Por que 8 anos se podemos ter a felicidade eterna?
Angeli
O projeto de poder do “democrata” Hugo Chávez inoculou na cena política latino-americana uma interrogação incontornável. O Brasil, por exemplo, já se pergunta: por que só oito anos? Os argumentos que Lula usou para defender o direito de Chávez à presidência eterna são os mesmos que um naco do petismo usa para justificar a continuidade de seu guru.
Ora, se a presidência de líderes como Chávez e Lula é a condição para o sucesso, por que devemos estipular um prazo fixo para o êxito? Não, não. Absolutamente. Nada de condicionar os interesses maiores da nação e o direito do povo à felicidade suprema a uma formalidade eleitoral.
O princípio da alternância no poder serve para trocar o que deu errado. E Chávez, como bem realçou Lula, deu certo, muito certo, certíssimo. Tanto que “a Venezuela já teve três referendos, já teve três eleições não sei para onde, já teve quatro plebiscitos. O que não falta é discussão.”
Não é sem razão que o compadre Devanir Ribeiro (PT-SP) defende a concessão de poderes a Lula para convocar, também ele, plebiscitos no Brasil. Que o povo diga o que quer. Justo, muito justo, justíssimo.
Afinal, Lula também deu certo. Que o digam as pesquisas de opinião. Ainda que permaneça no Planalto por 12 anos, 16 anos, 20 anos, terá sido por mérito. Jamais se poderá tachá-lo de autocrata. Está-se lidando com o velho e bom líder sindical, pedra no sapato da ditadura, democrata inconfundível.
Sob Lula, o Brasil parece ter alcançado o governo dos três is: ideal, infalível e insubstituível. Coisa definitiva. Para um governo assim, a democracia não é senão um estorvo. Lula fez muito bem em comparar:
“Por que ninguém se queixou quando Margaret Thatcher [ex-primeira-ministra britânica, que deu as cartas entre 1979 e 1990] ficou tantos anos no poder?” E o Felipe González, “que ficou tantos anos”? Por que “ninguém se queixa do Helmut Kohl, que ficou quase 16 anos?”
Esqueçam-se os detalhes. Grã-Bretanha, Espanha e Alemanha são parlamentaristas. Os primeiros-ministros não têm mandatos fixos. Podem ser destituídos num estalar de dedos. São países que convivem com regras constitucionais sólidas. Detalhes. Em nome da felicidade, ninguém pode se queixar de Chávez, hoje –ou de Lula, amanhã.
Entre nós, só dois tipos de pessoas reclamam do cheiro de terceiro mandato: 1) os brasileiros que ainda não estão preparados para a felicidade; e 2) as viúvas de FHC, enciumadas por só ter tido oito anos, os quatro últimos adquiridos na bacia das almas do Congresso.
Sob Lula, o governo chegou a um grau de perfeição tão eloqüente que o brasileiro já nem precisa apoquentar-se com o velho problema do uso da máquina do Estado em anos de eleição. Na semana passada, a Câmara aprovou medida provisória que autoriza o governo a distribuir livremente as verbas do PAC durante a refrega municipal de 2008.
Golpe baixo, gritou a oposição, ameaçando promover uma rebelião no plenário do Senado, às voltas com a votação da emenda da CPMF. Bobagem. O Estado ideal de hoje há de cuidar para que o cidadão seja protegido contra os abusos do Estado pecador de ontem.
De resto, a eleição de um vistoso bloco de prefeitos “aliados” vai tonificar o projeto da re-reeleição, seguida da re-re-reeleiçao. E, quem sabe, da re-re-re-reeleição. Bem verdade que Lula já disse que não quer. Mas a felicidade eterna que um governo definitivo pode proporcionar ao povo não pode sujeitar-se à vontade de um líder democrata. Dando-se 12 anos a Lula, ele terá a oportunidade de provar que, assim como Chávez, não é o tipo de político que quer 16 anos. Entregando-lhe 16 anos, aí mesmo é que o país vai saber o que é desapego ao poder.
Escrito por Josias de Souza às 19h42
Márcio Goldzweig
Em 31 de outubro de 2007, dirigentes da UNE foram recebidos por Lula. Pediram socorro ao governo. Um socorro monetário. A entidade estudantil quer dinheiro para pôr de pé sua nova sede, no velho terreno da Praia do Flamengo, no Rio. O projeto foi cedido por Oscar Niemeyer. Estima-se que vai custar algo como R$ 40 milhões. O governo está disposto a pingar no canteiro de obras, segundo apurou o blog, entre R$ 9 milhões e R$ 10 milhões.
Numa tentativa vã de evitar que a doação ganhe o noticiário na forma de um “cala boca” do governo, decidiu-se engendrar uma manobra. O Planalto encomendará a congressistas associados ao consórcio partidário que dá suporte a Lula no Legislativo emendas que injetem no Orçamento da União os repasses à UNE.
A UNE obteve, em maio deste ano, a posse definitiva do terreno da Praia Flamengo. Presenteado por Getúlio Vargas à entidade no início da década de 40, o prédio que servia de sede da UNE ardera em chamas no ano da graça de 1964, alvorecer da ditadura. E fora demolido em junho de 1980, por ordem dos militares. Invadida, a propriedade convertera-se em estacionamento.
Os estudantes foram à Justiça e, seis meses atrás, celebraram o anúncio de uma sentença que reconhece o direito da UNE à posse do terreno. Falta-lhe agora a verba para erigir o prédio de 13 andares desenhado nas pranchetas de Niemeyer. Cumprida a promessa de Lula, restará o desafio de coletar R$ 30 milhões. Pretende-se angariar fundos com uma campanha nacional de coleta. Anseia-se também pela ajuda de empresas estatais.
Escrito por Josias de Souza às 19h28
Lula, como se sabe, vai visitar Fidel Castro. A julgar pelo comportamento da embaixada de Cuba em Brasília, o regime de Havana receia que a comitiva do presidente brasileiro converta-se numa espécie de cavalo de grego, com a barriga apinhada de repórteres ávidos por invadir a tranqüilidade da Tróia ditatorial. Leia abaixo o que saiu na seção Radar, de Veja (só assinantes):

"Ditadura não costuma falhar quando tem oportunidade de provar seu autoritarismo. E Cuba não perdeu a chance: vários jornalistas que iriam acompanhar Lula em sua viagem à ilha de Fidel Castro na próxima quinta-feira haviam pedido visto à Embaixada de Cuba em Brasília. Todos foram negados. Só entra na ilha o jornalista que o Itamaraty indicar, informou o bedel da embaixada.
Como na quarta-feira passada a viagem foi adiada por trinta dias, não foi preciso o Itamaraty entrar em cena. O governo Lula, entretanto, já sabe que os jornalistas brasileiros deverão chegar e partir de Havana com o presidente. Nem um minuto a mais lhes será concedido.
