Parentes e amigos das vítimas da tragédia choram num protesto em Congonhas
Os passageiros do vôo 3054 cometeram vários crimes que justificam sua responsabilização sumária. O primeiro foi o de existir. Não satisfeitos, existiram em número expressivo: 187. Num flagrante desafio à ordem, compraram bilhetes sem perguntar se os reversos do avião estavam em ordem. Pior: aterrissaram em Congonhas, sob chuva, numa pista sem ranhuras. Finalmente, abandonando qualquer tipo de escrúpulo, tornaram-se vítimas. Um acinte.
Tenta-se agora, veja você, acomodar nos ombros do governo e da TAM a culpa pelos crimes dos passageiros. Coisa inaceitável. O Estado e a empresa têm do seu lado a lei. Estão protegidos pela “Lei de Murphy”. Todo mundo já ouviu falar da “Lei de Murphy”. Mas pouca gente conhece sua origem. Foi descrita nas páginas de ''A Vingança da Tecnologia'', livro do norte-americano Edward Tenner (Editora Campus). Informa o seguinte:
O capitão Edward Murphy, da Força Aérea dos EUA, acompanhava, com vivo interesse, os experimentos de seu chefe, o major John Paul Stapp. Cobaia de testes de resistência a grandes acelerações, Stapp desafiava a velocidade num trenó-foguete. Em 1949, bateu o recorde de aceleração. Mas não pôde comemorar o feito. Os acelerômetros do veículo não funcionaram.
Engenheiro, Murphy foi investigar o que dera errado. Descobriu que um técnico ligara os circuitos dos aparelhos ao contrário. E concluiu: ''Se há mais de uma forma de fazer um trabalho e uma dessas formas redundará em desastre, então alguém fará o trabalho desta forma''. Depois, em entrevista, o major Stapp referiu-se à frase do ajudante como ''Lei de Murphy''. Resumiu-a assim: ''Se alguma coisa pode dar errado, dará''. A ''Lei de Murphy'' foi injetada no folclore da tecnologia. Hoje, aplica-se a todas as situações. Inclusive ao infortúnio aéreo do Brasil.
Apresentado ao aerocaos dez meses atrás, o governo tinha duas formas de gerir a encrenca. A mais banal seria assumir a tarefa de governar, adotando providências. Preferiu a tortuosa alternativa de empurrar os problemas com a barriga. Em Congonhas, entregou tardiamente uma pista inacabada, sem ranhuras. Diz-se agora que o grooving, nome técnico das fendas que facilitam a drenagem da pista, não é essencial. Simultaneamente, informa-se que serão apressadas as obras de abertura das frinchas no asfalto. É Murphy levado às últimas conseqüências.
Três dias antes da tragédia, a TAM detectara um defeito no reverso da turbina direita de seu Airbus. De novo, havia dois caminhos. O banal: recolher o avião ao hangar e reparar a avaria. O tortuoso: barrigar o conserto, mantendo o avião nos ares. Optou-se pela barriga. Informa-se agora que o reverso não é lá tão relevante na operação de frenagem. Fica-se sem entender porque o fabricante perde tempo incorporando nos aviões uma geringonça de tamanha inutilidade. Só Murphy explica.
Como se vê, tudo está perfeitamente claro. Mas os parentes das vítimas cobram explicações adicionais. E exigem pressa. Uma evidência de que a índole criminosa é fenômeno genético. A pressão é adensada pelo ânimo acalorado de toda sociedade. Buscam-se nas caixas pretas do avião novas revelações. Novidades capazes de pôr em xeque as boas intenções –públicas e privadas—, as melhores frases (Marta “Relaxa e Goza” Suplicy) e os gestos mais espontâneos (Marco Aurélio “Top-top” Garcia). Esse ímpeto subversivo é um inaceitável desafio à lógica da Lei de Murphy.
Em seus documentos internos, a TAM recomenda a pilotos e co-pilotos o uso do reverso –ou reversor- das turbinas nos pousos de aviões a jato, inclusive o Airbus A320, modelo da tragédia de Congonhas. A recomendação consta do manual de treinamento de pilotos e co-pilotos da companhia.
A informação foi confirmada ao blog por um pilto da TAM, sob a condição do anonimato. Segundo contou, o documento aconselha, no caso do Airbus, o uso do reverso em todos os pousos.
O Airbus do acidente que vitimou pelo menos 197 pessoas encontrava-se com o reverso da turbina direita defeituoso. A TAM soube do defeito três dias antes do acidente. A despeito disso, manteve a aeronave em operação. A companhia argumentou que o fabricante autoriza o uso do avião sem reverso por até dez dias, antes do reparo.
O piloto que conversou com o blog afirmou que os reversos são equipamentos auxiliares na operação de frenagem do avião. Antes do pouso, as turbinas jogam o ar para a trás. Uma vez acionados os reversos, o ar da turbina passa a ser liberado para a frente, auxiliando na redução da velocidade.
Segundo o piloto, pode-se, de fato, pousar um avião sem o uso do reverso. Disse que não tem condições de afirmar que o defeito no Airbus foi o causador do acidente. Esclareceu que acidentes costumam ser provocados por uma confluência de fatores. Mas declarou não ter dúvidas de que, se estivesse em perfeitas condições, o reverso teria sido essencial para ajudar a frear o avião, sobretudo na condição em que se encontravam o avião (lotado) e a pista de Congonhas (molhada).
