Fábio Pozzebom/ABr
Há três dias, Sarney informara à bancada do PT que preferia renunciar a pedir licença.
O senador como que condicionara sua permanência na presidência do Senado ao apoio do petismo.
O suporte do PT ainda não veio. Depois de se reunir com Lula, a bancada petista, dividida, adiou sua decisão para terça-feira (7).
A despeito disso, Sarney disse a Lula, nesta sexta (3), que não cogita pedir licença nem renunciar.
Mal comparando, Sarney faz um caminho inverso ao de Getúlio Vargas.
Em sua carta testamento, de agosto de 1954, Getúlio anotara: “...Saio da vida para entrar na história”.
No caso de Sarney dá-se coisa diferente: Saio da história para cair na vida.
Escrito por Josias de Souza às 18h36
Alan Marques/Folha
Dilma Rousseff saiu em defesa de José Sarney, um personagem que, para o chefe da ministra, “não pode ser tratado como uma pessoa normal”.
"Não concordo em demonizar e responsabilizar [Sarney] por tudo”, disse Dilma.
"Uma pessoa não é o único responsável por tudo que ocorre há 15 anos no Senado”.
A ministra-candidata prefere demonizar os ‘demos’:
“Quem é o responsável é a Primeira Secretaria [do Senado], que está com o DEM...”
...Um partido que, “estranhamente, pede o afastamento de Sarney".
De fato, o PMDB de Sarney, Jader e Renan frequenta a crônica do descalabro do Senado de mãos dadas com o DEM de Efraim de Morais.
Em matéria de perversão, é difícil, muito difícil, dificílimo distinguir as virgens de Sodoma das imaculadas de Gomorra.
Dilma é de um tempo em que as mães costumavam passar aos filhos determinados ensinamentos básicos. Coisas assim:
Chiclete, quando engolido, cola nas tripas. Pés descalços no ladrilho era pneumonia certa. Manga com leite, morte. Banho depois do almoço, congestão.
Se a mãe da ministra intuísse que o destino a empurraria para as cercanias do PMDB, decerto teria alertado: mão no fogo por Sarney dá queimadura de terceiro grau.
Escrito por Josias de Souza às 17h58
Fotos: Fábio Pozzebom e Janinie Moraes/ABr

Os liames que prendem José Sarney ao cargo de presidente do Senado tornaram-se mais frágeis nesta sexta-feira (3).
Descobriu-se que o morubixaba do PMDB escondeu da Justiça Eleitoral a posse de uma mansão avaliada em R$ 4 milhões.
O imóvel serve de residência para Sarney, em Brasília. Está assentado na Península dos Ministros, área mais valorizada do bairro do Lago Sul.
Deve-se a revelação a uma trinca de repórteres: Rodrigo Rangel, Leandro Cólon e Rosa Costa. Levaram a notícia às páginas do Estadão. Eis o que descobriram:
1. Em 1997, Sarney comprou a mansão do banqueiro Joseph Safra. A transação foi feita por meio de um contrato de gaveta;
2. Desde então, Sarney disputou duas eleições, em 1998 e em 2006. Pela lei, todo candidato é obrigado a fornecer à Justiça Eleitoral uma declaração de bens;
3. Ao listar os seus bens, Sarney omitiu a posse da mansão brasiliense em 1998. Reincidiu na omissão em 2006;
4. Ouvido, o senador falou por meio da assessoria. Atribuiu a anomalia a um "erro do técnico que providencia a documentação [...] junto aos órgãos competentes";
5. Na resposta, feita por escrito, anotou-se que o imóvel consta das "declarações anuais de IR do presidente, entregues também ao TCU com frequência anual";
6. O conteúdo de dois documentos põe em dúvida a versão oficial. São papéis oficiais, levados pelo próprio Sarney ao TRE do Amapá;
7. Num dos documentos, apresentado na eleição de 2006, Sarney listou os seus bens. Nem sinal da mansão;
8. No rodapé desse documento, Sarney escreveu, de próprio punho, que aquela lista reproduizia a declaração de rendimentos que entregara à Receita Federal;
9. Eis o teor do manuscrito de Sarney: "De acordo com minha declaração de bens à Receita Federal em 2006". Segue-se a assinatura do senador;
10. O segundo documento refere-se à eleição anterior, de 1998. Sarney anexou ao pedido de registro de sua candidatura uma cópia da própria declaração de IR;
11. De novo, nenhuma menção ao imóvel que adquirira no ano anterior;
12. Um outro mistério tisna a transação feita entre Sarney e Joseph Safra: entre a efetivação do negócio e o registro em cartório decorreram dez anos;
13. A mansão foi comprada em 1997 por meio de um "instrumento particular de promessa de venda e compra, não levado a registro";
14. De acordo com o Banco Safra, Sarney pagou R$ 400 mil. Liquidou a dívida no ano seguinte, 1998;
15. Curiosamente, a transferência efetiva do imóvel só foi feita no ano passado, 2008, quando a escritura foi lavrada no cartório de imóveis de Brasília;
16. Por que essa demora de uma década? “Desconhecemos” o motivo, informou o Banco Safra. Sarney não quis responder à pergunta.
