Ichiro Guerra/PT Menos de 24 horas depois de Lula ter discursado pedindo ao PT que parasse de atirar em si mesmo para alvejar “os verdadeiros inimigos”, o diretório nacional do partido aprovou uma resolução contendo crítica ácida à condução da política monetária pelo Banco Central. Embora não peça explicitamente a substituição de Henrique Meireles, o texto anota que, para alcançar taxas de crescimento do PIB "que não sejam inferiores a 5%", “será necessário que equipes sintonizadas com os objetivos de mudança constituam o núcleo da área econômica”.
A resolução do diretório petista foi aprovada na tarde deste sábado (10). O partido declarou apoio ao PAC. Mas registrou que o êxito do programa “depende em boa medida da política monetária”. Acrescentou: “Entendemos que há condições para acelerar a redução da taxa de juros e criticamos, enfaticamente, o conservadorismo da mais recente decisão do Copom” (redução da taxa básica de juros em 0,25 ponto percenrual, em janeiro)..
Não há na resolução do diretório do PT uma única linha que possa ser lida como autocrítica. Ao contrário. O partido lista os triunfos que logrou alcançar em seus 27 anos de história –do combate à ditadura à reeleição de Lula e à vitória de Arlindo Chinaglia na Câmara—, sem mencionar as crises que protagonizou. Crises como a do mensalão e a do dossiêgate.
A encrenca provocada pelas "verbas não contabilizadas" da dupla Valério/Delúbio só entrou no texto como gancho para espicaçar o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). “Em Salvador”, escreveram os petistas na resolução, “saudamos a militância, o conjunto da esquerda e setores progressistas da Bahia, pelo significado extraordinário da eleição de Jaques Wagner governador deste Estado, derrotando um dos ‘caciques políticos’ que tudo fez para aprofundar a crise de 2005”.
Como a justificar as críticas, o PT apresenta-se na resolução como uma força autônoma em relação ao governo. “O PT pautará sua atuação por dois princípios: mobilizar a sociedade para apoiar a aplicação do programa de ação do governo e manter sua autonomia em relação a esse mesmo Governo. O Partido buscará ser um elemento de conexão entre a sociedade - os movimentos sociais em particular - e o governo”, diz o documento.
O partido volta a tocar, agora de modo oficial, num tema que vem inquietando o petismo desde as eleições presidenciais do ano passado: a democratização dos meios de comunicação. Onze em cada dez petistas acusam os meios de comunicação de ter realizado uma cobertura parcial da campanha do ano passado. Na resolução, o diretório do PT anuncia a intenção de promover uma “conferência nacional de comunicação”. Não menciona datas.
“A sociedade brasileira não aceita a interdição do debate sobre a comunicação social”, anota a resolução do PT. “Não aceita, tampouco, que se tente passar a idéia de que se trata de um tema de interesse estritamente partidário e/ou do governo Lula”. Entre os pontos que o partido deseja levar a debate estão o papel da Internet, a comunicação via rádio e TV, a imprensa escrita, a publicidade estatal, a Anatel e o Ministério das Comunicações, além da ação da Radiobras.
O que deseja o PT? São quatro os objetivos listados no documento: “a construção de um sistema público de rádio e TV; a importância de uma mídia privada progressista; a qualificação de nossa produção de conteúdos; e mudanças no marco institucional da comunicação para as organizações sociais”.
No campo político, o PT declara-se disposto a “trabalhar pelo fortalecimento dacoalizão” partidária que se formou a redor de Lula. Informa que tentará se reaproximar do PSB e do PC do B, legendas que apoiaram Aldo Rebelo na refrega da Câmara e, derrotadas, afastaram-se do petismo. Quanto à composição ministerial, o PT simula desprendimento: “A presença no ministério não é a única, nem necessariamente a principal plataforma de operação política do partido nos próximos quatro anos”.
Lula quer aprovar no Congresso uma emenda que acabe com o instituto da reeleição. Acha que vai chegar a 2010 em condições de influir na própria sucessão. Rebate com veemência a especulação de que flertaria com a idéia de alterar a legislação apenas para poder concorrer a um terceiro mandato consecutivo. Mas admite claramente a hipótese de disputar eleições presidenciais, de novo, em 2014.
As opiniões do presidente foram recolhidas dos diálogos que ele manteve durante sua passagem pela festa de aniversário de 27 anos do PT. Lula aparentemente desejava que suas idéias viessem a público. Abriu-as a mais de uma pessoa. Embora tivesse falado em reserva, longe de jornalistas, sabia, por óbvio, que suas palavras não seriam guardadas em segredo.
Na opinião do presidente, se tiver juízo, o PT ainda pode firmar-se como alternativa presidencial em 2010. Mesmo sem que ele esteja no páreo. Mencionou alguns nomes. O repórter conseguiu recolher dois: Jaques Wagner, governador da Bahia, e Marta Suplicy, potencial ministra da equipe do segundo mandato.
Não será, porém, uma tarefa simples. Lula deu a entender que, se necessário, não hesitará em apoiar um candidato de fora de seu partido. Citou o deputado Ciro Gomes (PSB-CE). Seja quem for o candidato, petista ou não, só terá chances efetivas, acredita Lula, se for hábil o bastante para construir em torno de si uma aliança pluripartidária que inclua o PMDB.
Lula não deixou dúvidas quanto à vontade que tem de chegar a 2010 como um grande eleitor. Condicionou a capacidade de influir na própria sucessão ao comportamento da economia nos próximos quatro anos. Ele se disse convencido de que o PIB irá crescer a médias superiores às registradas na última década. Não falou em percentuais.
Uma das pessoas que ouviram o presidente animou-se a provocá-lo, em tom de brincadeira. Disse que, se o país crescesse de forma consistente, Lula seria imbatível em 2010. Foi nesse ponto, segundo relato ouvido pelo repórter, que Lula afastou a idéia. Chegou mesmo a dizer que o Brasil não é a Venezuela. Uma alusão à decisão de Hugo Chávez de instituir em seu país a reeleição perpétua.
