Retrato da ‘família’ de Luiz Inácio II da Silva

Ao pintar o "Retrato da Família de Carlos IV", Goya abusou da genialidade. Recorreu a um artifício diabólico. No quadro, acomodou os membros da família real diante de um espelho hipotético, que os estaria refletindo. Como espelho não é dado a mentiras, o artista viu-se liberado para retratar os modelos em toda a sua feia mediocridade. A beleza da pintura está na feiúra. Como último álibi, Goya incluiu-se a si próprio no impiedoso retrato oficial. Postou-se à sombra, bem ao fundo, à esquerda, divisando o espelho.
Lula II, como que inspirado na obra do mestre espanhol, começa a pintar o retrato da “família política” que levará à moldura do seu segundo reinado. Esboça-se uma obra-prima. Postados defronte do espelho que reflete as primeiras cenas da coalizão pós-pós, os personagens do quadro brasiliense são tão ou mais caricatos do que aqueles que Goya levou à tela. Lula também cuidou de incluir-se em sua obra. Para evitar os “erros” de 2003, converteu-se em Zé Dirceu de si mesmo. Pinta –e borda—sozinho.
Sem o talento de Goya, Lula tenta superá-lo em astúcia. Embora maneje, ele próprio, os pincéis, planeja assinar a pintura com a caligrafia do PMDB, esteio político do segundo reinado. Por ora, o espelho reflete apenas o vulto de certos negociadores. Gente cuja simbologia está encerrada no reflexo amazônico de Jader ‘Sudam’ Barbalho. Parece à vontade no retrato, como se houvesse obtido uma biografia nova.
Ao fundo, José Sarney e Renan Calheiros dividem-se entre a contemplação do horizonte futuro e a disputa pela atenção do monarca. Estão à espera da batalha sanguinolenta. O semblante feminino de Roseana, amarrotado pela derrota maranhense, também já se insinua nos primeiros traços.
De resto, há no quadro de Lula II uma malta de pobres-diabos de rostos ainda indistinguíveis. São náufragos da nau não governista do PMDB. Alguns afiam os ouvidos. É como se buscassem ouvir o tilintar de verbas escondidas atrás dos balcões de autarquias e estatais por conquistar. Outros trazem o semblante pidão –próprio de quem espera receber antes de dar.
Manejando os pincéis, Lula II tenta inserir-se no quadro com ares de ser superior. É cedo, porém, para dizer como a cara do monarca se fará refletir no espelho. É possível que, ao final da obra, o autor caia em si. Talvez Lula venha a figurar na pintura com o rosto de alguém que, mesmo imaginando-se diferente, reconhece-se com os pés fincados num pântano de constrangedoras ambigüidades. O mesmo pântano que sorveu o prestígio de FHC, um antecessor que se julgava ainda mais superior.
Ao observar o quadro que está sendo pintado na Brasília pós-eleitoral, a sociedade pode vir a ser tomada de pânico. O espectador não sabe se aquilo que está na bica de contemplar é apenas mais um retrato de um grupo de culpados fingindo inocência ou um imenso reflexo do Brasil real no velho espelho.
Escrito por Josias de Souza às 18h27
Nos quatro primeiros anos de presidência, Lula esquivou-se de freqüentar os lugares públicos de Brasília. Nas horas de folga, reuniu os amigos ora no Alvorada ora na Granja do Torto. Na bica de inaugurar o segundo mandato, Lula II emite sinais de que a coisa pode ser diferente doravante.
Deve-se ao repórter Sandro Lima (assinantes do Correio) a descoberta de uma escapada noturna do presidente. Deu-se na última quarta-feira. Reuniu-se com um grupo de amigos em torno de uma mesa do Rosental, um restaurante simples, de boa cozinha, na Vila Planalto, um bairro próximo ao Palácio do Planalto. Rosental foi cozinheiro do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Já morreu. Hoje, as panelas da casa de pasto são comandadas pela viúva, dona Lúcia.
Na noite de quarta, Lula deixou o Planalto por volta de 22h. Foi direito para o restaurante. A proprietária espantou-se com sua chegada. Dona Lúcia recebera um telefonema de Gilberto Carvalho. O chefe-de-gabinete de Lula freqüenta amiúde o restaurante. Pediu-lhe que reservasse mesa para dez. Mas não informou que Lula seria um dos comensais. Ao chegar, acompanhado da mulher Marisa, o presidente foi à cozinha. Cumprimentou a proprietária, posou para uma foto, beliscou um torresmo e dirigiu-se à mesa.
Ali, aguardavam-no os deputados petistas Sigmaringa Seixas (DF), José Eduardo Cardozo (SP) e Luiz Eduardo Geenhalgh (SP); o advogado-geral da União, Álvaro Ribeiro da Costa; além, veja você, do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza; e do ministro do STF Sepúlveda Pertence.
Ribeiro da Costa cuida de defender o governo em seus apertos judiciais. Antonio Fernando é o autor da denúncia do mensalão, aquela que empilhou acusações contra os integrantes da “quadrilha” dos 40. Pertence é um dos onze juízes incumbidos de julgar a peça. Freqüenta a lista de ministeriáveis de Lula. Está cotado para a pasta da Justiça. É no mínimo curioso que o denunciante e o juiz tenham se animado a dividir a mesa com o presidente ‘Não sei de Nadinha’ da Silva. Diz-se que o mundo é pequeno. Pois Brasília é menor ainda.
De entrada, deglutiu-se na mesa do presidente tira-gosto de lingüiça com mandioca. Em seguida, serviram-se rabada, carré à mineira, galinha ao molho pardo e picanha. Os pratos fizeram-se acompanhar de quiabo, polenta, jiló, couve e abobrinha. Também a conversa girou em torno de abobrinhas. Dona Lucia conta que Lula debulhou-se em elogios à rabada. “Gostei muito e voltarei em breve”, teria dito. Quem serão os próximos acompanhantes?
Escrito por Josias de Souza às 17h39
Em meio à montagem do xadrez ministerial, Lula começou a comunicar a alguns ministros que eles serão mantidos na equipe do segundo mandato. Pelo menos três inquilinos da Esplanada já foram brindados com o “selo do fico” emitido por Lula: Dilma Rousseff (Casa Civil), Celso Amorim (Relações Exteriores) e Walfrido Mares Guia (Turismo). A deferência foi estendida também ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
O objetivo de Lula é dar tranqüilidade aos auxiliares, afastando-lhes do pescoço o risco da degola. Conforme já noticiado aqui no blog, o presidente quer manter a máquina governamental funcionando a todo vapor neste finalzinho de primeiro mandato. A movimentação de Lula começa, porém, a produzir efeitos colaterais.