Cuba, como toda ditadura, teme a imprensa livre, mas o caso dos boxeadores desertores presos no Brasil e mandados de volta depois do Pan atormenta especialmente o regime de Fidel. Aliás, essa viagem é fruto da vontade de Lula de encontrar-se com o enfermo ditador. A partir daí, é que foi montada uma agenda de acordos bilaterais que justificassem uma visita oficial ao país."
Escrito por Josias de Souza às 18h43
Marcello Casal/ABr
Lula causou impressão à platéia ao dar emprego a Roberto Mangabeira Unger. Confiou ao professor a gerência de um empório ministerial de Longo Prazo. Mesmo depois de ele ter dito que o presidente, "avesso ao trabalho e ao estudo", comandava o governo mais “mais corrupto da história.”
Mangabeira tomou posse faz cinco meses. Disse maravilhas sobre o futuro da pátria. Coisas assim: "O engrandecimento do Brasil soará em todos os recantos da Terra, como o grito de uma criança ao nascer, prometendo um novo começo para o mundo. Presos a seus afazeres, ansiosos para esquecer que morrerão, homens e mulheres pararão por um instante, perturbados por esperança inesperada. Ouvirão nesse grito a profecia do casamento da pujança e da ternura."
Ainda não se tem notícia sobre o que o professor anda fazendo pelo “engrandecimento do Brasil”. Mas já se ouvem os gritos. Não guardam semelhança com o berreiro de uma criança ao nascer. Têm a dramaticidade da morte. Emanam das entranhas do Ipea, vítima do cruzamento da soberba com a falta de compostura.
Como se sabe, Márcio Pochmann, a quem Mangabeira confiou o comando do Ipea, expurgou do instituto quatro pesquisadores –Regis Bonelli, Fabio Giambiagi, Otávio Tourinho e Gervásio Rezende. De formação liberal, o quarteto vinha compondo partituras reducionistas para um governo que prefere tocar no timbre da expansão. Expansão da máquina. Expansão dos gastos. Expansão disso. Expansão daquilo.
Tudo, em princípio, normal. Criado em 1964, o Ipea acumulava 34 anos de culto à diversidade de pensamento. Aproximava-se, nesse aspecto, do ambiente acadêmico. A Diferença de pontos de vista, a dessemelhança de opiniões sobreviveu até à ditadura. Pois Mangabeira e Pochmann deram um basta à diversidade.
Caça às bruxas? Não, não. Absolutamente. Falando à repórter Elvira Lobato, da Folha (só assinantes), Márcio Pochmann disse que o que há é uma mudança de foco do Ipea. O planejamento de médio e longo prazo vai prevalecer sobre a análise conjuntural. “A perspectiva de curto prazo é importante para os bancos e para as empresas, mas o país precisa de elementos adicionais a isso", disse.
Está-se, segundo Pochmann, voltando às origens do Ipea, criado há três décadas pensar o longo prazo. Desde que assumiu a presidência, em agosto, o auxiliar de Mangabeira trocou os comandos de cinco das seis diretorias e da área de macroeconomia do Ipea. O que motivou o afastamento de quatro pesquisadores foram questões administrativas, assegura Pochmann. Dois, por aposentados, estariam trabalhando em situação irregular. Quanto aos outros dois, haviam sido cedidos pelo BNDES, por meio de um convênio que está na bica de expirar.
Uma incômoda coincidência desvirtua as questões administrativas do Ipea. Elas só desabam sobre as cabeças de quem pensa diferente. O discurso de posse de Mangabeira Unger começa, finalmente, a fazer sentido: “Presos a seus afazeres, ansiosos para esquecer que morrerão, homens e mulheres pararão por um instante, perturbados por esperança inesperada”. A esperança ainda é rala. Mas o inesperado...
Escrito por Josias de Souza às 18h00
Vem aí um novo PAC, o Plano de Aceleração da Comunicação. Vai injetar nas arcas das agências de publicidade e dos meios de comunicação algo como R$ 150 milhões por ano. Pretende-se varar os olhos dos observadores com mensagens sobre Bolsa Família, Prouni e PAC, o do crescimento. Vai abaixo um lote de notas veiculadas na seção Painel, da Folha (só assinantes):

PAC da publicidade: Às vésperas da nova licitação para definir as três agências que dividirão o bolo de R$ 150 mi anuais da conta de publicidade da Presidência, começou a ser veiculada na quarta passada, já sob protestos da oposição, a campanha "Mais Brasil para mais brasileiros", a cargo da Lew, Lara e da Matisse, agências que restaram do contrato do primeiro mandato.
A campanha reúne do Bolsa Família ao ProUni, passando pelo PAC. A idéia é mostrar uma "rede" unindo beneficiários de todos os projetos. A oposição reclama do tom político da campanha, que custou R$ 38 mi, e fala em ir à Justiça. Diz que a peça fere o artigo 37 da Constituição, que determina "caráter educativo, informativo ou de orientação social" na propaganda oficial, que não pode caracterizar "promoção pessoal".

Aos poucos: No mundo da publicidade, é dado como certo que Duda Mendonça, cuja agência era a "terceira perna" da conta-mãe da Presidência, entrará na licitação. A entrega das propostas está prevista para 17 de dezembro. O ensaio da volta do baiano à cena, pós-mensalão, foi na concorrência da Petrobras, cujo resultado sai em março do ano que vem.
Escrito por Josias de Souza às 04h23

- JB: Governos não usam verba contra dengue
- Folha: Oferta cai e álcool sobe 9% em duas semanas
- Estadão: Investimento estrangeiro sobe 81% em 6 anos
- Globo: Oposição convocará Pochmann para explicar expurgo no Ipea
- Correio: Terra em transe
- Valor: Venda de ações da BM&F cria grupo de milionários
- Jornal do Commercio: Mais uma morte em rebelião
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Escrito por Josias de Souza às 03h29
Glauco
Escrito por Josias de Souza às 03h22
Empenhado em ajudar Renan Calheiros (PMDB-AL) a obter uma segunda absolvição, o governo opera para que o “aliado” renuncie à presidência do Senado até quarta-feira (21), véspera do julgamento do novo pedido de cassação. Contatado, Renan deu sinais de que concorda. Pediu, em contrapartida, que o Planalto ajude a acomodar a bancada de senadores do PT do seu lado.
Conforme já noticiado aqui no blog, Renan decidiu abdicar do comando do Senado. Informou a algumas das principais lideranças da Casa que não vai pedir a renovação do seu pedido de licença, que expira em 26 de novembro. Renunciará antes disso. Em troca, quer a absolvição. E acha que o PT, a exemplo do que ocorreu no primeiro julgamento, será decisivo para que saia do plenário, de novo, ileso.
