Tony Gentile/Reuters Experimente-se pôr o papa na primeira esquina brasileira, trepado num caixote. Imagine-se que, falando ao povo, ele conclame: “Agora, meus irmãos, digam qual é o nome deste humilde representante de Deus.” Arrisca-se a ouvir um silêncio de necrotério.
Mais da metade dos brasileiros (51%) não sabe o nome do papa, eis o que detectaram os pesquisadores do Datafolha. E olha que o sujeito foi rebatizado de Bento. Bento 16, para ser exato. Avalie se houvesse mantido o nome que recebera dos pais: Joseph Ratzinger.
A julgar pelos resultados dapesquisa, o papa que desembarcará no Brasil em 9 de maio não é nada pop. Nem mesmo entre as ovelhas de seu rebanho. Considerando-se apenas as resposta dadas pelos entrevistados católicos, 48% não souberam dizer o nome do papa ou deram respostas erradas.
O Datafolha ouviu 5.700 pessoas em 236 municípios de 25 Estados. Assim, sugere-se que Sua Santidade, antes de cada sermão que vier a pronunciar no Brasil, faça como 007: “Bento, meu nome é Bento 16”, diria o agente quase secreto do Vaticano.
Certo mesmo estava Nelson Rodrigues: "Ainda seremos o maior povo ex-católico do mundo."
Folha Enquanto o STF não julga o mandado de segurança que pede a instalação da CPI do caos Aéreo, a oposição planeja transformar a Comissão de Defesa Nacional da Câmara em palco de debate sobre a crise que tumultua os aeroportos brasileiros. Os primeiros efeitos da estratégia serão sentidos na próxima quarta-feira (11).
Nesse dia, a comissão vai ouvir, em reunião reservada, representantes de entidades que representam os controladores de vôo civis e militares. Eles foram convidados por
Fernando Gabeira (PV-RJ), que é membro da Comissão de Defesa. Consultado por Gabeira, o presidente da comissão, deputado Vieira da Cunha (PDT-RS), concordou com a iniciativa.
Serão ouvidos, a portas fechadas, os presidentes daABCTA (Associação Brasileira dos Controladores de Tráfego Aéreo), Wellington Rodrigues, e do SNTPV (Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Proteção ao Vôo), Jorge Botelho. O primeiro falará pelo naco militar da corporação. O segundo representará os controladores civis.
A audição será franqueada a todos os deputados que integram a Comissão de Defesa, de maioria governista (veja a composição aqui). Na mesma quarta-feira (11), os deputados ouvirão, dessa vez em audiência pública, o presidente da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), Milton Zuanazzi.
A convocação de Zuanazzi fora aprovada, sem alarde, em sessão plenária da comissão. A oposição avalia que a agência ANAC vem tendo uma atuação sofrível na gerência da crise aérea. E passou a avaliar que, enquanto a CPI não vem, a Comissão de Defesa é o melhor lugar para iniciar o debate do tema.
“Contive a utilização da Comissão de Defesa o quanto pude”, diz Fernando Gabeira. “Mas acho que já esperamos demais. É preciso conscientizar o governo da gravidade do tema. A pressão internacional e o debate na Comissão de Defesa são as opções que restaram.”
Gabeira vem advogando há semanas a criação de uma comissão especial da Câmara para esquadrinhar as falhas administrativas que conduziram ao caos aéreo. Acha que seria uma maneira de contornar o bloqueio ao debate, que resultou da queda-de-braço entre governistas e oposicionistas em torno da CPI. Sua proposta, porém, não emplacou.
Diante do impasse, que só será solucionado com a decisão a ser tomada pelo plenário do STF, em julgamento previsto para o final de abril, Gabeira viu na Comissão de Defesa um fórum alternativo para antecipar a busca de soluções. “Faremos tudo com muito cuidado. Não temos a intenção de esvaziar a CPI. Mas não se pode ficar de braços cruzados.”
Os controladores de vôo, por sua vez, enxergaram na perspectiva de falar aos membros da comissão uma brecha para expor a sua versão da crise. Receiam ser crucificados como responsáveis exclusivos pelo caos. Alegam que as reivindicações salariais são apenas parte do problema. Dizem que há outros aspectos que vêm sendo negligenciados.
Por exemplo: as condições adversas de trabalho a que são submetidos os responsáveis pelo tráfego aéreo, a análise mais detida das supostas vantagens da desmilitarização do setor e a precariedade dos equipamentos utilizados no monitoramento dos vôos.
"São assuntos que merecem uma análise responsável do Legislativo", opina Gabeira. "O governo tenta vender a tese de que o problema se restringe aos controladores. Creio que eles são apenas parte do problema. Não podemos conviver com a dúvida em relação à defasagem dos equipamentos, por exemplo."
Os filhos de Deus já têm como preencher o oco existencial de suas almas. Doravante, o vazio deixado pela superficialidade das relações humanas poderá ser preenchido por coisas solidamente materiais. A Arquidiocese do Rio de Janeiro decidiu lançar o seu próprio cartão de crédito, uma espécie de Visa Gold, digo Visa God.