Ao dizer aos auxiliares que decidira preservá-los, Lula pediu-lhes reserva. Mas, em Brasília, toda confidência tende a virar segredo de polichinelo. De modo que meio ministério já sabe que o presidente afastou a lâmina de certos pescoços. E os ministros que têm a pretensão de ficar e ainda não ouviram uma palavra do chefe foram tomados de intensa inquietação.
Os arredores do petismo encontram-se especialmente agitadiços. Afora Dilma Rousseff, de cuja sobrevivência ninguém duvidava, não há notícia de que nenhum outro ministro do PT tenha recebido, por ora, o "selo do fico". O que faz aumentar os receios de que Lula seja pouco generoso com sua própria legenda na partilha ministerial.
A despeito dos receios, Lula emite sinais de que deve preservar pelo menos dois petistas: Tarso Genro (Relações Institucionais), Paulo Bernardo (Planejamento). Não exclui a hipótese de trocá-los de pasta e de atribuições. Mas não parece propenso a privar-se da colaboração de ambos.
Escrito por Josias de Souza às 12h13

- Folha: Empreiteiras lideram doação eleitoral
- Estadão: Lucro da Petrobras já passa de R$ 20 bi
- Globo: Após as eleições, buracos voltam a tomar estradas
- Correio: Fora da lei. E na marra
- Valor: Chineses farão carros no Uruguai e miram o Brasil
Leia os destaques de capa dos principais jornais.
Escrito por Josias de Souza às 03h08
Angeli
Escrito por Josias de Souza às 02h17
Antônio Cruz/ABr
Num esforço para ampliar o seu poder de fogo no segundo mandato de Lula, o PT decidiu disputar a presidência da Câmara. O candidato da legenda Será o deputado Arlindo Chinaglia (SP), líder do governo. A decisão constitui uma encrenca adicional na articulação de Lula para atrair o PMDB para uma coalizão com o governo.
Dono da maior bancada –89 deputados—, o PMDB julga-se no direito de reivindicar a cadeira que hoje é ocupada por Aldo Rebelo (PCdoB-SP). E pede o apoio de Lula. O PT, por sua vez, reivindica do presidente no mínimo uma posição de neutralidade na disputa.
Além da presidência da Câmara, o PMDB reivindica a recondução de Renan Calheiros (AL) à direção do Senado. “As urnas nos deram esse direito”, diz Renan. O PT olha para o “aliado” de esguelha.
“Entregar as presidências das duas Casas ao PMDB concentraria poder demais num único partido”, disse ao blog uma liderança petista. “O governo ficaria literalmente nas mãos do PMDB. Coalizão é uma coisa. Virar refém do PMDB é algo bem diferente.”
Na última quinta-feira, durante uma reunião da bancada petista na Câmara, o deputado Henrique Fontana (RS), líder do PT, fez um comunicado aos colegas. Disse que vários “companheiros de partido” o haviam procurado para indicar o nome de Arlindo Chinaglia como candidato à sucessão de Aldo Rebelo.
Presente ao encontro, Chinaglia pediu a palavra. Embora esteja empenhadíssimo em tornar-se presidente da Câmara, aconselhou a bancada a adiar a do tópico. Argumentou que a eleição para presidente da Câmara só ocorrerá em fevereiro de 2007. E o lançamento prematuro de sua candidatura o deixaria em maus lençóis. Como líder do governo, teria dificuldades para negociar com os demais partidos os temas de interesse do Planalto.
A bancada optou, então, por postergar o anúncio da decisão. Deliberou-se, porém, em caráter extra-oficial, que o PT não vai abrir de medir forças com o PMDB pelo controle da Câmara. O petismo trabalha com um cálculo. Avalia que, evidenciando-se o favoritismo do PMDB no Senado, haverá uma reação suprapartidária a um predomínio peemedebista também na Câmara.
Em público, Chinaglia sustenta que deve prevalecer o critério da proporcionalidade. Ou seja, a maior bancada tem o direito de reivindicar a presidência. Em tese, o critério favorece o PMDB, que elegeu 89 deputados. Nos subterrâneos, o PT vende a tese da inconveniência política de que um mesmo partido comande simultaneamente a Câmara e o Senado. E reivindica para si, dono da segunda maior bancada –83 deputados—a prerrogativa de indicar o presidente da Câmara.
O PMDB ignora a articulação do PT. E reivindica o apoio de Lula. Três peemedebistas insinuam-se como candidatos à vaga Aldo: Jader Barbalho (PA), Geddel Vieira Lima (BA) e Eunício Oliveira (CE). Dos três, Eunício, ex-ministro das Comunicações de Lula, é o favorito no partido.
Jader teve suas pretensões minadas com a decisão do STF, tomada nesta sexta, de abrir ação penal contra ele por suposta prática de peculato na época em que foi ministro da Reforma Agrária do governo Sarney. Geddel, um “cristão novo” no apoio a Lula, reconhece reservadamente a precariedade política de sua condição. Diz que não está disposto a abraçar uma aventura. Jura que não será candidato de si mesmo.
Aldo Rebelo observa à distância a queda-de-braço que opõe o PT ao PMDB. Articula reservadamente o seu próprio nome. Crê que pode emergir da pendenga como uma alternativa de consenso. A hipótese é, porém, remota. Aldo virou presidente nas pegadas do cataclismo Severino Cavalcanti. Contou na ocasião com o apoio do PMDB e de Lula, que forçou o PT a retirar-se da disputa. A hipótese de a conjunção se repetir é tão improvável quanto a chance de um raio cair duas vezes no mesmo lugar.
Escrito por Josias de Souza às 01h51
Alan Marques/F.Imagem
A fragilidade do estado de saúde do vice-presidente José Alencar permeia a disputa pelo controle da Câmara dos Deputados. Pela Constituição, o presidente da Casa é a terceira peça na linha sucessória da República. Ou seja, na hipótese de uma eventual inabilitação de Alencar, o sucessor de Aldo Rebelo seria, na prática, o substituto constitucional de Lula.