A tese do Planalto é a de que, tendo tomado a decisão de renunciar, convém a Renan que a torne oficial antes da sessão em que será julgado, na quinta. Nas últimas horas, o senador emitiu sinais de que concorda com as ponderações do Planalto, que coincidem com a opinião de alguns de seus principais conselheiros -José Sarneu (PMDB-AP), por exemplo.
Mas Renan espera obter reciprocidade. O PT reúne sua bancada na próxima terça-feira (20). Vai discutir, de novo, o caso Renan. Os senadores petistas serão liberados para votar como bem entenderem. É precisamente o que deseja Renan Calheiros. Livre do fechamento de questão, ele espera arrancar pelo menos nove votos na bancada de 12 senadores petistas, incluindo abstenções e rejeições ao pedido de cassação.
Em privado, Renan revela-se surpreendentemente confiante de que será absolvido novamente. Diz que, a exemplo do que ocorreu no caso em que era acusado de pagar a pensão da filha com verbas da Mendes Júnior, terá votos em praticamente todas as legendas, inclusive nos oposicionistas PSDB e DEM. Algo que, aliás, os próprios líderes dos dois partidos admitem. São poucos, pouquíssimos os senadores que apostam na decapitação de Renan. Sobretudo considerando-se que o voto será, novamente, secreto.
Para sensibilizar os colegas, Renan espalha, nos subterrâneos, o seguinte raciocínio: cassando-o, o Senado praticamente o eliminará da cena pública. Juntando-se o que lhe resta de mandato, os oito anos de privação dos direitos políticos e o tempo que o separaria da eleição seguinte, amargaria um jejum eleitoral de 15 anos. “Não é justo”, diz. Alega que os pecados de que lhe atribuem -a posse de empresas de comunicação em nome de testas-de-ferro, por exemplo- são cometidos por uma penca de outros senadores. Mitos, muitíssimos de seus colegas concordam com ele.
De resto, Renan agarra-se à emenda da CPMF para assegurar que o empenho do governo em seu favor vá além da retórica. O senador não deixa dúvidas em seus diálogos privados que dispõe de munição para torpedear o imposto do cheque caso não seja absolvido. Submetido a um placar apertado, o Planalto não deseja, de fato, produzir marolas. Bem ao contrário.
Embora ostente uma imagem pública rota, Renan tem o governo nas mãos. Na prática, a maioria de três quintos (49 votos) necessária à renovação da CPMF depende agora de Renan. Absolvendo-o, o governo ainda terá de buscar os votos que lhe faltam -pelo menos quatro, na contabilidade mais realista; um, na conta otimista. Se Renan for cassado, a CPMF vai para as cucuias.
Estima-se que o senador tem poderes para afastar do cesto de votos pró-imposto pelo menos seis senadores. É o preço que Lula paga por ter permitido que as duas cartas –o caso Renan e a CPMF— fossem ao pano verde do Senado na mesma rodada. Quem dá as cartas é Renan.
Escrito por Josias de Souza às 21h18
A CNBB, instância máxima da Igreja católica no Brasil, veiculou no portal que mantém na internet um texto curioso. “De olho no bolo e na bola”, eis o título. Redigiu-o Dom Luiz Carlos Eccel, bispo da diocese de Caçador (SC).
Ele comenta duas notícias recentes: a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 –“Fiquemos de olho na bola”— e a descoberta da superprovíncia petrolífera de Tupi –“É preciso ficar de olho no bolo”.
Sobre a Copa, o bispo Eccel anota: “Corremos o risco de, anestesiados com a notícia, ficarmos apenas na posição de espectadores deslumbrados. Assim, como poderá trazer vantagens, as desvantagens são possíveis, pelo menos para a maioria da população. O velho ditado ‘pão e circo’ tem muito de real”.
Acrescenta: “A partir de agora, pessoas, grupos, empreiteiras... poderão lucrar freneticamente. O governo, em parceria com o setor privado, vai investir muito em infra-estrutura e o perigo da corrupção astronômica é iminente. Fiquemos vigilantes e na militância. A bola está rolando e não podemos ficar alheios, porque o povo também pode rolar”.
Sobre o petróleo, o prelado escreve: “O presidente da República disse, numa reportagem, que este é um presente de Deus para o Brasil. Eu tomo a liberdade de corrigir: é um presente de Deus para o povo Brasileiro. Devido à profundidade, esta riqueza começará a render no auge da Copa do Mundo. É preciso ficar de olho no bolo”.
Ele adita: “Desde já, equipes técnicas estão buscando o aperfeiçoamento da tecnologia, para que o bolo venha à tona. Concomitantemente, outras equipes da sociedade civil devem se organizar, pensando nas políticas públicas, para que este presente de Deus chegue ao povo que trabalha pesado para a grandeza desta nação e que normalmente recebe migalhas”.
O bispo arremata assim o seu texto: “De olho atento na bola e no bolo, para que no final do espetáculo não venha a ocorrer que as lonas do circo caiam e o povo também, como sói acontecer”.
Em reportagem publicada na edição que foi às bancas do planeta nesta sexta-feira (16), a prestigiosa revista britânica The Economist sustenta que a descoberta do campo de petróleo de Tupi, num país já farto de recursos naturais, é mesmo uma dádiva dos céus. "Deus pode mesmo ser brasileiro, afinal", escreve a revista, com uma ponta de fina ironia. A julgar pela opinião do bispo Eccel, abrigada no sítio oficial da CNBB, a nacionalidade do Todo-Poderoso não é garantia de felicidade. É preciso ficar “de olho”.
Escrito por Josias de Souza às 18h03
Em sete anos (2000-2007), o Brasil ganhou mais de 14 milhões de novos habitantes. Gente a granel. O suficiente para encher um estado do tamanho da Bahia. Vieram a este pedaço de mundo para reivindicar o que lhes cabe: um cartão do Bolsa Família, uma vaga na escola pública e, lá na frente –se o acaso não atrapalhar—, um esplêndido salário de fome.
Contadas as novas cabeças do rebanho, o país tem agora 183,9 milhões de bocas. Os dados foram repassados ao Tribunal de Contas da União. Vão servir para que o TCU refaça os cálculos que definem as cotas a que município tem direito no FPM, o fundo de participação dos municípios no bolo de tributos que a União é obrigada a repartir com as prefeituras.
Neste ano, o contagem do IBGE cobriu 5.534 cidades com até 170 mil habitantes. Representam a quase totalidade (97%) dos municípios do país. O Estado de São Paulo continua abrigando o maior e o menor município –a capital, com 10,8 milhões de habitantes e a cidadezinha de 804 moradores, apenas nove a mais do que fora registrado na contagem feira sete anos atrás (795).
