Uma assombração na noite do Palácio da Alvorada

  Federico Bertolucci
A guerra da CPMF quebrou a tranqüilidade das noites de Brasília. Armaram-se os espíritos. Há assombrações por toda parte. Elas aparecem nos horários e nos lugares mais improváveis.

 

-- Lula, tem alguém na sala.

-- Ahnn?

-- Tem uma coisa aqui. Venha ver.

-- Deixa disso, Marisa, volta pra cama.

-- É sério. Corre aqui. Parece um tucano.

-- Não é tucano.

-- É, sim. Olha o bico.

-- Aquilo não é bico. É uma boca grande.

-- Se não é tucano, o que é?

-- Está parecendo um pefelê.

-- O quê?

-- Um pefelê. Reconheço um à distância.

-- Eu disse já te disse pra parar com essa coisa de PFL. O correto é Democratas.

-- Vê lá se eu vou chamar um pefelê de democrata!

-- Veja, ele está indo pro nosso quarto!

-- Vamos atrás.

-- Olha, ele está comendo a cômoda!

-- Não é ali que você guarda os cartões corporativos?

-- Sim.

-- Pois então. É como eu disse: um pefelê.

-- Mãe do céu, ele agora está mordendo o porta retrato!

-- Não é aquele que tem a foto do Fernando Henrique me passando a faixa?

-- Exatamente.

-- Pois é, um pefelê.

-- Como você pode ter tanta certeza?

-- O pefelê não admite a idéia de um metalúrgico na presidência.

-- Lula...

-- Que foi?

-- Ele está vindo na nossa direção.

-- Mantenha a calma.

-- Ele está olhando pra você.

-- Não entra em pânico.

-- Mas, mas...

-- Vamos conversar com ele. Não há nada que um bom diálogo não resolva.

-- Não estou gostando disso.

-- Já disse: tenha calma.

-- Innnnnnnnnnnnhaaaac.

-- Tá vendo, ele comeu o seu pé.

-- Marisa, corre, faça alguma coisa...

-- Mas você não ia conversar com ele?

-- Corre, ele tá mastigando a minha perna!

-- O que você quer que eu faça?

-- Liga pro Mantega. Peça pra ele trazer uma ração de CPMF.

-- CPMF?

-- Isso mesmo. Se é quem eu estou pensando, ele não vai sossegar enquanto não engolir um bom naco de arrecadação tributária.

 

PS.: Ilustração via blog do Federico Bertolucci.