Os pendores mercantis da Igreja são conhecidos desde a era da venda de indulgências. Mas o uso de Deus como garoto propaganda do consumismo é algo inédito na empreitada neo-espiritualista. Para assegurar o êxito do cartão de Cristo, a batina contratou a agência de publicidade DPZ. Ide às compras, irmãos. Pecado agora é não comprar.
A autodestruição é uma característica própria dos seres superiores. Depois de pôr sob ameaça bichos inferiores como o mico-leão-dourado, o homem, essa importante espécie, investe contra si mesmo. Logo, logo não terá nem água bastante para beber. Se bobear, acabará sozinho no planeta. Sozinho e doente. Não lhe restará nem a proximidade de uma árvore.
Antes, o homem lutava para salvar as baleias. Agora, terá de fazer um esforço extraordinário para salvar-se de si mesmo. Já destruiu o meio-ambiente. E ruma para o extermínio do ambiente inteiro. Nem Darwin ousou imaginar que a espécie evoluiria tanto.
O comando da Aeronáutica acionou um grupo de agentes de seu departamento de inteligência para vasculhar o cotidiano dos sargentos que atuam como controladores de vôo. O principal objetivo da missão de espionagem é identificar os líderes escondidos por trás do motim que paralisou os aeroportos brasileiros por cerca de cinco horas no último dia 30 de março.
Parte-se da avaliação de que o serviço militar de controle do tráfego aéreo ganhou contornos sindicais incompatíveis com os rigores da hierarquia que rege as relações funcionais nas Forças Armadas. Daí o desejo de isolar as lideranças do motim. A idéia é punir exemplarmente os responsáveis pela insurreição, excluindo-os dos quadros da Força Aérea.
O blog apurou que parte dos dados levantados durante a operação de espionagem pode ser utilizada no IPM (Inquérito Policial Militar) aberto para investigar o motim do dia 30. A ordem para a abertura da investigação, formalizada pelo Ministério Público Militar, foi festejada no alto comando da Aeronáutica como uma oportunidade para restaurar a integridade da cadeia de comando.
Numa análise preliminar, a Aeronáutica concluiu que o seu serviço de inteligência falhou ao não se antecipar à rebelião. Falharam também todas as organizações de espionagem que integram o Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência), coordenado pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Em conseqüência, o governo foi surpreendido no dia do motim. Mercê da desinformação, estavam ausentes de Brasília durante a fatídica rebelião as principais autoridades do primeiro escalão. Entre elas o vice-presidente José Alencar, que respondia interinamente pela presidência da República, e os ministros Waldir Pires (Defesa), Tarso Genro (Justiça), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais).
Para gerir a encrenca, o Planalto viu-se compelido a compor um gabinete de crise que incluía um funcionário de segundo escalão –Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula—, um ministro recém-chegado –Franklin Martins (Comunicação Social)— e um outro ministro vinculado à área econômica –Paulo Bernardo (Planejamento).
Deseja-se agora dotar o governo de informações estratégicas sobre os contornos sindicais que se acercaram do controle de vôo militar. A Aeronáutica dá de ombros para a argumentação da categoria, segundo a qual a revolta brotou espontaneamente, por conta de uma insatisfação que seria generalizada. A avaliação do comando da Aeronáutica é a de que não há motim sem líderes. E, sejam quem for, a Força Aérea deseja livrar-se deles, punindo-os com detenção e expulsando-os.
Estima-se que não passam de duas dezenas os supostos fomentadores da revolta. Um grupo que inclui, além dos "cabeças" do movimento, pessoas a eles ligadas. Alguns já foram identifcados. Contra outros há densas suspeitas. Encontram-se sob vigilância. Tenta-se, de resto, recuperar os movimentos que empreenderam nos dias que precederam o caos aeroportuário.
Incumbida por Lula de conduzir o plano de desmilitarização do controle de tráfego aéreo, a Força Aérea acredita que a maioria dos militares que atuam neste setor não estaria disposta a trocar o "conforto" proporcionado pela carreira militar –moradia funcional, alimentação, aposentadoria especial e plano de saúde próprio, por exemplo—pelo regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Os que quiserem fazer a troca terão de despir os uniformes.
Pelo menos um auxiliar de Lula, ouvido pelo blog sob a condição do anonimato, revelou preocupação com a atmosfera envenenada que é respirada no comando da Aeronáutica. Avalia que a raiva não é, no momento, o melhor ingrediente para contornar a crise que consome, há seis meses, o setor de controle de vôo. O assessor do presidente rumina a impressão de que a propalada desmilitarização dessa atividade, que só não foi imposta por meio de uma medida provisória e de um projeto de lei complementar por conta da ameaça do comandante Juniti Saito (Aeronáutica) de demitir-se, pode consumir meses de conversas e reuniões e, ao final, acabar não saindo do papel.
Depois de experimentar a ilusão de ter aberto um canal de diálogo com o próprio presidente da República, os controladores de vôo que vestem farda começam a retornar para à dura rotina militar. Uma rotina em que o sujeito pode até dizer o que deseja. Desde que faça estritamente o que lhe mandam.
