Um país condenado a viver à beira do abismo eterno
Máximo/El Pais
Há anos que a política brasileira caminha em direção a um metafórico fundo do poço. Tem-se uma vaga visão do que seria uma democracia irremediavelmente conspurcada. Mas prefere-se não pensar nos efeitos da encrenca no cotidiano pacato dos brasileiros que financiam o funcionamento do Legislativo, do Executivo e do Judiciário.
Imagina-se o fundo do poço como algo parecido com o inferno. Um lugar que todos sabem insuportável. Mas que ninguém deseja conhecer para saber, em detalhes, como funciona. As pessoas se apegam ao fato de que a frágil democracia brasileira já roçou várias vezes o fundo do poço. E nem por isso o brasileiro médio deixou de tomar o café da manhã, almoçar, jantar e assistir à novela das oito antes de enfiar-se sob os lençóis.
Assim, o Brasil vai adiando, brasileiramente, o seu encontro com o fundo do poço definitivo. Quando se imagina que o lamaçal terminal e irremediável foi tocado, um novo escândalo irrompe em cena para informar à nação que o percurso rumo às profundezas do lodo ainda terá novas escalas.
Ao fundo do poço da fisiologia à Sarney, sobreveio o fundo do poço do Collorgate, que foi seguido pelo fundo do poço dos anões do orçamento, que foi anulado pelo fundo do poço das privatizações trançadas “no limite da irresponsabilidade”, superado pelo fundo do poço da compra de votos da reeleição, humilhado pelo fundo do poço da Sudam, vencido pelo fundo do poço da violação do painel do Senado, suplantado pelo fundo do poço do mensalão, derrotado pelo fundo do poço da quebra do sigilo do caseiro, sobrepujado pelo fundo do poço do dossiêgate, ultrapassado pelo fundo do poço do da compra de sentenças judiciais, enterrado pelo fundo do poço do propinoduto da Gautama, excedido pelo fundo do poço da suspeita de que um lobista de empreiteira bancaria as despesas do presidente do Senado...
A esperança de que o fundo do poço possa ser, convenientemente, adiado ao infinito faz do país o que ele é hoje, uma nação à beira do abismo eterno. Sonega-se o imposto sob o pretexto de que ele será roubado; reelegem-se corruptos sob a justificativa de que é tudo farinha do mesmo saco; desrespeitam-se as leis de trânsito sob o argumento de que ninguém as respeita; tolera-se o subemprego sob a falácia de que ele é conseqüência natural do processo econômico e, afinal, é preferível ao assalto a mão armada; etc, etc, etc...
A cada novo fundo do poço, ouvem-se as vozes do “corte na própria carne”, do “doa a quem doer”. A cada nova onda de lama, afirma-se que, dessa vez, a apuração chegará às “últimas conseqüências”. No fim, acaba-se chegando às últimas conseqüências. Há casos em que os culpados são identificados. Alguns chegam mesmo a virar réus em processos judiciais. E terminam rebatizados com nomes bem conhecidos. Todos pendentes da árvore genealógica da família Conseqüência. Os mais notáveis são o “Descaso Conseqüência dos Anzóis” e a “Impunidade Conseqüência dos Caracóis”.
Nesse interminável adiamento do fundo do poço apocalíptico, o brasileiro habituou-se a conviver com o inaceitável. Não se sabe ao certo se a nova crise política que revolve os subterrâneos da promiscuidade nacional empurrará o país, finalmente, para o abismo. De uma coisa, porém, não há dúvida: quem está cavando o buraco é a sociedade. Vale-se de uma enxada conveniente. A enxada da inércia.
Geddel decide afastar secretário de Recursos Hídricos
O inquérito da Operação Navalha vai produzir mais uma baixa no governo Lula. Depois do afastamento do ministro Silas Rondeau (Minas e Energia) e dois de seus assessores, será demitido Rogério Menescal, diretor de Recursos Hídricos do ministério da Integração Nacional.
Será uma “demissão preventiva”, segundo confidenciou, em privado, o ministro Geddel Vieira Lima, titular da Integração Nacional. Menescal foi mencionado num dos grampos telefônicos captados pela Polícia Federal em 14 de março de 2005. Trata-se de um diálogo travado entre Adeilson Teixeira Bezerra e Denisson de Luna, dois dos suspeitos detidos pela PF em 15 de maio.
Antes da prisão, Adeilson e Denisson ocupavam, respectivamente, os cargos de secretário e o subsecretário de Infra-estrutura do Estado de Alagoas, governador pelo tucano Teotônio Vilela Filho. Na conversa gravada, falaram sobre a necessidade de manter na pasta da Integração Nacional, sob Geddel, o secretário Rogério Menescal.
No ministério, Menescal é responsável pela liberação das verbas destinadas à barragem do Rio Pratagy, em Maceió. Um negócio de R$ 77,78 milhões. Tocada pela Gautama a obra é uma das que se encontram sob investigação da PF e do Ministério Público.
No telefonema interceptado pela escuta, Adeilson e Denisson falam sobre a necessidade de pedir a interferência do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e do irmão dele, deputado Olavo Calheiros (PMBB-AL) para segurar Menescal no ministério depois da posse de Geddel.
Relatado nas páginas do inquérito da Operação Navalha, o conteúdo do grampo foi noticiado neste sábado pelos repórteres Leonardo Souza e Andreza Matais, na Folha (assinantes). “Denisson diz que Rogério [Menescal] ligou para ele dizendo que tem muito interesse em ficar mais um ou dois anos no ministério [...]”, anota o documento da PF. “Denisson diz que vai precisar do apoio do senador [Renan Calheiros]. Denisson diz que seria uma pessoa do próprio Renan ou do próprio Olavo [Calheiros] dentro do Ministério”.
Ainda de acordo com o inquérito, Denisson realça no diálogo o fato de que Menescal é a pessoa que libera o dinheiro para a barragem do Pratagy. “Adeilson diz que, com o Geddel, Rogério precisa de um apoio se não ele sai”, escreveu a PF no inquérito. Denisson respondeu: ‘Ele é um cara [...] que dá todos aqueles valores, que você conhece, na área dele. É uma pessoa importantíssima. Tem uma amizade conosco muito grande.”
Segundo Geddel, empossado na Integração Nacional há menos de três meses, nem Renan nem Olavo intercederam pela manutenção de Menescal. Tampouco chegaram ao conhecimento do ministro, por ora, informações desabonadoras quanto à ação funcional do servidor. Ainda assim, Geddel decidiu afastá-lo.
“Na dúvida, é melhor afastar”, diz o ministro. “É melhor para o ministério e para o próprio Menescal”. A demissão do diretor de Recursos Hídricos será operada pelo superior hierárquico dele, João Santana, responsável pelo Secretaria de Infra-estrutura Hídrica na pasta da Integração Nacional.
Enquanto trafegou incógnito pelos meandros que levam aos cofres públicos, Zuleido Veras, “o chefe dos chefes”, portou-se como um sujeito do barulho. Neste sábado (26), conduzido à presença da ministra Eliana Calmon, do STJ, revelou-se um cultor do silêncio. Como que decidido a compensar a loquacidade revelada pelos grampos telefônicos da polícia, que o pilharam mandando e desmandando, não deu um pio.
Certos silêncios, por ensurdecedores, merecem resposta imediata. E a ministra Calmon, relatora do inquérito da Navalha, não hesitou em devolver Zuleido ao PF’s Inn. O dono da Gautama, que já está de molho há dez dias, vai desfrutar por mais algum tempo da hospitalidade da carceragem da PF.
Diferentemente de Zuleido, a diretora Financeira da Gautama, Maria Fátima Palmeira, falou por mais de oito horas –quatro na sexta (25) e mais de quatro neste sábado. Não se sabe, por ora, se o que foi dito. Sabe-se apenas que Fátima tem muito a dizer. Ela era a “mulher da mala”, aquela que foi filmada no Ministério de Minas e Energia portando o envelope pardo recheado, segundo a PF, com R$ 100 mil.
Depois do depoimento, Fátima teve o mesmo destino do chefe: foi devolvida por Eliana Calmon ao xilindró. De duas uma: ou a ministra acha que a depoente mentiu ou deseja ouvi-la novamente depois de submeter o seu depoimento aos rigores de uma boa e conveniente checagem.
Zuleido e Fátima são, por assim dizer, os dois mais vistosos arquivos humanos das tramóias da quadrilha passada na lâmina pela operação da PF e do Ministério Público. O contato da dupla com a lei vem eletrificando, há dias, os corredores do Congresso Nacional e de três ou quatro prédios da Esplanada dos Ministérios. Informados com a retenção de Zuleido e de sua braço direito nas dependências da PF, os advogados a serviço da cúpula da Gautama impetraram habeas corpus no STF. A encrenca foi, de novo, à mesa do ministro Gilmar Mendes.
Antônio Cruz/ABr Mesmo depois de ser ironizado por colegas no Congresso, o senador Wellington Salgado (PMDB-MG) mantém a decisão de apresentar à CPI do Apagão Aéreo um requerimento para que a Presidência da República lhe ceda um jato Legacy. Quer refazer a rota do avião que se chocou com o Boeing da Gol, em setembro de 2006. Veja como o senador explica sua proposta, em entrevista à coluna de Mônica de Bergamo, na Folha (assinantes):
- Demóstenes Torres (DEM-GO) disse que, caso sua idéia vingue, os senadores vão receber auxílio-funeral, não diárias de viagem. Mas tu acha que aquilo é o Triângulo das Bermudas? Que vai vir outro avião da Gol e bater? Você está convidado a ir comigo, para perder esse medo. O Legacy é seguro. Mas já começaram as piadas. Recebi um e-mail dizendo: "Leva a senadora Ideli Salvatti [PT-SC] de aeromoça". Estou desconfiado que foi o senador Heráclito Fortes [DEM-PI] que mandou.
- Algum senador já se ofereceu para ir no avião? O Romeu Tuma [DEM-SP] falou que vai comigo. É meu companheiro, não tem medo de nada. Acho que o Arthur Virgílio [PSDB-AM] também é macho o bastante. Isso você conta no dedo aqui.
- Como a reconstituição pode ajudar a elucidar o acidente? Existe no local do acidente o chamado "buraco negro" [do espaço aéreo], que hoje eles falam que está coberto pelos radares. Eu iria desligar o transponder do avião, botar um senador na torre [onde ficam os controladores do tráfego aéreo] em terra, e falar: "Está me vendo? Sumi?". Depois, mergulhava mil metros e falava: "Está me vendo? Em que altura estou?". Claro que mandando os outros aviões saírem dali na hora, né? Quero um senador esperto na torre, o Mário Couto [PSDB-PA]. Se botar o [Eduardo] Suplicy [PT-SP], é perigoso.
- Levaria o Suplicy no avião? Desde que ele não fosse até a cabine. Vai que, na hora de desligar o transponder, ele aperta o botão que desliga a turbina!
A Justiça fixou em R$ 7 mil a pensão mensal que o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) terá de pagar à filha de 3 anos que teve com a jornalista Mônica Veloso (foto). É mais do que os R$ 3 mil que o presidente do Congresso se dispunha a pagar. E menos do que os R$ 12 mil que pagava até o final do ano passado.
A vida íntima de Renan foi ao noticiário por conta de reportagem veiculada na edição desta semana de Veja. Segundo a revista, a pensão da filha do presidente do Congresso foi custeada, entre janeiro de 2004 e dezembro do ano passado, por um lobista da empreiteira Mendes Júnior. Renan negou.
Segundo apurou o blog, o senador propusera uma redução no valor da pensão. Reconhecera formalmente a paternidade da criança e dispusera-se a pagar uma pensão de R$ 3 mil. A jornalista, que queria mais, abriu uma ação judicial. Tecnicamente, chama-se “processo de alimentos”. Com a fixação do valor, a causa foi encerrada.
O que não acabou foi o drama político de Renan. Embora tenha divulgado nesta sexta-feira uma nota em que deu as explicações que considerou apropriadas, o senador foi instado pelo seu próprio partido, o PMDB, a explicar melhor a acusação que estabeleceu um vínculo financeiro entre o presidente do Congresso e um lobista de empreiteira.
Faltam 34 assinaturas na Câmara, não 18 como se imaginava
Depois de divulgar que já havia recolhido as assinaturas de 153 deputados, os idealizadores da CPI da Navalha se deram conta de que estão mais distantes de seu objetivo do que supunham. Refazendo as contas, detectaram no requerimento da comissão várias rubricas em duplicidade. Eliminando-as, chegaram a um número mais modesto de adesões: 137.