O presidente declarou, na seqüência, que se considera bem de saúde. Disse que, derrubada a reeleição, o próximo presidente teria “apenas” quatro ou cinco anos de mandato, a depender do prazo que vier a ser fixado na hora em que a constituição for modificada. Quem o ouviu ficou com a nítida impressão de que Lula cultiva o sonho de retornar ao Planalto na sucessão do seu sucessor.
Ao decompor a trajetória do criminoso nazista Adolf Eichmann, a filósofa alemã Hannah Arendt deu de cara com um fenômeno que ela batizou de “a banalidade do mal.” Nada mais adequado para definir o comportamento de Eichmann. Ao ser julgado, em Jerusalém, apresentara-se como mero cumpridor de ordens.
Eichmann relatara detalhes da rotina maligna da Alemanha hitlerista. Contara como eram planejados os deslocamentos de levas de judeus para as câmaras de gás. Rememorara, em minúcias, uma das reuniões que mantivera com oficiais da SS, a polícia nazista.
Ele os havia convocado para acertar a execução de mais uma leva de judeus. Reunira-se com eles por uma hora e meia. Ao final, serviram-se de aperitivos. Depois, almoçaram. “Uma pequena e íntima reunião social”, no dizer de Eishmann. A mais pura representação da “banalidade do mal”, nas palavras de Arendt.
Corta para o noticiário do Brasil da última semana. Quarta-feira. A TV derrama sobre o tapete da sala imagens inusitadas. Vídeo amador. Cenas de uma blitz policial de rotina, no centro de São Paulo. Brasileiros comuns, de costas, braços levantados, mãos contra a parede. PMs igualmente comuns distribuíam chutes, socos... Terminada a pancadaria, ninguém foi preso. Retiveram-se bolsas e mochilas. Empilhadas, viraram fogueira (assista ao vídeo acima).
Quinta-feira. Irrompe em cena um desses acontecimentos que produzem a sensação de que a vida fugiu ao controle. Ocorrera na noite da véspera. Os relatos estão por toda parte: rádio, TV, internet. Impossível não saber. Um grupo de marginais abordara, num subúrbio do Rio, a comerciante Rosa Cristina Fernandes. Queriam o carro dela.
Rosa não opôs resistência. Desceu. Tirou do veículo a filha Aline, 13. No instante em tentava destravar o cinto de segurança do filho João, 6, os bandidos arrancaram. E lá se foi João, dependurado do lado de fora do carro. Arrastaram-no por sete inesgotáveis quilômetros. Abandonaram-no numa rua sem saída, ao lado do Corsa sujo de sangue, corpo dilacerado, sem cabeça, ossos à mostra.
Em meio à brutalidade, espocavam as últimas notícias recolhidas da cena política. O PSDB encomendara pesquisa para saber o que o eleitor pensa dele. O PFL decidira trocar de nome. O PT lavava roupa suja em público e tricotava a anistia do Zé Dirceu. O PMDB, em dúvida entre Temer e Jobim, inquietava-se com a demora de Lula em ratear os cargos.
Assim como na rotina de Eichmann, o que espanta na realidade brasileira não é propriamente a anormalidade. Espantosa é a normalidade que resplandece em torno do inaceitável. É como se todos os discos de Cazuza tivessem arranhado num único verso, repetido à exaustão: "o tempo não pára... e as idéias não correspondem aos fatos!"
É como se o país tivesse sido condenado a assistir na TV a um vídeo sem fim, registrado por um cinegrafista nada amador. Mostra o Brasil oficial arrastando a alma do Brasil real pelas vias da insensatez. Exibe a banalização do mal levada às suas últimas conseqüências.
Angeli Em contato com o presidente do PMDB, Michel Temer (SP), o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) avisou que Lula deve chamá-lo na próxima semana, para discutir, finalmente, a participação do partido no ministério. A informação foi repassada a deputados peemedebistas, irrequietos a mais não poder com as delongas do presidente.
O aviso de Tarso caiu nos ouvidos da bancada do PMDB na Câmara como um bálsamo. Os deputados haviam sido alertados de que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), com quem travam uma queda-de-braço, aconselhara Lula a empurrar a negociação ministerial para depois de 11 de março.
Nesse dia, um domingo, o PMDB, reunido em convenção, definirá o nome daquele que irá presidir o partido pelos próximos dois anos. A Câmara quer a recondução de Temer. O Senado tenta emplacar Nelson Jobim, o ex-presidente do STF. Entre os dois, Lula prefere Jobim. Daí o alento com que os deputados receberam a comunicação de Tarso.
Entenderam-na como um sinal de que o presidente da República, a despeito da preferência pessoal, enxerga em Temer credenciais para falar em nome do PMDB. Não é bem assim. Mas é quase isso. Lula sabe que Temer não fala pelo PMDB do Senado. Renan deixou isso bem claro em visita que fez ao Planalto nesta semana.
O presidente também sabe que, no PMDB da Câmara, a maioria está com Temer. Desprestigiá-lo agora seria o mesmo que atear fogo num naco do partido que se encontra pacificado.
De resto, Temer deixou claro que não quer bulir com as trincheiras que os senadores Renan Calheiros e José Sarney (PMDB-AP) já abriram na engrenagem do Estado. A saber: o ministério das Comunicações (Hélio Costa) e a pasta das Minas e Energia (Silas Rondeau).
O que Temer deseja é definir o quinhão que caberá aos deputados. Ambicionam duas pastas. Mas tudo indica que se darão por satisfeitos com a acomodação de Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) na Esplanada. De preferência no ministério dos Transportes ou no da Integração Nacional.
O nome de Geddel já ronda o Planalto há semanas. Por ora, nem Lula nem seus auxiliares credenciados pronunciaram uma única palavra que soasse como um veto. Ainda assim, segundo informou aos deputados, Temer deixará o presidente à vontade para escolher outro nome. Nem poderia ser de outro modo.