A velocidade atípica que o Airbus do acidente desenvolvia no instante em percorreu a pista de Congonhas é um dos mistérios que a Aeronáutica tenta decifrar na investigação que realiza desde o início da semana. Espera-se que os dados que serão extraídos das duas caixas pretas do avião ajudem a explicar o problema. Neste sábado, descobriu-se que um dos equipamentos enviados para os EUA não era a caixa preta. O equívoco foi sanado com a localização da caixa autêntica.
A utilização do do reverso é mencionada também em textos do sítio TAM vitual. Organizado a pretexto de "homenagear" a empresa na internet, divulga informações acerca de simuladores de vôo. Num dos textos expostos no sítio, -“Pousando Aeronaves a Jato”-, anotou-se: “Imediatamente após o toque das rodas principais, o reverso dos motores deve ser armado e a roda do nariz levada ao solo, num movimento suave mas contínuo, quando, então, é aplicada a tração reversa. O máximo efeito de desaceleração do reverso é obtido enquanto o avião se encontra com velocidade alta”.
Ricardo Stuckert/PR Com 72 horas de atraso, Lula falou sobre a tragédia de Congonhas. Deu-se, como anunciado na véspera, em rede nacional de TV e rádio. Fez o discurso possível. Solidarizou-se com os familiares das cerca de 200 vítimas e prometeu rigor na apuração das causas do acidente. No campo técnico, a fala do presidente soou como um reconhecimento da inércia de seu governo.
Lula reconheceu o óbvio: “Nosso sistema aéreo, apesar dos investimentos que fizemos na expansão e na modernização de quase todos os aeroportos brasileiros, passa por dificuldades. E seu maior problema hoje é a excessiva concentração de vôos em Congonhas". Em seguida, referiu-se às providências adotas por um governo acuado pelas circunstâncias.
Mencionou cinco medidas, detalhadas a toque de caixa. Disse que se destinam a "diminuir os riscos de novas tragédias". Deixou no ar uma pergunta incômoda: por que só agora, depois da ocorrência da maior tragédia aérea do país? Todas as providências mencionadas por Lula eram reclamadas por especialistas do setor. Nenhuma autoridade do governo as ignorava. No entanto, a gestão Lula demorava-se em adotá-las. Até o momento em que teve de fazer por pressão o que não fizera por obrigação.
O presidente age com o pragmatismo que lhe é peculiar. Mercê das informações que recebeu da Aeronáutica, aposta que as caixas pretas do avião da TAM não contêm informações capazes de deixar mal o governo. Ainda assim, sabe que, enquanto não for capaz de responder convenientemente ao caos aéreo, será visto como cúmplice de qualquer encrenca que venha a impor prejuízos aos usuários de avião.
O novo desastre parece ter arrancado o governo de sua inexplicável inércia. As providências adotadas nesta sexta-feira (20), embora necessárias, são insuficientes para pacificar o setor. Não foi sem razão que Lula prometeu “outras providências” para os “próximos dias”. Ele disse: “Tenho certeza de que o nosso sistema aéreo voltará a se adequar às necessidades do país”. Quando? Deus sabe.
Nunca na história desse país a administração pública foi tão democrática e igualitária. Os (muitos) servidores medíocres têm o mesmo reconhecimento dos (pouquíssimos) funcionários talentosos. Vem daí que, nesta sexta-feira (20), a Aeronáutica condecorou com a medalha “Mérito Santos Dumont” quatro dirigentes da inservível ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil).
Mercê dos “destacados serviços” prestados à aviação, foram agraciados, por exemplo, Milton Zuanazzi e Denise Abreu, respectivamente presidente e vice-presidente da ANAC. Coube ao vice-presidente José Alencar espetar a medalha no torso da dupla.
Ouviu-se durante a cerimônia um barulhinho incômodo. Era Santos Dumont revirando no túmulo. São desconhecidos da sociedade os serviços prestados à aviação por Zuanazzi e Denise. Aliás, desconhece-se a utilidade da própria ANAC. Vão abaixo, por oportunas, duas notas veiculadas na coluna de Mônica Bergamo (assinantes da Folha):
- EXPERTISE: Dos quatro diretores da Anac, apenas um, Jorge Velozo, é do setor. Aviador, ele é especialista em segurança de vôo.
- EXPERTISE 2 : O presidente da Anac, Milton Zuanazzi, diz em seu currículo que é "pós-graduado em sociologia, com ênfase em análise política", tendo sido "vereador de Porto Alegre" e assessor de Walfrido dos Mares Guia no Ministério do Turismo. A advogada Denise Abreu trabalhou com José Dirceu na Casa Civil, foi "chefe de gabinete da Secretaria de Saúde" de SP e "da Febem". Leur Lomanto "foi deputado federal por sete mandatos consecutivos", além de assessor parlamentar da Infraero. Josef Barat é economista.
Morreu nesta sexta-feira (20), 79, Antonio Carlos Magalhães. ACM, uma logomarca política erigida sob o regime militar, leva para a sepultura uma frustração: não logrou, como desejava, passar o bastão do “carlismo” a um herdeiro. Maduro para assumir o legado, o filho Luís Eduardo Magalhães morreu antes dele, em 1998. Tinha 43 anos. Esboçava um primeiro vôo presidencial.