Por delicadeza, ninguém menciona em público o drama pessoal de Alencar, às voltas com um câncer no abdome. Seria o mesmo que admitir que o vice de Lula flerta com a morte. Uma indelicadeza que a boa educação desaconselha e que os boletins médicos, por ora, desautorizam. Em privado, porém, o assunto é discutido abertamente.
Alencar encontra-se em Nova Iorque. Nesta sexta, submeteu-se a exames. Na próxima semana, vai à mesa de cirurgia pela segunda vez cinco meses. A primeira operação ocorreu em São Paulo, no Hospital Sírio Libanês, em julho. Dias depois, os médicos informaram ao paciente que a biopsia indicara que o tumor extraido de seu abdome era maligno.
Alencar comunicou o fato a Lula. E deixou-o à vontade para escolher outro companheiro de chapa. O presidente deu de ombros. Antes de viajar aos EUA, Alencar trocou um telefonema com Lula. O vice disse ao titular que, se tudo correr como planejado, deve ser liberado pelos médicos norte-americanos para retornar ao Brasil dez dias depois da cirurgia.
Mercê da doença do vice-presidente, o país conviverá por algumas horas com o seu primeiro presidente da República comunista, se é que isso ainda existe. Lula viaja para a Venezuela na noite de domingo. Só retorna no final da tarde de segunda. Durante a sua ausência, as chaves do Planalto serão confiadas a Aldo Rebelo (PCdoB-SP), atual presidente da Câmara.
Escrito por Josias de Souza às 01h50
Alan Marques/Folha Imagem
Na dúvida, é sempre melhor escolher os culpados do que procurá-los. Nesta sexta, o ministro Marcio Thomaz Bastos (Justiça) insinuou que a responsabilidade pela quebra do sigilo de dois telefones da reportagem da Folha é ninguém menos do que a imprensa. Ao cobrar pressa na investigação do dossiêgate, acabou perscrutando telefonemas em demasia.
"Trata-se de uma investigação em curso, feita sob grande pressão da sociedade e da imprensa, que cobrava pressa da PF”, disse o ministro. “Vários telefones, que estavam registrados no número da pessoa detida, foram investigados. Tão logo a PF viu que [os números da Folha] não tinham ligação, os descartou."
Na véspera, o presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, dissera que caberia à Justiça, não ao governo, explicar por que autorizou a quebra do sigilo telefônico do jornal. O juiz Marcos Alves Tavares, que respondia pelo inquérito do dossiê à época da adoção da providência, alegou desconhecimento. A Polícia Federal manifesta agora a intenção de retirar do inquérito todas as informações que resultaram da providência.
Escrito por Josias de Souza às 23h01
O STF abriu nesta sexta uma ação penal contra o deputado Jader Barbalho (PA), ex-integrante do comitê de campanha de Lula e um dos principais interlocutores do presidente no PMDB. A abertura do processo fora solicitada pelo Ministério Público, que acusa Jader da prática de suposto crime de peculato (desvio ou apropriação de dinheiro ou bens públicos).
A encrenca é antiga. Vem do tempo do governo de José Sarney. Época em que Jader foi titular do Mirad (Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário). A denúncia do Ministério Público, agora acatada pelo Supremo, acusa Jader e seu então secretário-executivo, Antonio César Pinho Brasil, de superfaturar indenizações de terras em processos de desapropriação.
A ação corre no Supremo porque Jader é detentor de mandato eletivo. Ao decidir pela abertura do processo, o tribunal considerou que há “indícios suficientes de materialidade de autoria do crime que autoriza o início da persecução penal em juízo. A farta documentação colhida na fase inquisitorial, sobre a qual puderam manifestar-se os investigados, mostra-se consistente, apontando para a necessidade de aprofundar-se a investigação”. Pressione aqui para ler a nota divulgada no sítio do STF.
Jader é um dos líderes peemedebistas mais prestigiados junto a Lula. Aumentou ainda mais o seu cacife depois que ajudou a eleger a petista Ana Julia para o governo do Pará. O deputado esteve com o presidente no início da semana. Como se vê, o diálogo com o PMDB oferece certos riscos. De uma hora para outra, uma dinamite pode pousar na mesa de despachos do gabinete presidencial.
Escrito por Josias de Souza às 18h12
José Cruz/Agência Senado
O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) apresentou a Lula um conjunto de sugestões para mudar os rumos da economia. Deu-se na última segunda-feira, em reunião de duas horas. Os dois voltam a conversar na próxima terça, depois que o presidente voltar de uma viagem à Venezuela. Nesta sexta, em discurso no Senado, Mercadante detalhou o seu modelo. Chamou-o de “Novo Desenvolvimentismo.”
Antes, Mercadante disse: “Sou contra o continuísmo da política econômica. A política econômica que tivemos nesse período foi uma política de transição, uma política que cumpriu o seu papel. Foi uma política que estabilizou a economia.” Ele acrescentou: “Essa política econômica não vai permitir o crescimento de 5% ao ano, que é a meta do segundo Governo. Não vai permitir. Não adianta continuarmos apenas aumentando o superávit primário, fazendo ajuste fiscal e buscando combinar essa política monetária com a política fiscal que aí está, porque não chegaremos ao crescimento de 5%”.
Foi o primeiro discurso de Mercadante desde a derrota para o tucano José Serra na disputa pelo governo de São Paulo. O senador havia se auto-imposto um isolamento em função do dossiêgate. Hamilton Lacerda, ex-coordenador de sua campanha, é investigado pela Polícia Federal sob a suspeita de ter transportado o dinheiro que seria usado pelos petistas “aloprados” na compra do dossiê contra Serra.
O escândalo parece ter retirado Mercadante dos planos ministeriais de Lula. Várias vezes mencionado como potencial substituto do ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda), Mercadante não freqüenta as listas de possíveis ministros do segundo mandato de Lula.
De volta ao Senado, Mercadante esquivou-se até mesmo de reassumir a liderança do governo, que transferira a Romero Jucá (PMDB-RR) durante a campanha eleitoral. A liderança não faz mais parte dos seus planos: "Quero ficar livre para o debate de idéias." Jura que tampouco tem pretensões executivas: "Não estou disputando cargos." Com o discurso desta sexta, o petista tenta reassumir ao menos a condição de partícipe do debate econômico.