Temer tenciona levar a tiracolo na audiência com Lula o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Acha que, procedendo assim, dará ao encontro contornos mais institucionais. De acordo com o roteiro que fixou com integrantes de sua bancada, Temer oferecerá a Lula a alternativa de submeter ao governo uma lista tríplice de peemedebistas. O nome de Geddel, obviamente, encabeçará a relação.
Além do PMDB, a inquietude com a demora de Lula em abrir a temporada de negociações ministeriais espraia-se por toda a coalizão governista. É mais intensa no PP e no PR. Os congressistas desses partidos não enxergam lógica na na tática do Planalto de adiar sucessivamente o início do funcionamento da engrenagem.
Deu-se num hotel de Salvador, num jantar em comemoração aos 27 anos do PT. Lula discursou por 30 minutos. Uma fala inflamada. Ouviam-no cerca 500 pares de ouvidos. A coisa toda soou como uma carraspana. O presidente cobrou de seu partido apoio efetivo ao governo. Rogou para que os petistas parem de se alvejar uns aos outros. Recomendou que enfrentem “os verdadeiros inimigos”.
Ensinou: "Vamos fazer as nossas disputas, mas não vamos perder de vista quem são os inimigos, ou eles nos destruirão. Nós adoramos atirar em nós mesmos." Disse sentir-se constrangido cada vez que, percorrendo as páginas dos jornais, se dá conta de que "as brigas entre nós têm mais espaço do que as coisas boas que o governo faz".
Lula ainda não viu nada. Neste sábado (10), em reunião de seu diretório nacional, o PT aprovará uma resolução com críticas aos juros altos e à defasagem cambial. Antecipando-se aos tiros do PT contra o governo do PT, Lula disse:
“Ninguém quer baixar os juros mais do que eu. Tem gente que não aceita os resultados da macroeconomia, mas vá perguntar aos economistas do PT se já estivemos numa situação tão favorável."
Referindo-se ao descalabro do mensalão, Lula utilizou um palanfrório incompatível com os termos usados na denúncia do Ministério Público contra a “quadrilha dos 40”. O que o procurador-geral Antonio Fernando chamara de “crime”, o presidente apelidou de “vacilações.”
Aquele que o procurador apontara como “chefe da quadrilha”, um dos pares de orelhas presentes ao jantar de Salvador, foi saudado por Lula. Chamou-o de “companheiro Zé Dirceu.” Um balde de água gelada na cabeça daqueles que, como o ministro Tarso Genro, outro par de orelhas atentas, esgrimem a tese da refundação do PT.
Além de Dirceu, Lula mencionou pelo nome o ditador cubano Fidel Castro, às voltas com problemas de saúde. Desejou-lhe um rápido restabelecimento e um “breve retorno” ao comando do governo de Cuba, momentaneamente confiado ao irmão Raul Castro.
A despeito das críticas ao petismo, Lula deu asas ao militante que traz enterrado dentro de si: “O vermelho do PT corre em minhas veias.” Pediu o apoio do partido ao PAC. E justificou a necessidade de estreitar relações com outros partidos.
"Se eu tivesse maioria absoluta [no Congresso], eu teria poder para fazer uma Lei Habilitante", disse, em alusão aos poderes que o Congresso venezuelano conferiu a Hugo Chávez, para governar por decreto por um ano e meio. Lembrou que, à falta de semelhante autorização congressual, precisa negociar com outros partidos. “É nisso que está a beleza da democracia, e graças a ela um operário chegou à Presidência da República". Ah, bom!
A fúria inauguratória de Lula submeteu-o a um constrangimento nesta sexta-feira (9). Ao lado do governador petista da Bahia, Jaques Wagner, o presidente participou da inauguração de uma fábrica da Nestlé, em Feira de Santana (BA).
Escalado para discursar durante a cerimônia, o prefeito do município, José Ronaldo (PFL), agradeceu a Lula os investimentos que seu governo realizou na Bahia. Mas acrescentou: "Agradeço ainda mais ao governador Paulo Souto [PFL, do grupo de ACM] pela inauguração da fábrica. Ninguém trabalhou mais para trazer esta unidade do que meu amigo Paulo Souto e isso tem que ser dito por uma questão de justiça."
Algo contrafeito, Jaques Wagner, que surrou Paulo Souto no primeiro turno das eleições baianas, viu-se compelido a reconhecer: "O governo passado trabalhou bem e trouxe a Nestlé para a Bahia. Eu apenas dei sorte de ganhar as eleições e participar da inauguração da fábrica."
Lula, por sua vez, voltou a discursar como se as caravelas de Pedro Álvares Cabral houvessem aportado em Porto Seguro, na mesma Bahia, em 2003: "Nós estamos vivendo um momento na economia brasileira, em que eu posso olhar na cara de cada um de vocês, empresários, políticos e trabalhadores, e dizer [que] não há momento na história econômica do Brasil em que a gente esteja vivendo um momento tão auspicioso para que a gente possa atrair investimentos, seja do capital interno, seja do capital externo."
O presidente aproveitou a passagem pela Bahia para participar também da cerimônia de início da exploração de uma reserva de gás. Mas o objetivo central da viagem não foram as inaugurações, mas uma reinauguração. Lula participa dos festejos pela passagem dos 27 anos do PT, um partido às voltas com a tentativa se reinventar.
Antes do discurso que faria num jantar organizado pelo petismo, o presidente antecipou o tom de sua fala. Disse que o povo revalidou a apólice do PT: "O povo deu uma chance enorme ao PT de dizer: 'olha, tome juízo e seja o partido grande que nós queremos que você seja'. Eu acho que o PT está maduro para isso".
Por ora, a maturidade petista produziu apenas uma guerra de suas correntes. Ainda não é possível prever se, depois de contabilizados os mortos e os feridos, será possível salvar um partido como o descrito por Lula.