Por um instante, os controladores imaginaram que suas reivindicações haviam alçado vôo. Pelas mãos de Paulo Bernardo, aterrissariam na mesa de Lula. Súbito, deram-se conta de que, em verdade, haviam embarcado numa canoa furada. O que era promessa de perdão tornou-se o pesadelo de novas punições.
Nesta quinta-feira (5), sentindo o cheiro de queimado, a ABCTA, associação que representa os controladores de vôo militares, divulgou uma nota em que pede “perdão à sociedade brasileira” pela sublevação da última sexta-feira (30). O texto roga às pessoas que lembrem da data não como uma rebelião, mas como “um grito de socorro dos controladores de tráfego aéreo.”
A sociedade pode até nutrir alguma compaixão pelos sargentos enfurnados na torre de controle. Na Aeronáutica, porém, respira-se uma atmosfera de mata-e-esfola. O comando da Força Aérea capricha no inquérito policial aberto há dois dias, a pedido do Ministério Público Militar. Trabalha-se com a perspectiva de utilizar essa investigação como porta para a expulsão de pelo menos duas dezenas de insurretos.
O FMI acaba de divulgar parte de um relatório chamado “Panorama Econômico Mundial”. Saíram, por ora, os capítulos três, quatro, e cinco (íntegra aqui, em inglês). Os capítulos um e dois serão liberados na próxima quarta-feira (11). Na parte que já veio à luz aborda-se um tema que inquieta a muitos. Afinal, o que aconteceria se a economia norte-americana claudicasse? Na América Latina, concluem os técnicos do FMI, o maior prejudicado seria o Brasil.
Fez-se a seguinte estimativa: se o PIB dos EUA cair 1%, a economia da América Latina também cairá, em média 0,2%. Tomando-se os países isoladamente, o Brasil, em função do volume de negócios que mantém com os EUA, padeceria um recuo de 0,75% no seu desempenho econômico, o maior de toda a região. Mais expressivo inclusive do que o recuo estimado para o México, estimado em 0,6%.
Mas, afinal, os espirros da economia norte-americana já põem sob risco de resfriado os outros países? Por ora, conclui o relatório do Fundo, a desaceleração verificada nos EUA é mais forte no mercado imobiliário, o que limita o contágio externo. "Se o declínio no mercado imobiliário se espalhar para os setores de consumo e de negócios, no entanto, o efeito para outros países poderia ser significativamente maior, apesar de ainda contornável, desde que os países afetados respondam rapidamente e com flexibilidade", diz o documento.
Fábio Pozzebom/ABr O Judiciário está na iminência de tomar uma decisão que cairá como uma bomba no colo do Legislativo e do Executivo. O STF prepara-se para julgar uma ação em que deve reconhecer o direito de greve do funcionalismo público. Embora previsto na Constituição de 1988, esse direito ainda não foi regulamentado em lei.
Os ministros do Supremo tendem a votar favoravelmente a um acórdão que dirá o seguinte: enquanto não for aprovada no Congresso uma lei que regulamente o direito de greve no serviço público, valem para o funcionalismo as mesmas regras que regem as paralisações dos trabalhadores da iniciativa privada. Regras fixadas na lei 7.783, sancionada sob de José Sarney, em 1989.
O julgamento acerca do direito de greve dos servidores consta da pauta da sessão plenária do STF da próxima quinta-feira (12). Os ministros vão decidir sobre um mandado de injunção ajuizado no Supremo pelo Sindicato dos Servidores Policiais Civis do Espírito Santo. Previsto na própria Constituição de 1988, o mandado de injunção é um tipo de ação usado para requerer ao Judiciário que obrigue o Legislativo a aprovar as leis que regulamentam dispositivos constitucionais. Sem elas, certos direitos não podem ser exercidos em sua plenitude. É o caso do direito de greve do funcionalismo.
Embora previsto na Constituição, esse direito não foi regulado até hoje. Já lá se vão 19 anos de omissão dos legisladores. Omitiu-se também o Executivo, que não enviou ao Congresso nenhum projeto tratando da matéria. Daí o recurso do sindicato dos policiais civis capixabas, que tiveram o seu direito de fazer greve tolhido por uma decisão da Justiça Federal do Espírito Santo. Coube a Maurício Corrêa relatar o caso no Supremo. Em seu voto, o ministro reconheceu a omissão do Legislativo. Mas considerou que não cabia ao Judiciário imiscuir-se na atividade dos legisladores. Outro ministro, Gilmar Mendes, hoje presidente em exercício do STF, pediu vista do processo. E levou ao plenário um voto divergente do de Corrêa, que já se aposentou do tribunal.
Em seu voto, apresentado em 7 de junho de 2006, Gilmar Mendes considerou que a omissão do Legislativo gerou a figura das “greves ilegais”. Cabe ao Judiciário, na opinião de Mendes, intervir para concretizar o direito de greve, que a Constituição de 1988 assegurou a todos os trabalhadores, da iniciativa privada e do Estado. O ministro considerou que, enquanto perdurar a omissão do Legislativo, deve-se aplicar aos servidores públicos, por analogia, a mesma legislação que rege as greves dos trabalhadores privados. Atribui à Justiça, mediante requisição dos órgãos públicos interessados, a responsabilidade de exigir a prestação de serviços mínimos à sociedade nos casos em que as paralisações afetem serviços essenciais.
