Diz o senso comum que “errando é que se aprende”. O PSDB, que não gosta do brocardo, adaptou-o. Um tucano diz: “Errando é que se aprende... A errar.” Com dois fracassos presidenciais a pesar-lhe sobre os ombros (2002 e 2006), o partido da pseudo-social-democracia decidiu apostar, de novo, no erro. Achou que poderia congelar a sucessão presidencial. Não deu. E voltou a exercitar o seu passatempo predileto: briga consigo mesmo, bica a si próprio.
Recorde-se, por elucidativo, um barraco de 2002. Presidindo a escassez –faltava luz, dinheiro, emprego e dólar barato—, FHC escolhia um nome para sucedê-lo. Oscilava entre Tasso Jereissati e José Serra. Pendia para o segundo. Numa certa noite, o príncipe recebeu no Alvorada um grupo de grão-duques tucanos: Tasso, Aloysio Nunes Ferreira, Pimenta da Veiga e Almir Gabriel.
Tasso exalava tensão. Acabara de chegar dos EUA. Fora a Cleveland, para checar as coronárias, como faz todos os anos. Ausentara-se do país por dez dias. Nesse período, não conversara com jornalistas. A despeito disso, os jornais estavam apinhados de notícias acerca de articulações e queixumes que não fizera nem vocalizara.
Abespinhado, Tasso derramou sua insatisfação sobre o tapete da sala contígua à biblioteca do Alvorada. Disse que não faria papel de bobo. Além do noticiário falso, irritara-se com a ajuda que o então ministro Serra dava a Sérgio Machado, seu inimigo na província cearense.
A certa altura, Aloysio Nunes, hoje membro do secretariado do governador Serra, interveio. Tentou pôr panos quentes. Tasso saltou da cadeira: “O senhor, meu caro Aloysio, não venha aqui posar de estadista francês. Você não é. (...) Safadeza. Molecagem. Você diz que não toma partido na minha disputa com o Serra, mas passa o dia no Palácio do Planalto plantando notinhas em coluna de jornal a favor dele e contra mim.”
Aloysio não se deu por achado: “Você me respeite. Eu tenho história...” E Tasso: “Eu sei bem qual é a sua história. Enquanto eu fazia das tripas coração para eleger este aqui presidente (apontou para FHC), em 1994, você rodava o Brasil de braços dados com o Quércia.”
Deve-se ao repórter Luiz Costa Pinto o relato do diálogo reproduzido acima. Jamais foi desmentido pelos protagonistas. O resto é história. FHC foi de Serra. Tasso e seu grupo conspiraram contra. Quando a canoa fez água, meio PSDB –FHC inclusive— fez corpo mole. Dessa divisão e da avidez do eleitorado por mudanças nasceu o primeiro triunfo presidencial de Lula.
Em 2006, coube a Geraldo Alckmin o papel de Tasso. Prevaleceu sobre Serra (ele, de novo), aos trancos e barrancos. Graças à tenacidade pessoal e à sensação do rival de que, com Lula praticamente reeleito, o melhor era estocar munição para a disputa seguinte.
Cavalgando uma legenda eternamente dividida, Alckmin não fez feio. Abandonado pelos seus, foi ao segundo turno com a ajuda dos aloprados do PT. Surrado por Lula, viu Serra (sempre ele) esmigalhar os aliados que deixara na máquina estatal paulista. Agora, tenta manter sob os pés um tapete municipal que Serra (ele novamente) esmera-se em puxar.
Já se pode sentir o cheiro de 2010. Odor de queimado. Agora, é em Aécio Neves que Serra (olha ele aí de novo) tenta vestir a fantasia de neo-Tasso, a roupagem de Alckmin pós-pós. No meio do caminho, graças à refrega da CPMF, Serra ganhou um novo contendor: Arthur Virgílio. Dotado de fome presidencial inaudita e bem-posto nas pesquisas, o governador paulista vai à luta interna com bom cacife. Mas já não pode simplesmente arrastar as fichas. Terá de submeter-se ao pôquer das prévias, num pano verde conflagrado.
A julgar pela popularidade de Lula, ninguém se fará na próxima sucessão falando mal do governo. Ou vende esperança semelhante à que FHC, graças ao Real, levou aos seus dois palanques ou se arrisca a tropeçar num presidente de bem com a bugrada e decidido a acomodar no Planalto alguém que lhe facilite a vida em 2014.
Inebriado pelo veto legal à tripla eleição de Lula, o tucanato olha para 2010 e enxerga um pudim. Engano. O que o aguarda é um pote de veneno. O veneno de sua própria divisão. O PSDB nao tem do que se queixar. Sobram-lhe candidatos. Mas terá de domar e adoçar o bico. Faltam-lhe mensagem e método.
Folha O STF divulgou neste sábado decisão tomada na véspera por sua presidente. A ministra Ellen Gracie determinou que, em dez dias, Lula remeta ao tribunal explicações sobre uma portaria da Receita Federal –aquela que obrigou bancos e administradoras de cartões de crédito a repassar ao fisco os dados dos correntistas com movimentação semestral superior a R$ 5 mil (pessoas físicas) e R$ 10 mil empresas).
A decisão da Receita foi questionada em ação movida pela OAB. A entidade alega que é inconstitucional o artigo 5º da Lei Complementar 105, de 2001. Foi nesse artigo que a Receita se baseou para obrigar as instituições financeiras a lhe repassar os dados de seus correntistas. Uma decisão que, para a OAB, acaba com o princípio do sigilo bancário no país.
A norma da Receita foi baixada depois que o Senado derrubou a CPMF. O fisco se valia dos dados do imposto do cheque para mapear o movimento bancário dos contribuintes, detectando indícios de sonegação. Sem o tributo, viu-se compelida a baixar a nova portaria, agora contestada no Supremo.
A OAB argumenta na ação que protocolou no STF que a norma da Receita, na prática, pôs fim ao sigilo bancário. Uma ofensa a princípios como o devido processo legal, previsto no artigo 5º da Constituição. Segundo a opinião da Ordem dos Advogados, o sigilo dos correntistas de banco só pode ser quebrado mediante ordem judicial. Assim mesmo “quando existir suspeita de possíveis delitos.”
Em seu despacho, Ellen Gracie esclarece que, embora a OAB solicite do tribunal uma decisão liminar (provisória), ela preferiu submeter o processo a uma deliberação final do plenário do Supremo.
Antes de submeter o caso à análise dos outros dez magistrados que integram o Supremo, a ministra dará prazo de cinco dias para que a Advocacia-Geral da União e a Procuradoria-Geral da República tenham a oportunidade de se manifestar nos autos. Esse prazo começa a ser contado depois que chegarem ao tribunal as explicações que Ellen Gracie solicitou a Lula.
PS.2: O flagelo amazônico, como sói, ecoou no exterior. Mas, a despeito da má fama, os desmatadores não parecem nem um pouco intimidados com a cara feia do governo. Até porque há evidências de que é o próprio governo quem financia a mão que opera a motosserrra.
O Ministério Público do Distrito Federal decidiu investigar os gastos dos ministros de Estado com os cartões de crédito bancados pelo erário. A investigação foi aberta na quinta-feira (24). Mas só nesta sexta (25) a notícia foi divulgada.
Decidiu-se perscrutar os extratos dos cartões depois das reportagens que revelaram indícios de abusos. A coisa brotou no domingo e ecoou durante a semana. A portaria que instaurou a investigação anota que, se confirmados, os malfeitos caracterizam “imoralidade administrativa.”
Quando abusivos, diz ainda o texto do Ministério Público, os gastos ferem normas fixadas pelo próprio governo, por meio de uma portaria do Ministério do Planejamento. O procurador que vai acompanhar o caso será designado nos próximos dias. Dependendo do que for apurado, pode ser aberto um processo judicial.
Além de verificar a legalidade dos gastos, o Ministério Público decidiu elaborar uma recomendação sobre o uso dos cartões. O texto será enviado ao Palácio do Planalto pelo procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza. Trará um cotejo das normas já baixadas pela pasta do Planejamento com recomendações feitas pelo Tribunal de Contas da União.
Não é a primeira vez que a Procuradoria da República se debruça sobre os cartões corporativos. Já abrira investigação do gênero em 2005. Deu-se a pedido do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). A apuração restringiu-se, porém, a gastos efetuados no âmbito da presidência da República.
A primeira investigação, conduzida pelos procuradores Eliana Pires Rocha e Carlos Henrique Martins, resultou num pedido para que o TCU realizasse uma tomada de contas especial. A auditoria do tribunal vasculhou despesas feitas entre 2002 e 2004. Concluído o trabalho, o tribunal expediu um acórdão com um lote de recomendações ao governo.
Ao analisar o trabalho dos auditores do TCU, os procuradores notaram que a análise limitou-se à regularidade de documentos fiscais. Solicitou-se ao tribunal que faça nova auditoria, dessa vez com o objetivo de verificar se os gastos são ou não compatíveis com as necessidades do Estado.
De resto, os procuradores requisitaram à Casa Civil os nomes de todos os portadores de cartões corporativos do Planalto. Obtidos os nomes, requisitaram-se à Receita Federal os dados fiscais dos funcionários. Todo esse material encontra-se sob análise. Não há, por ora, conclusão.
Primeiro objetivo da ministra é tonificar o tempo de TV
O segundo é assegurar que Lula pise em seu palanque
Antônio Gaudério/Folha Superada a fase da decisão –ela já disse ao seu pessoal que vai às urnas— Marta Suplicy e o PT se movem para costurar em São Paulo uma aliança tão ampla quanto a que dá suporte a Lula em Brasília.
Vai-se perseguir o entendimento pelo menos com PMDB, PSB, PC do B, PDT, PTB e PP. Busca-se, primeiro, tempo de TV. Depois, dar condições a Lula para freqüentar o palanque de Marta.
Na reunião ministerial de quarta-feira (23), o presidente informou que vai tomar partido nas eleições para prefeito. Mas só poderá fazê-lo de maneira explícita nos municípios em que as legendas do consórcio governista estiverem unidas.
Afora os obstáculos normais, há, no caso de Marta, uma dificuldade adicional. A ministra quer conquistar aliados sem suar o tailler. Informou ao petismo que não deixa o ministério antes de maio, em data próxima do prazo legal: 5 de junho. E, como ministra, acha que não fica bem deixar as digitais nas agulhas do tricô partidário.
Por ora, quem realiza os contatos políticos, por dever de ofício e por delegação, é o presidente do diretório do PT no Estado de São Paulo, Edinho Silva. É Marta até a medula. Sua primeira providência foi procurar o presidente estadual do PMDB, Orestes Quércia. Conforme noticiado aqui, conversaram na última terça (22).