17. De acordo com a escritura, o banqueiro Joseph Safra transferiu o imóvel a Sarney e a um dos filhos dele, o deputado federal Zequinha Sarney (PV-MA);
18. O documento atribui a cada um os direitos sobre 50% do imóvel. Diferentemente do pai, Zequinha reportou a sua metade à Justiça Eleitoral;
19. No papel, o valor atribuído à mansão –R$ 400 mil— não condiz com as cifras de mercado;
20. Mesmo no ano da compra, 1997, o valor estimado pelo governo de Brasília para efeitos de cobrança do IPTU era maior: R$ 593,6 mil;
21. Hoje, segundo estimativa da Câmara de Valores Imobiliários de Brasília, um teto como o que foi adquirido pelos Sarney não sai por menos de R$ 4 milhões;
22. A renda e o patrimônio dos brasileiros são protegidos pelo sigilo fiscal. Sarney assegura que a mansão consta do seu IR. Há controvérsias. Que não serão dirimidas senão por meio da divulgação das declarações levadas ao fisco.
23. Em março passado, Sarney vira-se compelido a exonerar o então diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, por conta de uma querela imobiliária;
24. Agaciel ocultara atrás de um irmão, o deputado federal João Maia (PR-RN), a posse de uma mansão avaliada em R$ 5 milhões, no mesmo Lago Sul;
25. Agora, é o próprio Sarney quem se vê enredado numa transação de má aparência;
26. A presidência de Sarney balançara depois depois da descoberta de que um neto dele, filho de Zequinha, intermediara empréstimos a servidores do Senado;
27. O DEM abandonou Sarney sob o pretexto de que os negócios do neto assemelham-se aos malfeitos atribuídos ao ex-diretor João Carlos Zoghbi;
28. A permanência de Sarney no cargo passou a depender do apoio do PT. Já não estava fácil. Agora talvez fique ainda mais difícil.
Escrito por Josias de Souza às 05h27
Presidente diz que oposição usa Sarney para atingir governo
Sobre investigações, conta ter pedido rigor à Polícia Federal
Dilma lembra que a parceria com o PMDB é vital para 2010
Durante reunião, metade do PT defende a licença de Sarney
Dividida ao meio, bancada só tomará sua decisão na terça
Fotos: Sérgio Lima e Alan Marques/Folha

Durou quatro horas o encontro de Lula com a bancada de senadores do PT. Começou às 21h de quinta (2). Terminou na madrugada desta sexta, à 1h.
Deu-se no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República. Compareceram 11 dos 12 senadores do PT. Só faltou Flávio Arns (PR).
Foi uma conversa franca e tensa. Começou com uma exposição dos senadores. Lula fez questão de ouvir um por um. Discorreram sobre as mazelas do Senado.
Materializou-se diante de Lula a divisão e o drama de consciência do petismo. Mencionaram a necessidade de investigar, punir e reformar o Senado.
Informou-se a Lula que nem todas as chagas do Senado foram expostas. Cinco senadores repisaram a defesa da saída de José Sarney da cadeira de presidente.
Eis os nomes dos adeptos do pedido de licença: Marina Silva (AC), Eduardo Suplicy (SP), Augusto Botelho (RR), Fátima Cleide (RO) e Tião Viana.
Outros seis acham que é possível mudar sem que Sarney tenha de sair. São eles: Aloizio Mercadante (SP), Ideli Salvatti (SC), Delcídio Amaral (MS), João Pedro (AM), Serys Slhessarenko (MT) e Paulo Paim (RS).
Antes, o placar na bancada do PT era de 7 a 5 pela saída de Sarney. Só Paim refluiu. O ausente Flavio Arns defende o afastamento.
Assim, a despeito de Lula, a bancada do PT continua cindida ao meio. Depois dos senadores, falaram dois petistas que integram o governo.
Foram ao encontro, a pedido de Lula, Dilma Rousseff e Gilberto Carvalho. A ministra-presidenciável realçou a importância do PMDB na aliança de 2010. Foi ecoada por Carvalho, chefe de gabinete de Lula.