“O Luís Eduardo tinha todas as minhas virtudes e nenhum dos meus defeitos”, gostava de dizer ACM. Tinha razão. Dono de um temperamento mercurial, ACM era o curto-circuito. Luiz Eduardo, o fusível. A morte do filho mergulhou o senador numa atmosfera de choque da qual não conseguiria mais se livrar.
Na Bahia, o ex-PFL, hoje rebatizado de DEM, será comandado pelo ex-governador Paulo Souto. Ele ascendeu ao Palácio de Ondina, por duas vezes, sob o guarda-chuva do carlismo. Mas manteve com o chefe do clã um relacionamento altivo. Evitou a vassalagem cultivada pelos demais integrantes do feudo.
Desde que foi desbancado pelo petista Jaques Wagner, nas eleições de 2006, Souto travava com ACM uma queda-de-braço pelo controle do partido no Estado. Levava a melhor. Desgostoso, ACM revelara a Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), há coisa de dois meses, o desejo de fundar um novo partido.
Dono de um histórico cardíaco complicado, a saúde de ACM começou a claudicar de maneira mais acentuada em março deste ano. Depois de um vai-e-vem de internações e altas hospitalares, foi novamente à maca em 13 de junho. Nas últimas semanas, submetia-se a sessões diárias de hemodiálise. Derrubou-o um quadro infeccioso que produziu uma falência múltipla de órgãos.
Entre uma e outra internação, ACM esboçou um movimento de reaproximação com Lula, a quem chamava de “ladrão” dia sim e outro também. O presidente o visitara no hospital. E ACM foi tomado de gratidão. Em 2003, José Dirceu tentara aproximar o recém-empossado governo Lula de ACM. Mas o senador já não dispunha de poderes suficientes para mudar a rota oposicionista do seu PFL.
ACM perdera a condição de referência da tribo pefelê no ocaso do governo FHC. Passara a referir-se ao presidente tucano como “um frouxo”. Algo que desgostou o seu próprio partido. Abespinhara-se com o tucanato quando o governo decretou a intervenção no Banco Econômico, do amigo Ângelo Calmon de Sá.
Posteriormente, quando o governo FHC enfrentava uma quadra complicada no Congresso, protagonizou um episódio sem volta. Senadores sapateavam sobre o escândalo Marka-FonteCindam. Uma CPI ameaçava convocar o ministro da Pedro Malan (Fazenda). FHC pediu socorro ao PFL. Seguiu-se um diálogo enviesado com ACM, congelado em anotações feitas na agenda de uma testemunha:
"Preciso que vocês me ajudem nisso", iniciou FHC. "Tudo bem, mas você também precisa se ajudar", devolveu ACM. "Como assim?" "O seu estilo já não funciona, está superado. É preciso mais ação." "Com esse meu estilo ganhei duas eleições." "O Getúlio ganhou três e terminou dando um tiro no peito." "Não tenho o seu jeito. Não sou brigão. Nem por isso fujo da responsabilidade. Combati a Oban em São Paulo, colocaram um capuz na minha cabeça..." "Isso não me impressiona. Nessa época eu estava dando tapa em general", encerrou ACM, desde então, em permanente curto-circuito.
Menos de 24 horas depois de sinalizar concordância com a idéia de convocar a comissão representativa do Congresso para discutir o desastre com o Airbus da Tam, Renan Calheiros (PMDB-AL), deu meia volta. Mandou à gaveta o pedido formulado pelo PPS, com o apoio do PSDB.
“Ele [Renan] optou por mergulhar o Congresso na inércia”, disse Raul Jungmann (PPS-PE), signatário do requerimento. Desejava-se convocar autoridades como o ministro Waldir Pires (Defesa) e o brigadeiro Juniti Saito, comandante da Aeronáutica, para dar explicações, em 48 horas, sobre a tragédia de Congonhas.
Prevista na Constituição, a comissão representativa, como o nome indica, tem a atribuição de representar o Congresso durante os períodos de recesso parlamentar. Integram-na oito senadores e 17 deputados. A lista inclui Renan, presidente do Senado, e Arlindo Chinaglia (PT-SP), presidente da Câmara.
Antes de apresentar o requerimento pedindo que os plantonistas do Congresso fossem chamados a Brasília, Jungmann telefonara para Renan, que prometera discutir a iniciativa com sua assessoria. Na quarta-feira (18), uma assessora do senador informara ao deputado que Renan concordara com a idéia. Veio a quinta-feira (19). E Renan não convocou a comissão.
Na noite de quarta e durante toda a quinta, Jungmann telefonou incontáveis vezes para Renan. Não foi atendido. Pediu a líderes partidários que ligassem para Renan. Aos líderes que o procuraram, o presidente do Congresso atendeu prontamente.
Sinalizou, porem, que não estava convencido de que deveria convocar a tal comissão representativa. A Jungmann restou espernear. O deputado protestou por meio de uma nota, levada ao sítio do PPS. Num instante em que busca o apoio de Lula para livrar-se do Renangate, o senador parece ter preferido afagar o Planalto a envolver formalmente o Congresso no debate sobre o maior desastre aéreo do país.
Montagem das cenas captadas por Rafael Sobrinho na noite de quinta-feira (10)
O assessor especial de Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, assistiu no televisor de seu gabinete à reportagem sobre o defeito no reverso da turbina direita do Airbus da TAM. Ficou eufórico. Traduziu a excitação em gestos: mão direita espalmada, desferiu tapinhas sobre o topo da mão esquerda, fechada de modo a compor um círculo com o indicador e o polegar.
