se às oposições, propor CPI para transformar em ‘pizza’ uma investigação sobre o escândalo dos cartões”, afia os punhos, desde Paris, o líder tucano Arthur Virgílio (AM).
“O Partido assina qualquer requerimento de CPI, mas para buscar a verdade, de Lula a Fernando Henrique”, salta Virgílio. “CPI tem de ter fato determinado a apurar – e o fato determinado está na visível exorbitância uso do cartão corporativo pela ex-Ministra Matilde Ribeiro, por segurança de membros da família do presidente da e por outros membros do governo.”
Na próxima segunda-feira (11), a oposição reúne-se para calçar as luvas. Num esforço para contra-golpear Jucá, tenta-se atrair para o encontro dissidentes governistas –Jarbas Vasconcelos (PPMDB-PE) e Cia.— líderes de legendas associadas ao consórcio lulista –Renato Casagrande (PSB) e Jefferson Peres (PDT, por exemplo.
“Esse assunto dos cartões não vai ser politizado, como quer o governo”, soca Agripino. “Vai ser tratado com respeito à opinião publica. Vou convidar os partidos todos. Vamos sentar à mesa com quem se dispuser a encaminhar a investigação na linha correta. Não estamos diante de uma briga de oposição versus governo. Trata-se de uma questão institucional, de respeito ao dinheiro público. A palavra de ordem é despolitizar.”
Na mesma segunda-feira, de volta de um retiro carnavalesco no Forte dos Andradas, no Guarujá (SP), Lula também reúne os ministros que integram a coordenação de governo. Quer pôr a casa em ordem antes de voar para o exterior. Depois de avistar-se com o presidente francês Nicolas Sarkozy, na fronteira do Amapá com a Guiana Francesa, Lula trocará, na sexta (15), o calor da nova crise brasiliense pelo gelo da Antártida.
Deixará atrás de si uma atmosfera que, por envenenada, não condiz com as juras de entendimento que freqüentaram o noticiário nos últimos dias de 2007. O barulho da troca de tapas silenciou o debate da reforma tributária antes que a proposta que o governo prometera formular viesse à luz. A propósito, na mensagem que enviou ao Congresso, lida na sessão de abertura do ano legislativo, o presidente não disse palavra sobre o tema.
Escrito por Josias de Souza às 02h59
Faltam 45 para alcançar o apoio mínimo exigido: 171
Governo tenta impedir que ‘aliados’ apóiem iniciativa
Mas deputados governistas informam que vão assinar
Alheios à tentativa do governo de restringir ao Senado a investigação dos cartões de crédito corporativos, a oposição intensificou a coleta de assinaturas de apoio à CPI Mista, com deputados e senadores. Coletaram-se em dois dias –quarta (6) e quinta-feira (7)— 126 jamegões de deputados. O regimento exige 171. Faltam 45.
Animado com a marca, obtida em semana de quorum escasso, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), autor do pedido de investigação mista, dividiu com um grupo de colegas a tarefa de engrossar a lista de apoios.
Por ora, envolveram-se no esforço a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) e os líderes do DEM, Ônyx Lorenzoni (RS); do PSDB, Antonio Carlos Pannunzio (SP); do PPS, Fernando Coruja (SC); e do bloco da minoria oposicionista, Zenaldo Coutinho (PSDB-PA).
O grupo se auto-impôs um prazo para alcançar as 171 assinaturas. “Se não conseguirmos até quita-feira (14) da semana que vem, é porque terá ocorrido uma movimentação muito grande do governo para retirar assinaturas do requerimento ou para impedir que seus deputados assinem”, diz Carlos Sampaio.
O Planalto, de fato, move-se para tentar restringir a apuração ao Senado. Se os seus aliados lhe fossem integralmente fiéis, não haveria com o que se preocupar. Juntos, os oposicionistas PSDB (57 deputados), DEM (58), PPS (14) e PSOL (3) somam escassas 132 assinaturas. Mais os dissidentes Gabeira (PV) e Erundina (PSB), chega-se a 134.
Ou seja, para que a CPI mista saia do papel, pelo menos 37 deputados governistas teriam de contrariar a vontade de Lula. Difícil. Mas não impossível.
Ao declarar explicitamente que o governo “não teme a investigação”, apressando-se em brandir, ele próprio, um pedido de CPI no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), líder de Lula, semeou entre os governistas da Câmara uma interrogação incômoda.
Os deputados associados ao consórcio lulista já se perguntam: se o Planalto não vê problemas em investigar, se o próprio Jucá pede a CPI, por que nós não podemos participar? Seríamos menos confiáveis do que os senadores?