A despeito da defesa enfática da mudança de rumos, Mercadante advogou a tese de que é preciso manter a atual meta de superávit fiscal, de 4,25% do PIB. Disse que ela é essencial para que a taxa de juros, hoje em 13,75%, mantenha-se em curva descendente. Apenas acha que baixar juros não é o bastante para tonificar o crescimento econômico
“O que eu proponho não é seguramente o caminho mais cômodo ou mais fácil. Eu proponho uma agenda pesada de discussão, uma agenda de esforço, de criatividade, para reduzir gastos correntes, para aumentar o investimento público, para aumentar a produtividade e eficiência do gasto, para aprimorarmos a gestão das políticas públicas.”
Mercadante defendeu a costura de um “pacto pelo desenvolvimento”, que congregue inclusive os partidos de oposição. Leia no despacho abaixo um resumo das principais propostas de Mercadante.
Escrito por Josias de Souza às 16h23
Abaixo, um kit do modelo do “novo desenvolvimentismo” proposto pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP):
- Prioridade para o investimento: “O foco da política econômica, da política orçamentária é o investimento, tem que ser o investimento, porque só o investimento, com as inovações científicas e tecnológicas, será capaz de impulsionar o crescimento sustentável do País (...). Como aumentar a taxa de investimento? Primeiro, cortando gastos de custeio, reduzindo os gastos correntes, contendo essa expansão dos gastos correntes (...)”.
- Grupos da tesoura: “Não haverá crescimento acelerado sem investimento público. Portanto, temos que reduzir o gasto corrente. Como? Minha sugestão é que se crie um grupo de trabalho em cada um dos ministérios, não apenas para conter a expansão do gasto corrente, cortar onde for possível as atividades-meio, enxugar o que for possível enxugar, mas também, e principalmente, aumentar a produtividade do gasto público, aumentar a qualidade do gasto público, para poder manter as políticas sociais e atendermos parte dessas demandas”.
-Reforma da Previdência: “Precisamos avançar na reforma da Previdência Social. Esse é um tema muito difícil socialmente e muito delicado politicamente (...). Se não enfrentarmos esse tema, não teremos capacidade de alavancar o investimento. Não podemos continuar com uma média de aposentadoria no país de 53 anos. A longevidade está aumentando a cada ano. A população cada vez vive mais. Infelizmente, não podemos seguir nesse caminho”.
-Reforma Tributária: “Defendo que nós avancemos na reforma tributária. O ICMS, hoje, além da irracionalidade de 28 Códigos Tributários, estimula a importação e penaliza a exportação. Como está, a Lei do ICMS estimula uma guerra fiscal que custa pelo menos R$25 milhões ao ano (...). Vamos enfrentar o tema da reforma tributária e concluir esse capítulo para o qual o Senado tão bem contribuiu”.
- Produtividade de políticas públicas: “Proponho que o Ipea, junto com o Tribunal de Contas da União, seja uma agência de avaliação da qualidade da política pública, estabeleça indicadores de produtividade não só para a União, mas para os Estados e Municípios, para os critérios de repasse de recursos”.
- Fundo de financiamento à infra-estrutura: “Penso que devíamos discutir um fundo de financiamento que alocasse recursos do FGTS, que tem um patrimônio líquido de R$22 bilhões, recursos do BNDES, Banco Mundial e do BID, a fim de que possamos alavancar o financiamento público e criar, com isso, mais capacidade de fortalecer a logística e a e capacidade de investimento do Estado brasileiro.”
- Projetos estratégicos: “O Governo deveria construir um grupo de trabalho interministerial, ligado à Casa Civil, de alto nível, para acompanhar os projetos estruturantes. Com relação à siderurgia do Ceará, o que falta para viabilizar? Vamos criar um grupo que trate prioritariamente dessa questão. A refinaria em Pernambuco, o pólo petroquímico do Rio de Janeiro, os investimentos da Norte–Sul ou da Transnordestina, na área ferroviária, ou o Ferroanel, na Grande São Paulo, os projetos na área de papel e celulose, bastante promissores, ou na siderurgia. E acompanhar, como nós fizemos no passado, com agilidade, de forma interministerial, a alavancagem do investimento privado”
- Agências reguladoras: “Têm razão aqueles que pedem que voltemos a discutir o marco regulatório, que voltemos a discutir o papel das agências reguladoras em termos da sua profissionalização, para criar um ambiente que estimule o investimento privado no Brasil”.
- Área energética: Defendo novos mecanismos de financiamento da economia. A Eletrobrás já é uma holding, e devia ser uma holding ainda mais robusta, com todos os ativos energéticos do Estado brasileiro unificados, com uma gestão profissionalizada, para se tornar uma Petrobras de energia, para alavancar capacidade de financiamento de energia, para poder suprir um dos gargalos de investimento, que é o constrangimento energético que se projeta para o futuro”.
Escrito por Josias de Souza às 16h21
Reportagem de Rogério Pagnan, publicada na Folha (assinantes):
“Um cartão de crédito corporativo da Presidência da República foi utilizado na compra de 280 "kits de lanches", em Jacareí (SP), no dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez comício na cidade, em setembro passado.
Essa compra, no valor de R$ 2.212, está sendo investigada pela Justiça Eleitoral de São Paulo após representação feita pelo advogado Sidnei de Oliveira Andrade, consultor jurídico da Câmara Municipal de Jacareí. Ele afirma que parte dos lanches foi distribuída para militantes petistas. "Para o pessoal que veio nas caravanas para o comício, cerca de dez ônibus", disse.
A Presidência confirma a aquisição dos lanches, mas nega irregularidades. Segundo a assessoria de imprensa da Casa Civil, responsável pelos cartões corporativos, os lanches foram distribuídos para o pessoal de segurança e do apoio presidencial, de acordo com a legislação.
Anteontem, a juíza eleitoral de Jacareí Antonia Brasilina de Paula Farah encaminhou o processo para o TRE (Tribunal Regional Eleitoral), que vai repassá-lo à Procuradoria Regional Eleitoral para apuração, já que pode envolver a campanha da reeleição de Lula. Além da representação do advogado, a Justiça de Jacareí anexou no processo as notas fiscais e o comprovante do cartão de crédito.
As notas fiscais apontam que, no dia 22 de setembro, nove pessoas da segurança e da equipe do presidente se alimentaram na Churrascaria Gaúcha Romani, em Jacareí. O almoço, no valor de R$ 90, foi pago com o cartão corporativo em poder de Mauro Augusto da Silva.