O caso só não foi julgado em definitivo porque o ministro Ricardo Lewandowski também pediu tempo para analisar o processo mais detidamente. Na próxima quinta-feira (12), Lewandowski exporá sua opinião aos colegas de tribunal. Em privado, diz que deve seguir o voto de Mendes. Nesse meio tempo, os juízes do Supremo foram confrontados com um outro recurso. É semelhante ao que fora protocolado pelos policiais do Espírito Santo.
O autor desse outro mandado de injunção foi o Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário do Estado do Pará. Relatou-o o ministro Eros Grau, que, em seu voto, incorporou o raciocínio esgrimido por Gilmar Mendes. Ou seja, considerou que, enquanto o Legislativo não aprova uma lei específica, valem para os servidores públicos a lei dos trabalhadores das empresas privadas. Consolida-se, assim, uma tendência que, se confirmada, levará o STF a assumir o papel de legislador. (Leia mais sobre o tema no texto abaixo...).
Sob Lula, Executivo quer limitar greve de servidor
Marecello Casal/ABr Uma eventual decisão do STF favorável à realização de greves de servidores nos mesmos moldes das paralisações feitas por trabalhadores da iniciativa privada vai contrariar frontalmente os interesses do governo federal. Sob a presidência do ex-sindicalista Lula, o Executivo vem manifestando, desde o início de março, o desejo de impor limites e até de proibir a realização de greves em atividades de Estado consideradas essenciais.
Lula delegou ao ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (foto) a tarefa de elaborar um projeto de lei regulamentando o direito de greve dos funcionários públicos. “Nós precisamos definir numa lei o que a Constituição prevê”, disse Bernardo no último dia 2 de março. “Temos de preservar o direito do servidor, mas também o atendimento ao cidadão e os interesses da sociedade. Se o serviço é essencial, precisamos saber os limites. Em alguns serviços essenciais, tem que ser proibida a greve.”
No dia seguinte, 3 de março, em viagem à Guiana, onde participou de uma reunião de presidentes do Caribe e da América do Sul, Lula afirmou:"Há abuso de greve não apenas no setor público, mas em outras categorias. Na verdade, o que queremos garantir na organização do trabalho do Brasil é maior responsabilidade, maior liberdade e, portanto, mais atos conseqüentes de todos nós."
Após o motim dos controladores de vôo militares, que paralisou por cinco horas, em 30 de março, os aeroportos brasileiros, Lula renovou a Paulo Bernardo a ordem para a elaboração do projeto regulamentando as greves do funcionalismo. Uma determinação que se tornará ainda mais premente a partir de uma eventual decisão do STF que equipare o funcionalismo aos trabalhadores privados.
Em diálogos privados, o ministro Gilmar Mendes que, graças a uma licença da colega Ellen Gracie, responde interinamente pela presidência do Supremo, dá como favas contadas a aprovação do acórdão favorável aos servidores públicos. Se confirmada, a sentença terá sobre o Congresso um efeito semelhante ao que foi produzido por aquela decisão do TSE que impôs aos partidos e aos congressistas a fidelidade partidária.
Devagarinho, no vácuo da omissão do Legislativo em assumir responsabilidades que vão da reforma política à regulamentação do direito de greve, o Judiciário brasileiro vai assumindo o papel de legislador.
Em política, os insultos nem sempre são prenúncio de inimizade. Nesta quarta-feira (4), um caso que parecia pender para o desamor eterno ganhou contornos de um flerte de resultados imprevisíveis. Lula encontrou-se com ACM.
Quem acompanhou a eleição presidencial do ano passado sabe que Lula referiu-se a ACM como “hamster”. E aqueles que têm o hábito de sintonizar na TV Senado já devem ter assistido aos discursos em que o morubixaba baiano dirige-se ao presidente com desairoso o epíteto de “o maior ladrão do Brasil.”
Pois bem, o “hamster” e o “ladrão” conversaram por uma hora e meia. Foi um diálogo amistoso. Ao final, cortês e delicado, Lula ajudou ACM a levantar-se da poltrona. O bate-papo foi testemunhado pelo ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais).
Soube-se que, lero vai, lero vem Lula manifestou a ACM o desejo de estreitar "inimizades" com toda a oposição. Como se vê, na política, é desconcertante o modo como as pessoas brigam e fazem as pazes. Tudo, evidentemente, pelo bem, do Brasil.
Sério Lima/Folha Depois de ter esmigalhado a linha de comando da Aeronáutica, na fatídica noite de sexta-feira (30), Lula parece mesmo ter iniciado uma lua-de-mel com os militares. Reunido na noite desta terça (3) com a bancada de senadores do PT, Lula informou que convocará nos próximos dias o Conselho de Defesa Nacional. Quer discutir, veja você, um PAC para as forças armadas.