Os novos brasileiros que o IBGE acaba de injetar nas estatísticas logo, logo descobrirão o que os patrícios mais velhos já sabem: não adianta perguntar o que o país pode fazer por eles. Quando tiverem idade para compor a PEA (População economicamente Ativa), basta que paguem as cerca de oito dezenas de tributos existentes e fiquem de bico calado.
Escrito por Josias de Souza às 17h06

Nas pegadas da revelação do expurgo de economistas "desafinados" do Ipea, a seção Painel, da Folha (só assinantes) adiciona pimenta no vapatá cozinhado sob Roberto Mangabeira Unger. Leia:

Sobe e desce: O afastamento de pesquisadores do Ipea não-alinhados ao governo vem acompanhado pela promoção e exposição de outros nomes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada que trabalham em sintonia com o Planalto e mantêm relações próximas com o PT.
Foi o que ocorreu com recente pesquisa de Ricardo Pereira Soares e Carlos Álvares Campos Neto -que já ocupou cargos de alto escalão na gestão petista do DF e é filho de Lauro Campos (1928-2003), senador eleito pelo partido em 1994.
Enquanto o governo concluía o modelo de concessão que obteve baixos preços de pedágios nas estradas federais, o instituto divulgava com alarde estudo da dupla com críticas aos contratos das rodovias paulistas fechados pela gestão tucana no Estado, com foco em "privilégios" dados às empresas.

Reedição: O estudo dos pesquisadores do Ipea sobre os pedágios data de junho deste ano. Em 2006, porém, o senador Aloizio Mercadante (PT) já usava os dados, atribuindo-os ao instituto, em sua campanha ao governo de São Paulo.
Escrito por Josias de Souza às 03h34
Jorge Silva/Reuters
Depois das declarações-companheiras que fez na última quarta-feira (14), Lula foi convertido no mais novo garoto-propaganda da democracia bolivariana de Gugo Chávez. Leia, a propósito, notícia veiculada na Folha (só assinantes):

“Hugo Chávez comemorou ontem as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas quais o brasileiro diz que não é possível criticar a Venezuela por falta de democracia.
Ao participar de um programa de rádio, Chávez -em campanha pela reforma constitucional que prevê o direito de reeleição ilimitada- leu ao vivo as frases do presidente brasileiro em sua defesa e completou: ‘Nosso modelo socialista é eminentemente democrático’.
Um dos trechos mais festejados por Chávez foi a definição de democracia apresentada por Lula com base no exemplo da Venezuela: ‘Eu acho que na democracia é assim, a gente submete aquilo que a gente acredita ao povo e o povo decide e a gente acata o resultado. Porque senão não é democracia’.
O presidente da Venezuela pediu aplausos ao seu colega brasileiro assim que terminou de ler a declaração na rádio. As informações sobre a entrevista foram publicadas em texto distribuído pelo Ministério do Poder Popular para a Comunicação e a Informação.
O informe também relata que ‘o chefe do Estado venezuelano destacou o companheirismo de Lula da Silva’ e afirma que Chávez deixou claro que ‘o modelo socialista que está em construção na Venezuela e que se fortalecerá com a aprovação do projeto de reforma constitucional apresentada em agosto passado e que será submetida a referendo no próximo dia 2 de dezembro é eminentemente democrático’.
A Venezuela enfrentou protestos de estudantes e entidades sociais contra a reforma constitucional proposta por Hugo Chávez. Outro trecho comemorado por Chávez, segundo o informe do governo, foi a defesa direta do venezuelano por Lula.
‘Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa, inventem uma coisa para criticar. Agora, por falta de democracia na Venezuela não é. Estou há cinco anos no poder e vou chegar a oito anos, eu participei de duas eleições (...). E na Venezuela já teve três referendos, já teve três eleições não sei para quê, quatro plebiscitos, ou seja, o que não falta é discussão.’
Lula falou anteontem sobre o venezuelano ao ser questionado, no Itamaraty, se ficou constrangido devido à contenda entre Chávez e o rei Juan Carlos, da Espanha, no fim de semana, em reunião de cúpula no Chile.”
Escrito por Josias de Souza às 03h14

- JB: Dengue cresce
- Folha: SP lidera invasões de sem-terra
- Estadão: Jobim defende projeto do submarino nuclear
- Globo: Número de pobres é o menor em 17 anos na América Latina
- Correio: 7 acidentes, 3 mortos, 9 feridos
- Valor: Venda de ações da BM&F cria grupo de milionários
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Escrito por Josias de Souza às 02h55
Glauco
Escrito por Josias de Souza às 02h50
Rogério Cassimiro/Folha
O ministro Nelson Jobim (Defesa) inicia no mês que vem, pelo Chile, uma série de visitas aos países da América do Sul. Oficialmente, o objetivo da empreitada é a discussão de um plano de segurança e defesa para o continente. Privadamente, Jobim refere-se à missão como uma contra-ofensiva diplomática ao aparelhamento militar da Venezuela.
Há duas semanas, em conversa com um deputado que priva de suas relações, Jobim disse que seu objetivo é semear as bases para o que chamou de plano de “contenção do Chávez”. O presidente venezuelano investe a notável quantia de US$ 4 bilhões na aquisição de armas, caças e otras cositas más.
Nesta quinta-feira (15), em palestra no Forte de Copacabana, no Rio, Jobim disse que deseja "discutir posições da região quanto ao critério da defesa.” Sem mencionar o nome de Chávez, afirmou que os países latino-americanos devem ter “uma concepção de uma política de defesa que seja integratória.”
Enigmático, o ministro acrescentou: “Não pensem que decisões internas sejam possíveis sem ter uma perspectiva regional. Essa é a concepção que nós temos.” Eventuais divergência regionais, disse Jobim, não impedem que se chegue a algum tipo de entendimento.
No mesmo dia em que Jobim falou de “integração” e de “concepção integratória”, Chávez reiterou, em entrevista, que a Venezuela vai implementar um programa nuclear. Terá, segundo disse, fins pacíficos, exatamente como os programas da Argentina, do Brasil e do Irã.
Jobim, de sua parte, realçou a decisão do governo brasileiro de reaparelhar as suas Forças Armadas. Não para tonificar a capacidade de intervenção do país, mas para produzir paz: “Quem não tem Forças Armadas equipadas não tem condições de ser protagonista da produção da estabilidade da paz mundial."
Na conta do reaparelhamento inclui-se a conclusão de um velho sonho da Marinha: o submarino nuclear. Jobim enxergou na descoberta do mega-província petrolífera Tupi um pretexto para revigorar o projeto, agora visto como essencial para proteger as águas que guardam em suas profundezas o tesouro da Petrobras: "Esse descobrimento aguça a necessidade de produzir energia nuclear para a produção de propulsores. Não para a área de guerra, de bomba atômica, essas coisas são bobagem."
