Sérgio Lima/Folha
O governo quebra a cabeça desde quinta-feira (27) à procura de uma fórmula jurídica que permita a Lula reempregar o filósofo Roberto Magabeira Unger, transformado pelo Senado em ministro sem pasta três meses e oito dias depois de tomar posse. De secretário com status de ministro, Mangabeira deve virar “ministro extraordinário” para assuntos de longo prazo.
O presidente da República tem a prerrogativa legal de criar, por decreto, até quatro pastas extraordinárias. Têm caráter temporário e se destinam a destrinchar temas de “natureza relevante”. Desse modo, Lula evitaria a edição de uma nova medida provisória. E não se arriscaria a arrostar um novo contratempo no Legislativo.
Embora Lula ainda não tenha batido o martelo, deve adotar a sugestão, segundo informam seus assessores. Mangabeira não gostou. Preferia que seu nome dispusesse da chancela do Congresso. Mas terá de engolir a condição precária de ministro temporário. O que, afora o constrangimento, não muda muita coisa.
A lei não estipula prazos para que um ministro extraordinário se desincumba das tarefas “relevantes” a ele confiadas. Ou seja, se quiser, Lula pode manter Mangabeira no cargo até o final do seu segundo mandato, em 2010.
De resto, a mudança de rumos imposta pelo Senado ocasionará um efeito colateral com o qual Mangabeira não contava: em vez de 79 auxiliares, como previa a medida provisória mandada ao lixo pelos senadores, o ministro extraordinário de longo prazo só poderá contratar 60 servidores.
Nada muito dramático, porém, considerando-se o fato de que Mangabeira, o breve, só havia preenchido 44 do total de vagas de que dispunha na agora extinta Secretaria de Planejamento de Longo Prazo. Em verdade, as contratações novas somam 22. Outros 22 funcionários já trabalhavam para o governo. Foram reaproveitados pelo novo ministro.
O Senado apeou Mangabeira do cargo num instante em que o ministro estava debruçado sobre dois temas: 1) a elaboração de um plano de defesa nacional. Encomendado pelo ministro Nelson Jobim (Defesa), está sendo costurado em parceria com os comandos militares; 2) a costura de uma estratégia de ação governamental a ser entregue a Lula em novembro.
O segundo tópico começou a ser esmiuçado em agosto, numa mega-reunião que Mangabeira fez, em segredo, num hotel da cidade goiana de Pirenópolis. Durante um final de semana inteiro, o ministro e duas dezenas de auxiliares selecionaram os temas que devem constar do documento.
Resolveram se fixar em seis assuntos. Além do plano de defesa, Mangabeira encomendou à equipe estudos sobre a qualificação do ensino público básico, a definição de uma política de geração de emprego e formalização da mão-de-obra, a criação de um plano para a área de ciência e tecnologia, a elaboração de uma política industrial e um cronograma de enfrentamento das questões ligadas às mudanças climáticas no planeta.
Escrito por Josias de Souza às 19h58
Presidente de fato, Renan terceiriza poder a Lula
Fábio Pozzebom/ABr
Quando os senadores do PMDB puseram no olho da rua o ministro Roberto Mangabeira Unger, os brasileiros foram autorizados a supor que o Palácio do Planalto é comandado pelo segundo time. O verdadeiro chefe de Estado despacha na sala da presidência do Senado. Ao tomar posse do governo, Renan Calheiros como que acomodou as coisas, finalmente, nos seus devidos lugares.
O nosso presidente anterior, ACM, que dava as cartas sob FHC, já tinha avisado: o governo usava e abusava das medidas provisórias. Lula levou o fenômeno longe demais. Legislando, nomeou um ministro por MP. E Renan, presidente de fato, encomendou ao PMDB um basta. Apoderando-se momentaneamente do Executivo, “demitiu” Mangabeira, o breve.
Infelizmente, essa presidência acidental não dará ao país a oportunidade de ter uma idéia do que seria um governo oficialmente chefiado por Renan. Apesar das evidências de que é o senador quem manda em Brasília, a cadeira do Planalto é o último lugar em que Renan deseja ser visto. Valendo-se de Lula como testa-de-ferro, Renan desfruta do poder presumido, bem mais conveniente do que o oficial.
Só ACM, sob a presidência laranja de FHC, manejara com tanta desenvoltura a presunção de poder. Assim como o antecessor ACM, Renan nomeia e demite, libera verbas para si e para os seus, ameaça, compra cumplicidades.
Lula teve uma oportunidade de livrar-se da eminência parda que conspurca sua gestão. Porém, não teve coragem. Preferiu ajudar na absolvição de Renan. Tinha a vã esperança de que, livre da guilhotina, o presidente presumido renunciasse ao cargo. Renan fez o oposto. Informou a Lula, na fatídica sessão plenária da última quarta-feira (26), quem manda de fato. Pôs o “presidente” oficial no seu devido lugar.
Assim como ACM, Renan vai construindo em torno de si, aos solavancos, a aura mítica do político poderoso. Seu poder, tonificado pelo folclore, já dispensa aferições. As evidências permitem que se dê de barato que Renan detém segredos que lhe permitem coagir o governo, encurralando-o nas esquinas inexistentes de Brasília.
A presidência temporária de Renan, iniciada com o afastamento de Mangabeira, foi uma exceção imposta pela conjuntura. Pressentindo que o governo, com as manguinhas excessivamente de fora, preparava-se para puxar-lhe o tapete, Renan sentiu a necessidade de assumir as rédeas às claras.
Nas próximas semanas, Renan retornará à sombra. Com o poder que exerce, o exercício oficial da presidência da República significaria, para ele, um rebaixamento. Melhor, muito melhor, manter Lula como presidente terceirizado.
Escrito por Josias de Souza às 18h30
O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, inaugurou nesta semana sua mais nova provocação à Rede Globo: a Record News. Dias antes, o vice-presidente de relações institucionais das Organizações Globo, Evandro Guimarães, estivera em Brasília. Queixara-se a autoridades do governo de que, ao levar ao ar o seu canal de notícias 24 horas, em rede de aberta, a Record passaria a operar dois canais televisão numa mesma cidade, São Paulo. O que seria vedado por lei.