O PMDB já decidiu que não terá candidato. Prefere a coligação. Oscila entre Marta, o tucano Geraldo Alckmin e o ‘demo’ Gilberto Kassab. A situação é diferente em relação a outros potenciais aliados de Marta.
Partidos como o PDT, o PSB e o PC do B cultivam projetos próprios. Em São Paulo, longe do guarda-chuva de Lula, gostariam de comparecer ao primeiro turno da eleição municipal apartados do PT. Nesta sexta (25), Paulo Pereira da Silva (PDT) –o Paulinho da Força Sindical—pôs o seu bloco na rua.
O PTB é controlado por dois personagens que torcem o nariz para Marta e para o PT. No plano federal, a máquina da legenda é gerida pelo deputado cassado Roberto Jefferson, de mal com o petismo desde 2005, quando levou a boca ao trombone para denunciar o mensalão. Em são Paulo, o mandachuva do partido é Campos Machado, mais afeito a uma negociação com tucanos e democratas do que com os petistas.
No Brasil, como se sabe, todos os políticos são patriotas. Só o patriotismo justifica o fato de o PMDB, desprezando os riscos de um apagão energético, tenha quebrado lanças para acomodar Edison Lobão na poltrona de ministro das Minas e Energia. Só o amor à pátria explica a gana com que o partido, depois de emplacar o ministro, disputa o controle das estatais energéticas.
A responsabilidade não será banal. Juntando-se Furnas –já confiada à boa gerência do ex-prefeito carioca Luiz Paulo Conde— às outras estatais que Lobão está na bica de entregar a apadrinhados do PMDB, chega-se a orçamentos de notáveis R$ 26,7 bilhões. É muito dinheiro. Mais da metade do que se pretendia arrecadar com a falecida CPMF.
Para a Eletrobras, deve ser nomeado Evandro Coura. É homem de José Sarney (PMDB-AP). Vem da iniciativa privada. Até outubro do ano passado, presidia o Grupo Rede, dono de oito distribuidoras de energia e 34 usinas hidrelétricas. Hoje, a empresa é gerida pela mulher dele, Carmem Pereira.
A Eletronorte deve ser entregue a Lívio Rodrigues de Assis. Traz na testa o selo de qualidade das indicações feitas pelo ínclito deputado Jader Barbalho (PMDB-PA). Lívio parece pouco afeito à seara energética. Hoje, é diretor do Detran do Pará. Mas o que é o preparo técnico diante da disposição de servir ao país?
Na Eletrosul, tudo indica que o PMDB foi ultrapassado pelo PT. A presidência da estatal que leva luz às fábricas e às residências dos Estados do Sul deve ser confiada ao ex-deputado Jorge Boeira. Ele deve a indicação à líder petista Ideli Sanvatti (SC), outra brasileira ávida por contribuir com os destinos da pátria.
De resto, o PMDB tende a emplacar Jorge Luiz Zelada, indicado pela bancada de deputados mineiros do partido para a diretoria Internacional da Petrobrás. Agora deixe a má vontade de lado e responda: são ou não são patriotas os políticos brasileiros?
Folha Atenção, caro leitor: o texto a seguir foi escrito em linguagem semichula. Não é recomendável que você o leia desacompanhado. Se for adulto, chame uma criança. De preferência com menos de cinco anos.
O corregedor-geral Romeu Tuma já arregaçou as mangas. O PSOL já se prepara para formular uma nova representação. Vai à berlinda, dessa vez, o futuro senador Lobinho (DEM) –aquele que herdou a cadeira do pai dele, o Lobão (PMDB).
Vai começar tudo de novo: Corregedoria, Mesa do Senado, Conselho de Ética, puxa, repuxa, escolhe o relator, manobra daqui, conchava dali... Notícias penduradas nas manchetes dos jornais por semanas a fio.
Não fosse o repórter um sujeito educado, mandaria todo mundo pra outro lugar: pro chuveiro, pros subterrâneos onde se encontram as almas dos pecadores, pro excremento ou até à presença daquela senhora que, no exercício da profissão mais antiga do mundo, deu à luz personagens que desconhecem o nome do pai.
Porém, o signatário do blog, por comedido, não costuma lançar mão de exortações extremas. Não seria de bom tom. Resta fazer apenas o que lhe incumbe: noticiar o fato e anotar o que está por vir. No caso específico, o repórter sugere aos seus 22 leitores que perguntem à criança que está do lado o que vai acontecer. Ela lhes dirá: “Nada.”
A criança descerá aos detalhes. Esclarecerá que, acusado, Lobinho vai uivar: eu não sabia de nada. Os aliados dirão que ele é inocente. Os adversários pedirão o escalpo dele. E a Mesa do Senado porá fim à refrega. Expedirá um despacho informando que, segundo a praxe do Legislativo, nenhum senador pode ser molestado por delitos praticados antes do início do mandato.
Submetidos a mais uma pantomima, os leitores, que não têm a mesma classe do repórter, pedirão à criança que deixe a sala. Depois, gritarão: “Ora, ora, senhores senadores, vão todos à...”
Acabou o armistício entre os 2 presidenciáveis tucanos
Para Aécio, Serra tenta se impor como ‘fato consumado’
‘No atropelo, ninguém ganha eleição’, disse a um amigo
Em resposta, iniciou uma articulação a favor das prévias
Em março, deflagra um cronograma de viagens pelo país
Folha Há um ano, em fevereiro de 2007, os presidenciáveis tucanos José Serra e Aécio Neves firmaram um armistício. Combinaram que só tratariam de 2010 depois que fossem abertas as urnas de 2008. O cessar-fogo acabou. Nove meses antes do prazo combinado, os governadores de São Paulo e de Minas Gerais voltaram a se bicar.
Ainda não foi disparado nenhum tiro em público. Mas Aécio decidiu reforçar o paiol. Iniciou a preparação para a guerra interna. Entre quatro paredes, o governador mineiro mostra-se incomodado com o que chama de “antecipação prematura do processo.” Acha que está em curso uma tentativa de transformar a candidatura presidencial do rival num “fato consumado”. E resolveu enrolar a bandeira branca.
A negociação de Serra para transformar Gilberto Kassab (DEM) em candidato à prefeitura paulistana foi o estopim que alvoroçou as plumas do tucanato. Serra tenta rifar Geraldo Alckmin (PSDB), alternativa tucana ao 'demo' Kassab, em troca do compromisso do DEM de apoiá-lo em 2010.
Para desassossego de Aécio, Fernando Henrique Cardoso veio ao meio-fio para defender a formalização da aliança tucano-democrata em torno de Kassab. “Se você pensar estrategicamente, seria ótimo que a aliança dele [Kassab] com o PSDB se mantivesse nas eleições [municipais de 2008], que o Geraldo [Alckmin] pudesse disputar o governo, o que liberaria o Serra para a presidência [da República]”, disse FHC aos repórteres Laura Greenhalgh e Fred Melo Paiva.
Privadamente, Aécio tachou as declarações de FHC de “inábeis”, “desastradas” e “extemporâneas.” Acha que as palavras do ex-presidente expressam uma visão equivocada. Diz que, em 2010, o DEM, por pragmático, vai se compor com o PSDB "com ou sem Kassab." Há dois dias, em conversa com um amigo, o governador mineiro afirmou: “Não estou mais em idade de dizer amém a tudo o que acha o Fernando Henrique.” Aécio ressuscitou uma frase que ouvira do avô Tancredo Neves: “Ninguém é paulista na política impunemente.”
Aécio falou ao amigo em timbre de desabafo: “Estão tentando passar a idéia de que, resolvido o problema da prefeitura de São Paulo, está decidida a questão nacional. Não aceito imposições. No atropelo ninguém vai ganhar eleição. Se me derrotam no atropelo, não vão ter nenhum voto em Minas.”
Aécio pôs-se em movimento. Retomou contatos com partidos como o PMDB e PSB, que flertam com ele há tempos. Como não contempla a hipótese de deixar o PSDB, resolveu abraçar a tese das prévias. Festeja a decisão do senador tucano Arthur Virgílio (AM) de lançar-se como candidato ao Planalto. Acha que, com três postulantes, o partido não terá como se esquivar da prévia.
De resto, o governador mineiro elabora um cronograma de viagens pelo país. Começa a voar já em março. Num primeiro momento, priorizará os Estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No segundo semestre, subirá em palanques de candidatos tucanos às prefeituras de tantos municípios quantos consiga visitar.
Internamente, Aécio leva à mesa argumentos para tentar se contrapor à tese de que, à frente dele nas sondagens eleitorais, Serra é o melhor candidato do partido à sucessão de Lula. “Não estou convencido disso”, diz ele em privado. “Posso até não ser candidato se achar que não é o momento, se julgar que minha candidatura não é a que mais agrega. Mas não posso sair disso derrotado. Tenho que ser convencido, conquistado.”
Na última sondagem do Datafolha, divulgada em dezembro, Aécio amealhou 15% das intenções de voto. É menos da metade do percentual atribuído a Serra –entre 33% e 38%, dependendo do cenário. O governador mineiro argumenta, porém, que o PSDB terá de levar em conta outros fatores.
Por exemplo: beneficiado pelo recall, Serra é conhecido por cerca de 90% do eleitorado brasileiro. Com uma taxa de conhecimento que gira ao redor dos 40%, Aécio acha que não pode ser considerado como uma carta excluída do baralho presidencial. Diz que a taxa de rejeição de Serra é maior do que a sua. Julga-se, além disso, em melhores condições de reunir em torno de si uma aliança partidária ampla, incorporando inclusive partidos que hoje gravitam em torno do governo Lula.
Por último, Aécio puxa da gaveta uma pesquisa que recebeu do instituto Vox Populi. Apresentou-a a um grão-tucano com quem conversou. O levantamento foi fechado em dezembro. Informa que 86% do eleitorado mineiro acha que ele deve se lançar na briga pelo Planalto.
Aécio conclui: “É algo muito sólido, que não posso ignorar, sob pena de ir para o suicídio. Se insistirem nessa tese de que, resolvido São Paulo está resolvido o Brasil, o Serra acaba se consolidando como o candidato anti-Minas. É uma visão míope. Anteciparam o processo de forma desastrada. Não deixaram opção aos aliados: ou aderem ao projeto de São Paulo ou não concordam e encaminham em outra direção. É o que vai acontecer.”
Alan Souto Maior Alves Nos últimos cinco meses de 2007, foram ao chão as árvores que cobriam uma área de 3.235 km2 da floresta amazônica. O dado foi levantado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O mesmo órgão suspeita que a devastação pode ter sido ainda maior. Bem maior: 7.000 km2.
Premido pelas circunstâncias, Lula pôs-se em movimento. Tenta fazer pela pressão dos fatos o que o governo não fez por obrigação. O presidente convocou ao seu gabinete, nesta quinta (24), sete ministros e o diretor-geral da Polícia Federal. Depois de duas horas de reunião, foram anunciadas as providências. As medidas boas não são novas. E as novas não são boas.