Ou seja, para alcançar o número mínimo exigido pelo regimento interno da Câmara –171—, o grupo terá de arrebanhar o apoio de mais 34 deputados, não de 18, como se imaginava até a manhã desta sexta-feira. O blog conversou com Augusto Carvalho (PPS-DF), um dos proponentes da CPI. Ele não jogou a toalha: “Considerando-se que trabalhamos apenas dois dias, não é pouca coisa o que foi obtido. Na terça-feira, vamos retomar a coleta de assinaturas. Estou convencido de que chegaremos lá.”
Inicialmente, os partidários da CPI planejaram coletar cerca de 200 assinaturas, 29 a mais do que as 171 exigidas pelo regimento. Buscavam uma folga, para se contrapor à pressão do governo para que os congressistas que o apóiam retirem assinaturas já apostas ao requerimento. Mantendo-se o plano original, em vez de 34 apoios, os defensores da investigação parlamentar terão de amealhar mais 63 assinaturas. Não é pouca coisa.
Busca-se a instalação de uma CPI mista, com deputados e senadores. No Senado, a situação é menos desfavorável. Ali, já foram recolhidas 29 assinaturas, duas além das 27 previstas no regimento. Nesta sexta-feira, circulou pelos corredores do Congresso a informação de que, na Câmara, já haveria 166 assinaturas. Carvalho explicou ao blog que esse número representa, em verdade, a soma das assinaturas obtidas na Câmara e no Senado.
Nos subterrâneos, o governo age para empanar a CPI. O Planalto orientou seus aliados a se esquivarem de assinar o requerimento. Aos que já assinaram, sugere-se que "desassinem". Formalmente, só o PT e o PP declararam-se publicamente contrários à investigação no Legislativo. Nas demais legendas do consórcio governista, por ora, a articulação anti-CPI desenrola-se nos bastidores.
Em intensa troca de telefonemas, lideranças do Senado discutem reservadamente a precariedade da sustentação política do colega Renan Calheiros (PMDB-AL). Embora cuidadosos, os senadores avaliam que o presidente do Congresso tornou-se um personagem obrigatório da CPI das Obras Públicas, a essa altura considerada inevitável.
O blog conversou nesta sexta-feira com seis lideranças que têm expressão no Senado. Integram o PMDB, o DEM, o PSDB e o PT. Cautelosos, conversaram sob a condição de que seus nomes não fossem revelados. Consideram que seria indelicado fazer avaliações públicas antes de dar a Renan a oportunidade de explicar-se sobre as novas denúncias que o enredaram.
Em reserva, todos os parlamentares consultados consideraram que a situação de Renan tornou-se desconfortável. Quatro senadores disseram que o Congresso não poderá eximir-se de incluir Renan na pauta de investigações da CPI da Navalha, que, no Senado, já obteve a adesão de 29 senadores, dois a mais do que o número exigido pelo regimento interno da Casa para a abertura de comissões parlamentares de inquérito.
Dois senadores compararam o quadro atual ao cenário que vitimou Jader Barbalho (PMDB-PA), compelido a renunciar à presidência do Congresso e ao próprio mandato por conta de acusações de malfeitorias perpetradas na Sudam e no Banpará, o banco estatal de seu Estado. Um deles afirmou que a hipótese de que Renan venha a ser protagonista de uma proposta de cassação do mandato por quebra do decoro parlamentar “deixou de ser um tabu”.
Em nota, Renan negou que tenha recebido de um lobista da Mendes Júnior o dinheiro que pagava o aluguel do apartamento em que morava a jornalista Mônica Veloso e a pensão da filha de três anos que teve com ela (aqui e aqui). Contestou a reportagem da revista Veja que chegou às bancas nesta sexta-feira. Dos seis senadores ouvidos pelo blog, só um foi alcançado depois da divulgação da nota de Renan. Considerou-a “insatisfatória”. Acha que o presidente do Congresso terá de apresentar “uma defesa mais consistente”.
No PMDB, partido de Renan, articula-se uma reunião de bancada para a quarta-feira da semana que vem. Na pauta, o debate em torno das denúncias contra o presidente do Senado. O principal gestor do encontro é o senador Pedro Simon (PMDB-RS). A idéia é que o próprio Renan participe do encontro. Simon diz que, a depender das explicações do colega, pode ser necessário levar o caso ao Conselho Político do PMDB, uma instância que reúne os principais cardeais do partido.
Lula recomendou cautela. Em rápida entrevista, disse ter conversado na quarta e na quinta-feira com Renan, antes da divulgação da reportagem de Veja. Considerou-o tranqüilo. Preocupado com o destino do senador, um dos principais aliados de seu governo no Congresso, o presidente da República afirmou: “Aprendi nesse período todo que pobre de quem fizer julgamento de alguma pessoa por alguma matéria.”
Assim como nas profundezas do mar de lama que margeia a política brasileira, também nos trechos insondáveis do oceano há seres de aparência estranhíssima. A diferença é que, graças aos avanços da tecnologia, as criaturas oceânicas vêm sendo descobertas mais rapidamente do que os monstros do mar de lama.
Foi lançado neste mês de maio, no Reino Unido, um livraço. Chama-se “The Deep”. Traz 220 fotos de seres bizarros do oceano. Seres como o exibido na foto lá do alto, batizado de “Vermes Tubulares”. Deve se parecer com o “Vermes Empreiteiros”, muito encontradiço no mar de lama.
As imagens de “The Deep” foram captadas pela jornalista e cineasta francesa Claire Nouvian. Manejando moderníssimos equipamentos digitais de fotografia, ela obteve cenas reveladoras. Considerando-se que, por ora, apenas 5% do leito do oceano foram mapeados detalhadamente, pode-se imaginar o que ainda está por ser descoberto.
Embora também disponham de equipamentos sofisticados, a Polícia Federal e o Ministério ainda não lograram roçar nem 5% da fauna que se esconde na escuridão do mar de lama brasileiro. Por mais que avancem, os investigadores ainda não conseguiram identificar, por exemplo, um ser que a sociedade anseia encarar: um bicho chamado “Últimas Conseqüências”.
Diz-se que a incursão atual levará o país a exemplares da família das “Últimas Conseqüências”, que têm no “Doaa quem Doer” o seu parente mais próximo. Receia-se, porém, que uma outra criatura do mar de lama, o mostro da “Conveniência”, arme, de novo, barreiras de proteção para impedir que se chegue às “Últimas Conseqüências”.
Enquanto não alcançamos as profundezas do mar de lama, resta-nos contemplar os inofensivos seres trazidos à tona por Claire Nouvian. É possível que alguns deles guardem semelhanças com os seus congêneres enlameados. Note-se, por exemplo as duas criaturas exibidas abaixo.
A primeira, chamada de “Água Viva gigante”, deve ter a mesma cara de cogumelo das criptógamas parasitas que se espalham pelas rubricas do Orçamento da União. A segunda, o “Polvo Dumbo”, há de assemelhar-se aos congressistas que fazem de seus mandatos balcões de aportunidade$. Note que o “Dumbo” tem orelhas e pés enormes. Falta-lhe, porém, a boca. Com as orelhonas, capta propostas indecentes. Com os pezões, arromba as portas do erário. Quando pilhado, guarda obsequioso silêncio.
Sérgio Lima/Folha Há sete dias que o senador Renan Calheiros não faz senão explicar a amizade que o une a Zuleido Veras, dono da Construtora Gautama e estrela da Operação Navalha. Pois uma reportagem da revista Veja (assinantes) desta semana informa que o presidente do Congresso tem vínculos ainda mais estreitos com uma outra empresa, a Mendes Júnior, uma das maiores empreiteiras do país.
Segundo a reportagem de Veja, escrita pelo repórter Policarpo Jr., um lobista da Mendes Júnior, Cláudio Gontijo, exerce em Brasília o inusitado papel de “mantenedor” de Renan Calheiros. Paga-lhe parte das contas. Por exemplo:
• O lobista põe à disposição do presidente do Congresso um flat num dos melhores e mais caros hotéis de Brasília, o Blue Tree. O flat, número 2.018, usado para compromissos que exijam discrição, está em nome de Cláudio Gontijo.
• Gontijo também pagou, até março passado, o aluguel de R$ 4.400 mensais de um apartamento residencial, em Brasília. O imóvel tem quatro quartos e fica em uma área nobre da Capital. Nele morava, até recentemente, a jornalista Mônica Veloso, com quem, segundo a revista, Renan tem uma filha de três anos. No contrato de locação, o lobista assina como fiador.
• Gontijo também pagava R$ 12 mil mensais de pensão para a filha do senador com a jornalista. A pensão foi bancada pelo lobista da Mendes Jr. de janeiro de 2004 a dezembro do ano passado.
• O lobista, de resto, ajuda nas campanhas do senador Renan Calheiros e nas de sua família. Já ajudou o próprio senador, seu filho e seu irmão.
Levantaram-se detalhes dos repasses que, a pedido de Renan, o lobista da empreiteira fazia para Mônica Veloso: “Todos os meses, a jornalista ia ao escritório da Mendes Júnior, no 11º andar do Edifício OAB, situado na Asa Sul, onde pegava um envelope branco, timbrado, com o endereço, os telefones e o nome de Cláudio Gontijo. O envelope era identificado com suas iniciais – MV. Dentro havia sempre R$ 16.500. Era o aluguel mais a pensão de R$ 12 mil para a criança.”
Ouvida, a Mendes Júnior diz que isso tudo é "questão pessoal" de Gontijo. Alegou desconhecer os pagamentos. Depois da publicação da reportagem, reiterou que, de seu caixa, o dinheiro para Renan não saiu. Mônica Veloso preferiu não se manifestar. O lobista reconheceu que conhece o presidente do Congresso. "Ele é meu amigo, nada mais". Admite que entregava dinheiro para quitar as despesas de Mônica Veloso. Diz, porém, que os recursos não eram nem dele da empreiteira. De quem era? "Só posso dizer que não era meu."
Procurado por Veja, Renan Calheiros disse: "O dinheiro era meu", afirmou. Se era assim, por que o lobista fazia a intermediação? O presidente do Congresso afirmou que não trataria de um tema que se encontra sob segredo de Justiça. Aos pouquinhos o presidente do Senado vai se tornando um personagem obrigatório de uma CPI que, por dever regimental, talvez tenha de instalar. Aliás, embora tenha insinuado, há dois dias, que assinatira o requerimento da comissão, Renan não assinou.
Vítima de sobrelotação aérea pode receber até R$ 1.200
Glauco Overbooking é um vocábulo importado da língua inglesa. Designa uma prática que, comum no exterior, foi mimetizada pelas companhias aéreas do Brasil na década de 90: a venda de bilhetes aéreos acima da capacidade da aeronave. Quando isso ocorre, quem chega primeiro ao guichê de embarque voa. Quem chega por último sobra.
Desaguadouro natural das reclamações de passageiros preteridos, a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) vinha lavando as mãos. Limitava-se a aconselhar a clientela lesada a bater às portas dos órgãos de defesa do consumidor. Súbito, com duas CPIs aéreas no seu encalço, a da Câmara e a do Senado, a agência decidiu cumprir a sua obrigação. Vai baixar uma resolução obrigando as companhias a compensar as suas vítimas.
A Anac levou ao seu portal na internet uma minuta da resolução que pretende editar. Junto, veiculou uma exposição de motivos em que resume a confusão da sobrelotação. Traça uma panorâmica do problema no Brasil, nos EUA e na Europa. E convida os interessados a encaminhar sugestões até o dia 25 de junho. Recolhidas as emendas da consulta pública, aproveitará as que julgar apropriadas e levará a resolução ao Diário Oficial.
O texto da minuta prevê que as empresas aéreas terão de compensar as “vítimas” do overbooking. Sugere-se desde a devolução do dinheiro até o pagamento de indenizações pecuniárias. Para os vôos de até 1.100 Km, a indenização será de R$ 300 quando o atraso for de até duas horas e de R$ 600 para períodos superiores. Para os deslocamentos de 1.100 Km a 2.200 Km., R$ 450 para atrasos de até 3 horas e R$ 900 para quando o retardo for maior. E para as viagens de mais de 2.200 Km, R$ 600 quando o atraso for de até 4 horas e R$ 1.200 quando passar disso.