O novo PAC (Plano de Amansamento da Caserna) visa derramar recursos nos orçamentos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Entre as áreas que se pretende aquinhoar está o combalido controle de tráfego aéreo. Lula insinuou na conversa com os senadores petistas que deve levar à bandeja a cabeça do indefeso ministro da Defesa, Waldir Pires. Falta-lhe, porém, um substituto. Nesta quarta, como as confidências vazaram, ele as negou.
Vai abaixo, só para lembrar, reportagem de Leonardo Souza e Andréa Michael. Saiu na na Folha (assinantes). É sobre o aniversário de um ano do relatório final da CPI dos Correios. Acima, vai um trecho de um dos tantos depoimentos memoráveis.
“Amanhã completa um ano que a CPI dos Correios concluiu as investigações sobre o mensalão. De lá para cá, ninguém foi preso, nenhum dos denunciados pela Procuradoria Geral da República virou réu e 14 autoridades informadas oficialmente pelo Senado ou não tomaram nenhuma medida sobre o caso ou nem sequer responderam ao Congresso.
A Lei 10.001, de 2000, prevê que as autoridades oficialmente contatadas pelos presidentes da Câmara e do Senado a respeito das conclusões de comissões parlamentares de inquérito têm 30 dias para prestar informações ao Congresso sobre medidas adotadas em relação ao caso. A partir de então, devem encaminhar relatórios semestrais sobre o andamento das providências adotadas.
Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem nove ministros, incluindo Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (ex-Relações Institucionais, hoje Justiça), Luiz Dulci (Secretaria Geral) e Waldir Pires (Defesa), prestaram quaisquer informações ao Congresso, segundo informou a Secretaria Geral do Senado.
Outras pastas comunicaram medidas meramente burocráticas, como a Fazenda, que apenas disse ter credenciado servidor para "compulsar" (manusear, examinar) documentos.
Em 11 de setembro de 2006, o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), enviou oficialmente o relatório final da CPI a 19 autoridades. Só cinco prestaram alguma informação. Ontem, após ter sido procurado pela Folha, Renan determinou à Secretaria Geral do Senado que voltasse a cobrar as pendências.
"Piada de salão"- No dia 15 de fevereiro, os deputados Gustavo Fruet (PSDB-PR) e José Eduardo Cardozo (PT-SP), ex-integrantes da CPI, haviam enviado requerimento a Renan pedindo que ele cobrasse das autoridades informações sobre as providências adotadas em relação ao caso.
Apesar de não terem respondido ao Legislativo, a Controladoria Geral da União, o Ministério da Previdência Social e a Procuradoria Geral da República disseram à Folha, por meio de suas assessorias, que tomaram providências.
Em outubro de 2005, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, acusado de ser o principal operador do mensalão, disse que o escândalo viraria uma "piada de salão". "Se as coisas continuarem no estágio em que estão, em pouco tempo a profecia de Delúbio se confirmará", disse Fruet, ex-sub-relator da CPI.
Balanço- Uma semana antes do encerramento da CPI, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou ao Supremo Tribunal Federal 40 pessoas envolvidas no caso sob acusação de integrarem uma "organização criminosa".
A lista de denunciados inclui figuras centrais do escândalo, como o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil) e os ex-dirigentes do PT José Genoino, Silvio Pereira e Delúbio, além do empresário Marcos Valério.
A denúncia só se transformará em ação penal se o Supremo Tribunal Federal entender que as acusações têm fundamento. O tribunal, porém, ainda não analisou o caso. Assim, os denunciados não respondem a processo. O próprio ministro relator do caso, Joaquim Barbosa, declarou que seriam necessários pelo menos dois anos para apreciar a denúncia.
O episódio nos Correios, que levou ao caso do mensalão, fez a Polícia Federal instaurar oito inquéritos, nos quais são apuradas fraudes em licitações.”
Para sindicalista Lula, presidente Lula é ‘sacana’
Folha Imagem
Lula comanda assembéia de metalúrgicos em 13 de maio de 79, em São Bernardo
O presidente Lula adotou nesta terça-feira um comportamento que o sindicalista Lula já classificou de coisa de “sacanas”. Em 1979, época em que emergia como uma lenda do sindicalismo do ABC paulista, Lula teve de engolir a quebra de um acordo que firmara com a Scania. Exatamente como fez agora com os controladores de vôo.
É o próprio Lula quem conta: “Houve uma proposta, a empresa [Scania] aceitou a proposta. Essa proposta foi levada aos trabalhadores dentro da fábrica e nessa assembléia eu falei (...). Os trabalhadores aceitaram a proposta, aceitaram inclusive batendo palmas. E nós saímos da Scania e fomos para a Delegacia Regional do Trabalho para fazer o acordo”.
“Foi então", prossegue Lula, "que os sacanas dos diretores da Scania tomaram uma prensa do Sindicato da Indústria Automobilística e disseram que não podiam fazer aquele acordo. A gente já tinha pedido para o pessoal voltar a trabalhar. Aquilo foi uma coisa muito ruim, porque no dia seguinte a Scania montou um esquema de segurança dentro da fábrica de perseguição aos trabalhadores fodido. Cada setor tinha dois ou três guardas olhando os trabalhadores. Então virou um campo de concentração. E é lógico que você pega o trabalhador que desconfia que houve traição, que o sindicato vendeu ele ou coisa parecida.”
