Lula inicia fase ‘mercúrio’ de seu segundo reinado
Lula II está na bica dar o apito inicial. Vive-se aquele instante que antecede os grandes jogos. O time se ajeita para a fotografia. PT, PMDB e as legendas mensaleiras, braços cruzados, perfilam-se atrás, em pé. PSB e PC do B acomodam-se na frente, de cócoras. A torcida deve preparar o coração. Vêm aí fortes emoções.
A troca de caneladas começou na partida preliminar. Deu-se nos gramados da Câmara. Opôs dois times governistas: o de Arlindo Chinaglia e o de Aldo Rebelo. Houve fraturas. Algumas delas expostas. Antes do jogo principal, dessa vez contra o time da oposição, Lula divide-se entre o comando técnico e o departamento médico.
O presidente anunciou, em timbre jocoso, que vai curar os ferimentos com mercúrio. Embora não tenha especificado, sabe-se que não será mercúrio-cromo (ou, para alguns, mercurocromo). Utilizará “mercúrio-cargo”. A julgar pelos gemidos da equipe, a dosagem terá de ser cavalar.
A cena que se prenuncia não é dignificante. Mas representa um avanço em relação ao passado recentíssimo. Recorreu-se, no primeiro mandato, ao doping da remuneração pecuniária de consciências parlamentares. Tenta-se agora a velha terapia, iniciada sob Sarney, aperfeiçoada sob Collor e levada às últimas conseqüências sob FHC.
Está entendido que a torcida não aceita mais prescrições à mensalão. Reconheça-se, porque é de justiça, que Lula lida com uma base congressual fisiológica. Sem cargos, suas propostas empacarão no Legislativo. Mas o governo ofende a inteligência do torcedor ao vender o lero-lero de que compôs uma coalizão programática.
Lula está às voltas com uma aliança de feições problemáticas. Poderia entrar em campo com a disposição de um zagueiro à antiga. Do tipo que mira o calcanhar do adversário já nas primeiras entradas. Só para deixar claro quem manda nos arredores da grande da área. Mas o seu time só funciona à base de afago$.
Os partidos governistas não vêem no retrato presidencial que pende da parede de todas as repartições públicas um Rembrandt imaculado. Longe disso. Os “aliados” enxergam no retrato, debaixo da barba nevada, uma cara capaz de comportar-se com a mesma desfaçatez dos antecessores. Os remotos e os mais recentes.
O que fazer? Lula deveria condicionar a nomeação de ministros e gestores de autarquias e estatais à qualidade das biografias dos indicados. O problema não está na entrega de guichês e cofres públicos aos partidos. A encrenca reside nas segundas intençõe$ que se escondem sob currículos indefensáveis.
Recorde-se, à guisa de exemplo, que, sob Lula I, o PTB de Roberto Jefferson plantou nos Correios e no Instituto de Resseguros do Brasil, com a anuência de José Dirceu, o técnico de então, apadrinhados de reputação duvidosa. Conforme ficou evidenciado, não estavam interessados em promover o bem público.
Lula não tem pressa para acionar o apito. Algo que deixa o time irrequieto. A depender da escalação que está prestes a anunciar, o presidente pode ser compelido a auto-escalar-se para o gol. O segundo mandato pode converter-se num novo escândalo esperando para acontecer.
Fortalecido pelo triunfo do petista Arlindo Chinaglia, que ajudou a construir, o deputado Michel Temer (SP) decidiu que disputar a reeleição à presidência do PMDB, o maior partido do consórcio governista. Com a decisão de Temer, foi ao telhado a pretensão de Nelson Jobim (RS) de comandar o PMDB a partir de março. Uma aspiração que conta com a simpatia de Lula.
Ex-presidente do STF, Jobim fora sondado, no final do ano passado, para ocupar o ministério da Justiça no segundo mandato de Lula. Refugou a oferta. Alegou que já ocupara a pasta sob FHC. E informou ao presidente sobre os seus planos de suceder Temer na presidência do PMDB.
Conforme noticiado aqui no blog, Jobim costura sua candidatura desde novembro de 2006. Parecia, à época, um candidato imbatível. Apresentava-se como único capaz de entregar uma mercadoria em falta no PMDB: a unidade partidária. Estava diante de um Temer derrotado, que acabara de descer do palanque presidencial de Geraldo Alckmin.
O próprio Temer reconhecia, em reserva, que não se sentia em condições de pleitear a recondução à presidência do PMDB. Nesse meio tempo, porém, o deputado julga ter costurado aquilo que Jobim prometia: a unidade.
Exceto por um grupo de quatro a seis senadores que, sob a liderança de Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), se declaram em oposição a Lula, todo o resto do partido está agora reunido sob o manto do governismo. De resto, Temer jogou todas as suas fichas na costura da aliança PMDB-PT, que vitaminou a vitoriosa candidatura de Arlindo Chinaglia à presidência da Câmara.
Aquele Temer derrotado de novembro não existe mais. Depois de participar das três primeiras reuniões do conselho político do governo, que reúne os presidentes dos onze partidos que dão suporte a Lula, o deputado considera-se inteiramente inserido na nova cena do PMDB, agora majoritariamente governista.
Insuflado por deputados que integram o seu grupo político, Temer convenceu-se de que, depois de todo o esforço que empreendeu, não faz sentido entregar um PMDB reunificado de bandeja para Nelson Jobim. Daí a decisão de disputar a reeleição para a presidência do partido.
Resta agora saber se, confrontado com o novo cenário, Jobim aceitará arrostar uma disputa no diretório peemedebista, que se reunirá no próximo mês de março. Jobim trocara o conforto da vitaliciedade do STF pela refrega partidária, Movia-o a perspectiva de tornar-se o vice na chapa de Lula. A divisão do PMDB não deixou.
Recusou o retorno à pasta da Justiça. E passou a cultivar o sonho de presidir o maior partido do Congresso (90 deputados e 20 senadores). Desejava o papel de protagonista na costura das reformas que estão por vir, em especial a reforma política. Seu sonho subiu no telhado. O grupo de Temer julgar ter maioria para prevalecer numa eventual disputa no diretório.
A uma semana de comemorar 27 anos de existência, o PT arrosta mais uma crise interna. Foi provocada por um documento escrito por Tarso Genro. Chama-se “Mensagem ao Partido”. No texto, o ministro das Relações Institucionais desanca o “Campo Majoritário” -tendência que comanda a legenda-, ressuscita a crise do mensalão e volta a esgrimir a tese de que só uma “refundação” autêntica recolocará nos trilhos o partido de Lula.
Abespinhados, líderes do “Campo Majoritário” pintaram-se para a guerra. A reação é comandada pelo presidente do PT, Ricardo Berzoini, cuja substituição é insinuada no texto de Genro. O contra-ataque virá na forma de um segundo documento. A redação final foi confiada a Marco Aurélio Garcia, devolvido à assessoria internacional de Lula depois de ter substituído Berzoini na presidência do partido durante a crise do dossiêgate.
A batalha dos documentos desaguará na próxima reunião do diretório nacional do PT. Será realizada em Salvador (BA), no dia 10 de fevereiro. Na noite da véspera, também na capital baiana, o PT festejará o 27º aniversário de sua fundação, num jantar com a presença de Lula. O presidente observa a encrenca à distância. Nos subterrâneos, dá corda a Tarso Genro. Mas evita envolver-se diretamente no arranca-rabo.
O documento de Tarso Genro está em sua terceira versão. A penúltima tinha cinco laudas. A última, que incorpora contribuições de luminares de correntes mais à esquerda do petismo, tem sete folhas. Foi vazada em termos ácidos. Afirma que o PT ainda não superou a crise ética que rói a sua reputação desde 2005. Uma crise, anota o documento, “de corrupção ética e programática.”
Não foi, nas palavras de Genro, algo “apenas conjuntural.” Não decorreu “apenas de desvios comportamentais.” Tampouco resultou de “meros abusos de poder e de confiança.” Foi provocada por “um modo de construção eleitoralista”, e pelo afastamento do PT “das organizações de base e do mundo do trabalho” e “da utopia socialista.”
O nome de José Dirceu (PT-SP) não é mencionado uma única vez. Tarso Genro chega mesmo a anotar que suas constatações não visam “incriminar indivíduos”. Mas a sombra do deputado cassado, chefe da “quadrilha dos 40”, nas palavras do procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, perpassa o texto do ministro. Dirceu é sócio fundador do “Campo Majoritário”.
É ele o dínamo de uma crise que, para Genro, o PT “ainda não superou”. Na gênese do tufão, o ministro enxerga “a hegemonia absoluta de um núcleo dirigente que ditava as regras partidárias” em processo decisório “alheio às instâncias do partido.” A “grave crise ética e política”, escreve Genro, chega mesmo a “ameaçar a sobrevivência do PT.”
Para superar a crise, além da substituição da atual direção do PT, o ministro defende a formação do que chama de “novo campo político” no interior do PT. Uma maioria partidária capaz de oxigenar as relações internas e restabelecer o diálogo entre as diferentes tendências abrigadas sob o guarda-chuva da legenda. Como antídoto contra as “verbas não contabilizadas” da era Delúbio Soares, prega que o partido volte a se financiar “predominantemente” com as contribuições de seus filiados.
Nesta sexta-feira (2), em visita a São Paulo, o governador petista da Bahia, Jaques Wagner, anfitrião dos festejos do aniversário da legenda e da reunião do diretório da próxima semana, cruzou, no aeroporto, com Marco Aurélio Garcia. Foi informado de que o texto de Genro, entalado na garganta dos atuais gestores do PT, terá uma resposta à altura. Marco Aurélio encaminhava-se justamente para um encontro do "Campo Majoritário", alvo de Genro. Acontece neste sábado (3), em São Roque (SP).
A guerra de textos revive a atmosfera do segundo semestre de 2005. Uma época em que, nas pegadas do mensalão, Genro trocou o Ministério da Educação pela presidência interina do PT. Substituiu a José Genoino, cuja reputação fora sugada pela crise. Tentou, “refundar” o PT em meio à tormenta. Foi esmagado pelo grupo de José Dirceu. Tenta agora o revide.
Ao ler o texto de Genro, Dirceu disse a um petista de sua confiança que o ministro vai grudar à sua biografia mais uma coça. Do resultado do enfrentamento depende o futuro do PT. Um futuro que a legenda tentará desenhar num Congresso partidário programado para julho.
*A ilustração do texto é do sítio do genial Orlandeli. Visite.
Conforme antecipado aqui no blog, há dois dias, Lula não está nem aí para a pressa dos políticos em partilhar os cargos da engrenagem pública. Para desassossego do consórcio governista, o presidente afirmou nesta sexta-feira (2) que o anúncio do novo ministério não virá tão cedo.
Em privado, Lula dissera que o ministério seria anunciado pouco antes ou até depois do Carnaval. Em sua manifestação pública, evitou fixar datas: "Não começa na segunda-feira, eu não tenho pressa de fazer a reforma... Em algum momento eu vou começar a chamar os partidos políticos e discutir as mudanças que tenho de fazer no governo.”