Leonardo Wen/Folha Imagem Numa fase em que o PSDB tenta programar-se para o futuro, o governador Aécio Neves (Minas), uma das alternativas presidenciais do tucanato para 2010, afirma: “Não precisamos fazer a mesma oposição destrutiva que fazia o PT, que via vício de origem em tudo o que vinha do governo.”
Crítico de medidas pontuais inseridas no PAC, Aécio não se eximiu, em entrevista ao blog, de apontar também méritos no Plano de Aceleração do Crescimento de Lula: “Tem uma medida provisória para o setor de semi-condutores extremamente positiva”, exemplifica. “O alargamento dos prazos de financiamento do setor elétrico também vai trazer estímulos ao setor. Há também no plano investimentos em infra-estrutura que, embora não constituam novidade, são fundamentais”.
“Nós, do PSDB, não temos de ser como o PT, que, quando estava na oposição, via um vício de origem em tudo o que vinha do governo. Esse comportamento levou-os a cometer equívocos históricos”, afirmou o governador tucano.
“O PT foi contra o Plano Real, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, para citar dois exemplos. Havia uma decisão taxativa. Descartavam qualquer providência que viesse do governo, sem discussão. Não precisamos seguir o mesmo script”, acrescentou o governador.
Na opinião de Aécio, o reconhecimento de pontos positivos dá mais legitimidade aos críticos para cobrar o aperfeiçoamento de medidas impróprias. No caso do PAC, menciona como providência “absolutamente discutível” a definição de investimentos federais sem consulta prévia aos Estados. Acha que faltou “generosidade” ao governo.
“Nos dois últimos anos”, disse Aécio, “o governo dobrou o PIS e o Cofins cobrado das empresas de saneamento. Pagávamos 3,2% e estamos pagando 7,6%. Aí vem a proposta de fazer um grande mutirão para investir em saneamento. Ora, Minas está pagando anualmente R$ 150 milhões a mais para a União. Com esse dinheiro, o governo federal define sozinho as suas prioridades. Não seria mais racional que esse dinheiro ficasse no Estado, por meio de uma desoneração, para que nós investíssemos em saneamento?"
Para Aécio, o Brasil comete há anos um erro lamentável. “Nada a ver com Lula ou com Fernando Henrique. É um problema histórico”, afirmou. “Refiro-me à irracionalidade que prevalece na administração pública. Não há complementariedade entre o que os municípios e os Estados fazem e o que o governo federal faz. É um desperdício. O pouco que é feito se faz de forma absolutamente desconectada. Prevalece a visão paternalista de quem fez a obra.”
Aécio diz que o apoio dos governadores ao PAC depende exclusivamente de Lula. Referindo-se à pauta de reivindicações encaminhada pelos executivos estaduais ao Planalto, afirmou: “É muito simples o governo simplesmente dizer 'não' para tudo. Aí, obviamente, nós vamos ficar com muita liberdade de ação no Congresso. Mas a minha posição é a favor da convergência. É preciso compreender que temos de recuperar a federação. Se o presidente fizer um gesto nessa direção, será muito bom para ele próprio. Ele tem que compartilhar alguns investimentos com os Estados.”
Quanto ao futuro político do PSDB, Aécio disse que, antes de falar para o público externo, o partido precisa se “motivar internamente”. Algo que irá acontecer, imagina, com o já iniciado debate para a reformulação do programa da legenda.
“Estamos começando a superar a agenda interna negativa, natural depois de uma derrota eleitoral. O desafio do PSDB é continuar sendo a principal perspectiva de mudança e de sucessão em relação ao PT. Perdemos para o Lula em 2002, mas não perdemos essa condição. Perdemos de novo em 2006 e temos de continuar nos apresentando, com alguma naturalidade, como o escoadouro de insatisfações que virão.”
Efe Recém-nomeado “ministro” do papa Bento 16, Dom Cláudio Hummes, ex-arcebispo de São Paulo, criticou a Igreja Católica numa palestra que fez em Roma. Referiu-se especificamente às dificuldades dos católicos de reter fiéis em suas fileiras.
"Não se trata de lutar contra as seitas", disse o clérigo. Trata-se de entender por que os católicos não foram capazes de "conduzir até Jesus Cristo" aqueles que foram batizados em suas pias. "É como se nossa evangelização tivesse sido feita pela metade", lastimou.
Em suas novas funções, a principal atribuição de Dom Cláudio é cuidar da formação intelectual do clero, além de promover a formação religiosa dos fiéis. Acha que a Igreja terá de se aproximar mais do seu rebanho.
"Já não será possível concluir com uma bela festa o período do anúncio do Evangelho e dizer àquelas pessoas que voltaremos a nos ver em cinco anos”, disse, referindo-se ao período que separa o dia do batismo da data da primeira comunhão do católico. “Sabemos que essas mesmas famílias serão visitadas pelas seitas com um estilo próprio, feito também de ajuda material, a cada 15 dias."
Dom Cláudio não foi içado ao Vaticano por acaso. É na América Latina que o protestantismo de resultados age com maior desenvoltura. Em especial no Brasil. A reaproximação do clero com o rebanho, defendida por Dom Cláudio, pode atenuar a fuga de fiéis. Mas não vai estancar a sangria.
Os católicos prometem a vida eterna, num céu imaginário. Gente como a bispa Sonia e o bispo Macedo acenam com um paraíso mais imediato: a prosperidade material, aqui mesmo, na Terra. Entre um encontro pós-morte com o Padre Eterno e a utopia da geladeira cheia e do carro novo, as ovelhas vêm preferindo se agarrar à segunda hipótese.
A malta ainda não alcançou o nirvana. Mas os auto-proclamados bispos já desfrutam de fausto inaudito. É em meio a esta atmosfera diabolicamente adversa que o papa Bento 16 prepara-se para visitar o Brasil.