Primeiro as novas: Lula ordenou que fosse divulgada a lista dos 36 municípios campeões do desmatamento. Estão assentados nos mapas de Mato Grosso (19), Pará (12), Rondônia (4) e Amazonas (1). Respondem por 50% do desmatamento detectado no ocaso de 2007. O presidente determinou, de resto, que os ministros envolvidos com a encrenca sobrevoem esses municípios;
Agora, as providências velhas: Lula mandou que seus auxiliares intensifiquem a implementação de medidas analisadas no ano passado e anunciadas em dezembro: Entre elas: embargo de propriedades onde houve desmatamento; controle da atividade agropecuária; criação de unidades de conservação; bloqueio de financiamentos para empresas que lidam com a derrubada de árvores; e recadastramento de fazendas situadas nas áreas desmatadas.
Registrou-se na reunião ministerial uma divergência: Marina Silva (Meio Ambiente) atribui o incremento da derrubada indiscriminada de toras ao avanço da soja e da agropecuária sobre a mata. Reinhold Stephanes (Agricultura) discordou. Discussão, a essa altura, bizantina. Não trará as árvores de volta.
Mais prático, o ministro Tarso Genro (Justiça) informou que, a partir do dia 21 de fevereiro, será reforçada a fiscalização e a vigilância ostensiva da Polícia Federal na região Amazônica. Pretende-se despachar para os Estados amazônicos um contingente de mais 780 agentes federais –acréscimo de 25% em relação ao efetivo atual.
A propósito da passagem do aniversário de 85 anos da Previdência Social, Lula falou a uma platéia de aposentados, nesta quinta (24), no Planalto. Portou-se como o roto que fala aos esfarrapados.
O presidente deu um conselho aos brasileiros pendurados na folha de benefícios e pensões da Previdência: "Por reivindicação, vocês conquistaram cartão de crédito, alongaram o crédito consignado para 60 meses. Agora, precisa tomar cuidado com o cartão de crédito."
Lula foi ao ponto: “[...] Quando a gente não tem que botar a mão no bolso para gastar dinheiro, a gente vai gastando mais do que se tivesse que tirar uma notinha do bolso." As observações, por procedentes, suscitam uma pergunta. Uma questão que ficou boiando na atmosfera do salão de audiência públicas do Planalto:
Por que diabos o presidente não repassa o mesmo conselho aos seus ministros?, eis a indagação pendente de resposta. Munidos de cartões corporativos custeados pelo contribuinte, os integrantes do primeiro escalão vêm produzindo uma farra que pôs a oposição em estado de alerta.
Aos olhos de boa parte dos ministros de Lula, dinheiro público parece dinheiro grátis. O contribuinte sabe, porém, que a coisa lhe custa os olhos da cara. O presidente bem poderia ter aproveitado a "santa ceia" da véspera para admoestar os seus discípulos. Por que calou? Parece considerar que verba alheia em cartão de ministro é refresco.
O José Dirceu pós-implante capilar fez, nesta quinta-feira (24), sua primeira aparição pública. Continua o mesmo, dos pés à cabeça. Observando-o, tem-se a impressão de que, assim como os meandros do mensalão, cabelo é uma coisa que nunca lhe passou pela cabeça.
Assim como a sua versão para o escândalo, os 6.700 fios que diz ter implantado no cucuruto não fizeram a menor diferença. Dirceu ainda não deixou a 2ª Vara Criminal de São Paulo. Porém, sabe-se, de antemão, que combinou com seu advogado que repetiria à juíza Sílvia Maria Rocha tudo o que já dissera antes.
Não viu nada, não tomou conhecimento de coisa nenhuma. Era ministro, não dirigente do PT. O emprego e o empréstimo que Marcos Valério intermediou para sua ex-mulher não caracterizam tráfico de influência. Longe disso. Blá-blá-blá...
O repórter apurou que Dirceu tentou adiar o depoimento desta quinta. Em petição dirigida ao STF, seus defensores alegaram que tinham outro compromisso em Curitiba (PR). Não haveria tempo hábil para o retorno a São Paulo.
Coube a Ellen Gracie, presidente do Supremo, analisar o pedido. Negou-o, sem pestanejar. Anotou em seu despacho que os transportes aéreos brasileiros oferecem vôos em quantidade razoável e em horários variados. Datada da última segunda-feira, dia 21, a decisão foi encaminhada à juíza Sílvia Rocha, que manteve a inquirição.
Além de Dirceu, outros réus do mensalão deram as caras na 2ª Vara Criminal de São Paulo. Um deles, Silvinho Pereira, livrou-se do depoimento. Negociou um acordo com o Ministério Público e foi excluído do rol de 40 réus do mensalão. Em troca, prestará serviços comunitários durante três anos.
PS.: Encerrado o depoimento de José Dirceu, soube-se, afinal, o que disse à juíza aquele que o procurador Antonio Fernando de Souza aponta como chefe da "organização criminosa". Como previsto, Dirceu negou, negou e negou.
A boa técnica ensina que o texto jornalístico deve ser enxuto. Há ocasiões, porém, em que a notícia reclama a companhia de um vocábulo supérfluo. É o caso de uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (24) pelo IBGE.
A pesquisa trata da situação do trabalho nas regiões metropolitanas. Impossível noticiá-la sem usar uma das convenções de linguagem mais abominadas nas redações de jornal: “Por outro lado.”
Diz o IBGE que a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas do país foi, em 2007, de 9,3%. É o índice mais baixo desde 2002, ano em que o levantamento começou a ser feito. Por outro lado, o rendimento médio do trabalhador brasileiro no ano passado (R$ 1.145,08) foi menor do que o registrado cinco anos atrás (R$ 1.205,39).
Observadores mais benevolentes dirão: R$ 1.145,08 de média salarial! Nada mal! Por outro lado, o IBGE informa que, em 2007, as mulheres continuaram recebendo contra-contra-cheques com valores médios 70,5% abaixo dos montantes pagos aos homens.
Em quatro das seis regiões pesquisadas, a taxa de desemprego ficou abaixo da média nacional: Porto Alegre (5,3%), Belo Horizonte (5,5%), Rio (6,1%) e São Paulo (8%); Por outro lado, o índice situou-se acima da média em duas regiões: Recife (9,9%) e Salvador (11,4%).
Registraram-se altas no nível de emprego de determinados setores: indústria extrativa, de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água (5,4%); construção (12,6%); educação, saúde, serviços sociais, administração pública, defesa e seguridade social (4,3%); serviços domésticos (5,9%); e outros serviços (2,3%).
Por outro lado, outros setores amargaram um decréscimo: comércio, reparação de veículos automotores e de objetos pessoais e domésticos e comércio a varejo de combustíveis (-0,7%); e serviços prestados à empresas, aluguéis, atividades imobiliárias e intermediação financeira (-4,2%).
Ou seja, a situação do emprego melhorou. Por outro lado, poderia ter melhorado muito mais. O mercado demonstra, aos pouquinhos, capacidade de reação. Por outro lado, vive-se a era do movimento sindical sem força, quase irrelevante.
Inspirado na sabedoria popular –cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém— o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu servir ao país uma canja. Pela terceira vez consecutiva, manteve em 11,25% a taxa básica de juros.
Afora o receio de que a inflação fuja ao controle, as autoridades monetárias do Brasil olham de esguelha para as nuvens espessas que se formam sobre a economia dos EUA. O temporal está armado. A dúvida é se será uma tempestade do tipo que leva as telhas da casa ou uma tsunami econômica que leva a própria casa.
A palavra da moda nos círculos financeiros do mundo é “decoupling”. Significa, na língua de Camões, “descolamento”. Em economês, a língua dos economistas, quer dizer que economias emergentes, como a do Brasil, estariam imunes à borrasca norte-americana.
Se você é do tipo que aprecia o jogo do contente, fique com as palavras de Dilma Rousseff. A chefona da Casa Civil diz que o PAC constitui uma “vacina” contra a crise. Os canteiros de obras do programa de Lula, que, por ora, só existem na ficção oficial, tonificariam o mercado interno. E o Brasil passaria ao largo da crise.
Se você prefere manter os pés na realidade, preste atenção às palavras de Henrique Meirelles. Por dever de ofício, o presidente do Banco Central conserva um sapato na canoa do discurso oficial. Diz que o Brasil está preparado para arrostar a crise. Mas, precavido, plantou o outro sapato em terra firme: “Não temos a ilusão de que o Brasil está imune a desenvolvimentos externos.”
Daí a opção pela canja. Resta agora saber se a galinha norte-americana, engordada à base de milho anabolizado, não chegará à mesa das finanças brasileiras. Nas últimas duas décadas, a economia dos EUA alimentou-se da especulação dos mercados de ações e imobiliário. A casa –com trocadilho, por favor— caiu.
Estima-se que os papéis de Wal Street estejam inflados em algo como 10%. A corrente da felicidade que amarrava os empréstimos imobiliários se rompeu. As maiores casas bancárias dos EUA já trouxeram à luz do dia prejuízos de US$ 353 bilhões. Outros estabelecimentos vasculham os porões à procura dos cadáveres.
O prejuízo traz o medo, que leva ao refinamento dos cadastros, que conduz à redução dos empréstimos, que enxuga o dinheiro em circulação, que produz o declínio do consumo, que leva ao desaquecimento da economia, que flerta com a recessão.
Sabia-se há tempos que a economia dos EUA, por insustentável, tinha encontro marcado com o chão. Especulava-se, porém, sobre o tipo de aterrissagem. A maioria dizia que seria uma “soft landing” (aterrissagem suave). Alguns poucos apostavam no “hard Landing” (pouso forçado). O nariz do avião aproxima-se da pista. E a turbulência prenuncia o pior.
Os partidários da tese do descolamento afirmam que os EUA já não têm o peso do passado. A pujança econômica de países como a China funcionaria como anteparo. Constituiria um mercado alternativo para as outras nações emergentes. Recomenda-se aos mais prudentes dar de ombros para esse tipo de trololó.
Às voltas com o fantasma da inflação, a China leva o pé ao freio. Cresceu à taxa de 11,4% em 2007. Programa algo menor para 2008: entre 8% e 9%. De resto, convém considerar dois detalhes:
1) O socialismo de mercado chinês sobrevive, em boa medida, da venda de seus produtos baratos para o resto do planeta. As exportações chinesas respondem por algo como 9% da economia do país. Ou seja, antes de comprar, os olhinhos puxadinhos querem vender. E os EUA são, hoje, o seu maior comprador; 2) o cidadão norte-americano destina ao consumo cerca de R$ 10 trilhões por ano. É quase nove vezes mais do que consomem os chineses. Ou seis vezes acima do consumo da China e da Índia juntas.