O relato consta da página 136 do livro “Lula, o filho do Brasil” (Editora Fundação Perseu Abramo). Trata-se de uma coletânea de entrevistas que resultou num memorável perfil do sindicalista que logrou chegar à presidência.
Transpondo-se o exemplo para os dias que correm, verifica-se que, no Planalto, Lula impôs aos controladores de vôo o mesmo passa-moleque que os “sacanas” da Scania lhe pespegaram em 1978. Depois de firmar, por meio do ministro Paulo Bernardo (Planejamento), um acordo com os seus "funcionários", o presidente roeu a corda.
“Tomou uma prensa” dos militares e converteu os centros de controle de vôo em “campos de concentração”. Os controladores encontram-se agora sob inquérito policial. E, na pele de “patrão”, Lula autorizou a polícia – no caso o comando da Aeronáutica— a recolher ao xilindró qualquer “operário” que ouse se insurgir contra as normas.
O Lula de 1978 era a favor das greves nos setores ditos essenciais (página 138 do livro). Algo que o Lula de 2007 está decidido a limitar. De resto, o sindicalista cultivava valores que não combinam com os de um presidente da República. Em relato anotado na página 80, conta que presenciou uma cena que terminou em morte.
Devolva-se a palavra o Lula do sindicato: "Se não me engano, foi em 1962. Tinha uma fábrica na rua Vemag, uma pequena tecelagem, uma fábrica de meia. Lá eu presenciei a cena mais violenta de uma greve. O pessoal vinha numa passeata e tentou parar a fábrica, que era pequena. Deveriam trabalhar umas oito ou nove pessoas, no máximo. Ficava num sobrado. O pessoal entrou e foi subindo as escadarias. Então o dono da fábrica atirou. Atirou e o tiro pegou na bexiga de um companheiro que estava na frente. O pessoal ficou invocado e jogou pela janela o dono da fábrica; ele caiu do segundo andar. O cidadão caiu no chão e lá embaixo o pessoal chutou ele, agrediu. [...] Ele foi para o hospital, a (...) impressão que eu tenho é que ele não sobreviveu [...] Eu achava que o pessoal estava fazendo justiça".
O presidente Lula decerto deve ter modificado o seu conceito acerca da justiça dos linchamentos.
Em reunião com congressistas que integram o consórcio governista, Lula disse, nesta terça-feira, que os controladores fizeram “jogo baixo” com o presidente da República. “Eles me apunhalaram pelas costas”, disse o presidente, segundo relataram ao blog deputados que participaram do encontro. “Só esperaram eu sair do país para causar confusão.”
Lula reportava-se à crise da última sexta-feira (30). Naquele dia, enquanto voava para os EUA, sargentos que cuidam do controle de vôo amotinaram-se no Cindacta 1, em Brasília. A bordo do Aerolula, o presidente foi comunicado sobre o caos, que provocou a paralisação dos aeroportos brasileiros por cinco horas.
Referindo-se à negociação feita, em seu nome, pelo ministro Paulo Bernardo (Planejamento), Lula disse não ter autorizado o auxiliar a comprometer-se com o cancelamento de punições impostas aos controladores pela Aeronáutica. Tampouco o autorizara a prometer que os sargentos sublevados não sofreriam sanções por conta do motim de sexta-feira.
Nesse ponto da reunião, Lula tentou isentar Paulo Bernardo de responsabilidade por promessas que o governo tratou de romper nesta terça-feira (3). Disse que o ministro fez o que lhe pareceu correto num instante de crise. Porém, com um atraso de quaro dias, condenou o acordo. Disse que não faz sentido premiar com o cancelamento de sanções os militares que não respeitam nem o presidente da República nem a sociedade brasileira.
Segundo o relato dos parlamentares que estiveram com Lula, o presidente declarou que considera adequado qualquer tipo de protesto. Mesmo aqueles que são organizados contra ele próprio. Mas não pode admitir que a sociedade seja prejudicada por “militares irresponsáveis”. Disse claramente que autorizou para a Páscoa o que desautorizara dias atrás.
No auge da crise de sexta-feira, quando o brigadeiro Juniti Saito, comandante da Aeronáutica, preparava-se para mandar à prisão os sargentos amotinados, o presidente desautorizou a providência. Agora, diz ter dado carta branca à Força Aérea para prender os controladores de vôo que ousarem causar problemas no feriado de Páscoa.
De resto, Lula informou aos congressistas que devolveu ao comandante Saito a atribuição de coordenar a transição do regime militar para um sistema de controle civil da aviação civil. Diferentemente da disposição que exibia até domingo, o presidente agora não tem pressa. Disse que o processo será feito com "toda a calma necessária". Condicionou as mudanças à normalização da situação aeroportuária.
Quem ainda cultiva algum receio de viajar de avião deve rever urgentemente os seus temores. Hoje, mais perigoso do que voar é permanecer num aeroporto. Não bastassem todos os desacertos do setor, até São Pedro tratou de imprimir as suas digitais no caos. Derramou sobre São Paulo, nesta terça-feira (3), um temporal inclemente. Em Congonhas, foram abaixo os telhados de quatro hangares. Feriram-se três pessoas.