Incomodado com a segregação, o deputado Ricardo Izar (SP), expoente do governista PTB, informou a Carlos Sampaio que vai rubricar o pedido de CPI Mista. Mais: Izar se dispôs a auxiliar na coleta de assinaturas. Estimou que pode arrastar para o documento algo como 18 deputados.
Se obtidos os 171 nomes na Câmara, o Senado não será problema. Ali, a oposição dispõe, sozinha, de mais assinaturas do que as exigidas pelo regimento: 27 assinaturas. Fechadas as contas, PSDB e DEM pressionarão para que Garibaldi Alves (PMDB-RN), presidente do Congresso, dê de ombros para o documento urdido por Jucá, instalando a CPI mais ampla.
Mesmo que se inviabilize a comissão das duas casas legislativas, os senadores da oposição não parecem dispostos a aceitar passivamente o requerimento de CPI de Jucá. Não do modo como ele está redigido. Diz-se que não esclarece com precisão o fato a ser investigado.
Escrito por Josias de Souza às 01h20
Garibaldi determina a devolução do pedido a Jucá
Rasurado, documento terá de ser refeito do início
Folha
O pedido de instalação da CPI dos Cartões, protocolado por Romero Jucá (PMDB-RR), terá de ser refeito. Por ordem do presidente do Senado, o documento será devolvido ao seu autor. E o líder de Lula precisará refazê-lo e coletar, de novo, as assinaturas de apoio exigidas pelo regimento.
A decisão de Garibaldi foi tomada depois que Jucá injetou, nesta quinta-feira (7), modificações de última hora no pedido que apresentara na véspera. As mudanças foram feitas à mão. Entendeu-se que, com as mudanças, o documento só pode seguir o seu curso se os seus signatários repetirem os jamegões no novo texto.
Deve-se a decisão de Garibaldi a uma provocação feita em plenário pelo oposicionista Heráclito Fortes (DEM-PI). Dirigindo-se ao presidente da Casa, Heráclito lembrou que, ao propor a CPI das ONGs, foi necessário modificar o requerimento. E exigiu-se, à época, que fizesse nova coleta de assinaturas.
Garibaldi deu-lhe razão. E informou que devolveria o papel a Jucá. Mais cedo, o também oposicionista Álvaro Dias (PSDB-PR) já havia torcido o nariz para a alteração de redação feira por Jucá a toque de caixa: "Não se pode alterar um documento depois de assinado. Vamos analisar e ver o que fazer."
É improvável que o líder do governo tenha dificuldades para refazer o pedido de CPI. Na véspera, em sessão de baixa freqüência, Jucá lograra recolher 31 assinaturas, quatro além das 27 exigidas pelo regimento para a abertura de uma investigação parlamentar.
Na modificação que suscitou a polêmica, Jucá anotou no requerimento o número de parlamentares que vão compor a CPI (11), o prazo de funcionamento da comissão (90 dias) e a estimativa de custo (R$ 100 mil). Classificara os acréscimos não como rasuras, mas como mudanças “técnicas”. Não imaginava que teria de voltar a peregrinar de senador em senador à cata de assinaturas.
A oposição olha de esguelha para o pedido de Jucá desde o nascedouro. Demóstenes Torres (DEM-GO) acha, por exemplo, que o texto não especifica com a clareza devida o “fato determinado” a ser submetido a investigação. “O pedido dele menciona, genericamente, notícias jornalísticas. Fato determinado é o fato concreto. Se entendermos que há fragilidade, vamos ter de corrigir.”
Escrito por Josias de Souza às 19h07
Nas páginas de “Ilusões Perdidas”, Balzac (1799-1850) anotou: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.” No Brasil, ela foi inventada nas pegadas da chegada da família real. Lá se vão 200 anos.
Programaram-se festejos em todo país. Alguns baterão palmas. Outros indagarão: comemorar o quê? Alguns celebrarão a publicação de todos os fatos. Outros lamentarão a omissão dos principais.
Alguns dirão que a imprensa arranca véus. Outros dirão que ela fabrica réus. Alguns a considerarão útil. Outros a tacharão de fútil. Alguns reconhecerão sua independência. Outros apontarão sua prepotência.
De fato, a imprensa é uma das mais perversas invenções do gênio humano, excetuando-se, naturalmente, todas as outras. Inventada, reinventa-se cotidianamente no vácuo das perversões de todas as outras criações da humanidade.
Escrito por Josias de Souza às 16h55
Cartão paga gasto irregular até em viagem de Lula
Inquérito do MP apura despesas suspeitas do Planalto
Incluem hotéis, aluguel de carros e compras em geral
Suspeitas vão de fraudes fiscais a firmas inexistentes
O Ministério Público do Distrito Federal abriu, há 15 dias, um inquérito civil para apurar suspeita de irregularidades no uso de cartões de crédito do governo. Refere-se a gastos realizados pela secretaria de Administração da Casa Civil da Presidência da República. Incluem as despesas de hospedagem de comitiva precursora de uma viagem de Lula.