Portanto, meu caro, em meio a tantas dúvidas, desconfie das autoridades que observam a crise com fisionomia de aeromoça. Se você é do tipo que economiza para os dias ruins, aproveite a seiva do caldo de galinha do Copom para reforçar o pé de meia. Os dias que estão por vir serão piores.
Quando ouvir o lero-lero otimista de Lula e seus discípulos, agarre-se a um guarda-chuva. Se vier o Sol escaldante que o governo está prevendo, você atravessará a calçada à sombra.
Folha Arquiteto auxiliar de um projeto malsucedido, Delúbio Soares continua cumprindo à risca o seu papel. Vai distribuindo plantas defronte das paredes, para disfarçar as rachaduras. Nesta quarta-feira (23), o ex-gestor das arcas clandestinas do PT prestou depoimento à Justiça Federal, em São Paulo. Pôs uma planta aqui, outra ali e, na saída, brindou os repórteres com um sucinto “boa noite.”
Convertido em réu pelo STF, Delúbio responde pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha. Inquiriu-o a juíza Sílvia Maria Rocha, da 2ª Vara Criminal de São Paulo. Ele disse à magistrada que o mensalão não existiu. Reconheceu ter contraído empréstimos nos bancos Rural e BMG, com o auxílio de Marcos Valério. Negou, porém, que a grana tenha sido usada para comprar congressistas.
Repisando uma tese que já esgrimira na CPI dos Correios, o ex-tesoureiro petista alegou que o dinheiro bancou despesas da posse de Lula, em 2003, viagens de militantes e despesas de campanhas eleitorais. Livrou a cara do amigo José Dirceu. Disse que o ex-chefão da Casa Civil desconhecia a existência dos empréstimos.
Nesta quinta-feira (24), a mesma juíza Sílvia Rocha vai inquirir José Dirceu. A audiência está marcada para as 14h30. Assim como Delúbio, o ex-ministro de Lula vai à 2ª Vara Criminal na condição de florista. Não viu, não sabia, não fez nem aconteceu.
Em público, a ministra Marta Suplicy (Turismo) faz suspense sobre se vai ou não concorrer à prefeitura de São Paulo. Nos subterrâneos, despachou um emissário para negociar com Orestes Quércia uma coligação do seu PT com o PMDB. Deu-se na terça-feira (23), no escritório de Quércia.
A conversa teve ares institucionais. Além de controlar o diretório do PMDB na capital paulista, Quércia é o presidente do partido no Estado de São Paulo. Por isso, o petismo escolheu para abrir a negociação o seu presidente estadual, Edinho Silva, prefeito de Araraquara.
Segundo apurou o blog, Edinho deixou claro a Quércia que falava autorizado por Marta Suplicy. Disse que a ministra já tomou a decisão dela. Será mesmo candidata à prefeitura paulistana. E deseja formalizar uma coligação com o PMDB.
Privadamente, Marta declarou a integrantes de seu agrupamento político que só dará as caras na campanha em maio, em data próxima do limite imposto pela lei para que deixe o ministério. Até lá, tricotará a portas fechadas.
O encontro de Edinho com Quércia ocorreu nas pegadas de contatos do mandachuva do PMDB com e o “prefeiturável” Geraldo Alckmin (PSDB). Conforme noticiado aqui, Alckmin e Quércia reuniram-se pelo menos duas vezes.
Os aliados da ministra do Turismo invocam a presença do PMDB no consórcio que dá suporte a Lula para argumentar que o mais lógico é que Quércia se acerte com Marta, não com Alckmin. Cortejado, o peemedebista se faz de difícil. Por ora, não fechou com nem com o PT nem com o PSDB.
Como de hábito, quer saber qual dos dois lados lhe será mais vantajoso. Além de indicar o candidato a vice, Quércia deseja assegurar vaga para o Senado numa coligação para 2010. De resto, decidiu dar tempo ao tempo.
Quércia quer saber se o governador José Serra (PSDB) não vai puxar o tapete de Alckmin. E se Lula não criará obstáculos para as pretensões de Marta. Tenta, de quebra, emplacar afilhados no organograma do governo federal.
O último que indicou foi Miguel Colassuono. O nome referendado pela raposa repousa na mesa do Lobão, o novo ministro das Minas e Energia. Há mais: além de PSDB e PT, também o DEM de Gilberto Kassab emite sinais de que gostaria de um entendimento com o PMDB.
De concreto, tem-se, por enquanto, apenas uma certeza: o PMDB não terá candidato próprio à prefeitura de São Paulo. Conforme já noticiado aqui, o presidente nacional da legenda, Michel Temer (SP), já reconhece que a tendência é mesmo a de fazer uma coligação.
A presidente do TRF (Tribunal Regional de Brasília), Assusete Magalhães, receberá nesta quinta-feira (24) parecer em que o procurador da República Odim Brandão Ferreira defende a extinção da verba indenizatória de R$ 15 mil paga mensalmente pelo erário a deputados e senadores. Munida do documento, a magistrada terá de decidir se acolhe ou não a ação movida pelo ex-deputado João Cunha (PMDB-SP) contra o pagamento do benefício.
O processo foi aberto em maio do ano passado. João Cunha defendeu na ação a tese de que a verba indenizatória, instituída a pretexto de ressarcir as despesas decorrentes do exercício do mandato parlamentar, é “inconstitucional”. Constitui, segundo ele, um complemento disfarçado de salário. O contra-cheque dos congressistas é de R$ 16,5 mil.
Em decisão tomada pela primeira instância do Judiciário, João Cunha obteve, por meio de uma liminar, a suspensão do pagamento da verba indenizatória. Mas a AGU (Advocacia Geral da União) recorreu ao TRF. E a juíza Assusete Magalhães cassou a liminar. Alegou que a verba não se confunde com salário. Via o ressarcimento de despesas, comprovadas mediante apresentação de notas fiscais e recibos.
O TRF terá agora que julgar o processo em termos definitivos. E a juíza Assesete terá de manifestar-se de novo. Precisará dizer se concordar ou não com os argumentos levados aos autos pelo procurador Odim Brandão.
Para o representante do Ministério Público, os R$ 15 mil repassados aos congressistas constituem, sim, uma ilegalidade. Alega que deputados e senadores já dispõem de recursos para o custeio dos seus mandatos. Menciona o auxílio moradia e as cotas de passagens aéreas, de telefone, de correspondência e de impressão gráfica.
Lula reuniu seus discípulos nesta quarta-feira (23). Abriu o encontro comparando-o, veja você à Santa Ceia. “Eu fico imaginando que, muitas vezes, nesta mesa aqui, que parece a Santa Ceia, todo mundo reunido, depois passamos um ano sem conversar.” Curioso, muito curioso, curiosíssimo.
A comparação de Lula soou imprópria. A começar pela composição da mesa. Jesus sentou-se com escassos 12 discípulos. Lula reuniu 37 em torno de si. Não seria educado, porém, recusar o convite à analogia feito por um presidente da República. Faça-se, portanto, um esforço.
Segundo o relato do livro de João, Jesus dirigiu-se aos apóstolos com afeto. Incutiu-lhes na alma aquele que seria o seu derradeiro ensinamento: “Um mandamento novo vos dou: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos tenho amado, amai-vos também uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.”
À sua maneira, Lula também conclamou os ministros a amarem-se uns aos outros. É o único modo, imagina ele, de propagar convenientemente a mensagem do governo.
“Penso que, entre vocês, existe pouca conversa política. Eu diria que há quase meses e meses que vocês não conversam entre si, que não trocam idéias. Certamente as pessoas conhecem menos do que deveriam conhecer sobre o que o governo faz, porque o sistema de comunicação entre nós talvez não seja o mais perfeito ainda.”
Escalado para comunicar aos repórtes o que ocorrera por trás das portas da sala de reuniões do Planalto, o discípulo José Múcio traduziu as palavras do mestre. Disse que é preciso capitalizar "potencial político" dos ministros. É como se dissesse: "Nomeiem, senhores, usem a caneta."
Para facilitar a difusão do Evangelho segundo Lula ‘Cristo’ da Silva, o presidente fez chegar às mãos de seus discípulos uma cartilha. Funcionará como um catecismo. Contém as realizações que a gestão petista espargiu sobre a Terra. Servirá para que os profetas do novo mundo levem a palavra de seu Senhor até o rebanho das eleições municipais de 2008. O próprio Mestre participará do esforço para a difusão da mensagem.
Jesus estava casado aos seus discípulos na comunhão do amor a Deus. Entre os ministros e Lula, o neoCristo, não há propriamente um matrimônio. Une-os o patrimônio. Atraídos pelos bens da Viúva, sacrossanta senhora, aglomeram-se à volta do Senhor de todos os cargos, do Todo-Poderoso das verbas, 14 partidos políticos.
Ensina o Novo Testamento que a última ceia, a autêntica, a legítima, precedeu a Paixão e morte de Jesus. De acordo com as anotações de São João, numa prova de humildade, Cristo lavou os pés de seus discípulos. Lula não chegou a tanto. Lavou apenas a biografia de Edison Lobão, elogiando-o diante de seus pares e dando-lhe as boas-vindas à Esplanada.
Na ceia de Cristo, houve um anúncio dramático. Está descrito, em detalhes, nos livros de Mateus, Marcos, Lucas e João. Jesus anunciou aos discípulos que um deles iria traí-lo. Apontou Judas. “Eu vos declarei o quanto eu desejava realizar esta ceia convosco e, sabendo como as forças do mal e das trevas conspiraram para a morte do Filho do Homem, eu determinei compartilhar esta ceia convosco, nesta sala secreta [...]. Eu já vos disse repetidamente que devo retornar ao Pai. Agora a minha hora chegou, e não era necessário que um de vós me traísse, entregando-me nas mãos dos meus inimigos”.
Segundo o Livro dos Livros, Jesus acrescentou: “Entristeço-me de que esse mal tenha acontecido e até este momento eu esperei que o poder da verdade pudesse triunfar sobre o engano causado pelo mal, mas essas vitórias não são ganhas sem a fé do amor sincero à verdade. Eu gostaria de não ter de dizer essas coisas, nesta que é a nossa Última Ceia, mas desejei prevenir-vos sobre esses sofrimentos e, desse modo, preparar-vos para o que nos espera. Eu vos disse isso porque desejo que vos lembreis, depois que eu me for, de que eu sabia sobre todas essas conspirações maldosas, e que vos preveni sobre a traição feita contra mim. E tudo isso eu faço apenas para que sejais fortalecidos contra as tentações e provações que estão pela frente”.
Os inimigos de Lula já erguem a cruz de 2010. Muitos dos que estiveram na “ceia” do Planalto decerto preferirão o papel de Judas a ter de abraçar uma candidatura petista que padeça de inanição de votos. Mas Lula não chegou a apontar os traidores. Tampouco soou dramático. Longe disso. Lembrou aos discípulos que o seu fim é, ainda, um quadrado longíngüo na folhinha.