O queixume do vice-presidente institucional da Globo aportou inclusive nos ouvidos do Ministro das Comunicações, Hélio Costa, a quem cabe zelar pelo sistema de concessões televisivas. Informou-se ao ministro que, além da Globo, também a Rede Bandeirantes compartilhava da reclamação contra a Record.
Na noite de quinta-feira (27), tendo Lula a seu lado, Edir Macedo, alheio aos muxoxos da concorrência, acionou o botão que marcou o início das operações da Record News. Aproveitou para espicaçar a Globo. Disse que dará fim ao “monopólio”. Prometeu “cutucar o fígado” da rival.
No dia seguinte, reuniram-se em São Paulo, representantes das maiores redes de TV do país. Deu-se num encontro da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Estavam em volta da mesa, entre outros, o presidente da Record, Alexandre Raposo; presidente do Conselho Editorial das Organizações Globo, João Roberto Marinho; e Evandro Guimarães, emissário da Globo aos gabinetes de Brasília.
Raposo fez rápida menção à inauguração da véspera. Um sucesso, segundo suas palavras. Curiosamente, Marinho e Guimarães não disseram palavra acerca das restrições legais que a Globo faz ao novo empreendimento da Record.
Como ainda não recebeu nenhuma representação formal, o Ministério das Comunicações evita emitir posição oficial sobre as desavenças. Nos subterrâneos do ministério, porém, diz-se que, de fato, Lula pode ter prestigiado a inauguração de uma ilegalidade.
Reza o decreto 52.795, de 1963, que uma mesma empresa não pode controlar duas geradoras de TV numa única praça. A regra visa coibir a concentração de mercado. Ao transformar a TV Mulher em Record News, a empresa de Edir Macedo passou a gerir, desde São Paulo, sob logotipos que remetem para a mesma razão social, duas geradoras de TV aberta em São Paulo, a velha Record e a novíssima Record News. O problema não existiria se a Record News fosse transmitida em canal fechado, pago.
Mas a emissora fez da abertura das transmissões, oferecida gratuitamente, um de seus diferenciais em relação às congêneres da concorrência: Globo News e Band News. Daí as queixas. Resta saber se as rivais da Record transformarão as caretas exibidas entre quatro paredes numa reclamação formal ao Ministério das Comunicações, que obrigaria a pasta de Hélio Costa a encomendar um parecer à sua Consultoria Jurídica.
Para além dos aspectos legais, a irritação dos concorrentes da Record esconde uma inquietação de natureza comercial. Operando o seu canal de notícias 24 horas em rede aberta, além de oferecer gratuitamente aos telespectadores um serviço pelo qual a concorrência cobra, a Record credencia-se para avançar sobre o filão de anunciantes, hoje dividido entre Globo News e Band News.
Escrito por Josias de Souza às 18h12
Vai abaixo artigo do repórter Clóvis Rossi (assinantes da Folha)

“Quando José Simão cunhou a expressão "o país da piada pronta", imagino que estivesse sendo irônico. Mas o tal país esmerou-se tanto, tanto, que a ironia virou fato. Pior: a frase acabou sendo atropelada, porque, além de "piada pronta", o Brasil (o Brasil político ao menos) já entrega o "deboche pronto", o "escracho pronto" e algumas outras coisas que o decoro me impede de explicitar.
Vejamos: um país em que a Secretaria de Longo Prazo dura cem dias é uma piada, certo? Quer dizer, uma piada cara, porque, junto com a secretaria viriam (ou virão ainda) 660 cargos, muitos com remuneração que não é piada, não.
Como se a cara piada não bastasse, vem o senador Wellington Salgado de Oliveira (PMDB-MG), suplente entronizado no cargo porque o titular, Hélio Costa, virou ministro, e acrescenta o escracho. Diz, honestamente, que os senadores que votaram contra a secretaria só querem um "chinelinho novo", não precisa ser um agrado tipo "sapato de cromo alemão".
É cena de fisiologia explícita. E barata. Se é para ser fisiológico, que seja pelo sapato de cromo alemão, para mostrar que o pessoal se vende, sim, mas se vende caro. Vem também o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB), e diz que "tudo o que foi ouvido nem tudo foi ouvido" (foi pelo menos a declaração dele que a CBN pôs no ar ontem à tarde). O que ele quer dizer exatamente com isso só os especialistas em romerojuquismo poderão explicar.
Suspeito que ele quis dizer o seguinte: o presidente Lula não ouviu os pedidos de "chinelinho novo" feitos pela turma do PMDB do Senado. Só teria atendido os que querem "sapato de cromo alemão". Fecha o círculo do deboche o próprio Lula ao dizer que não faz barganha e que a negociação com os partidos é "programática".
Qual é o programa? Sapato de cromo ou chinelinho?"
Escrito por Josias de Souza às 03h06

- JB: Lula diz que só pousa em aeroporto seguro
- Folha: Mulheres chefiam quase 1/3 das famílias do Brasil
- Estadão: Aumento a delegados é bomba fiscal nos Estados
- Globo: Controle aéreo ainda é precário um ano depois
- Correio: Entorno do DF abriga bandidos de todo o país
- Valor: Oferta e preço ameaçam o programa do biodiesel
- Jornal do Commercio: Polícia fecha empresas de gás
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais.
Escrito por Josias de Souza às 02h45
Glauco
Escrito por Josias de Souza às 02h38
José Cruz/ABr
A senadora Ideli Salvatti (SC), líder do PT, torce o nariz para a idéia de instalar no Senado uma CPI destinada a varejar as ONGs que recebem dinheiro do governo. Na última quarta-feira (26), o partido de Heráclito Fortes (DEM-PI), autor do pedido de investigação, deu um ultimato ao consórcio de partidos governistas. Ou a CPI saía ou a oposição continuaria boicotando as votações no Senado.
Interessado em fazer a fila de projetos andar, Romero Jucá (PMDB-RR), líder de Lula no Senado, arrancou dos demais líderes governistas, a contragosto de Ideli, um compromisso de instalar na próxima semana a CPI de Heráclito. Acordou-se que será presidida por um oposicionista e relatada por um governista. Em sua última edição, que começou a circular neste sábado (29), a revista Veja (só assinantes) publica reportagem que ajuda a compreender a má vontade de Ideli com a nova comissão. Foi escrita pelos repórteres Ricardo Brito e Otavio Cabral.