Em homenagem à clientela, a Anac estabelece em sua resolução que a palavra final no fechamento dos acordos será sempre do passageiro. Mais: anota que, em períodos que antecedem a datas importantes –o Natal e Semana Santa, por exemplo—, a compensação financeira terá de ser paga em dobro. A empresa que descumprir as regras sujeita-se ao pagamento de multa em valor correspondente a dez vezes o valor da tarifa cheia cobrada pelo trecho fixado no bilhete do viajante.
Espera-se que, adotada a nova resolução, o país seja privado de assistir de nova a episódios como o que ocorreu na Quarta-feira de Cinzas que se seguiu ao Carnaval de 2006. Naquele dia, o então comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, compareceu, a paisana, acompanhada da mulher, ao aeroporto de Viracopos, em Campinas.
No guichê da TAM, minutos antes do horário do embarque, o funcionário informou ao general que, por um desses azares do destino, o vôo estava lotado e o avião fechado. Ocorrera um overbooking de feriadão. O avião já rumava em direção à cabeceira da pista quando recebeu ordem da torre para retornar ao pátio.
Uma escada foi levada para a porta e um casal de passageiros desceu. Subiram o general e a mulher dele. E o Brasil ficou sabendo que há duas categorias de vítimas das companhias aéreas: as comuns, tratadas com descaso e falta de educação, e as especiais, às quais são dedicadas deferências inauditas.
Antecipando-se a uma decisão que o governo já havia tomado, o diretor do programa Luz Para Todos, José Ribamar Lobato Santana, pediu demissão do cargo nesta quinta-feira (24). Se não saísse, apurou o blog, ele seria demitido. É a terceira vítima que a Operação Navalha faz no Ministério das Minas e Energia.
Lobato Santana afasta-se do governo apenas 48 horas depois de o titular da pasta, Silas Rondeau ter entregado, ele próprio, uma carga de demissão a Lula. Antes dos dois, já havia se retirado do ministério Ivo Almeida Costa, que era assessor especial de Rondeau.
Os três têm em comum o fato de freqüentar o inquérito da Operação Navalha na condição de suspeitos. Rondeau foi acusado pela Polícia Federal de receber propina de R$ 100 mil. Seria um prêmio por suposto favorecimento à Construtora Gautama em obras do Luz Para todos, gerido por Lobato Santana.
Quanto a Ivo Costa, chegou a ser detido pela polícia. Foi posto em liberdade pela ministra Eliane Calmon, do STJ, depois de prestar depoimento. A PF sustenta que foi ele quem recebeu, das mãos de Fátima Palmeira, diretora Financeira da Gautama, o envelope com a propina que teria sido repassada ao ministro. No depoimento à Justiça, Ivo alegou que o envelope continha documentos, não dinheiro.
Com a saída dos três, o Planalto imagina ter-se livrado de uma trinca de problemas. Resta agora nomear o novo ministro de Minas e Energia. Algo que Lula deve fazer nesta sexta-feira (24), segundo confidenciou a congressistas que estiveram com ele no Planalto.
O presidente aceitou a indicação feita pelo mesmo PMDB que apadrinhara Silas Rondeau. A pasta será agora gerida por Márcio Zimmermann, atual secretário de Planejamento e Desenvolvimento Enérgico do ministério. Trata-se de um técnico. Foi nomeado por Dilma Rousseff antes que a ministra fosse transferida para a Casa Civil. Dá-se extremamente bem com ela.
A Polícia Federal passou, nesta quinta-feira (24), da posição de caçadora à de caça. Foi alvejada até no Palácio do Planalto. Reunidos com Lula, dirigentes dos partidos que integram o consórcio governista queixaram-se dos “excessos” da PF. Na definição de um dos participantes da reunião, ouvido pelo blog, “o pau comeu”.
Foram três os principais argumentos utilizados para vergastar a PF: 1) o vazamento pouco criterioso de trechos do inquérito da Operação Navalha; 2) “prisões arbitrárias”; e 3) “excessos” cometidos na execução dos mandados de prisão e de busca e apreensão.
Depois de ouvir os questionamentos dos congressistas, o próprio ministro Tarso Genro reconheceu que pode ter havido excessos. Secundando-o, também Lula admitiu essa hipótese. Pediu a Tarso que apure e, se for o caso, puna os responsáveis pelos alegados excessos. O presidente mostrou-se incomodado sobretudo com a "onda de vazamentos" de um inquérito que deveria correr em sigilo.
Lula referiu-se especificamente ao caso do ex-ministro Silas Rondeau (Minas e Energia), afastado do cargo sob a acusação de ter recebido propina de R$ 100 mil da Gautama. Disse que são "frágeis" as acusações da PF contra seu ex-auxiliar. Chegou mesmo a se dizer convencido da inocência de Rondeau: "Tirei do governo um homem de bem simplesmente porque não podia deixar ele sangrando até a última gota."
Também no Congresso, a PF virou caça. O primeiro a alvejá-lo foi o senador Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB. Subiu à tribuna com uma cópia do inquérito da Operação Navalha. Disse ter recebido a papelada pelo Correio, de um remetente anônimo. Realçou o fato de que os autos contêm tarjas pretas encobrindo os nomes de determinados investigados.
“Quero saber se estou diante de uma Polícia Federal republicana ou se estou diante de policia persegue desafetos e protege corruptos de dentro do governo”, disse Virgílio. “Ladrão é ladrão. Não deve haver ladrão a ser protegido. Ou varremos a corrupção desse país, ou não vale a pena participar da vida publica”.
Virgílio falou por cerca de quatro horas. Foi aparteado por políticos de vários partidos. Recolheram-se de todos os apartes observações que acomodam a PF na berlinda. Mencionou-se à farta o caso do ministro Gilmar Mendes, do STF. Confundido com um homônimo que foi à lista da Gautama como beneficiário de brindes da empreiteira sob suspeição, Mendes acusara, na véspera, a PF de valer-se de métodos “fascistas”, que conduzem à “canalhice”.
Uma única e escassa voz levantou-se em defesa da PF e do governo. A líder do PT, senador Ideli Salvati (SC), classificou de “republicanos” os procedimentos do inquérito da Operação Navalha. Defendeu a isenção do ministro da Justiça. E revelou publicamente a posição que havia exposto, horas antes, na reunião do conselho político, no Planalto. “Acho que esses inquéritos deveriam ser todos eles públicos”.
Toda essa discussão merece, de fato, meia dúvida de reflexões. De saída, deve-se notar que mobilizações do gênero só costumam ocorrer quando as pessoas recolhidas à cadeia são “ilustres”. Quantas arbitrariedades policiais são cometidas diariamente nas favelas brasileiras sem que nenhuma voz contra elas se levante no parlamento?
De resto, é preciso reconhecer que os vazamentos a conta-gotas de trechos do inquérito que passou a lâmina em mais uma quadrilha de assalto aos cofres públicos é, sim, seletivo e sujeito aos critérios arbitrários dos detentores das informações. A imprensa, por sua vez, no afã de dar vazão aos fatos, acaba por equiparar recebimentos de propinas em dinheiro à aceitação de mimos como gravatas e agendas. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Qual é a solução? Inquéritos e processos que envolvam a apuração de malversação de dinheiro público não deveriam correr em segredo de Justiça. Até porque, convenhamos, o sigilo processual é uma ficção. Está aí o noticiário a demonstrar que o alegado segredo não passa de uma gigantesca hipocrisia.
O Congresso é uma coisa, um boteco é outra. No Legislativo, as diferenças são resolvidas por meio de negociações pacíficas. No botequim, as desavenças podem acabar até em tiro. Nos plenários do Parlamento, havendo dissenso, vai-se ao voto. Nas mesas de bar, eventuais desavenças podem acabar em briga. No limite, terminam na ponta da faca ou no gatilho do 38.
Pois bem, na tarde desta quinta-feira (24), alguns nobres deputados confundiram as duas instituições. Portaram-se nas dependências do Congresso como se estivessem com a barriga encostada no balcão de um boteco. Abandonaram o tratamento de “excelência” e partiram para o vale-tudo. Só não saíram no braço porque seguranças da Casa intervieram.
Deu-se no Salão Verde, um vão aberto do prédio de Niemeyer, contíguo àquela cuia emborcada para cima que abriga o plenário da Câmara. Um grupo de deputados distribuía um manifesto pró-CPI da Navalha. E um colega deles se insurgiu contra a iniciativa em termos acerbos.
"Vou retirar meu nome dessa CPI”, abespinhou-se o deputado Silvio Costa (PMN-PE). “Não vou servir de cama para esses deputados. É um bando de palhaço. Isso é teatro. A CPI é séria. Isso é palhaçada". Incomodado, Chico Alencar (PSOL-RJ), que participava da manifestação, redargüiu: "Você não está entendendo nada. Você assinou a CPI? Então está bom", disse. Foi seguido por Luciana Genro (PSOL-RS): "Você está com vergonha de retirar seu nome da CPI", disse, dirigindo-se a Costa.
Num instante a quizila ameaçava descambar para a troca de socos, a segurança da Câmara impediu. De duas uma: ou o Congresso transfere suas sessões e debates para uma birosca ou abre nas suas dependências um botequim em que sejam admitidos os bêbados e os desqualificados de toda sorte. Diga-se, de resto, porque é de justiça, que abundam nas esquinas do país bares em cujas dependências respira-se uma atmosfera mais benfazeja do a que envolve, no momento, o Congresso.
O ‘pendão da esperança’ jaz num canto do Congresso
Lula Marques/Folha
A cena foi captada pelas lentes do repórter Lula Marques. Deu-se às 19h40 desta quarta-feira (24). O auriverde símbolo desta terra em que já nem o sabiá se arrisca a cantar, com receio de que o pio seja captado pela escuta ambiental da PF, jaz, amarfanhado e esquecido, num canto ermo do Salão Nobre da Câmara. Em pensar que Olavo Bilac um dia escreveu:
“Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da pátria nos traz”.
O pendão, é certo, continua lindo. Mas a esperança, até ela, já nos foi roubada. O símbolo, por mais augusto e nobre, já não consegue evocar senão a grandeza da vergonha. Um sentimento penoso, que emerge das vísceras, expostas a golpes de navalha e humilhação.
Ex-presidente se articula com grupo suprapartidário
Jorge Araújo/Folha Num instante em que Lula emite sinais de que irá chamá-lo para conversar, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso trabalha para tentar rearticular a oposição ao governo de seu sucessor. Há uma semana, FHC reuniu-se reservadamente, em São Paulo, com um grupo suprapartidário de deputados. Discorreu sobre as linhas gerais de um plano para se contrapor ao Palácio do Planalto.
FHC defendeu no encontro a tese de que, sem uma agenda alternativa à do governo, as legendas de oposição a Lula se desvanecerão. Acha que, em vez de criticar as iniciativas de Lula –o PAC, por exemplo—, partidos como PSDB, DEM e PPS precisam erigir urgentemente uma pauta própria, com temas capazes de criar uma empatia com a sociedade. Mencionou violência, meio ambiente e geração de empregos.
A reunião ocorreu na quinta-feira (17) da semana passada. Deu-se num jantar, na casa do deputado José Aníbal (PSDB-SP). Participaram, além do anfitrião e de FHC, outros sete deputados egressos do grupo apelidado de “Terceira Via”: Paulo Renato (PSDB-SP), Gustavo Fruet (PSDB-PR), Bruno araújo (PSDB-PE), Arnaldo Jardim (PPS-SP), Raul Jungmann (PPS-PE), José Carlos Aleluia (DEM-BA), e Raul Henry (PMDB-PE), este último ligado ao grupo do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que dissente da linha de seu partido, consorciado ao governo.
Organizam-se dois novos encontros. O primeiro será na próxima segunda-feira (28), em Brasília. Acontecerá no início da noite, depois de um seminário tucano que terá em FHC uma de suas estrelas. Tomarão parte dessa segunda reunião as bancadas tucanas no Congresso –deputados e senadores— e convidados das cúpulas do DEM e do PPS. A segunda reunião será, de novo, em são Paulo, no dia 4 de junho, dessa vez com a presença do ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González e de um seleto grupo de congressistas brasileiros convidados.