Vencida essa primeira fase, Lula tomou a palavra. Disse que também deseja a apuração das denúncias que rondam o Senado.
Contou que se reunira na véspera com o ministro Tarso Genro (Justiça). Revelou que estava presente também o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa.
Afirmou ter encomendado a ambos uma investigação “rigorosa”. Lembrou que o próprio Sarney pedira a entrada da PF no caso.
E traçou o cenário de borrasca que decorreria da eventual saída de Sarney. Acha que uma renúncia do presidente do Senado vai desembocar numa crise.
Crise “gravíssima”, de “desfecho imprevisível”. Carregou nas tintas: “Tudo pode acontecer”. Afirmou que entende a posição da bancada petista. Mas lembrou:
1. O PMDB é parceiro estratégico –administrativa e eleitoralmente;
2. Sarney exerce sobre o partido uma influência inaudita;
3. Um desacerto com os peemedebistas comprometeria a “governabilidade”;
4. A oposição usa Sarney como degrau para escalar sobre o governo.
Lula soou enfático ao se referir ao PSDB e ao DEM. Desdenhou dos alegados propósitos éticos dos rivais.
Realçou o fato de que tucanos e ‘demos’ querem investigar em Brasília, mas se esquivam de apurações onde elas não lhes convém.
Mencionou a Porto Alegre de Yeda Crusius e a Curitiba de Beto Richa, ambos tucanos. Não chegou a fazer um pedido formal para que o PT se unifique em torno de Sarney.
Nem precisava. Sua peroração, por grave, funcionou como um apelo. Depois de falar, Lula franqueou a palavra novamente aos senadores.
Ao final, não foi anotada nenhuma mudança brusca de posição. Acertou-se que a bancada do PT fará nova reunião para deliberar sobre Sarney.
Será o quarto encontro. Foi marcado para terça-feira (7) da semana que vem. Na manhã desta sexta (3), Mercadante e Ideli darão uma entrevista coletiva.
Lula informou que, também nesta sexta, vai receber Sarney em audiência. Ainda não tem como entregar ao “aliado” o apoio do PT.
A conversa do Alvorada terminou na mesa de jantar. Lula tentou desanuviar a atmosfera.
Mencionou o encontro que tivera à tarde com a delegação do Corinthians. Espicaçou Mercadante e Suplicy, torcedores do Santos. Disse ao tricolor Tião que o Fluminense será a próxima vítima do "Timão".
Ao sair do Alvorada, alguns senadores souberam que havia na praça uma nova denúncia contra Sarney. Deixou de declarar uma mansão de R$ 4 milhões. “Não sei se ele vai durar até terça”, disse um petista ao blog.
Escrito por Josias de Souza às 04h05

- Globo: PMDB ameaça deixar o governo e enquadra PT
- Folha: Desemprego nos EUA e na Europa volta a piorar
- Estadão: Com apoio do PT, Sarney se segura no cargo
- JB: Mulher perde mais empregos na crise
- Correio: Rumo ao colapso
- Valor: Empresas renegociam dívidas e driblam crise
- Jornal do Commercio: Advogada executada dentro do escritório
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Escrito por Josias de Souza às 02h05
Ique

Via Blique, o blog do Ique.
Escrito por Josias de Souza às 01h58
Elza Fiúza/ABr

Lula está reunido nesse instante com a bancada de senadores do PT. Vai pedir que apóiem José Sarney.
No carro, a caminho do encontro, a senadora Maria Silva (PT-AC) falou ao blog. Ela é uma das vozes que pedem que Sarney se licencie da presidência do Senado.
Acha que, se aceitasse a sugestão, Sarney protagonizaria um “gesto de grandeza”. Não acha que haveria prejuízos à “governabilidade”.
E se Lula fizer um apelo? “Não existe apelo sem argumento. Vou ter que ouvir os argumentos do presidente Lula [...]. Vai ser um diálogo, não uma imposição”.
Vai abaixo a entrevista:
- Por que acha que Sarney deve se licenciar?
É uma visão que construímos dentro da bancada. Para processar essa crise, uma das etapas é o afastamento do presidente Sarney.
- Acha que a licença resolve o problema?
É claro que o afastamento em si mesmo não resolve o problema. É uma parte do processo de resolução. Há também a proposta de constituição de uma comissão, todas as providências que devem ser tomadas do ponto de vista das investigações, punições quando houver comprovação e reforma do Senado. Chamo esse processo ‘instituinte’. É peciso responder a algumas perguntas: Qual é o Senado que a população brasileira se dispõe a bancar? Qual é o Senado que nós, senadores, juntamente com os servidores que honram a sua profissão, queremos construir? É preciso recompor o velho Senado, fazê-lo renascer das cinzas como uma Fênix.