Diferentemente de Lula, os partidos da dita coalizão têm pressa. Muita pressa. Mais: as fissuras abertas com a disputa na Câmara aumentaram a fome por cargos. O preço da composição aumentou. O presidente, que na véspera dissera que trataria as feridas com “mercúrio”, agora minimiza a chaga.
"A base [governista] volta a se reunir, não tem ferida, se houver alguma rusga por conta da disputa ela será consertada pela nossa tradição de convivência democrática", disse Lula. "Se considerarmos a somatória dos votos do primeiro turno [Aldo e Chinaglia tiveram, juntos, 411 votos], esse é o potencial de votos que temos dentro da Câmara dos Deputados".
A exemplo de Lula, também o eleito Arlindo Chinaglia trata com menoscabo o alarido em torno das fissuras abertas na seara governista. Diz que houve apenas “uma discreta canelada”. Seja como for, convém a Lula realizar uma conta de subtração. Aldo Rebelo foi à disputa com o apoio do PFL. Não consta que a pefelândia tenha se convertido ao governismo.
Quanto aos outros votos, a adesão dependerá da repartição dos cargos. Sem pressa, por favor. Deixa o homem articular!
Menos de 24 horas depois de ter liberado a bancada de deputados tucanos para votar em Arlindo Chinaglia (PT) na disputa pela presidência da Câmara, o líder do PSDB, Antonio Carlos Pannunzio refutou a versão de que o partido estaria na corda bamba, hesitando entre o oposicionismo severo e o governismo moderado: “Esteja certo de que o partido, mais do que nunca, está coeso e consciente do sua responsabilidade como força de oposição ao governo.”
Em conversa com o blog, Pannunzio disse que os movimentos para a composição da Mesa diretora da Câmara nada têm a ver com a posicionamento do tucanato em relação ao governo Lula. Informa que entrará em contato com os líderes do PFL e do PPS para acertar a ação oposicionista conjunta das três legendas. “Nutro a expectativa de trabalhar em muita proximidade com PFL e PPS”, afirmou.
Pannunzio conta que a decisão de liberar os deputados do PSDB fora tomada na terça-feira (30), dois dias antes da eleição na Câmara. Deu-se numa reunião do líder com a bancada tucana. Analisaram-se os cenários da disputa. E deliberou-se que, se Gustavo Fruet (PSDB-PR) não passasse ao segundo round, cada deputado poderia optar livremente entre Chinaglia e Aldo, “faces de uma mesma moeda” governista.
Pelas contas de Pannunzio, a maioria dos 63 deputados tucanos votou em Aldo. Estima que algo como 20 a 25 tenham optado por Chinaglia. Foi o bastante para definir a eleição. Chinaglia prevaleceu sobre Aldo com uma diferença de escassos 18 votos.
O líder do PSDB reconhece que a acomodação do deputado Nárcio Rodrigues (PSDB-MG) na primeira vice-presidência da Câmara tonificou a simpatia de parte do tucanato por Chinaglia. PT e PMDB tinham a preferência na indicação do vice-presidente da Casa. E abriram mão em favor de Nárcio, um tucano que segue a liderança do governador Aécio Neves (MG).
“Eles tiveram a sabedoria de preservar o espaço para que nós tivéssemos participação na Mesa”, disse Pannunzio. “Isso contribui para a harmonia e para a governança interna do Legislativo. Não tem nada a ver com a nossa determinação de agir como força de oposição.”
Os governadores Aécio Neves (MG) e José Serra interferiram na decisão da bancada? Pannunzio conta que, na terça-feira (30), depois de reunir-se com os deputados, conversou com os dois. Informou-os acerca da decisão de deixar que cada um optasse livremente entre Chinaglia e Aldo caso Fruet ficasse pelo caminho. Não houve voz dissonante. O líder conversou também com o presidente do PSDB, Tasso Jereissati. De novo, nada a opor.
A despeito de todos os contatos, Pazzunzio afirma que os movimentos dos deputados tucanos foram definidos no âmbito da bancada, dentro do Legislativo. Diz que, no dia da eleição, não recebeu telefonemas nem de Serra nem de Aécio.
Por que participou de jantar em homenagem a Chinaglia? “Agradeço a oportunidade de explicar”, disse Pannunzio ao repórter. “Recebi convite do PMDB, para um jantar de confraternização da bancada do partido, na noite de terça. Líderes das outras bancadas também foram convidados. Cheguei, permaneci lá por 40, 50 minutos. Quanto eu estava me preparando para sair, chegou o Arlindo Chinaglia. Entrou, cumprimentou todo mundo. Cumprimentei o Arlindo e fui embora. Nada além disso. É maldade dizer que eu teria ido a um jantar de encerramento da campanha do Arlindo. É desrespeito”.
Todo o noticiário parece um monturo de abobrinhas diante de um relatório divulgado pela ONU nesta sexta-feira (2). O documento foi elaborado por um grupo de cientistas de países de todo o mundo. Esparramado em 21 páginas, o texto antevê um cenário de apocalipse ambiental para o fim do século.
Prevê-se que, na melhor das hipóteses, a temperatura da Terra subirá 1,8ºC até o ano de 2.100. No pior cenário, o clima médio do planeta subirá 4ºC. O gelo do Pólo Norte vai derreter. O nível das águas dos oceanos pode subir algo como 59 cm. E daí?
E daí que essas mudanças vão virar o clima de ponta-cabeça. Ondas de calor prolongarão os ciclos de seca em nacos do planeta. Trombas d’água, cada vez mais freqüentes, provocarão enchentes hediondas. Prevê-se que dezenas de milhares de pessoas terão de abandonar suas casas, compondo uma legião de refugiados do clima.
Em meio ao pessimismo, produziu-se uma boa notícia: os cientistas concluíram que há 90% de chance de o que aquecimento global observado nos últimos 50 anos tenha sido provocado pela ação do homem. Ou seja, está nas mãos da sociedade moderna a tarefa de evitar ou atenuar o pesadelo.
O que fazer? A primeira providência é reconhecer a existência do problema. A segunda é arregaçar as mangas. É dever de todos pressionar os governos para adotar providências que, por exemplo, reduzam o consumo de combustíveis fósseis.
Mas há coisas simples que você mesmo pode fazer. Coisas como optar por alimentos da estação, calibrar os pneus do carro e desligar completamente aparelhos eletrônicos em modo 'stand by'. Desdenhamos por tanto tempo da conservação do meio ambiente que agora teremos de cuidar do ambiente inteiro.
Caio Guatelli/Folha Imagem Poucos políticos festejaram tanto o triunfo do petista Arlindo Chinaglia quanto o deputado cassado José Dirceu (PT-SP). Embalado pela acomodação do companheiro de partido na cadeira de presidente da Câmara, Dirceu programa para o início de março o lançamento de uma campanha para tentar reaver os seus direitos políticos, anulados até o ano de 2014.
Em reserva, Dirceu revelou a petistas que privam de sua intimidade detalhes de sua estratégia. Para difundir a causa, levará à internet um sítio pró-anistia. Ali, será retratado como vítima de uma vendeta política. Venderá a tese de que seu mandato foi passado na lâmina sem provas de que tenha delinqüido.
Pretende levar à rede também manifestos de celebridades e intelectuais brasileiros e estrangeiros favoráveis à revisão de sua pena. Divulgará ainda as peças de defesa que seus advogados anexarão à ação movida no STF pelo procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza. Um processo em que é acusado de ter chefiado a “quadrilha dos 40”, que operou o mensalão.
Para legitimar a anistia, Dirceu tenciona protocolar na Mesa da Câmara, agora sob a batuta de Arlindo Chinaglia, um projeto de lei endossado por 1 milhão de assinaturas. Os advogados do deputado analisam os termos do projeto. Já verificaram que, pela lei, não bastam as assinaturas. Será necessário comprovar que os apoiadores existem.
Os signatários do projeto terão de fornecer nomes, endereços e números de títulos eleitorais. Dirceu diz que recorrerá ao auxílio de movimentos sociais como o MST, entidades como a UNE e sindicatos filiados à CUT. Acionada a rede pró-anistia, planeja instalar bancas de coleta de assinaturas em todo país.
O blog procurou o presidente da CUT, Artur Henrique Santos. Ele mandou dizer, por meio de sua assessoria, que ainda não foi procurado por Dirceu. Contatado, submeterá o pedido de ajuda à direção da central sindical. O repórter conversou também com João Felício.
Ex-presidente da CUT, Felício integra o diretório nacional do PT e faz a interface do partido com os movimentos sociais. Tampouco ele foi acionado por Dirceu. Acha, porém, que Dirceu não terá dificuldades em obter auxílio. “Ele sempre teve ótima relação com os movimentos sociais”, diz.
Dirceu trama a obtenção do apoio formal do PT à anistia. Não será simples. Exceto pelo Campo Majoritário, grupo a que pertencem o próprio Dirceu e o presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP), o restante das tendências abrigadas sob o guarda-chuva do PT torce o nariz para a idéia de vincular a sigla a um movimento de cunho pessoal.
O plano de Dirceu é levar o projeto da anistia à Câmara antes do recesso parlamentar do meio do ano. Afirma, em reserva, que dispõe do compromisso de Arlindo Chinaglia de levar a proposta a voto. Embora não pertença à corrente de Dirceu, Chinaglia, de fato, declarou, ainda em campanha, que não deixará de submeter ao plenário uma proposição que chegue à Casa escorada no apoio popular. “A decisão será do Parlamento, não minha”, diz ele.
Aos pouquinhos, Dirceu vai sendo reintegrado às atividades partidárias. Sua primeira aparição pública depois da eleição de Chinaglia será nos próximos dias 8 e 9 de fevereiro, em Salvador. Será palestrante de honra do seminário “Socialismo democrático e a esquerda na América Latina”. O evento marca o início dos debates que irão desaguar no 3º Congresso do PT, em julho.
No dia 9 de fevereiro, enquanto Dirceu estiver autografando um livro, resultado de palestra que fez em abril de 2006, o PT iniciará, na mesma Salvador, os festejos de seu 27º aniversário. A festa vai até o dia seguinte. Lula estará presente. Não se sabe, por ora, se Dirceu dará as caras.
Deu-se o inimaginável na Câmara: Lula foi à guerra com dois cruzadores: Arlindo Chinaglia e Aldo Rebelo. Na primeira batalha, estraçalharam o inimigo tucano Gustavo Fruet (PSDB-PR). No combate final, parte da soldadesca tucana, liberada pelos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) bandeou-se para as fileiras de Chinaglia. Com a ajuda do PSDB, o governo pôs-se a atirar em si mesmo.
Sob o trinfo de Chinaglia -261 votos contra 243- abriu-se uma fenda no governismo. Não é uma ferida pequena. Mede pelo menos 113 votos. É esse o tamanho da bancada governista que se opôs à eleição do petista Arlindo Chinaglia, vista por um naco da coalizão como parte de um projeto do PT e do PMDB para se impor como forças hegemônicas no segundo reinado de Lula.
Aldo Rebelo pulou para o segundo turno com 126 votos. Excluindo-se os 62 do oposicionista PFL, chega-se ao tamanho da chaga a ser administrada por Lula: 113 governistas insatisfeitos. Estão abrigados sob o guarda-chuva do PSB (28), do PDT (23), do PC do B (13) e de outros partidos que, embora acertados com Chinaglia pelo alto, entregaram parte de sua base (49) a Aldo. Esconde-se no PP o principal ninho de traidores de Chinaglia.