Deu-se em 2 de maio de 2003. Nesse dia, Lula, que assumira a presidência havia cinco meses, visitou os municípios paulistas de Ribeiro Preto e Sertãozinho. Inaugurou uma termelétrica e compareceu a uma feira agrícola. Para organizar a viagem, o Planalto enviara às duas cidades um “escalão avançado” –agentes de segurança e equipe de apoio técnico. Hospedaram-se em dois hotéis.
Descobriu-se o seguinte: com cartão de crédito do Planalto, um funcionário pagou R$ 3.030 por 22 diárias de pessoas que não constavam da lista de integrantes da comitiva oficial. Financiou também R$ 1.475 em diárias que excederam ao período de permanência de alguns dos membros da comitiva que preparou a visita de Lula.
Constatou-se, de resto, um indício de superfaturamento. Em 2003, o cartão de crédito do Planalto deixou no hotel que abrigou a comitiva precursora em Sertãozinho R$ 23.830. Num levantamento feito em 2006, verificou-se que, quatro anos depois, o mesmo hotel cobrava preços bem mais módicos. A mesma comitiva custaria ao erário R$ 10.208. Ou seja, a presidência pode ter desembolsado R$ 13.622 além do necessário.
Somando-se o custeio da estadia de pessoas estranhas à comitiva, as diárias excedentes e o valor que extrapolou os preços de mercado, chega-se a um gasto supostamente irregular de R$ 18.127. Para complicar, verificou-se que todas as 76 notas fiscais emitidas pelo hotel de Sertãozinho foram “calçadas”. Na via levada aos arquivos do Planalto, o valor da diária é R$ 125. Na segunda via, grudada ao talonário da hospedaria, o valor é outro: R$ 15,00.
As informações contam de um relatório do Tribunal de Contas da União. Integra processo aberto pelo TCU em 2006, sob o número 007.512. O texto encontra-se anexado ao inquérito do Ministério Público. Começa na folha 41 dos autos. Vai até a página 77. O blog obteve cópia do documento. Assinado pelos auditores André Gerardo Carneiro de Oliveira e Maurício Lopes Casado Jr., o “relatório de auditoria” do TCU é uma das peças de resistência do inquérito.
O documento contém o resultado da terceira fiscalização realizada pelo tribunal na contabilidade dos cartões de crédito do Planalto. Nas duas auditorias anteriores, o tribunal ocupara-se de aspectos formais. Nesta, examinou a “regularidade” das notas fiscais levadas aos arquivos do Planalto.
Escarafuncharam-se notas emitidas de setembro de 2002, quando a presidência, ainda sob FHC, começou a utilizar cartões de crédito, a julho de 2005. Todas as impropriedades apontadas pelos auditores referem-se aos primeiros dois anos e meio da gestão Lula.
Os auditores partiram da análise de um arquivo eletrônico que continha 22.915 registros de despesas. Selecionaram, por amostragem, 254 notas fiscais. No curso da investigação, acabaram inspecionando 648 notas. Enviaram-se oficias às receitas dos Estados e dos municípios onde as despesas foram realizadas. Descobriram-se coisas como as que se seguem:
1. o Planalto alugou carros em Ponta Porão (MS). Gasto sigiloso. Por isso, o nome da firma não consta do relatório do TCU. Consultado, o fisco municipal informou que não autorizara a emissão das 25 notas levadas à prestação de contas arquivada no Planalto. Somam R$ 206.640,07. Anotam dois endereços diferentes. Num deles, o TCU não encontrou vestígio da empresa. Noutro, “encontraram-se evidências da existência da empresa à época da emissão das notas fiscais.” No Planalto, a prestação de contas tem aparência regular. Sem poderes para quebrar sigilos bancários e fiscais, o TCU encaminhou o papelório ao Ministério Público.
2. O Planalto alugou veículos também em São Luiz. Quatro notas. Total: R$ 30.147,09. Despesa sigilosa. Consultado, o fisco local disse não ter tomado conhecimento das notas. Nos registros do Planalto, tudo regular. Para apurar o indício de “elisão fiscal”, o TCU remeteu o caso à Receita de São Luiz, ao fisco federal e ao Ministério Público.
3. A presidência alugou veículos em Santana do Parnaíba (SP). Emitiram-se 46 notas fiscais. Dezessete foram “calçadas”. Exibem nas primeiras vias o valor de R$ 40.416,90. Nas vias grudadas ao talonário, o montante é bem menor: R$ 3.062,61. Diferença de R$ 37.354,29. Nos arquivos do Planalto, tudo regular. Na dúvida, os documentos foram enviados ao fisco municipal e ao Ministério Público.