No cenário que pinga dos lábios de FHC, a oposição encontra-se desarticulada, perdida. Algo que vem facilitando a movimentação de Lula. Na exposição que fez aos deputados com os quais se reuniu há sete dias, o ex-presidente disse que a realidade conspira a favor de seu sucessor. Avalia que a ausência de sobressaltos na economia mundial, vai permitir a Lula entregar taxas de crescimento superiores a 4% do PIB nos próximos anos, mesmo sem fazer reformas como a tributária e a previdenciária.
Acha, de resto, que ao vincular-se à agenda do Planalto, seja para elogiá-la ou para criticá-la, a oposição termina realçando os planos de Lula e evidenciando a sua própria ausência de alternativas. Daí, segundo ele, a premência da elaboração de uma “agenda alternativa”. Uma agenda que não pode se limitar à crítica contra a corrupção ou à condenação das medidas provisórias. Já restou demonstrado, segundo FHC, que a sociedade nem associa a Lula os desvios de conduta do governo nem se anima com temas herméticos como o abuso na emissão de MPs.
Para FHC, é no Congresso que a oposição a Lula deve se manifestar com maior intensidade. Eximiu-se de comentar o discurso claudicante de grão-tucanos como os governadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP). Preferiu referir-se a eles como alternativas reais de poder. Um poder que, acredita, só irá se materializar se o PSDB conseguir chegar às eleições municipais de 2008 com uma cara oposicionista.
A tertúlia da casa de José Aníbal ocorreu na mesma quinta-feira em que a Polícia Federal de Lula recolheu aos seus cárceres, em nove unidades da federação, os primeiros 46 suspeitos da Operação Navalha. Embora o episódio não tenha sido objeto do debate, seus desdobramentos adicionam complexidade a um quadro que o próprio FHC reconhece como adverso.
Foram passados na lâmina manejada pela polícia e pelo Ministério Público políticos das principais legendas: PT, PMDB, DEM, PSDB, etc. Ou seja, igualados aos congêneres governistas em perversão, os partidos ditos oposicionistas não terão como atribuir ao petismo e aos aliados de Lula o monopólio da afronta à ética.
Só para relembrar: A revista Imprensa concede anualmente o prêmio "Troféu Dia da Imprensa". Na categoria blogs jornalíticos, são cinco os finalistas da edição de 2007: os blogs do Alon, do Noblat, do Fernando Rodrigues, do Josias e do Nassif. A votação se dá por meio do portal da revista. Escolha o seu favorito e vote (aqui).
O repórter seria desonesto se não recomendasse às almas puritanas que se esquivem de assistir ao vídeo acima e à charge abaixo. Contêm expressões que, embora de uso corrente, são classificadas na categoria das expressões de calão raso.
Se você é capaz de trocar a austeridade pessoal por meia dúzia de risadas, já deve ter visto o novo hit da Internet: a canção “Vai Tomar no C...”, entoada em ritmo gospel pela humorista Cristiane Nicolotti. Jogada na rede há pouco mais de duas semanas, já coleciona mais de 700 mil acessos. Segue as pegadas do já badalado “Tapa na Pantera”, protagonizado pela atriz Maria Alice, travestida de vovó maconheira.
Cris Nicolotti tem um palpite para explicar o sucesso da música-desabafo: “A repercussão mostra que tá todo mundo de saco cheio”. Se é assim, aproveitando os golpes de navalha que expõem as entranhas dos negócio$ financiados com o dinheiro de todos nós, Maurício Ricardo, do Charges.Com, resolveu radicalizar.
Ele preparou uma paródia que leva o ânimo do “saco cheio” às últimas conseqüências. O repórter veicula as duas peças inspirado em Molière (1622-1673) que, em “O Matrimônio Forçado”, acomodou na boca do personagem Pancrácio o seguinte raciocínio: “A palavra foi dada ao homem para explicar seus pensamentos, e assim como os pensamentos são os retratos das coisas, da mesma forma nossas palavras são retratos de nossos pensamentos.”
Num ambiente em que a ilógica prevalece sobre a lógica, palavrinhas talvez não sirvam para compor adequadamente os retratos que se formam no pensamento da sociedade nesse instante em que se descobre que há tantos espertalhões pisando nos seus calos. O mais conveniente talvez seja mesmo lançar mão dos palavrões.
Diferentemente de Lula, que diz não ter pressa para definir o nome do novo ministro de Minas e Energia, o PMDB corre contra o relógio. Nesta quarta-feira, enquanto velava o cadáver político de Silas Rondeau, sacrificado na véspera, o partido cuidou de encaminhar a Lula o nome do seu escolhido para a cadeira do falecido.
Chama-se Márcio Zimmermann. Trata-se de um técnico. Já trabalha no ministério. É secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético. Curiosamente, embora adotado pelo PMDB, Zimmermann é unha e carne com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Foi ela quem o nomeou.
Mais curioso ainda: o PMDB de José Sarney (AP) e de Renan Calheiros (AL) fixou-se no nome de Zimmermann depois de aconselhar-se, veja você, com o próprio Silas Rondeau, o ministro que caiu sob a acusação de recebimento de propina de R$ 100 mil.
Lula ainda não disse se vai aceitar ou não a indicação. O PMDB espera que haja uma definição antes do final de semana. Se o presidente topar a indicação, será preservada uma atmosfera que já vigorava sob Rondeau. Ou seja, na prática, Dilma continuará metendo o bedelho na pasta de Minas e Energia, da qual jamais desencarnou desde que foi transferida para a Casa Civil.
Se o PMDB admite funcionar como barriga política de aluguel para a gestação do ministro Zimmermann, por que não manter o ministro interino Nelson José Hubner Moreira? Simples. Porque Hubner Moreira, também técnico, igualmente ligado a Dilma, traz dentro de si uma alma petista. E o desprendimento do PMDB ainda não se sobrepôs ao pragmatismo do partido.
Antes de se definir por Zimmermass, o PMDB lançara sobre a mesa outros dois nomes: José Antonio Muniz Lopes, ex-presidente da Eletronorte, e Astrogildo Quental, diretor financeiro da mesma estatal. Ambos são ligados ao senador José Sarney (PMDB-AP). Ao longo do dia, foram, porém, retirados de cena.
Folha O senador Delcídio Amaral (PT-MS) quitou nesta quarta-feira (23) a dívida de R$ 24 mil decorrente do aluguel de um bimotor que usou para voar de Brasília para Barretos (SP) no dia 4 de maio. Valendo-se de um cheque pré-datado do Banco do Brasil, bom para o dia 5 de junho, Delcídio obteve da empresa Ícaro, dona da aeronave, um recibo de quitação do débito.
O pagamento foi feito cinco dias depois de o senador ter sido exposto no noticiário como suposto beneficiário de um favor do empresário Zuleido Veras, dono da encrencada Gautama. A Polícia Federal apreendera no escritório da construtora, em Salvador, documentos que estimularam a suspeita de que o vôo do senador fora bancado por Zuleido.
No calor da revelação, Delcídio explicou que precisara viajar a Barretos para presenciar o enterro de seu sogro. Sem dinheiro, recorrera a um amigo, o empresário Luiz Gonzaga Salomon. Segundo o senador, sem consultá-lo, Salomon recorrera a Zuleido. Mas, embora houvesse se comprometido a bancar a dívida de R$ 24 mil, o dono da Gautama não sem pagou.
Na segunda, Delcídio subiu à tribuna do Senado. Renovou as explicações que dera no final de semana. Disse que comprometra-se a quitar a dívida em 60 dias. Apresentou documentos. Entre eles a relação das emendas ao Orçamento que patrocinou. Nenhuma delas, disse, destinou verbas para obras tocadas pela Gautama.
Depois de uma reunião com os líderes de 19 partidos, o presidente da Câmara, Arlindo Chinagalia (PT-SP), anunciou a deflagração de um movimento de combate à corrupção. Para começar, os deputados irão selecionar um lote de projetos moralizadores, que serãolevados a voto.
Marcou-se um segundo encontro, quando serão agrupadas as propostas. Será na terça-feira (29) da semana que vem, na casa funcional do presidente da Câmara. “Ninguém mais suporta esse processo de corrupção”, disse Chinaglia. “A Câmara, sozinha, não tem força. Estamos inaugurando um grande esforço”.
A idéia dos líderes partidários é a de atrair a sociedade para o movimento moralizador. É boa a iniciativa. As informações que saltam do inquérito da Operação Navalha cobram uma reação dos congressistas, nem que seja por meio de uma pantomima ou de uma expressão de nojo.
O blog associa-se à campanha inaugurada pela Câmara. E, com o intuito de colaborar, o repórter convida os seus 22 leitores a participar de um plebiscito virtual. Vão abaixo as primeiras grandes questões:
1. A idéia de iniciar a cruzada da Câmara pela reabertura dos processos de cassação de deputados mensaleiros e sanguessugas reeleitos lhe parece: A) Apropriada; B) Muito apropriada; C)Indispensável.
2. O que você acha de criar um adicional de insalubridade para os deputados por terem de conviver com o Maluf, o Jader o Valdemar e etc.? A) nem pensar; B) de jeito nenhum; C) eles se merecem.
3. Em vez de liberar formalmente os deputados do trabalho às sextas e segundas-feiras, a Mesa da Câmara deveria: A) instituir sessões legislativas nos finais de semana; B) instalar um relógio de ponto no plenário; C) impublicável.
4. A ajuda de custo de R$ 15 mil que os deputados utilizam mediante a apresentação de notas fiscais e recibos, muitas vezes frios, deve: A) acabar; B) ser substituída por um vale-transporte; C) #@*?!#.
5. As emendas que permitem aos congressistas destinar dinheiro público do Orçamento a arapucas como a Gautama devem: A) ser extintas imediatamente; B) ser eliminadas ontem; C) nem deveriam ter sido criadas;
6. Que tal a aprovação de um projeto que obrigue o governo a instalar detectores de caráter na portaria dos ministérios? A) ótima idéia; B) sensacional; C) indispensável;
7. Os telefones celulares, dos gabinetes e das residências dos congressistas, empreiteiros, ministros, governadores e secretários de Estado deveriam: A) ser gravados pela polícia em tempo integral; B) ser conectados a um grampo eterno; C) todas as alternativas anteriores.
·Pedido já foi assinado por 110 deputados e 12 senadores
·Agripino Maia dá meia-volta e diz que também assinará
Sérgio Lima/Folha O presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), anunciou há pouco, no plenário do Senado, que decidiu subscrever o pedido de instalação de uma CPI mista para apurar as malfeitorias da máfia das obras públicas. Disse o seguinte: “Descerei da isenção que devo ter, para assinar, em primeiro lugar, essa comissão parlamentar de inquérito.”
A assinatura de Renan, se confirmada, não será a primeira –12 senadores já endossaram o pedido de CPI. Mas terá um peso que pode ser decisivo. Cabe a Renan, como presidente do Congresso, acolher o requerimento de CPI e determinar a sua instalação.
Além dos 12 senadores, o requerimento de CPI foi rubricado por 110 deputados. Ou seja, para que a investigação seja aberta, faltam as assinaturas de 61 deputados e de 15 senadores. O que parecia intangível, vai ganhando ares de algo com probabilidade de acontecer.
A manifestação de Renan Calheiros foi feita nas pegadas de um discurso proferido pelo senador Agripino Maia (RN), líder do oposicionista DEM. Na segunda-feira, Agripino declarara-se contra a CPI da Navalha. Uma posição contraditória para alguém que, sob Lula, associou-se a todas as comissões de inquérito –da dos Correios à do Aerocaos, passando pela do Fim do Mundo (Bingos).
Agripino justificou a meia-volta com o seguinte argumento: achava que a CPI não se justificava porque a crise era mais do Executivo do que do Legislativo. Pelas suas contas, 70% das verbas manuseadas pela Gautama, pivô do escândalo, foram injetadas no Orçamento pelo governo, não por meio de emendas de parlamentares. De resto, considerava que a PF -aquela que tachara de inconfiável na apuração do dossiêgate- é agora "merecedora de crédito". No entanto, Agripino discordou de decisão tomada na véspera pela direção da Câmara. Daí a mudança de posição.
“No dia de ontem, o presidente Arlindo Chinaglia recebeu requerimento do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), pedindo informações ao Ministério Público sobre comprometimento de cerca de 20 parlamentares no revoltante Caso Navalha. Os líderes da Câmara abalizaram o pedido, que foi feito. O que vai acontecer agora? Em vez da CPI, que é uma investigação aberta e transparente, sem limites, sob o foco da imprensa, vai-se fazer uma apuração em fórum fechado. Não posso concordar com isso (...)”.