O texto trata de uma investigação aberta pela Polícia Federal em Santa Catarina, o estado da líder do PT. Envolve a Fetraf-Sul (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul. Recebeu do governo, por meio de convênios, R$ 5,2 milhões. Destinavam-se à promoção de cursos.
Diz a reportagem, a certa altura: “Parte do dinheiro, já se sabe, foi parar na campanha política de um deputado do PT. Para justificar os gastos, os dirigentes da federação falsificaram planilhas e criaram alunos-fantasma. O que mais chama atenção no caso, porém, é o eixo entre os principais envolvidos na fraude. Todos são correligionários, amigos ou assessores da senadora Ideli Salvatti”.
Criada em 2001 por petistas ligados à senadora Ideli, a Fetraf-Sul viu crescer a coleta de verbas federais sob Lula. Firmou 18 convênios com o governo. Um deles, de 2003, já esquadrinhado pela PF, resultou em liberação de R$ 1 milhão. Coordenava a entidade na ocasião Dirceu Dresch, petista do grupo político de Ideli.
O objeto do convênio era o treinamento de 2.000 trabalhadores rurais do município catarinense de Chapecó. “A maioria, descobriu-se agora, era fantasma”, anota a reportagem. “Para fazer de conta que o curso existiu, a Fetraf apresentou uma lista de estudantes, com nome, CPF e endereço dos alunos. A polícia foi checar e descobriu que muitos não existiam, outros nunca ouviram falar do curso, alguns nem sequer moravam na região e os poucos que disseram ter freqüentado aulas – pessoas ligadas à federação, é claro – assinavam a mesma lista de presença várias vezes.”
A PF estima que algo como 60% dos R$ 5,2 milhões obtidos pela Fetraf junto ao governo foram borrifados em campanhas políticas. Dirceu Dresch, por exemplo, elegeu-se deputado estadual pelo PT. Antes, ele atuara como coordenador das campanhas de Ideli. É co-responsável, junto com a líder do PT, pela nomeação do delegado do Ministério do Desenvolvimento Agrário em Santa Catarina, Jurandi Teodoro Gugel. Deixou o cargo em julho deste ano. Àquela altura, já havia aposto o seu jamegão em 12 convênios de repasses de verbas à Fetraf.
Parte do dinheiro transferido à federação tem origem em emendas injetadas no Orçamento da União por congressistas. Entre eles Ideli. Procurada, a líder do PT optou pelo silêncio. Valendo-se da assessoria, mandou dizer que não mantém relações formais nem com a Fetraf nem com Dresch. Informou, de resto, que as emendas de sua responsabilidade destinaram-se a beneficiar a agricultura familiar.
Se for de fato instalada, como prometido, a CPI das ONGs terá diante de si farta matéria-prima para uma boa investigação. Estima-se que, nos últimos oito anos, o governo tenha repassado a essas entidades R$ 33 bilhões. Há muita ONG que cumpre à risca o seu papel social. Mas há também grossa picaretagem no setor. A julgar pelos achados da PF, a Fetraf pende para o segundo grupo.
Escrito por Josias de Souza às 02h23
A privatizada Cia. Vale do Rio Doce arrancou da estatal Petrobras o posto de maior empresa brasileira. Nesta sexta-feira (28), o valor de mercado da Vale passou a ser de R$ 286 bilhões, contra R$ 285 bilhões atribuídos à Petrobras.
Sintomaticamente, a troca de posições ocorre num momento em que parte do PT fala em reestatizar a Vale. Ao mesmo tempo em que se engalfinha com o PMDB numa disputa frenética pelos melhores cargos na direção da Petrobras e de suas subsidiárias.
Privatizada há dez anos, sob FHC, a Vale dotou-se de competitividade internacional. Profissionalizou a gestão. Tornou-se exemplo de formação de executivos de primeira linha. Cortou gastos. Tonificou os resultados. No início do ano, adquiriu a gigante canadense Inco.
Os números da Petrobras também não são desprezíveis. Mas é unânime no mercado a avaliação de que poderiam ser melhores. A voracidade com que os partidos políticos avançam sobre o organograma da estatal é vista como um dos empecilhos que a impedem de melhorar sua eficiência.
O debate que opõe privatistas e estatistas é sempre muito apaixonado. Mas não há paixão que resista à frieza dos números. Sempre se poderá argumentar que o governo tucano de FHC vendeu a Vale a preço de banana.
Há um processo judicial em curso, no TRF de Brasília. Discute-se nos autos a avaliação da companhia. E é bom que o negócio seja varejado. Mas o bom senso recomenda não esquecer que, submetida a gestão privada, a Vale tornou-se uma vistosa fonte de tributos para Receita Federal.
Escrito por Josias de Souza às 01h30
Ampliados os prazos para rolagem de dívidas agrícolas
O governo começou a pagar a fatura que assinara com a bancada ruralista da Câmara, como condição para aprovar a emenda dá sobrevida à CPMF até 2011. O CMN (Conselho Monetário Nacional) aprovou nesta sexta-feira (28) uma resolução que facilita a vida dos agricultores encalacrados com os bancos.
Ampliaram-se os prazos para o refinanciamento das dívidas de agricultores relativas às safras 2003/2004, 2004/2005 e 2005/2006. Os produtores inadimplentes têm agora até o dia 30 de outubro para solicitar a rolagem dos empréstimos de custeio e até 17 de dezembro para pedir o refinanciamento das dívidas contraídas para investimentos.
Antes, os prazos eram bem mais curtos. Para os empréstimos de custeio, o último dia para os pedidos de prorrogação era esta sexta-feira (28). Para as dívidas de investimento, o prazo expirava em 15 de outubro.
O CMN aprovou outras duas medidas reclamadas pelos deputados ruralistas: 1) abriu-se a possibilidade de que cooperativas de crédito operem também no setor rural; 2) permitiu-se o financiamento dos prêmios de seguros rurais, sem que a operação conte para o limite de crédito de cada produtor.
Não é só: na véspera, horas depois de a Câmara ter concluído o primeiro turno da votação da emenda do imposto do cheque, o Banco Central baixara uma resolução (número 3.499) que modifica os critérios para a reclassificação de risco de empréstimos agrícolas prorrogados ou renegociados. As regras anteriores eram mais draconianas. E desestimulavam os bancos a rolarem débitos de ruralistas.