Lula não está alheio à fenda que se abriu no casco da coalizão. Na manhã desta quinta-feira (1), o presidente disse que pretende curar a ferida da Câmara com mercúrio. Não especificou o tipo do medicamento. Sabe-se, porém, que não ousaria usar, por ineficaz, o mercúrio-cromo. Vai aplicar mercúrio-cargo. É um santo remédio. Se bem administrado, logo, logo a ulceração estará cicatrizada.
A exemplo do governismo, também a oposição saiu da disputa avariada. Chinaglia amealhou 261 votos no segundo turno, 25 a mais do que os 236 que obtivera no primeiro round. De onde veio o reforço? Principalmente do PSDB. Mais precisamente do PSDB de São Paulo, pilotado por José Serra, e do PSDB de Minas, teleguiado por Aécio Neves. Não por acaso, os dois governadores tricotaram durante o almoço desta quinta, em Belo Horizonte.
Na primeira rodada, Aldo obtivera 175 votos. Terceiro colocado, com 98 votos, Gustavo Fruet (PSDB-PR) declarou apoio ao comunista, mais indentificado com as causas da "terceira via". Se todo o exército de Fruet tivesse odedecido à voz de comando do candidato, Aldo teria saltado para 273 votos. E vararia a noite bebericando o champanhe da vitória.
O diabo é que o tucanato, que tricotava com Chinaglia havia semanas, acertara-se com o petista na véspera. Prometera que, num provável segundo turno sem Fruet, carrearia para Chinaglia parte dos 66 votos tucanos. Deu a ele algo como duas dúzias de votos. Foram vitais. Sem eles, Chinaglia, que teve escassos 18 votos de dianteira sobre Aldo- teria amargado uma inesperada derrota.
Foram aos ares a unidade tucana e a imagem oposicionista do PSDB. Em compensação, foi à cadeira de primeiro vice-presidente da Câmara o deputado Nárcio Rodrigues (PSDB-MG), unha e carne com o governador tucano Aécio Neves (Minas). Nárcio ascendeu à Mesa da Casa empurrado por uma votação massiva. O apoio do PT repousa no alto do bolo de votos do apadrinhado de Aécio como cereja de uma inusitada aliança.
Tudo considerado, pode-se dizer que Lula fez barba (Renan Calheiros) e cabelo (Arlindo Chinaglia) na quinta-feira gorda do Congresso. Só não fez o bigode porque Chinaglia não deve sua eleição ao presidente. O Planalto viu-se compelido a jogar Aldo ao mar depois que Lula se deu conta, já na reta final da disputa, de que a teimosia de Chinaglia resultara numa candidatura viável.
Lula teve de engolir o PT. A seco. Engasgar com o tucano Fruet teria sido pior. Mas Chinaglia não era o nome dos sonhos de Lula. Menos pelo deputado, por quem o presidente até nutre certa afeição. Mais pelo que vem enganchado no triunfo de Chinaglia: o PT de São Paulo, por exemplo.
Para complicar, Chinaglia jogou na ante-sala de Lula um remoçado PMDB neo-governista. Depois do apoio dado a Chinaglia, esse pedaço do PMDB, que na campanha do ano passado estava no palanque de Geraldo Alckmin, não vê a hora de sentir o cheiro do mercúrio da enfermaria do Planalto.
Olhe bem a foto acima. Já olhou? Pois repare novamente. Aproveite. É uma imagem que, nos próximos quatro anos, você talvez não volte a contemplar. No dia da posse, a presença dos 513 deputados eleitos é obrigatória. Eles precisam jurar respeito à Constituição. Depois, nem todos voltarão a dar as caras no plenário. A maioria estará ocupada demais tentando salvar o Brasil.
No mundo da política, como se sabe, já não existem pecados originais. Ali, as transgressões são anteriores à memória. E o perdão das urnas por vezes transcende todas as culpas. Antigos pecadores convertem-se em santos. E, por santos, recebem autorização para continuar tentando.
Nesta quinta-feira (1), o Congresso recebeu dois santificados pecadores. Destacaram-se em meio a uma legião de almas imaculadas. No Senado, Fernando Collor de Mello. Na Câmara, Paulo Maluf. Retornam a Brasília envergando o título de campeões de votos em seus respectivos Estados.
Maluf julga-se portador de uma biografia irretocável, uma vida pública “cristalina e transparente”. Acha-se em condições inclusive de enrolar-se na bandeira da ética. Collor crê que amargou uma “humilhação” injustificável. Apresenta-se como um "cristão novo” no Legislativo, disposto a oferecer a sua experiência ao bem da coletividade.
Afora a bênção do eleitorado, Maluf e Collor têm recebido um tratamento privilegiado do Padre Eterno. Acossado por ações judiciais, o ex-prefeito paulistano ganhou a imunidade parlamentar. Condenado a um convívio perpétuo com Rosane Collor, detentora de segredos insondáveis, o ex-presidente obteve liberdade condicional.
Collor desfilou pelo plenário do Senado –o mesmo cenário em que sua cabeça foi passada na lâmina há 14 anos—de mãos dadas com a nova mulher, Caroline Medeiros, 29 anos. Abraçou-a. Beijou-a. Fez pose diante das câmeras (veja a foto acima). Quem viu o casal teve ganas de odiar a virtude. O pecado, não resta dúvida, é redentor.
Nem Collor nem Maluf terão dificuldades para se reambientar no Legislativo. O PT, que, no passado, lhes atirava pedras, hoje provê ótima companhia. Gente como Palocci e Genoino, por exemplo, já não anda de atiradeira em punho. Tornaram-se, eles também, alvos.
Em suas contas mais pessimistas, José Agripino Maia somava 33 senadores partidários de sua candidatura à presidência do Senado. Obteve 28 votos. Noves fora os votos que esperava amealhar na última hora, foi traído por cinco “companheiros”.
Renan Calheiros, favorito desde a largada, vinha sustentando que teria mais de 50 votos. Obteve 51. Deve a folga a uma façanha: logrou infiltrar na “fortaleza” do rival um cavalo-de-tróia em cuja barriga havia pelo menos cinco senadores do PSDB e até do PFL de Agripino.
Aos números: “fechados” com Agripino, PSDB e PFL têm 30 senadores. Alagoano como Renan, o tucano João Tenório dissera, às claras, que votaria em Renan. Restaram 29 oposicionistas. A esse contingente, somaram-se quatro votos do PMDB dissidente: Jarbas Vasconcelos (PE), Garibaldi Alves (RN), Almeida Lima (SE) e Mão Santa (PI).
Somando-se os 29 “oposicionistas” aos quatro peemedebistas que dissentiram de Renan, Agripino levou à sua contabilidade o patamar mínimo de 33 votos, cinco a menos do que obteve. A lógica indica que a traição veio de onde Agripino menos esperava.
Nenhum dos senadores que abriram a cisma no PMDB tinha razões objetivas para deixar de votar em Agripino. Jarbas opôs-se a Renan, por convicção. Garibaldi, do mesmo Estado de Agripino, por motivações regionais. Almeida Lima e Mão Santa, pelos pendores anti-Lula e por rusgas colecionadas na relação pessoal com Renan.
O mesmo não se pode dizer dos “aliados” que Agripino imaginava ter no PFL e no PSDB. A menos que os silvérios de Agripino tragam espontaneamente o rosto à janela, as traições morrerão no fundo da urna que recolheu os votos secretos dos senadores. O que não impede a proliferação das suspeitas.
Eis aqui os senadores que foram à bolsa de apostas do Senado na condição de traidores potenciais: Romeu Tuma (PFL-SP), Edison Lobão (PFL-MA), Efraim Morais (PFL-PB), Mário Couto (PSDB-PA) e Álvaro Dias (PSDB-PR).
Tuma anda incomodado com a ascensão de Guilherme Afif Domingos na pefelândia de São Paulo. Cogita mudar-se para o PMDB. Com o eventual voto em Renan teria recebido a chave da porta. Lobão, embora ainda enrolado na bandeira do PFL, é visto como um quinta coluna a serviço de José Sarney.
Efraim é primeiro-secretário da Mesa diretora do Senado, o posto mais importante depois da presidência. A eleição de Agripino lhe retiraria da cadeira. O tucano Mário Couto é unha e carne de Jader Barbalho, lugar-tenente de Renan. Álvaro Dias jurou fidelidade a Agripino. Mas as juras foram recebidas com um pé atrás mesmo no alto tucanato.
PS.: Em carta endereçada ao signatário do blog, o senador Edison Lobão (PFL-MA) anotou: "Devo dizer-lhe que me honro em ser amigo do senador José Sarney, mas ele não exige de mim nem me coloco a serviço de ninguém para a prestação de serviços subalternos. O que você agora faz, Josias, com toda desenvoltura, é tentar intrigar-me com o líder José Agripino. É triste, lamentável e até mesmo repugnante."
Feito o registro, informa-se ao senador Lobão que as suspeitas de traição são mencionadas por seus "companheiros" de "oposição". Não brotaram da cabeça do repórter.
O Senado acaba de reeleger o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) para o posto de presidente do Senado. Ele dirigirá a Casa por mais dois anos, até o final de 2008. Bateu com folga o adversário Agripino Maia (PFL-RN) –à esquerda na foto, por 51 votos contra 28. Houve um voto nulo e outro em branco.
Renan foi à disputa como candidato preferido de Lula. O confronto com Agripino, um oposicionista empedernido, forçou-o a assumir compromissos em relação à autonomia do Legislativo. Na retórica, aproximou-se de teses esgrimidas pela oposição –limitação das medidas provisórias, por exemplo. Tecla na qual Agripino também bateu. Na prática...
Bem, na prática Lula está dando saltos de alegria. Em privado, costuma referir-se a Agripino Maia com expressões de calão rasteiro. A idéia de ter o senador pefelista no comando do Senado provocava-lhe urticária. Lula, a propósito, telefonou para cumprimentar Renan assim que o resultado foi proclamado. Em entrevista, Renan tripudiou: "Cadê os votos que a oposição dizia ter?" Algo decepcionado, Agripino enxergou em sua derrota as digitais de Lula.
Contrariando o que havia prometido, Lula não vai anunciar o ministério do segundo mandato nos dias seguintes à eleição, nesta quinta (1), dos presidentes da Câmara e do Senado. Em privado, o presidente informou que os nomes da nova equipe só sairão pouco antes ou até depois do Carnaval. “Não tenho pressa”, disse.
A quarta-feira de cinzas, dia em que o país troca a folia pelo ritmo normal de trabalho, será no próximo dia 21 de fevereiro. A nova disposição do presidente chegou, nesta quarta-feira (31), aos ouvidos de líderes de partidos governistas. Houve certa exasperação.
É a quarta vez que Lula adia o anúncio do ministério. Prometera soltar os nomes até 15 de dezembro do ano passado. Adiou para o Natal. Tomou posse com a equipe antiga. E empurrou o anúncio para depois da recomposição das mesas das duas Casas do Congresso. Agora, joga a coisa para alguma data nos arredores do Carnaval.