“Essa crise não pode ser colocada em circuito fechado lá na Câmara”, arrematou Agripino. “Assim, minha assinatura no requerimento de CPI está garantidíssima. E aos meus companheiros de partido que me consultarem se devem ou não assinar, minha recomendação será para assinar”. Melhor assim. Entre os muitos desafios que terá, uma eventual CPI será abrigada a aprofundar o corte que a navalha que a PF abriu na fachada da gestão do ex-governador de Sergipe, João Alves, do mesmo partido de Agripino.
Renan, que já confidenciara a Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA) a intenção de endossar o pedido de CPI, sentiu-se animado a tornar pública a intenção. Age movido pelo instinto de auto-defesa. Amigo de três décadas de Zuleido Veras, o dono da famigerada Gautama, o presidente do Senado quer dar forma prática a uma declaração que fizera na semana passada: “Não sou amigo do erro”. Assim seja. Convém que os idealizadores da CPI corram ao gabinete de Renan, para evitar que, à noite, o travesseiro de Renan refaça as conexões das sinapses do presidente do Congresso.
Angeli Há um grupo no governo empenhado em evitar uma crise entre Lula e o senador José Sarney. Mercê da ação desse pessoal, o presidente já mandou dizer ao PT que o novo ministro de Minas e Energia será indicado, de novo, por Sarney e seu grupo –os mesmos que haviam patrocinado a nomeação de Silas “encrenca” Rondeau.
O signatário do blog acha que, em contraponto às vozes pró-PMDB, um outro grupo de auxiliares de Lula deveria sussurrar-lhe nos ouvidos um rol de intrigas contra Sarney. Convém emprenhar também os ouvidos de Sarney contra Lula. O distanciamento pode ser útil para os dois. E também para o país.
A intriga, como se sabe, é a especialidade de Brasília. Mas, embora sabendo desnecessário, o repórter oferece sugestões. Pode-se, por exemplo, dizer ao Sarney que Lula resolveu ler um livro. Escolheu Marimbondos de Fogo. Abandonou na décima página. Considerou a linguagem “muito infantil”.
Pode-se confidenciar a Lula que Sarney anda dizendo que ele trocou o macacão pelo terno Armani, mas ainda não aprendeu a manejar os talheres nas cerimônias do Itamaraty. Depois, seria conveniente informara Sarney que foi Lula quem mandou vazar para a imprensa as imagens da funcionária de Zuleido entrando no ministério de Minas e Energia. Em seguida...
Bem, enquanto Brasília espera pela campanha de intrigas, Sarney já repassou a Lula duas alternativas à vaga aberta com a saída de Rondeau: José Antonio Muniz Lopes, ex-presidente da Eletronorte, e Astrogildo Quental, diretor financeiro da mesma estatal. O segundo é o mais cotado. Sem desconsiderar as eventuais qualidades dos indicados, Lula deveria esquivar-se de nomeá-los.
Quem sobe ao ministério por indicação partidária deve mais lealdade ao padrinho do que ao presidente que nomeia. De resto, um senador como Sarney, que, na presidência da República, foi manietado pelo PMDB de Ulysses Guimarães, deveria eximir-se de patrocinar candidatos a ministros. Faria melhor papel se atuasse como uma espécie de sábio da aldeia, a quem os índios, sem a mesma experiência, pudessem recorrer de tempos em tempos.
Alan Marques/Folha Nos tempos de primeira-dama do Maranhão, ela era chamada de “Alexandra, a Grande”. Agigantaram-na as festas que organizou e a influência que teve no rompimento do marido, José Reinaldo Tavares (PSB), com a família Sarney. O matrimônio de Alexandra e José acabou. Só restou o patrimônio. Parte dele foi posta à venda em Brasília. Veja abaixo o que diz a coluna de Mônica Bergamo, na Folha (assinantes):
Alexandra Tavares, 34, ex-mulher do ex-governador do Maranhão, José Reinaldo Tavares, preso (e já libertado) na Operação Navalha, colocou à venda em Brasília uma cobertura dúplex de R$ 3 milhões. O imóvel é classificado como "mansão suspensa" nos anúncios da capital federal. Alexandra comprou o apartamento quando ainda era casada com Reinaldo, que é investigado pela Polícia Federal por suspeita de ter recebido um carro de "presente" da empreiteira Gautama. Pivô do rompimento de Reinaldo com a família Sarney, ela é hoje "secretária extraordinária de articulação do Maranhão com órgãos nacionais e internacionais". Alexandra falou à coluna:
- A senhora está vendendo um apartamento de R$ 3 milhões em Brasília? Eu não tenho nada para falar a respeito. Veja, eu comprei o apartamento na fundação ainda. Eu não comprei... Eu comprei quando ainda estava na planta, o imóvel não existia. Ele estava começando a ser construído. Foi no início de 2004, final de 2003. Eu comprei por R$ 1,1 milhão. E ainda tem um débito para ser pago. Está tudo declarado no imposto de renda.
- A senhora comprou com que recursos? É engraçado! Eles [oposição a José Reinaldo] querem que Zé Reinaldo devolva R$ 600 mil de pensão que dizem que recebeu indevidamente quando estava no governo. Então uma hora eles dizem que ele recebeu todo esse dinheiro, e agora dizem que não tem recurso para comprar o apartamento? Será que ninguém vê que no governo você não paga água, luz, telefone, empregado, comida, nada? O apartamento estava sendo lançado. Eu falei para ele: Zé Reinaldo, vamos comprar agora que a gente não tem gasto. Eu era secretária de Estado, conselheira, eu tinha bom salário. Eles falam como se fôssemos dois pé-rapados. É de indignar, é uma loucura.
- A senhora o visitou na prisão? É claro. Ele é o pai de minhas três filhas, não vou abandoná-lo. Vocês não percebem que tudo isso é uma farsa? O que eu lamento é que a imprensa dá para eles [família Sarney] o palco que eles querem. Por que você não faz um levantamento de tudo o que eles têm? Pergunte a eles como conseguiram".
A revista Imprensa concede anualmente o prêmio "Troféu Dia da Imprensa". Na categoria blogs jornalíticos, são cinco os finalistas da edição de 2007: os blogs do Alon, do Noblat, do Fernando Rodrigues, do Josias e do Nassif. A votação se dá por meio do sítio da revista. Escolha o seu favorito e vote (aqui).
·PMDB e PT já se engalfinham pela pasta de Minas e Energia
O cadáver político de Silas Rondeau ainda nem esfriou e as duas maiores legendas do consórcio governista –PMDB e PT—já se engalfinham pelo controle do ministério das Minas e Energia. Alheio ao burburinho que se ouve à sua volta, Lula não tem pressa. Foi o que disse a dois ministros com os quais conversou sobre o tema.
Um dos ministros perguntou ao presidente quem seria o substituto de Rondeau. Lula respondeu que a pasta seria comandada interinamente pelo secretário-executivo Nelson José Hubner Moreira. O ministro perguntou: “Até quando?”. E Lula: “Até quando eu quiser”.
O outro ministro manifestou ao presidente o receio de que a demora possa jogar lenha na fogueira em que ardem as pretensões do PMDB e do PT. E Lula: “Podem brigar o quanto quiserem. Quem nomeia ministros sou eu. E não farei nada às pressas”. Para Lula, a pasta das Minas e Energia “está funcionando bem”. Não haveria, segundo o seu raciocínio, razões para tomar uma decisão que, no calor da azáfama, resulte em arrependimentos posteriores.
Lula avalia que, na prática, a pasta de Minas e Energia está sendo gerida pelo time que convocado por Dilma Rousseff antes da transferência dela para a Casa Civil. Um time comandado por três “craques”: o próprio Hubner Moreira, agora ministro interino; Márcio Zimmermann, secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético; e Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética. Ou seja, na prática, Dilma, a menina superpoderosa do PAC, é quem dá as cartas no ministério.
Em almoço que antecedeu às duas reuniões em que Lula acertou com Rondeau a saída dele do governo, os senadores José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), reivindicaram do presidente a precedência na indicação do substituto do ministro demissionário, a quem haviam apadrinhado. Os dois generais da tropa do PMDB do Senado acham que arrancaram do presidente um compromisso. Mas deixaram o Planalto com um pé atrás.
A julgar pelo que disse Lula depois, em privado, não foi sem motivo que a pulga aboletou-se no dorso da orelha dos caciques do PMDB. O presidente disse a um auxiliar que, em princípio, o sucessor de Rondeau deve ser um peemedebista. Mas segredou que não se comprometera, em termos taxativos, com Renan e Sarney.
Julgando-se preterido na composição ministerial do segundo reinado, o PT enxergou na saída de Rondeou a oportunidade de acomodar um petista nas Minas e Energia. Tratou de pôr na rua uma trinca de alternativas: Jorge Samek, presidente de Itaipu; Maria das Graças Foster, diretora da Petrobras; e Valter Cardeal, presidente interino da Eletrobrás.
A guerra não-declarada pela vaga de Rondeau inspira-se no peso da cadeira. O ministério de Minas e Energia foi premiado com a gestão de 55% das verbas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Coisa de R$ 250 bilhões até 2010. Controla, de resto, um cobiçado segundo escalão. Além da Petrobras, inclui todas as estatais do setor elétrico.
Sentindo o cheiro de queimado, o PMDB da Câmara, liderado por Michel Temer (SP), presidente do partido, aliou-se à causa de Renan e Sarney. Há 15 dias, Temer arrancara de Sarney a promessa de empregar na presidência de Furnas, uma das estatais que pendem do organograma das Minas e Energia, o ex-prefeito do Rio Luiz Paulo Conde. Avalia-se que um petista nas Minas e Energia poderia sentir-se tentado a retirar da empada do PMDB uma azeitona que o partido já está saboreando.
A ausência de pressa de Lula submete o distinto público a um novo e inesperado capítulo de uma novela que já se imagina encerrada. A novela da reforma ministerial.
A despeito de ter aceitado o pedido de demissão de Silas Rondeau, Lula não está convencido de que o ministro tenha recebido propina, como acusa a Polícia Federal. Nem o próprio ministro da Justiça, Tarso Genro, superior hierárquico da PF, parece convicto da culpa de Rondeau.
O dia no Palácio do Planalto começou com uma reunião dos ministros mais chegados a Lula. Foi um encontro monotemático. Discutiu-se apenas a encrenca em que se metera Silas Rondeau. A pedido de Lula, Tarso fez um resumo das investigações da PF.
Ao final, perguntou-se ao titular da Justiça qual era, afinal, a prova de que Rondeau recebera propina de R$ 100 mil da Gautama, empresa de Zuleido Veras. E Tarso foi categórico ao afirmar que prova material não existe. O que há, disse ele, são “indícios”.
Tarso afirmou que, juntando os indícios, a PF convencera-se da culpa de Rondeau. A polícia desejava inclusive pedir à Justiça a prisão do ex-ministro. Algo que não foi feito, segundo o relato de Tarso, porque o procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza considerou que não havia elementos para tanto.
Ao final da reunião, embora não estivesse convencido da culpa de Rondeau, Lula disse aos auxiliares que não acreditava na permanência dele no governo. Contou que, na noite da véspera, a bordo do Aerolula, tentara reanimar o ainda ministro das Minas e Energia. Não conseguiu:
“Ele estava com o olhar perdido no infinito”, contou o presidente, referindo-se à cena que observara na viagem de volta de Assunção para Brasília. Rondeau integrara a comitiva presidencial no Paraguai. O abatimento do ministro deixou Lula imperssionado. Convenceu-se de que o auxiliar não reunia mais condições psicológicas de permanecer no governo.
No início da tarde, Lula almoçou, no Planalto, com o minsitro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais) e com os senadores José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), avalistas da presença de Silas Rondeau na Esplanada. Ali, o ministro suspeito já era tratado como coisa do passado.
Os interlocutores de Lula tinham os olhos voltados para o futuro. Renan e Sarney manifestaram o desejo de indicar o sucessor de Rondeau. O presidente pareceu aquiescer, embora não tenha assumido compromissos, segundo relataria mais tarde a um auxiliar.
Depois, Lula recebeu o próprio Silas Rondeau. “Não quero mais ficar”, disse o ministro demissionário, num instante em que sua cabeça já não estava acima do pescoço, mas na bandeja. Depois de um primeiro momento, em que conversou com o ministro demissionário a sós, Lula chamou à sala os ministros Tarso Genro (Justiça), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Walfrido dos Mares Guia.