El Roto/El Pais O “Campo Majoritário do PT”, que abriga o grupo do deputado cassado José Dirceu, dobrou os joelhos. Acossado por petistas de diferentes tendências, lideranças da maioria petista decidiram negociar a cessão de espaços no comando partidário, como tática para tentar conservar sob seus domínios a presidência do PT.
Conforme noticiado aqui no blog, há dois dias, Lula prometera a um governador petista que jogaria o peso de sua influência na obtenção de uma solução negociada para a disputa por espaços na direção do PT. O presidente cumpriu a promessa. Sua ação jogou água numa fervura que alvoroçava o petismo desde o último final de semana (leia aqui, aqui, aqui e aqui).
Mercê dos recados de Lula e de uma reflexão sobre a conflagração do partido, o “Campo Majoritário”, que, como o apelido indica, vem exercendo o comando do PT de forma hegemônica, se deu conta de que não terá como se esquivar de fazer concessões.
Em privado, o próprio José Dirceu, espécie de eminência parda da maioria, afirma queo Campo Majoritário não pode mais “ficar fechado em si mesmo”. Diz que é “natural” a renovação do partido. Defende a criação de instâncias partidárias que “incorporem os cinco governadores [petistas] eleitos em 2006, os prefeitos e os parlamentares.” Advoga, de resto, a criação de um “conselho fiscal” a realização de “auditorias periódicas” nas contas do partido.
O que o “Campo Majoritário” não admite é a tese de “refundação” do PT, ressuscitada pelo ministro Tarso Genro (Relações Institucionais). Avalia que o vocábulo embute uma tentativa de “criminalizar” um grupo que, se teve falhas na condução do partido, também teve méritos. O principal deles, argumentam os majoritários, foi a tomada de decisões que tornaram possível a eleição (2002) e a reeleição de Lula (2006) à presidência da República.
Não fosse pela ação da corrente majoritária, afirmam os seus integrantes, Tarso Genro não seria ministro de Estado. Recordam que foi graças às derrotas que a maioria impôs às correntes minoritárias que o partido atenuou o ideário esquerdista que impunha a Lula um teto de 30% do eleitorado. Foram ao lixo bandeiras como ruptura com o modelo econômico, a moratória da dívida externa e o controle estatal do sistema financeiro.
Realçam ainda que foi a hegemonia do grupo que permitiu aprovar a resolução que alargou o leque de alianças partidárias do PT, incorporando legendas mais ao centro e até à direita do espectro político. Lembram que, em 99, a tese do “fora FHC”, que colocava o PT a um passo da ruptura institucional, foi aprovada por todos os diretórios estaduais do partido, exceto o do Paraná. Era defendida inclusive por Tarso Genro. O Campo Majoritário teve de suar para derrubar o slogam inconveniente num congresso do PT realizado no mesmo ano de 99. Prevaleceu com a estreita maioria de dois votos.
Neste sábado (10), em meio aos festejos de seus 27 anos, o PT reúne seu diretório nacional em Salvador. Durante o encontro, serão fixadas as regras que vão reger o 3º Congresso do partido, em julho. É nesse congresso que vai a debate o destampatório refletido nos documentos das distintas correntes abrigadas sob o guarda-chuva da legenda (leia aqui e aqui). O congresso deve aprovar também o encurtamento em um ano do mandato do atual presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP), marcando eleições internas para setembro.
Nesta sexta-feira (9), Lula participa de um jantar festivo. Fará um discurso. Sua assessoria informa que o presidente vai defender que o partido analise os seus erros com serenidade. Pedirá apoio da legenda ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). E, para demonstrar que há mais coisas na vida além da rotina partidária, Lula cumprirá, antes do jantar, um roteiro de inaugurações ao lado do governador petista da Bahia, Jaques Wagner. Aliás, a exemplo do presidente, o governador também acha que não é hora de o PT guerrear consigo mesmo.
No terceiro ato de Cimbelino, Shakespeare acomodou nos lábios do personagem Belisário um raciocínio de valor inestimável: “Ronca o cansaço em cima de uma pedra, enquanto a indolência acha duro o melhor travesseiro.”
Duros são também os assentos do plenário da Câmara. Rijos como chumaços de algodão. Escassas 24 horas depois de ter flagrado a soneca dos deputados Moisés Avelino (PMDB-TO), Devanir Ribeiro (PT-SP) e Cida Diogo (PT-RJ) as lentes do repórter Lula Marques presenciaram mais uma cena explícita de ronco remunerado.
Dessa vez, era Mussa Demes (PFL-PI) quem ressonava em meio ao expediente congressual desta quinta-feira (8). Vai ficando demonstrado que a indolência é uma moléstia, digamos, pluripartidária.
O deputado, não resta dúvida, é um trabalhador fora do comum. O brasileiro convencional, esse que acorda cedo e sacode pendurado ao balaústre do ônibus, cansa ao final do expediente. O congressista permite-se ficar fatigado antes do meio da tarde.
Levando-se em conta que a nova Câmara arrosta o seu terceiro dia de labuta, pode-se imaginar qual será o estado de ânimo de certos deputados ao final da legislatura. Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz!!!
Wilson Dias/ABr Interessado em acomodar Nelson Jobim na presidência do PMDB, Lula passou a cogitar a hipótese de acomodar Michel Temer (PMDB-SP) na Esplanada dos Ministérios. Sondado acerca do interesse do presidente, a primeira reação de Temer foi a de recusar a oferta. O deputado soou decidido a reeleger-se presidente de seu partido, ainda que tenha de disputar o cargo com Jobim.
A intenção de Lula chegou aos ouvidos de Temer, pela primeira vez, ontem (7). Deu-se numa conversa que o deputado teve com o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais). O diálogo foi, depois, resumido por Temer a congressistas que integram o seu grupo, que foram entrevistados pelo blog.