Ao lado de Garcia, o assessor de imprensa do Planalto, Bruno Gaspar, também não se conteve. Executou movimentos que, embora distintos, conduzem ao mesmo significado obsceno: levou os dois braços à frente e, com as mãos cerradas, puxou os contovelos contra a cintura, adiantando levemente a pelve.
Para azar da dupla, a janela do gabinete de Garcia encontrava-se com as cortinas abertas. E o cinegrafista Rafael Sobrinho, postado do lado de fora do prédio do Planalto, filmou a cena (assista). Ouvido na seqüência, Garcia disse que as imagens, “tomadas de forma clandestina”, não refletem uma comemoração, mas a “indignação frente a uma determinada versão que se quis passar à opinião pública atribuindo ao governo a responsabilidade por um acontecimento dramático”. Então, tá!
Na véspera, por ordem expressa do Palácio do Planalto, a Infraero havia liberado o vídeo com as imagens que mostraram ao país a velocidade excessiva com que o Airbus da TAM cruzou a curta pista de pouso de Congonhas. Depois de lidar com o caos aéreo com uma inércia de dez meses, o governo age com rapidez inaudita para afastar das cercanias do Planalto os cerca de 200 corpos produzidos pela maior tragédia da aviação brasileira.
O reverso da turbina direita do Airbus da TAM, equipamento que auxilia na frenagem do avião durante o pouso, encontrava-se desativado no instante do acidente que produziu cerca de 200 cadáveres. A empresa aérea detectou o defeito quatro dias antes da tragédia. Ainda assim, manteve a aeronave em operação.
A novidade hedionda, veiculada no Jornal Nacional desta noite, foi confirmada pela própria companhia. Ruy Amparo, vice-presidente Técnico da TAM, admitiu em entrevista que o defeito no reverso fora detectado na última sexta-feira (13). Antes, portanto, do desastre que consternou o país na terça (17).
De acordo com o executivo da versão da TAM, o manual do Airbus permite que o avião voe sem o reverso por dez dias, “em qualquer condição de pista”. E não há riscos? Não, “exceto em pistas muito contaminadas”, corrigiu-se Rui Amparo. O que seria uma “pista contaminada”?, perguntou-se ao vice-presidente da TAM. E ele: “Debaixo de chuvas muito fortes.”
No instante do pouso fatídico, chovia em São Paulo. Chuva amena, mas chuva. Para a TAM, nada que pudesse afetar a operação de seu avião defeituoso. Será? De concreto, tem-se que as imagens captadas pelo circuito de câmeras de Congonhas exibem um Airbus em velocidade acima do razoável.
Para complicar, a pista de Congonhas, recém-reformada, encontra-se sem o grooving, as ranhuras que facilitam a drenagem. As autoridades aeronáuticas asseguram que a ausência das fendas no asfalto não interfere nos pousos. E se o avião estiver sem um dos reversos, como no caso em questão? Pelo sim, pelo não, Lula anuncia nesta sexta-feira (20) um pacote de providências para tornar Congonhas um aeroporto mais seguro.
Descobriu-se também que, na véspera do acidente, o mesmo Airbus que se espatifou num prédio assentado na vizinhança do aeroporto tivera dificuldades para pousar em Congonhas. Em contato com a torre de controle, o piloto queixara-se da pista escorradia.
Era só o que faltava: à incompetência do governo, que, em meio a um caos aéreo que se arrasta por dez meses, libera uma pista inacabada para o uso, veio somar-se a irresponsabilidade de uma companhia aérea que não se incomoda de acomodar 186 passageiros no interior de um avião desprovido de reverso. Quem poderia assegurar que São Pedro não despejaria sobre Congonhas as “chuvas muitos fortes” que, segundo reconhece o vice-presidente da TAM, sujeitariam o pouso a riscos?
Sob o impacto das novidades, a TAM levou à sua página na internet uma “nota de esclarecimento”. No texto, reitera que a desativação de um dos reversos “não configura qualquer obstáculo ao pouso da aeronave”. Anota, de resto, que a “informação” fora “confirmada” na véspera, em entrevista coletiva do presidente da empresa, Marco Antonio Bologna, e do próprio vice-presidente Ruy Amparo. Não é bem assim.
Durante a entrevista, um repórter rememorou o acidente com um Fokker-100 da TAM, em 1996 (99 mortos). Foi provocado por um defeito no reverso de uma das turbinas. E quanto aos reversos do Airbus, estavam em ordem?, perguntou-se. Os gestores da companhia limitaram-se a dizer que a nova tragédia não fora provocada pelo reverso. Nada foi dito acerca do defeito detectado quatro dias antes.
Você tem algo a dizer à TAM. Pressione aqui para falar com o presidente da companhia.
Presidente anunciará pacote de medidas para Congonhas
Sérgio Lima/Folha
Lula decidiu quebrar o silêncio. Encomendou à sua assessoria a convocação de uma rede nacional de rádio e TV. Falará ao país na noite desta sexta-feira (20). Será a sua primeira manifestação pública sobre a tragédia com o Airbus da TAM, o maior acidente aéreo da história da aviação brasileira.
Afora as inevitáveis condolências às famílias dos mortos, que podem ultrapassar a casa das duas centenas, o presidente anunciará um conjunto de providências para reforçar a segurança de Congonhas, palco da tragédia e aeroporto mais movimentado do país. A principal medida será a redução do número de vôos, providência reclamada pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB-SP).