Antes, se rolasse uma dívida de agricultor, o banco era obrigado a classificar a operação no chamado “nível H”, de risco máximo. Ou seja, a casa bancária que rolasse dívidas rurais era obrigada a fazer provisão de 100% do valor do empréstimo. O que, na prática, vinha levando os bancos a negar os pedidos de reparcelamento. Com a nova resolução, as dívidas, quando roladas, podem ser classificadas em níveis de risco que variam de AA (mínimo) a H, médio.
Na semana passada, às voltas com uma rebelião da bancada ruralista, que ameaçava votar contra a prorrogação da CPMF, os ministros Reinhold Stephanes (Agricultura) e Guido Mantega (Fazenda) viram-se compelidos a receber uma comitiva de deputados. Deu-se no gabinete de Mantega. Participaram da conversa com os deputados Waldemir Moka (PMDB-MS), Luiz Carlos Heinze (PP-RS), Moacir Micheletto (PMDB-PR), Odacir Zonta (PP-SC), Valdir Colatto (PMDB-SC) e Marcos Montes (DEM-MG).
Os ministros negaram que estivessem trocando rolagem de dívidas por votos à CPMF. Os deputados informaram o contrário. Disseram que o governo lhes fizera algumas promessas e, num “voto de confiança”, concordaram em suspender o veto ao imposto do cheque. O governo começa a pagar a conta aos ruralistas antes do término da apreciação do imposto do cheque. O segundo turno da votação ocorrerá nos próximos dias.
Escrito por Josias de Souza às 16h32
O Planalto deve anunciar na terça-feira a criação de uma nova estatal, a Empresa Brasil de Comunicação. É sob esse logotipo que vai funcionar a TV Pública. Convidada para presidir a nova emissora, a jornalista Tereza Cruvinel despediu-se nesta sexta (28) de seus leitores no Globo.
A empresa Brasil vai incorporar as estruturas das já existentes Radiobras e TVE. A junção virá por meio de medida provisória. Prometida na semana passada, vai ao Congresso com atraso. Convém a Cruvinel acautelar-se. O último que entrou no governo enganchado numa MP, Roberto Mangabeira Unger, acaba de ser “demitido” pelo Senado.
Estima-se que a TV Pública terá orçamento de R$ 350 milhões em 2008. Com o tempo, o telespectador vai saber se o valor é compatível com a qualidade e com a audiência da emissora.
Escrito por Josias de Souza às 15h19
Senador retém MP que, se enviada à Câmara, obstrui CPMF
Lula Marques/Folha
Na mesma noite em que rejeitou a medida provisória que dava emprego de ministro a Roberto Mangabeira Unger, o Senado aprovou outras quatro. Numa delas, a oposição injetou uma emenda que modificou o texto original. Graças à alteração, a MP precisa voltar à Câmara, para que os deputados a reapreciem. Renan Calheiros, porém, sentou em cima do documento.
Na prática, a velocidade da votação da CPMF está agora submetida aos humores do presidente do Senado. Se enviar a medida provisória para o prédio ao lado, Renan provocará o trancamento da pauta do plenário da Câmara. Antes de votar, em segundo turno, a emenda que dá sobrevida ao imposto do cheque até 2011, os deputados seriam obrigados a relatar, discutir e votar a MP modificada pelos senadores.
Pela lei, as MPs têm preferência sobre todas as outras matérias legislativas. Nada pode ser votado antes delas. Na noite de quarta-feira (26), enquanto os senadores votavam a medida provisória que carrega o cavalo-de-tróia oposicionista, os deputados concluíam, a toque de caixa, o primeiro turno de votação da CPMF. Os líderes Arthur Virgílio (AM), do PSDB, e José Agripino Maia (RN), do DEM, pressionaram Renan para que enviasse imediatamente a MP emendada à Câmara.
Se atendesse ao pedido, Renan provocaria a interrupção instantânea da sessão da Câmara. Deputados tucanos e ‘demos’, alertados, estavam prontos a levantar em plenário questões de ordem exigindo o sobrestamento da votação da CPMF. Renan, porém, fez ouvidos moucos para os apelos de Virgílio e Agripino. Só o líder do PSDB repisou a solicitação cinco vezes. E nada.
Assim, com o assentimento de Renan, o PMDB impôs ao governo uma humilhação calibrada. Transformou-se Mangabeira Unger em ministro sem pasta. Mas evitou-se jogar gasolina na fogueira que a oposição planejava acender na Câmara. Livre da chegada incômoda da medida provisória, os deputados governistas puderam concluir o primeiro turno de votação da CPMF. Deu-se às duas e meia da madrugada de quinta (27).
Nesta quinta-feira (27), Renan continuou fingindo-se de morto. Se a MP não for remetida à Câmara até o início da próxima semana, a oposição ameaça retomar a operação padrão que parou o Senado na semana passada. “Se procrastinarem o retorno da medida provisória à Câmara, partiremos, de novo, para a obstrução”, disse Agripino Maia ao blog.
O segundo turno da votação da CPMF na Câmara só pode ocorrer a partir de quinta-feira (4) da semana que vem. O regime impõe uma espera de cinco sessões legislativas. Ou seja, para evitar percalços ao governo, Renan teria de manter a medida provisória na gaveta por pelo menos mais seis dias úteis.
A MP na qual a oposição injetou a sua manobra é a de número 374. Trata de questões previdenciárias. Num de seus artigos, autoriza Estados e municípios a parcelarem dívidas com o INSS em 240 meses (20 anos), comprometendo 1,5% de suas receitas líquidas. Um percentual que, dependendo do valor do débito, poderia levar a uma liquidação em prazo inferior aos 20 anos estabelecidos na MP.
A emenda oposicionista alterou a redação, para permitir que governadores e prefeitos optem por parcelas inferiores a 1,5% de suas receitas, de modo a que a rolagem atinja o prazo máximo de 240 meses. Para desassossego do Planalto, não houve quem votasse contra a modificação no Senado. Todos os partidos administram executivos estaduais e municipais. Armou-se, então, a encrenca que acomodou Lula, uma vez mais, na mão de Renan Calheiros.
Escrito por Josias de Souza às 02h12

- JB: Estrangeiros avançam sobre terras brasileiras
- Folha: Estrangeiro faz bolsa bater novo recorde
- Estadão: Investidor estrangeiro puxa valorização recorde na Bolsa
- Globo: Lula diz que não barganha e assume negociação com PMDB
- Correio: Lula cede ao PMDB para garantir CPMF
- Valor: Oferta e preço ameaçam o programa do biodiesel
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais.