É no mínimo inquietante que, numa região entrecortada por flagelos sociais, os governo estejam a discutir o adensamento de seus paióis. É o que se poderia chamar de “efeito Chávez.” Para sorte geral, o compañero é, segundo a concepção de Lula, exemplo de democrata.
Escrito por Josias de Souza às 02h09
Roosewelt Pinheiro/ABr
Renan Calheiros (PMDB-AL) informou a algumas das principais lideranças do Senado, governistas e oposicionistas, que vai renunciar à presidência da Casa. Desistiu da idéia de renovar o pedido de licença de 45 dias, que vence no próximo dia 26 de novembro. Abdicará ao comando da Casa antes dessa data. Em troca do gesto, espera obter a preservação de seu mandato.
O senador vai a julgamento no plenário do Senado, pela segunda vez, na próxima quinta-feira (22). Gostaria de renunciar à presidência no dia seguinte, quando a absolvição já estivesse no embornal. Foi aconselhado, porém, a bater em retirada antes de subir o cadafalso. Sob pena de açular os ânimos da oposição, receosa de que, livre da cassação, Renan atreva-se a reocupar o gabinete de presidente.
A iminência do novo julgamento provocou em Renan Calheiros uma curiosa metamorfose. Antes, comparava-se ao coco –“Para tirar o coco, não basta balançar o pé que ele não cai. Quem quiser, vai ter que subir no pé e retirar o coco com as próprias mãos.” Agora, soa num timbre que revela humildade inaudita.
Nos diálogos que manteve nas últimas horas, Renan diz coisas assim: “Estou há três anos cumprindo esse papel [de presidente do Senado]. Chega. Não quero mais saber disso. Se tiver oportunidade, no que ainda me resta de mandato, vou tentar me recuperar do que sofri politicamente com todo esse episódio.”
Alertado acerca das intenções de Renan, o presidente interino do Senado, Tião Viana, pôs-se a preparar a sucessão interna. Em consulta que fez à assessoria da Casa, foi informado de que, confirmando-se a renúncia, terá de convocar eleições para a escolha do substituto de Renan em exíguos cinco dias.
Ou seja, se Renan renunciar até a próxima quarta-feira (21), véspera de seu julgamento no plenário, Tião terá de preparar a eleição para a semana seguinte. Assim, a votação da emenda da CPMF, prevista para dezembro, já ocorreria sob nova direção. Algo que fez acender a luz amarela no Palácio do Planalto.
Lula e seus operadores políticos trabalham discretamente para livrar Renan da cassação. Imagina-se que, se tiver o mandato passado na lâmina, o senador pode causar ao governo problemas adicionais. Não teria dificuldades para arrastar meia dúzia de votos contra a CPMF. Algo que, numa votação de placar apertado, pode significar a rejeição à prorrogação do tributo.
O Planalto gostaria de ver José Sarney (PMDB-AP) acomodado na presidência do Senado. Sarney quer. Mas condiciona o envolvimento na empreitada a uma unanimidade que parece inexeqüível. Parte do PSDB, à frente Arthur Virgílio (AM), líder do tucanato, acena com a hipótese de erguer barricadas no plenário contra uma eventual candidatura de Sarney.
Mesmo no PMDB, o nome de Sarney não atravessa olimpicamente toda a bancada. Um bom naco de peemedebistas considera o senador algo personalista. Diz-se que, diferentemente do que fazia Renan, prioriza nos contatos com o governo os seus próprios interesses, em detrimento das reivindicações da bancada.
Afora Sarney, há uma penca de nomes alternativos: José Maranhão (PMDB-PB) é o preferido de Renan. O que leva parte da oposição a rejeitá-lo. Edison Lobão (PMDB-MA), aliado de Sarney, tenta erguer-se como espécie de terceira via. No início da próxima semana, PSDB e DEM discutirão a posição a adotar. No cesto das duas legendas há nomes como o de Pedro Simon (PMDB-RS), para o qual o Planalto torce o nariz, e Garibaldi Alves (PMDB-RN), mais aceitável aos olhos de Lula.
Escrito por Josias de Souza às 19h01
Nada mais obsceno do que o cérebro. Nada mais patético no ser humano do que a nudez da cabeça. Despido, o encéfalo expõe todas as curvas e reentrâncias do preconceito humano. O que é o preconceito senão a nudez sem Freud?
Em Campo Grande, capital sul-mato-grossense, duas professoras acabam de ser submetidas aos rigores da impudência dos neurônios nus. Trabalhavam numa escola pública rural. Súbito, decidiram saltar do armário. Assumiram um relacionamento homossexual.
Uma foi demitida. Outra, indemissível, foi afastada e posta à disposição da Secretaria de Educação. Aposentou-se. A escola, por municipal, está submetida ao prefeito de Campo Grande, Nelson Trad Filho.
Ouvido, Trad Filho disse ter tomado conhecimento do relacionamento das duas professoras por meio de queixas formais. Foram formuladas pela direção da escola, por um professor e por um representante da Associação de Pais e Mestres.
O prefeito diz ter aberto uma sindicância. Durou quatro meses. Descobriu-se, segundo disse, que o relacionamento ocorria na escola. “Esse foi o problema”, alega Trad Filho. “Nós não discriminamos nenhum tipo de preferência sexual, mas dentro do ambiente escolar um relacionamento, tanto hetero quanto homossexual, não seria adequado. Não agimos com preconceito.”
O caso foi parar na Justiça. Primo do prefeito, o advogado José Trad foi contratado pelas professoras, que reivindicam indenização de R$ 250 mil por danos morais. Ele afirma que não houve nenhuma sindicância. Como se vê, não há nudez mais transcendente do que o preconceito.
Escrito por Josias de Souza às 17h45
El Roto/El Pais
Submetido ao comando do quase ex-ministro Roberto Mangabeira Unger, o Ipea vive novos tempos. Reconhecido pela independência que costumava conferir aos seus funcionários, o instituto oficial de pesquisas atravessa uma quadra de caça às bruxas. Deve-se a descoberta ao repórter Guilherme Barros, da Folha (só para assinantes). Vai abaixo a reportagem:

“Quatro pesquisadores independentes e considerados não alinhados ao atual pensamento econômico do governo foram afastados nesta semana do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no Rio, pela nova direção do instituto, vinculado ao Núcleo de Assuntos Estratégicos, comandado por Roberto Mangabeira Unger.