O presidente fora aconselhado a falar no dia do desastre. Optou pelo silêncio porque considerou necessário obter informações mínimas sobre as causas da tragédia. Sentiu-se mais confortável para fazer o pronunciamento depois que a Aeronáutica lhe informou que são mínimas as chances de que o infortúnio tenha relação cm as más condições da pista de pouso de Congonhas.
Na manhã desta quinta-feira (19), com os ministros que compõem a coordenação de governo, Lula disse que, para pôr a cara na TV, precisava anunciar medidas práticas. Foi informado, então, de que havia uma reunião prevista do Conac (Conselho Nacional de Aviação Civil), órgão que assessora o Ministério da Defesa.
Lula ordenou que o Conac se reunisse nesta sexta. E a cúpula do governo pôs-se a detalhar as providências que o presidente anunciará ao país em seu pronunciamento. Neste momento, o próprio presidente encontra-se reunido, no Planalto, com alguns dos ministros que têm assento no Conac.
O conselho é presidido pelo indefeso ministro da Defesa, Waldir Pires, cuja cabeça voltou a ficar a prêmio. É integrado também pelos ministros Celso Amorim (Relações Exteriores), Guido 'Prosperidade' Mantega (Fazenda), Marta ‘Relaxa e Goza’ Suplicy (Turismo), Miguel Jorge (Indústria e Comércio) e Dilma Rousseff (Casa Civil), além do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.
Um auxiliar de Lula explicou ao blog que todas as medidas que serão anunciadas amanhã têm o objetivo de imprimir ao aeroporto de Congonhas uma gestão “mais conservadora”. Em todos os casos em que houver dúvidas que possam comprometer a segurança, o governo optará pela alternativa que ofereça mais segurança aos passageiros.
Trata-se de uma linha oposta à que vinha sendo adotada até aqui. Pressionado pelas companhias aéreas, o governo autorizara o aumento do fluxo de aviões em Congonhas. Na reforma do aeroporto, priorizara o mármore e as lojinhas do terminal em detrimento da pista de pouso.
De resto, ao lado de aviões apinhados de passageiros atemorizados, há no ar uma dúvida incômoda: por que o governo esperou por mais uma tragédia para agir?
Perito inspeciona o local do acidente à procura de explicações para a tragédia
Nascida de um parto realizado pelo STF, a golpes de fórceps, a CPI do aerocaos da Câmara tornou-se um teatro de marionetes a serviço dos interesses do Planalto. Súbito, a comissão decidiu mover-se por conta própria. E, ao fazê-lo, passou a comportar-se como barata tonta.
Nesta sexta-feira (2), a CPI realiza, no ermo de um Congresso em recesso, uma reunião de emergência. Deve aprovar o envio de uma comitiva de deputados pra acompanhar, nos EUA, a transcrição das duas caixas pretas do Airbus da TAM. A providência, por inócua, produzirá um único e nefasto resultado: o desperdício de dinheiro público.
Em reunião com Lula, o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, informou ao presidente que os diálogos travados no cabine do avião e os dados sobre as condições dos instrumentos de vôo estarão no Brasil na próxima semana. Devem começar a ser analisados na próxima quarta-feira (25). Essas informações são essenciais para a investigação das causas do acidente.
Embora nada tenha sido informado acerca do conteúdo da conversa de Saito com Lula, sabe-se que o governo considera improvável que a desgraça tenha sido causada por defeitos na pista de pouso de Congonhas. Uma linha que foi reforçada pelas imagens que mostraram que o avião, ao pousar, desenvolvia uma velocidade acima do normal.
Em entrevista, o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, disse que o avião “tocou a pista na velocidade correta e no ponto certo”. Depois, curiosamente, não desacelerou. "É evidente que houve alguma coisa que fez com que ele não desacelerasse. É um acidente complexo, daquele tipo que só pode ser esclarecido com a caixa-preta", disse ele.
"Após o pouso”, completou o presidente da Infraero, “alguma coisa aconteceu e isso é que é preciso esclarecer, porque o avião acelerou novamente... o avião não acelera por milagre... acelera porque o piloto empurrou a potência do motor do avião. Por quê? Porque ele precisava arremeter? Só a caixa-preta vai dizer". Vem daí que, a despeito da aposta, os investigadores ainda não descartaram a hipótese de que as condições da pista tenham influído no comportamento atípico do piloto.
Seja como for, a tragédia arrancou o governo de sua apatia. Dicidiu-se, por exemplo, adotar medidas para desafogar o tráfego aéreo de Congonhas. As providências serão discutidas em reunião do Conac (Conselho de Aviação Civil), convocada para esta sexta-feira (20). Trata-se de um órgão auxiliar ao Ministério da Defesa. Sob Lula, reuniu-se escassas duas vezes.
Simultaneamente, a Justiça Federal de São Paulo começou a analisar a ação do Ministério Público que pede o fechamento de Congonhas até o término das investigações. O juiz Clécio Braschi decidiu intimar a Infraero e a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) a prestar esclarecimentos. Só depois decidirá se concede ounão a liminar pedida pela Procuradoria da República.
Enquanto o Brasil chora os corpos da última tragédia aérea, congressistas associados ao consórcio governista ensaiam um sorriso maroto. Num instante em que o governo raspa o cofre e não encontra dinheiro para investimentos essenciais, o Planalto se prepara para liberar R$ 2,5 bilhões para cobrir despesas injetadas no Orçamento da União por meio de emendas de parlamentares.