Temer foi a Tarso para verificar se haveria resistências à sua recondução ao comando do PMDB. Um plano que já fora noticiado aqui no blog. Ouviu do ministro que o presidente tem especial apreço por Nelson Jobim. Tarso disse que, ele próprio, como gaúcho, tem nutre simpatias pelo ex-presidente do STF. Mas declarou que o governo não se meteria numa eventual disputa interna do PMDB.
Conversa vai, conversa vem, Tarso insinuou a Temer que ele poderia ser aproveitado na equipe do segundo mandato de Lula. Foi uma observação cercada de cautelas. O ministro não mencionou o nome de Lula. Tampouco referiu-se ao nome da pasta. Temer lhe disse que seu projeto é mesmo o de continuar presidindo o partido.
Temer contou ainda a parlamentares de seu grupo ter sido procurado por uma terceira pessoa, para relatar-lhe um diálogo que tivera com o mesmo ministro Tarso Genro. Disse-lhe que o ministro falou explicitamente da cogitação de aproveitar Temer no ministério. De novo, esquivou-se de mencionar o nome da pasta. Mas realçou que a eventual nomeação dependeria da disposição de Temer de abrir caminho para Jobim.
A julgar pelos movimentos que fez nas últimas horas, a idéia de vir a ocupar um ministério não passa pela cabeça de Temer. O deputado agendou para segunda-feira (12) um ato público de lançamento de sua recandidatura à presidência do PMDB. Será em São Paulo, às 11h. Antes, Temer fechou um acordo com a bancada peemedebista de Goiás, que ameaçava lançar o nome da deputada Íris Araújo. Acertou-se que Íris será candidata a vice na chapa que Temer submeterá ao diretório nacional do PMDB no próximo dia 11 de março..
Nesta quinta-feira, Temer esteve também com o seu potencial rival Nelson Jobim. Tentou demovê-lo da idéia de disputar o comando do PMDB. Chegou mesmo a acenar com a hipótese de apoiar o nome de Jobim para presidir o partido no próximo biênio (2009-2010). Marcaram uma nova conversa para a próxima terça-feira. Mas Jobim não pareceu seduzido pela idéia de abrir mão de postular o cargo já.
Nos subterrâneos, o PMDB revive uma velha disputa que opõem sua bancada no Senado, liderada por Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP) à da Câmara, que órbita majoritariamente em torno de Temer. Renan e Sarney são contra a reeleição de Temer. Conspiram a favor de Jobim.
Temer informou ao seu grupo que tentará aparar as arestas do Senado nos próximos dias. Telefonou para Renan e Sarney. Pediu para conversar com ambos. Renan ficou de marcar uma data. Sarney já marcou. Receberá Temer na próxima segunda-feira (12). A hipótese de que ocorra uma pacificação é vista pelos dois lados como improvável.
A última edição da revista britânica The Economist traz uma reportagem sobre a disputa que resultou na eleição de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara. O título pendura a notícia numa interrogação: "Parlamento ou chiqueiro?"
O subtítulo trata de eliminar as dúvidas: "Uma campanha fracassada para limpar uma legislatura maculada". Na avaliação da revista, Chinaglia pode ter sido guindado a “um dos maiores e mais desregrados cargos, mas presidir a Câmara dos Deputados do Congresso do Brasil é um prêmio poderoso e muito valorizado.”
“A história irá julgar”, anota o texto, se Chinaglia “conseguiu restaurar a reputação da instituição, que está no fundo do poço.” A julgar pelo conteúdo da notícia, The Economist acha que a resposta da historiografia será negativa.
A reportagem sustenta que Chinaglia prevaleceu sobre Aldo Rebelo (PCdoB-SP) numa disputa apertada –18 votos de dianteira—marcada pela perversão: "O toma-lá-dá-cá paroquiano venceu a ética." De resto, o texto rememora as dores éticas do primeiro reinado de Lula.
Lembra que o presidente teve de jogar ao mar auxiliares de peso. Menciona especificamente o ex-chefão da Casa Civil, José Dirceu, acusado pelo Ministério Público de comandar “uma sofisticada organização criminosa”.
The Economist tem uma circulação que roça a casa de 1 milhão de exemplares. A essa altura, capitalistas do mundo inteiro ruminam a dúvida levantada pela revista. Cabe à nova direção da Câmara demonstrar que a Casa não é uma pocilga. É algo que não se faz com palavras. O esforço requer ação.
Submetido a uma lipoaspiração compulsória nas urnas de 2006, o PFL decidiu submeter-se a uma operação plástica. À procura de um novo rosto, mudou de nome. Chama-se agora PD (Partido Democrata). Vai mudar de direção. Busca dirigentes mais joviais.
Como interpretar a novidade? Ora, não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Na certidão de nascimento, o novíssimo PD continua sendo a velhíssima legenda de sempre. Uma filha do poder ditatorial da Arena com o oportunismo eleitoral da dissidência do PDS.
A pefelândia ascendera ao poder pouco depois da chegada das caravelas de Pedro Álvares Cabral. Mandada à oposição em 2002, perdeu o acesso à máquina do Estado, o seu porto seguro. E a nau do partido perdeu o rumo.
Sem um presidenciável que possa chamar de seu, o PFL foi às últimas disputas abraçado ao tucanato. Deu-se bem com FHC. Uma vez, em 94. Duas vezes, em 98. Afogou-se noutras duas tentativas. Com Serra, em 2002. Com Alckmin, em 2006.
Não é a primeira vez que o PFL tenta repaginar-se. Em maio de 95, ainda sob FHC, anunciara um projeto de nome pomposo. Chamara-o de “PFL 2000”. Previa a construção de um partido-potência. Estimava que, em cinco anos, a legenda teria 150 deputados e 30 senadores.
Decorridos onze anos, o sonho converteu-se em pesadelo. Dono da segunda maior bancada congressual em 95, o PFL escorregou para a quarta posição. Sem acesso aos cargos e às verbas públicas, seus quadros não param de definhar.