Conforme foi noticiado aqui no blog, no final de semana, Lula iniciou nesta quarta (31) um ciclo de viagens destinadas a vender o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Foi a Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Em meio à azáfama, abriu janelas na programação para conversar sobre política.
Foi nesses diálogos que revelou, em reserva, os seus planos em relação à partilha de cargos. Disse estar sendo assediado pelos partidos. Algo que parece não incomodá-lo. Afirmou que traz o grosso do ministério na cabeça. Atribuiu a vagareza ao desejo de compor uma equipe que alie a representatividade política à qualificação técnica dos futuros ministros.
Alegou, de resto, que não está raciocinando apenas com os ministérios. Preocupa-se com o preenchimento de cargos estratégicos em autarquias e estatais. Quem ouviu o presidente saiu com a impressão de que não será surpresa se Lula protelar a remontagem do governo até março.
A demora impacienta os partidos políticos do consórcio governista. O blog ouviu o presidente de um desses partidos. Considerou a demora “injustificável”. Inquieta-se menos com a data do anúncio e mais com o fato de Lula não ter nem mesmo aberto a temporada de consultas políticas.
Já não sabe o que dizer aos congressistas abrigados sob o guarda-chuva de sua sigla. Torce para que o presidente faça um aceno nos próximos dias. Alheio à apreensão, Lula dedicou a quarta-feira a fazer o que mais gosta: inaugurar, discursar e apertar mãos.
Soltou a língua. Falou do PAC uma, duas, três vezes. Discorreu sobre o déficit da previdência. Parolou também acerca do biodiesel e do seu sonho de um Brasil potência. Nesta sexta, em visita a Santos (SP), repetirá a dose. Quanto ao ministério...
A família, como se sabe, é a "célula mártir" da sociedade. Há entre nós dois ímãs capazes de juntar os frutos de uma mesma árvore genealógica: o ataúde e o cargo público. O primeiro em função do magneto da partilha da herança. O segundo por conta da imantação da perspectiva de nomeações para cargos de confiança.
Nesta quarta-feira (31) o deputado-eleito Francisco Rossi (PMDB-SP) perambulou pelos corredores da Câmara com 17 parentes. Recebera da direção da Casa nove convites para a sessão inaugural da nova legislatura. E receava não ter como levar toda a parentela para assistir à solenidade de posse.
O signatário do blog parabeniza Francisco Rossi (ao centro na foto, de gravata) pela coesão de sua família. Acenderá uma vela para o deputado, desejando-lhe vida longa. E rezará para que Rossi não seja assediado pelas tentações nepotistas, tão encontradiças no Legislativo.
Sérgio Lima/Folha Imagem O alto comando da campanha de Arlindo Chinaglia (PT) realiza desde a noite passada o “arrastão do primeiro turno”. A expressão foi usada, em conversa com o blog, por um lugar-tenente do candidato petista à presidência da Câmara. Explicou que se trta de um esforço final para tentar assegurar a vitória de Chinaglia ainda no primeiro turno.
A eleição ocorrerá nesta quinta-feira, 1º de fevereiro. Será o primeiro ato dos 513 deputados, logo depois de empossados. Repassando a planilha de votos, os apoiadores de Chinaglia concluíram que há chances reais de definição da disputa no primeiro round. Pendurados ao telefone e em visitas a gabinetes da Câmara, o grupo pró-Chinaglia tenta “amarrar” votos tidos como duvidosos.
Os articuladores de Aldo Rebelo (PC do B), o outro governista que disputa o comando da Câmara, põem em dúvida a contabilidade de Chinaglia. Acham que a turma do rival tenta vender uma ilusão. Debruçados sobre os números da disputa, entre a noite passada e a manhã desta quarta (31), o grupo de Rebelo concluiu que a disputa irá, sim, ao segundo turno, a ser travado entre Rebelo e Chinaglia.
Será eleito o candidato que obtiver 257 votos. Nenhum dos postulantes revela os dados de que dispõem. Os apoiadores de Rebelo reconhecem que Chinaglia está em vantagem. Apostam, porém, que o favoritismo será anulado no segundo turno. Prevêem a adesão de todas as forças que se opõem ao petismo na Câmara.
Gustavo Fruet (PSDB-PR), que faz campanha apoiado pelo tucanato e pela chamada “terceira via”, joga suas fichas num derradeiro esforço que estaria sendo feito por Aécio Neves. O governador tucano de Minas teria arregaçado as mangas, para arrebanhar votos em quantidade suficiente para levar Fruit a um hipotético segundo turno contra Chinaglia.
Aécio, de fato, tem bala na agulha. É apoiado em Minas por uma coligação pluripartidária. Mas o grupo de Chinaglia desdenha do suposto envolvimento do governador. Alega que o deputado Nárcio Rodrigues (PSDB-MG), unha e carne com Aécio, só chegará à primeira vice-presidência da Câmara, como deseja o governador, se Chinaglia for eleito.
Explica-se: como segunda maior bancada, cabe ao PT indicar o primeiro-vice. O partido dispôs-se a abrir mão do posto em favor de Nárcio, o apadrinhado de Aécio. Mas pode, a qualquer momento, rever a decisão. Neste caso, indicaria para o segundo posto da Câmara um petista, não o tucano Nárcio. Assim, raciocinam os partidários de Chinaglia, Aécio daria um tiro no pé se recheasse o cesto de votos de Fruit.
Nas 24 horas que antecedem a batalha do plenário da Câmara, todos os prognósticos flertam com o imponderável. O voto, por secreto, caminha de mãos dadas com a traição. Nesta quarta (31), anunciou-se na Câmara a formação de um megabloco partidário. Reúne oito legendas, entre elas PMDB e PT. Ouviram-se protestos generalizados.
Juntos, os partidos cavalgam a impressionante marca de 273 votos. É mais do que suficiente para emplacar o próximo presidente da Câmara. Do ponto de vista formal, os partidos do superbloco apóiam Arlindo Chinaglia. O “arrastão” promovido pelos apoiadores do petista evidencia que esse apoio freqüenta o universo da teoria. Se fosse integralmente real, Chinaglia estaria, nesse instante, tomando água de coco à sombra de uma árvore.
BBC Em sessão extraordinária realizada em praça pública, o Congresso venezuelano, chamado de Assembléia Nacional, outorgou a companheiro Hugo Chávez poderes para governar por decreto pelos próximos 18 meses (um ano e meio). Na prática, os parlamentares despiram-se do poder que lhes foi outorgado pelo povo. Delegaram-no a Chávez.
O presidente da Venezuela foi autorizado a legislar, sozinho, sobre onze temas. A lista inclui as instituições do Estado, a participação popular, o exercício de funções públicas, os setores econômico e social, as finanças e os tributos, e os assuntos jurídicos. Ou seja, Chávez pode tudo.
E Chávez fará tudo. Já anunciou a pretensão de implantar na Venezuela a “revolução socialista do século 21”, seja lá o que isso signifique. Entre as providências que já está ensaiando estão estatizações e a eternização do princípio da reeleição presidencial.
O companheiro converteu-se no pior tipo de ditador. O ditador constitucional. A partir desta quarta-feira (31) Hugo Chávez comanda uma democracia relativa, irmã gêmea da ditadura absoluta.
O passar das horas, para certas pessoas, pode converter-se numa dolorida forma de tortura. O relógio do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), por exemplo, não tem mais ponteiros, tem espadas pontiagudas e afiadas. O ex-presidente do PSDB convive com a perspectiva, cada vez mais iminente, de tornar-se réu no STF.
Conforme já noticiado aqui no blog, Azeredo será denunciado no Supremo pelo procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza. Assim como fez com a "quadrilha dos 40", o procurador prepara uma denúncia contra os envolvidos no episódio do “valerioduto tucano”. Aguarda apenas a conclusão do relatório final das investigações da Polícia Federal.
Nesta quarta-feira (31), a PF ouviu, pela enésima vez, o publicitário mineiro Marcos Valério. Dessa vez, a inquirição centrou-se nas perversões mineiras, gênese do valerioduto petista. Os investigadores confirmaram que, em 98, na disputa pelo governo de Minas, as arcas da campanha tucana de Azeredo foram recheadas com repasses valerianos de cerca de R$ 11 milhões.
O dinheiro foi obtido por Marcos Valério. Valeu-se de um empréstimo fictício feito no Banco Rural. O mesmo expediente que usaria mais tarde para carrear R$ 55 milhões em verbas de má origem à tesouraria do PT, gerida à época por Delúbio Soares.
As espadas do relógio de Azeredo já não se pautam pelas horas. Medem o tempo em minutos, em segundos. O tempo do grão-tucano não passa. Para ele, o tempo voa.
Um fantasma assombra as noites de certos congressistas do PT. É a assombração deles próprios, quando eram puros e imaculados integrantes de uma legenda socialista. A alma penada ronda-lhes os sonhos, brandindo faixas com bordões inconvenientes. Coisas como "Abaixo a corrupção" e "Fora 300 picaretas”.
Um desses políticos em litígio com o próprio passado é Antonio Palocci. Ex-borboleta do petismo, Palocci protagonizou um inusitado retorno ao casulo, o túmulo da lagarta. Deixou atrás de si um rastro pegajoso de perversões.
Os encontros na mansão do lobby sexy, o superfaturamento da coleta de lixo em Ribeirão, as caronas em jatinhos companheiros, a violação da conta bancária do caseiro... Tanto fez, que sua cabeça virou adorno de bandeja.
Súbito, o eleitor de São Paulo ofereceu a Palocci a chance de uma segunda metamorfose. Nesta quarta-feira (31), quando o ex-ministro preparava-se para alçar novo vôo, agora como deputado federal, o passado pesou-lhe sobre as asas.
O Ministério Público de São Paulo protocolou uma nova ação judicial contra Palocci. Acusa-o da má gestão na prefeitura de Ribeirão Preto. Pede à Justiça o bloqueio dos bens do ex-homem forte de Lula. Além da suspensão de seus direitos políticos.
Palocci mandou dizer, por meio de sua assessoria, que a promotoria de São Paulo está bulindo com tema vencido. Alega que suas contas na prefeitura foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado.
É grande, é muito grande, é enorme a possibilidade de que essa nova encrenca dê em coisa nenhuma. Para começo de conversa, Palocci toma posse nesta quinta. Como deputado, tem direito a foro privilegiado. Só pode ser julgado pelo STF. E não foi ao Supremo que a promotoria se dirigiu.
A despeito da eventual ineficácia jurídica, a ação tem lá o seu significado político. Serve para lembrar que, assim como muitos outros colegas de partido e de Legislativo, Palocci assume nesta quinta um mandato diferente dos demais. É um mandato mal-assombrado. Palocci nao está só. Dos 513 deputados que tomam posse nesta quinta, nada menos que 73 estão encrencados com a Justiça.
Graças a Deus, o Brasil tem saído de buracos difíceis. Mas, graças ao Diabo, vem se metendo em crateras bem piores. Os sobreviventes, guindados à condição de observadores da própria tragédia, ainda têm de suportar as poses à beira do abismo.
Muitos, em sua espessa ingenuidade, não notam. Mas cada gesto ao lado do buraco, cada palavra, cada ponto de exclamação, cada frase é uma pose. Por vezes, uma pose converte-se em quadro memorável.