Onze em cada dez escândalos que freqüentam o noticiário têm atrás de si as famigeradas emendas. São apresentadas sob o pretexto de financiar obras de interesse social nos fundões do país. Lorota. Destinam-se, em sua grossa maioria, a alimentar a engrenagem corrupta que injeta verbas públicas em bolsos privados –de empresários desonestos e dos próprios autores das emendas.
Deve-se ao repórter Fábio Zanini a revelação de que o Planalto volta a ceder à pré$$ao dos “aliados” sob chantagem. Partidos como o PMDB e os mensaleiros PP, PR e PTB ameaçam negar a Lula a aprovação de dois projetos considerados essenciais: a renovação da CPMF e da DRU (Desvinculação das Receitas da União).
Na avaliação do governo, informa Zanini (assinantes da Folha), se a CPMF e a DRU fossem a voto hoje, seriam derrotadas. Por isso, o Planalto prepara já para a próxima semana, em pleno recesso legislativo, a liberação de R$ 540 milhões em emendas de congressistas. O resto deve sair entre agosto e outubro. O Brasil, como se vê, não retira de seus erros nenhum tipo de ensinamento.
Glauco No rastro da tragédia de Congonhas, o governo decidiu elaborar um plano de atração de investimentos privados para o setor aéreo. A pedido de Lula, os estudos serão feitos pelo Ministério do Planejamento. Parte-se de uma conclusão óbvia: o Estado não dispõe de dinheiro suficiente para dotar o país de uma infra-estrutura aeroportuária compatível com o crescimento da aviação civil.
Há no Brasil 67 aeroportos, dos quais pelo menos 20, considerados de médio ou de grande porte, padecem de falta de investimento. Um assessor de Lula informou ao blog que, pelas contas iniciais, o governo se deu conta de que precisa gastar algo como R$ 12 bilhões até 2010.
Desse total, só há à disposição cerca de R$ 5,5 bilhões –R$ 2,5 bilhões em recursos próprios da Infraero e R$ 3 bilhões previstos no orçamento do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Daí a decisão de realizar estudos sobre a conveniência de buscar na iniciativa privada o dinheiro que escasseia nos cofres do Estado.
São duas as principais alternativas sob análise: a transferência da administração de aeroportos, mediante concessão pública, a empresas privadas que se disponham a investir no setor; e a abertura do capital da Infraero. Ações da estatal seriam postas à venda na Bolsa de Valores de São Paulo. Discute-se também a hipótese de abrir linhas de crédito do BNDES às empresas interessadas em investir no setor aéreo.
Embora tenha autorizado a elaboração do plano, Lula não se deixou claro, por ora, se vai ou não adotá-lo. Em privado, o presidente diz apenas que, em condições ideais, preferiria manter o setor aéreo como está, sob responsabilidade integral do Estado. Acha, porém, que, em meio à crise, seria uma irresponsabilidade deixar de considerar todas as alternativas.
No Planalto, informa-se que o estudo deve ficar pronto em, no máximo, dois meses. Quando as análises aterrissarem sobre sua mesa, Lula deseja realizar um amplo debate interno, envolvendo todos os setores do governo que têm relação com o setor aéreo, sobretudo a Aeronáutica.
Se o plano vier a ser implementado, significará uma reviravolta no discurso que Lula vem ostentando até aqui. Na campanha eleitoral de 2006, o petista esgrimiu nos palanques reeleitorais um discurso de timbre antiprivatista. Foi a forma que encontrou para se contrapor ao adversário tucano Geraldo Alckmin.
O governo estima que a investigação que apura as causas da tragédia com o Airbus da TAM deve durar cerca de dez meses. Ou seja, não será concluída antes de maio de 2008. As duas caixas pretas do avião, já encontradas, encontram-se avariadas. Na próxima segunda-feira (23), serão abertas em Washington (EUA), na agência de segurança de vôo norte-americana
Uma das caixas pretas contém o áudio da cabine. A outra registra os dados dos aparelhos de bordo no instante do acidente. De acordo com o cronograma estipulado pela Aeronáutica, as informações disponíveis chegarão ao Brasil na quarta-feira (25) da semana que vem. Só nesse dia os dados resgatados começarão a ser analisados.
A perspectiva de uma investigação longeva não impede o governo de tomar providências para corrigir eventuais falhas no sistema de segurança de vôo. As correções podem ser adotadas a partir de recomendações técnicas emitidas pela equipe escalada para apurar as causas de mais este acidente.
Embora não excluam a hipótese de que as condições da pista de Congonhas tenham contribuído para o acidente, a Aeronáutica e a Infraero apostam em outras linhas de apuração. “Posso afirmar que não existe possibilidade de derrapagem nessa pista nas condições atuais”, disse, em timbre enfático, nesta quarta-feira (18), Armando Schneider, superintendente de Engenharia da Infraero.
A julgar pelo que dizem os pilotos em contatos gravados pela torre de comando de Congonhas, a pista está mais sujeita a derrapagens do que deixa antever a convicção de Schneider. Há, de resto, imagens gravadas pelo circuito de câmeras do aeroporto. Mostram o momento do pouso do vôo 3054 da TAM.