Escrito por Josias de Souza às 02h06
Angeli
Escrito por Josias de Souza às 02h05
Bruno Miranda/Folha
Com a presença de Lula, foi ao ar nesta quinta-feira (27) a Record News, primeiro canal de notícias 24 horas a ser veiculado em rede aberta, de graça. É mais um braço eletrônico do império de comunicação erigido pela Igreja Universal. O bispo Edir Macedo, manda-chuva da igreja, foi claro ao enunciar os seus objetivos: quer “dar um fim a esse monopólio [da Globo]”; deseja “cutucar o fígado [da Globo] até cair”. Lula preferiu falar em "democratização" da comunicação.
A Record News foi simbolicamente inaugurada com um apertar de botão. Pressionaram-no, juntos, Lula e Macedo. Deu-se às 20h10. Na primeira noite, o canal voltou-se para o próprio umbigo. Deu realce à festa inaugural. E frangou a principal notícia noturna, o desabamento de um prédio, no Rio, fartamente noticiado na Globo News, o canal a cabo (pago) da emissora rival.
O destaque da Record foi uma entrevista com Lula. Falou sobre a rebelião peemedebista que deixou o “ministro” Roberto Mangabeira Unger sem pasta. E, provocado, mirou em FHC. "Somos amigos desde 1978. Isso perdurou até ele deixar a Presidência da República e não se comportar adequadamente como um ex-presidente."
Disse que o antecessor “deu palpite o tempo inteiro” na sua administração. Sem razão, já que Lula diz ter feito o que FHC “não quis” fazer. "E não foi por incapacidade porque ele é intelectualmente preparado”, concedeu Lula. “Talvez porque a conjuntura política não tenha permitido ou porque ele não soube aproveitar oportunidades." Acrescentou: "Se tem alguém que deveria estar feliz era ele. Eu consegui fazer o Brasil que ele não conseguiu."
Não deixa de ser curioso ver Lula alfinetando o predecessor na TV da Universal. Na disputa presidencial de 94, que perdeu para FHC, Lula e o PT foram demonizados pelo rebanho de Edir Macedo. A “Folha Universal”, jornal da igreja, chegou a estampar, em manchete, coisas assim: “Lula apela para o candomblé.” Ou assim: "PT defende aborto e casamento de homossexuais." Para cutucar o fígado da Globo, como se vê, Edir Macedo é capaz de tudo. Para cutucar o fígado de FHC, Lula também.
Escrito por Josias de Souza às 00h12
Três dias depois de ter mantido a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Denise Abreu, o ministro Celso de Mello, do STF, determinou à CPI aérea do Senado que sejam lacrados todos os dados referentes à ex-diretora da Anac. Os membros da comissão só poderão usar as informações depois do julgamento definitivo do recurso protocolado no Supremo pelos advogados de Denise.
Em nova petição endereçada a Celso de Mello, os defensores da ex-gestora da Anac argumentaram: “As informações de caráter sigiloso obtidas pelas CPIs acabam por vazar, sendo divulgadas e publicadas pela mídia, que expõe a intimidade e a privacidade dos investigados”. Pediram que as informações fossem mantidas à salvo até o julgamento definitivo do recurso em que Denise Abreu alega não haver justa causa para a quebra de seus sigilos.
Celso de Mello, dessa vez, deu razão à investigada. Manteve a quebra dos sigilos, mas ordenou que, até a conclusão do julgamento, os dados sejam mantidos sob “lacre cautelar”. As informações serão guardadas pela própria CPI. Mas os senadores não poderão, por ora, apalpá-las. Tampouco estão autorizados a compartilhar os dados com qualquer outra repartição pública.
Escrito por Josias de Souza às 19h30
Millôr
Não deixe de visitar o sítio do Millôr.
Escrito por Josias de Souza às 18h18
Fábio Pozzebom/ABr
O senador Almeida Lima (PMDB-SE) começou a receber a recompensa pelo apoio irrestrito que vem dando ao colega Renan Calheiros (PMDB-AL). De olho nas eleições municipais de 2008, o “soldado” do presidente do Senado ganhou de presente o controle do partido na capital sergipana, Aracaju.
Almeida Lima deseja, ele próprio, concorrer à prefeitura de Aracaju. E andava incomodado com o PMDB de seu Estado, hoje submetido aos interesses do deputado federal Jackson Barreto (PMDB-SE). Alegava, nos subterrâneos, que Barreto transformara a seção estadual da legenda em correia de transmissão dos interesses do PT sergipano. E ameaçava transferir-se para o PDT, partido ao qual já pertenceu.
Com o auxílio de Renan, Almeida Lima conseguiu fincar uma cunha na máquina do PMDB de Sergipe. Não terá tudo. Mas vai, pelo menos, dividir o poder com o desafeto Jackson Barreto. Decidiu-se dividir o partido ao meio. Ficará assim:
Diretório municipal de Aracaju: tem sete membros. Almeida Lima indicará quatro. Jackson nomeará três. E o manda-chuva nacional do PMDB, Michel Temer (SP), indicará Almeida Lima para presidente do diretório.
Diretório Estadual de Sergipe: também tem sete membros. Invertendo a equação adotada no município, Jackson indicará quatro. Almeida Lima, três. Caberá a Michel Temer, de novo, a escolha do presidente estadual. Será Jackson.
O entendimento foi costurado na manhã desta quarta-feira (26). Deu-se numa reunião da qual participaram Temer, Almeida Lima e o líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO). No final da tarde, Temer foi informado de que Almeida Lima topara a divisão. Consultado por telefone, Jackson Barreto também assentiu.
Assim, o acordo será selado em reunião da Executiva Nacional do PMDB, marcada para terça-feira da semana que vem. Nos subterrâneos, Renan atuou como advogado dos interesses de Almeida Lima, hoje um dos maiores defensores dele no Senado. E foi atendido por Temer, que se esforça para manter distância da crise que consome a presidência de Renan no Senado.