- Quem é responsável pela crise?
A crise existe em co-responsabilidade. Sem querer diluir a responsabilidade dos que têm mais, é preciso dizer que a responsabilidade é compartilhada. Afinal de contas, há 81 senadores. A saída para a crise também é um processo que deve ser construído em co-autoria. Ninguém vai chegar a resposta definitiva isoladamente, só um partido, só um bloco... Não vai ser assim. Ou nos responsabilizamos todos ou não encontraremos a solução exigida pela soiedade e necessária à instituição.
- A presença de Sarney é um óbice às mudanças?
Se tratarmos assim, reduzindo tudo à presença de uma pessoa, a gente diminui o tamanho do problema. O que eu digo é que o afastamento dele faz parte do processo de encaminhamento da resolução dos problemas.
- Ele é parte do problema?
Justiça seja feita. As sugestões que vêm sendo dadas estão sendo adotadas pela Mesa [diretora do Senado]. Mas tem uma coisa que acontece na política e nos processos mais complexos: não basta ter a solução técnica dos problemas. Os processos são tão importantes que, às vezes, as pessoas não se sentem espelhadas neles, mesmo que conduzam a resultados bons
- Acha que a licença basta?
Até esse momento, nenhum partido ou senador sugeriu ao presidente Sarney que renunciasse. Todos têm dito que a melhor forma de encaminhar o problema seria um afastamento dele, até como um gesto de grandeza dele próprio. Diria: ‘Olha, já tomei todas as medidas, sabem que não estou criando obstáculos. Mas, como um gesto extremo desse meu distanciamento, para que as coisas sejam apuradas com toda a equidistância, estou me licenciando por um período’. Faz parte do processo.
- De que modo esse gesto ajudaria?
No meu entendimento, esse gesto levaria a novos atos em benefício da instituição Senado. A crise é muito grande. E o Senado, a democracia brasileira, a credibilidade das instituições, tudo isso é parte de um processo sempre em construção. São valores maiores do que cada um de nós individualmente. Maiores do que cada partido individualmente. Nesse momento, temos que ter um pouco de humildade. Todo mundo deve olhar de cima pra baixo, para ver o que está acima de nós: a democracia e as instituições públicas. Elas dependem de pessoas virtuosas, mas não só. Sem instituições virtuosas, não há como depurar os processos sociais. É obrigação de todos trabalhar pelos objetivos. Não é um esforço individual. Ninguém ganha no varejo. E todos perdem no atacado.
- A tese de que o afastamento de Sarney prejudicaria a governabilidade não a sensibiliza?
Não creio que o afastamento vá prejudicar a governabilidade. Até porque ninguém está dizendo que afastamento é para que tudo fique um caos, para que cada um faça uma política do deixa como está. É dentro de um processo de co-responsabilidade. Pode parecer ingênuo de minha parte, mas acredito que existem gestos de grandeza.
- Acha que a sociedade ainda conta com a grandeza do Senado?
Sei que a sociedade espera que alguma coisa seja feita. Não sei sei se ainda temos credibilidade para que as pessoas esperem grandeza de nossa parte. Mas talvez tenhamos que dar o primeiro passo. O Lacan fala que o sentido aparece só depois, mas a confiança tem que ser obtida antecipadamente. É preciso confiar na capacidade de homens e mulheres de bem, que não são perfeitos nem santos, mas que são capazes de dividir responsabilidades e autoria para a realização das grandes coisas. Não existe nada grande que seja feito por uma ou duas pessoas. É sempre um processo em co-autoria. Prefiro acreditar nisso. Tudo o que mudou significamtivamente foi assim.
- Diante de um apelo do presidente para que a bancada apóie Sarney, qual será sua posição?
Em primeiro lugar, não existe apelo sem argumento. Vou ter que ouvir os argumentos do presidente Lula. E não há argumento que não seja passível de uma contra-argumentação. Então, vai ser um diálogo, não uma imposição. O que vou sugerir é que a bancada se reúna novamente, para processar o que ouviremos do presidente e também o que diremos a ele. Só vou poder formar a minha opinião depois de ter todos os argumentos. Fizemos sugestões ao presidente Sarney, repetiremos ao presidente Lula. São coisas nas quais acredito profundamente. Acho que é a melhor forma de contribuir para resolver a crise. Não vai ter resposta mágica, é um processo. Não é uma cirse apenas política, mas também estrutural. A bancada vai ter de se reunir novamente.