No dia seguinte, quando o presidente participaria de um comício na cidade, o mesmo funcionário do almoxarifado da Casa Civil voltou ao restaurante e utilizou novamente o cartão para comprar 280 lanches, ao preço unitário de R$ 7,90.
A Folha deixou recados no celular de Silva, mas não houve resposta até o fechamento desta edição. A reportagem enviou mensagem em seu e-mail, mas também não teve sucesso. O dono da churrascaria, Celso Romani, 43, afirmou que não sabe do destino dos lanches, levados pela própria equipe da Presidência numa van.
"Não sou militante do PT nem do PSDB. Sou como Cristovam Buarque: não levei nada", disse.
O fim do sigilo das compras feitas com o cartão corporativo foi cobrada pelo tucano Geraldo Alckmin ao presidente Lula durante debate no segundo turno. "A única coisa boa que FHC criou no governo dele foi exatamente esse cartão corporativo", afirmou o petista. Em 2005 surgiram suspeitas da utilização de notas fiscais frias para justificar gastos com cartões corporativos. O TCU analisa o caso”.
Outro lado: “A Casa Civil informou que os 280 lanches foram destinados à alimentação dos seguranças e do pessoal do apoio do presidente, tudo dentro da lei.
A assessoria do ministério de Dilma Rousseff, responsável pelos cartões corporativos, disse ainda não poder informar, por questões de segurança, qual é o número exato de pessoas que acompanham o presidente em viagens. O grupo contaria com homens e mulheres da Polícia Federal, das Forças Armadas, das polícias estaduais e de equipe médica.
O assessor da Casa Civil chegou a informar que os lanches haviam sido distribuídos em três remessas. Essa versão foi mudada, porém, quando a reportagem informou a posição do proprietário da churrascaria, de que os lanches foram levados de uma só vez. Na nova versão, a assessoria informou que a alimentação foi transportada pela equipe de segurança, que não poderia ser contatada na tarde de ontem. As despesas não serão ressarcidas pelo PT. O partido considera que gastos com segurança devem ser custeados pelo governo. Apenas os custos com o avião presidencial serão compensados”.
Escrito por Josias de Souza às 03h07

- Folha: Após derrota, Bush pede sugestões sobre o Iraque
- Estadão: Saúde e educação congelam Brasil no IDH
- Globo: Educação faz Brasil perder posição em ranking da ONU
- Correio: Aviões atrasam de novo
- Valor: Chineses farão carros no Uruguai e miram o Brasil
Leia os destaques de capa dos principais jornais.
Escrito por Josias de Souza às 02h58
Angeli
Escrito por Josias de Souza às 02h53
Sérgio Lima/Folha Imagem
Em meio a uma seqüência de encontros para a definição da equipe ministerial do segundo mandato, Lula demonstra preocupação com o que chama de “efeito fim de feira”. Age para que a expectativa em relação à composição do novo governo não paralise a Esplanada nos 51 dias que faltam para a conclusão do seu primeiro ciclo na presidência da República.
Em diálogo que manteve nesta quinta, Lula mostrou-se obcecado em manter a máquina pública a pleno vapor até o último dia de dezembro. Para que o governo não ganhe a aparência de uma xepa, o presidente está instando os ministros a mostrar serviço. Segundo as suas palavras, “a máquina tem que funcionar a todo vapor.”
Lula vem repetindo, mesmo entre quatro paredes, que ainda não definiu os auxiliares que serão substituídos no segundo governo. E quer que todos, sem exceção, trabalhem “como se o governo estivesse começando.”
Sob a inquietação de Lula esconde-se uma estratégia. Ele deseja criar um ambiente que sinalize, desde já, que o governo move-se em direção a uma nova fase. A fase do desenvolvimento.
Daí a insistência com que Lula vem fazendo referência a temas que representam entraves ao desenvolvimento econômico. Nesta quinta, em entrevista improvisada, ele disse que pretende, ainda neste ano, "desobstruir" algumas áreas do governo. Referiu-se à infra-estrutura e às questões fiscais.
"Isso é para que a gente possa dar um salto de qualidade”, disse Lula. “E somente depois que eu fizer essas coisas, é que vou começar a pensar no governo que vou fazer no próximo ano." Não por acaso, o ministro Guido Mantega (Fazenda) informou que está preparando um conjunto de medidas para reduzir impostos.
De olho na promessa feita por Lula de crescer a uma taxa de 5% em 2007, Mantega afirmou: “O grande objetivo é desonerar o investimento, é baratear o investimento no país de modo que ele impulsione um crescimento maior.” Afirmou, de resto, que as medidas serão anunciadas ainda em novembro.
Embora diga que tem “até 31 de dezembro” para definir quem fica e quem entra na equipe do segundo mandato, o plano de Lula, confidenciado a um político ouvido pelo blog, é a de fechar o xadrez ministerial até 15 de dezembro. O presidente manifestou a intenção de manter na equipe todos os ministros que “estiverem funcionando”.
O interlocutor lembrou a Lula que, em nome da composição partidária, ele talvez venha a ser obrigado a substituir uma ou outra peça que julgue bem encaixada na atual equipe. O presidente foi taxativo. Disse que não fará concessões que signifiquem o sacrifício da eficiência. A conferir.
Escrito por Josias de Souza às 01h45
O signatário do blog convida os seus 22 leitores a uma reflexão. Que atire a primeira pedra aquele que nunca enfiou o pé na jaca. Mas vai aqui um aviso: não minta. A mentira só assenta bem na boca daqueles que a pronunciam com o timbre da verdade. Os políticos, por exemplo. De resto, há que reconhecer que todos, um dia, já injetaram o metatarso na fruta. Pressione na imagem para ouvir o testemunho de algumas celebridades que lambuzaram o solado. Foram selecionadas pelo sítio Charges.com.
Escrito por Josias de Souza às 00h41
Folha Imagem
Em mais uma de suas vilegiaturas ruidosas, Fernando Henrique Cardoso proferiu, nesta quinta, uma palestra no Americas Society Council of the Américas, em Nova York. Afirmou, veja você, que não pode competir com Lula. Referia-se ao carisma do sucessor.
“Eu não posso competir com o Lula. Eu não sou espetacular. Foi por isso que eu inventei o real”, disse o ex-presidente. Que coisa! E o Brasil inteiro a imaginar que o real fora criado para debelar a inflação...