Escrito por Josias de Souza às 18h01
José Cruz/ABr
"Eu não barganho assim, eu faço acordo programático. Eu faço acordo com o partido, mas não é possível ficar barganhando cada votação que vai ao Congresso Nacional." Deslizando sobre o leite derramado do Senado, Lula convida o brasileiro a fingir-se de bobo. Deseja que a sociedade enxergue programa onde não há senão há mais deslavada fisiologia.
A portas fechadas, Lula negou o que disse em público. Reuniu-se, no Planalto, com seu líder no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), porta-voz das reivindicações “programáticas” do peemedebismo. De resto, o presidente convidou os 11 partidos associados ao seu consórcio congressual para um jantar. Decerto servirá aos comensais um sopão “programático”.
Também nesta quinta-feira (27), Lula avistou-se com a crise. Deu de cara com Renan Calheiros num almoço oferecido ao presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbáyev (foto no alto). Antes, a crise negara o óbvio: "Eu queria dizer que essa questão do PMDB de ontem não tem nenhuma conexão com a minha questão. Muito pelo contrário. Não tem absolutamente nada a ver comigo. O PMDB quis, com aquela votação, dar uma demonstração de insatisfação não sei de quê."
Ora, como Renan não sabe? A ira peemedebista é movida, não há dúvida, a patriotismo. Um patriotismo “programático”. Não há de ser nada. A irritação é momentânea. Nas pegadas da votação que transformou Roberto Mangabeira Unger em ministro sem pasta, os aliados de Lula apontam para a fórmula que devolverá ao PMDB a aparência bovina que convém ao governo.
Ouça-se, por exemplo, o senador Renanto Casagrande (ES), líder do governista PSB:
"Foi uma decisão política do PMDB, para demonstrar sua força ao governo. O Palácio do Planalto tem que saber lidar com isso. Há o erro do governo na falta da execução orçamentária e na distribuição de cargos a aliados. Estamos em outubro e verificamos que poucas emendas foram empenhadas", alertou o senador Renato Casagrande (PSB-ES).
Escrito por Josias de Souza às 17h09
Numa ópera, o espectador atravessa enredos arrastados –alguns deles até enfadonhos— à espera do solo da soprano. Vai-se ao teatro sabendo que nada se resolve, nada termina antes que a opulenta estrela solte sua voz.
No seio do tucanato, Eduardo Azeredo é, por assim dizer, a “gorda” do momento. Há dois dias, o senador mineiro iniciou uma ária que magnetizou a audiência. Cantou algo assim: parte do dinheiro que bancou a minha campanha, em 1998, foi borrifada nas arcas da campanha presidencial de Fernando Henrique Cardoso.
Num instante em que se esperava pelos desdobramentos do solo de Azeredo, o tucanato levou a mão à boca de sua “valquíria”. Dirigentes do PSDB cobraram o silêncio de seu encalacrado senador. Impõe-se à platéia um espetáculo de segunda, um concerto sem conserto, uma ópera sem soprano.
Escrito por Josias de Souza às 15h50
Sentindo-se abandonado pelo Planalto, senador revidou

É de Renan Calheiros (PMDB-AL) a cara escondida atrás da rejeição, na noite desta quarta-feira (26), da medida provisória que Lula editara em junho, para acomodar no ministério Roberto Mangabeira Unger. O presidente do Senado identificou um movimento do governo para desprestigiá-lo, forçando-o a deixar o cargo. E decidiu reagir.
A resposta foi desenhada, segundo apurou o blog, na noite de terça-feira (25). Deu-se num jantar no apartamento de Valter Pereira (PMDB-MS), autor do parecer que recomendou a rejeição da medida provisória. Dividiram a mesa dez dos 19 senadores do partido. Entre eles quatro “soldados” da tropa de Renan: Almeida Lima (SE), Wellington Salgado (MG), Leomar Quintanilha (TO) e o líder do PMDB Valdir Raupp (RO).
O plano destrinchado durante o repasto fora combinado previamente com Renan. Que, finório, evitou dar as caras no jantar da revanche. A idéia era demonstrar que Renan, diferentemente do que imagina o Planalto, está vivo. Decidiu-se dar um solavanco no governo. E concluiu-se que a melhor alternativa que a conjuntura oferecia para o sacolejo era a chance de deixar Mangabeira Unger, um apadrinhado do vice-presidente José Alencar, sem emprego.
O que abespinhou Renan e seu grupo foi o comportamento do PT. A líder petista Ideli Sanvatti (SC), que antes defendia fervorosamente o “aliado” encalacrado, silenciou. E grão-petistas do porte de Aloizio Mercadante (SP) e Tião Viana (AC) passaram a fustigar Renan, identificando na renitência dele em manter-se na presidência do Senado o veneno que serve de combustível à oposição, alimentando a crise do Senado.
Renan enxergou as digitais do governo impressas na mudança de comportamento do PT. Concluiu que o Planalto quer forçá-lo a pedir licença do cargo. Uma forma de acomodar no comando do Senado, antes da chegada da emenda que prorroga a CPMF, o vice-presidente Tião Viana. Renan decidiu dar o troco. Além de transformar Mangabeira Unger em ministro sem pasta, informou ao governo que o PMDB pode transformar-se num entrave para a renovação do imposto do cheque.
Afora a fidelidade de sua milícia congressual, Renan serviu-se do descontentamento de senadores peemedebistas desatendidos em suas reivindicações por cargos e verbas. Aproveitou-se também da insatisfação de Valdir Ralpp com a desenvoltura de Romero Jucá (PMDB-RR), líder de Lula no Senado. Jucá alinhavara com os líderes da oposição –Arthur Virgílio (PSDB-AM) e José Agripino Maia (DEM-RN)— o acordo que possibilitou a desobstrução das votações no plenário do Senado, paralisado na semana passada.
Não teve, porém, a delicadeza de manter Raupp a par da evolução das tratativas. O líder do PMDB soube dos detalhes do acordo firmado por Jucá numa conversa telefônica com o líder oposicionista Agripino Maia. Embora Jucá houvesse consultado Renan antes de alinhavar os acertos com tucanos e ‘demos’, o PMDB concluiu que seria apropriado informar ao governo que os acordos celebrados sem a participação formal do partido podem até garantir a realização das votações, mas não oferecem segurança quanto ao resultado.