Alguns, diante do microfone, tentam soar mais profundos do que o abismo sobre o qual discorrem. Outros não se importam de pronunciar raciocínios rasos. Tão rasos que uma formiga pode atravessá-los a pé, com a água –ou a sensatez—pela altura das canelas.
É o caso do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL). O alcaide participou, no último domingo, do programa “Planeta Cidade” (TV Cultura). Permitiu-se filmar no interior de um fura-fila. Para quem não conhece, é um tipo de ônibus. Distingue-se dos demais pela má fama: foi inventado por Duda Mendonça, ainda em sua fase malufista, e encomendado sob Celso Pita, de triste memória.
Pois bem, a certa altura, o secretário dos Transportes do município, Frederico Bussinger, olhando a paisagem, notou que cruzavam com “algumas dezenas de motéis.” O chefe Kassab enxergou na constatação um gancho para fazer graça com o buraco da linha 4 do metro, aquele que sorveu sete vidas.
"Tem aquele motel ao lado do buraco do acidente do metrô que, quando veio o estrondo, imagina a zoeira que foi! Todo mundo saindo dos quartos...", diz Kassab diante das câmeras. “(...) Foi uma comédia, (...) apesar da tragicidade do momento."
A gracinha de Kassab foi ao Youtube. Assistindo-a (lá no alto), você se dá conta de que as partes mais importantes da fala de certas pessoas são as pausas. O diabo é que elas falam muito rápido. Acabam impedindo que se lhes aproveitem ao menos as pausas. Não há de ser nada. Tudo não passou de mais um lamentável "mal-entendido".
Wilson Dias/ABr O deputado Geddel Vieira Lima (BA) consolidou-se como o preferido da bancada de deputados do PMDB para tonificar a presença do partido na Esplanada dos Ministérios. O nome dele será levado formalmente ao Planalto assim que Lula declarar aberta a temporada de negociação ministerial. Algo que o presidente promete fazer depois da eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, nesta quinta-feira.
Em público, os líderes do PMDB desconversam. Em privado, confirmam a intenção de indicar Geddel para integrar a equipe de Lula. Há uma preferência pela pasta dos Transportes. Mas o partido se diz aberto a aceitar outro ministério, desde que seja considerado compatível com o poderio do PMDB, maior partido do consórcio governista.
Geddel é um neo-lulista. Amigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o deputado fez renhida oposição a Lula durante o primeiro mandato. Em maio de 2003, quando os senadores Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP) lideraram a adesão de uma ala do PMDB ao novo governo, Geddel vociferou contra. Tachou a negociação de fisiológica.
Comparou-a às composições políticas feitas na era FHC, tão criticadas pelo petismo. “Não vejo nenhuma diferença”, disse Geddel, em entrevista a Andrei Meirelles, veiculada em 19 de maio de 2003. “Os métodos são absolutamente os mesmos (...). É bom registrar que nós éramos tachados de fisiológicos, mas, quando o PT faz a mesma coisa, uma parte importante da mídia brasileira diz que é ideológico”.
Dias antes, em almoço que Sarney, então presidente do Senado, oferecera a Lula, Geddel discursara em timbre inamistoso. Considerara inapropriada a adesão do PMDB ao governo que se instalara havia quatro meses e meio. Crivou o anfitrião Sarney de ironias. O discurso rendeu a Geddel um telefonema de felicitações de FHC.
Rendeu-lhe também um novo apelido. Lula pespegou em Geddel a alcunha de “Babá do PMDB”. Uma referência ao radicalismo do então deputado Babá (PT-PA), que seria expulso das fileiras do petismo por discordar da linha “neoliberal” que Lula imprimira ao seu governo depois de derrotar o tucano José Serra nas eleições presidenciais de 2002.
Geddel recusa a pecha de incoerente. Aproximou-se do PT na campanha eleitoral do ano passado. Arquiinimigo do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), viu-se compelido a embarcar na canoa do petista Jaques Wagner, cuja eleição para o governo da Bahia interrompeu um domínio de 16 anos do carlismo na política baiana. Devolvido à Câmara, Geddel associou-se à candidatura de Arlindo Chinaglia (PT-SP) à presidência da Casa. Uma opção referendada depois pela maioria da bancada peemedebista.
Ao aliar-se ao PT baiano, Geddel julga ter “repactuado o contrato político” que mantém com o povo de seu Estado. Diz que agiu às claras. Explicitou sua opção na propaganda eleitoral de rádio e televisão. Alega que, ao reelegê-lo para a Câmara, seus eleitores avalizaram a aliança que firmou com o petismo.
Embora inimigos, Geddel e ACM coabitaram a aliança partidária que se formou em torno de FHC. Foi uma convivência marcada pela tensão. Até hoje, ACM diz e repete que Geddel é “ladrão”. Chegou a distribuir na Bahia e em Brasília um vídeo intitulado “Geddel vai às compras.” O filme insinua que a família Viera Lima enriqueceu ilicitamente.
Geddel refuta a insinuação. Diz que a Receita Federal vasculhou a sua vida e a de seus familiares. Sustenta que, depois de mais de um ano de investigação, o fisco atestou a regularidade do patrimônio familiar. Lembra que ACM, em contrapartida, teve de renunciar ao próprio mandato para não ser cassado no episódio da violação do painel do Senado, na votação que resultou na cassação do ex-senador Luiz Estevão.
Além da nomeação de Geddel, a bancada peemedebista da Câmara ambiciona um outro ministério. Qualquer um. Se for atendida, Lula passará a dispor de cinco ministros peemedebistas. Hoje, o PMDB já controla as pastas das Minas e Energia, das Comunicações e da Saúde. Os postos foram preenchidos por apadrinhados dos senadores Sarney e Renan. Os deputados julgam-se sub-representados na coalizão. Daí a reivindicação de mais duas pastas. Lula sinaliza, em privado, que só vai dar mais uma. Cogita, de resto, retirar a Saúde do PMDB.
Último partido a se definir na Câmara, o PDT decidiu, nesta terça (30), apoiar a candidatura de Aldo Rebelo (PC do B) ao comando da Casa. Significa dizer que, a 72 horas da eleição, o cesto do comunista foi adensado em 23 votos. Numa disputa renhida, pode significar o carimbo do passaporte de Rebelo para o segundo turno.
Isso, evidentemente, se todos os pedetistas respeitarem a decisão da bancada, aprovada por 17 votos contra seis. O apoio a Rebelo veio enganchado em uma segunda decisão: o PDT decidiu incorporar-se ao bloco parlamentar que reúne PSB e PC do B, outras duas legendas governistas aliadas a Rebelo.
O PDT deseja seduzir outras legendas para o bloco –PV, PMN, PAN, PHS e PSC. Por ora, só o PV aderiu. Confirmada a junção de todos, o bloco terá 92 deputados. Uma bancada maior que a do PMDB, hoje com 90 deputados. Para não ficar atrás, também o PMDB cogita compor um bloco com outros partidos. Bancadas maiores, de partidos ou de blocos, significam assentos mais vistosos na próxima mesa diretora da Câmara.
Em meio às derradeiras movimentações partidárias, o deputado-eleito Ciro Gomes (PSB-CE) voltou a pregar a unidade do consórcio governista na disputa pela presidência da Câmara. Acha que, ao dividir-se entre Arlindo Chinaglia (PT) e Aldo Rebelo (PC do B), o governismo flerta com o azar.
Não há, porém, o menor sinal de que Chinaglia ou Rebelo venham a abrir mão de suas respectivas pretensões. Junto com Gustavo Fruet (PSDB-PR), os dois rivais governistas reservaram um naco de seu tempo, nesta terça (30), para pedir votos aos novos deputados.
Ag. Câmara Prevaleceu o bom senso. A Executiva Nacional do PT decidiu abrir processo disciplinar contra os dois “aloprados” que ainda permanecem abrigados em seus quadros. Oswaldo Bargas e Expedido Veloso serão julgados pelos diretórios municipais a que se encontram filiados. O primeiro, em Santo André (SP). O segundo, em Brasília (DF). Serão expulsos? O tempo e a conveniência dirão.
Como bom senso e petismo são coisa que não costumam caminhar juntos, o partido decidiu empurrar com a barriga o caso de Bruno Maranhão (foto), aquele dirigente petista que comandou a invasão ao Congresso, seguida de quebradeira. Há um processo disciplinar aberto contra Maranhão. Mas ele, até agora, não foi ouvido, para defender o indefensável. Por isso, continua integrando o Diretório Nacional do PT. Até quando? De novo, o tempo e a conveniência dirão.
A imagem foi convenientemente produzida para inspirar pena. O ex-juiz Nicolalau deixou a carceragem da Polícia Federal, em São Paulo, estirado numa maca. Diz-se que a saúde de Lalau anda debilitada. Se é assim, argumenta o Ministério Público, ele deveria cumprir os 26 anos de cana a que foi condenado num hospital penitenciário.
A Justiça, porém, achou melhor devolvê-lo ao aconchego da prisão domiciliar, na confortável mansão do bairro paulistano do Morumbi. Eis aí um benefício que muitos prisioneiros anseiam. Mas poucos, muito poucos, pouquíssimos conseguem obter.
Como previsto, Lula reuniu-se nesta terça-feira (30) com os presidentes dos 11 partidos que compõem o consórcio governista. Escalado para informar aos jornalistas o que foi discutido a portas fechadas, Michel Temer (SP), presidente do PMDB, disse ter ficado “claríssimo” que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) “não é um projeto acabado”. O governo está “aberto a discussões.”
Segundo apurou o blog em conversa com outros participantes da reunião, a disposição de Lula para acatar modificações ao plano recém-lançado foi entendida como mero recurso de retórica. De fato, o presidente não exclui a hipótese de incorporar sugestões à periferia do plano. Deixou claro, porém, que espera contar com os partidos governistas para preservar no Congresso “a espinha dorsal” do PAC.
Lula repetiu no encontro algo que ministros como Tarso Genro (Relações Institucionais) já vinham declarando publicamente. Para o governo, o PAC prevê investimentos num conjunto de obras que, por coerentes, não comportariam modificações.
O presidente classificou de “naturais” as reivindicações dos governadores. Disse que era previsível que reivindicassem o repasse de mais dinheiro para seus Estados. Mas, de novo, deu a entender que terá enormes dificuldades para atendê-los. Em declaração feita no Rio, a ministra Dilma Rousseff foi mais explícita. Disse que não há como repartir a arrecadação da CPMF com os Estados.
Na opinião de Lula, o mais conveniente seria avançar na definição de uma reforma tributária mais ampla. O diabo é que os governadores, às voltas com necessidades mais urgentes, buscam um alívio imediato dos cofres que administram. De resto, embora todos exaltem a conveniência de reformar o modelo tributário, ninguém sabe ao certo do que se trata. Os que têm idéias a respeito do tema divergem entre si. Outros nem idéias têm.
Assim, ao dizer que está aberto a aperfeiçoamentos do PAC, Lula apenas discorre sobre o óbvio. Caberá ao Congresso converter em lei as medidas provisórias e os projetos de lei que compõem o plano. E, no Legislativo, leva quem tem mais votos. O governo supõe dispor de maioria.