Reforçando a impressão que Lula retivera na véspera, Rondeau disse que não se julgava em condições de enfrentar o tiroteio que se armara contra ele. Chegou a mencionar dois ex-ministros de Lula que renunciaram em meio a denúncias de corrupção: os petistas José Dirceu e Antonio Palocci. Disse que, se os dois, que eram políticos experientes, nao resistiram, não seria ele, um simples técnico, que iria aguentar.
Sacramentada a decisão, Rondeau pediu a Lula um prazo para retornar ao ministério. Queria ter uma derradeira reunião com sua equipe. Desejava, de resto, retocar uma carta de demissão que esboçara na véspera e redigir uma nota de esclarecimento público, que substituiria a entrevista coletiva que não desejava dar. Lula assentiu. E Rondeau retornou à noite, por volta das 20h, com a carta em mãos.
Depois de entregar a carta de demissão a Lula, Silas Rondeau conversou com um auxiliar do presidente. Disse que não tinha a menor condição emocional de permanecer no ministério das Minas e Energia. Desabafou: “Minha mãe, que tem mais de 80 anos, ligou pra mim chorando no telefone”.
Acusado pela Polícia Federal de ter recebido da Gautama uma propina de R$ 100 mil, o ministro diz que não tem culpa no cartório. Mas alega que, se permanecesse no cargo, não teria munição para estabelecer um contra-ataque ao noticiário que dà realce à artilharia da Polícia Federal, que chama de "mentirosa".
“Eu não vou ficar aqui sendo alvo”, disse Rondeau. “Não adianta eu me explicar. Não tenho como provar a minha inocência. Saindo do governo, eles [a PF e o Ministério Público] é que vão ter que provar que eu sou culpado”, acredita.
De resto, o ministro afirmou que sua permanência no governo levaria à paralisia da pasta de Minas e Energia. E geraria constrangimentos imerecidos para o governo e para o presidente da República.
O destino de Rondeau começou a ser delineado na véspera, quando, ainda ministro, ele acompanhava Lula em viagem ao Paraguai. Recebeu um telefonema do senador José Sarney (PMDB-AP). Seu padrinho político aconselhou-o a afastar-se do governo. Sentiu o tapete político fugir-lhe dos pés.
De volta a Brasília, no final da noite de segunda-feira (21), Rondeau foi à casa de Sarney. Ali, encontrou, além do anfitrião, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o líder do governo Romero Jucá (PMDB-RR). Diferentemente de Sarney, Calheiros e Jucá eram contrários à saíde de Rondeou. Mas se deram por vencidos depois de notar que Sarney, o principal interessado, já não se dispunha a quebrar lanças pelo seu pupilo.
Diante de um Rondeau abatido, Sarney renovou a sugestão para que o afilhado jogasse a toalha. Àquela altura, o ministro já nem carecia de convencimentos. Era a personificação da derrota. Tornara-se a primeira vítima ética do segundo reinado, ganhando vaga numa galeria em que jazem José "mensalão" Dirceu e Antonio "caseiro e Ribeirão" Palocci, os dois escalpos mais vistosos do primeiro reinado.
Antes da reunião na casa de Sarney, Rondeau conversara, pelo telefone, com outro ministro. "Se prepara. Você vai viver um inferno", disse-lhe o colega. "Nao vou viver um inferno. Já estou vivendo", respondeu Rondeau. "Não tenho condicões de ficar".
Como previsto, o ministro Silas Rondeau (Minas e Energia) pediu demissão. Lula aceitou. Começa agora a briga para definir o nome do sucessor. Sob a liderança de José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), padrinhos políticos de Rondeau, o PMDB do Senado reivindica o direito de manter o cargo sob sua esfera de influência. Leia aqui a íntegra da nota divulgada pelo ministro demissionário.
Em grampo, Zuleido Veras festejou a posse do ministro
'Não há chance de conversa minha com esse vagabundo'
Wilson Dias/ABr O ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) encaminhou nesta terça-feira à CGU (Controladoria Geral da União) um ofício pedindo orientação sobre como deve proceder para evitar a participação da Construtora Gautama na superlicitação da obra de Transposição do Rio São Francisco. Um negócio de R$ 3,3 bilhões.
Antes de enviar a consulta ao ministro Jorge Hage, que dirige a CGU, Geddel consultou a sua assessoria. Queria saber se podia desclassificar liminarmente a Gautama. A resposta foi negativa. Verificou-se que a empresa, embora enrolada na Operação Navalha e mencionada num sem-número de auditorias do TCU, ainda não sofreu nenhuma condenação definitiva, sem possibilidade de recurso. Daí a consulta à CGU.
A movimentação de Geddel ocorre num instante em que se descobre que, em diálogos telefônicos captados pelos grampos da Operação Navalha, Zuleido Veras, o dono da Gautama, gaba-se de uma hipotética intimidade que o ligaria ao ministro do PMDB baiano. Algo que Geddel refuta com veemência.
Segundo apurou o blog, a PF reproduz no inquérito da Operação Navalha conversas em que Zuleido, um paraibano radicado na Bahia, diz a interlocutores que compareceu à posse de Geddel na pasta da Integração Nacional, ocorrida no último mês de março. Num dos telefonemas escutados pela PF, Zuleido conversa com Flávio Conceição de Oliveira Neto, conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe. Preso pela PF, ele já foi liberado pela Justiça.
Flávio Conceição alcançou Zuleido pelo telefone celular. Em dado momento da conversa, o conselheiro pergunta ao dono da Gautama se ele se encontra em Brasília. Zuleido confirma. E informa que foi à posse de Geddel. O interlocutor faz um comentário acerca da ascensão do novo ministro: “Muito bom, né?”. E Zuleido: Ave Maria, melhora tudo!”
Noutro diálogo, dessa vez com João Alves Neto, filho do ex-governador de Sergipe, João Alves (DEM), Zuleido refere-se, de novo, à posse de Geddel. Explica assim o fato de ter ido à cerimônia de posse do ministro: “Não é todo dia que você tem um ministro baiano e amigo”.
Ouvido pelo blog, Geddel disse: “Isso é conversa de gangster. Eu nem converso com esse sujeito. Se ele veio ou não na minha posse, não sei. Só sei que, na minha fila de cumprimentos, ele não entrou. Gente dessa espécie tem que estar no lugar em que ele se encontra, a cadeia. Não há chance de acontecer uma conversa minha com um vagabundo, com um cachorro desses”.
Geddel diz ter desenvolvido uma antipatia em relação a Zuleido desde a década de 80, quando o investigado era executivo da Construtora OAS. “Eu apanhei muito do Antonio Carlos Magalhães”, diz o ministro. “E adquiri uma ojeriza patológica de me relacionar com qualquer pessoa que tivesse relação com essa gente. E esse cara era da OAS”.
Geddel lembra, de resto, que o edital de licitação da Transposição do São Francisco foi divulgado quatro dias antes de sua posse no ministério. A Gautama integra um consórcio com outras quatro empresas. É uma das 76 empresas que participam da licitação. Já apresentou sua proposta. Encontra-se agora sob análise de uma comissão de licitação. O ministro espera pela manifestação da CGU para saber se poderá ou não excluir a empresa de Zuleido do procedimento licitatório.
As grandes encrencas, como se sabe, começam pequenininhas. Há, no momento, um forte cheiro de La Paz em Assunção. Por ora, sente-se apenas o odor. Logo, logo, porém, Lula talvez seja apresentado a um novo Evo Morales. Um Evo paraguaio.
O presidente Nicanor Duarte, do Paraguai, encontra-se sitiado por uma atmosfera política beligerante em relação ao Brasil. É o mesmo tipo de envoltório gasoso que precedeu a nacionalização das reservas petrolíferas da Bolívia, que culminou na venda das refinarias da Petrobras.
No Paraguai, está em jogo a parceria do Brasil na exploração da hidrelétrica de Itaipu. Questionam-se as condições de um tratado firmado em 1973, sob o regime militar. Nesta terça-feira (22), o jornal ABC Color dedicou o seu terceiro editorial à encrenca.
No texto, o diário anota que o Paraguai pode mesmo seguir as pegadas da Bolívia. Ou até trilhar o rastro dos panamenhos, que retomaram dos EUA, na marra, o Canal do Panamá.
Entre domingo e segunda, em visita a Assunção, Lula descartou a hipótese de rever o acordo. Referindo-se à recusa, o ABC Color anotou: "Itaipu é para nós o problema do Canal do Panamá e dos hidrocarbonetos bolivianos. Em 1973, o leão brasileiro realizou a negociata de Itaipu com seu capanga, o ditador Alfredo Stroessner, ao assinar um tratado por si só infame já naquela época, em relação à maneira como concordaram na distribuição dos benefícios (95% para o Brasil, 5% para o Paraguai)".
O ministro Silas Rondeau (Minas e Energia) já e encontra na ante-sala do gabinete de Lula, no Palácio do Planalto. O presidente o receberá para conversar sobre o golpe de navalha que a Polícia Federal desferiu na reputação do ministro, acusado de receber propina de R$ 100 mil da Construtora Gautama. Prevalece a expectativa de que Rodeau deixe o cargo.
Antes da reunião com Rondeau, Lula conversou com os senadores José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL). Principal padrinho político do ministro, Sarney teve mais de uma conversa com Rondeau. Aconselhou-o a pedir o afastamento.
Na manhã desta terça-feira, Lula reuniu os ministros que integram a coordenação de governo. Nesse encontro, o ministro Tarso Genro (Justiça) fez um relato acerca dos desdobramentos da Operação Navalha, que enredou o ministro Rondeau. Divulgou-se aos jornalistas o obvio: Lula determinou rigor nas investigações. Significa dizer que a PF não encontrará nenhum empecilho para afundar a navalha que encostou na jugular do apadrinhado de Sarney. Melhor assim.
PS.: Lula interrompeu há pouco a audiência com Silas Rondeau, da qual participam também os ministros Tarso Genro (Justiça) e Dilma Rousseff (Casa Civil). Oficialmente, diz que a interrupção se deu por conta do atraso na agenda do presidente. Rondeau permanece no Planalto. Depois do chá de cadeira, o encontro será retomado.
José Cruz/ABr A atmosfera de concórdia que permeou, na semana passada, a instalação da CPI área do Senado será submetida a teste nesta terça-feira (22). Em sua segunda sessão, a comissão será apresentada ao roteiro de trabalho elaborado pelo relator Demóstenes Torres (DEM-GO). Sugere um itinerário ambicioso.
Demóstenes elaborou o plano de vôo da investigação em segredo. Esquivou-se de jornalistas. Limitou-se a trocar idéias com sua equipe e com alguns poucos colegas de Senado. O blog apurou que o roteiro de Demóstenes propõe a investigação concomitante do acidente com o Boeing da Gol, que ceifou 154 vidas; do caos que se estabeleceu nos aeroportos; e da corrupção incrustada na Infraero.
Tudo somado, o relator irá sugerir a audição de mais de 30 pessoas. A lista inclui do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ao deputado Carlos Wilson (PT-PE), o ex-presidente da Infraero sob cujos ombros pesam denúncias de corrupção. A relação inclui também os dirigentes da Infraero já afastados em meio a acusações que envolvem a prática de um variado cardápio de malfeitorias.
Prevê, de resto, a convocação de personagens que o governo preferiria manter distantes do banco de depoentes de uma CPI. Dois exemplos: a empresária paranaense Silvia Pfeifer, que denunciou irregularidades em contratos de publicidade nos aeroportos; e o engenheiro José Berardo Loyo, ex-assessor de Carlos Wilson, apontado como elaborador de editais de obras nos aeroportos e elo da ex-direção da Infraero com grandes empreiteiras.
O roteiro elaborado pelo senador Demóstenes Torres, um promotor público licenciado, está escorado em parâmetros técnicos. Além dos depoimentos, que terão de ser aprovados um a um pelos integrantes da CPI, o relator deseja levar a voto a requisição de cópias de relatórios de auditoria e de inquéritos conduzidos pelo Tribunal de Contas da União, pela Controladoria Geral da União, pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. A idéia do senador é evitar que a CPI gaste energias apurando aquilo que já foi investigado. Quer produzir provas novas.