“aqui tem representantes de vários partidos políticos. Nós somos de um partido político, estamos no governo e nós precisamos saber combinar essa nossa atuação na relação com todos os ministros, porque nós temos três anos de governo pela frente. Três anos não é pouca coisa. Três anos significa que nós temos todo o governo ainda por fazer”.
Na ceia cristã, depois de identificado por Jesus, Judas apressou-se em sair, para cumprir osseus desígnios, amealhando os trinta dinheiros. Na ceia pós-moderna, Meirelles também deixou a mesa antes do lanche servido pela cozinha do Planalto. Embora o PT o identifique como um tucano infiltrado no governo, Meirelles não foi vender o chefe. Depois de um breve relato sobre a atmosfera de borrasca prenunciada pela recessão norte-americana, o discípulo Meirelles dirigiu-se à reunião do Copom, o Conselho de Política Monetária. Tenta livrar a economia da era Lula do calvário.
Em troca do apoio a Kassab, partido abre mão da vice
Oferece também apoio a Alckmin na sucessão estadual
Sérgio Lima/Folha A direção do DEM joga pesado para obter o apoio do PSDB à candidatura de Gilberto Kassab na eleição municipal de 2008. Promete compensar o tucanato paulista com extrema generosidade nas disputas pelo Planalto e governo de São Paulo, em 2010.
Para a sucessão de Lula, o DEM se dispõe a apoiar o governador tucano José Serra sem exigir a vaga de vice. Em reserva, os ‘demos’ sugeriram a Serra a formação de uma chapa presidencial “puro sangue”, com o também tucano Aécio Neves na posição de candidato a vice.
Na eleição do futuro governador de São Paulo, o DEM promete apoio irrestrito a Geraldo Alckmin (PSDB). Nesta quarta-feira (23), Jorge Bornhausen, ex-presidente do DEM, terá um encontro com Alckmin. Tentará demovê-lo da idéia de disputar a prefeitura, facilitando a composição em torno de Kassab.
Em diálogos que manteve com líderes do DEM, Serra tratou com naturalidade a possibilidade de figurar na cédula de 2010 ao lado de Aécio. Discorreu sobre o tema como se a hipótese já figurasse nos seus planos. Disse que é coisa para ser tratada mais adiante, não agora.
No momento, Serra concentra-se na costura de uma aliança tucano-democrata em torno de Kassab. Informou ao DEM que fará o que estiver ao seu alcance para pôr o acerto de pé. Disse, porém, que a evolução do entendimento depende da concordância de Alckmin, com quem planeja conversar depois do Carnaval.
Privadamente, lideranças do DEM e do próprio PSDB acham que Serra falhou no seu relacionamento com Alckmin. Em vez de abrir espaço para aliados do ex-governador na administração estadual, fechou as portas e afastou-se dele. Sugere-se que busque uma reaproximação.
Ainda que consiga arrancar Alckmin do caminho de Kassab, Serra terá muito a alinhavar se quiser de fato transformar Aécio Neves, hoje tão presidenciável quanto ele, em mero candidato a vice. Por enquanto, o maior aliado do governador de São Paulo, além do DEM e de FHC, é a pesquisa de opinião.
Na última sondagem do Datafolha, divulgada em 1º de dezembro de 2007, Serra figurava como líder em todos os cenários montados pelo instituto. Ciro Gomes (PSB) aparecia em segundo, sempre à frente dos candidatos do PT. Trocando-se o nome de Serra pelo de Aécio, Ciro assume o primeiro lugar. E o PSDB desce para o terceiro. Aécio fica atrás de Heloísa Helena (PSOL).
Montou-se também um cenário em que Serra e Aécio concorrem entre si. Nessa hipótese, que dependeria de uma improvável mudança do governador mineiro para outra legenda, Aécio manteve-se na condição de sub-HH. Serra (33%) lidera; Ciro (19%) permanece em segundo; e HH (15%) fica em terceiro. Só então vem Aécio (11%).
Na opinião de dirigentes do DEM, aparentemente compartilhada por Serra, a manutenção desse quadro amoleceria eventuais resistências de Aécio à vice. Não é o que deixa antever a movimentação do governador de Minas. Em São Paulo, Aécio estimula Alckmin a bater o pé. Quanto a Brasília, disse em dezembro, 11 dias depois da divulgação do Datafolha, que se considerava pronto para assumir a candidatura presidencial.
De concreto, tem-se, por ora, apenas o seguinte: para as duas principais legendas da oposição a Lula, a eleição municipal de São Paulo converteu-se na ante-sala de 2010. Serra e Aécio firmaram, em meados do ano passado, um armistício.
Combinaram de deixar as diferenças no armário até a abertura das urnas municipais, em outubro de 2008. A fricção entre Kassab e Alckmin está como que forçando a porta do armário. Que começa a se abrir antes da hora marcada.
Divulgação O excesso de esperteza intoxicou a Petrobras. De petroleira, a estatal converteu-se em agência de publicidade. É, hoje, a principal provedora de “boas notícias” do Palácio do Planalto.
O governo está em apuros? O noticiário azedou? Acalme-se. Seus problemas acabaram! A Petro-Tabajara News tem uma novidade para pendurar nas manchetes. Tupi já deu pro gasto? Recorra-se a Júpiter.
Em novembro do ano passado, Lula estava acossado pela crise do gás. A Petrobras saiu-se com Tupi, um campo capaz de tonificar as reservas nacionais de óleo em 50%. Nos dias seguintes, viriam os detalhes.
Nada pra já, o país saberia nos dias seguintes. A Petrobras extraíra amostras de petróleo de boa qualidade em alto mar, a 7.000 metros de profundidade, em reserva distante da costa de Santos 180 km. Um feito notável.
Mas a viabilidade comercial do empreendimento depende de estudos adicionais e novos investimentos. Dinheiro em volume ainda não esclarecido. Sabe-se apenas que não será pouca grana. Longe disso.
Com alguma sorte, o país conhecerá a extensão real da jazida de Tupi num par de anos. Com mais sorte, saberá, em quatro ou cinco anos, se a extração de óleo em valores comerciais é ou não viável. Coisa para 2013 ou 2014.
Agora, com Edison Lobão atravessado na traquéia dos brasileiros e o fantasma da crise energética a sacudir o lençol sobre o Planalto, a Petrobras traz à tona o gás de Júpiter. E o faz, de novo, em timbre grandiloqüente.
Vizinha de Tupi, Júpiter pode tornar o Brasil auto-suficiente na produção de gás natural, informa a estatal. Quando? Daqui a seis anos. O gás está situado abaixo da camada de sal, sob rochas, a 5.252 metros de profundidade e a 290 km da costa. Ou seja: mais estudos e novos investimentos.
O Brasil poderá dar uma banana para a Bolívia? Impossível dizer a essa altura. A exemplo do petróleo de Tupi, o tempo dirá se o gás de Júpiter chegará ao continente em valores comerciais.
A petrolífera brasileira foi a primeira companhia a dominar a tecnologia de prospecção em águas profundas (2.000 metros). Dá gosto saber que começa a equipar-se também para a exploração em superprofundidade (até 7.000 metros).
A estatal não deveria permitir que seus êxitos sejam intoxicados pela esperteza política. O excesso de marquetagem retira do espetáculo o prazer que o brasileiro tem de festejar as poucas coisas boas que lhe chegam.
Antônio Cruz/ABr Como previsto, o alto comando do DEM reuniu-se nesta terça-feira (22) em São Paulo, cidade em que o ‘demo’ Gilberto Kassab e o tucano Geraldo Alckmin engalfinham-se por uma vaga de candidato às eleições municipais. O partido de Kassab adicionou azeite na frigideira em que está sendo flambada a candidatura própria.
O presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ) disse que o nome de Kassab só não vai à cédula de 2008 se o prefeito não quiser. E ele quer. Deseja muito. "Se o Kassab disser que topa, mesmo sem acordo com o PSDB, tem nosso apoio. Ele só não será o candidato se não quiser mais."
Rodrigo desdenhou da hipótese de Kassab vir a disputar a eleição na condição de candidato a vice. Uma hipótese que forçaria o prefeito a renunciar ao cargo. "Não é correto quem está na prefeitura renunciar. Se ele renuncia, ele assume que de fato o outro nome [Alckmin] tem mais condições de administrar São Paulo. Talvez tenha a mesma condição e qualidade. Mas mais [...] que o prefeito de São Paulo certamente nenhum outro candidato tem."
O próprio Kassab, com a prudência de quem ainda busca um entendimento com o tucanato, disse que ficará feliz se puder concorrer à reeleição. “Mas jamais será essa vontade pessoal que irá prevalecer nos entendimentos. [...] Não tem sentido nenhum nós não darmos prioridade à manutenção dessa aliança [com o PSDB]."
A refrega municipal ocorre na ante-sala da disputa presidencial de 2010. José Serra, por ora o tucano mais bem-posto nas pesquisas que antecipam as intenções de voto da sucessão de Lula, conspira contra o “companheiro” Alckmin. Vê na parceria com Kassab a chance de renovar mais adiante a coligação tucano-democrata. Serra, aliás, fez questão de prestigiar um jantar promovido pela tribo ‘demo’ na noite passada.
Folha O governo planta alicerces, na expectativa de colher orgasmos na safra eleitoral de outubro de 2008. Nesta terça (22), Dilma Rousseff informou que já são 2.126 os canteiros de obras do PAC.
A grossa maioria dos empreendimentos (86%) encontra-se, segundo a chefona da Casa Civil, com o cronograma de execução em dia. Vive-se uma situação que a ministra definiu como “muito positiva”.
"O ano de 2008 será de muitas realizações. O país terá, de Norte a Sul, não só a contratação de obras em grande escala, mas um grande canteiro de obras em processo de viabilização." Canteiro que Lula começará a regar no mês que vem, em viagens ao redor do Brasil.
O cenário róseo esboçado por Dilma tinge-se de cinza no instante em que a análise desce aos números da execução orçamentária. No alvorecer de 2007, o governo reservara pouco mais de R$ 16 bilhões para investir nas obras do PAC. Nove meses depois, em setembro, só R$ 6,7 bilhões (45%) haviam sido empenhados. Como explicar? Simples. Sempre que há dificuldade para justificar algo com base em dados objetivos, deve-se recorrer a um ministro da área econômica.
Dilma escorou-se em Paulo Bernardo (Planejamento). E o colega tentou dar ao limão uma aparência de limonada. Disse que, entre setembro e dezembro de 2007, o volume de verbas empenhadas para o PAC cresceu 733%. Saltou-se de R$ 6,7 bilhões para algo como R$ 16 bilhões.