Na aparência, a supremacia governista é real. Porém, para que ela se traduza em votos, será preciso curar as feridas abertas com a disputa pela presidência da Câmara e, sobretudo, ratear cargos e verbas. Algo que Lula só fará depois da definição das presidências das duas Casas do Legislativo. Se desatendidas no rateio ministerial, as legendas governistas tendem a opor maiores resistências ao PAC.
Durante a reunião desta segunda, Lula disse acreditar que as divergências na Câmara serão automaticamente superadas depois de quinta-feira, dia em que os deputados escolherão o comandante da Casa para o biênio 2007-2008. Quanto ao ministério, o presidente foi lacônico. Limitou-se a repetir que cuidará “da composição do governo” depois das batalhas pelo comando do Legislativo. Não mencionou nem datas nem nomes.
O Palácio do Planalto enviará nas próximas semanas ao Congresso o projeto de lei que cria o fundo de previdência da União. O texto limita as aposentadorias no setor público a R$ 2.800, o mesmo teto imposto aos trabalhadores da iniciativa privada. Quem quiser uma aposentadoria maior, terá de contribuir para o novo fundo. Porém, as novas regras valerão apenas para os novos servidores, contratados após a aprovação do projeto no Congresso.
O fundo de previdência do serviço público foi criado na reforma constitucional da Previdência, aprovada em dezembro de 2003, primeiro ano de mandato de Lula. O início de seu funcionamento depende de regulamentação. Algo que o governo vinha empurrando com a barriga e resolveu fazer agora.
Hoje, diferentemente dos trabalhadores de empresas privadas, os funcionários públicos aposentam-se com vencimentos integrais. Em princípio, pretendia-se impor o teto de R$ 2.800 e as contribuições adicionais para o fundo de previdência a todos os servidores públicos contratados a partir de 2004 (cerca de 45 mil pessoas). Mas o governo desistiu da idéia.
Optou-se pela levar ao projeto de lei uma versão mais tímida, impondo as novas regras apenas aos servidores que sentarem praça no governo depois da aprovação da regulamentação do novo fundo. O acanhamento foi ditado por razões financeiras. Embora traga benefícios às contas públicas ao longo dos anos, a criação do fundo de previdência da União impõe ao Tesouro gastos adicionais no curtíssimo prazo.
Projeções realizadas pelo governo indicaram que a inclusão dos servidores contratados desde 2004 custaria aos cofres públicos mais de R$ 10 bilhões. Por que? Incorporados ao fundo, os servidores deixariam de recolher a contribuição previdenciária de 11%. De resto, além dos servidores, também a União terá de pingar no fundo de previdência a sua parte no bolo que financiará a aposentadoria dos servidores acima do limite de R$ 2.800. Daí o governo ter optado pela versão menos ambiciosa.
Lula decidiu também baixar uma medida provisória transferindo cerca de R$ 18 bilhões Tesouro Nacional para os cofres da Previdência. O objetivo é corrigir parte do déficit previdenciário relativo a benefícios sociais criados pela Constituição de 88 –a aposentadoria de trabalhadores rurais que não contribuíam para a Previdência, por exemplo.
A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) informou que os gastos sociais não serão mais contabilizados como déficit. "É computado como déficit previdenciário uma série de políticas públicas, como o subsídio ao idoso e toda a política de aposentadoria rural.” A partir de agora, disse ela, esses “investimentos em política social” passarão a ser contabilizados como despesas do Tesouro, não da Previdência.
Alan Marques/Folha Imagem Em discurso permeado de críticas à grande imprensa, o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) acusou a mídia de São Paulo de realizar uma cobertura parcial da tragédia da cratera aberta na linha 4 do metrô paulistano. Enxerga por trás do noticiário o "interesse de preservação da elite política de determinada região".
Genro evitou mencionar os nomes dos tucanos Geraldo Alckmin, ex-governador, e José Serra, atual governador de São Paulo. Esmerou-se em realçar, porém, o que julga ser um esforço midiático para não expor os responsáveis pelo surgimento de um buraco que produziu sete cadáveres.
"Pelas informações que temos recebido, [o desastre] não tem responsáveis, a gente não sabe quem é o culpado, o que ocasionou aquilo, porque o Estado não fiscalizou", disse Genro. “Aquilo que é um processo de gestão que se transformou num processo da natureza, num acidente sem nome, sem responsável, e não existe nenhum tipo de cobrança a respeito da responsabilidade".
O discurso de Tarso Genro foi proferido nesta segunda-feira (29), diante de um público de 400 pessoas. Deu-se na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, durante seminário sobre reforma política, pacto federativo e legitimidade parlamentar. As críticas ao comportamento da imprensa não se limitaram à cobertura do desastre do metrô de São Paulo.
Genro acusou a imprensa do eixo São Paulo-Rio de tentar pautar a reforma política. Esquivou-se de mencionar nomes de veículos de comunicação. Disse apenas que a imprensa paulista e carioca "enxerga as necessidades, as questões institucionais a partir dos interesses de seus Estados".
O ministro afirmou que, a seu juízo, que não cabe aos meios de comunicação exercer o monopólio da fixação dos rumos da reforma: "A agenda não pode vir apenas dos poderes midiáticos, que têm o poder de multiplicar a informação, mas deve ser uma conexão da sociedade com o parlamento, para que suas impurezas e erros sejam bloqueados por um sistema político renovado."
Ao discorrer sobre os escândalos que tisnaram o primeiro mandato de Lula, Genro insinuou, de novo, que a imprensa realizou uma cobertura eivada de parcialidade. Mais uma vez, eximiu-se de citar nomes. Disse que o noticiário promoveu uma “cruzada” contra o Legislativo, passando à opinião pública a impressão de que erros individuais desqualificavam todo o Congresso.
Na opinião do ministro, sempre que as CPIs evoluíam para descobertas de malfeitos praticados por pessoas não vinculadas ao governo as denuncias da imprensam cessavam. "Não estou falando da informação que transitou, mas da pouca informação que transitou e que jogou a população contra a instituição".
Genro incitou os políticos e os formadores de opinião do Rio Grande do Sul, seu Estado natal, a medir forças com a mídia e os políticos de Estados economicamente mais poderosos. Cobrou uma mobilização dos gaúchos para obter poder informativo e capacidade de articulação capazes de disputar com Rio e São Paulo um projeto nacional.
Não fosse por uma defesa feita por Tarso Genro à liberdade de imprensa, poder-se-ia dizer que a oposição de José Serra ao PAC e o noticiário adverso vêm despertando no governo aquilo que Roberto Jefferson chamaria de “instintos mais primitivos”. O portal do PT levou ao ar um resumo da palestra do ministro, de onde o signatário do blog extraiu as informações relatadas acima (leia).
A três dias da eleição para a escolha do novo presidente da Câmara, a disputa entre Arlindo Chinaglia (PT) e Aldo Rebelo (PC do B) tornou-se uma espécie de vale-tudo. Embora representem os interesses de um mesmo governo, os dois guerreiam como opositores. Já não hesitam em desferir golpes abaixo da linha da cintura.
Em telefonema ao deputado Luciano Castro (RR), líder do PR e aliado de Chinaglia, Rebelo difundiu uma fofoca. Disse que, para obter o apoio do PMDB, o rival petista prometera aos deputados peemedebistas o Ministério dos Transportes.
Luciano saltou da cadeira. Sob Lula, a pasta dos Transportes é um feudo do PR desde a fase pré-mensalão, uma época em que a legenda ainda atendia pelo nome de PL. Presidente de honra do partido, Alfredo Nascimento deixou o ministério para concorrer ao Senado. Eleito, espera por um telefonema de Lula convidando-o a reassumir o posto.
Intrigado, Luciano discou para Chinaglia. Relatou o que acabara de ouvir de Rebelo. Chinaglia tranqüilizou-o. Disse que, há três semanas, quando o PMDB o apoiou, quem freqüentava o noticiário como “preferido” de Lula era Rebelo. Portanto, era o rival, não ele, quem tinha cacife para prometer ministérios.
Para proteger-se, Chinaglia telefonou para o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais). Contou o que se passara com Luciano Castro. E, de novo, negou que houvesse oferecido qualquer tipo de vantagem ao PMDB.
Chinaglia e seus seguidores disparam na direção de Rebelo o mesmo tipo de munição. Em privado, afirmam que a máquina do governo está com Rebelo. Acusam o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), de oferecer cargos e vantagens a deputados que se dispuserem a votar no atual presidente da Câmara.
Até a Petrobras foi lançada na fogueira. Aliado de Renan, o dirigente da Traspetro, subsidiária da estatal, teria se pendurado ao telefone para fazer campanha por Rebelo, acusam os partidários de Chinaglia. Renan nega. Diz e repete que mandou erguer um muro imaginário nos salões que dividem a Câmara e do Senado. Ocupa-se de sua própria reeleição, não da de Rebelo. Disputa o comando do Senado com José Agripino Maia (PFL).
Não é só: Rebelo e os adeptos de sua candidatura espalham a informação de que a maioria pró-Chinaglia foi construída à base de liberação de emendas orçamentárias. Dizem, por exemplo, que Inocêncio Oliveira (PR-PE) trocou a canoa de Rebelo pela lancha de Chinaglia depois de ter desencavado duas liberações no DNIT, o antigo DNER, órgão que pende da pasta dos Transportes. Somam R$ 53 milhões.
Ricardo Barros (PP-PR) bandeou-se para o lado de Chinaglia seduzido por um empenho do mesmo DNIT (R$ 1,8 milhão) para a prefeitura de Maringá (PR), comandada por seu irmão, Sílvia Barros. Menciona-se ainda o caso de Wilson Santiago (PB), líder do PMDB e lugar-tenente de Chinaglia, que logrou arrancar da Fundação Nacional da Saúde R$ 16 milhões em emendas da bancada paraibana.
A acusação de que votos estariam sendo trocados por verbas orçamentárias azedam o humor de Marcos Lima, o assessor de Tarso Genro que faz a interface entre o Planalto e o Congresso. Desde o início da disputa, Lima vem dizendo a quem lhe pergunta que as liberações de emendas seguem o cronograma normal e são guiadas pela boa conduta ética e pelos preceitos constitucionais.
A turma de Chinaglia, por sua vez, defende-se afirmando que muitas das liberações ocorreram em fins de 2006, época em que era Rebelo, não o petista, o dodói de Lula. O presidente da República e seus auxiliares acompanham os desdobramentos da guerra na Câmara com crescente preocupação. Receiam que o jogo baixo produza feridas de difícil cicatrização.
Patrícia Santos/Folha Imagem Durou pouco, muito pouco, pouquíssimo a nova temporada de cana dura imposta ao ex-juiz Nicolalau. Nesta segunda (29), o Tribunal Regional Federal da 3a Região (São Paulo) concedeu, como sói acontecer, liminar devolvendo Lalau à condição de prisioneiro domiciliar.
Assim, Lalau, que fora restituído à carceragem da Polícia Federal na quarta-feira da semana passada (24), volta a desfrutar, decorridos escassos seis dias, do conforto de sua mansão, assentada no elegante bairro paulistano do Morumbi.