Em meio ao esforço que empreende para restaurar a autoridade dos comandos militares, arranhada depois que o governo dobrou os joelhos diante de sargentos amotinados, Lula não mede esforços para adocicar o pudim das Forças Armadas. Nesta terça-feira (3), depois de desautorizar o que autorizara na semana passada, o presidente prometeu tonificar o orçamento das Forças Armadas.
Deu-se numa cerimônia em que, acompanhado por Waldir Pires, um cada vez mais indefeso ministro da Defesa, Lula cumprimentou um lote de novos oficiais-generais das Forças Armadas. Ao discursar, o presidente disse que não "medirá esforços para continuar buscando os recursos e as condições necessárias para fazer avançar o reaparelhamento das três Forças".
"As fronteiras terrestres, as águas jurisdicionais e o espaço aéreo de um país com as dimensões deste nosso querido Brasil demandam Forças Armadas muito bem equipadas e adestradas para a defesa dos interesses nacionais", completou Lula. Não se ouviu uma mísera menção à crise aérea. Melhor assim.
Líderes da oposição foram recebidos nesta terça-feira (3) pelo presidente em exercício do STF, ministro Gilmar Mendes. Depois da audiência, informaram que o tribunal pode antecipar para a para a próxima semana o julgamento do mandado de segurança que pede a instalação da CPI do Apagão Aéreo.
A despeito do ânimo da oposição, não é certo que o pronunciamento do Supremo, previsto para o final do mês, seja abreviado. Há detalhes burocráticos que precisam ser observados. Exemplo: o STF aguarda pela manifestação do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sem o qual o julgamento não pode acontecer.
O relator do processo, ministro Celso de Mello, já oficiou ao procurador-geral. Tudo indica que Antonio Fernando opinará favoravelmente à instalação da CPI. Mas não é certo que sua opinião seja remetida ao Supremo no prazo exíguo imaginado pelas legendas de oposição.
Antes que o STF se pronuncie, segue a novela. Pressionado por PSDB, PFL e PPS para iniciar imediatamente os trabalhos da CPI, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) bateu o pé. Repetiu que nada será feito antes que os ministros do Supremo digam se concordam ou não com a posição de Celso de Mello, que, em despacho da semana passada, disse que as CPIs constituem um direito da minoria parlamentar, insuscetível de bloqueio por qualquer tipo de recurso apresentado no âmbito do Legislativo.
O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) é um homem de pouca sorte. Dá-se mal sempre que se aventura a defender os interesses do governo do amigo Lula. Desautorizado pelo chefe depois de ter sido autorizado por ele a dobrar os joelhos na negociação com os controladores de vôo militares amotinados, o ministro espeta na própria biografia mais um constrangimento.
O novo embaraço é fichinha, porém, se comparado a um outro a que Bernardo submeteu-se em maio do ano passado. Convidado a discursar como paraninfo numa formatura da Unifil (Universidade Filadélfia), em Londrina (PR), o ministro aventurou-se a enaltecer os feitos econômicos e educacionais do amigo. A estudantada vaiou-o do início ao final de sua fala (vídeo acima). Espera-se que Sua Excelência não tenha de discursar perante nenhuma platéia hostil nos próximos dias.
Durante três dias, os controladores de tráfego aéreo controlaram, além do vaivém de aviões, os movimentos do presidente da República. Súbito, Lula passou ao controle de outras mãos. É teleguiado agora pelos militares. Enquadrado pelos comandantes da Aeronáutica, do Exército e da Marinha, o presidente deu um rasante sobre o compromisso que o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) assumira, em seu nome, com os sargentos que, por meio de um motim, paralisaram os aeroportos do país por cinco horas.
Submetido a controle militar, Lula deu passa-moleque nos controladores de vôo. Na noite de sexta-feira (30), falando em nome do chefe, Paulo Bernardo prometera mundos e fundos aos sargentos amotinados. Agora, o governo dá uma banana aos insurretos que confiaram nele. Nesta terça-feira (3), depois de reuniu-se com representantes dos controladores de vôo, Bernardo disse que o governo deseja negociar, “mas não com a faca no pescoço."
Na sexta, o mesmo ministro oferecera, espontaneamente, a própria jugular aos sargentos rebelados. Pior: encostara na lâmina da faca também a garganta do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Junito Saito. Para restabelecer os pousos e as decolagens, Bernardo assinara um documento comprometendo-se em atender às reivindicações dos revoltosos.
Prometera, por exemplo, anular as punições administrativas impostas pela Aeronáutica a controladores militares. Prometera que não haveria sanções à anarquia de sexta. "Nós não falamos nada de anistia, nem hoje nem na sexta-feira, eu só vejo isso nos jornais", diz agora Paulo Bernardo.
Para refrescar a memória do ministro, convém revisitar o item número um do protocolo assinado por Bernardo na sexta: “O governo federal vai fazer revisão dos atos disciplinares militares tais como transferências, afastamentos e outros, envolvendo representantes de associações de controladores de tráfego aéreo ocorridos nos últimos seis meses, assim como assegura que não serão praticadas punições em decorrência da manifestação ocorrida no dia de hoje (30)”.