Na noite desta quarta-feira (26), deram as caras no plenário do Senado 16 dos 19 senadores que compõem a bancada do PMDB. Treze votaram junto com a oposição, a favor da derrubada da medida provisória. Só três votaram afinados com o governo: Roseana Sarney (MA), líder de Lula no Congresso; o pai dela, José Sarney (AP) e Romero Jucá.
O Planalto acusou o golpe instantaneamente. Surpreendido com o recado peemedebista, o ministro Walfrido dos Mares Guia, articulador político de Lula, pô-se a disparar telefonemas assim que o infortúnio do governo se materializou no painel de eletrônico do Senado. Foi informado de que, diferentemente do que imagina o Planalto, a cobra Renan, resgatada em 12 de setembro com a ajuda do governo, ainda dispõe de veneno suficiente para incomodar Lula. E não aceita puxadas de tapete urdidas nos subterrâneos.
Escrito por Josias de Souza às 02h36

- JB: Mensalão na campanha de FHC abre crise no PSDB
- Folha: Provas do valerioduto são muito boas, diz procurador
- Estadão: Pela CPMF, PMDB leva diretoria da Petrobras
- Globo: Renan retalia, derruba MP e deixa Mangabeira sem pasta
- Correio: PMDB reage ao PT e derruba ministério
- Valor: São Paulo avalia 18 estatais para reiniciar privatização
- Estado de Minas: Juiz liberta seis presos por falta de promotor
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais.
Escrito por Josias de Souza às 02h29
Glauco
Escrito por Josias de Souza às 02h21
Wilson Dias/ABr
Duas semanas depois de absolver Renan Calheiros no escuro, o Senado aprovou na noite desta quarta-feira (26) o fim das sessões secretas. Deu-se, ironicamente, numa sessão presidida pelo próprio Renan. Não houve quem ousasse manifestar oposição à idéia.
O presidente do Senado não foi o único a amargar constrangimentos. Na mesma sessão, o Senado impôs uma derrota também ao governo. Rejeitou, por 46 votos contra 22, a medida provisória que criou a Secretaria Especial de Planejamento de Longo Prazo da Presidência da República. Considerou-se que não era nem “urgente” nem relevante.”
A decisão teve o efeito de uma demissão. Uma não. Várias. Três meses e dez dias depois de tomar posse, o secretário Roberto Mangabeira Unger, a quem Lula atribuíra status de ministro de Estado, foi, na prática, posto no olho da rua pelo Senado. Junto com a função do professor Mangabeira –que abandonara uma cátedra em Harvard para integrar-se a um governo que chamara de “o mais corrupto da história”—, foram anulados os outros 660 cargos que o governo pendurara na mesma medida provisória.
A oposição festejou a queda da medida provisória como uma reafirmação da autoridade do Senado. Porém, o gesto oculta inspirações bem menos nobres. A secretaria de Mangabeira foi ao lixo com os votos de PSDB e DEM. Mas quem a transformou em monturo foi o PMDB. Algo que levou peemedebistas e petistas a trocar farpas.
Dono de uma bancada de 19 senadores, o governista PMDB rebelou-se contra o Planalto. Mesmo quem não entende nada de política compreende a politicagem escondida atrás do gesto. É o velho e bom PMDB exigindo, reivindicando, querendo mais...
No PMDB, nada se perde e nada se transforma. O partido, cedo ou tarde, sempre corresponde às expectativas de um governo que, embora aliado, não confia integralmente nele. A rejeição da medida provisória anulou gastos de R$ 25 milhões em 2007 e de R$ 44 milhões em 2008.
A insurreição do PMDB pode custar muito mais. A legenda informou a Lula que quer mais cargos e mais verbas. De resto, se não quiser devolver Mangabeira a Harvard, o governo terá de encontrar uma saída jurídica para reempregá-lo, restituindo, ao menos parcialmente, os gastos anulados. A Casa Civil já providenciava, na noite desta quarta, a destituição do ministro e dos ocupantes dos outros cargos extintos. Simultaneamente, estudava o que fazer.
Volte-se, por oportuno, ao surto de transparência que acometeu o Senado. Abriram-se as sessões. Mas continua secreto o voto. Iniciou-se, na sessão de hoje, a tramitação de duas emendas constitucionais que abrem também os votos dos senadores. Mas, a depender de Renan Calheiros, a tramitação será lenta, muito lenta, lentíssima.
Não são negligenciáveis as chances de que, no próximo julgamento do senador, os colegas que quiseram absolvê-lo possam desfrutar, ainda, do escudo de um painel eletrônico sigiloso. De qualquer modo, o ímpeto noturno dos senadores, deixou claro que, no Senado, o governo tem excesso de cabeças -o "aliado" Renan, dois líderes governistas (Romero Jucá e Roseana Sarney) e todos os líderes de partidos associados ao consórcio lulista. Falta-lhe, porém, miolos.
Escrito por Josias de Souza às 23h21
Foi ao “Diário Oficial da União”, nesta quarta-feira (26), mais uma demissão de funcionário graduado da Infraero. O ex-diretor financeiro da estatal, Adenauher Figueira Nunes, que já havia sido afastado das funções no final do ano passado, foi agora demitido “por justa causa”. O motivo foi o “enriquecimento ilícito”.
Deve-se a demissão de Adenauher ao trabalho dos auditores da CGU (Controladoria Geral da União). O ex-gestor das finanças da Infraero tornou-se personagem de uma sindicância depois que o Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) detectou uma movimentação atípica em sua conta bancária.
Informada a respeito em maio de 2006, a CGU foi a campo. Quebrou o sigilo bancário do funcionário. Descobriu-se que Adenauher registrara um “aumento patrimonial desproporcional à sua renda”. Ele comprara, junto com Maria José de Andrade, com quem vivia, um apartamento que não cabia no seu contra-cheque.
Ouvido pela CGU, Adenauher não conseguiu justificar “a origem lícita” do próprio patrimônio. O que levou os sindicantes a concluírem que houve “enriquecimento ilícito”. Daí a demissão. É a quinta punição resultante de apurações da CGU na Infraero. Na véspera, anunciara-se a demissão de dois funcionários e a suspensão, por trinta dias, de outras duas servidoras.
Uma das suspensas foi Maria José, a companheira de Adenauher. Ela respondia pela superintendência de Auditoria da Infraero. E, no exercício de suas funções, emitiu relatórios aprovando as contas do companheiro, em 2004 e 2005. Para a CGU, Maria José, mercê das relações pessoais que mantinha com o então diretor financeiro, estava impedida por lei de emitir opinião sobre a gestão dele.