Nos últimos dias, acompanhado do presidente da CPI, Tião Viana (PT-AC), Demóstenes visitou os dirigentes dos órgãos que se ocupam da apuração de desvios na Infraero. Obteve de todos o compromisso de colaborar com as investigações do Senado. O TCU, a Polícia Federal e o Ministério Público concordaram em enviar representantes para acompanhar as atividades da CPI.
Numa aparente concessão à bancada governista, Demóstenes irá sugerir, segundo confidenciou aos seus assessores, que a CPI inicie os seus trabalhos ouvindo depoentes que têm ligação com o acidente da Gol e com o caos nos aeroportos. Quanto à Infraero, dirá que é preciso aguardar pela chegada dos documentos que, segundo espera, a CPI irá requisitar.
Porém, uma vez aprovada a tese da investigação “concomitante”, Demóstenes ficará liberado para injetar a encrenca da Infraero na pauta da CPI dentro de, no máximo, duas semanas. É o tempo necessário para que a papelada relativa à estatal dos aeroportos chegue ao Senado e seja deglutido pela assessoria da CPI. Trata-se de uma estratégia bem diferente daquela adotada pela CPI aérea da Câmara, que abriu mão de escarafunchar a Infraero.
Resta agora saber se a bancada governista com assento na comissão –sete dos 13 integrantes—vai aprovar o itinerário do relator na íntegra. Nesta terça-feira, o distinto público saberá se a alegada disposição do Planalto de contribuir para a elucidação dos fatos é mera retórica ou coisa para ser levada a sério.
PS.: O roteiro de trabalho proposto por Demóstenes Torres foi aprovado pela CPI, em votação simbólica. Alvíssaras.
A Operação Navalha gerou um “filhote”. A pedido do procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, a ministra Eliana Calmon, do STJ, concordou em desmembrar o inquérito da máfia das obras públicas. O caso ramificou-se em dois.
O primeiro, de contornos já conhecidos, envolve a Construtora Gautama. No segundo, ainda guardado sob estrito sigilo, apuram-se malfeitorias praticadas por pelo menos mais uma outra empreiteira de obras públicas. As suspeitas são as de sempre: fraudes em licitações, malversação de dinheiro público e pagamento de propinas a congressistas e funcionários do Estado. O que muda são os personagens.
O blog apurou que a divisão do inquérito foi solicitada pelo procurador-geral no início de maio. Depois de cruzar os dados recolhidos nas investigações que desaguaram nas prisões da Operação Navalha, realizadas na quinta-feira (17) da semana passada, o Ministério público concluiu que o inquérito original trouxera à tona indícios da existência de uma segunda quadrilha.
Embora empregue métodos análogos aos utilizados pelo grupo chefiado por Zuleido Veras, o dono da Gautama, esta segunda organização praticaria crimes de forma autônoma. Daí o pedido de desmembramento do inquérito. Não se descarta a hipótese de que o Ministério Público tenha de encaminhar à Justiça novos pedidos de prisão. Aguarda-se apenas pelo refinamento das apurações, ainda em curso.
De resto, o Ministério Público terá decidir, nos próximos dias, o que fazer com uma terceira ramificação da Operação Navalha. Envolve o ministro Silas Rondeau (Minas e Energia) e congressistas. São pessoas que, pelas funções que ocupam, só podem ser processadas no STF. Ainda que se confirme o desligamento de Rondeau do ministério, restarão os parlamentares. Dá-se como certa na Procuradoria da República a necessidade de submeter pelo menos uma parte do inquérito à apreciação do Supremo.
Resultou em fracasso a nova tentativa do governo de firmar um acordo salarial com o sindicalismo da Polícia Federal. Representantes dos servidores da PF voltaram a se reunir nesta segunda-feira (21) com o secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Sérgio Mendonça. Não houve, porém, acordo. E foi mantida a greve de três dias da PF. Começa nesta terça (21) e vai até quinta (24).
O movimento envolve todas as categorias funcionais da PF –de escrivães a delegados. Em comunicados veiculados em seus portais, a associação nacional dos delegados e a federação nacional dos agentes federais confirmam a greve. Mas não esclarecem se o cruzar de braços vai afetar a Operação Navalha, principal investigação tocada pela PF no momento.
Está em jogo um aumento de 30% nos salários dos servidores da PF. No encontro desta segunda, o governo “melhorou” a proposta que fizera há quinze dias. Manteve o desejo de incorporar o percentual aos contra-cheques em duas parcelas. Mas já admite pagar a primeira prestação em março de 2008 e a segunda em março de 2009 –antes, propusera junho de 2008 e junho de 2009.
Os sindicalistas da PF até admitem o parcelamento. Mas exigem que a primeira parte do reajuste seja paga imediatamente, retroagindo a janeiro de 2007. Marcou-se um novo encontro no Ministério do Planejamento para a próxima quinta-feira, último dia da paralisação de 72 horas que deve ser iniciada nesta terça.
Observado por Lula e pelo presidente do Paraguai, Rondeau assina ato em Assunção
Acusado pela Polícia Federal de receber propina de R$ 100 mil da Construtora Gautama, o ministro Silas Rondeau (Minas e Energia) foi aconselhado nesta segunda-feira (21) a afastar-se do cargo. O conselho partiu justamente de líderes do grupo que patrocinou a nomeação de Rondeau, o PMDB do Senado. Aos peemedebistas com os quais conversou, pelo telefone, o ministro deu indicações de que pode formalizar o pedido de desligamento do cargo.
Sugeriu-se a Rondeau que seu afastamento se dê em caráter temporário. Ficaria em suspenso a hipótese de retornar ao cargo caso fosse comprovada a sua inocência. Auxiliares de Lula receberam com alívio a disposição de Rondeau. Torcem para que a saída do ministro se materialize ainda nesta segunda-feira. Avaliam, porém, que o ideal seria um pedido de demissão convencional, sem previsão de volta.
Rondeau integra a comitiva de Lula, em viagem ao Paraguai (foto lá no alto). Na noite de domingo (20), o ministro dissera que se sentia à vontade para continuar no cargo. Tachou de “mentira” a acusação formulada contra ele pela Polícia Federal. Porém, viu-se compelido a considerar a hipótese de se afastar ao verificar que a tese ganhara corpo no grupo parlamentar que lhe dá suporte.
Simultaneamente à articulação iniciada para convencer o ministro a deixar o governo, decidiu-se que lideranças do PMDB farão a defesa pública de Rondeau. Caso se confirme, o pedido de afastamento será vendido ao público não como uma evidência de culpa do ministro, mas como um gesto de desprendimento, inspirado no desejo de evitar constrangimentos ao governo Lula.
O maranhense Silas Rondeau, formado em engenharia elétrica, foi guindado à Esplanada dos Ministérios por indicação do senador José Sarney (PMDB-AP). Passou a dirigir a pasta das Minas e Energia ainda no primeiro mandato de Lula, depois que a petista Dilma Rousseff foi transferida por Lula para a Casa Civil. Na reforma ministerial do segundo mandato, Rondeau foi mantido no cargo a pedido de Sarney. A indicação foi referendada pela bancada do PMDB no Senado.
Com o apoio de seu partido, o deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) decidiu propor a abertura de uma CPI para investigar a máfia das obras públicas. O requerimento já está sendo redigido. A coleta de assinaturas começa nesta terça-feira (22).
Carvalho deseja uma CPI mista, com representantes da Câmara e do Senado. Para que uma investigação do gênero possa ocorrer, o deputado terá de recolher as assinaturas de 171 deputados e 27 senadores.
No Senado, discursando da tribuna, o senador Delcídio Amaral (PT-SP) disse: “Sou vice-líder do governo, mas me comprometo a ser o primeiro nome a assinar um pedido de CPI para investigar esse caso Gautama, para, definitivamente, fazermos uma Operação Mãos Limpas no Brasil”. No mesmo discurso, Delcídio deu as suas explicações acerca da menção de seu nome num documento apreendido nos escritórios da Gautama, pivô do novo escândalo.
Um detalhe dificulta a tarefa do deputado Augusto Carvalho: investiga-se na Operação Navalha o relacionamento promíscuo que une a grande empreita de obras públicas à Comissão de Orçamento do Congresso. Deputados e senadores desonrados não costumam passar a navalha no próprio rosto. Preferem barbeador elétrico.
Folha Em audiência com Lula, na quarta-feira (16) da semana passada, o presidente do PMDB, Michel Temer, acertou a nomeação de oito apadrinhados do partido para o segundo escalão do governo. Entre eles o ex-prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde, indicado para a presidência da estatal Furnas. O que está em jogo? “Dinheiro”, diz o presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ).
Com a experiência de quem se descabelou por uma diretoria de Furnas no primeiro reinado, Jefferson anotou em seu blog: “A briga é por dinheiro, o mesmo motivo que deflagrou o inferno que vivi em 2005. Na época, brigava-se (olha ela aí de novo!) por uma diretoria de Furnas, a de Engenharia, comandada por Dimas Toledo. O caixa dois rendia R$ 3 milhões por mês, divididos ao meio entre o PT e o PMDB (se uma diretoria rende R$ 3 milhões, imagina a presidência da empresa?)”.
Jefferson tratou do tema numa nota veiculada na última sexta-feira (18). O dia seguinte à operação em que o Ministério Público e a Polícia Federal passaram a navalha na máfia das obras públicas, comandada por Zuleido Veras, o chefão da Gautama. “Os partidos indicam políticos para cargos em estatais para fazer caixa de campanha. O PMDB sabe a importância de Furnas, por isso está brigando por ela. Se uma empresinha como essa Gautama faz um estrago desse tamanho, imagina uma gigante como Furnas”.
O ex-deputado, um dos três que tiveram o mandato podado na esteira do mensalão, rememora, à sua maneira, a encrenca que viveu: “Como tudo começou? Lula não queria mais o Dimas, pediu-me que nomeasse alguém do PTB. Indiquei o nome de Francisco Spirandel, um técnico com vasta experiência. Mas Zé Dirceu queria que o Dimas continuasse. O presidente Lula cobrava, e a nomeação não saía (...).”
O que mudou de 2005 para cá: “A única mudança é no modus operandi”, escreveu Roberto Jefferson, pós-graduado na escola da fisiologia: “Antes, o caixa era feito por Delúbio Soares e Marcos Valério, que o distribuía aos partidos da base; os últimos o repassavam aos deputados, em prestações mensais, em troca de apoio. Não a um programa, a uma proposta política, era toma-lá-dá-cá mesmo. Hoje, não, o PT trata da vida dele e os outros partidos também, por meio dos cargos que recebem do governo. Cada partido, agora, cuida da sua própria vida.”
Cuida “da própria vida” à custa do dinheiro do contribuinte, naturalmente. “Nada mudou”, insistiu Roberto Jefferson, “a briga é por dinheiro”. Ele acrescentou: “Esse caixa [de Furnas] é tão poderoso que Michel Temer vai abafar o prestígio de Renan Calheiros no PMDB. O eixo de poder agora mudou - para a Câmara”.
Curiosamente, o tricô do segundo escalão vem sendo tecido com a agulha do ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), filiado ao mesmo PTB de Jefferson. Deve-se, portanto, prestar atenção à fatia que será reservada ao partido presidido pelo ex-deputado no bolo do segundo escalão. Afinal de contas, como diz o homem-bomba do mensalão, “nada mudou, a briga é por dinheiro”. Ou seja, a caneta de Lula está fabricando uma série de novos escândalos esperando para acontecer.
Desnecessário lembrar, de resto, que Furnas pende do organograma do ministério das Minas e Energia, pasta chefiada por Silas Rondeau, um apadrinhado de José Sarney que a Polícia Federal acusa de ter recebido uma “zuleiriana” de R$ 100 mil. Ecoe-se, uma derradeira vez, Roberto Jefferson: “A briga é por dinheiro”.
Em meio à investigação da máfia das obras públicas, a Polícia Federal mantém de pé a ameaça de cruzar os braços. A paralisação está marcada para esta terça-feira (22). Tem duração prevista de três dias. Em reunião marcada para as 15 h desta segunda (21), no Ministério do Planejamento, o governo faz uma última tentativa de evitar a greve.
Vai à mesa, de novo, a proposta de reajuste salarial de 30%. Trata-se da segunda parcela de um aumento de 60% prometido pelo ex-ministro Márcio Thomaz Bastos. O governo pagou a primeira parcela. A segunda, de 30%, deveria ter sido paga em dezembro de 2006. Mas foi rebarbada pela área econômica do governo.