Divulgou-se nesta quarta-feira (18) um vídeo que compara a aterrissagem do avião da tragédia com o pouso de outras aeronaves. Uma pista que costuma ser vencida em 11 segundos foi percorrida pelo Airbus em três segundos. Em seu trecho final, o vídeo exibe o clarão produzido pela explosão (leia e assista).
A ministra Marta Suplicy (Turismo) desembarcou nesta quarta-feira (18) no aeroporto Tom Jobim, no Rio. Vinha de Lisboa. Instada a comentar a nova tragédia aérea brasileira, ela preferiu deslizar na pista: "Não tenho nada a dizer."
Em seguida, a bordo de um carro oficial, a ministra foi conduzida à Base Aérea do Galeão. Ali, embarcaria num jatinho da FAB, com destino a Brasília. A julgar pelas declarações anteriores de Marta Suplicy, o melhor que ela tem a fazer é mesmo guardar obsequioso silêncio. A sociedade não tem tido a oportunidade de relaxar. Muito menos de gozar.
O Ministério Público Federal pretende protocolar na Justiça Federal de São Paulo, ainda nesta quarta-feira (18), uma ação civil pedindo o fechamento do aeroporto de Congonhas. O texto está sendo concluído. Pede a transferência dos vôos para outros aeroportos de São Paulo – Cumbica (Guarulhos) e Viracopos (Campinas) -, até que uma investigação esclareça as condições de uso da pista de pouso de Congonhas.
A ação será assinada pelos procuradores da República Fernanda Taubemblatt e Márcio Schusterschitz. São os mesmos que ajuizaram, em janeiro de 2007, uma ação que pediu a interdição da pista de Congonhas. Essa primeira ação foi extinta no último mês de abril, depois da assinatura de um acordo entre Ministério Público, a Infraero e a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil).
Pelo acordo, chamado tecnicamente de TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), os órgãos públicos assumiram o compromisso de reformar a pista principal de Congonhas. Fixaram-se horários de funcionamento do aeroporto até a conclusão das obras. A nova pista foi liberada para pousos e decolagens no final de junho. Não estava, porém, completa. Faltaram, por exemplo, as ranhuras (grooving, no jargão técnico) que facilitam a drenagem das águas da pista.
Na nova ação, os procuradores pedirão à Justiça que determine a interdição de Congonhas por meio de decisão liminar (provisória), antes do julgamento do mérito do processo.
PS.: Como noticiado acima, a ação do Ministério Público Federal já foi efetivamente protocolada.
A maior causa de mortalidade no setor aéreo brasileiro é um mal implacável chamado incompetência. A julgar pelo desnorteio do governo, trata-se de moléstia endêmica e incurável. Em menos de dez meses, já levou à cova pelo menos 342 cadáveres –154 do Boeing da Gol e 188 do Airbus da TAM, 12 em solo. A menos que um milagre conduza à vacina, ninguém pode assegurar que o monturo de corpos não aumente.
Noves fora a mortandade, o caos aéreo já produziu sindicâncias, auditorias, inquéritos, processos, duas CPIs, uma infinidade de discursos e um par de tragédias –a segunda mais funesta do que a primeira. Só não deu à luz uma solução. E o país vai se habituando a um fenômeno hediondo: a lamentação depois do fato.
Tome-se, porque é mais recente, o exemplo do descalabro de Congonhas. A pista onde se realizam os pousos e as decolagens mede exíguos 1.900 metros. Desde a década de 80, pilotos e especialistas se queixam das deficiências desse naco de concreto. O que fez o governo? Na última década, torrou algo como R$ 530 milhões no embelezamento interno do terminal de passageiros. Por que?
Ora, para atender aos interesses de empreiteiras ávidas por obras, de gestores vorazes por comissões e de presidentes sequiosos por inaugurações. Privilegiaram-se o mármore e as lojinhas em detrimento da segurança. Premido pelas circunstâncias, o governo, sob Lula, reformou, a toque de caixa, a pista. Liberou-a para o uso, no final de junho, sem as ranhuras que permitem a drenagem das águas enviadas por São Pedro.
Confrontada com 188 vítimas novinhas em folha, Brasília difunde uma “informação” que antecede a realização das perícias técnicas. Diz-se que a nova mortandade de passageiros (176) e de funcionários do prédio em que o avião da TAM fez a sua aterrissagem improvável (12) nada tem a ver com as condições da pista do aeroporto. Pode ser. Mas a hipótese não passa, por ora, de uma aposta de gestores públicos submetidos a novos e constrangedores apuros.
Afora a descoberta de controladores de vôo em absoluto descontrole, o caos aéreo é temperado com generosas pitadas de corrupção. São mutretas conhecidas do governo. Foram esquadrinhadas pelo TCU, pela Controladoria da União e pelo Ministério Público.
Nas diferentes esferas de investigação, encontram-se encalacrados algo como seis dezenas de funcionários públicos. Entre eles um petista que Lula acomodou na presidência da Infraero e uma penca de funcionários graduados da estatal que “administra” os aeroportos brasileiros. A lista inclui uma senhora que coleciona decisões temerárias desde a gestão FHC. Trabalhava em São Paulo. Sob Lula, foi promovida. E passou a praticar malfeitorias desde Brasília.
Some-se a tudo isso um estrondoso crescimento do mercado de aviação civil. Numa previsão conservadora, estima-se que o mercado cresce no Brasil à proporção de 12% ao ano. Não há coisa parecida no mundo. Numa China de PIBs vitaminados, o setor aéreo experimenta crescimento anual de algo como 10%. Com uma diferença: nesta terra de palmeiras e sabiás, a falta de investimentos, a descoordenação e a ausência de planejamento tonificam as dores do crescimento.