Bernardo prometera também aos amotinados: a) Implantação gradual de uma solução civil a partir de terça-feira (3); b) Abrir um canal de negociação sobre remuneração dos controladores civis e militares a partir de terça-feira (3). Na reunião que manteve hoje com os controladores, o ministro nem detalhou os planos de desmilitarização nem levou à mesa os números do prometido aumento salarial. Pior: alegando ter sido chamado por Lula, interrompeu o encontro pelo meio. Antes, esclareceu que o governo não toleraria novos tumultos nos aeroportos.
No Planalto, reunido com líderes partidários, Lula informou que a desmilitarização será conduzida não por Bernardo ou pelo ministro Waldir Pires (Defesa). Quem vai cuidar do assunto, disse ele, é o brigadeiro Junito Saito. Antes, tinha pressa. Agora, nem tanto. De resto, o presidente referiu-se aos controladores em termos desairosos. Prometeu ir à TV caso eles voltem a causar problemas.
No papel de “patrão”, Lula adota um tipo de comportamento que o sindicalista Lula cansou de condenar. Quando liderava as célebres greves do ABC paulista, na década de 80, Lula abominava o rompimento de acordos firmados nas mesas de negociação. Deve-se à pressão dos comandantes militares o fato de Lula ter esquecido o que dizia no passado. Na noite desta segunda-feira (2) já estava claro que Lula migrara do controle dos sargentos para a submissão aos militares (aqui e aqui).
Resta de todo o episódio a impressão de que, em meio ao caos, o presidente ainda não logrou executar um vôo solo, submetendo à sua própria vontade os destinos de uma crise aérea que parece longe do fim. Embora abespinhados, os controladores de vôo medem as palavras. Por ora, prometem uma Páscoa sem tumultos. Vão cumprir a palavra? Deus sabe!
O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), reuniu os líderes partidários em sua casa, na noite desta segunda-feira (2), para discutir a CPI do Apagão Aéreo e a crise militar desencadeada pela decisão do governo de negociar com sargentos amotinados. Ele fez aos líderes um resumo de uma conversa que teve com o brigadeiro Juniti Saito, comandante da Aeronáutica.
Mais cedo, Chinaglia almoçara com Saito. Levara consigo o líder da minoria na Câmara, deputado Júlio Redecker (PSDB-RS). No relato que fez aos líderes, o presidente da Câmara revelou ter encontrado um comandante da Aeronáutica receoso dos efeitos danosos que os benefícios salariais aos controladores de vôo militares desencadearão na tropa.
De acordo com o informe que Chinaglia fez aos líderes, Saito teme que a negociação com os sargentos amotinados gere um movimento de indisciplina nas Forças Armadas. Saito disse que, a exemplo dos controladores de vôo- cerca de 2.400, dos quais 80% são militares— há nas Forças Armadas (Aeronáutica, Exército e Marinha) algo entre 12.000 e 13.000 “sargentos especialistas”.
Para Saito, a concessão de gratificações aos sargentos que cuidam do controle de vôo pode disseminar nesse naco da tropa, que não se restringe à Aeronáutica e cujos contracheques encontram-se igualmente reprimidos, um movimento por melhorias salariais que os comandos militares terão dificuldades para conter. Mencionou, por exemplo, o caso de operadores de rádio, alguns deles trabalhando em condições adversas na região Amazônica.
Chinaglia informou aos líderes que vai telefonar para Lula nesta terça-feira (3). Solicitará do presidente que Saito e o ministro Waldir Pires (Defesa) compareçam à Câmara para prestar informações. Sua idéia é a de que os dois participem de uma reunião reservada com o colégio de líderes, que reúne deputados governistas e oposicionistas.
Os líderes do PSDB, Antonio Carlos Pannunzio (SP); do PFL, Onyx Lorenzoni (RS); e do PPS, Fernando Coruja (SC) insistiram no encontro realizado na residência oficial do presidente da Câmara na tese de que o agravamento da crise justifica a instalação imediata da CPI do caos Aéreo. Foram contraditados, porém, pelos líderes governistas.
José Múcio (PTB-PE), líder da bancada do governo, repetiu na reunião o que dissera mais cedo. Acha que, em vez de justificar a CPI, a crise desencadeada na sexta-feira demonstra a desnecessidade de uma investigação parlamentar. Avalia que restou demonstrado que o problema se restringe a um movimento sindical dos controladores. O líder do PDT, Miro Teixeira (RJ), antes favorável à CPI, disse que os contornos militares que a crise assumiu requerem que o Legislativo dê suporte a Lula.
Mantido o impasse, Chinaglia voltou a dizer aos líderes que não instalará a CPI antes da manifestação final do STF. Acha, porém, que, a despeito do desencontro em relação à CPI, a visita de Saito e Pires à Câmara servirá para munir os líderes de informações úteis acerca dos detalhes da crise. Ficou de procurar novamente os representantes dos partidos depois de se acertar com Lula.