Irônico, FHC disse que, ao longo da última campanha, Lula jamais falou sobre o que faria caso fosse reeleito. “O Lula é a sua própria proposta de governo. O eleitorado sente isso. Ele representa a mobilidade social. Mas eu não sou nada disso.”
Verdade. O PSDB também acha. Tanto que escondeu o “cabo eleitoral” nos fundões da campanha de Geraldo Alckmin. Para FHC, “o Lula foi reeleito, e não o PT”. Acha que o segredo do presidente “é uma coisa extremamente pessoal”.
Diz respeito “à maneira como os candidatos se comportam na TV.” E nesse quesito, disse FHC, “Lula é muito bom. Ele é muito fluente sobre coisas que ele não sabe. Ele comete erros muito precisos. É extremamente difícil competir com esse tipo de gente.” Que o diga o Chuchu.
Ao discorrer sobre a reforma política, FHC disse que deve basear-se no fortalecimento dos partidos. “Hoje o povo não reconhece os partidos, porque eles não refletem a realidade. O Partido Progressista, por exemplo, é um partido conservador, e o Partido dos Trabalhadores é apoiado pelos bancos.”
E quanto ao PSDB? Na opinião de FHC, sua legenda não deverá se mover “nem à esquerda e tampouco à direita, mas adiante”. Acrescentou: “Ser de esquerda hoje significa ser contra os Estados Unidos e a favor de um Estado grande. E ser de direita não representa nada, mas ser a favor do clientelismo.” Outra verdade. Basta olhar o que foram os oito anos da era FHC, os quatro anos de Lula e o prenúncio do segundo ciclo de Lula 2º.
FHC também falou sobre 2010. Tratou da disputa que os tucanos José Serra e Aécio Neves travam, desde já, para prevalecer como presidenciável do PSDB. “Nosso problema é ter uma abundância de bons líderes.” Acha que é cedo para prognósticos. “Hoje nós não sabemos quem será capaz de ser candidato (a Presidente da República).” Serra e Aécio decerto não pensam a mesma coisa.
Escrito por Josias de Souza às 23h05
O senador Ney Suassuna (PB) reassumiu a liderança do PMDB no Senado. Ele estava afastado do cargo havia 85 dias, desde que a CPI das Sanguessugas pediu a abertura de processo de cassação do seu mandato. Prometera manter-se longe do cargo até que o Conselho de Ética do Senado decidisse o que fazer com o pedido da CPI. Não resistiu. Voltou antes. É um prenúncio de que sabe exatamente o que está por vir.
O retorno de Suassuna ocorre 24 horas depois de o Conselho ter adiado a votação do parecer de Jefferson Peres (PDT-AM), para quem o mandato do colega deve ser passado na lâmina. Alegou-se falta de quorum. Estavam presentes cinco senadores. Exigia-se o comparecimento de pelo menos oito. Adiou-se a decisão para 22 de novembro.
Suassuna voltou à liderança porque sabe que não será mandato à guilhotina. Não houve quorum na reunião do Conselho de Ética porque o PMDB não permitiu que houvesse. Deseja-se retardar ao máximo a tramitação do processo, para evitar que chegue ao plenário antes do final do ano.
Como Suassuna não foi reeleito, a encrenca seria enviada ao arquivo na próxima legislatura. E o senador manteria intactos os seus direitos políticos. Isso, evidentemente, se o caso não morrer antes. O senador Wellington Salgado (PMDB-MG), que substituiu Suassuna na liderança, já anunciou que irá sugerir ao Conselho de Ética que transforme o pedido de cassação numa advertência. Advertência verbal, naturalmente. Nada de admoestações por escrito.
Como líder, Suassuna, suspeito de ter recebido propinas da máfia das ambulâncias por meio de assessores, torna-se interlocutor obrigatório de Lula na composição do próximo ministério. Natural, muito natural, naturalíssimo. Durante a campanha eleitoral, Lula esteve na Paraíba, Estado do senador. Em comício, disse que Suassuna é “leal e decente”. De resto, para quem já está tricotando até com Jader Barbalho, um Suassuna a mais, um a menos... Quem se importa?
Por sorte, Lula 2º disse que não pretende acomodar na Esplanada os amigos derrotados nas urnas. Reze-se para que o presidente cumpra a palavra. Do contrário...
Escrito por Josias de Souza às 22h22

O presidente da CPI das Sanguessugas, deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), à direta na foto, informou reservadamente a alguns parlamentares que a comissão deve ser encerrada bem antes do previsto. Segundo Biscaia, o relator da CPI, senador Amir Lando (PMDB-RO), à esquerda, lhe informou que pretende concluir o seu relatório ainda neste mês de novembro. Confirmado o prazo, as investigações terminariam um mês antes do previsto.
A CPI caminha a passos largos para um desfecho melancólico. Na primeira fase, concluída antes das eleições, a comissão sugeriu a abertura de processos de cassação contra 71 congressistas (veja a lista aqui). Passada a eleição, pretendia-se apurar as ramificações da máfia das ambulâncias no Poder Executivo. Arma-se nos subterrâneos, porém, um armistício entre governo e oposição.
Costurado com a participação do Palácio do Planalto, o acordo visa pôr uma pedra em cima das apurações do Legislativo, deixando a cargo apenas da Polícia Federal e do Ministério Público o desfecho do caso. Como os fatos sob investigação alcançam também o governo FHC, PSDB e PFL participam ativamente da conspiração contra a postergação dos trabalhos da CPI.
O acerto começou a surtir efeitos nesta semana, nas sessões em que foram inquiridos os ex-titulares da pasta da Saúde. Foram “convidados” quatro ex-ministros –dois do governo FHC, José Serra e Barjas Negri; e dois da gestão Lula, Humberto Costa e Saraiva Felipe.
Serra não deu as caras. Não se preocupou nem mesmo em enviar uma explicação à comissão. Os outros três foram tratados com uma complacência incomum em CPIs. Os questionamentos incisivos foram exceções. O grosso dos membros da comissão esforçou-se para demonstrar delicadeza com os “convidados”. O presidente Biscaia trocou a direção dos trabalhos por uma viagem à Espanha.
Um outro detalhe jogou água no moinho do imenso acordo que se forma em torno da CPI. Pela lógica, o “convite” ao ausente Serra deveria ter sido transformado em convocação. Para que isso ocorresse, porém, seria necessário que um dos membros da comissão apresentasse um requerimento. Mas não houve um único deputado ou senador interessado em arrastar o governador eleito de São Paulo para o banco da CPI.