São eles: Fabio Giambiagi, Otávio Tourinho, Gervásio Rezende e Regis Bonelli. Os dois primeiros, que estavam cedidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), foram informados de que seus convênios não seriam renovados no vencimento, em dezembro. Já para os outros dois, que estão no Ipea há 40 anos e faziam trabalhos regulares para o instituto, a alegação foi a de que eles já estavam aposentados.
Procurados pela Folha, por meio de suas assessoria de imprensa, os economistas Marcio Pochmann, presidente do Ipea, e João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos do órgão, considerada a mais importante posição do instituto, e que fica instalada no Rio, não se pronunciaram.
A assessoria da Ipea confirmou a saída dos quatro pesquisadores, mas deu motivos diferentes dos que foram apurados pela Folha. De acordo com a versão oficial, Giambiagi e Tourinho teriam pedido para voltar para o BNDES, e, em relação aos outros dois, o Ipea informou que apenas estariam aposentados.
Segundo a Folha apurou, no entanto, Giambiagi e Tourinho teriam sido informados ou por Sicsú ou por seu assessor Renault Michel de que seus convênios com o BNDES não seriam renovados. Os dois já estavam cedidos ao Ipea pelo BNDES há vários anos.
Já Bonelli e Rezende, especialistas respectivamente em indústria e agricultura, foram convidados a deixar as salas que ocupavam no Ipea por já estarem aposentados. No governo Fernando Henrique Cardoso, Bonelli ocupou uma diretoria do BNDES, e Rezende, uma diretoria da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Para os quatro, a direção do Ipea alegou que havia irregularidades nos contratos deles com o instituto.
Os quatro pesquisadores tinham em comum também o fato de serem críticos do excesso de gastos do governo, o que contraria o pensamento tanto de Pochmann como de Sicsú, que se definem "desenvolvimentistas" e defendem um aumento da política de gastos públicos para acelerar o crescimento da economia.
O clima no Ipea é de indignação e desconforto com a saída dos quatro economistas. Ontem, pesquisadores do instituto organizaram um almoço de solidariedade, no Rio, aos quatro técnicos afastados. O ambiente era de preocupação com a nova orientação da direção do instituto.
Ditadura: Considerado um dos maiores centros do pensamento econômico do país, o Ipea, criado há 43 anos, sempre se caracterizou pela liberdade de pensamento. Mesmo no período da ditadura militar, o Ipea nunca deixou de exercitar a crítica -por exemplo, à política de distribuição de renda.
O ex-deputado Delfim Netto, que comandou a economia no período de 1979 a 1985, durante o regime militar, chegando a ser chamado de superministro, lamentou e criticou a saída dos quatro pesquisados do Ipea. Delfim foi até chamado por Pochmann -e aceitou- para assumir o cargo de conselheiro do Ipea.
’Tenho esses profissionais [os quatro pesquisadores afastados] em alta conta. São economistas dedicados à pesquisa, com boa formação acadêmica e trabalhos relevantes prestados à economia brasileira’, afirmou o ex-deputado.
Delfim lembrou-se do período do autoritarismo e de sua convivência com o Ipea, quando ministro: ‘Nunca houve censura de nenhuma natureza no Ipea. No período da ditadura, eles atacavam a ditadura à vontade e ainda recebiam aumento de salário. O que espero é que não haja nenhuma censura à pesquisa acadêmica que o Ipea tem produzido’.
Outros pesquisadores do Ipea, segundo a Folha apurou, pensam em deixar o instituto. O economista Ricardo Paes de Barros, um dos maiores especialistas do país da área social e um nome reconhecido internacionalmente, já está de passagem marcada para Chicago, nos Estados Unidos, onde irá permanecer por um tempo dando aulas e realizando seminários.”
Escrito por Josias de Souza às 05h11

- JB: Prefeitura recusa revisão de multas
- Folha: Lula defende democracia de Chávez
- Estadão: Conselho pede que senadores cassem Renan
- Globo: Malha aérea vai mudar de novo contra caos nas férias
- Correio: Máfia movimenta R$ 10 milhões por ano na Feira dos Importados
- Valor: Chuva alivia crise do gás e térmicas já são desligadas
- Jornal do Commercio: Força-tarefa será mantida em presídio
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Escrito por Josias de Souza às 04h21
Angeli
Escrito por Josias de Souza às 04h15
Em privado, presidente diz que precisa ‘fechar buracos’
Governo detecta 14 senadores-problema; oito ‘graves’
Folha
Ao tratar da guerra parlamentar que se formou em torno da emenda da CPMF, Lula oscila do otimismo desbragado à preocupação desmedida. Nesta quarta-feira (15), o presidente teve duas conversas ao pé de ouvido sobre o tema. Numa delas, com um auxiliar direto, revelou-se agoniado para “fechar os buracos” abertos em seu consórcio partidário –um “queijo suíço”, segundo suas palavras. Noutra, com um senador de suas relações, Lula mostrou-se confiante no “bom senso” dos senadores.
O governo detectou 14 votos cambaleantes em sua tropa de 53 aliados. Desse total, oito são considerados mais problemáticos que os demais. Limitando-se a oito, as defecções constituem um problema: na bica de enfrentar no Senado uma votação em que precisa de pelo menos 49 votos, o Planalto disporia, noves fora as pescaria que pretende fazer na oposição, apenas de 45. Estendendo-se a 13, as deserções acomodariam o governo na vizinhança de um desastre: teria de buscar na tropa inimiga pelo menos nove votos.
Eis aqui os oito senadores que mais apoquentam os operadores políticos de Lula: 1) Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), 2) Mão Santa (PMDB-PI), 3) Pedro Simon (PMDB-RS), 4) Expedito Júnior (PMDB-RO), 5) Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), 6) Flávio Arns (PT-PR), 7) Patrícia Sabóia (PDT-CE) e 8) César Borges (PR-BA). São vistos como casos perdidos (Jarbas, Mão Santa e Simon), como empreitadas caras (Mozarildo e Expedito), como votos complicados de virar (Arns e Patrícia) e como problemas que fugiram ao controle do governo (César Borges).
Agora, os seis “aliados” que freqüentam a lista do Planalto na condição de votos que inspiram cuidados: 1) Jefferson Peres (PDT-AM), 2) Osmar Dias (PDT-PR), 3) Cristovam Buarque (PDT-DF), 4) Sérgio Zambiasi (PTB-RS), 5) Geraldo Mesquita (PMDB-AC) e 6) Romeu Tuma (PTB-SP). A bancada do PDT, que o governo imaginava fechada com a CPMF, passou a rugir em timbre destoante. Zambiasi, Mesquita e Tuma fazem um ziguezague que inquieta o governo.