Como se fosse pouco, o PFL convive com o abandono de seu eleitorado tradicional. A tribo dos pefelês orgulhava-se da quantidade de votos que conseguia amealhar nos fundões do Brasil. Seduzida por benefícios como o Bolsa Família, a clientela das regiões Norte e Nordeste migrou para Lula.
Nos grandes centros, o discurso liberal do PFL ainda ecoa nos gabinetes refrigerados da grande banca e da fina flor do empresariado. Algo que serve à engorda de arcas de campanha. Mas que não chega a sensibilizar os verdadeiros donos do voto.
Em São Paulo, a liderança pefelê mais vistosa é Gilberto “Vagabundo” Kassab, que herdou a cadeira de prefeito do tucano José Serra. Em Minas, não há vestígio de um líder de renome que seja filiado ao PFL. No Rio, o drama é menos intenso. Ali, o nome mais festejado é o do prefeito César Maia. Tem combustível para vôos estaduais. Mas falta-lhe gás para cobrir extensões nacionais.
A despeito da inanição de votos, Jorge Bornhausen, presidente do PFL, anuncia que o partido fará um vôo solo em 2010. Falta-lhe, porém, um piloto. O último pefelista com cara de presidenciável foi Luiz Eduardo Magalhães. Morreu. E levou consigo para a cova o sonho de poder de seu partido.
Aprovado nesta quinta pela Executiva do PFL, o novo nome (PD) encontra-se pendente de confirmação da convenção do partido, marcada para 28 de março. O passo seguinte será a troca de comando. Sai Jorge Bornhausen. Entra, se tudo correr como planejado, um presidente mais jovem. Rodrigo Maia (RJ) ou ACM Neto (BA), por exemplo.
De novo: não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Como dizia Nelson Rodrigues, “o jovem ou é um Rimbaud ou um débil mental.” Tem “todos os defeitos dos mais velhos e mais um: a imaturidade.” O melhor conselho que Rodrigues oferecia aos jovens era de uma simplicidade desconsertante: “Envelheçam.”
Escaldado com as duas surras que levou de Lula em 2002 e 2006, o PSDB decidiu antecipar a preparação para as eleições municipais de 2008 e para a disputa presidencial de 2010. Reunida na noite de terça-feira (6), a direção do partido constituiu três grupos de trabalho.
O primeiro grupo irá coordenar uma pesquisa de opinião a ser realizada em todo país. Visa descobrir o que pensa o eleitorado a respeito do PSDB. Servirá de base para a formulação de um plano de mudança da imagem do partido, às voltas com uma crise de identidade. O trabalho foi confiado a três tucanos: Gustavo Fruet (PR), Antero Paes de Barros (MT) e Márcio Fortes (RJ).
Em reunião realizada na tarde desta quarta-feira (7), o presidente do PSDB, Tasso Jereissati (CE), decidiu contratar o sociólogo pernambucano Antônio Lavareda, dono da consultoria MCI, para ajudar na formulação do questionário e na análise dos dados que serão recolhidos pelos pesquisadores.
Na próxima segunda (12), Fruet, Paes de Barros e Fortes terão um encontro com Lavareda. Começarão a esmiuçar o questionário. Pretende-se que seja abrangente. Serão incluídas, por exemplo, questões acerca da era FHC, um período que o partido vem hesitando em defender nos palanques. No ano passado, por exemplo, o tucanato deixou-se enredar numa armadilha montada por Lula em torno dos pendores privatistas da legenda.
Um segundo grupo, integrado por Sérgio Guerra (PE) e Ronaldo César Coelho (RJ), fará uma radiografia da estrutura do PSDB em todos os Estados e municípios brasileiros. O objetivo é identificar as fragilidades regionais. Onde houver diretórios débeis, pretende-se seduzir lideranças de outros partidos e realizar campanhas para arrebanhar novos filiados.
O terceiro grupo constituído pela Executiva do PSDB recebeu a missão de atualizar o programa do partido, hoje sem bandeiras. Coube a José Aníbal (SP) e Marisa Serrano (MS) centralizar a coleta de opiniões dentro da legenda. Pretende-se envolver nessa parte do trabalho o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Planeja-se ainda realizar um ciclo de seminários regionais. Devem começar entre o final de março e o início de abril.
Como desfecho de todo o planejamento eleitoral, o PSDB renovará sua direção numa convenção programada para novembro. Nesse mês, encerra-se o mandato da cúpula chefiada por Tasso Jereissati. Busca-se um nome capaz de acomodar os interesses do partido nas eleições municipais de 2008, o primeiro encontro com as urnas depois do malogro da candidatura presidencial de Geraldo Alckmin. Por ora, emerge como favorito o senador Sérgio Guerra (PE). Move-se com desenvoltura entre os grão-tucanos FHC, Alckmin, José Serra, Aécio Neves.
Toda a estratégia tucana parte de uma premissa: para tornar-se competitivo em 2008 e 2010, o partido precisa renovar o seu ideário, aproximando-o do eleitor. Busca-se construir o que o tucanato chama de “um novo projeto nacional”. Daí a pesquisa de opinião. Tenta-se reaproximar a legenda da plataforma modernizadora que os tucanos acham que representavam no passado.
Avalia-se que, embora disponha de pelo menos dois presidenciáveis competitivos -Serra e Aécio-, o PSDB cavalga um ideário envelhecido. O partido ainda vive da fama do Plano Real, que trouxe a estabilidade monetária. Precisa de um novo ideário, capaz de se contrapor à pregação social de Lula.
Fez-se também no encontro da Executiva, na noite de terça, uma avaliação do PAC. O debate girou em torno de uma análise escrita por dois economistas: Samuel Pessoa e Ana Lobato. Concluiu-se que, diferentemente do que apregoa Lula, o Programa de Aceleração do Crescimento não será suficiente para impulsionar o desenvolvimento econômico. Se a aposta estiver equivocada, o tucanato já inicia sua jornada rumo a 2010 com o pé esquerdo.