Há um detalhe: o empenho representa a reserva da verba, não a efetiva liberação. Na ponta do lápis, gastaram-se R$ 1,37 bilhão até setembro e R$ 4,756 bilhões até dezembro de 2007. Pouco, muito pouco, pouquíssimo.
Para 2008, o governo injetou no PAC mais R$ 18 bilhões. Grana que não será alcançada pela tesoura pós-CPMF. Prevê-se que as liberações serão mais céleres. Ainda que não sejam, a simples marola é suficiente para consolidar o nome da gerentona Dilma Rousseff como alternativa petista à sucessão de Lula.
A ministra reage à especulação “com profundo cansaço”. Ela diz: “Cansei de falar que não sou candidata. Sempre que isso é colocado, em vez de me beneficiar, prejudica o PAC." Reação de candidata, como se vê.
O PAC pode não fazer de Dilma uma heroína petista. Mas os adversários da ministra dentro do PT terão enorme dificuldade para destruir, em 2010, o pedestal em que Lula vai acomodando, aos pouquinhos, sua ministra mais poderosa. Restará a Dilma obter os votos que escasseiam no seu cesto.
Hoje, Dilma amealha nas pesquisas de opinião índices constrangedores: abaixo de 2% das intenções de voto. Uma taxa que deve subir no dia em que Lula pronunciar a seguinte frase: “A Dilma é a minha candidata.” Ciro Gomes (PSB) e seus partidários conspiram para que o presidente diga aos eleitores coisa diferente.
Em 2006, morreram 9,7 milhões de crianças no mundo
Brasil somou 74 mil mortos com menos de cinco anos
Na lista que vai do pior ao melhor foi de 86º para 113º
A ONU divulgou nesta terça-feira a versão 2008 do seu Relatório Mundial da Infantil. Foi elaborado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Registra uma queda recorde na morte de crianças antes de completar cinco anos: foram 9,7 milhões de óbitos em todo mundo. É a primeira vez que o índice fica abaixo de 10 milhões. Em 1990, primeiro ano da contagem, as mortes de crianças somavam 13 milhões.
Os dados contidos no estudo, defasados em dois anos, referem-se a 2006. Foram perscrutados 194 países. O Brasil registrou avanços notáveis no combate à mortalidade de crianças com menos de cinco anos. Em 1990, a taxa de mortalidade era, nessa faixa etária, de 57 para mil nascidos vivos. Em 2006, a taxa de mortes caiu de 20 para cada mil nascidos. No total, morreram 74 mil crianças no país em 2006.
O Brasil avançou 27 posições no ranking do Unicef da taxa de mortalidade. Foi da 86ª posição para a 113ª. Nessa lista, ocupam os primeiros lugares os países com maiores taxas de mortalidade infantil. Quanto mais alta a colocação, mais próxima das nações que têm as menores taxas: Suécia, Cingapura, Espanha, Japão, Alemanha e Bélgica.
Na América do Sul, o Brasil só perde para outros três países: o Chile (148º colocado no ranking do Unicef, com nove mortes por mil nascidos vivos); o Uruguai (138º, 12 mortes por mil) e a Argentina (125º, 16 mortes por mil).
Pressionando aqui, você chega ao relatório com dados mundiais. Clicando aqui, chega-se ao “Caderno Brasil”, um apêndice que traz informações alentadas só sobre a situação da infância no Brasil. Há no caderno um ranking das 27 unidades da federação. Foram divididas de acordo com um índice criado pela ONU.
Chama-se IDI (Índice de Desenvolvimento Infantil). Leva em conta quatro indicadores: 1) número de crianças menores de 6 anos que tenham pais com escolaridade precária; 2) cobertura de vacinal de crianças com menos de um ano de idade; 3) mães com cobertura pré-natal; e 4) crianças matriculadas na pré-escola. O IDI pode variar de zero a um.
Neste último levantamento, os Estados que mais se aproximaram da taxa máxima do IDI foram São Paulo (0,856), Santa Catarina (0,828) e Rio de Janeiro (0,806). Verificou-se, porém, que todas as 27 unidades da federação lograram alcançar um IDI acima de 0,500. Ou seja, todos se situam agora num nível de desenvolvimento infantil médio. Em 1999, sete Estados tinham um desenvolvimento infantil abaixo desse patamar. Em 2004, esse número fora reduzido para um.
Governo previra uma redução de gastos maior: R$ 20 bi
Roosewelt Pinheiro/Abr Caiu de R$ 20 bilhões para cerca de R$ 17 bilhões –ou até um pouco menos—a previsão de cortes que a Comissão de Orçamento do Congresso planeja fazer nas despesas do governo para 2008. Contra a vontade dos ministérios da Fazenda e do Planejamento, a decisão será justificada por meio de uma reestimativa –para o alto— da arrecadação tributária da União.
Premido pela necessidade de ajustar as despesas públicas à realidade pós-CPMF, o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) reuniu-se na noite passada, em pleno recesso, com técnicos da Comissão de Orçamento. Dornelles é o relator do comitê incumbido de estimar a arrecadação de impostos do governo. Farejou, segundo disseram os técnicos ao repórter, uma receita maior do que a prevista inicialmente.
A análise de Dornelles será concluída nesta quarta-feira (23). Nesse mesmo dia, ele repassará os novos dados ao relator-geral do Orçamento da União, deputado José Pimentel (PT-CE). Escalado para manusear a tesoura, Pimentel já foi informado, privadamente, do “excesso de arrecadação.”. Se quisesse, poderia manter os cortes no patamar anunciado pelo governo. Decidiu, porém, que não entregará um vintém além do necessário.
Essa é a terceira reestimativa de receita produzida por Dornelles. No projeto de orçamento que o governo enviara ao Congresso, previra-se uma arrecadação de impostos de R$ 682 bilhões para 2008. Dornelles foi à máquina de calcular. Chegou a um número maior: R$ 696 bilhões.
Refinando as contas, Dornelles deparou-se com um valor ainda mais vistoso: R$ 704 bilhões –R$ 22 bilhões acima da previsão do governo. No final da semana passada, o senador recebeu novos dados da Receita Federal. Voltou, pela terceira vez, à máquina de cálculo.
Embora as contas ainda estejam inconclusas, Dornelles já detectou, segundo apurou o blog, uma diferença a maior de pelo menos R$ 2 bilhões. O suficiente para reduzir a necessidade de corte de R$ 20 bilhões para R$ 18 bilhões.
Com a experiência de quem já esteve sentado na cadeira de secretário da Receita Federal, Dornelles se deu conta, de acordo com os técnicos que o assessoram, de um outro detalhe: toda a arrecadação da CPMF referente a dezembro de 2007 (cerca de R$ 1,5 bilhão) só vai entrar nos cofres do Tesouro neste mês de janeiro. Ou seja, é um dinheiro que será injetado no Orçamento de 2008.
Juntando-se os R$ 2 bilhões de excesso de arrecadação dessa terceira reestimativa, em fase final de conclusão, com o R$ 1,5 bilhão de CPMF que o governo contabilizará no final de janeiro, chega-se a R$ 3,5 bilhão. Verba novinha em folha, com a qual os responsáveis pelo corte não contavam. Daí a perspectiva de redução da poda orçamentária para algo em torno de R$ 17 bilhões ou um pouco menos.
Tudo considerado, chega-se ao seguinte cenário: Dornelles submeterá à comissão de Orçamento um adendo que trará uma reestimativa de receita da ordem de R$ 25,5 bilhões –os R$ 22 bilhões já detectados anteriormente, mais os cerca de R$ 3,5 bilhões descobertos agora. Parte desse valor terá de ser repassado pela União para Estados e municípios. Nas duas primeiras reestimativas, Dornelles previra que o governo federal reteria em seus cofres R$ 15,4 bilhões. Valor que vai subir depois de fechado o novo cálculo.
Fique-se, por ora, com os R$ 15,4 bilhões de excesso. Somando-se esse montante aos R$ 10,4 bilhões que o governo espera amealhar com a elevação do IOF e da CSLL, anunciada no início do ano, chega-se a R$ 25,8 bilhões. Faltariam, pelas contas dos técnicos que assessoram Dornelles, R$ 10,2 bilhões para cobrir integralmente a ausência do imposto do cheque.
O governo estimara em R$ 39,3 bilhões a arrecadação que teria com a CPMF em 2008 caso o tributo não tivesse sido derrubado pelo Senado. Dornelles trabalha com um número mais modesto: cerca de R$ 36 bilhões.
Seja como for, o peso dos cortes seria atenuado enormemente se os congressistas, numa homenagem ao bom-senso, concordassem em abrir mão de todas as emendas que apresentaram ao Orçamento –cerca de R$ 4 bilhões assinados individualmente por deputados e senadores e algo como R$ 15 bilhões referendados coletivamente por bancadas estaduais. O bom-senso, porém, é matéria-prima escassa no Congresso.
PS.: Sob o impacto dos novos cálculos que emergem da Comissão de Orçamento, o ministro Guido Mantega foi a campo, nesta terça (22), para tentar salvar a tesourada em R$ 20 milhões, sem a redução pretendida pelos congressistas. Vai conseguir? Provavelmente não.
Nelson Jobim assumiu o ministério da Defesa em 25 de julho de 2007. Chegou no melhor estilo “seus problemas acabaram.” Não conhecia em profundidade as mazelas do setor aéreo. Mas parecia ter o domínio absoluto das soluções.
Escolhido para substituir um inoperante Waldir Pires, Jobim cuidou de demarcar o terreno na primeira hora. "Aja ou saia”, eis o lema que ditou aos repórteres. “Faça ou vá embora.” Nas semanas seguintes, o novo ministro, munido de "carta branca" de Lula, fez e aconteceu. Agora, Jobim decidiu “desacontecer.”
O ministro deu meia-volta nas principais mudanças que anunciara nas operações de Congonhas e Cumbica, os dois aeroportos de maior movimento do país. Ao tomar posse, Jobim inaugurara na pasta da Defesa uma era singular , fundada no “eu”: “Tem que funcionar como orquestra. E o maestro sou eu”.
Ao explicar o recuo, nesta segunda-feira (21), o ministro evoluiu para uma fase mais, digamos, plural. Descobriu o “nós”: “Não é questão de que tenhamos errado, é que reassumimos o controle.” Jobim, de resto, desencavou um vocábulo que não constava de seu dicionário: “flexibilizar.”
No ano passado, numa fase em que as chamas do Airbus da TAM ainda ardiam na memória dos brasileiros, Jobim anunciara fundas alterações na rotina de Congonhas. Dera de ombros para a chiadeira das empresas: “Não há dúvida de que terão problemas, mas não será o problema dos mortos que tivemos neste ano.”
Proibiram-se, manu militari, o uso de Congonhas para conexões. Ali, só os vôos diretos, com percurso não superior a 1.000 quilômetros. Além de Jobim, Lula também dissera que, no limite, o aeroporto só operaria vôos regionais e diretos. Aviões fretados, os famosos charters, nem pensar.