Com pressa, o governo decidiu agir em várias frentes. Aos senadores sensíveis aos apelos da fisiologia, oferecerá verbas e cargos. Aos programáticos, tentará levar no gogó. Pelas beiradas, vai trabalhar para convencer os governadores a exercerem pressão sobre os senadores de seus respectivos Estados, sejam eles governistas ou da oposição. Para Lula, é inconcebível que um governo como o dele, “ajustado” e “popular” não consiga arrancar do Senado a aprovação de uma emenda que todos sabem “indispensável”.
O presidente e seus assessores mais chegados fazem uma autocrítica. Acham que jogaram demasiadas fichas na frustrada negociação com o PSDB, açulando animosidades nas legendas associadas à coalizão governista e descuidando de casos específicos. No rol dos enciumados, o Planalto inclui o PDT. No grupo dos descuidados, arrola, por exemplo, César Borges e Romeu Tuma, dois senadores egressos do DEM.
Lula foi informado, nesta quarta-feira, de um boato que já ganhou os corredores do Senado: estariam avançadas as negociações de César Borges com sua antiga legenda. O senador trocaria a rejeição à CPMF pelo amolecimento da disposição do DEM em exigir da Justiça Eleitoral a punição de sua infidelidade. Romeu Tuma, um caso análogo, surpreendeu o governo ao solidarizar-se nesta quarta, em aparte no plenário do Senado, com a colega Kátia Abreu (DEM-TO), que tivera seu relatório, contrário à CPMF, rejeitado pela comissão de Justiça na véspera.
O Planalto surpreendeu-se também com a súbita entrada em cena do deputado cassado Roberto Jefferson (RJ). Presidente do PTB, Jefferson convocou para o dia 28 de novembro uma reunião da Executiva do partido. Confidenciou a pelo menos dois interlocutores que trama o fechamento de questão do governista PTB contra a CPMF. Os senadores Mozarildo Cavalcanti e Sérgio Zambiasi são membros da Executiva do PTB. Prevalecendo a intenção de Jefferson, passariam a dispor de respaldo partidário para cravar no painel eletrônico do Senado o voto contra o imposto do cheque.
Lula passou a cobrar de seus ministros partidários –Walfrido dos Mares Guia (PTB), Carlos Lupi (PDT) e Alfredo Nascimento (PR)—a restauração da fidelidade das respectivas legendas ao governo que os acomodou na Esplanada. A Mares Guia delegou, além da costura interna no PTB, o contato com os governadores. A Lupi encomendou, por meio de um auxiliar, o engajamento da bancada pedetista. A Nascimento, requisitou a virada do voto de Expedito Filho e a cooptação de pelos menos dois senadores filiados ao DEM: Jayme Campos (MT) e Jonas Pinheiro (MT), ambos muito afeitos ao DNIT, órgão que cuida da restauração de rodovias.
Lula se auto-incumbiu a tarefa de chamar os governadores à responsabilidade. Em privado, diz que o fim da CPMF significará a redução dos repasses de verbas federais aos Estados. Em público, começou a alardear o que considera uma obviedade. Pela manhã, em entrevista, realçou a “contradição” da bancada de senadores do PSDB, que ameaça rejeitar uma CPMF que todos os governadores tucanos querem ver aprovada. À noite, na abertura da 13ª Conferência Nacional da Saúde, disse que os adversários da CPMF terão de arcar com as conseqüências da eventual rejeição do tributo.
Com esse tipo de pregação, o presidente mira em especial os governadores tucanos José Serra (São Paulo), Aécio Neves (Minas Gerais), Teotônio Vilela Filho (Alagoas), Cassio Cunha Lima (Paraíba) e Yeda Crusius (Rio Grande do Sul). De Serra espera que aja pelo alto, conversando com a cúpula do tucanato. De Aécio conta com a conquista do voto do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). De Teotônio anseia pela virada do voto de João Tenório (PSDB-AL). De Cunha Lima aguarda pelo convencimento de Cícero Lucena (PSDB-PB). De Yeda, quer auxílio para tentar amaciar os votos de senadores gaúchos como Simon e Zambiasi.
Líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM) desdenha da tentativa do Planalto de cooptar votos tucanos no varejo. Afirma que a tática do governo, longe de dividir o tucanato, ajuda a soldar a convicção da bancada contra a CPMF. Diz que nem o governo erra ao apostar que o PSDB é um partido com donos. Sustenta que nem a bancada é suscetível a pressões externas nem os governadores se animariam a exigir este ou aquele comportamento dos senadores. "Eles já passaram pelo Congresso. Alguns foram líderes de bancada. Sabem como funciona a lógica do Parlamento", diz.
Escrito por Josias de Souza às 03h51
Marcello Casal/ABr
Em entrevista que concedeu nesta quarta-feira (15), Lula tratou o compañero Hugo Chávez com extremo respeito. Elogiou-lhe a dignidade. Enalteceu-lhe a compostura democrática. Ou seja, o presidente brasileiro estava completamente fora de si.
Num instante em que parte do Congresso, à frente o protogovernista José Sarney, ameaça vetar o ingresso da Venezuela no Mercosul, sob a alegação de que o vizinho não respeita os valores democráticos, Lula saiu em defesa do amigo:
"Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa. Inventem uma coisa para criticar o Chávez. Agora por falta de democracia na Venezuela não é. Estou há cinco anos no poder. Vou chegar a oito anos. Eu participei de duas eleições. O que eu sei é que a Venezuela já teve três referendos, já teve três eleições não sei para onde, já teve quatro plebiscitos. O que não falta é discussão.”
Sem medo de ser feliz, Lula defendeu o direito de Chávez de alterar a Constituição para obter um “terceiro mandato.” Insinuou que os críticos são movidos a preconceito. “Por que ninguém se queixou quando Margaret Thatcher [ex-primeira-ministra britânica, que deu as cartas entre 1979 e 1990] ficou tantos anos no poder?”
Um dos repórteres esfregou o óbvio na cara de Lula. Lembrou que a Grã-Bretanha vive sob regime parlamentarista. Ou seja, o primeiro-ministro pode ser destituído a qualquer momento pelo Parlamento. Lula não se deu por achado: “É continuidade, não tem nada de distinto. Muda apenas o sistema, o regime, de presidencialista para regime parlamentarista. Não importa o regime, mas o exercício do poder.”
Mencionou, além de Tatcher, dois outros ex-chefes de Estado de regimes parlamentaristas: o espanhol Felipe Gonzalez e o alemão Helmut Kohl. E injetou um abacaxi, o francês François Miterrand, no cesto de abóboras. “Ninguém se queixa do Felipe González, que ficou tantos anos; ninguém se queixa do Mitterrand, que ficou tantos anos; ninguém se queixa do Helmut Kohl, que ficou quase 16 anos”, disse Lula.