Políticos em campanha são vendedores de sonhos. Eleitos, muitos se tornam pesadelos. Não podendo transformar a realidade, fogem dela. Alguns, como os três deputados acima, exageram. Foram pilhados pelo repórter Lula Marques, na tarde desta quarta-feira (7), justamente no instante em que buscavam no sono o alívio das misérias que assolam a hora do expediente.
O desempregado sonha com o emprego. O esfaimado com a geladeira cheia. O desabrigado com o teto. O assaltado com o socorro policial. O doente com o atendimento médico. O eleitor sonha com o dia em que será representado satisfatoriamente em Brasília. E quanto aos deputados Moisés Avelino (PMDB-TO, foto 1), Devanir Ribeiro (PT-SP, foto 2) e Cida Diogo (PT-RJ, foto 3), que fantasias habitarão os seus sonhos?
Os deputados aprovaram nesta quarta-feira (7) uma providência moralizadora. Extinguiram-se 1.050 cargos de confiança. As vagas atendiam pelo apelido de CNES (cargos de natureza especial).
Era, em verdade, um cabide no qual os deputados penduravam os seus apaniguados. Gente que entrava na folha salarial do Legislativo pela janela, sem concurso público. Os salários variavam de R$ 1.500 a R$ 8.200.
Contratados para prestar assessoria a órgãos técnicos da Câmara, muitos dos felizardos eram deslocados para os gabinetes de seus padrinhos. Em Brasília e nos Estados. Na prática, fugiam a qualquer tipo de controle administrativo.
A expulsão dos CNES da folha proporcionará uma economia anual de R$ 40 milhões. A decisão fora tomada sob Aldo Rebelo (PCdoB-SP), no ano passado. Decidiu-se passar os cargos na lâmina depois que eles freqüentaram o noticiário com cara de escândalo. Fez-se por pressão o que não havia sido feito por bom-senso.
O corte encontrava-se, porém, pendente de aprovação. Foi a voto agora por decisão de Arlindo Chinaglia (PT-SP), recém-acomodado na cadeira de Aldo. Numa Casa conhecida pela proliferação de deformações e privilégios, a extinção de 1.050 cargos não é muita coisa. Mas é um bom começo.
Folha Imagem A exemplo do que ocorrera em 2005, o emprego com carteira assinada caiu em 2006. Está-se falando da diferença entre a taxa de admissões e a de demissões. Em 2006, 1,229 milhão de brasileiros ganharam um emprego formal. O número é 2% menor do que o registrado em 2005, ano em que a criação de vagas formais já havia recuado 17,7% em relação a 2004.
Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (7) pelo Ministério do Trabalho. Demonstram que a vala de desempregados vem aumentando ano a ano. Como essa gente precisa encher a geladeira, deduz-se que cresce no Brasil o fenômeno da informalidade.
Com o pé no palanque, em 2002, Lula prometera gerar 10 milhões de empregos. Nos quatro anos do primeiro reinado, abriram-se 4,6 milhões de postos de trabalho. Ao discorrer sobre os números de 2007, o ministro Luiz Marinho (Trabalho) atribuiu o malogro à política de juros e câmbio do Banco Central.
De resto, Marinho vestiu-se de quiromante: "A minha aposta, se não acontecer nenhuma catástrofe natural, nós teremos um 2007 superior a 2006." Quem quiser, que dê crédito ao ministro. Quem preferir, pode aprofundar a reflexão.
Ao sentar-se na cadeira de presidente da República, Lula dizia estar decidido a enviar ao Congresso um projeto de reforma trabalhista. Era conversa fiada. Uma pena. A Consolidação das Leis do Trabalho, mais conhecida pela sigla CLT, tornou-se um anacronismo à espera de reforma. Uma reforma que, de novo, vai escorregando da agenda.
Mais da metade da mão-de-obra no Brasil foi empurrada para a informalidade. As centrais sindicais dão de ombros para o fenômeno. Sob o pretexto da defesa dos direitos dos trabalhadores, opõem-se ferozmente à reforma da CLT. Em verdade, agarram-se ao privilégio que carreia para as suas arcas pelo menos um dia do trabalho de todos os brasileiros com carteira assinada.
O empresariado comparece ao debate de olho na eliminação de coisas como o 13º salário e a multa de 40% sobre o FGTS para as demissões imotivadas. Calam-se sempre que alguém menciona a conveniência de bulir também no Sistema S, que transfere para os cofres da rede sindical do patronato algo como cinco dias do salário do trabalhador.
Lero vem, lero vai, a reforma trabalhista vai sendo remetida às calendas. E vai sendo tonificada a informalidade. Cresce também o número de microempresas de fachada. São firmas que só têm donos, sem empregados. Surgem por pressão de grandes empresas, que driblam o pagamento de contribuições sociais contratando os serviços de ex-empregados convertidos em empresários de mentirinha.
Pode-se lidar com o problema de duas maneiras. A mais fácil, adotada pelo ministro Luiz Marinho, é arrumar uma nova desculpa a cada novo número adverso. A tática, além de não resolver o problema, ofende a inteligência da platéia. Arrostar a reforma trabalhista pode não dar ibope. Mas não parece haver outra maneira de dar visibilidade à legião de trabalhadores que permanece à margem do sistema previdenciário e dos benefícios sociais.
O cidadão que o prefeito paulistano Gilberto Kassab escorraçou de um posto de saúde sob gritos de “vagabundo, vagabundo” trabalha desde 0s 10 anos. Nas eleições municipais de 2004, Kaiser Paiva Celestino da Silva votou na chapa José Serra-Gilberto Kassab.
Ainda com dores no dente de siso do lado esquerdo, Kaiser recebeu a repórter Laura Capriglione. Contou que sua oficina de placas –nos fundos de casa—foi à breca graças à lei municipa, que tenta conter a poluição visual.
O aluguel está atrasado. Vai toureando os credores graças a empréstimos de vi