A crise semântica e o PCC

  Rogério Cassimiro/Folha Imagem
A julgar pelo tom da campanha eleitoral, o único problema real do Brasil é uma crise de semântica. Lula diz que, antes dele, nunca ninguém governara o país com tanta competência nos últimos 500 anos. O eleitorado, a julgar pelas pesquisas, concorda.

 

Alckmin sustenta que, mercê do "choque de gestão" que teria dado na administração paulista, São Paulo tem resultados sólidos a exibir. Parte dos eleitores, de novo, parece dar-lhe razão. Por ora, Alckmin lidera as pesquisas no seu Estado.

 

Ou seja, o Brasil e a São Paulo dos discursos eleitorais deram "certo". Resta agora definir o que é exatamente “dar certo”. Mencione-se, por oportuno, só um quesito: segurança pública. A pujança do PCC é bom sinal (sem dinheiro em circulação o crime não teria se organizado) ou mau sinal (o Estado perdeu o controle sobre as cadeias).

 

A proliferação de condomínios de luxo, gradeados e protegidos por seguranças armados, provam o acerto ou são meros refúgios de privilegiados num país cada vez mais injusto e, portanto, inviável.

 

O primeiro passo para chegar às respostas é começar a falar a mesma língua. Coisa que os governos paulista e federal não vêm conseguindo fazer. O desencontro mais recente opôs o secretário de Segurança Saulo de Castro, pupilo de Alckmin, e o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, lugar-tenente de Lula.

 

Nesta quarta-feira, em entrevista à Rádio Capital, Lula também cutucou Saulo de Castro. "Acho que o secretário devia ser mais sensato na hora de abrir a boca (...) e tentar evitar essas coisas que estão acontecendo em São Paulo. Essas pessoas estão cuidando da segurança de São Paulo há muitos anos. Ele deveria, de forma mais humilde, perceber que houve uma falha. Ele poderia tirar o telefone celular dos presos." O presidente disse que não levará desaforo para casa.

 

Logo virá uma resposta. Ou do secretário ou de seu antigo chefe Alckmin ou de seu chefe atual, Cláudio Lembo. Enquanto evolui o tiroteio retórico, a sociedade de São Paulo vai sendo submetida ao poder de fogo do PCC, por ora o único beneficiário visível de um país e de um Estado que “deram certo”. O número de alvos dos criminosos neste terceiro ciclo de ataques já passa de 150.