Escrito por Josias de Souza às 21h39
O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, encontrou-se nesta quinta (2) com o governador mineiro Aécio Neves.
Foi levar a ele o modelo de prévias que a Executiva tucana aprovara na véspera.
A regulamentação das prévias era uma exigência de Aécio.
Não admitia que a disputa que trava com José Serra pela vaga de presidenciável do partido fosse decidida em reuniões de cúpula.
Depois de atendido, Aécio rendeu homenagens ao óbvio.
Admitiu a hipótese de firmar com Serra um acordo. Hipótese que rejeitava, ao menos em público.
Disse que, a despeito da definição das regras, o jogo pode terminar num acerto.
"É uma possibilidade também, é óbvio. Ninguém sabe ainda qual será o quadro no final do ano. Pode ser que haja entendimento..."
"...Todos nós temos, acima de qualquer projeto pessoal, um objetivo maior que é vencer as eleições...”
“...Então, no momento em que nós chegarmos juntos a uma avaliação [...] de que essa ou aquela candidatura é mais viável, e havendo entendimento nessa direção, não haveria necessidade das prévias".
Foram frases de timbre mineiro. Deixam no ar a impressão de que Aécio contempla a hipótese, hoje improvável, de Serra abra mão da vaga em favor dele.
Devagarinho, o PSDB, grupo de amigos integralmente composo de inimigos, vai desarmando uma armadilha que envenenou suas campanhas pretéritas.
Agora só falta arranjar um discurso para levar ao palanque. Aécio e Serra revelam-se capazes de tudo, menos de fazer oposição a Lula.
No vácuo da ambiguidade, Dilma Rousseff, a candidata oficial, avança nas pesquisas.
Escrito por Josias de Souza às 20h31
Zhang Dali Shaun Curry/AFP

Um moralista, como se sabe, é um degenerado que ainda não ficou preso no elevador com a Maitê Proença.
Do mesmo modo, um petista é um tucano que ainda não recebeu um pedido do Lula para apoiar o Sarney.
Poucas horas antes de um jantar em que Lula apelará por Sarney, a bancada de senadores do PT vive um dilema.
Assediado pela crise moral do Senado, o petismo não sabe se vira a mesa ou senta-se a ela, ao lado de Sarney e tudo o que ele representa.
Na noite de terça (30), sete dos 12 senadores do PT posicionaram-se a favor de um pedido de licença de Sarney.
Na quarta (1), informado acerca da novidade, Sarney disse que preferia renunciar a licenciar-se.
Do estrangeiro, onde se encontrava, Lula entrou em parafuso.
Pôs-se a telefonar para Brasília. Mobilizou ministros e assessores. Era preciso chamar o PT às falas.
A firmeza do petismo subiu no telhado. Ou, por outra, escalou um muro que, noutros tempos, era território exclusivo do tucanato.
Numa das peças de Nelson Rodrigues, ambientada num Rio de Janeiro que ainda era a capital do país, um personagem grita, em meio a uma suruba:
"Se Vinicius de Moraes existe, tudo é permitido!"
A frase é, na verdade, uma atualização de comentário de outro personagem, de Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
Pois bem, Lula sugere ao PT que reflita sobre outra máxima: Se Sarney existe, tudo é permitido. Inclusive apoiar o inaceitável, em nome da governabilidade.
Em 1959, o Partido Social Democrata alemão rejeitou os conceitos de “luta de classes” e “economia planificada”.
Em 1991, o Partido Socialista francês renegou o marxismo.
Em 2002, numa carta ao povo brasileiro, Lula pisoteou o passado e aceitou as regras do mercado.
Em 2009, Lula pede ao PT que renegue os princípios da moralidade pública. Na prática, mera formalização de algo que já ocorreu.
O PT de hoje, evidentemente, não é o PT de ontem. No governo, viu-se compelido a mimetizar o PSDB de FHC, abraçando-se a parceiros como o PMDB.
Um PMDB que frequenta as franjas do poder ameaçando romper com o governo, pleiteando, pedindo, querendo... E obtendo.
O apoio do PT a Sarney, exigido por Lula, será mais um exemplo das metamorfoses que o poder costuma operar.
Para que a hipocrisia possa funcionar, salvando o Senado do caos, é preciso que o PT faça o seu papel. O papel de otário.
Otário consciente, assumido, que reconhece a conveniência de sucumbir às amoralidades alheias em nome da governabilidade.
Afinal, Se Sarney existe, tudo é permitido!
Escrito por Josias de Souza às 18h51
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