Quando escora seu argumento na trajetória de ex-primeiros-ministros longevos, Lula apenas tortura os meios para atingir um fim. Quando enfia Mitterrand na tortuosa peroração que erigiu para defender impensável, levou às últimas conseqüências a ofensa à lógica. A França é República semi-presidencialista. Eleito pelo povo, o presidente nomeia o primeiro-ministro.
François Mitterrand presidiu a França por 14 anos (1981-1995) porque obteve do povo dois mandatos. Mandatos que a Constituição da França fixa em sete anos. Desceu ao verbete da enciclopédia sem enodoar a biografia com alterações constitucionais de fancaria. Fez dois governos dignos de críticas, sobretudo o segundo. Mas não merece a desfeita de ser comparado a Chávez.
De resto, Lula considerou que “não houve exagero” da parte de Chávez ao chamar o ex-primeiro-ministro espanhol José María Asnar de “fascista”. “Houve uma fala do Chávez, que o rei achou que era demais, que era uma crítica ao ex-primeiro-ministro da Espanha que tinha apoiado o golpe venezuelano no primeiro momento. Essas coisas acontecem. Obviamente, a diferença qual é? Que o rei estava na reunião. Quem falou ‘cala-te’ foi o rei, não foi um de nós, porque, entre nós, nós divergimos muito”. As considerações de Lula vieram no vácuo dos últimos rugidos de Chávez na direção da Espanha. Bramidos tonificados por um sussuro de Evo Morales, o presidente da Bolívia (assista).
Chávez tem todo o direito de cultivar sobre Aznar a opinião que bem entender. Eleito democraticamente, foi vitimado, em 2002, por um golpe de generais sem tropa, apoiados por bando de empresários oportunistas, amparados por um naco de mídia parcial. Coisa inaceitável. Tão reprovável quanto o fracassado golpe que o coronel Chávez tentara aplicar dez anos antes, em 1992.
O que se discute é a má educação do compañero. Valer-se de uma cúpula internacional, realizada em terra estranha, para jogar na cara de José Luís ‘Exijo Respeito’ Zapatero e de Juan ‘Por que não te calas’ Carlos um episódio que não lhes diz respeito é coisa de histrião desgovernado. Lula disse: “Se nós dermos menos palpite nas regras do jogo dos outros países e olharmos o que nós estamos fazendo, todos nós sairemos ganhando.” Tem razão. Mas daí a considerar a Venezuela de Chávez um exemplo de democracia vai enorme distância.
Escrito por Josias de Souza às 01h59
José Cruz/ABr
O protogovernista Epitácio Cafeteira (MA), líder do PTB no Senado, enviou ao companheiro de bancada Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) uma carta de teor surpreendente. No texto, Cafeteira diz não ter sido consultado sobre a decisão que resultou na substituição de Mozarildo por Idelli Salvatti (PT-SC), na sessão em que a emenda da CPMF foi votada na comissão de Justiça do Senado.
Cafeteira anotou: “Tendo em vista esse lamentável fato, julgo ser este o momento ideal para que nós, membros da bancada do PTB no Senado, repensemos, serena e tranqüilamente, nossa participação no bloco de apoio ao governo.”
O líder do PTB foi além: “Entendo que nosso partido não está recebendo tratamento condizente com o seu tamanho [seis senadores], a sua representatividade e, principalmente, a sua grandeza nesta Casa [...]. Acredito, portanto, que, com o diálogo e com a contribuição de toda a bancada, possa agir com maior independência, atuando conforme nossas decisões internas e nossos compromissos e princípios partidários.”
A carta de Cafeteira a Mozarildo é datada de 13 de novembro. Nesse mesmo dia, o deputado-cassado Roberto Jefferson (RJ), presidente do PTB, expediu ofício convocando para o próximo dia 28 de novembro uma reunião da Executiva do partido. A pauta do encontro, conforme já noticiado aqui no blog, só tem dois itens:
1. Posicionamento e orientação da bancada no Senado sobre CPMF;
2. Apoio e desagravo ao senador Mozarildo Cavalcanti.
A pedido de Roberto Jefferson, o próprio Mozarildo convidou a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) para fazer uma exposição aos membros da Executiva do PTB. A senadora é autora do relatório que pediu a extinção da CPMF, derrotado na comissão de Justiça do Senado. Ao convidar Kátia para debulhar o seu parecer diante dos dirigentes do PTB, Jefferson como que manda um recado ao Planalto.
Num instante em que o Planalto, submetido a contas apertadas, vai de senador em senador para aliciar votos em favor da CPMF, o recado de Jefferson não é coisa que possa ser negligenciada. Sobretudo depois de ter sido adensado pela surpreendente carta de Cafeteira.
O PTB integra no Senado o bloco de apoio ao governo, liderado pela petista Ideli Sanvatti (SC). Foi de Ideli a decisão de afastar Mozarildo, contrário ao imposto do cheque, da CCJ. Substituiu-o pessoalmente. “Caso tivesse sido consultado sobre esse assunto, seria prontamente contrário à decisão tomada”, escreve Cafeteira em sua correspondência. Curiosamente, Cafeteira participou, ele próprio, da votação da CPMF na comissão de Justiiça. Votou contra o relatório de Kátia Abreu e a favor do texto alternativo, de Romero Jucá (PMDB-RR).
“Entendo que, desde que fui escolhido por meus pares para exercer a honrosa liderança do PTB nesta Casa, todas as deliberações de interesse do partido têm sido pautadas pelo consenso e pelo diálogo com todos os membros da bancada, dentro do espírito democrático”, anota ainda Cafeteira.
É mais um incêndio que Walfrido dos Mares Guia, coordenador político de Lula, terá de administrar. O ministro, a propósito, é filiado ao PTB. Desde o estouro do escândalo do mensalão, em 2005, Walfrido vem medindo forças com Roberto Jefferson.
Escrito por Josias de Souza às 19h48
Sérgio Lima/Folha
O Conselho de Ética acaba de aprovar, por 11 votos a três, o relatório do senador Jefferson Peres (PDT-AM), que recomenda ao plenário do Senado a cassação do mandato de Renan Calheiros (PMDB-AL). Foi uma lavada. O caso segue agora para a comissão de Justiça e, dali, para o plenário, onde deve ser votado, segundo o presidente interino Tião Viana (PT-AC), em 22 de novembro.
Jefferson considerou que há evidências eloqüentes de que Renan valeu-se de “laranjas” para adquirir, em sociedade secreta com o usineiro João Lyra, um jornal e duas emissoras de rádio em Alagoas. Exceto pelos três representantes da milícia congressual de Renan com assento no conselho –os peemedebistas Wellington Salgado (MG), Almeida Lima (SE) e Valdir Raupp (RO)— todos os outros senadores, incluindo os petistas, referendaram o relatório pró-cassação.