Lula inicia fase ‘mercúrio’ de seu segundo reinado

Lula II está na bica dar o apito inicial. Vive-se aquele instante que antecede os grandes jogos. O time se ajeita para a fotografia. PT, PMDB e as legendas mensaleiras, braços cruzados, perfilam-se atrás, em pé. PSB e PC do B acomodam-se na frente, de cócoras. A torcida deve preparar o coração. Vêm aí fortes emoções.

A troca de caneladas começou na partida preliminar. Deu-se nos gramados da Câmara. Opôs dois times governistas: o de Arlindo Chinaglia e o de Aldo Rebelo. Houve fraturas. Algumas delas expostas. Antes do jogo principal, dessa vez contra o time da oposição, Lula divide-se entre o comando técnico e o departamento médico.

O presidente anunciou, em timbre jocoso, que vai curar os ferimentos com mercúrio. Embora não tenha especificado, sabe-se que não será mercúrio-cromo (ou, para alguns, mercurocromo). Utilizará “mercúrio-cargo”. A julgar pelos gemidos da equipe, a dosagem terá de ser cavalar.

A cena que se prenuncia não é dignificante. Mas representa um avanço em relação ao passado recentíssimo. Recorreu-se, no primeiro mandato, ao doping da remuneração pecuniária de consciências parlamentares. Tenta-se agora a velha terapia, iniciada sob Sarney, aperfeiçoada sob Collor e levada às últimas conseqüências sob FHC.

 

Está entendido que a torcida não aceita mais prescrições à mensalão. Reconheça-se, porque é de justiça, que Lula lida com uma base congressual fisiológica. Sem cargos, suas propostas empacarão no Legislativo. Mas o governo ofende a inteligência do torcedor ao vender o lero-lero de que compôs uma coalizão programática.

 

Lula está às voltas com uma aliança de feições problemáticas. Poderia entrar em campo com a disposição de um zagueiro à antiga. Do tipo que mira o calcanhar do adversário já nas primeiras entradas. Só para deixar claro quem manda nos arredores da grande da área. Mas o seu time só funciona à base de afago$.

Os partidos governistas não vêem no retrato presidencial que pende da parede de todas as repartições públicas um Rembrandt imaculado. Longe disso. Os “aliados” enxergam no retrato, debaixo da barba nevada, uma cara capaz de comportar-se com a mesma desfaçatez dos antecessores. Os remotos e os mais recentes.

O que fazer? Lula deveria condicionar a nomeação de ministros e gestores de autarquias e estatais à qualidade das biografias dos indicados. O problema não está na entrega de guichês e cofres públicos aos partidos. A encrenca reside nas segundas intençõe$ que se escondem sob currículos indefensáveis.

Recorde-se, à guisa de exemplo, que, sob Lula I, o PTB de Roberto Jefferson plantou nos Correios e no Instituto de Resseguros do Brasil, com a anuência de José Dirceu, o técnico de então, apadrinhados de reputação duvidosa. Conforme ficou evidenciado, não estavam interessados em promover o bem público.

Lula não tem pressa para acionar o apito. Algo que deixa o time irrequieto. A depender da escalação que está prestes a anunciar, o presidente pode ser compelido a auto-escalar-se para o gol. O segundo mandato pode converter-se num novo escândalo esperando para acontecer.