Agora, num instante em que os 199 corpos de Congonhas começam a ser recobertos por camadas de esquecimento, voltam a pousar no coração de São Paulo, a partir de 16 de março, os aviões com escala. Retornam ao pátio também, aos sábados e domingos, os vôos fretados.
Em 2007, Jobim informara que seria aberta em Cumbica uma nova pista. Coisa “essencial” e “inadiável.” Agora, diz que a obra, por cara e inviável, foi às calendas. "A alternativa que vamos implementar é otimizar a capacidade do aeroporto, com a reconfiguração do pátio das aeronaves e do terminal. É uma questão de mexer no layout", alega.
Como solução definitiva para São Paulo, o ministro voltou a esgrimir o lero-lero do terceiro aeroporto. Algo que já havia sido prometido nas pegadas da tragédia da TAM. Onde? Ainda não as sabe. Quando? Só Deus sabe. Embora tenha se frustrado a primeira parte do do lema de Jobim -"faça"-, o ministro não exibe, por ora, a menor disposição de dar consequüência à segunda parte -"ou vá embora".
Como previsto, Lula empossou, nesta segunda-feira (21), o novo ministro Edison Lobão (Minas e energia). Foi uma posse permeada pelo “não”. Lula disse que não está incomodado com a inépcia de Lobão em relação ao setor elétrico. Afirmou que o perfil político do novo auxiliar não constitui problema. Repetiu que não haverá novo apagão elétrico.
São falsas, segundo Lula, as notícias de que estaria incomodado com o fato de o PMDB ter atravessado Lobão em sua traquéia. "Houve insinuações de que estaria chateado. Só pode pensar isso de mim quem não me conhece. À medida que um companheiro é indicado por um partido político, me reservo o direito de receber essa pessoa de braços abertos."
Para o presidente, a presença de Lobão na Esplanada fará ruir a tese de que pastas técnicas não podem ser geridas por políticos. Trata-se, no dizer de Lula, de um “preconceito”. Semelhante àquele segundo o qual um metalúrgico não poderia exercer a presidência da República. Teve vida curta na memória do presidente, como se vê, o descalabro que resultou da gestão de Waldir Pires na pasta da Defesa e dos personagens nada afeitos à aviação que passaram pela direção da Anac.
"Eu estou convencido de que você exercerá sua pasta com a grandeza da sua carreira política e vai desmontar uma série de preconceitos. Como se todo técnico de futebol fosse o melhor jogador do time [...]. Com sua experiência política, você, Lobão, saberá detectar a inteligência viva e montar um ministério que possa ser motivo de orgulho para nosso país."
De resto, referindo-se ao apagão que tisnou a imagem da gestão FHC, Lula disse que o Brasil não vai reviver 2001. Chegou mesmo a ironizar os que levam os lábios ao trombone para ressoar o caos: "Se o mundo acabar vai ter apagão, se não chover nunca mais, vai ter apagão. Lobão vai ter a oportunidade de fazer uma comparação entre alguns pessimistas que vendem a idéia de faltará energia como em 2001 (assista)."
Curiosamente, rompendo a praxe, Lobão não discursou. Falou rapidamente aos repórteres. Apresentou-se como portador de uma "carta branca" de Lula. Mais uma. Só discursaria depois, na cerimônia de transmissão do cargo, já no prédio do ministério. Ali, Lobão começou a uirvar grosso. Disse que não será "tutelado" pela chefona da Casa Civil, Dilma Rousseff. Serviu-se em seguida de uma boa notícia que a Petrobras entregou-lhe de bandeja.
No Planalto, a solenidade foi prestigiada por ministros e por políticos governistas, neo-governistas (Paulo Maluf, por exemplo) e supostos oposicionistas (o governador tucano de Alagoas, Teotônio Vilela Filho). Abalou-se até Brasília até o governador Jackson Lago (Maranhão), inimigo político de José Sarney, o padrinho de Lobão.
Em meio a tantas e tão ecléticas presenças, houve ao menos duas ausências notáveis. A primeira, foi a de José Sarney. Depois de ter acomodado Lobão no colo de Chapeuzinho Vermelho, o mandachuva do PMDB tenta se esconder na floresta da indistinção. A segunda ausência: Edison Lobão Filho, o Lobinho, também não deu as caras no Planalto. Informou-se que, envolto em denúncias, o primogênito do novíssimo ministro ainda não retornou de uma viagem aos EUA.
Herdeiro da cadeira de senador que era do pai, Lobinho promete para os próximos dias a divulgação de um dossiê para rebater as denúncias que se acercaram dele. Terá à sua volta uma penca de caçadores da verdade. Uma verdade com narizes gigantescos, olhos muito enormes, dentes muito grandes e uma boca de fazer medo.
Diz-se que um dos maiores problemas da atualidade é a falta de credibilidade do governo. Aí começa o equívoco. “Da atualidade” por quê? O governo –qualquer governo— sempre foi pouco crível. Não acha? Então, esteja certo: convém procurar auxílio médico.
De plantão até 2010, o governo Lula conserva, com esmero inaudito, a má fama do gênero. Aos 45 minutos do segundo tempo de 2007, Lula prometera não recorrer ao aumento de tributos para compensar a perda da CPMF. No primeiro minuto de 2008, elevaram-se as alíquotas do IOF e da CSLL. Um beliscão que vai doer R$ 10,4 bilhões.
Não houve quebra de promessa, desconversara Guido Mantega. A palavra empenhada, segundo o ministro da Fazenda, só valia para o ano passado. Pois bem, nesta segunda-feira (21), Lula foi ao rádio para dizer o seguinte: “... Nós não vamos aumentar imposto. Não queremos aumentar imposto, mas vamos aumentar a eficiência da arrecadação...” Depois, reclamam das piadas.
De duas uma: ou o Planalto mandou rodar uma fita do ano passado ou Lula já não fala coisa com coisa. Nisso, aliás, o presidente não está só. Fazem-lhe companhia os seus ministros. Paulo Bernardo (Planejamento) dissera que, mercê da necessidade de cortar gastos, o governo cancelara os reajustes salariais que já havia programado. Mandara para o beleléu tanto os reajustes de servidores civis quanto os de militares.
O colega Nelson Jobim (Defesa) jura que a coisa não é bem assim. Disse nesta segunda que o reajuste dos militares voltará à mesa depois do Carnaval."Este tema está mantido e estas conversas serão desenvolvidas com o Planejamento e a Presidência da República após recomposição do Orçamento, o que deverá ocorrer em fevereiro", disse.
A ser verdade, joga-se gasolina num fogaréu que arde no centro da Esplanada: a Condsef (Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal), que reúne cerca de 800 mil funcionários públicos civis, foi quem riscou o fósforo, ao informar, dias atrás, que a galera ensaia para fevereiro uma greve. Imagine o vulto que o movimento vai assumir caso o governo trate os militares de um jeito e os civis de outro. "O que nos estranha é que este governo tem vários interlocutores. Cada dia é um que fala a respeito dos servidores", queixa-se Sérgio Ronaldo da Silva, diretor da Condsef.
Como se vê, governos não merecem mesmo crédito. Pior: diante da onipotência das autoridades públicas, a clientela, além de pagar a conta, vê-se compelida a levar à face um olhar estrábico de pavor.
O atual governo tem todos os defeitos dos demais e mais um: a furiosa, a insana desfaçatez. Nos dias que correm, a palavra oficial tem algo de fluvial no seu abundante e desencontrado escoamento.
Estudo realizado pela presidência da República atesta um flagelo brasileiro: um em cada cinco jovens de 18 a 29 anos abandonou os bancos escolares antes de concluir o ensino fundamental. A análise se refere a brasileiros que vivem nas cidades. Foi feita a partir de dados coletados pelo IBGE na última Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Demicílios).
Feitas as contas, verifica-se o seguinte: dos 34 milhões jovens urbanos, 7,4 milhões tiveram de um a sete anos de estudo –tempo insuficiente para a conclusão do ensino fundamental. Há mais e pior: 813,2 mil jovens residentes em centros urbanos são analfabetos.
O drama da subeducacional é maior nos cinco Estados do Nordeste. Encontra-se em situação mais vexatória Alagoas. Ali, a evasão de estudantes do ensino fundamental alcança 46% dos jovens. No lado oposto do rankink está São Paulo, onde a exclusão educacional é estimada em 15%.
Os dados estão sendo divulgados nas pegadas de um outro levantamento, feito pela Justiça Eleitoral, a partir de informações disponíveis nos computadores do TSE. Por esse levantamento, mais da metade (51,5%) dos 127,4 milhões de eleitores brasileiros, tem baixa escolaridade. Não lograram concluir o ensino fundamental. Outros 6,46% são analfabetos.
‘Dificilmente teremos candidato’, informa o deputado
Legenda é cortejada por Alckmin (PSDB) e Marta (PT)
Lúcio Távora/Folha
O PMDB de São Paulo tornou-se uma espécie de namoradinha do município. A legenda está sitiada por um cinturão de mesuras. Cortejam-na o PSDB de Geraldo Alckmin e o PT de Marta Suplicy. Disputam a primazia de uma aliança para a disputa da prefeitura da maior e mais importante cidade do país.
“Não há dúvida de que o PMDB está sendo disputado”, afirma o deputado Michel Temer (SP), presidente nacional da agremiação. Recebe a corte com naturalidade: “Dificilmente teremos candidato. E somos uma força significativa. Nossa perspectiva mais sólida é mesmo a de fazer uma aliança.”
Com quem? Temer diz que é cedo para dizer. “Até porque não estão definidas ainda as candidaturas.” Afirma, porém, que chegou a “hora de conversar.” Por enquanto, acha “difícil dizer para que lado vai o PMDB”. Estima que só “depois do Carnaval a coisa começa a se consolidar.”
Temer qualifica de “preliminares” as conversas realizadas até aqui. “Nada conclusivo.” Ele próprio foi procurado por emissários do PT, partidários da candidatura da ministra Marta Suplicy (Turismo). Manifestaram o interesse de aprofundar o diálogo. O tucano Geraldo Alckmin conversou diretamente com Orestes Quércia, presidente estadual do PMDB.
Aliado do governo Lula no plano nacional, o mais lógico seria que o PMDB se acertasse com o PT. Mas Temer não exclui a hipótese de um eventual entendimento com o tucanato. Lembra que, meses atrás, promoveu em sua casa, em Brasília, um jantar com presidentes e líderes de todos os partidos associados ao consórcio lulista.