4. O Planalto alugou automóveis numa empresa de São Paulo, com filial em Barueri. Gastos confidenciais, realizados entre 2004 e 2005. Valores “superiores a R$ 1 milhão”. Foram aos arquivos do Planalto “notas de locação” sem valor fiscal. Trazem no rodapé a seguinte inscrição: “Dispensada a emissão de nota fiscal de serviços conforme lei complementar nº 116 de 31/07/2003”. Dizem os auditores: “Utilização de documento não-fiscal para omitir receita tributável, com conseqüente dano ao erário público, associado ao possível cometimento de crimes fiscais.” Em visita à filial da empresa em Barueri, o TCU “não conseguiu obter informações confiáveis com os vizinhos sobre a existência da empresa no local.” Os papéis seguiram para o Ministério Público, “órgão que pode direcionar a investigação, inclusive com solicitação de informações protegidas por sigilo, para examinar a possibilidade de realização de operações não detectáveis pelo exame documental.”
5. o Planalto alugou carros em duas locadoras de São Caetano do Sul (SP). Uma emitiu 22 notas fiscais. Ouvido, o fisco municipal informou que os valores não lhe chegaram ao conhecimento. Em visita ao endereço mencionado nas notas, o TCU “não encontrou evidências da existência da empresa.” Em consulta no cadastro de pessoas físicas, descobriu endereço diferente. Nova visita. Verificou-se que, no local, “já funcionou uma locadora de veículos.” A segunda locadora emitiu sete notas. Consultado, o fisco local disse que é “desconhecido o paradeiro” da firma. Em visita ao endereço, o TCU “não encontrou evidências da existência da empresa no período da emissão das notas.” Os auditores foram ao cadastro de CNPJ. Traz outro endereço. Nova visita. Apurou-se que, no local, “já funcionou uma locadora de veículos.”. Tudo regular na prestação de contas do Planalto. O TCU enviou os papéis aos fiscos estadual e municipal e ao Ministério Público.
6. Os auditores identificaram indícios de irregularidades fiscais em outras cinco operações de compra realizadas com cartões de crédito do Planalto. Envolvem de compras em empresas fornecedoras de “material de expediente” a transação efetuada numa firma de confecção de chaves. Gastos miúdos. O mais expressivo (serviços de editoração eletrônica) soma R$ 800 reais. O mais inexpressivo refere-se a “despesa de refeição” realizada na Beline, uma panificadora chique de Brasília. Na via enviada pela casa de pães ao fisco do DF, o valor é R$ 9,44. Na via arquivada no Planalto, está anotado R$ 99,44.
O inquérito do Ministério Público, a cargo da procuradora Eliana Pires Rocha, foi solicitado pelo deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) em dezembro de 2003. O pedido dormitou na gaveta por arrastados quatro anos. Só foi efetivamente acolhido depois que os extratos do cartão da ex-ministra Matilde Ribeiro (Integração Racial) foram pendurados nas manchetes dos jornais. Nesta quarta-feira (6), o governo aderiu à tese da CPI. Os papéis anexados ao inquérito são peças obrigatórias de qualquer investigação que se pretenda séria.
Escrito por Josias de Souza às 04h46

- JB: CPI investiga uso de cartão corporativo desde era FH
- Folha: Governo retira cartões de ministros
- Estadão: Brasil recua e tira 2 mil fazendas de lista da UE
- Globo: Governo já corre para controlar CPI do Cartão
- Gazeta Mercantil: Meganegócios testam poder do governo em ex-estatais
- Correio: Governo quer criar CPI para abafar CPI
- Valor: Contratos já garantem R$ 13 bi em saneamento
- Estado de Minas: Lei Seca diminui mortes nas estradas no carnaval
- Jornal do Commercio: Governo sai na frente para ter o controle da CPI dos Cartões
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Escrito por Josias de Souza às 04h17
Oscarmundongo
PS.: Via blog Oscarmundongo.
Escrito por Josias de Souza às 04h11
Depois de passar todo o Carnaval conspirando contra a CPI dos Cartões Corporativos, o governo mudou o enredo do seu samba. Agora, defende a investigação. Mais do que isso: o próprio senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder de Lula no Senado, animou-se a recolher assinaturas de apoio à CPI. Já coletou 25 das 27 exigidas pelo regimento do Senado.
Há uma semana, depois de reunir-se com Lula, o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) referira-se à idéia do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), autor da proposta de inaugurar uma investigação legislativa, como que “CPI da Tapioca”. Nesta quarta-feira (6), o menoscabo foi substituído por um inaudito furor investigatório.
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