Lalau, como se recorda é aquele ex-presidente do TRT de São Paulo que carrega na biografia um desvio de notáveis R$ 169,5 milhões. Beneficia-se da prisão domiciliar desde 2003. Retornara ao xilindró a pedido do Ministério Público.
A Procuradoria alegou que, no ano passado, depois de uma perambulação sem-fim do processo do TRT pelos escaninhos do Judiciário, Lalau fora condenado, finalmente, a 26 de prisão. Em regime fechado. Daí a tentativa de hospedá-lo na prisão.
Os advogados de Lalau argumentam que o cliente ostenta um quadro de saúde precário. Neste caso, sustenta o Ministério Público, ele deveria estar num hospital penitenciário, não em casa. A decisão desta segunda, por liminar, ainda pode ser reformada. Vai ser? Façam as suas apostas.
Reunidos nesta segunda-feira (29), em Brasília, 12 governadores deitaram sobre o papel as reivindicações que desejam ver discutidas na reunião que terão com Lula no próximo dia 6 de março. Querem beliscar um naco da CPMF (imposto sobre o cheque) e da CIDE (contribuição cobrada sobre o consumo de combustível e destinada à conservação de estradas).
Para resumir, os chefes de executivos estaduais pedem o seguinte:
1. repasse para os tesouros estaduais de 20% da arrecadação da CPMF. Em 2006, o imposto cobrado nas transações financeiras rendeu ao governo federal R$ 32 bilhões.
2. aumento de 29% para 46% da fatia da CIDE que é destinada aos Estados. No ano passado, a União amealhou R$ 7,8 bilhões com a contribuição cobrada dos consumidores de combustíveis;
3. tudo somado, a conta dos governadores alça à casa dos R$ 11 bilhões por ano. Não é pouca coisa para um governo federal às voltas com a necessidade de promover cortes em suas próprias despesas.
Como se fosse pouco, os governadores reivindicam ainda a renegociação das dívidas que amarram os cofres estaduais a Brasília. De saída, querem que o governo federal devolva aos Estados R$ 2 bilhões que foram depositados como caução para renegociação da dívida externa estadual em 1996, sob Fernando Henrique Cardoso.
Nenhum dos governadores associa o atendimento das reivindicações ao apoio que podem dar ou não ao recém-lançado PAC (Pacote de Aceleração do Crescimento). A vinculação, porém, salta, indisfarçável, das declarações recolhidas ao final do encontro.
“Destravar o crescimento é desafogar os Estados”, disse, por exemplo, o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB). “Se não houver flexibilização para os Estados investirem, esse esforço do governo federal [o PAC] será muito tímido", ecoou o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB).
Estiveram na reunião de Brasília os seguintes governadores: o pefelista José Roberto Arruda (DF); os tucanos Aécio Neves (MG), Cassio Cunha Lima (PB) e Yedda Crusius (RS); os petistas Marcelo Déda (SE) e Wellington Dias (PI); os peemedebistas André Puccineli (MS), Luiz Henrique (SC), Paulo Hartung (ES) e Eduardo Braga (AM); o pepista Alcides Rodrigues (GO); e Blairo Maggi (MT), no momento sem partido.
O documento dos governadores será entregue ao ministro Tarso Genro (Relações Institucionais), escalado por Lula para fazer a interface com os Estados. Espera-se que até o dia 6 de março, o governo federal consiga destrinchar a pauta, informando o que pode e o que não pode ser atendido. Digna de nota a ausência de José Serra (PSDB), governador de São Paulo, cujas críticas ao PAC, conforme noticiado aqui no blog, desgostaram Lula.
Esse é um deabte que, apesar de inóspito, você, caro leitor, deve acompanhar de perto. Há muitas dúvidas quanto ao rumo que os cifrões irão tomar. Mas uma coisa é certa: permanecendo nos cofres de Brasília ou migrando para os tesouros estaduais, a conta é bancada por você.
O ponto alto do segundo debate entre os candidatos à presidência da Câmara veiono finalzinho, quando os três candidatos foram instados, no bloco derradeiro, a fazer suas últimas considerações. Expôs-se diante das câmeras uma divergência que sacode os subterrâneos do Legislativo: a inusitada disputa que o governo trava consigo mesmo.
O Palácio do Planalto foi à guerra da Câmara, como se sabe, com dois candidatos: Aldo Rebelo (PC do B) e Arlindo Chinaglia (PT). Ao pronunciar suas últimas palavras, Rebelo acabou expondo a raiz da encrenca. Disse que não considera prudente entregar a presidência da Câmara a Chinaglia.
Por que? "Não creio que se deva dar mais força a um único partido. Não julgo prudente para o próprio PT a concentração de poder." Nunca é demasiado recordar que o PT, partido de Lula, é detentor da segunda maior bancada da Câmara –83 deputados. Reivindica a presidência da Casa enganchado a um acordo firmado com o PMDB, esteio da coalizão governista e dono da segunda maior bancada –90 deputados.
Beneficiado pelo sorteio, coube a Chinaglia a dádiva de falar por último. Pôde, assim, responder a Rebelo. Foi à jugular: "O Aldo não fez essa avaliação quando o PT retirou a candidatura para apoiá-lo [em 2005]. O PT sabe abrir mão."
Chinaglia falou com conhecimento de causa. Referia-se a um sacrifício pessoal. Era candidato ao comando da Câmara em 2005, nas pegadas da renúncia de Severino “Mensalinho” Cavalcanti. Retirou-se da disputa a pedido de Lula. Abriu mão em favor de um Rebelo que, à época, tinha atrás de si um partido sem votos. O PC do B cavalgava uma bancada de escassos nove deputados (hoje tem 13). O arranca-rabo desta segunda (29) resultou no acirramento do racha governista.
Antes da provocação final, Chinaglia vira-se obrigado à defender-se da acusação, feita pelo rival Gustavo Fruet, de que sua candidatura vincula-se à tentativa de José Dirceu de arrancar do Legislativo uma anistia política. Teve de sair em defesa do PT num outro instante do debate. Foi no instante em que o questionaram sobre declarações recentes de outros dois expoentes do governismo: o deputado Ciro Gomes e o governador pernambucano Eduardo Campos, ambos do PSB.
Ciro e Eduardo haviam atribuído a pertinácia com que Chinaglia arregaçou as mangas pela presidência da Câmara à “fome do PT por cargos”. “É preconceito”, redargüiu Chinaglia. "O PT tem erros, não é um partido perfeito. Se o PT tem poder é porque o povo quis. Qual é o preconceito, o ódio contra o PT?". Chinaglia ainda emendou: "Daqui a pouco vão questionar a eleição do Lula."
Chinaglia foi emparedado também pelo rival Gustavo Fruet (PSDB-PR), que disputa a presidência com o apoio do PSDB e das legendas da “ terceira via”. O tucano afirmou que a eleição do petista e mesmo de Rebelo significaria o “continuísmo” na Câmara. Realçou o fato de que ambos destacaram-se como líderes do governo na Casa. E disse que é preciso acabar com impressão de que o comando da Câmara é uma espécie de ministério do Executivo no Legislativo.
De novo, o candidato petista foi beneficiado pelo sorteio. Falou por último. Lembrou que, no início de sua campanha, teve de responder, dia sim, outro também, às insinuações da imprensa de que estaria contrariando os interesses de Lula. O presidente declarara que seu “preferido” era Rebelo.
Chinaglia julga ter-se firmado como candidato da Câmara, não do Planalto. De resto, lembrou que o argumento da independência do Legislativo não era invocado pelo PSDB na época em que, sob FHC, a Casa foi presidida pelos "aliados" Aécio Neves (PSDB) e Luiz Eduardo Magalhães (PFL). Truco.
As relações da grande empreita com o Estado são de uma monotonia inaudita. Sabe-se onde começam –na doação às arcas do candidato. Sabe-se também onde terminam –na irregularidade. A obra da linha 4 do metrô não haveria de escapar desse tipo de sina.
O repórter Alencar Izidoro revela que o gerente de construção da linha 4, que faz a ponte entre o governo e o consórcio construtor, é réu em processo que o acusa de ter mantido relações, digamos, heterodoxas, com uma das empreiteiras que cavam os túneis do metrô paulistano. O gerente se chama Marco Antonio Buoncompagno. A empreiteira é a Andrade Gutierrez.
Marco Antonio foi nomeado para cuidar das obras do metrô sob Geraldo Alckmin. Foi mantido no posto sob José Serra. O processo que o liga à Andrade Gutierrez é antigo. Foi ajuizado em 1992. Não fosse pelo surgimento da cratera do metrô, o caso continuaria longe da curiosidade pública, soterrado sob os escombros da burocracia do Judiciário.
Quem acusa Marco Antonio? O Ministério Público. Qual é a acusação? Segundo os procuradores, ele teria participado de um esquema que resultou no enriquecimento ilícito de Antonio Sergio Fernandes, presidente do Metrô de São Paulo à época em que o Estado era governado por Orestes Quércia.
Como funcionava o esquema? Segundo o Ministério Público, a Andrade Gutierrez e uma outra construtora (Mendes Júnior) eram brindadas, por meio de aditivos aos contratos originais, com reajustes injustificados nos preços das obras. Em troca, as empreiteiras repassavam parte do serviço a uma empresa chamada Engemab, aberta em 1989 pelo mesmo Marco Antonio que hoje gerencia a linha 4.
Não é só: a denúncia do Ministério Público sustenta que Marco Antonio era amigo de Antonio Sérgio, o presidente do metrô da era Quércia. E usava o dinheiro que as empreiteiras pingavam na sua Engemab para construir, graciosamente, residências para o próprio Antonio Sérgio e alguns de seus auxiliares. As casas foram erguidas em Alphaville, um condomínio chique assentado na grande São Paulo.
Procurado, Marco Antônio preferiu não comentar o episódio. O Judiciário, em seu ritmo de tartaruga manca, ainda não julgou o processo. Ninguém, portanto, foi ao rol dos condenados. A pergunta que bóia na superfície da cratera do metrô é a seguinte: por que diabos um funcionário que tem sobre os ombros um processo assim, digamos, tão cabeludo foi nomeado sob Alckmin e mantido sob Serra em função tão estratégica?
PS.: Apenas 24 horas depois da veiculação desta notícia, o gerente da linha 4 do metrô pediu afastamento do cargo.
Lula está uma arara com José Serra. Acha que a “idéia fixa” pela sucessão presidencial de 2010, “está cegando” o governador de São Paulo. Atribui as críticas de Serra ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) à “obsessão” por firmar-se, desde logo, como principal liderança da oposição.
Na opinião de Lula, manifestada sob reserva, Serra comete um erro “primário” em política. Resumiu assim o equívoco: “Ele está entrando na chuva muito cedo. Até 2010, vai estar ensopado. Acaba pegando pneumonia.” Acha, de resto, que Serra arrisca-se a passar para o eleitorado a impressão de que coloca suas ambições pessoais acima do interesse nacional.
Lula surpreendeu-se com as críticas de Serra ao PAC. Esperava ouvir reparos de governadores. Dispôs-se a acolher sugestões construtivas. Mas não contava com ataques acerbos como os que foram pronunciados pelo governador paulista.