O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) chegou a pôr em dúvida o compromisso que Thomaz Bastos assumira por escrito. Depois, o governo reconheceu o que, estando documentado, tornou-se inegável. Propôs pagar os 30% em três parcelas a perder de vista: a primeira em 2008, a segunda em 2009 e a terceira em 2010, último ano do segundo reinado. O sindicalismo da PF estrilou.
Há 15 dias, o Planejamento melhorou sua proposta. Reduziu as três parcelas para duas: 2008 e 2009. Os dirigentes sindicais da PF, de novo, rejeitaram a oferta. Informaram que aceitam o parcelamento, mas querem que a primeira parte seja paga imediatamente, retroativa a janeiro de 2007. A segunda ficaria para 2008. no encontro desta segunda, as partes tentarão desatar o nó.
Em nota veiculada no seu portal, a FENAPEF (Federação Nacional dos Policiais Federais) avisa que, a despeito da reunião, está mantida a paralisação de terça. A proposta que vier a ser apresentada pelo governo no encontro será submetida a assembléias estaduais da categoria. Diz o texto:
“Independentemente da reunião (...), os sindicatos devem manter o calendário de mobilização que prevê para terça-feira a paralisação da categoria. Pela manhã, os sindicatos em todo o Brasil devem convocar assembléias. Nos encontros, os policiais irão avaliar e deliberar sobre a proposta oferecida pelo governo federal para o pagamento da segunda parcela do reajuste salarial”.
A desavença salarial ocorre simultaneamente ao início dos depoimentos dos presos da Operação Navalha. A oitiva dos suspeitos começa na manhã desta segunda e deve arrastar-se por toda a semana. No seu comunicado, a FENAPEF não informa se o movimento previsto para terça resultará na interrupção das investigações da máfia das obras públicas.
Em viagem a Assunção, no Paraguai, Lula trocou um telefonema, na noite deste domingo, com um assessor que ligou de Brasília. Falaram sobre o noticiário envolvendo o nome do ministro Silas Rondeau (Minas e Energia). O auxiliar do presidente disse que, na sua opinião, a situação do ministro tornara-se “muito complicada”. Depois de inteirar-se de tudo o que fora divulgado, Lula disse que pretende discutir o caso do ministro assim que retornar a Brasília.
Silas Rondeau foi guindado à Esplanada por indicação do senador José Sarney (PMDB-AP). Sobreviveu à reforma ministerial do segundo mandato graças à renovação do apoio de Sarney. O inquérito da Operação Navalha acomoda-o agora na corda bamba. A documentação enviada pelo procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza ao STJ diz, sem meias palavras, que o ministro recebeu propina de R$ 100 mil.
Neste final de semana, a Folha (assinantes) noticiou que o ministro encontrava-se sob investigação da PF. Na noite deste domingo, detalhes do inquérito policial foram divulgados em reportagem exibida no programa Fantástico, da Rede Globo. Rodaram-se diálogos captados pela PF por meio de grampo telefônico. Exibiram-se imagens registradas pelo circuito interno de TV do Ministério das Minas e Energia (assista). A PF logrou documentar, com fotos, áudio e vídeo, toda a trajetória dos R$ 100 mil que teriam sido entregues a Silas Rondeou.
A propina que a PF diz ter sido paga a Rondeau serviu para premiá-lo por supostas vantagens oferecidas à Gautama, do empresário Zuleido Veras, numa licitação do programa Luz Para Todos, destinado a levar luz elétrica a zonas rurais. Antes do pagamento, o próprio Zuleido esteve na pasta das Minas e Energia. Reuniu-se com o ministro e com o diretor do Luz para Todos, José Ribamar Santana.
A saga da propina começou em Salvador. Os R$ 100 mil foram sacados numa agência da Caixa Econômica Federal na capital baiana por Lourenço Vieira, funcionário da Gautama. Seguido por policiais a paisana, ele voou para Brasília. No aeroporto da Capital, entregou o dinheiro a Tereza Lima, secretária particular de Zuleido Veras, o “chefe dos chefes” da máfia das obras públicas, na definição da PF.
No último dia 13 de março, Fátima Vieira, diretora Financeira da Gautama, foi ao Ministério das Minas e Energia. Portava um envelope pardo, recheado com a propina de R$ 100 mil, de acordo com a PF. Entrou pela porta reservada às autoridades. Subiu pelo elevador privativo do ministro.
No andar de Silas Rondeau, a emissária de Zuleido Veras encontra-se com Ivo Almeida Costa, assessor especial do ministro, preso pela PF na quinta-feira da semana passada. Filmados, entram por uma porta que, segundo a PF, dá acesso ao gabinete do ministro. Meia hora depois, Fátima e Ivo cruzam a mesma porta. A imagem mostra que, a essa altura, o envelope pardo já estava com Ivo. Despedem-se. Ivo retorna ao gabinete de Rondeau. E sai sem o envelope.
Para desassossego de Lula, Silas Rondeau é um dos integrantes de sua comitiva na viagem ao Paraguai, que prossegue nesta segunda-feira. Ouvido em Assunção, o ministro classificou de “mentira” a versão sustentada pela PF no inquérito da Operação Navalha. Disse que vai provar sua inocência. E afirmou que sente-se à vontade para permanecer no cargo enquanto Lula achar que é merecedor de confiança.
O ministro Gilmar Mendes, do STF, pôs na rua, neste domingo, mais dois hóspedes do PF’s Inn. Foi à rua o ex-governador do Maranhão José Reinaldo Tavares (PSB). Alcançou o meio-fio também o presidente do Banco do Brasília e consultor do governo maranhense Roberto Figueiredo. Os dois devem deixar a carceragem da PF, em Brasília, ainda nesta noite estrelada e seca da Capital.
No caso de José Reinaldo, além de livrá-lo da cana, Gilmar Mendes pôs em dúvida a qualidade da prova colhida pela Polícia Federal. Em seu despacho, o ministro do STF analisa o conteúdo dos diálogos captados por grampos telefônicos operados pela polícia. Diz que as fitas não contêm a voz de José Reinaldo, mas “sempre referências de terceiros à sua pessoa”.
Há mais e pior: "São todas elas [as gravações] anteriores à autorização judicial para interceptar os referidos contatos telefônicos. Isso significa dizer que a prova assim obtida, sem nenhuma dúvida, é ilícita". O advogado de José Reinaldo, José Antonio Almeida, ganhou, assim, de mão beijada, ótima matéria-prima para a elaboração da defesa de seu cliente.
Quanto a Roberto Figueiredo, Gilmar Mendes anota que, desde abril de 2007, quando assumiu a presidência do Banco de Brasília, ele deixou de exercer atividades relacionadas à assessoria financeira do governo do Maranhão ou da empresa Gautama, pivô da Operação Navalha. De resto, o ministro do STF negou outros três pedidos de habeas corpus protocolados no tribunal.
O senador Delcídio Amaral (PT-MS) subirá à tribuna do Senado, nesta segunda (21), para explicar como seu nome foi parar numa lista da Gautama, ao lado da seguinte anotação: "R$ 24 mil – aluguel de jatinho". Ele antecipou ao blog o que dirá no discurso. Leia:
- O que houve?
Meu sogro morreu no último dia 3 ou 4 de abril. Era de manhã. Estava em Brasília. O enterro seria em Barretos (SP), no mesmo dia. Tinha de arrumar um jeito de chegar a Barretos. Me ocorreu ligar para o Luiz Gonzaga Salomon.
- Quem é Luiz Gonzaga Salomon?
É um empresário do setor elétrico. Tem uma empresa chamada Nativa. É meu velho amigo, um cara decente e honesto.
- O que pediu a ele?
Expliquei a situação e pedi ajuda. Ele acertou com uma empresa aérea chamada Ícaro. Me arrumou um bimotor, não era jatinho. Fui para Barretos e, no dia seguinte, fui para Campo Grande.
- E o pagamento?
Falei: Luiz, não tenho esse dinheiro agora. Posso te pagar daqui a 60 dias? Dá um cheque seu em caução. Se puder, pague, que depois eu reembolso.
- Como Zuleido Veras, dono da Gautama entra na história?
Só ontem, depois que estourou isso, o Luiz Gonzaga me contou que, depois de deixar o cheque dele em caução, como não tinha fundos, começou a correr o mercado para ver quem podia bancar. Mais tarde, ele reembolsaria, segundo eu deduzo. Um desses caras foi o Zuleido, que aceitou pagar. Mas, no final das contas, não pagou. O Luiz Gonzaga me informou que a Polícia Federal já esteve na Ícaro. Informaram que o vôo não foi pago.
- O sr. não acha que foi descuidado?
Posso até admitir que fui descuidado. Mas é que tenho uma confiança grande no Luiz Gonzaga, amigo antigo.
- Se ele lhe concedera 60 dias para pagar, por que recorreu a terceiros?
Meu amigo Luiz Gonzaga reconhece que isso foi um erro. Mas ele me deu uma demonstração de amizade. Às vezes, você pode fazer besteiras. O Luiz, a despeito dos interesses empresariais da companhia dele, não se furtou a assumir o que fez. Achei isso muito bonito. Coisa de quem honra o que faz, mesmo sabendo que errou.
- Conhece Zuleido Veras?
Não nego. Conheço o Zuleido. Não de agora. Conheço do tempo que ele era da OAS. Eles tinham muita obra em setores de infra-estrutura. E como eu sempre fui diretor de empresas nessa área, tinha contato. Isso foi lá pelos idos do final da década de 80.
- Apresentou alguma emenda destinando verbas para obras da Gautama?
Não. Amanhã, inclusive, vou pôr um ponto final nesse assunto, no plenário do Senado. Mandei levantar todas as minhas emendas: zero de Gautama. Peguei minhas prestações de contas de campanha: zero de Gautama. Mandei levantar todas as ligações telefônicas do meu gabinete: zero. Pedi aos bancos onde tenho conta extratos que irão demonstrar que jamais entrou em nenhuma dessas contas nenhum centavo da Gautama. Eu vou para o pau, amanhã, no plenário.
- Por que acha que ele se dispôs a pagar o aluguel do avião?
Se eu nunca fiz nada, não tive contato, não apresentei emenda, só posso entender como uma tentativa de aproximação. Coisa que, no meu caso, não funciona. E ele não pagou. Eu entrei de gaiato nesse navio. Mas tudo bem. Vou para a briga. Como vice-líder do governo, não posso pedir uma CPI, mas se alguém pedir uma investigação sobre esse caso no Congresso eu assino.
Até o próximo final de semana, devem ser postos em liberdade todos os 45 suspeitos da Operação Navalha que ainda se encontram na carceragem da Polícia Federal, em Brasília. Responsável pela expedição dos mandados de prisão, a ministra Eliana Calmon, do STJ, avisou ao Ministério Público e à PF que não irá reter ninguém na cadeia além do tempo necessário para a tomada dos depoimentos dos suspeitos.
As inquirições serão iniciadas nesta segunda-feira (21), a partir das 8h. Espera-se que sejam concluídas antes de sexta-feira. É possível que ministra Calmon participe de alguns ou até de todos os depoimentos, que serão feitos na presença de um representante do Ministério Público Federal.
Investiga-se um mega-esquema de fraudes em licitações e desvio de verbas destinadas a obras públicas. Segundo a PF, o pivô do escândalo é Zuleido Veras, dono da empreiteira Gautama, que subornava políticos e funcionários públicos.
Nos próximos dias, o procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza pode ser obrigado a solicitar a transferência do inquérito do STJ (Superior Tribunal de Justiça) para o STF (Supremo Tribunal Federal). Aguarda apenas a análise da documentação apreendida na última quinta-feira (17), em Salvador, nos escritórios da Gautana.
O inquérito corre no STJ porque, até aqui, a maior autoridade sob investigação era o governador Jackson Lago, do Maranhão. E o foro próprio para processar e julgar governadores é o STJ. Prevê-se, porém, que a análise dos papéis recolhidos na batida policial feita na Gautama arrastará para o centro do escândalo uma penca de congressistas.
A exemplo dos governadores, também os deputados e senadores desfrutam do chamado privilégio de foro. No caso deles, contudo, a lei manda que o processo corra no STF, não no STJ. Como os crimes sob investigação são correlatos, é impossível desmembrar o inquérito. Ou seja, deve caber ao Supremo processar e julgar todas as pessoas encrencadas em mais este caso.
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