A bancada do PT fingiu-se de morta. Em retribuição, as bancadas do PSDB e do PFL trataram de esvaziar a sessão em que foram "inquiridos" os dois ex-ministros de Lula, Humberto Costa (PT) e Saraiva Felipe (PMDB). Dos 22 tucanos e pefelistas que integram a comissão, entre suplentes e titulares, só três marcaram presença.
Os parlamentares que ainda apostam no aprofundamento das investigações aguardam até que Amir Lando oficialize a pretensão de fechar o relatório ainda em novembro, para decidir o que fazer. O desinteresse de PT, PSDB e PFL indica, no entanto, que há muito pouco a ser feito.
Dificilmente a CPI se arrastará até o final de dezembro, como se previa. A hipótese de estender a apuração para a próxima legislatura, pretendida por alguns, tornou-se um sonho irrealizável. Nem mesmo a perspectiva de elucidar o dossiêgate parece empolgar a oposição. A CPI ainda deve ouvir os "aloprados" do PT. Mas a maioria não tem mais interesse em aprofundar a investigação, que deve mesmo ficar a cargo da PF e do Ministério Público.
Escrito por Josias de Souza às 16h45
O PNUD (Programa da ONU para o Desenvolvimento) divulgou nesta quinta um documento de conteúdo cômodo. Permite ao otimista proclamar que o Brasil vive no melhor dos mundos possíveis. E faculta ao pessimista a possibilidade de difundir o receio de que isso é absolutamente verdadeiro.
O documento se chama RDH (Relatório do Desenvolvimento Humano). Faz uma avaliação comparativa da evolução das condições de vida em 177 países. Vale-se de um indicador próprio, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que leva em conta a variação das estatísticas de educação, expectativa de vida e PIB per capita.
Pois bem, o Brasil piorou a sua posição no ranking do último IDH. Foi da 68ª posição, que ostentava em 2003, para a 69ª, em 2004. A despeito disso, o documento informa que os brasileiros vêm experimentando uma melhoria nos seus padrões de vida. Anota que, nos últimos cinco anos, o país vem reduzindo a distância entre pobres e ricos. Há menções honrosas ao Programa Bolsa Família.
Mas como explicar que um país que reduziu a pobreza de população amargou uma queda no ranking que mede a qualidade de vida dos povos? Simples. Outras nações evoluem em ritmo mais acentuado do que o Brasil. Considerando-se uma lista de 126 países, o Brasil ainda é a 10ª nação mais desigual do planeta. Está à frente apenas da Colômbia, Bolóvia, Haiti (sempre ele) e um conjunto de países da África Subsaariana.
Há coisas curiosas no levantamento do programa da ONU. Lendo-se o documento (íntegra aqui), descobre-se que 90% da população brasileira já tem acesso a água potável. Em 1990, esse índice era bem menor: 83%. Em contrapartida, só 75% dos brasileiros são alcançados pela coleta de esgoto. Em 90, eram 71%.
Algo como 43,4 milhões de patrícios não têm acesso a saneamento básico. Nessa matéria, o Brasil está abaixo, por exemplo, do Paraguai. O documento da ONU não menciona, mas, de acordo com o censo 2000 do IBGE, divulgado em 19 de dezembro de 2002, há no Brasil 7,5 milhões de domicílios sem banheiro.
O Piauí desponta como a mais vistosa aberração. Lá, 42,93% das casas não contam com sanitários. Nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, menos da metade das residências dispõe de rede de esgoto. Um acinte presente também em favelas à volta de aglomerados urbanos do porte de São Paulo.
Como festejar qualquer tipo de evolução num país em que, no limiar do Século 21, ainda há pessoas sem vaso sanitário? Melhor arregaçar as mangas do que soltar fogos.
Escrito por Josias de Souza às 15h34

- Folha: Caos no Iraque derrota Bush; secretário da Defesa renuncia
- Estadão: Bush é derrotado e Rumsfeld cai
- Globo: Ação de Bush no Iraque é reprovada e Rumsfeld cai
- Correio: Xi! Encolheram Bush...
- Valor: Vitória democrata facilita a renovação do SGP
Leia os destaques de capa dos principais jornais.
Escrito por Josias de Souza às 07h31
Glauco
Escrito por Josias de Souza às 01h42
Sérgio Lima/F.Imagem
O ex-presidente do STF, Nelson Jobim, foi acionado por Lula para auxiliá-lo na costura dos entendimentos com o PMDB. Cotado para ocupar a pasta da Justiça no segundo mandato, Jobim já faz as vezes de articulador político do Planalto. Cuida de pacificar a ala não governista do PMDB, enquanto Lula realiza contatos com os peemedebistas que o apoiaram na campanha presidencial.
Representado pelo deputado Michel Temer (SP), presidente do PMDB, o naco que se aliou ao tucano Geraldo Alckmin mostra-se disposto a dialogar com Lula. Mas o grupo está incomodado com a movimentação do presidente.
Lula dissera que estabeleceria com os partidos um “relacionamento institucional.” O ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) afirmara que seriam procurados os presidentes das legendas, não as suas lideranças. No entanto, Lula vem privilegiando os contatos fragmentários. Abriu diálogo com os governadores e com os apoiadores de primeira hora. Nesta quarta, por exemplo, recebeu o deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), lulista desde criancinha.
O grupo de Temer observa tudo com um pé atrás. Acha que Lula erra ao alijar deste início de negociação a ala não governista do PMDB. Para evitar melindres incontornáveis, Lula pediu a Jobim que telefonasse para Temer. O contato foi relatado pelo deputado, em reserva, a peemedebistas que o procuraram.
Segundo a descrição feita por Temer entre quatro paredes, Jobim lhe assegurou que, na qualidade de presidente do PMDB, será chamado para uma conversa formal com Lula. Disse que, mais do que um desejo, essa é uma decisão de Lula. Procurado pelo blog, Temer não quis comentar a informação. Alegou que não é hora de falar, mas de aguardar. Jobim tampouco respondeu a dois telefonemas do repórter.
Ao distanciar-se da formalidade, Lula repete na composição do ministério de 2007 um erro que já cometera na formação do gabinete de 2003. Em dezembro de 2002, antes da posse, Lula escalara José Dirceu para dialogar com Temer. Acertou-se que o PMDB ocuparia três ministérios no governo que se instalaria no mês seguinte: Minas e Energia, Integração Nacional e uma terceira pasta, a ser definida.