Serra tachou o PAC de “tímido”. Considerou “fracas” e “vazias” as medidas previstas no programa. São, a seu juízo, providências insuficientes para interromper o ciclo de letargia que inibe o crescimento econômico do país.
Lula cogitou responder pessoalmente a Serra. Mas, preocupado em se preservar para o novo encontro que terá com os governadores em 6 de março, optou pelo silêncio. Preferiu escalar o ministro Guido Mantega (Fazenda) para fazer o contraponto a Serra.
Foi a combinação com o chefe que levou Mantega a ironizar Serra: “Ou não leu o plano ou então leu o plano errado", disse o ministro. "O Serra deve estar achando que o PAC é o Brasil em Ação ou o Avança Brasil [planos do governo FHC], nos quais ele teve participação. Esses, sim, foram programas tímidos. O PAC não tem nada de tímido."
Lula receia que a escalada de Serra leve um outro tucano, Aécio Neves, a subir o timbre das críticas ao PAC. O governador de Minas é tão presidenciável quanto Serra. Para não ceder terreno ao rival dentro do PSDB, pode sentir-se tentado a falar mais grosso que o habitual.
Curiosamente, Lula enxerga no PSDB de hoje similaridade com o PT de ontem. Numa espécie de autocrítica tardia, o presidente diz que o tucanato ensaia agora o mesmo tipo de oposição “intransigente” que o petismo fazia no passado. Esperava algo mais “sofisticado” e “inteligente” do PSDB.
No encontro que manteve com os governadores no dia do lançamento do PAC, Lula desenvolveu um raciocínio que tinha como destinatários os ouvidos de Serra e Aécio: “Estou fazendo um esforço para o país voltar a crescer. Quero entregar o país melhor do que encontrei. Penso no Brasil. Já não posso concorrer à presidência. O próximo presidente pode sair desta sala.”
Para Lula, os ataques de Serra ao PAC, que considera “precipitados” e "injustos", em vez de render votos, vão envenenar a opinião pública contra o governador. Como contraponto, o presidente menciona as boas relações que vem conseguindo manter com outros chefes de executivos estaduais. Classifica de "exemplar" o comportamento de Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro.
O PT reúne sua comissão Executiva Nacional nesta segunda-feira (29). O encontro será às 18h, na sucursal brasiliense do partido. Em nota veiculada em seu portal, o partido anuncia a reunião sem mencionar o tema mais espinhoso que será levado à mesa: o destino dos “aloprados” do dossiê.
Quem lê o texto do partido fica com a impressão de que os membros da Executiva tratarão só de três temas: as chances do petista Arlindo Chinaglia na queda-de-braço pelo comando da Câmara, as relações do petismo com o governo e a organização do Congresso do partido, que ocorrerá no meio do ano.
Nenhuma linha sobre o debate que se fará acerca do futuro de Oswaldo Bargas e Expedito Veloso, os dois “aloprados” que continuam ostentando a estrela vermelha na lapela. Conforme já noticiado aqui no blog, há duas propostas boiando no ar.
Para um naco do PT, à frente o recrutador Ricardo Berzoini, deve-se dar o dito por não dito. Tudo em benefício de Bargas e Expedito. Outra parte da legenda, à esquerda de Berzoini, cobra a promessa de expulsão. Quer levar a dupla à comissão de ética.
Ao calar sobre a “alopragem”, o PT amplifica a algaravia que vem dos armários da legenda, já abarrotados. É um tipo de rumor que tende a aumentar a cada cabide acrescentado à coleção. Certos silêncios, por ensurdecedores, reclamam resposta imediata. Logo, logo o país saberá se o PT está ou não disposto a responder às interrogações que o assombram.
Quando Lula e o PT chegaram ao poder, em 2003, descobriram que já não havia na cena política brasileira nenhum pecado original. Puseram-se, então, a cometer velhos pecados. Repetiram vícios praticados sob FHC, Collor, Sarney e um enorme etc.
Pilhado, o petismo passou de atirador a alvo. Para esquivar-se das pedras, Lula disse que os erros não eram nem de indivíduos nem de partidos, mas do sistema político apodrecido. Na pele de candidato à reeleição, disse que, reconduzido ao Planalto, viraria o sistema do avesso.
O vídeo acima exibe discurso feito por esse Lula candidato, no dia 23 de setembro de 2006, na cidade pernambucana de Olinda. Ouve-se a voz de um político determinado. Fala em alterar até mesmo, veja você, os regimentos internos da Câmara e do Senado.
Pois bem, Lula juntou pedras e votos e logrou reconstruir o seu castelo. Mas, devolvido à cadeira de presidente, já não parece tão empenhado em reformar coisa nenhuma. Muito menos a política, ainda sob escombros.
No ano passado, ecoando o presidente, o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) referia-se à reforma política como a “mãe de todas as reformas”. Teria de preceder qualquer outra iniciativa do novo governo, fosse ele chefiado por Lula ou por Geraldo Alckmin.
Na semana passada, falando ao blog, Genro disse que as reformas política e tributária continuam sendo essenciais para o país. Mas já não as considera assim tão fundamentais para o novo governo. Diz que Lula passará muito bem sem elas nos próximos quatro anos.
Política e tributos constam da pauta do encontro que Lula terá com os governadores em 6 de março. Ao afrouxar o discurso, o governo contribui para que a conversa resulte em mero lero-lero, em desconversa. Uma pena.
A assessoria de Genro está elaborando um rol de pontos passíveis de reformulação na esfera política e partidária. O ministro diz que o texto será entregue aos novos presidentes da Câmara e do Senado. Caberá ao Legislativo, segundo o ministro, decidir se implementa ou não as modificações.
A experiência mostra que, num regime como o brasileiro, presidencialista, o ritmo do Congresso é ditado pelos humores do Executivo. Assim, ou Lula põe mãos à obra ou a coisa não anda. O governo corre o risco de desperdiçar a sua hora. Perdendo o viço de uma autoridade recém-renovada nas urnas, o que já é difícil tornar-se-á impossível.
Ao apossar-se do primeiro mandato, em 1º de janeiro de 2003, Lula já havia prometido reformar o mundo (veja no vídeo abaixo). Assegurara que travaria guerra sem trégua conta a corrupção. Reconstruiria os modelos político, tributário e até o trabalhista.
No curso de sua primeira administração, Lula conviveu com a corrupção. E só conseguiu reformar o Palácio da Alvorada. Assim mesmo porque os grandes empreiteiros entraram com a grana. No ritmo em que as coisas caminham, a campanha de 2010 promete. Os problemas serão os mesmos. Os discursos também.
Há na Alemanha um sítio dedicado ao ramo do aluguel. Chama-se erento. Aluga qualquer coisa –de strippers a ferraris. Neste janeiro de 2007, lançou-se numa nova empreitada: a locação de mercenários ideológicos.
Por uma diária de U$ 150, pode-se alugar manifestantes profissionais. São estudantes, desocupados e aposentados. Por um troco, dispõem-se a defender qualquer causa. O sítio erent retém 4,9% dos horários de cada manifestante.
A coisa é segura. Os responsáveis pelo erent, Chris Möller e Uwe Kampschulte, asseguram que, em meio a uma agitação remunerada, é impossível distinguir um manifestante real de um alugado. Fez-se uma experiência piloto no final do ano passado.
Reuniram-se defronte do parlamento alemão algo como 200 manifestantes. Vociferavam contra uma nova lei para a área da saúde. Agiam em nome da Associação de Médicos Alemães. Havia em meio à multidão nada menos que 150 aventias brancos de aluguel. Eram manifestantes de fancaria.
De acordo com Möller e Kampschulte, o erent decidiu aventurar-se no mercado das manifestações porque encontrou demanda para o serviço. Só na primeira semana de janeiro, dizem eles, nada menos que 50 clientes fizeram consultas acerca do aluguel ideológico.
Se essa moda chega ao Brasil, partidos e candidatos terão de reprogramar suas planilhas de custos eleitorais. No instante em que a malta se der conta de que sua consciência pode valer U$ 150 ao dia, ninguém mais vai conseguir lotar comícios e passeatas oferecendo apenas transporte e sanduíche de queijo com mortadela.
Sérgio Lima/Folha Imagem Em público, o tucano Aécio Neves diz que a disputa pela presidência da Câmara é um problema restrito ao Legislativo. Em privado, o governador de Minas converteu-se em principal cabo eleitoral de Gustavo Fruet (PSDB-PR). Aécio realiza um esforço que transcende as fronteiras do PSDB.
O governador concentra-se nas bancadas mineiras. Cabala votos para Fruet em legendas governistas –PMDB, por exemplo—e também no oposicionista PFL. Facilita-lhe o trânsito o fato de estar à frente de uma administração estadual sustentada por uma aliança pluripartidária.
Aécio soa otimista mesmo nos diálogos travados entre quatro paredes. Prevê que Fruet irá ao segundo turno. Avalia que, num tête-à-tête com Arlindo Chinaglia (PT), o tucano tem chances reais de vitória. “Você vai ganhar essa eleição”, disse Aécio ao próprio Fruet.
Os dois conversaram há cinco dias, no Palácio da Liberdade, sede do governo mineiro. Ao relatar a conversa a partidários de sua campanha, Fruet atribuiu a Aécio papel central na reta final da disputa.
Por ora, o otimismo de Aécio, compartilhado por Fruet, não possui respaldo numérico. Estima-se que o candidato tucano, nascido de uma articulação dos adeptos da terceira via, tem cerca de 90 votos. Para pisar o segundo turno, precisa de algo como 140 votos.
Enquete publicada neste domingo pela Folha (assinantes) revela o tamanho do desafio de Fruet. Ouviram-se 441 dos 513 deputados que escolherão o presidente da Câmara na próxima quinta-feira. Entre os pesquisados, 21,2% (93) não quiseram revelar o voto.
Outros 35,1% (155) disseram que vão votar em Arlindo Chinaglia (PT); 29,2% (129) votarão em Aldo Rebelo (PC do B). Optaram por Fruet só 14,5% (64) dos consultados. A se confirmar essa tendência, haverá segundo turno. Mas a disputa final será entre Chinaglia e Rebelo.
O gigantismo do desafio parece não assustar Aécio. Na conversa que teve com Fruet, o governador apontou similaridades entre a disputa atual e aquela que resultou na sua própria eleição para a presidência da Câmara. Lembrou que o voto secreto por vezes esconde surpresas insondáveis.
Aécio dirigiu a Câmara no biênio 2001-2002. Elegeu-se nas pegadas de uma campanha que nasceu sob o descrédito até do presidente da República de então, Fernando Henrique Cardoso. Acha que Fruet também pode surpreender. A exigüidade de tempo –faltam escassos cinco dias para a eleição—confere à previsão ares de sonho.
Seja como for, os derradeiros suspiros da campanha de Fruet levam preocupação ao Palácio do Planalto. A vitória de Fruet, sonho do tucanato, é o pesadelo do governo. Lula deve encontrar-se a sós, entre esta segunda e a terça-feira, com o deputado Ricardo Berzoini (SP), presidente do PT. Quer repassar com ele os números da Câmara. Deseja certificar-se de que, havendo segundo turno, Fruet não estará nele.
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