Lula está reunido nesse instante com a bancada de senadores do PT. Vai pedir que apóiem José Sarney.

 

No carro, a caminho do encontro, a senadora Maria Silva (PT-AC) falou ao blog. Ela é uma das vozes que pedem que Sarney se licencie da presidência do Senado.

 

Acha que, se aceitasse a sugestão, Sarney protagonizaria um “gesto de grandeza”. Não acha que haveria prejuízos à “governabilidade”.

 

E se Lula fizer um apelo? “Não existe apelo sem argumento. Vou ter que ouvir os argumentos do presidente Lula [...]. Vai ser um diálogo, não uma imposição”.

 

Vai abaixo a entrevista: 

 

 

 

- Por que acha que Sarney deve se licenciar?

É uma visão que construímos dentro da bancada. Para processar essa crise, uma das etapas é o afastamento do presidente Sarney.

- Acha que a licença resolve o problema?

É claro que o afastamento em si mesmo não resolve o problema. É uma parte do processo de resolução. Há também a proposta de constituição de uma comissão, todas as providências que devem ser tomadas do ponto de vista das investigações, punições quando houver comprovação e reforma do Senado. Chamo esse processo ‘instituinte’. É peciso responder a algumas perguntas: Qual é o Senado que a população brasileira se dispõe a bancar? Qual é o Senado que nós, senadores, juntamente com os servidores que honram a sua profissão, queremos construir? É preciso recompor o velho Senado, fazê-lo renascer das cinzas como uma Fênix.

- Quem é responsável pela crise?

A crise existe em co-responsabilidade. Sem querer diluir a responsabilidade dos que têm mais, é preciso dizer que a responsabilidade é compartilhada. Afinal de contas, há 81 senadores. A saída para a crise também é um processo que deve ser construído em co-autoria. Ninguém vai chegar a resposta definitiva isoladamente, só um partido, só um bloco... Não vai ser assim. Ou nos responsabilizamos todos ou não encontraremos a solução exigida pela soiedade e necessária à instituição.

- A presença de Sarney é um óbice às mudanças?

Se tratarmos assim, reduzindo tudo à presença de uma pessoa, a gente diminui o tamanho do problema. O que eu digo é que o afastamento dele faz parte do processo de encaminhamento da resolução dos problemas.

- Ele é parte do problema?

Justiça seja feita. As sugestões que vêm sendo dadas estão sendo adotadas pela Mesa [diretora do Senado]. Mas tem uma coisa que acontece na política e nos processos mais complexos: não basta ter a solução técnica dos problemas. Os processos são tão importantes que, às vezes, as pessoas não se sentem espelhadas neles, mesmo que conduzam a resultados bons

- Acha que a licença basta?

Até esse momento, nenhum partido ou senador sugeriu ao presidente Sarney que renunciasse. Todos têm dito que a melhor forma de encaminhar o problema seria um afastamento dele, até como um gesto de grandeza dele próprio. Diria: ‘Olha, já tomei todas as medidas, sabem que não estou criando obstáculos. Mas, como um gesto extremo desse meu distanciamento, para que as coisas sejam apuradas com toda a equidistância, estou me licenciando por um período’. Faz parte do processo.

- De que modo esse gesto ajudaria?

No meu entendimento, esse gesto levaria a novos atos em benefício da instituição Senado. A crise é muito grande. E o Senado, a democracia brasileira, a credibilidade das instituições, tudo isso é parte de um processo sempre em construção. São valores maiores do que cada um de nós individualmente. Maiores do que cada partido individualmente. Nesse momento, temos que ter um pouco de humildade. Todo mundo deve olhar de cima pra baixo, para ver o que está acima de nós: a democracia e as instituições públicas. Elas dependem de pessoas virtuosas, mas não só. Sem instituições virtuosas, não há como depurar os processos sociais. É obrigação de todos trabalhar pelos objetivos. Não é um esforço individual. Ninguém ganha no varejo. E todos perdem no atacado.

- A tese de que o afastamento de Sarney prejudicaria a governabilidade não a sensibiliza?

Não creio que o afastamento vá prejudicar a governabilidade. Até porque ninguém está dizendo que afastamento é para que tudo fique um caos, para que cada um faça uma política do deixa como está. É dentro de um processo de co-responsabilidade. Pode parecer ingênuo de minha parte, mas acredito que existem gestos de grandeza.

- Acha que a sociedade ainda conta com a grandeza do Senado?

Sei que a sociedade espera que alguma coisa seja feita. Não sei sei se ainda temos credibilidade para que as pessoas esperem grandeza de nossa parte. Mas talvez tenhamos que dar o primeiro passo. O Lacan fala que o sentido aparece só depois, mas a confiança tem que ser obtida antecipadamente. É preciso confiar na capacidade de homens e mulheres de bem, que não são perfeitos nem santos, mas que são capazes de dividir responsabilidades e autoria para a realização das grandes coisas. Não existe nada grande que seja feito por uma ou duas pessoas. É sempre um processo em co-autoria. Prefiro acreditar nisso. Tudo o que mudou significamtivamente foi assim.

- Diante de um apelo do presidente para que a bancada apóie Sarney, qual será sua posição?

Em primeiro lugar, não existe apelo sem argumento. Vou ter que ouvir os argumentos do presidente Lula. E não há argumento que não seja passível de uma contra-argumentação. Então, vai ser um diálogo, não uma imposição. O que vou sugerir é que a bancada se reúna novamente, para processar o que ouviremos do presidente e também o que diremos a ele. Só vou poder formar a minha opinião depois de ter todos os argumentos. Fizemos sugestões ao presidente Sarney, repetiremos ao presidente Lula. São coisas nas quais acredito profundamente. Acho que é a melhor forma de contribuir para resolver a crise. Não vai ter resposta mágica, é um processo. Não é uma cirse apenas política, mas também estrutural. A bancada vai ter de se reunir novamente.