Temer entregou a Dirceu duas listas tríplices, para que Lula extraísse os nomes dos ministros do PMDB. Para a pasta das Minas e Energia, foram indicados os senadores Hélio Costa, Pedro Simon e Amir Lando. Para a da Integração Nacional, os deputados Eunício Oliveira, Nilton Montes e Paulo Lima.
Na noite do mesmo dia, Lula anunciou o seu primeiro ministério. Não havia na lista nenhum nome do PMDB. Na manhã seguinte, Dirceu telefonou para Temer, desculpando-se. O deputado lamentou que o futuro chefe da Casa Civil tivesse sido desautorizado.
Depois, no curso do governo, Lula se viu compelido a servir-se de quadros peemedebistas para recompor sua equipe. Mas o fez de modo fragmentário, estimulando a divisão do partido. O grupo de Temer foi empurrado para a oposição. Receia-se que a encrenca se repita.
Nesta nova fase, a ala não governista espantou-se, por exemplo, com a notícia de que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) já teria sondado a senadora Roseana Sarney para integrar o novo ministério. Roseana acaba de se desligar do PFL. Está de malas prontas para o PMDB de seu pai, José Sarney, lulista de carteirinha.
Se quiser empurrar Roseana como ministra da cota do PMDB, Lula arrostará uma primeira rebelião. Os adversários de Sarney, que não são poucos, demonstram inconformismo com a perspectiva de que Roseana, que ainda nem se filiou, possa ser guindada à condição de representante do PMDB no novo governo.
Como se vê, a pacificação do PMDB é tarefa mais complicada do que Lula parece supor. Não há, a essa altura, nenhuma dúvida de que o partido, que já controla três ministérios (Comunicações, Minas e Energia e Saúde), continuará freqüentando a Esplanada no segundo mandato. Porém, ainda não se produziu nenhuma evidência de que Lula terá do seu lado um PMDB minimamente unificado.
Escrito por Josias de Souza às 23h40
Blog do Tas
Virou moda, como se sabe, discutir acerca de liberdade de imprensa. Deve-se a Márcio Thomaz Bastos a introdução de uma pitada de racionalidade no debate. O ministro da Justiça lembrou o raciocínio de um juiz da Suprema Corte dos EUA: “O essencial é que a imprensa seja livre, e não que seja justa”.
Elio Gaspari esclareceria depois que o juiz é Warren Burger. Presidiu a Corte entre 1969 e 1986. Gaspari anotou: “Num caso de 1974, em que o ‘Miami Herald’ negara o direito de resposta a um sindicalista, Burger deu razão ao jornal e redigiu o voto unânime do tribunal. A certa altura, disse o seguinte: ‘Sem dúvida, uma imprensa responsável é um objetivo desejável, mas a Constituição não manda a imprensa ser responsável. Como muitas outras virtudes, não se pode legislar sobre a responsabilidade’".
Pois bem, nesta quarta, descobriu-se que a Polícia Federal, subordinada a Thomaz Bastos, quebrou o sigilo telefônico de um aparelho fixo da Folha e do celular de uma repórter do jornal. O delegado Diógenes Curado, responsável pela brincadeira, ter detectado ligações desses aparelhos para o celular do “aloprado” Gedimar ‘dossiê’ Passos.
Os telefonemas foram feitos, com propósitos jornalísticos, nos dias que se seguiram à prisão de Gegimar. Outros órgãos de comunicação fizeram o mesmo. Mas só os sigilos da Folha foram quebrados. Ouvido, o delegado tentou explicar-se:
"Vimos que todas as ligações feitas pela Folha foram posteriores a essa data [da prisão], que os jornalistas estavam apenas tentando obter mais informações sobre o caso. Logo descartamos qualquer investigação sobre a Folha."
E porque só a Folha? O delegado prometer responder nesta quinta. Num instante em que Lula esforça-se para normalizar suas relações com a imprensa, a alopragem da PF soa a provocação. Sugere-se a Diógenes Curado um mínimo de cautela.
Numa dessas, invadindo a privacidade funcional de jornalistas, o investigador pode topar com o ministro da Justiça do outro lado da linha. Embora noviço na atividade pública –é a primeira vez que ele ocupa um cargo governamental—, o ministro da Justiça é um fino cultor do saudável hábito de atender aos chamados de repórteres. É um dos poucos inquilinos da Esplanada que têm clareza de que, para ser justa, a imprensa precisa ser bem informada.
Escrito por Josias de Souza às 22h04
Moreira Mariz/Ag.Senado
Ulysses Guimarães, que as águas de Angra o tenham, cunhou uma frase lapidar para definir uma atividade que soube exercer com rara maestria. Dizia o velho líder do PMDB: “Em política, você não pode estar tão próximo que amanhã não possa estar distante, nem tão distante que amanhã não possa se aproximar”.
Nesta quarta, oposicionistas e governistas, distantes na fase pré-eleitoral e durante toda a campanha, aproximaram-se. Uniu-os o interesse nacional. Num raro instante de lucidez, o Senado aprovou a lei geral das micro e pequenas empresas. A decisão foi unânime.
A nova lei reduz a carga de tributos que incide sobre empresas com faturamento anual de até R$ 2,4 milhões. E simplifica o processo de abertura de novas empresas. Pressione aqui para conhecer os principais pontos. É incompreensível que não tenha sido aprovada antes.
Graças à demora, teve-se de adiar de janeiro para julho de 2007 o início da vigência da nova lei. A Receita Federal argumentou que não teria tempo para se ajustar às novidades. A mudança de datas obrigou o Senado a devolver o projeto à Câmara, que terá de votá-lo novamente.
Seja como for, os congressistas protagonizaram instantes de lucidez. Na semana passada, antes de viajar para um descanso de quatro dias, na Bahia, Lula dissera a assessores que submeteria a oposição a teste. Queria que dessem uma prova de boa vontade aprovando a lei das micro e pequenas empresas e o Fundeb.
Uma prova já foi dada. A outra virá na seqüência. Até onde a vista pode alcançar, não há no Congresso uma única alma disposta a votar contra o fundo que injetará recursos no ensino básico. Alvíssaras.
Escrito por Josias de Souza às 21h09

Lul