Tudo considerado, a aviação brasileira vai ganhando as feições de uma usina de potenciais constrangimentos e de cadáveres. No acidente da Gol, os corpos foram mergulhados na selva de Mato Grosso. No desastre da TAM, foram carbonizados no interior de uma aeronave convertida em algo semelhante a uma lata de sardinha em chamas. Até quando?
Fábio Pozzebom/ABr O relator da CPI aérea do Senado, Demóstenes Torres (DEM-GO), discute nesta quarta-feira com o presidente da comissão, Tião Viana (PT-AC), a hipótese de investigar a nova tragédia aérea brasileira. Cogita-se inclusive a hipótese de trabalhar durante o recesso parlamentar, que começa hoje e vai até 31 de julho.
“Nós tínhamos decidido que, durante o recesso, faríamos apenas a análise de documentos. Mas, diante da gravidade do novo acidente, isso pode ser objeto de reavaliação”, disse Demóstenes ao blog na noite desta terça-feira (17). “Vou conversar com o presidente Tião Viana sobre isso. Independentemente do recesso, podemos tocar essa questão”.
Para Demóstenes, se ficar comprovado que o novo acidente foi provocado pelas más condições da pista de pouso do aeroporto de Congonhas, “trata-se de mais uma irresponsabilidade do governo. É algo que terá de ser averiguado.” A pista acaba de ser reformada. Foi liberada no final de junho.
Ficaram pendentes, porém, obras complementares, previstas para agosto. Entre elas a abertura de ranhuras na pista. No jargão técnico, são chamadas de "grooving". São fendas destinadas a melhorar o escoamento das águas da chuva. Na segunda-feira (16), véspera da nova tragédia, um avião da empresa Pantanal havia deslizado ao pousar em Congonhas.
Embora considere improvável que a causa do novo acidente sejam as más condições da pista, o governo não exclui a probabilidade de que a ausência das ranhuras tenha contribuído para que a aeronave da TAM se desgovernasse. No instante do pouso, garoava na capital paulista
No final da noite, o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, informou a Lula, pelo telefone, que, nesta quarta-feira (18), técnicos do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) farão uma inspeção da pista de Congonhas. A liberação da pista está condicionada a esta inspeção.
Na avaliação de Demóstenes Torres, todos os problemas detectados no relatório parcial aprovado pela CPI do aerocaos no último dia 7 de julho continuam pendentes de solução. “Vivemos um apagão de investimento e de absoluta falta de planejamento governamental”, afirmou. Ele repetiu ao blog um comentário que fizera dias atrás sobre o ministro Waldir Pires (Defesa): “Ele é um banana.”
“Falta coordenação ao governo”, disse Demóstenes. “Agora, diante da nova tragédia, vamos lamentar de novo. E continua a desconexão entre a Aeronáutica, a Infraero e a Anac. Enquanto o governo se perde em conjecturas, ficamos à espera de novas tragédias.”
“Nosso relatório, que foi encaminhado ao governo, deixa claro que a estrutura atual não dá mais”, completou o senador. “Congonhas tem capacidade para 12 milhões de passageiros e está operando com 189 milhões. Precisamos de investimentos. O governo não tem dinheiro? Então é preciso recorrer à iniciativa privada. É urgente a construção de outro aeroporto em São Paulo. É preciso ampliar Guarulhos, ampliar Congonhas. Tem que reservar o aeroporto de Campinas exclusivamente para cargas.”
Folha O deputado federal Júlio Redecker (PSDB-RS), líder da minoria na Câmara, embarcou no vôo JJ 3054 da TAM, que derrapou na pista do aeroporto de Congonhas e se chocou contra um prédio da empresa. Procedente de Porto Alegre, Redecker deveria encontrar-se com o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), em São Paulo. Ele integraria uma comitiva que, sob a liderança de Chinaglia, faria uma viagem oficial do Legislativo para os EUA.
O presidente da Câmara cancelou a viagem. Antes, Chinaglia obteve a confirmação de que, de fato, o nome de Redecker consta da lista de passageiros do vôo da TAM. Em Brasília, Lula convocou uma reunião de emergência com quatro ministros. A atmosfera é de desnorteamento.
A assessoria de Redecker telefonou para o líder do PSDB na Câmara, deputado Antonio Carlos Pannunzio (SP). De novo, confirmou-se que Redecker se encontrava no avião. Não há, por ora, informações acerca das vítimas dos acidentes. Sabe-se apenas que o avião transportava 175 pessoas, entre passageiros e tripulantes. Houve vítimas também fora do avião.
Pannunzio encontra-se em Maceió (AL). Informado de que a mulher de Redecker aguardava o marido num hotel de São Paulo, o líder tucano telefonou para o governador paulista José Serra. Pediu-lhe que oferecesse auxílio à mulher do colega.
Há pouco, também o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), telefonou para José Serra. Informou-se acerca dos detalhes do acidente e obteve a confirmação de que Redecker estava mesmo no vôo. Virgílio disse que espera do governo “uma rigorosa apuração das causas” de mais este acidente. “Há meses que o PSDB denuncia os problemas sobejamente conhecidos que afetam o tráfego aéreo e os principais aeroportos do país, reclamando providências”, acrescentou.