Escrito por Josias de Souza às 17h53
Em reação, oposição promete fazer relatórios paralelos
José Cruz/ABr

A serviço de Renan Calheiros (PMDB-AL), o presidente do Conselho de Ética, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), cogita nomear relatores “amistosos” para dois dos três processos contra o presidente do Senado. Atenta à movimentação do “soldado” de Renan, a oposição decidiu que, confirmando-se a manobra, apresentará relatórios paralelos, recomendando, de novo, a cassação do mandato do acusado.
O conselho tinha reunião marcada para as 17h desta quarta-feira (16). Na mesma hora, porém, foi iniciada uma sessão deliberativa no plenário do Senado. Por isso, decidiu-se adiar para o período noturno o encontro do conselho. Se for mesmo realizada, a sessão terá o nome dos relatores como tema de maior realce.
Inicialmente relevante, a apresentação do relatório sobre o caso Schincariol tornou-se irrelevante. O teor do texto do relator João Pedro (PT-AM) é, agora, um segredo de polichinelo. Todos sabem que ele vai propor que o processo seja levado ao freezer até que a Câmara decida o que fazer com o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), irmão de Renan, também investigado por manter relações supostamente impróprias com a cervejaria.
Assim, foi ao primeiro plano o debate sobre a indicação de relatores sobre os outros dois processos que pesam sobre os ombros de Renan –aquisição de empresas de comunicação em sociedade secreta com o usineiro João Lyra e coleta de propinas em ministérios confiados ao PMDB. Quintanilha faz segredo sobre as suas preferências. Mas emitiu, nos subterrâneos, sinais de que confiaria os processos a senadores vinculados ao investigado. Um dos nomes que mencionou, entre quatro paredes, foi o de Almeida Lima (PMDB-SE), hoje um dos principais sequazes do presidente do Senado.
Embora pressionado a refrear a pantomima, Quintanilha, por ora, não se dignou a dizer o que, efetivamente, fará. Regimentalmente, cabe a ele, como presidente do Conselho de Ética, nomear os relatores. Mas PSDB e DEM já decidiram que, confirmando-se o inaceitável, farão relatórios paralelos. E a decisão –levar ou não mais um ou dois pedidos de cassação do mandato de Renan ao plenário do Senado— será tomada no voto dos 15 integrantes do conselho.
Segundo José Agripino Maia (RN), “haverá um relatório da oposição”, seja oficial ou paralelo. Para Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB, uma alternativa para a superação do impasse seria a escolha de relatores por meio de sorteio. Seriam excluídos os senadores filiados ao partido do investigado (PMDB). Os ‘demos’ tendem a apoiar a proposta do tucano.
Quintanilha, porém, discorda de Virgílio. Argumenta que também os oposicionistas, claramente contrários a Renan, não têm isenção para relatar os processos. O líder tucano contrapõem um argumento que se escora na tradição legislativa: quando um parlamentar sugere a abertura de uma CPI, diz ele, credencia-se automaticamente a presidir ou relatar a comissão. Portanto, o fato de PSDB e DEM serem signatários de uma das representações (a que trata da compra de rádios e jornal por meio de laranjas) não impede que senadores dos dois partidos atuem como relatores.
São esses os pontos que, dependendo do comportamento de Quintanilha, podem atear fogo na sessão do Conselho de Ética, a realizar-se na noite desta quarta-feira.
PS.: A sessão deliberativa do plenário do Senado arrastou-se noite adentro. Em função disso, a reunião do Conselho de Ética teve de ser adiada. Foi marcada para terça-feira da semana que vem.
Escrito por Josias de Souza às 17h23
blog do Orlandeli
No dicionário, a solidão é vizinha da solidariedade. Na política, os dois vocábulos nem sempre são contíguos. Que o diga Eduardo Azeredo. O senador tucano sente na nuca o bafo quente da respiração do procurador-geral Antonio Fernando de Souza. E não se considera convenientemente amparado pelo PSDB, o seu partido.
Entre as acepções anotadas no Aurélio, solidão é o “estado do que se encontra ou vive só; isolamento”. Solidariedade é a “relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o(s) outro(s)”.
Pois bem, sentindo-se isolado, com o mundo a cair-lhe na cabeça, Azeredo desencadeou o que parece ser uma estratégia pessoal para despertar a alma solidária do tucanato. Disse que as arcas de sua campanha ao governo de Minas, em 1998, não beneficiaram apenas a sua candidatura. Irrigaram também os caixas eleitorais dos candidatos a deputados –Aécio Neves era um dos concorrentes à Câmara – e a senadores de sua coligação.
Mais: parte da grana mineira, agora tisnada pela evidência da origem inidônea, foi borrifada na escrituração financeira da campanha presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Não é só: num instante em que o coordenador político de Lula, Walfrido dos Mares Guia, esforça-se para dissociar sua imagem sobranceira da encrenca do “tucanoduto” Azeredo disse que o ministro não era coordenador de sua campanha, mas “participava de tudo”.
Todos os brasileiros de bem devem torcer para que Azeredo continue só. No caso dele, a solidão é benéfica ao país. Funciona como uma espécie de soro da verdade. Vida longa ao isolamento de Eduardo Azeredo.
Escrito por Josias de Souza às 16h37
Com boa propaganda, pode-se levar pessoas a acreditar em qualquer coisa: de abacate sem caroço a Senado sem mácula. Atento às maravilhas da publicidade, Lula vai levar o seu governo –ou parte dele— à vitrine. Veja-se o que noticia a coluna de Mônica Bergamo (assinantes da Folha):

Na janela: O governo Lula lançará em outubro uma mega-campanha publicitária com o slogan "Mais Brasil para Mais Brasileiros". O orçamento total ainda não está definido, mas será "a maior já feita" no segundo mandato de Lula, de acordo com um assessor direto do presidente. Nela, o governo divulgará números favoráveis da economia e quadros com beneficiários de programas sociais. A campanha será veiculada em anúncios em TVs, rádios, jornais e internet.

Chega mais: Um dos alvos publicitários do governo é a classe média. Os anúncios tentarão convencer que ela também se beneficia dos programas sociais como o Bolsa Família, que fazem "a economia crescer".