O encontro foi feito por sugestão de Lula. O presidente recomendara que os partidos que gravitam à sua volta fizessem o possível para celebrar alianças “consangüíneas”, de governistas com governistas. “Chegamos a seguinte conclusão: será muito difícil que os partidos da base do governo façam acordos entre si em todos os municpiois”, rememora Temer. Ele resume assim o cenário esboçado no jantar:
“Deliberamos que não vamos deixar que as eventuais disputas municipais contaminem a alinaça nacional. É o cuidado que vamos ter. O primeiro ponto será fazer alianças onde for possível. Se não for possível, evitaremos que as questões locais contaminem o convívio federal. Isso ficou muito claro para todos os presidentes e lideres”.
No último pleito municipal, em 2004, o PMDB esteve na bica de celebrar um acordo com o PT em São Paulo. O partido de Lula foi à disputa representado pela mesma Marta que ensaia agora uma nova candidatura. O Planalto fazia gosto do casamento. Mas Marta deu para trás. Preferiu levar à cédula uma chapa puro sangue. Escolheu para vice o também petista Rui Falcão.
Marta foi batida nas urnas de 2004 por José Serra (PSDB), hoje no Palácio dos Bandeirantes. O PMDB terminou se aliando à malsucedida candidatura de Luiza Erundina (PSB). Restaram rusgas daquele processo. Nada, porém, capaz de inviabilizar um acerto entre PT e PMDB em 2008. “São coisas do passado”, releva Temer. “Em política, isso passa.”
Nas próximas semanas, o cerco ao PMDB tende a ser adensado. O prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição com o apoio cada vez menos velado de Serra, revela, em privado, a intenção de buscar, também ele, uma aliança com os peemedebistas.
Afora o assédio de São Paulo, o PMDB começa a debater internamente as eleições no resto do país. Vale para os outros municípios a mesma regra enunciada por Temer: onde for possível, dar-se-á preferência ao acerto com partidos governistas. Onde não der, o PMDB não se furtará ao entendimento com oposicionistas, ora buscando a cabeça de chapa, ora sugerindo candidatos à vice.
Em dezembro, antes do início do recesso parlamentar, Temer foi procurado por Sérgio Guerra e Ricardo Berzoini, presidentes respectivamente do PSDB e do PT. Combinaram de conversar depois do Carnaval. É quando, nas palavras de Temer, “a coisa começa a se consolidar.”
O cartunista Henfil, gênio do gênero, morreu em janeiro de 88. Lá se vão duas décadas. O sítio Brazilcartoon inaugurou uma galeria permanente dedicada ao mestre. Vale a visita. Já conhece o trabalho do Henfil? Mate as saudades. Nunca viu? Não sabe o que está perdendo!
Empresários, políticos, lobistas, doleiros e advogados encontraram um modo engenhoso de fugir aos grampos telefônicos e às escutas ambientais. Recorrem cada vez mais à instalação de salas blindadas em suas empresas ou escritórios.
Estima-se que, em 2007, foram construídas entre 90 e 100 ambientes do gênero em São Paulo e Brasília. Antes, a média de encomendas era de 30 por ano. As salas blindadas têm entre 30 e 40 metros quadrados. Custam de R$ 200 mil a R$ 250 mil. Diz-se que são inexpegnáveis à bisbihotice –seja ela oficial ou cladestina.
“Agora você pode escolher entre entrar nu na piscina com seu cliente ou pagar pelo uso de uma sala blindada, totalmente imune a grampo telefônico ou ambiental”, diz Jorge Maia, diretor de tecnologia da B2T - Business to Technology, empresa pioneira no fornecimento das tais salas. “A paranóia existe, mas para todo veneno há um antídoto. Curiosamente, a B2T traz em seu catálogo de clientes até a Polícia Federal.
Inquirição será feita por juíza que atuou no caso Maluf
Sérgio Lima/Folha O ex-ministro José Dirceu começa, finalmente, a prestar contas à Justiça. A juíza Sílvia Maria Rocha intimou-o a comparecer à 2ª Vara Federal Criminal de São Paulo. Marcou a audiência para as 14h30 da próxima quinta-feira (24). O ex-chefe da Casa Civil de Lula será inquirido, pela primeira vez, no processo referente ao escândalo do mensalão.
Dirceu é acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha. Foi ao banco dos réus, junto com outros 39 acusados, há cinco meses, por decisão do STF. Deveria ser ouvido no próprio Supremo. Mas o relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, optou por delegar à Justiça Federal a tarefa de inquirir os réus. Foi a forma que encontrou para dar mais celeridade ao processo.
Apontado pelo procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza como chefe da “quadrilha” do mensalão, Dirceu é, entre todos os personagens da ação penal que corre no STF, o mais ilustre. Esta será a primeira vez que vai depor sobre o caso num foro judicial. Até aqui, só havia se defendido na Câmara.
Sempre negou envolvimento no mensalão. Não soou, por ora, convincente. Perdeu o mandato de deputado e agora tenta evitar uma condenação judicial. Estima-se que o veredicto será demorado. Não sai em menos de três ou quatro anos.
Os réus do mensalão estão sendo ouvidos por juízes de oito Estados e do Distrito Federal. A requisição das oitivas foi expedida pelo ministro Joaquim Barbosa em novembro de 2007. Ele dera 60 dias para o término da tarefa. O prazo expira no final do mês. Não será cumprido.
Pelo menos uma das inquirições vai extrapolar para o mês de fevereiro. Foi marcada para 1º de fevereiro, na comarca de Belo Horizonte, a oitiva de Marcos Valério, o empresário que ajudou o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares a fornir, com verbas de má origem, as arcas clandestinas do mensalão.
O depoimento de José Dirceu será conduzido pela mesma juíza que atuou nos processos que apuram as remessas ilegais de Paulo Maluf para contas no exterior. A magistrada Silvia Maria Rocha cuidou do caso Maluf até outubro do ano passado. Eleito deputado federal, Maluf passou a dispor de privilégio de foro. E os processos contra ele foram transferidos para o STF.
Afora o aspecto técnico, o depoimento de Dirceu chamará a atenção por uma razão estética. Será a primeira aparição pública do ex-mandachuva de Lula desde a cirurgia plástica a que ele se submeteu. Há dez dias, Dirceu passou cinco horas na mesa de cirurgia. Transplantaram-lhe 6.700 fios de cabelo da nuca para a região superior da cabeça. Logo, logo o país saberá se, além da cabeleira, Dirceu dispõe de novos argumentos de defesa.
Alto comando da legenda quer candidatura 'irreversível'
Folha Num instante em que parte do PSDB hesita em apoiar o tucano Geraldo Alckmin, o DEM decidiu avançar uma casa no xadrez em que se converteu a pré-campanha para a prefeitura de São Paulo. O alto comando do DEM irá à capital paulista, na próxima terça-feira (22), para prestigiar o prefeito Gilberto Kassab (foto), candidato à reeleição.
Será um encontro do Conselho Político da legenda, integrado por suas principais lideranças –dirigentes, ex-dirigentes, líderes no Congresso e executivos –estaduais e municipais. O pretexto da reunião é a necessidade de fazer uma análise da conjuntura política. Serão discutidos: o cenário nacional pós-extinção da CPMF e a as eleições municipais de 2008.
Quanto ao caso de São Paulo, o partido pretende fixar uma posição terminativa. O conselho endossará a candidatura de Kassab e delegará ao próprio prefeito a tarefa de costurar os acordos políticos em torno do nome dele. Uma delegação apenas formal. Na prática, toda a ex-pefelândia está empenhada em pôr de pé a candidatura própria na maior capital do país.
Além de Kassab, o ‘demo’ mais envolvido na costura paulistana é Jorge Bornhausen (SC), ex-presidente do DEM. Ele esteve com o governador José Serra, na semana passada, para informar que pretende procurar Geraldo Alckmin. Recebeu sinal verde. Verdíssimo.
Bornhausen planeja avistar-se com Alckmin nos próximos dias. Tentará demovê-lo da idéia de disputar a prefeitura. Vai aconselhá-lo a concorrer o governo de São Paulo, em 2010. Uma equação que interessa a Serra, empenhado em costurar uma aliança tucano-democrata para a sucessão de Lula.
Além de Serra, o DEM conta com o apoio de um outro grão-tucano para tirar o ex-governador do caminho: FHC. O problema é que, por ora, Alckmin não emite o menor sinal de que pretenda abrir mão da disputa. Longe disso. Já deflagrou os contatos para erigir uma aliança em torno de si. Conforme noticiado aqui, reuniu-se duas vezes com Orestes Quércia (PMDB).
O PT observa a divisão entre ‘demos’ e tucanos com vivo interesse. Torce para que a desavença tenha vida longa. Idealiza um cédula com os nomes de Kassab e de Alckmin. Situação em que sua candidata, a ministra Marta Suplicy, teria a vida simplificada.
Na última pesquisa Datafolha, divulgada em 9 de dezembro, Alckmin obteve 26% das intenções de voto, quatro pontos a menos que os 30% que amealhara na pesquisa anterior, feita quatro meses antes. O ex-governador tucano estava tecnicamente empatado com Marta (25%, um ponto acima dos 24% que alcançara em agosto de 2007). Kassab subiu, em dezembro, de 10% para 13%.
Num cenário sem Alckmin, Marta subiria, segundo o Datafolha, de 25% para 28%, tornando-se líder isolada. Mas passaria a ser acossada por Kassab, que, nessa hipótese, subiria de 13% para 20%. Daí a macumba do petismo para que PSDB e DEM se apresentem aos eleitores paulistanos cada um com o seu candidato.
Sabe-se que muitos dos professores que o país encarrega de educar os seus jovens não são propriamente pessoas educadas. Ministro da Educação, Fernando Haddad decerto não ignorava essa obviedade. Neste sábado, porém, o auxiliar de Lula deu de cara com a evidência de que falta aos educadores brasileiros o essencial: dar o exemplo.
Convidado a comparecer ao 30º Congresso Nacional da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), Haddad foi recepcionado com uma estrepitosa vaia. Nem a presença da filha do ministro, que o acompanhava, inibiu os apupos, entusiasticamente entoados por professores ligados ao PSTU.
Aos uivos seguiram-se os gritos. Primeiro, enquanto Haddad entrava no ambiente: "Eu sou de luta, sou radical, não sou capacho do governo federal". Na seqüência, depois que o ministro já havia sentado: “Fora já daqui.” Haddad, que planejava discursar, desistiu. Bateu em retirada.
A própria presidente da CNTE, Juçara Vieira, tachou de "lamentável falta de educação de setores minoritários" o tratamento dispensado a Haddad. Quem já esteve com o ministro, sabe que se trata de pessoa de lhano trato, incapaz de um gesto indelicado.
O que talvez falte a Haddad é matricular-se num curso de rua. Desses que introduzem no currículo de uma pessoa algumas boas lições de malandragem. Aventurar-se num encontro apinhado de agitadores do PSTU...! Ora, ministro, francamente.
Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.